Infohabitar, Ano IX, n.º 434
(2.ª parte do) Artigo XXIX da Série habitar e viver melhor
(dando continuidade ao artigo publicado na semana passada aqui no Infohabitar)
SÍTIOS DE PASSAGEM, LIMIAR, TRANSIÇÃO E VIVÊNCIA - II
António Baptista Coelho
Aproveitando um estudo realizado, há alguns anos, e sponível na Livraria do LNEC (1), apontam-se, em seguida, mais algumas considerações sobre os aspectos arquitectónicos que devemos considerar a este nível micro-urbano das vizinhanças associadas a quarteirões.
É muito importante interiorizar e fazer reflectir na intervenção que o carácter e o sentido especial/espacial que deve estar associado a cada vizinhança de proximidade resulta, em grande parte, da combinação entre exterior e edifícios.
Fig. 1
Sublinha-se que esta relação micro-urbana tem de aproveitar e expressar os aspectos mais específicos e determinantes do carácter do lugar com destaque para a topografia, a vegetação e os aspectos específicos do solo e da rocha locais, as suas preexistências construídas estruturantes e, naturalmente, as suas vistas paisagísticas e urbanas.
Nunca nos podemos esquecer que, para poder viver realmente, o exterior é também um “interior” mais público ou vicinal cujas “paredes” e “tectos” são definidos em grande parte pelas edificações que o marcam ou demarcam, e o êxito de uma dada solução é em boa parte determinado pelo grau de coerência atingido na integração entre exterior e edifícios.
Esta matéria da integração é extremamente sensível numa vizinhança de proximidade e muito especialmente numa vizinhança delimitada por um quarteirão, pois é, de certa forma, a esta escala, já muito pormenorizada, que grande parte da vida citadina deve acontecer, qualificando-se, assim, a cidade através de micro-vizinhanças estimulantes, porque cuidadas, diversificadas e feitas, assim, realmente à escala física e de usos do homem.
Estas palavras procuram ajudar a clarificar a importância que tem a existência da vizinhança de proximidade na luta, sem tréguas, que a cidade habitada e humanizada tem de travar contra a desvitalização e a descaracterização urbanas.
A inexistência destes espaços de vizinhança próxima, ou o seu negativo desenvolvimento, corresponde a um gravíssimo erro de projecto, pois, de tal forma, não existe um espaço de vizinhança intermédio, entre o espaço privado de cada fogo e o vasto espaço público, caracterizadamente anónimo e avesso a qualquer tipo de apropriação colectiva. E assim, podemos afirmar que a ausência de efectivas e afectivas vizinhanças próximas inviabiliza que, tal como defende Monique Eleb, “exteriores e interiores possam ser vividos numa estimulante unidade bipartida, em relações frequentes e naturais entre interiores comuns e domésticos e exteriores urbanos de proximidade, fazendo-os dialogar, e harmonizando-os em funcionamento e caracterização.”
Fig. 2
Outro dos aspectos arquitectonicamente caracterizadores de uma vizinhança de proximidade que seja boa para se habitar e boa para a cidade habitada, é a noção, que importa reforçar, que os percursos do habitar têm um dos seus principais pontos de partida e de chegada nas entradas dos edifícios e nos acessos a equipamentos conviviais potencialmente muito usados no dia-a-dia; pois tratamos, aqui, de pólos fundamentais na desejável integração entre edifícios e espaços exteriores contíguos, integração esta que tem de resolver em pormenor as questões de harmonização dos mais diversos tipos de acessibilidade, com natural destaque para a criança e o idoso a pé, mas sem se ostracizar, de forma “gratuita” ou não fundamentada, o veículo.
Há, assim, que proporcionae e evidenciar um máximo de funcionalidades, garantindo-se, sempre, um agradável carácter residencial e adequadas condições de visibilidade de segurança no espaço público, seja entre zonas deste espaço público, seja a partir da habitação e das lojas e outros equipamentos que devem “rodear”e “securizar”, naturalmente, o espaço público, através de uma teia densa e contínua de relações físicas, visuais e vocalizadas.
Muito nesta última perspectiva se liga, também, à ponderação e ao aproveitamento das relações exteriores/edifícios que resultam as melhores situações de integração de equipamentos realmente viáveis e vitalizadores, tanto interiores (ex., esquina comercial), como exteriores (ex., recinto de recreio no interior de um quarteirão), como interiores/exteriores (ex., esplanada de "café").
Afinal no sub-nível físico de relacionamento entre os espaços exteriores e os edifícios da respectiva vizinhança jogam-se muitos dos aspectos de algum pormenor que são fundamentais para o êxito do habitat humano no seu conjunto.
E sobre isto basta referir que a porta principal do edifício e os seus principais acessos exteriores são os sítios onde toda a gente tem de parar, mesmo que momentaneamente, para estacionar o veículo, para puxar da chave, ou para comunicar com a respectiva habitação; e talvez falte, frequentemente, retirar-se um adequado partido arquitectónico destas situações.
Fig. 3
Tal como apontei no referido estudo do LNEC, os pontos e os limiares de relacionamento entre os recintos exteriores de vizinhança e os edifícios contíguos são, portanto, naturais pólos de atenção, para os respectivos moradores, relativamente às características gerais, ambientais e funcionais, proporcionadas nos átrios e sequências de aproximação aos edifícios habitacionais, e, também, relativamente aos pequenos, e apenas aparentemente supérfluos, pormenores dos seus arranjos específicos e dos arranjos das suas envolventes.
Realmente, nas zonas de acesso aos edifícios a nossa atenção é suscitada pelos mais diversos pormenores tais como, por exemplo, uma funcional e intimista cobertura do átrio exterior, uma certa textura, cor ou desenho elaborado do pavimento, uma assinalada, digna e bem desenhada estrutura sinalética, um atraente elemento de instalação da "botoneira" do condomínio (integrando, por exemplo, elementos de identificação dos moradores e uma esquematização da organização do edifício), ou um interessante e evocativo tratamento toponímico do edifício ou da zona de condomínio.
Podemos ainda apontar, lembrando o incontornável Christopher Alexander, que os locais públicos serão mais usados se "ficarem no caminho", permitindo e fomentando, com naturalidade, permanências, que não sejam apenas funcionalmente justificadas e ligando-se, sempre, a objectivos claros e acessíveis (2); e numa mesma perspectiva, de criação de sequências urbanas e residenciais sustentadas, podemos referir que os acessos aos espaços residenciais serão mais agradavelmente usados se também “ficarem no caminho”, facilitando aquelas sequências e vitalizando-as.
Esta pequena mas densa teia de acessibilidades é que assegura a vida das vizinhanças e dos quarteirões que, frequentemente, as albergam. E é interessante comentar, ainda, que também nesta matéria fica provado que uma tal teia não pode ser rigidamente organizada em termos funcionais, tem de ter motivos de surpresa e situações que, por estarem fora da normal hierarquia das sequências urbanas, são geradoras de diversidade ambiental, identidade, curiosidade e animação urbana estratégica, numa fundamental aproximação à variedade citadina e com um interessante potencial em termos de soluções de micro-preenchimento urbano.
Notas:
(1) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, Lisboa, LNEC, ITA 2, 1998.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 445 a 447.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano IX, nº434
ARTIGO XXIX DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
SÍtios de passagem, limiar, transição e vivência - II
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
revista semanal – E-zine magazine – sobre o habitat humano ed. quarta feira ligada à GHabitar - Associação Portuguesa Promoção Qualidade Habitacional
Consulte catálogo interactivo de 960 artigos: Clicar para catálogo interativo da Infohabitar em JANEIRO de 2026
Grupo Habitar APPQH, actualmente GHabitar-APPQH-SITE EM REVISÃO
Mostrar mensagens com a etiqueta quarteirões urbanos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta quarteirões urbanos. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, abril 08, 2013
434 - SÍTIOS DE PASSAGEM, LIMIAR, TRANSIÇÃO E VIVÊNCIA - II - Infohabitar 434
Etiquetas:
antónio baptista coelho
,
limiares
,
micro-urbanismo
,
microurbanismo
,
passagens
,
quarteirões urbanos
,
temas de urbanismo
,
urbanismo habitacional
domingo, março 24, 2013
432 - RUAS E QUARTEIRÕES - Infohabitar 432
Infohabitar, Ano IX, n.º 432
Artigo XXVIII da Série habitar e viver melhor
Falar de ruas é falar de quarteirões, umas e outros são irmãos inseparáveis, e mesmo quando os segundos têm uma presença pouco expressiva, porque são dificilmente penetráveis, eles proporcionam exactamente essa perspectiva de “espaço outro”, de uma outra dimensão reservada a quem habita as ruas e pode olhar por detrás delas e, eventualmente, pode usar alguns remansos de sossego e de natureza que, por detrás delas, existam no miolo dos quarteirões.
