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terça-feira, agosto 14, 2018

653 - Casos habitacionais e urbanos de referência - Infohabitar 653

INFOHABITAR N.º 653
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) 

Conjunto de 27 artigos

 

Nota prévia:

Avisam-se os estimados leitores de que nas próximas duas semanas a Infohabitar estará ausente, para umas pequenas férias e que retomaremos as edições semanais habituais na próxima segunda-feira dia 3 de setembro; deixa-se, no entanto, com o presente artigo o que se julga ser um muito amplo e excelente “pacote” de links para um conjunto tão diversificado como interessante de casos de referência urbanos e habitacionais, que merecem renovada e continuada atenção.

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma nova tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 27 artigos, editados entre 2007 e 2011, realizados por 9 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido a CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação).

E lembra-se que esta matéria dos CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Chamamos a atenção, muito especificamente, nesta série editorial para a grande diversidade de casos abordados e, naturalmente, para um perfil de abordagem onde se procura, sistematicamente, associar aspectos práticos a aspectos de enquadramento qualitativo e exigencial.

Lembra-se, mais uma vez, que melhores espaços habitacionais – e há quem defenda que todo o espaço construído pelo homem é espaço de habitar – são determinantes de uma melhor qualidade de vida diária a curto, médio e longo prazos.

Uma série de temas são apresentados nos 27 artigos cujos links se disponibilizam, em seguida, e apenas para despertar o interesse dos leitores salientam-se, desde já, alguns deles: o excelente e sempre inovador Bairro de Alvalade, em Lisboa, abordado por vários autores e sob variadas perspectivas; diversos casos de referência do Prémio IHRU, com destaque para conjuntos tipologicamente humanizados e diversificados; a nova Bouça de Siza Vieira, realizada com iniciativa cooperativa; duas pequenas casas, uma de Ralph Erskine e outra Eduardo Anahory, na Arrábida; um excelente caso habitacional e urbano ainda ligado ao velho SAAL, o Bairro Luta pela Casa – em Carnaxide, Oeiras; nas palavras do grande amigo Arquitecto Duarte Nuno Simões, o relembrar do saudoso arquitecto Filipe Oliveira Dias com um seu projecto de habitação de interesse social premiado, realizado em coautoria com o arquitecto Rui Almeida, no Monte de São João, Porto; lembranças formativas/informativas sobre as metodologias das Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência e dos Prémios INH e IHRU; a evolução da produção de Habitações de Interesse Social em São Paulo; um artigo sobre a excelente inovação tipológica residencial proporcionada pela Residência Madre Maria Clara (conjunto de diversos tipos de unidades residenciais e de equipamentos de apoio a idosos) – na Outurela, em Oeiras (promoção municipal); e vários artigos sobre a importância da promoção de habitação de interesse social pelas Cooperativas de Habitação Económica, associadas na FENACHE.

Fiquem, então, com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial,
tratando-se, neste caso, do que se julga ser uma muito estimulante selecção de casos de referência urbanos e residenciais.

Boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) 

Falar de Arquitectura falando de qualidade - Sobre a Casa de Ralph Erskine – artigo de Luís Morgado (n.º 314, 3 Out. 10, 10 págs., 14 figs.) .

Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – II: o Outeiro da Forca, em Portalegre - António Baptista Coelho (n.º 358, 16 Ago. 11, 9 págs., 9 figs.).

Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – I: a nova Bouça, no Porto - António Baptista Coelho (n.º 357, 3 Ago. 11, 8 págs., 11 figs.).

Habitação de interesse social no bairro de Alvalade - artigo de António Carvalho (n.º 313, 26 Set. 10, 7 págs., 6 figs.) .

Um caso de estudo – Bairro Luta pela Casa – Carnaxide - artigo de João Rainha Castro (n.º 311, 12 Set. 10, 6 págs., 6 figs.) .

Cruzamento da Av. EUA/Av. Roma: adaptabilidade e atractividade - artigo de António Carvalho (n.º 310, 3 Set. 10, 5 págs., 4 figs.) .

