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terça-feira, novembro 27, 2018

666 - NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR - Infohabitar 666

INFOHABITAR N.º 666
NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR
Conjunto de 25 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 25 artigos, editados entre 2006 e 2012, desenvolvidos por 4 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema: NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR.

Lembra-se que estas matéria relativas à NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR constituem um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que estas matérias relativa à NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR correspondem a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.

“... A noção de paisagem urbana é fundamental” (Gonçalo Byrne).

“É fundamental, para fazer mexer a cidade, que nos instrumentos de planificação e de planeamento estratégico quer de escala menor, se inclua a noção de paisagem, que é cada vez mais importante... o arquitecto deveria ter na sua formação esta percepção, porque a paisagem é cada vez mais uma questão de arquitectura e uma questão de cidade. A noção de paisagem urbana é fundamental.”
Gonçalo Byrne (2004)
(Inês Moreira dos Santos e Rui B. Duarte, “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51)

Aborda-se uma perspectiva ecológica e humana ampla, que considera e articula a actual grande importância que tem – e deve recuperar – o lugar, como sítio “único”, com identidade específica, e a também actual grande importância da protecção e do protagonismo da natureza e do verde urbano.
É este um capítulo cuja temática deve, natruralmente, muito a Christian Norberg-Schulz, e assim teria de ser iniciado com mais um dos seus fundamentais conceitos (1968): “No passado os bandidos viviam fora das muralhas, hoje estão dentro. A cidade respira brutalidade e sentimos o desejo de fugir-lhe para encontrar a paz. Por isso procuramos proteger e conservar a natureza;... com o passar do tempo não poderemos fugir mais; o arquitecto moderno deve contribuir para sanar esta situação, criando um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem.” - Christian Norberg-Schulz, “A paisagem e a obra do homem”, Arquitectura, n.º 102, 1968, pp.52-58.
Trata-se de reconcilar a cidade com a paisagem, objectivo este muito importante para a cidade de hoje e crucial para a grande cidade de hoje e, afinal, tal como disse Maria Celeste Ramos, no âmbito dos trabalhos do Júri do Prémio INH 2006, “a árvore acrescenta beleza e não a tira”, e a beleza e a “frescura” do verde urbano são altamente necessárias na cidade de hoje.
O arquitecto moderno deve, assim,  “contribuir para um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem”, palavras sábias e antecipadoras de Norberg-Schulz, já em 1968, numa altura em que as novas grande cidades mundiais estavam, ainda, em início de “explosão”.
Depois de se ter desenvolvido uma pequena incursão no manancial temático da matéria da integração urbana e habitacional, uma matéria que se considera ser de primeira linha, no hoje fundamental enquadramento da qualidade arquitectónica, este último capítulo deste trabalho exploratório sobre o habitar humanizado é também, de certa forma, a conclusão desta pequena aventura por territórios que, bem sabemos, estão e são pouco cartografáveis, mas cujo melhor conhecimento é essencial num mundo actual em que, como dizia Norberg-Schulz, as muralhas das cidades já não servem para nos defendermos dos malfeitores, e em que é na identidade reforçada do habitar próprio e de vizinhança, no seu papel de “centro do mundo” de cada um, e na máxima recuperação de uma natureza positivamente humanizada, que se joga e jogará a prevalência, no mundo urbano, do sentido humano mais genuíno e do sentido cívico mais genuíno.
A ideia geral que se propõe, como plataforma para futuros trabalhos, e que levou, no presente estudo, à separação entre as temáticas gémeas da integração e da caracterização, que podem e devem ser, naturalmente, ponderadas em conjunto, é que a primeira, a integração, tratada no último capítulo, pode constituir uma importante e eficaz linha da frente na introdução dos cuidados de coerência contextual e paisagística em medidas práticas ligadas à urgente melhoria do nosso ambiente construído e natural, enquanto a segunda, a caracterização, que está a ser abordada neste capítulo, embora incorpore matérias também parcialmente associadas a aspectos facilmente convertidos em exigências específicas de qualidade do ambiente e da construção, como é a matéria da ecologia do habitar, incorpora outras matérias de caracterização profunda do habitar, designadamente, em termos de escala humana e de natureza cultural, que obrigam a um aprofundado esforço de sistematização, a realizar, nomeadamente, através do estudo bem ponderado de casos de referência.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial  NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