Importa sublinhar que se fala aqui de quarteirões não no sentido mais corrente do mesmo, associado a agrupamentos edificados relativamente regulares em termos de configuração geral e tipológica, o que nos pode levar a uma expressiva flexibilidade de aceitação do que pode ser um "quarteirão", mas que a noção de quarteirão aqui comentada se aplica apenas em realidades citadinas e de vizinhança em que não se abdica de um sentido urbano coeso que marque determinadas porções de território não excessivamente extensas, bem identificáveis, caracterizando uma dada realidade vivencial específica (ou até quase única), positivamente marcada por determinados limites e franjas e contentora de determinadas realidades vivenciais específicas - que podem ser, por exemplo, uma dada zona de verde urbano, um recinto polidesportivo, um conjunto de quintais privados, uma praceta pedonal convivial, um estacionamento arborizado, etc., etc.
Fig. 1
Devemos, no entanto, referir que o que não pode estar em causa quando falamos de quarteirões ou de para-quarteirões urbanos é a sua dupla viabilidade, tanto ao serviço das vizinhanças habitadas, como da essencial continuidade da vida urbana e das suas imagens de suporte; e neste sentido há que sublinhar que existem casos de grandes quarteirões bem "clássicos"/regularmente configurados e ortogonais que se limitam a repetir, até à náusea, uma solução sem viabilidade, multiplicando-se "praças" sem vida e identidade, e portanto sem sentido; enquanto casos há de grandes quarteirões orgânicos e modernistas que vivem plenamente como afirmadas e agradáveis zonas de vizinhança e bem-estar local, enquanto acrescentam qualidade, diversidade e identidade ao bairro e à cidade.
Voltando a uma pequena discussão do "casamento para a vida" entre ruas e quarteirões, ou entre ruas e interiores/miolos de quarteirão, importa sublinhar o que parece ser umas das partes mais interessantes desta ideia: seguimos as ruas, em continuidade e mesmo em muito desejável continuidade, numa sequência ou conjuntos de sequências bem sincopadas, que nos ligam da vizinhança que habitamos mais intensamente aos pontos mais centrais do bairro/zona que é o nosso e mesmo da cidade que é a nossa, enquanto por tràs dessas continuidades existem, também desejavelmente, realidades vicinais específicas e diferenciadas, mais públicas, mais comuns das respetivas vizinhanças ou até mais privadas de condomínios - e a crítica à destruição da cidade por uma concentração de condomínios exclusivos fica para outra oportunidade, aceitando-se aqui que condomínios de "grão fino" que não perturbem excessivamente continuidades gerais poderão até ser aceitáveis.
E será, talvez, neste encadeado urbano sóbrio de imagens, porque pouco publicamente evidente, de uma certa ou mesmo forte diversidade de vizinhanças constituintes de interiores de quarteirão, que se pode basear boa parte da flexibilidade tipológica de uma habitar que vá, como deve ir, da habitação ao espaço da vizinhança e dos laços com a continuidade urbana e que se devem também estruturar as matérias da adequação das soluções vivenciais e das respetivas e essenciais questões de apropriação e de identidade.
Uma matéria importante na eficácia destas ideias é a questão da escala das intervenções e do seu detalhe adequado e oportuno, ao serviço da cidade, da vizinhança e, expressivamente, do homem habitante e citadino; e estas não são apenas palavras são assuntos essenciais, difíceis de manejar, mas vitais para o bem-estar e a urbanidade.
Fig. 2
Um ainda recente e excelente livro de trata destas matérias de uma forma prática, mas não “quadrada”, porque vai à prática de um grande leque de bairros e vizinhanças lisboetas e proporciona uma análise clara dos principais aspectos desta união siamesa entre vários tipos de ruas e quarteirões, e assim se apontam muitas possibilidades distintas, igualmente caracterizadas por um interessante potencial de satisfação residencial e urbana, que aliás poderemos experimentar, nos locais, nas suas particularidades e associadas a diferentes indicadores urbanísticos. O livro aqui referido e que vivemente se aconselha é o "Atlas Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa", coordenado por Manuel Salgado e José Sarmento de Matos, com textos de Nuno Portas, Ana Tostões e José Sarmento de Matos, uma edição Argumentum de 2006.
Numa muito útil aproximação às soluções de composição e constituição dos edifícios residenciais, numa perspectiva de manutenção e até evidenciação de atraentes e funcionais imagens urbanas de quarteirões, Peters Paulhans escreveu que :"Cada variação da construção linear e o retorno à construção marginal de quarteirões, significam trabalho urbanístico que deve ser, hoje em dia, realizado pelo arquitecto.
Desta temática fazem parte, também, as possíveis utilizações diferenciadas dos pisos térreos. Estas influenciam a imagem da rua e dependem, elas próprias, do tipo de rua: habitações nos pisos térreos apenas são aceitáveis em ruas tranquilas; lojas, apenas onde exista suficiente procura e animação urbana; e garagens apenas se não ocuparem toda a fachada". (1)
Alexander salienta que os quarteirões devem ser estruturados de modo a captar o Sol em espaços agradáveis e protegidos, sem grandes zonas de sombra entre esses espaços e os “seus” edifícios.; esta ideia leva a que os edifícios se disponham sempre a Norte dos principais espaços exteriores usados por peões. (2)
Talvez que falar aqui de quarteirões quando falámos um pouco de bairros, depois de sequências entre a cidade e a casa e, também de vizinhanças, isto numa perspectiva marcada pelo bem-estar do peão, possa significar uma estratégica aproximação ao edifício, mas sempre considerando-o como elemento desejavelmente integrado em conjugações maiores, efectivas e afectivas, capazes de garantir verdadeiras sequências coesas de espaços públicos, apagando-se, um pouco, o edifício, como elemento específico, numa tal agregação de elementos urbanos e residenciais.
Importa sublinhar que se acredita ser a realidade do quarteirão, com a flexibilidade de definição acima apontada, essencial seja para a (re)configuração de grandes vizinhanças/bairros e, sequencialmente, da própria cidade "nuclear", seja para uma urgente reinterpretação da própria tipologia do edificado residencial e urbano, num retorno ponderado e refuncionalizado a um habitar mais directamente ligado ao espaço público, ou, pelo menos, a habitares bem diversificados, bem distintos da actual ditadura tipológica de soluções quase únicas, e que possam incorporar seja um máximo de adequações a formas de habitar, seja um máximo de recriações de formas urbanas que sejam novamente estimulantes.
Fig. 3
Já tratámos e voltaremos a abordar esta matéria do "quarteirão", ou da pequena vizinhança, a propósito do fazer um habitar que integre e articule espaço doméstico e espaço citadino, sem problemas mútuos, mas com vantagens mútuas, mas talvez o “mistério” de bons quarteirões residenciais e urbanos, bons para quem os habita e bons para a cidade que por eles é composta é toda a diversidade que neles é possível, toda a riqueza que pode caracterizar os seus conteúdos.
E bem a propósito Monique Eleb e Anne Marie Chatelet sublinham que “o que mais fascina no quarteirão são as organizações complexas que ele originou, os segredos no seu coração: esse prodigioso concatenar de actividades e de construções estabelecidas longe das vistas, ao abrigo dos panos de fachadas dos edifícios da rua” e concluem apontando que “aí parece bater o pulso da cidade e encontrar-se a sua matéria específica” . (3)
Mas as referidas autoras acreditam que neste miolo urbano de vizinhança não será provavelmente muito adequado tentar dinamizar a convivialidade pois “mais do que tentar criar uma sociabilidade em cada quarteirão é preciso ligá-los ao quarteirão alargado, à cidade”. (4)
As autoras referem-se, directamente, a uma realidade francesa de habitação de interesse social que não será a nossa, no entanto entende-se e acolhe-se a ideia, considerando-se o modo de viver actual, embora, quem sabe, haja ainda alguma esperança para um convívio de proximidade; uma coisa é certa, sem condições ele nunca poderá acontecer e, de qualquer forma, a ideia não era qualquer sentido de “convívio obrigatório”, e sabemos bem o que acontece, frequentemente, quando o cenário “obriga” a esse tipo de relações, mas talvez que todos aqueles mistérios que tanto nos fascinam e nos surpreendem nos quarteirões sejam matéria de base sobre a qual se possa vir a edificar um pouco mais do que as simples e formais relações de boa vizinhança, e mesmo estas, se forem física e ambientalmente estimuladas, já corresponderão a um patamar positivo de uma vizinhança amigável e agradável.
Notas:
(1) Peters Paulhans, "Edificios Plurifamiliares", p. 7.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 464.
(3) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p.282.
(4) Id. ibid., p. 88.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano IX, nº432
ARTIGO XXVII DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
RUAS E QUARTEIRÕES
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Artigo XXVIII da Série habitar e viver melhor
Falar de ruas é falar de quarteirões, umas e outros são irmãos inseparáveis, e mesmo quando os segundos têm uma presença pouco expressiva, porque são dificilmente penetráveis, eles proporcionam exactamente essa perspectiva de “espaço outro”, de uma outra dimensão reservada a quem habita as ruas e pode olhar por detrás delas e, eventualmente, pode usar alguns remansos de sossego e de natureza que, por detrás delas, existam no miolo dos quarteirões.