Percepção rápida da QUALIDADE: Conjunto habitacional premiado no Calhariz de Benfica - artigo de Luís Morgado (n.º 308, 18 Ago. 10, 4 págs., 2 figs.)

Atractividade e agradabilidade – Residência Madre Maria Clara – Outurela - artigo de João Rainha Castro (n.º 307, 10 Ago. 10, 6 págs., 7 figs.) .

A NHC, Nova Habitação Cooperativa e os Prémios INH-IHRU Alguns casos urbanos e habitacionais de referência – artigo de António Baptista Coelho (n.º 227, 22 Dezembro 2008 12 págs., 12 figs.) .

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, III – artigo de António Baptista Coelho (n.º 179, 17 Janeiro 2008 18 págs., 11 figs.).

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, II – artigo de António Baptista Coelho (n.º 178, 10 Janeiro 2008 15 págs., 8 figs.).

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, I – artigo de António Baptista Coelho (n.º 176, 28 Dezembro 2007 13 págs., 5 figs.).

Evolução da produção de Habitações de Interesse Social em São Paulo - artigo de João Cantero (n.º 172, 29 Novembro 2007, 13 págs., 15 figs.).

Reposição da Casa-abrigo Eduardo Anahory: Arrábida, 1960 – um artigo de Pedro Taborda (n.º 168, 9 Nov. 07, 25 p. 17 fig.)

Um prémio residencial formativo – texto de António Baptista Coelho (n.º 156, 6 Set. 07) .

Humanização e densificação urbana – texto de António Baptista Coelho (n.º 155, 30 Ago. 07).

Notas sobre a integração urbana e paisagística – artigo de António Baptista Coelho (n.º 154, 23 Ago. 07).

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho (n.º 153, 17 Ago. 07).

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade – artigo de António Baptista Coelho (n.º 152, 9 Ago. 07).

Sobre Alvalade, um comentário - Pedro Taborda (n.º 135, 20 Abr. 07, 2 p., 1 fig.).

Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais – António Baptista Coelho (n.º 133, 06 Abr. 07, 15 p., 16 fig.).

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João – Duarte Nuno Simões, com ilutração de António Baptista Coelho (n.º 129, 08 Mar. 07).



Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 653
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação)
 Conjunto de 27 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, setembro 26, 2010

313 - HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO BAIRRO DE ALVALADE - Infohabitar 313


Artigo de António Carvalho
Infohabitar, Ano VI, n.º 313

Nota inicial:


O 1.º Congresso Habitação no Espaço Lusófono, o 1.º CIHEL, decorreu com pleno êxito, nos passados dias 22 e 24 de Setembro, no Grande Auditório do ISCTE-IUL, em Lisboa, nas próximas semanas e logo que tenhamos oportunidade, iremos dedicar alguns artigos a este grande evento, no entanto e desde já gostaríamos de sublinhar que estiveram presentes, praticamente, todos os países de língua portuguesa e que foi já anunciado que o 2.º CIHEL terá lugar, também, em Lisboa, no sentido de se reforçar e alargar a base de enquadramento e estruturação do Congresso, e que decorrerá num período de cerca de dois anos, portanto no final de 2012, no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.Os organizadores do 1.º CIHEL querem, desde já, fazer e deixar, aqui, um agradecimento público a todos os participantes no 1.º CIHEL, conferencistas, palestrantes, membros de mesas, alunos que apoiaram a organização e todos os inscritos, assim como às entidades que apoiaram o 1.º CIHEL, com um destaque muito especial para o ISCTE-IUL, a Câmara Municipal de Lisboa, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e a Fundação para a Ciência e Tecnologia.
As Actas do 1.º CIHEL poderão ser adquiridas em diversas livrarias, estando desde já disponíveis na Livraria A+A junto à Ordem dos Arquitectos em Lisboa http://www.livrariaamaisa.pt/
Segue-se o artigo da semana do Infohabitar.HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO BAIRRO DE ALVALADE
Artigo de António Carvalho
O Bairro de Alvalade constitui em Lisboa e no país um verdadeiro estudo de caso enquanto exemplo do sucesso de um plano de urbanização que de modo raro soube de facto propor, construir e consolidar cidade no século XX, numa área territorial de dimensão muito significativa.




Fig. 01: Plano de Alvalade – vista geral com as diversas células de intervenção

O sucesso de um plano de urbanização não se pode porém avaliar de modo rápido e muito menos no instante pós-projecto: como tudo o que é cidade, necessita de tempo. Nas cidades os ciclos de vida sucedem-se, geração após geração — na verdade, a população muda (por vezes dentro de uma mesma geração) enquanto a maioria dos edifícios permanece e é nesse confronto de novas ou diferentes pessoas habitando ou usando os mesmos edifícios que a qualidade de um plano é também posta à prova.

Isto é válido para qualquer tipo de plano, desenho urbano, edifício ou população e o Bairro de Alvalade contém na sua génese a correcta mistura de ingredientes, oferecendo a Lisboa soluções diferenciadas para problemas diversos, entendidos de modo global e integrado no projecto, na obra e no tempo.

Estou convicto que foi esta visão global integrada e integradora que permitiu o sucesso urbanístico e social desta vasta área de Lisboa, ao ponto de, seis décadas após a sua construção, os “edifícios de rendas económicas” se terem fundido perfeitamente no tecido urbano e social do bairro.

Bairro: eis uma palavra que caiu em desuso no léxico dos urbanistas e planeadores da segunda metade do século XX, mais preocupados com questões de inovação funcional, formal e tipológica, para quem este conceito de “bairro” teria eventualmente demasiadas reminiscências tradicionalistas. E no entanto o conceito de bairro é altamente complexo e integrador para quem o habita. Pertencer a um bairro é, desde logo, uma âncora de identidade, de pertença a um lugar, a uma comunidade, a uma rede complexa e rica de relações sociais e espaciais que extravasam claramente o simples edifício ou apartamento que se habita. Penso que em grande parte é isto que acontece no Bairro de Alvalade desde a sua origem.

Habitar ou trabalhar em Alvalade é pertencer e apropriar-se deste bairro modernista de Lisboa, onde a cidade soube oferecer à sua população — em simultâneo! — espaços novos, modernos, higienizados e funcionais, de acordo com os melhores padrões técnicos e teóricos, quer em termos de edifícios quer de espaços públicos totalmente infraestruturados e ajardinados, conjugados com diferentes estratos sociais e económicos sabiamente distribuídos no tecido urbano.




Fig. 02: Av. da Igreja – zona poente; Av. da Igreja – zona nascente

A sensibilidade e sabedoria de implantar os edifícios de habitação económica de modo subtilmente diferenciado ao longo de uma nova artéria estruturante do bairro, a Avenida da Igreja, equivaleu a uma visão integradora da sociedade (por muito estranho e polémico que tal possa parecer atendendo à época e regime político). A opção urbanística de oferecer “frente de rua” às habitações económicas no troço poente da Av. da Igreja, entre o Campo Grande e a Av. de Roma, recuando-as apenas ligeiramente no troço Nascente, entre a Av. de Roma e a Av. Rio de Janeiro (para dar lugar a comércio térreo e habitações maiores nos pisos superiores), promoveu desde a origem um equilibrado convívio entre classes sociais. Ao ponto de actualmente tal distinção social já não ser perceptível — ou pura e simplesmente não existir.




Fig. 03: Zona Poente - os edifícios de habitação social formam gaveto com a Av. da Igreja; Zona Nascente - a habitação social recua e o gaveto com a Av. da Igreja é formado por habitação média-alta.

Todo o enquadramento urbanístico feito até este ponto do texto reside na minha convicção pessoal e profissional de que a habitação (dita social ou não) não pode ser projectada de modo isolado, abstracto, como “belas peças arquitectónicas” pousadas sobre carpetes relvadas ou empedradas. Se esses edifícios se destinam a ser habitados por pessoas reais, os seus moradores não viverão exclusivamente dentro das belas paredes do seu apartamento — a não ser que nada mais que isso lhes seja oferecido em termos de qualidade espacial e vivencial. Pessoas reais têm necessidades normais de sair do seu edifício e poder caminhar com conforto e segurança, fazer as pequenas compras do quotidiano ou as “compras de montra” (o “window-shopping” dos americanos que faz o sucesso de qualquer centro comercial...), levar os filhos à escola ou permitir que o façam sozinhos, na segurança do habitat natural do seu bairro.