Importa sublinhar que se fala aqui de quarteirões não no sentido mais corrente do mesmo, associado a agrupamentos edificados relativamente regulares em termos de configuração geral e tipológica, o que nos pode levar a uma expressiva flexibilidade de aceitação do que pode ser um "quarteirão", mas que a noção de quarteirão aqui comentada se aplica apenas em realidades citadinas e de vizinhança em que não se abdica de um sentido urbano coeso que marque determinadas porções de território não excessivamente extensas, bem identificáveis, caracterizando uma dada realidade vivencial específica (ou até quase única), positivamente marcada por determinados limites e franjas e contentora de determinadas realidades vivenciais específicas - que podem ser, por exemplo, uma dada zona de verde urbano, um recinto polidesportivo, um conjunto de quintais privados, uma praceta pedonal convivial, um estacionamento arborizado, etc., etc.
Devemos, no entanto, referir que o que não pode estar em causa quando falamos de quarteirões ou de para-quarteirões urbanos é a sua dupla viabilidade, tanto ao serviço das vizinhanças habitadas, como da essencial continuidade da vida urbana e das suas imagens de suporte; e neste sentido há que sublinhar que existem casos de grandes quarteirões bem "clássicos"/regularmente configurados e ortogonais que se limitam a repetir, até à náusea, uma solução sem viabilidade, multiplicando-se "praças" sem vida e identidade, e portanto sem sentido; enquanto casos há de grandes quarteirões orgânicos e modernistas que vivem plenamente como afirmadas e agradáveis zonas de vizinhança e bem-estar local, enquanto acrescentam qualidade, diversidade e identidade ao bairro e à cidade.
Voltando a uma pequena discussão do "casamento para a vida" entre ruas e quarteirões, ou entre ruas e interiores/miolos de quarteirão, importa sublinhar o que parece ser umas das partes mais interessantes desta ideia: seguimos as ruas, em continuidade e mesmo em muito desejável continuidade, numa sequência ou conjuntos de sequências bem sincopadas, que nos ligam da vizinhança que habitamos mais intensamente aos pontos mais centrais do bairro/zona que é o nosso e mesmo da cidade que é a nossa, enquanto por tràs dessas continuidades existem, também desejavelmente, realidades vicinais específicas e diferenciadas, mais públicas, mais comuns das respetivas vizinhanças ou até mais privadas de condomínios - e a crítica à destruição da cidade por uma concentração de condomínios exclusivos fica para outra oportunidade, aceitando-se aqui que condomínios de "grão fino" que não perturbem excessivamente continuidades gerais poderão até ser aceitáveis.
E será, talvez, neste encadeado urbano sóbrio de imagens, porque pouco publicamente evidente, de uma certa ou mesmo forte diversidade de vizinhanças constituintes de interiores de quarteirão, que se pode basear boa parte da flexibilidade tipológica de uma habitar que vá, como deve ir, da habitação ao espaço da vizinhança e dos laços com a continuidade urbana e que se devem também estruturar as matérias da adequação das soluções vivenciais e das respetivas e essenciais questões de apropriação e de identidade.
Uma matéria importante na eficácia destas ideias é a questão da escala das intervenções e do seu detalhe adequado e oportuno, ao serviço da cidade, da vizinhança e, expressivamente, do homem habitante e citadino; e estas não são apenas palavras são assuntos essenciais, difíceis de manejar, mas vitais para o bem-estar e a urbanidade.
Um ainda recente e excelente livro de trata destas matérias de uma forma prática, mas não “quadrada”, porque vai à prática de um grande leque de bairros e vizinhanças lisboetas e proporciona uma análise clara dos principais aspectos desta união siamesa entre vários tipos de ruas e quarteirões, e assim se apontam muitas possibilidades distintas, igualmente caracterizadas por um interessante potencial de satisfação residencial e urbana, que aliás poderemos experimentar, nos locais, nas suas particularidades e associadas a diferentes indicadores urbanísticos. O livro aqui referido e que vivemente se aconselha é o "Atlas Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa", coordenado por Manuel Salgado e José Sarmento de Matos, com textos de Nuno Portas, Ana Tostões e José Sarmento de Matos, uma edição Argumentum de 2006.
Numa muito útil aproximação às soluções de composição e constituição dos edifícios residenciais, numa perspectiva de manutenção e até evidenciação de atraentes e funcionais imagens urbanas de quarteirões, Peters Paulhans escreveu que :"Cada variação da construção linear e o retorno à construção marginal de quarteirões, significam trabalho urbanístico que deve ser, hoje em dia, realizado pelo arquitecto.
Desta temática fazem parte, também, as possíveis utilizações diferenciadas dos pisos térreos. Estas influenciam a imagem da rua e dependem, elas próprias, do tipo de rua: habitações nos pisos térreos apenas são aceitáveis em ruas tranquilas; lojas, apenas onde exista suficiente procura e animação urbana; e garagens apenas se não ocuparem toda a fachada". (1)
Alexander salienta que os quarteirões devem ser estruturados de modo a captar o Sol em espaços agradáveis e protegidos, sem grandes zonas de sombra entre esses espaços e os “seus” edifícios.; esta ideia leva a que os edifícios se disponham sempre a Norte dos principais espaços exteriores usados por peões. (2)
Talvez que falar aqui de quarteirões quando falámos um pouco de bairros, depois de sequências entre a cidade e a casa e, também de vizinhanças, isto numa perspectiva marcada pelo bem-estar do peão, possa significar uma estratégica aproximação ao edifício, mas sempre considerando-o como elemento desejavelmente integrado em conjugações maiores, efectivas e afectivas, capazes de garantir verdadeiras sequências coesas de espaços públicos, apagando-se, um pouco, o edifício, como elemento específico, numa tal agregação de elementos urbanos e residenciais.
Importa sublinhar que se acredita ser a realidade do quarteirão, com a flexibilidade de definição acima apontada, essencial seja para a (re)configuração de grandes vizinhanças/bairros e, sequencialmente, da própria cidade "nuclear", seja para uma urgente reinterpretação da própria tipologia do edificado residencial e urbano, num retorno ponderado e refuncionalizado a um habitar mais directamente ligado ao espaço público, ou, pelo menos, a habitares bem diversificados, bem distintos da actual ditadura tipológica de soluções quase únicas, e que possam incorporar seja um máximo de adequações a formas de habitar, seja um máximo de recriações de formas urbanas que sejam novamente estimulantes.
Fig. 3
Já tratámos e voltaremos a abordar esta matéria do "quarteirão", ou da pequena vizinhança, a propósito do fazer um habitar que integre e articule espaço doméstico e espaço citadino, sem problemas mútuos, mas com vantagens mútuas, mas talvez o “mistério” de bons quarteirões residenciais e urbanos, bons para quem os habita e bons para a cidade que por eles é composta é toda a diversidade que neles é possível, toda a riqueza que pode caracterizar os seus conteúdos.
E bem a propósito Monique Eleb e Anne Marie Chatelet sublinham que “o que mais fascina no quarteirão são as organizações complexas que ele originou, os segredos no seu coração: esse prodigioso concatenar de actividades e de construções estabelecidas longe das vistas, ao abrigo dos panos de fachadas dos edifícios da rua” e concluem apontando que “aí parece bater o pulso da cidade e encontrar-se a sua matéria específica” . (3)
Mas as referidas autoras acreditam que neste miolo urbano de vizinhança não será provavelmente muito adequado tentar dinamizar a convivialidade pois “mais do que tentar criar uma sociabilidade em cada quarteirão é preciso ligá-los ao quarteirão alargado, à cidade”. (4)
As autoras referem-se, directamente, a uma realidade francesa de habitação de interesse social que não será a nossa, no entanto entende-se e acolhe-se a ideia, considerando-se o modo de viver actual, embora, quem sabe, haja ainda alguma esperança para um convívio de proximidade; uma coisa é certa, sem condições ele nunca poderá acontecer e, de qualquer forma, a ideia não era qualquer sentido de “convívio obrigatório”, e sabemos bem o que acontece, frequentemente, quando o cenário “obriga” a esse tipo de relações, mas talvez que todos aqueles mistérios que tanto nos fascinam e nos surpreendem nos quarteirões sejam matéria de base sobre a qual se possa vir a edificar um pouco mais do que as simples e formais relações de boa vizinhança, e mesmo estas, se forem física e ambientalmente estimuladas, já corresponderão a um patamar positivo de uma vizinhança amigável e agradável.
Notas:
(1) Peters Paulhans, "Edificios Plurifamiliares", p. 7.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 464.
(3) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p.282.
(4) Id. ibid., p. 88.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano IX, nº432
ARTIGO XXVII DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
RUAS E QUARTEIRÕES
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Etiquetas:
antónio baptista coelho
,
continuidade urbana
,
identidade urbana
,
imagem urbana
,
quarteirões
,
quarteirões urbanos
,
ruas
,
ruas e quarteirões
,
sequências urbanas
domingo, junho 26, 2011
352 - QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I - Infohabitar 352
Infohabitar, Ano VII, n.º 352
QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I:
Sobre diferentes formas de ocupação do
interior de quarteirões urbanos
António Baptista Coelho
Introdução
Um dos aspectos funcionais e de imagem/conteúdo urbano que mais intensa e criticamente marca o desenvolvimento de soluções de intervenção nova e de reabilitação em partes de cidades refere-se ao tipo de soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões, com vantagens “triplas”: para os seus respectivos habitantes e utentes mais directos; para o público em geral, considerando-se o respectivo uso público; e para a cidade ou parte de cidade/povoação que integra esses quarteirões – neste caso uma vantagem no sentido de se poder contar com um novo espaço urbano com as suas valias e imagens específicas, que assim possam cooperar e participar na diversificação e no enriquecimento dos conteúdos funcionais e imagéticos desses espaços urbanos.