Fig. 04: Zona poente da Av. da Igreja: exclusivamente habitacional — os edifícios de habitação social fazem a frente urbana; Zona nascente da Av. da Igreja: intensamente comercial — a calçada ocupa a totalidade dos passeios até às montras.

Tudo isto foi oferecido no Bairro de Alvalade desde a sua origem, a todos os seus moradores sem excepção: desde as avenidas comerciais (mas fortemente habitacionais!) como a Av. de Roma, a Av. da Igreja ou a Av. do Brasil, até às escolas primárias, preparatórias e secundárias equilibradamente distribuídas pelos diferentes sectores residenciais do bairro e perfeitamente integradas no coração da malha urbana, até aos equipamentos públicos de outro tipo (bombeiros, centro cultural, mercado, cinemas, piscinas), por regra integrados nos quarteirões numa lógica de continuidade, afirmando-se no entanto como edifícios públicos de referência — os edifícios urbanos marcantes, de “auxílio à navegação” urbana.


Fig. 05: Transversal da Av. da Igreja na zona poente, com equipamento público ao fundo da rua; Rua Marquesa de Alorna na zona nascente da Av. da Igreja, com Liceu Rainha D. Leonor ao fundo

Sou um morador do Bairro de Alvalade, mais propriamente da Av. Estados Unidos da América e habitei provisoriamente durante seis meses num apartamento de habitação social ou de “rendas económicas” na Rua Marquesa de Alorna, enquanto fazia obras no meu apartamento. Foram seis meses agradáveis. Pese embora a dimensão reduzida dos compartimentos (o que não permitiu encaixar a totalidade do meu mobiliário...), revelou-se muito confortável habitar aquela zona do bairro.

Em vários aspectos da qualidade de vida urbana quotidiana, tinha até mais conforto que a Av. EUA: o privilégio de poder sair à rua e comprar pão quente na padaria da esquina para o pequeno-almoço diário, poder atravessar a Av. da Igreja e de imediato alugar um filme no clube de video quando apetecia, poder comprar o frango na churrasqueira da Av. da Igreja (que ali existe há décadas e onde ainda hoje vou) ou as “faltas de mercearia” na charcutaria do lado, poder ir a pé à missa na igreja de S. João de Brito, poder ir a pé ao cinema Alvalade (agora felizmente renascido como Citycine Alvalade) — tudo isto ao alcance do peão! Aliás a total ausência de estacionamento (resolvida através da integral ocupação selvagem dos passeios das ruas pelos residentes...) era o pesadelo do fim de dia, no regresso a casa. Mas até esse problema poderia (poderá?) ser minimizado através de estudos equivalentes ao plano do Arq. Paisagista Ribeiro Teles, que propôs em 1999 uma inteligente ocupação de certos interiores de quarteirão semi-abandonados cujos logradouros poderiam ser transformados em parques de estacionamento para os moradores do bairro.


Fig. 06: Logradouro das habitações sociais na zona poente; Logradouro na R. Marquesa de Alorna

Viver naquele apartamento T3 de rés-do-chão equivaleu a conhecer melhor e explorar intensamente aqueles quarteirões do bairro. Descobrir os percursos de peões que criam uma sub-malha de atalhos entre ruas e quarteirões — que só quem vive (ou consegue projectar) a rua nas suas diversas valências aprecia pela sua utilidade para o peão —, sentir o pulsar da vida comercial da Av. da Igreja e de todos os quarteirões a ela adjacentes no lado Norte (ainda hoje um verdadeiro “centro comercial ao ar livre” com um curioso e equilibrado ecossistema de estacionamento em segunda fila...), caminhar até ao parque desportivo do Inatel, ter um logradouro fechado e exclusivo do prédio para as crianças brincarem em segurança, tudo isto habitando um edifício de “habitação social”!?