Há que referir aqui e desde já que pretendemos voltar a esta temática, seja numa perspectiva mais directamente ligada à prática e eventualmente a exemplos específico comentados, seja numa outra perspectiva mais teórica e especialmente dedicada a aspectos, considerados pertinentes, ligados, designadamente, a aspectos de segurança urbana, dinamização e controlo da apropriação pelos moradores e equilíbrio das matérias associadas ao convívio e privacidade nas respectivas vizinhanças. Esta abordagem é, assim, uma primeira reflexão geral, escrita e ilustrada sobre uma temática que se pretende desenvolver aqui no Infohabitar.
Fig. 01: interior de pequeno quarteirão com projecto coordenado por Charles Moore em Malmö (2001)
Velhos problemas, velhas e novas potencialidades
Não seria aceitável avançar, desde logo, numa proposta de caminhos de solução no que se refere ao preenchimento urbano e habitacional do interior de quarteirões, sem se sublinhar que é conhecida, no meio da promoção habitacional, a sistemática associação que se faz entre ambientes urbanos tendencialmente negativos, em termos de usos favorecidos e imagens produzidas, e o desenvolvimento de interiores de quarteirão muito encerrados e pouco ligados à cidade envolvente.
Mas também é igualmente conhecida a frequente associação entre espaços urbanos escassamente definidos e envolvidos por edifícios e idênticas situações negativas em termos de actividades e de aspecto; trata-se aqui da tristemente famosa “mancha de óleo” de espaços exteriores sem carácter, pouco ligados a usos efectivos e frequentemente malbaratada pelo veículo motorizado.
E naturalmente que não estamos aqui a defender uma causa-efeito simples entre determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais e determinados tipos de comportamentos; apenas acreditamos que determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar positivos, enquanto outros tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar negativos, que, por vezes, afectam a nossa segurança física, que, muitas vezes, afectam a nossa percepção de segurança física e que, quase sempre, reduzem, activamente, o sentimento de bem-estar que deveríamos ter ao usar esses espaços públicos, levando-nos a uma retirada estratégica nas nossas habitações, num crescendo de um círculo vicioso de cada vez menos uso do exterior e cada vez pior uso do mesmo exterior.
E não tenhamos quaisquer dúvidas de que se tudo isto é verdade ao longo de ruas e pracetas, quando estas existem, então tudo isto acontece de forma ainda mais perceptível no interior dos quarteirões ou dos espaços urbanos secundários e de “traseiras” que sempre existirão na cidade, pois são sempre espaços potencialmente mais protegidos da mais intensa vista pública e sempre muito próximos da percepção de quem habita cada vizinhança.
Há, no entanto, também que referir que, evidentemente, nem só de problemas está marcada a pequena história – a fazer – do aproveitamento para a cidade e para as vizinhanças dos quarteirões urbanos; pois os quarteirões, os seus interiores, as suas zonas de relação com a continuidade urbana e os seus pontos de ligação ao interior dos edifícios, constituem das mais ricas matérias de concepção da arquitectura urbana pormenorizada, sendo possível identificar ao logo da história extraordinários exemplos de grande êxito funcional/formal em soluções de quarteirões tão protagonistas para um adequado e muito humano habitar das vizinhanças, como para uma cumulativa montagem de uma continuidade urbana vitalizada e diversificada; e complementarmente encontramos também nestas boas soluções importantes aspectos de harmonização entre natureza e cidade, entre privado e público e entre escalas muito humanizadas e apropriadas/apropriáveis e outras atraentemente “de cidade” e representativas.
Fig. 02: um outro pequeno quarteirão integrado na BO01 em Malmö (2001)
Objectivos gerais a aplicar no interior dos quarteirões urbanos
Globalmente, o que se julga ser importante estimular nas soluções de pormenor a criar e aplicar no interior de quarteirões urbanos e habitacionais é o uso intenso, específico e estrategicamente diversificado pelos habitantes dos diversos quarteirões dos respectivos espaços de miolo de quarteirão, harmonizando esse uso:
(a) essencialmente privativo e/ou comum, ligado às habitações contíguas (por exemplo, através de uma significativa parcela de terreno destinada a quintais e pátios privativos dos fogos menos elevados e de eventuais espaços comuns para estacionamento privativo dos respectivos residentes);
(b) com o papel urbano dos mesmos quarteirões, nas suas diversas relações com os espaços urbanos contíguos e próximos, na sua função potencial como espaço exterior:
(b1) directamente associado a equipamentos colectivos térreos e por eles directamente geridos;
(b2) indirectamente associado a um uso público, mediado por associações específicas (dos moradores/cooperativistas) que garantam a utilização adequada e a manutenção/gestão dos respectivos espaços (ex., campo desportivo, parque infanfil e mesmo um jardim "formal", devidamente equipados e regrados nas sua utilização);
(b3) e, sempre que possível, caracterizado por uma elevada permeabilidade pluvial e por uma significativa componente de verde urbano, em soluções que têm de ser devidamente adequadas a cada solução/situação específica – no limite aceitar-se-á, até, a “quase-ausência” de verde urbano, desde que justificada por aspectos de contraste e de vizinhança particularizados.
A ideia geral e “primeira” é, assim, não favorecer, em cada quarteirão, a definição de um amplo espaço de condomínio privativo dos respectivos moradores, de certa forma indiferenciado, eventualmente ajardinado e equipado, mas com um sentido de uso exclusivo de um dado grupo muito marcado e em forte oposição aos espaços públicos contíguos.
A ideia geral e “primeira” é a proposta de um uso diferenciado e intenso desse interior de quarteirão, ocupando todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica, considerando-se e valorizando-se a situação e a configuração únicas dos respectivos espaços, mas procurando-se desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora sempre submetida a uma certa vigilância natural por parte da respectiva vizinhança, realizada seja a partir das habitações, seja a partir dos equipamentos térreos e exteriores.
Fig.03: interior de quarteirão numa periferia de Madrid
O acesso ao interior dos quarteirões: situações-tipo a favorecer
Antes de se iniciar uma apresentação sintética do que se designa como situações-tipo a favorecer no acesso ao interior dos quarteirões, salienta-se que não se optou assim, numa primeira linha, pelo favorecimento de utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo e especificamente a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública, porque se considera que esta opção, que será sinteticamente abordada num dos últimos itens deste texto, tem uma viabilidade muito condicionada a condições muito específicas de promoção e de gestão desta solução, sendo difícil de aplicar em situações mais correntes, em que dificilmente seja garantida a eficácia da gestão diária posterior, e sendo muito problemática de aplicar sempre que o sítio de implantação esteja associado a problemas sociais e à recente concentração de habitação de interesse social.
Pretende-se, assim, desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora de forma bem acompanhada, enquadrada e circunscrita a determinados espaços bem definidos.
Fig. 04: interior de quarteirão em Telheiras, Lisboa, coord. Arq.ºs Rodrigo Rau e Eugénia Cruz
Visa-se, deste modo, favorecer um uso diferenciado e intenso do interior de cada quarteirão urbano e habitacional, ocupando-se e dinamizando-se todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica; situação global relativa a cada quarteirão específico (configuração, dimensionamento, contiguidades, proximidades, etc.) e “micro-situação” urbana de cada parte do interior de cada quarteirão (tipo de espaço, extensão, contiguidades, usos, etc.), produzindo-se uma situação final em que o acesso ao interior do quarteirão se fará, quase exclusivamente, nas seguintes situações-tipo:
(i) Ter acesso a "veredas" comuns que dão acesso a bandas de pequenos quintais e pátios privativos e contíguos a habitações térreas ou pouco elevadas (e este acesso poderá ser condicionado e negociado em pontos de acesso públicos devidamente equipados, como se se tratasse do acesso a espaços comuns de circulação "em edifícios"), sendo que estes quintais/pátios privativos devem ser devidamente regulamentados no seu uso, serem em parte ou totalmente permeáveis, terem uma forte componente de elementos de vegetação e proporcionarem uma estratégica permeabilidade visual de modo a que o seu verde contribua activamente para o verde urbano do interior do quarteirão.
(ii) Ligar, eventualmente, a solução-tipo que acabou de ser referida a uma solução de arquitectura que aposte, nos pisos superiores, num escalonamento de pequenos terraços, varandas e sacadas integrando elementos verdes e eventualmente permitindo ainda acesso do 1.º andar a alguns pequenos jardins privativos.
(iii) Aceder a bolsas de estacionamento comuns ou mesmo privativas (ex., lugares marcados), devidamente naturalizadas por pavimentos permeáveis e estrategicamente arborizadas, numa situação que também aceita bem a marcação por elementos de contrlo de acesso, visualmente bem integrados.