Na verdade poucas pessoas restam (por razões de longevidade) das que originalmente inauguraram estes quarteirões destinados a população com menores recursos económicos. Todas estas dezenas de edifícios, albergando várias centenas de apartamentos, permitiram uma equilibrada assimilação e ascenção social dos seus residentes, cujos filhos frequentaram os mesmos estabelecimentos escolares que os vizinhos das “classes sociais superiores” residentes na Av. da Igreja, Av. de Roma, moradias das ruas dos escritores, etc, enquanto os pais frequentavam os mesmos cafés e pastelarias, lojas, ou simplesmente os mesmos transportes públicos, passeios e praças, formando ao longo do tempo uma verdadeira comunidade social heterogénea, complementar e integrada. As diferentes classes sociais co-habitavam o espaço urbano, co-utilizavam os equipamentos, reconheciam-se, aprenderam a respeitar-se, construíram um verdadeiro tecido social.

Estas casas de rendas económicas do Bairro de Alvalade são pequenas e apertadas, sobretudo para os padrões de conforto actuais (tal como já demonstrado pelos estudos de João Branco Pedro, no LNEC). No entanto elas são actualmente disputadas no mercado imobiliário e facilmente vendidas a um estrato socio-cultural claramente médio, médio-alto. Porquê? Porque na minha opinião, elas possuem uma mais-valia que excede as paredes do edifício: a sua localização na cidade. E elas oferecem aos moradores todo um bairro de elevados standards urbanos, com quase tudo o que a vida contemporânea privilegia, ao alcance do caminhar!
Suspeito que seja esse o segredo da “fórmula mágica” das habitações sociais do Bairro de Alvalade — daí que, contrariamente a muitos outros bairros sociais que se degradam e desvalorizam, aqui se tenha verificado uma permanente valorização e prestígio.

Breves notas do editor:O autor do artigo, António Carvalho, é Arquitecto e Professor, membro fundador do Grupo Habitar, está a cooperar em matérias de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e frequenta, actualmente, o Programa de Doutoramento em Arquitectura e Desenho Urbano do DECA do IST.

Este programa de doutoramento em Arquitectura é participado pelo LNEC e específicamente e sistematicamente pelos doutorados do seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU), com participações do seu Núcleo de Ecologia Social (NESO).




Advertência ao leitor
Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 313
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 26 de Setembro de 2010


sexta-feira, setembro 03, 2010

310 - Cruzamento da Av. EUA/Av. Roma: adaptabilidade e atractividade - Infohabitar 310

Infohabitar, Ano VI, n.º 310
Divulgação do 1.º CIHEL e artigo de António Carvalho

Estamos já a cerca de três semanas do 1.º Congresso Habitação no Espaço Lusófono, o 1.º CIHEL, que decorrerá entre 22 e 24 de Setembro próximos, no Grande Auditório do ISCTE-IUL, em Lisboa, por isso continuamos a insistir na divulgação deste grande evento sobre as matérias do habitar falado em português, mas retomamos, nesta edição, logo após esta divulção, a publicação do artigo semanal do Infohabitar.



Fig. 00: o logo do 1.º CIHEL

O tema do 1.º CIHEL é o desenho e realização de bairros e agrupamentos residenciais para populações com baixos rendimentos, tema que srá abordado em 5 conferências, 20 palestras pouco extensas e mais cerca de outras 30 comunicações, constantes do CD de Actas, por oradores provenientes de diversos países da lusofonia, sendo as intervenções organizadas em quatro temáticas: Políticas e programas – considerando situações de escala relativamente reduzida e a importância da reabilitação; Infraestruturas e equipamentos – considerando perfis de habitabilidade, papel do espaço público e serviços urbanos e sociais; Soluções habitacionais e modos de vida – considerando velhas e novas formas de habitar, desejos e necessidades; e Materiais e tecnologias – considerando aspectos de escassez de recursos e ligados às diversas facetas da sustentabilidade.

O site do 1.º CIHEL é o http://cihel01.wordpress.com/about/ e nele poderá realizar desde já a sua inscrição.