(iv) Ter acesso a amplos espaços comuns ajardinados e de recreio que pertencem exclusivamente a determinados equipamentos de apoio à infância e/ou aos idosos, mas cujo aspecto e elementos de verde urbano influenciam positiva e directamente a imagem global do miolo do quarteirão.
(v) Ter acesso condicionado a espaços de desporto e de recreio infantil bem equipados (piso, rede, iluminação artificial, bancos para assistir, etc.) e enquadrados por vegetação, geridos por associações específicas (ex., através do respectivo pelouro cultural das cooperativas).
(vi) Aceder à esplanada de café/restaurante, gerida e controlada por esse mesmo equipamento e possuindo vistas estratégicas sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior.
(vii) Ter acesso a pequenas continuidades estratégicas de equipamentos comerciais essencialmente viradas para o exterior público, mas com pontos de vista estratégicos sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior; considerando, no entanto, que este(s) pólo(s) de equipamento devem ser localizados concentrada e estrategicamente, caso contrário não terão viabilidade.
(viii) Considerar a marcação de pontos de acesso às referidas veredas pedonais no interior do quarteirão (acesso a quintais e equipamentos exteriores), bem como às bolsas privativas de estacionamento devidamente concentrados, bem delimitados, bem visíveis e contíguos a entradas comuns de edifícios e a equipamentos muito usados, de modo a fomentar e facilitar a sua vigilância natural, ponderando-se, ainda, a instalação nesses "pontos" de cancelas visualmente agradáveis e preferencialmente sem fechaduras - a ideia seria condicionar/marcar a entrada com diferenças de nível e marcações estratégicas, mas também, eventualmente, com cancelas que estejam sistematicamente fechadas/encostadas, mas não fechadas com fechaduras, sendo também estes pontos estratégicos para a clara e bem visível indicação de regras/instruções de uso dos respectivos espaços.
(ix) Considerando-se a situação e a espaciosidade específica de cada quarteirão eles poderão incluir ainda outro tipo de instalações que facilitam a gestão do seu interior, tais como espaços específicos para instalação de condomínios/associação de moradores em espaços com diversas valências e onde se procure vitalizar o uso desses espaços e dos espaços contíguos, mas sempre numa lógica de adequada definição de responsabilidades de uso/manutenção e de gestão.
Fig. 05: interior da cooperativa Irmanadora, Costa da Caparica,coord. Arq.º Justino Morais
Considerar, especificamente, determinados aspectos de segurança urbana e de gestão
Importa ainda considerar que na identificação das melhores soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões é fundamental ter em conta certos aspectos específicos de segurança urbana e de gestão local, designadamente:
As acessibilidades em termos de intervenção por parte de forças de segurança, que são favorecidas, seja pela existência de vários acessos bem definidos, que proporcionem acessos em diferentes "pontos", não obrigando a um acesso único e facilmente vigiado, mas também não proporcionando uma infinidade de percursos de acesso e eventual fuga; portanto favorecendo uma estratégica definição de acessos , assim como a continuidade de vistas sobre o interior do quarteirão a partir das habitações e equipamentos contíguos.
A acessibilidade em termos de segurança contra risco de incêndio e de acessibilidade de emergência no interior do quarteirão - podendo ser necessário prever mecanismos que permitam acessos ocasionais dessse tipo em zonas/veredas pedonais.
A adequada iluminação artificial na envolvente e no miolo do quarteirão, tendo em conta características anti-vandalismo.
Uma cuidadosa concepção que favoreça condições de visibilidade maximizadas no interior do quarteirão, entre os seus diversos espaços e a partir das habitações, dos quintais privativos e dos equipamentos envolventes; sendo que tais condições deverão ser, ainda, maximizadas nos "pontos" de acesso ao interior do quarteirão.
Um processo de gestão do quarteirão que englobe a manutenção e o acompanhamento corrente e em continuidade não só dos edifícios como do respectivo interior do quarteirão, sugerindo-se que a respectiva gestão e custos associados sejam da responsabilidade dos respectivos condóminos dos diversos edifícios que constituem o quarteirão.
A questão de se poder incluir vídeo-vigilância em pontos estratégicos e designadamente nos pontos de acesso ao interior do quarteirão, com a devida divulgação pública, é matéria que apenas se aponta no sentido de poder vir a ser equacionada em termos de viabilidade e adequação.
Notas complementares sobre as potencialidades da solução de Arquitectura
Acrescenta-se, ainda, que no desenvolvimento das mais adequadas soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões a solução de Arquitectura, poderá, eventualmente e de forma harmonizada com cada situação, investir nos seguintes aspectos (muito sintetizados):
Optar por uma solução caracterizada pela sobreposição de habitações com um sentido de unifamiliares em banda, evidenciando-se, no interior do quarteirão uma imagem de uma pequena praceta de "moradias" que poderiam ter até o acesso principal e até eventualmente espaços de estacionamento privativo no interior do quarteirão; sendo que sobre esta "camada" habitacional surgiria uma outra camada eventualmente com acesso por galerias a partir de espaços verticais de acesso que também facultariam acesso comum ao interior de quarteirão.
Optar, no interior do quarteirão, por uma pequena cascata habitacional sequencial (subindo): (i) de pequenos quintais privativos e permeáveis, (ii) pequenos terraços/varandas fundas (eventualmente em alguns casos com acessos privativos a pequenos pátios térreos); (iii) e sacadas com floreiras.
Optar por alguns "jogos" de níveis no interior do quarteirão, proporcionando uma harmonizada integração de estacionamentos cobertos, comuns e/ou privativos e de estacionamentos pivativos, exteriores, arborizados e multifuncionais.
Na aplicação de pátios/jardins privativos, proporcionar desde logo pequenos espaços de arrumação tipificados e bem integrados, para apoio à jardinagem, permanência no exterior e arrumação de bicicletas, e privilegiar vedações "verdes" e já pré-desenvolvidas, designadamente numa boa relação com muros e muretes e boa visibilidade relativamente às veredas pedonais de acesso.
Naturalmente, há que sublinhar que o "partido" arquitectónico e o tipo de solução escolhida no interior do quarteirão deve ter o seu reflexo no respectivo exterior envolvente do próprio quarteirão, ou, alternativamente, pode haver um equilibrado jogo de contrastes e de surpresa, mas que nunca esqueça a finalidade básica habitacional do quarteirão, num sentido que provavelmente favorecerá, sempre, uma opção por alguma sobriedade e por uma ssumida integração na envolvente urbana e paisagística.
E há que registar que, naturalmente, a opção por se fazer um espaço urbano em "quarteirão" não é, naturalmente, única nem "obrigatória", mesmo em meios urbanos com afirmada e agradável continuidade, podendo haver outro tipo de opções que, designadamente, favoreçam a maior abertura do conjunto habitacional à sua envolvente, ou que tendam a transformar o respectivo interior de quarteirão num espaço urbano com características de praceta urbana convivial, e portanto estrategicamente mais permeável aos percursos urbanos envolventes. Mas estamos aqui a abordar especificamente a opção pelo quarteirão e as formas de desenvolver o respectivo conteúdo urbanístico e residencial.
Fig. 06: interior de quarteirão em Telheiras, coord. Arq.º Duarte Nuno Simões
Situações específicas a considerar
Pela sua especificidade e importância na programação e na concepção de pormenor dos interiores de quarteirão urbanos e habitacionais referem-se, em seguida, alguns aspectos associados ao dimensionamento de habitações de interesse social e à responsabilidade na gestão dos equipamentos previstos:
Salienta-se que, em todas estas matérias e designadamente no desenvolvimento de soluções térreas e/ou com acesso térreo individualizado e directo ao espaço de uso público, assim como na criação de varandas/terraços, há que ter em conta as limitações de Área Bruta (Ab) referidas nas Recomendações Técnicas para Habitação Social, nas quais qualquer área pavimentada e mesmo a área de implantação de muros contam para a Ab e acabam, assim, por ter de ser, de certa forma “descontadas” à área interior do fogo, uma situação que poderá ter de contar com a compreensão técnica das entidades responsáveis pela apreciação destas soluções para uma situação especial como esta – na qual este tipo de solução poderá ser um elemento fundamental de boa apropriação e integração social do conjunto; e naturalmente a própria solução arquitectónica deve basear-se, ao máximo, na ausência de pavimentos e grandes muros nos quintais/pátios térreos, ou então apenas muros pouco espessos entre áreas privativas e exteriores térreas, complementados por vedações verdes/naturais e/ou de outro tipo, por exemplo no contacto com áreas comuns – mas devendo garantir-se condições de segurança contra intrusão maximizadas nos espaços exteriores privativos (ou de uso privativo) e nos próprios fogos térreos, sendo tais condições bem previstas logo no projecto.
Quanto a eventuais estacionamentos comuns privativos no exterior terá de ser bem considerada a situação em termos do seu suporte legal e tendo em conta que esta situação não deve encarecer a intervenção, designadamente, no seu desenvolvimento pelas cooperativas. Quanto a espaços de jogos/desporto e recreio infantil vedados e com acesso condicionado e gerido pelas cooperativas julga-se ser esta uma situação muito adequada e que também não deverá encarecer o desenvolvimento da operação pelas cooperativas (para além do seu desenvolvimento específico), considerando-se que será perfeitamente possível que o uso das instalações seja aberto ao público em geral embora de acordo com o cumprimento de regras de uso/manutenção bem definidas e centradas nos pelouros culturais das respectivas cooperativas.
Outras soluções de preenchimento de quarteirões
Tal como se apontou atrás, em condições urbanas, vicinais e sociais específicas e positivas é possível optar por interiores de quarteirão com utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo, e especificamente, a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública. Sobre esta matéria há que referir, desde início, que a ocupação provavelmente mais adequada nestes casos será por um jardim urbano agradável e intensamente utilizável numa perspectiva quase de expansão natural do habitar sobre o exterior contíguo, mas que reforce a presença da natureza e dos seus elementos distintivos, mediante um sensível e qualificado projecto de paisagismo que introduza, designadamente, uma ampla variedade de espécies vegetais, a dinamização do povoamento por pássaros e um tema “central” de composição bem integrado ao tema arquitectónico fundamental desse quarteirão.
Será, assim, possível ganhar mais um jardim para a cidade, sem custos suplementares para esta cidade e enquanto se desenvolve um jardim de proximidade e que serve essa mesma vizinhança/proximidade; mas reforça-se a ideia de que este objectivo óptimo só será possível em condições especiais físicas, sociais e de gestão, caso contrário nem o jardim se conseguirá estabilizar, nem o ambiente será favorável para a própria vizinhança e para a cidade.
Fig. 07: pequeno quarteirão, no Monte Espinho, coord. Arq.ª Paula Petiz.
Aspectos de gestão
Chegados aqui há que salientar a importância da gestão no desenvolvimento de interiores de quarteirão urbanos e habitacionais, que sejam funcionais e agradáveis, sublinhando-se ser a garantia de uma gestão local e de continuidade eficaz condição necessária e fundamental para a viabilidade desses espaços e das suas respectivas vizinhanças e para a sua essencial boa influência na cidade envolvente.
Não valerá a pena prever equipamentos comuns e espaços térreos privatizados sem se prever e embeber na promoção um sistema de gestão e de controlo dos usos que tenha um máximo de viabilidade. Situação que se tentou facilitar e apontar, nas páginas anteriores, através do favorecimento de soluções que definam, delimitem e responsabilizem os usos de cada espaço em presença no interior do quarteirão, anulando-se espaços sem usos, bem como espaços residuais e associando-se, estrategicamente, acessos a edifícios e a equipamentos em "pontos" estratégicos e menos visíveis, evitando-se, assim, que estes locais se tornem sítios de usos negativos, e pelo contrário transformando-os em pequenos pólos vitalizadores e securizadores de zonas exteriores contíguos, ainda, eventualmente, mais recônditas e menos visíveis a partir das habitações e dos equipamentos e principais acessos exteriores.
Mas para além de todas estas medidas há que pôr de pé uma entidade local responsável pela gestão do conjunto destes espaços, ou, pelo menos, pelas suas principais zonas de equipamento, e há que garantir a articulação desta entidade com os condomínios que integram o quarteirão e com os processos usados para apelar a intervenções de emergência, designadamente, da polícia e dos bombeiros, sendo também de grande importância a eventual integração do interior do quarteirão num processo de “policiamento de proximidade” - modalidade que está a ser favorecida pela PSP - e, naturalmente, que a própria polícia e os bombeiros sejam convidados a pronunciar-se sobre a solução urbana de pormenor a tempo de se poderem integrar as suas eventuais sugestões.
Breves reflexões finais
Como breves reflexões finais salienta-se o interesse humano e urbano de se aprofundar a criação de uma cidade de quarteirões, que possa ser uma cidade cujas vizinhanças caracterizadas e agradáveis contribuam para um adequado efeito de conjunto e para estimulantes sequências citadinas em que se possa, assim, experimentar uma série de pequenos mundos residenciais.
Volta a referir-se que há outras soluções para se fazer cidade, mas considera-se que aquela que recorre a quarteirões tenta proporcionar boas e diversificadas condições habitacionais e urbanas aos novos habitantes de zonas eventualmente sensíveis em termos sociais, através de soluções que definem uma terceira via entre uma “não-solução” de privatização condominial do exterior que vai fazendo morrer o espaço urbano e uma outra “não-solução” de espaço condominial "aberto", que provavelmente também não terá grandes perspectivas de sustentabilidade.
Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 352, 26 de Junho de 2011
QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I:
Sobre diferentes formas de ocupação do
interior de quarteirões urbanos
António Baptista Coelho
Introdução
Um dos aspectos funcionais e de imagem/conteúdo urbano que mais intensa e criticamente marca o desenvolvimento de soluções de intervenção nova e de reabilitação em partes de cidades refere-se ao tipo de soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões, com vantagens “triplas”: para os seus respectivos habitantes e utentes mais directos; para o público em geral, considerando-se o respectivo uso público; e para a cidade ou parte de cidade/povoação que integra esses quarteirões – neste caso uma vantagem no sentido de se poder contar com um novo espaço urbano com as suas valias e imagens específicas, que assim possam cooperar e participar na diversificação e no enriquecimento dos conteúdos funcionais e imagéticos desses espaços urbanos.
Há que referir aqui e desde já que pretendemos voltar a esta temática, seja numa perspectiva mais directamente ligada à prática e eventualmente a exemplos específico comentados, seja numa outra perspectiva mais teórica e especialmente dedicada a aspectos, considerados pertinentes, ligados, designadamente, a aspectos de segurança urbana, dinamização e controlo da apropriação pelos moradores e equilíbrio das matérias associadas ao convívio e privacidade nas respectivas vizinhanças. Esta abordagem é, assim, uma primeira reflexão geral, escrita e ilustrada sobre uma temática que se pretende desenvolver aqui no Infohabitar.
Velhos problemas, velhas e novas potencialidades
Não seria aceitável avançar, desde logo, numa proposta de caminhos de solução no que se refere ao preenchimento urbano e habitacional do interior de quarteirões, sem se sublinhar que é conhecida, no meio da promoção habitacional, a sistemática associação que se faz entre ambientes urbanos tendencialmente negativos, em termos de usos favorecidos e imagens produzidas, e o desenvolvimento de interiores de quarteirão muito encerrados e pouco ligados à cidade envolvente.
Mas também é igualmente conhecida a frequente associação entre espaços urbanos escassamente definidos e envolvidos por edifícios e idênticas situações negativas em termos de actividades e de aspecto; trata-se aqui da tristemente famosa “mancha de óleo” de espaços exteriores sem carácter, pouco ligados a usos efectivos e frequentemente malbaratada pelo veículo motorizado.
E naturalmente que não estamos aqui a defender uma causa-efeito simples entre determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais e determinados tipos de comportamentos; apenas acreditamos que determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar positivos, enquanto outros tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar negativos, que, por vezes, afectam a nossa segurança física, que, muitas vezes, afectam a nossa percepção de segurança física e que, quase sempre, reduzem, activamente, o sentimento de bem-estar que deveríamos ter ao usar esses espaços públicos, levando-nos a uma retirada estratégica nas nossas habitações, num crescendo de um círculo vicioso de cada vez menos uso do exterior e cada vez pior uso do mesmo exterior.
E não tenhamos quaisquer dúvidas de que se tudo isto é verdade ao longo de ruas e pracetas, quando estas existem, então tudo isto acontece de forma ainda mais perceptível no interior dos quarteirões ou dos espaços urbanos secundários e de “traseiras” que sempre existirão na cidade, pois são sempre espaços potencialmente mais protegidos da mais intensa vista pública e sempre muito próximos da percepção de quem habita cada vizinhança.
Há, no entanto, também que referir que, evidentemente, nem só de problemas está marcada a pequena história – a fazer – do aproveitamento para a cidade e para as vizinhanças dos quarteirões urbanos; pois os quarteirões, os seus interiores, as suas zonas de relação com a continuidade urbana e os seus pontos de ligação ao interior dos edifícios, constituem das mais ricas matérias de concepção da arquitectura urbana pormenorizada, sendo possível identificar ao logo da história extraordinários exemplos de grande êxito funcional/formal em soluções de quarteirões tão protagonistas para um adequado e muito humano habitar das vizinhanças, como para uma cumulativa montagem de uma continuidade urbana vitalizada e diversificada; e complementarmente encontramos também nestas boas soluções importantes aspectos de harmonização entre natureza e cidade, entre privado e público e entre escalas muito humanizadas e apropriadas/apropriáveis e outras atraentemente “de cidade” e representativas.