Artigo da semana:Cruzamento da Av. EUA/Av. Roma: adaptabilidade e atractividadepor António Carvalho

O Bairro de Alvalade tem revelado no seu conjunto uma notável capacidade de adaptação a novos usos e utentes, ao longo das suas seis décadas de existência, sem perder significativamente as suas qualidades ambientais de bairro residencial misto.

Alguns dos seus edifícios têm suportado violentas intervenções individuais por parte dos habitantes ou utentes das fracções que os constituem, sem com isso perderem o essencial da sua identidade e atractividade. Considero como exemplo claro dessa adaptabilidade os quatro edifícios-torre do cruzamento Av. de Roma / Av. EUA, obras ímpares no contexto urbano de Lisboa e mesmo nacional.

Creio que parte do segredo do sucesso da sua adaptatividade reside na formidável qualidade plástica destes quatro edifícios, diversos mas com matriz composicional comum (diferentemente posicionados no espaço, transformando um simples cruzamento de vias num verdadeiro “landmark” urbano, como se uma verdadeira praça fosse — que não é).



Fig. 01: vista geral (fonte Google-maps)

De facto a implantação dos edifícios, aparentemente simétricos e paralelos dois a dois, corresponde a um remate urbano altamente complexo e sofisticado de quatro quarteirões totalmente diferentes, cuja irregularidade só a fotografia aérea (ou a planta na fase de projecto...) permite avaliar.

Em termos de desenho urbano, trata-se de uma solução extremamente engenhosa de como resolver um cruzamento não ortogonal, recorrendo ao paralelismos das diagonais.


Fig. 02: vista parcial do conjunto dos quatro edifícios “formando praça”.

Nos edifícios, o recurso à simplicidade do impacto da dupla cor branco/bordeaux, associado à sábia utilização da composição de fachada em retículas de diferentes dimensões e escalas, constituídas por diferentes elementos geradores de volumes e sombras (desde floreiras balançadas sobre a fachada, passando pelos pilares e vigas ou lajes de pavimento, até às grelhas das varandas), conseguem absorver e quase anular elementos intrusos (como sejam caixilharias de marquises clandestinas, toldos ou anúncios publicitários) que em edifícios mais frágeis teriam um efeito totalmente destrutivo.


Fig. 03: (esq) edifício do quadrante nordeste (“Caixa Geral de Depósitos”); (dir.) edifício do quadrante sudeste (“Luanda”).

De igual modo a requintada composição de fachada tripartida em piso térreo/embasamento comercial, pisos superiores habitacionais (elegantemente interrompidos por um piso corrido recuado) e último piso (de apartamentos-estúdio com volumetria caprichosamente diferenciada em cada torre) confere aos quatro edifícios uma fortíssima personalidade, encimando a colina da Av. Estados Unidos da América, numa atractividade de longo alcance.

Assim se prova que os edifícios — tal como as pessoas de grande beleza interior e personalidade forte —, aguentam as rugas do tempo, mantendo o sex-appeal mesmo sem operações plásticas... será essa a verdadeira atractividade da adaptabilidade em arquitectura.


Fig. 04: (esq.) edifício do quadrante sudoeste (“Correios”); (dir.) edifício do quadrante noroeste (“Vá-Vá”).

Por último há ainda a realçar como qualidade arquitectónica, urbanística e vivencial o facto de cada um destes edifícios ser conhecido no bairro por “nome próprio”, decorrente da identificação do seu uso pelos moradores: ele é o da Caixa, o Luanda, o dos Correios e o Vá-Vá!


Breves notas do editor:

O autor do artigo, António Carvalho, é arquitecto e professor de Arquitectura, membro fundador do Grupo Habitar, está a cooperar em matérias de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e frequenta, actualmente, o Programa de Doutoramento em Arquitectura e Desenho Urbano do DECA do IST.
Este programa de doutoramento em Arquitectura é participado pelo LNEC e específicamente e sistematicamente pelos doutorados do seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU), com participações do seu Núcleo de Ecologia Social (NESO).
Advertência ao leitor

Embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 310Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 3 de Setembro de 2010