Fig. 02: um outro pequeno quarteirão integrado na BO01 em Malmö (2001)
Objectivos gerais a aplicar no interior dos quarteirões urbanos
Globalmente, o que se julga ser importante estimular nas soluções de pormenor a criar e aplicar no interior de quarteirões urbanos e habitacionais é o uso intenso, específico e estrategicamente diversificado pelos habitantes dos diversos quarteirões dos respectivos espaços de miolo de quarteirão, harmonizando esse uso:
(a) essencialmente privativo e/ou comum, ligado às habitações contíguas (por exemplo, através de uma significativa parcela de terreno destinada a quintais e pátios privativos dos fogos menos elevados e de eventuais espaços comuns para estacionamento privativo dos respectivos residentes);
(b) com o papel urbano dos mesmos quarteirões, nas suas diversas relações com os espaços urbanos contíguos e próximos, na sua função potencial como espaço exterior:
(b1) directamente associado a equipamentos colectivos térreos e por eles directamente geridos;
(b2) indirectamente associado a um uso público, mediado por associações específicas (dos moradores/cooperativistas) que garantam a utilização adequada e a manutenção/gestão dos respectivos espaços (ex., campo desportivo, parque infanfil e mesmo um jardim "formal", devidamente equipados e regrados nas sua utilização);
(b3) e, sempre que possível, caracterizado por uma elevada permeabilidade pluvial e por uma significativa componente de verde urbano, em soluções que têm de ser devidamente adequadas a cada solução/situação específica – no limite aceitar-se-á, até, a “quase-ausência” de verde urbano, desde que justificada por aspectos de contraste e de vizinhança particularizados.
A ideia geral e “primeira” é, assim, não favorecer, em cada quarteirão, a definição de um amplo espaço de condomínio privativo dos respectivos moradores, de certa forma indiferenciado, eventualmente ajardinado e equipado, mas com um sentido de uso exclusivo de um dado grupo muito marcado e em forte oposição aos espaços públicos contíguos.
A ideia geral e “primeira” é a proposta de um uso diferenciado e intenso desse interior de quarteirão, ocupando todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica, considerando-se e valorizando-se a situação e a configuração únicas dos respectivos espaços, mas procurando-se desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora sempre submetida a uma certa vigilância natural por parte da respectiva vizinhança, realizada seja a partir das habitações, seja a partir dos equipamentos térreos e exteriores.
O acesso ao interior dos quarteirões: situações-tipo a favorecer
Antes de se iniciar uma apresentação sintética do que se designa como situações-tipo a favorecer no acesso ao interior dos quarteirões, salienta-se que não se optou assim, numa primeira linha, pelo favorecimento de utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo e especificamente a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública, porque se considera que esta opção, que será sinteticamente abordada num dos últimos itens deste texto, tem uma viabilidade muito condicionada a condições muito específicas de promoção e de gestão desta solução, sendo difícil de aplicar em situações mais correntes, em que dificilmente seja garantida a eficácia da gestão diária posterior, e sendo muito problemática de aplicar sempre que o sítio de implantação esteja associado a problemas sociais e à recente concentração de habitação de interesse social.
Pretende-se, assim, desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora de forma bem acompanhada, enquadrada e circunscrita a determinados espaços bem definidos.
Fig. 04: interior de quarteirão em Telheiras, Lisboa, coord. Arq.ºs Rodrigo Rau e Eugénia Cruz
Visa-se, deste modo, favorecer um uso diferenciado e intenso do interior de cada quarteirão urbano e habitacional, ocupando-se e dinamizando-se todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica; situação global relativa a cada quarteirão específico (configuração, dimensionamento, contiguidades, proximidades, etc.) e “micro-situação” urbana de cada parte do interior de cada quarteirão (tipo de espaço, extensão, contiguidades, usos, etc.), produzindo-se uma situação final em que o acesso ao interior do quarteirão se fará, quase exclusivamente, nas seguintes situações-tipo:
(i) Ter acesso a "veredas" comuns que dão acesso a bandas de pequenos quintais e pátios privativos e contíguos a habitações térreas ou pouco elevadas (e este acesso poderá ser condicionado e negociado em pontos de acesso públicos devidamente equipados, como se se tratasse do acesso a espaços comuns de circulação "em edifícios"), sendo que estes quintais/pátios privativos devem ser devidamente regulamentados no seu uso, serem em parte ou totalmente permeáveis, terem uma forte componente de elementos de vegetação e proporcionarem uma estratégica permeabilidade visual de modo a que o seu verde contribua activamente para o verde urbano do interior do quarteirão.
(ii) Ligar, eventualmente, a solução-tipo que acabou de ser referida a uma solução de arquitectura que aposte, nos pisos superiores, num escalonamento de pequenos terraços, varandas e sacadas integrando elementos verdes e eventualmente permitindo ainda acesso do 1.º andar a alguns pequenos jardins privativos.
(iii) Aceder a bolsas de estacionamento comuns ou mesmo privativas (ex., lugares marcados), devidamente naturalizadas por pavimentos permeáveis e estrategicamente arborizadas, numa situação que também aceita bem a marcação por elementos de contrlo de acesso, visualmente bem integrados.
(iv) Ter acesso a amplos espaços comuns ajardinados e de recreio que pertencem exclusivamente a determinados equipamentos de apoio à infância e/ou aos idosos, mas cujo aspecto e elementos de verde urbano influenciam positiva e directamente a imagem global do miolo do quarteirão.
(v) Ter acesso condicionado a espaços de desporto e de recreio infantil bem equipados (piso, rede, iluminação artificial, bancos para assistir, etc.) e enquadrados por vegetação, geridos por associações específicas (ex., através do respectivo pelouro cultural das cooperativas).
(vi) Aceder à esplanada de café/restaurante, gerida e controlada por esse mesmo equipamento e possuindo vistas estratégicas sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior.
(vii) Ter acesso a pequenas continuidades estratégicas de equipamentos comerciais essencialmente viradas para o exterior público, mas com pontos de vista estratégicos sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior; considerando, no entanto, que este(s) pólo(s) de equipamento devem ser localizados concentrada e estrategicamente, caso contrário não terão viabilidade.
(viii) Considerar a marcação de pontos de acesso às referidas veredas pedonais no interior do quarteirão (acesso a quintais e equipamentos exteriores), bem como às bolsas privativas de estacionamento devidamente concentrados, bem delimitados, bem visíveis e contíguos a entradas comuns de edifícios e a equipamentos muito usados, de modo a fomentar e facilitar a sua vigilância natural, ponderando-se, ainda, a instalação nesses "pontos" de cancelas visualmente agradáveis e preferencialmente sem fechaduras - a ideia seria condicionar/marcar a entrada com diferenças de nível e marcações estratégicas, mas também, eventualmente, com cancelas que estejam sistematicamente fechadas/encostadas, mas não fechadas com fechaduras, sendo também estes pontos estratégicos para a clara e bem visível indicação de regras/instruções de uso dos respectivos espaços.
(ix) Considerando-se a situação e a espaciosidade específica de cada quarteirão eles poderão incluir ainda outro tipo de instalações que facilitam a gestão do seu interior, tais como espaços específicos para instalação de condomínios/associação de moradores em espaços com diversas valências e onde se procure vitalizar o uso desses espaços e dos espaços contíguos, mas sempre numa lógica de adequada definição de responsabilidades de uso/manutenção e de gestão.
Fig. 05: interior da cooperativa Irmanadora, Costa da Caparica,coord. Arq.º Justino Morais
Considerar, especificamente, determinados aspectos de segurança urbana e de gestão
Importa ainda considerar que na identificação das melhores soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões é fundamental ter em conta certos aspectos específicos de segurança urbana e de gestão local, designadamente:
As acessibilidades em termos de intervenção por parte de forças de segurança, que são favorecidas, seja pela existência de vários acessos bem definidos, que proporcionem acessos em diferentes "pontos", não obrigando a um acesso único e facilmente vigiado, mas também não proporcionando uma infinidade de percursos de acesso e eventual fuga; portanto favorecendo uma estratégica definição de acessos , assim como a continuidade de vistas sobre o interior do quarteirão a partir das habitações e equipamentos contíguos.
A acessibilidade em termos de segurança contra risco de incêndio e de acessibilidade de emergência no interior do quarteirão - podendo ser necessário prever mecanismos que permitam acessos ocasionais dessse tipo em zonas/veredas pedonais.
A adequada iluminação artificial na envolvente e no miolo do quarteirão, tendo em conta características anti-vandalismo.
Uma cuidadosa concepção que favoreça condições de visibilidade maximizadas no interior do quarteirão, entre os seus diversos espaços e a partir das habitações, dos quintais privativos e dos equipamentos envolventes; sendo que tais condições deverão ser, ainda, maximizadas nos "pontos" de acesso ao interior do quarteirão.
Um processo de gestão do quarteirão que englobe a manutenção e o acompanhamento corrente e em continuidade não só dos edifícios como do respectivo interior do quarteirão, sugerindo-se que a respectiva gestão e custos associados sejam da responsabilidade dos respectivos condóminos dos diversos edifícios que constituem o quarteirão.
A questão de se poder incluir vídeo-vigilância em pontos estratégicos e designadamente nos pontos de acesso ao interior do quarteirão, com a devida divulgação pública, é matéria que apenas se aponta no sentido de poder vir a ser equacionada em termos de viabilidade e adequação.
Notas complementares sobre as potencialidades da solução de Arquitectura
Acrescenta-se, ainda, que no desenvolvimento das mais adequadas soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões a solução de Arquitectura, poderá, eventualmente e de forma harmonizada com cada situação, investir nos seguintes aspectos (muito sintetizados):
Optar por uma solução caracterizada pela sobreposição de habitações com um sentido de unifamiliares em banda, evidenciando-se, no interior do quarteirão uma imagem de uma pequena praceta de "moradias" que poderiam ter até o acesso principal e até eventualmente espaços de estacionamento privativo no interior do quarteirão; sendo que sobre esta "camada" habitacional surgiria uma outra camada eventualmente com acesso por galerias a partir de espaços verticais de acesso que também facultariam acesso comum ao interior de quarteirão.
Optar, no interior do quarteirão, por uma pequena cascata habitacional sequencial (subindo): (i) de pequenos quintais privativos e permeáveis, (ii) pequenos terraços/varandas fundas (eventualmente em alguns casos com acessos privativos a pequenos pátios térreos); (iii) e sacadas com floreiras.
Optar por alguns "jogos" de níveis no interior do quarteirão, proporcionando uma harmonizada integração de estacionamentos cobertos, comuns e/ou privativos e de estacionamentos pivativos, exteriores, arborizados e multifuncionais.
Na aplicação de pátios/jardins privativos, proporcionar desde logo pequenos espaços de arrumação tipificados e bem integrados, para apoio à jardinagem, permanência no exterior e arrumação de bicicletas, e privilegiar vedações "verdes" e já pré-desenvolvidas, designadamente numa boa relação com muros e muretes e boa visibilidade relativamente às veredas pedonais de acesso.
Naturalmente, há que sublinhar que o "partido" arquitectónico e o tipo de solução escolhida no interior do quarteirão deve ter o seu reflexo no respectivo exterior envolvente do próprio quarteirão, ou, alternativamente, pode haver um equilibrado jogo de contrastes e de surpresa, mas que nunca esqueça a finalidade básica habitacional do quarteirão, num sentido que provavelmente favorecerá, sempre, uma opção por alguma sobriedade e por uma ssumida integração na envolvente urbana e paisagística.
E há que registar que, naturalmente, a opção por se fazer um espaço urbano em "quarteirão" não é, naturalmente, única nem "obrigatória", mesmo em meios urbanos com afirmada e agradável continuidade, podendo haver outro tipo de opções que, designadamente, favoreçam a maior abertura do conjunto habitacional à sua envolvente, ou que tendam a transformar o respectivo interior de quarteirão num espaço urbano com características de praceta urbana convivial, e portanto estrategicamente mais permeável aos percursos urbanos envolventes. Mas estamos aqui a abordar especificamente a opção pelo quarteirão e as formas de desenvolver o respectivo conteúdo urbanístico e residencial.
Situações específicas a considerar
Pela sua especificidade e importância na programação e na concepção de pormenor dos interiores de quarteirão urbanos e habitacionais referem-se, em seguida, alguns aspectos associados ao dimensionamento de habitações de interesse social e à responsabilidade na gestão dos equipamentos previstos:
Salienta-se que, em todas estas matérias e designadamente no desenvolvimento de soluções térreas e/ou com acesso térreo individualizado e directo ao espaço de uso público, assim como na criação de varandas/terraços, há que ter em conta as limitações de Área Bruta (Ab) referidas nas Recomendações Técnicas para Habitação Social, nas quais qualquer área pavimentada e mesmo a área de implantação de muros contam para a Ab e acabam, assim, por ter de ser, de certa forma “descontadas” à área interior do fogo, uma situação que poderá ter de contar com a compreensão técnica das entidades responsáveis pela apreciação destas soluções para uma situação especial como esta – na qual este tipo de solução poderá ser um elemento fundamental de boa apropriação e integração social do conjunto; e naturalmente a própria solução arquitectónica deve basear-se, ao máximo, na ausência de pavimentos e grandes muros nos quintais/pátios térreos, ou então apenas muros pouco espessos entre áreas privativas e exteriores térreas, complementados por vedações verdes/naturais e/ou de outro tipo, por exemplo no contacto com áreas comuns – mas devendo garantir-se condições de segurança contra intrusão maximizadas nos espaços exteriores privativos (ou de uso privativo) e nos próprios fogos térreos, sendo tais condições bem previstas logo no projecto.
Quanto a eventuais estacionamentos comuns privativos no exterior terá de ser bem considerada a situação em termos do seu suporte legal e tendo em conta que esta situação não deve encarecer a intervenção, designadamente, no seu desenvolvimento pelas cooperativas. Quanto a espaços de jogos/desporto e recreio infantil vedados e com acesso condicionado e gerido pelas cooperativas julga-se ser esta uma situação muito adequada e que também não deverá encarecer o desenvolvimento da operação pelas cooperativas (para além do seu desenvolvimento específico), considerando-se que será perfeitamente possível que o uso das instalações seja aberto ao público em geral embora de acordo com o cumprimento de regras de uso/manutenção bem definidas e centradas nos pelouros culturais das respectivas cooperativas.
Outras soluções de preenchimento de quarteirões
Tal como se apontou atrás, em condições urbanas, vicinais e sociais específicas e positivas é possível optar por interiores de quarteirão com utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo, e especificamente, a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública. Sobre esta matéria há que referir, desde início, que a ocupação provavelmente mais adequada nestes casos será por um jardim urbano agradável e intensamente utilizável numa perspectiva quase de expansão natural do habitar sobre o exterior contíguo, mas que reforce a presença da natureza e dos seus elementos distintivos, mediante um sensível e qualificado projecto de paisagismo que introduza, designadamente, uma ampla variedade de espécies vegetais, a dinamização do povoamento por pássaros e um tema “central” de composição bem integrado ao tema arquitectónico fundamental desse quarteirão.
Será, assim, possível ganhar mais um jardim para a cidade, sem custos suplementares para esta cidade e enquanto se desenvolve um jardim de proximidade e que serve essa mesma vizinhança/proximidade; mas reforça-se a ideia de que este objectivo óptimo só será possível em condições especiais físicas, sociais e de gestão, caso contrário nem o jardim se conseguirá estabilizar, nem o ambiente será favorável para a própria vizinhança e para a cidade.
Aspectos de gestão
Chegados aqui há que salientar a importância da gestão no desenvolvimento de interiores de quarteirão urbanos e habitacionais, que sejam funcionais e agradáveis, sublinhando-se ser a garantia de uma gestão local e de continuidade eficaz condição necessária e fundamental para a viabilidade desses espaços e das suas respectivas vizinhanças e para a sua essencial boa influência na cidade envolvente.
Não valerá a pena prever equipamentos comuns e espaços térreos privatizados sem se prever e embeber na promoção um sistema de gestão e de controlo dos usos que tenha um máximo de viabilidade. Situação que se tentou facilitar e apontar, nas páginas anteriores, através do favorecimento de soluções que definam, delimitem e responsabilizem os usos de cada espaço em presença no interior do quarteirão, anulando-se espaços sem usos, bem como espaços residuais e associando-se, estrategicamente, acessos a edifícios e a equipamentos em "pontos" estratégicos e menos visíveis, evitando-se, assim, que estes locais se tornem sítios de usos negativos, e pelo contrário transformando-os em pequenos pólos vitalizadores e securizadores de zonas exteriores contíguos, ainda, eventualmente, mais recônditas e menos visíveis a partir das habitações e dos equipamentos e principais acessos exteriores.
Mas para além de todas estas medidas há que pôr de pé uma entidade local responsável pela gestão do conjunto destes espaços, ou, pelo menos, pelas suas principais zonas de equipamento, e há que garantir a articulação desta entidade com os condomínios que integram o quarteirão e com os processos usados para apelar a intervenções de emergência, designadamente, da polícia e dos bombeiros, sendo também de grande importância a eventual integração do interior do quarteirão num processo de “policiamento de proximidade” - modalidade que está a ser favorecida pela PSP - e, naturalmente, que a própria polícia e os bombeiros sejam convidados a pronunciar-se sobre a solução urbana de pormenor a tempo de se poderem integrar as suas eventuais sugestões.
Breves reflexões finais
Como breves reflexões finais salienta-se o interesse humano e urbano de se aprofundar a criação de uma cidade de quarteirões, que possa ser uma cidade cujas vizinhanças caracterizadas e agradáveis contribuam para um adequado efeito de conjunto e para estimulantes sequências citadinas em que se possa, assim, experimentar uma série de pequenos mundos residenciais.
Volta a referir-se que há outras soluções para se fazer cidade, mas considera-se que aquela que recorre a quarteirões tenta proporcionar boas e diversificadas condições habitacionais e urbanas aos novos habitantes de zonas eventualmente sensíveis em termos sociais, através de soluções que definem uma terceira via entre uma “não-solução” de privatização condominial do exterior que vai fazendo morrer o espaço urbano e uma outra “não-solução” de espaço condominial "aberto", que provavelmente também não terá grandes perspectivas de sustentabilidade.
Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 352, 26 de Junho de 2011
Etiquetas:
antónio baptista coelho
,
cidade e gestão
,
espaços de vizinhança
,
gestão de proximidade
,
interiores de quarteirão
,
quarteirão
,
quarteirões habitacionais
,
quarteirões urbanos
Subscrever:
Mensagens
(
Atom
)