Arquitectura da paisagem

Importância do verde urbano

Olivais Norte

Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores

Jardins e habitar

Jardim

A árvore na cidade

A natureza da paisagem

O Céu de Lisboa

A árvore suporte do mundo no espaço urbano

Importância da árvore urbana

A Cidade e o Equinócio de Outono

Qualidade do ambiente urbano

A cidade e o equinócio da Primavera

A Cidade e o Carnaval

O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade


Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR

Arquitectura da paisagem e imagens do final de Outono - António Baptista Coelho (n.º 419, 9 Dez. 12, 4 págs., 8 figs.).
Importância do verde urbano - artigo de Arno Rieder; Notícias do 2.º CIHEL; Revista Brasileira de Gestão Urbana - Arno Rieder (n.º 393, 13 Mai. 12, 3 págs., 3 figs.).
Olivais Norte: modernismo e natureza (i) - António Baptista Coelho (n.º 305, 25 Jul. 10, 12 págs., 10 figs.).
Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País III - Celeste Ramos (n.º 232, 2 Fev. 09, 13 págs., 6 figs.).
Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País II - Celeste Ramos (n.º 230, 19 Jan. 09, 14 págs., 7 figs.).
Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País I - Celeste Ramos (n.º 229, 12 Jan. 09, 13 págs., 6 figs.).
Os jardins e o habitar (II) – artigo de António Baptista Coelho e textos da da London Tree Officers Association (n.º 202, 22 de Jun. 2008, 9 págs., 8 figs.).
O Jardim Ampliado – artigo de Milton Botler (n.º 197, 19 Maio, 2008, 9 págs., 7 figs.).
Sobre os jardins e o habitar (I) notas iniciais e um primeiro enquadramento – artigo de António Baptista Coelho (n.º 196, 12 Maio, 2008, 6 págs., 6 figs.).
Paisagens II: algumas notas sobre a árvore na cidade - Texto e fimagens de António Baptista Coelho sobre palestra de Maria Celeste Ramos (n.º 186, 9, Março, 2008, 6 págs., 4 figs.).
Paisagem I: sobre a natureza da paisagem - artigo de António Baptista Coelho (n.º 184, 24 Fevereiro 2008, 6 págs., 6 figs.)
DIA DA MÃE – texto de Celeste Ramos (n.º 139, 10 Mai. 07, p., fig.).
O Céu de Lisboa (e mais um texto complementar) - Celeste Ramos (n.º 136, 20 Abr. 07, 8 p., 6 fig.).
A Cidade e o Solstício de Inverno - Maria Celeste Ramos (n.º 118, 21 Dez. 06).
Cidade relógio de horas – Maria Celeste Ramos, ilustração de ABCoelho (n.º 113, 16 Nov. 06, 9p., 7 fig.).
A Cidade e o Equinócio de Outono II, desenhar com a natureza – Celeste Ramos (n.º 107, 5 Out. 06, 11p. 6fig.).
A Cidade e o Equinócio de Outono I, o esplendor da luz – Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (n.º 105, 28 Set. 06, 9p. 8 fig.).
Qualidade do ambiente urbano II – o jardim e acidade ontem e hoje – Maria Celeste Ramos com colaboração e imagens de António Baptista Coelho (n.º 83, 7 Mai. 06, 7 p., 7fig.).
Qualidade do ambiente urbano I – a natureza às portas da cidade – Maria Celeste Ramos com colaboração e imagens de António Baptista Coelho (n., 82, 1 Mai. 06, 7 p., 7fig.).
A cidade e o equinócio da Primavera – Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho (n.º 76, 28 Mar. 06, 6p. 5fig.).
A Cidade e o Carnaval, festa de antecipação do Equinócio da Primavera – Maria Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho (n.º 73, 10 Mar. 06, 3p. 2 fig.).
O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade – Maria Celeste Ramos (n.º 59, 16 Dez. 05, 4p. 3fig.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 666
NATUREZA, TEMPO, CIDADE E LUGAR
Conjunto de 25 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, maio 19, 2008

197 - O Jardim Ampliado – artigo de Milton Botler - Infohabitar 197

 - Infohabitar 197
Tem sido uma alegria frequente a entrada de novos amigos nesta pequena mas excelente aventura da edição no Infohabitar, e é, portanto, com uma muito especial satisfação que editamos hoje um novo colega, o arquitecto Milton Botler, com um estimulante texto sobre a ampliação da ideia do jardim no contexto da nova cidade globalizada.

É muito interessante a forma como estes novos colegas de edição chegam ao nosso espaço, um espaço que nos seus melhores períodos de 24 horas de leitura chega já a cerca de 800 consultas de artigos; e aqui chegam, como foi o caso do arquitecto Milton Botler, através da simples leitura de um dado artigo, neste caso o último que saiu, sobre o jardim e a cidade, e, depois, há o simples contacto com a edição do nosso Infohabitar e a nossa esfera editorial se alarga com naturalidade, enriquecendo-se todos os que aqui se reúnem escrevendo, lendo e enviando mensagens em que, frequentemente, manifestam a sua satisfação para com este nosso fórum semanal de discussão e divulgação sobre o habitar e a cidade alaragada de hoje em dia.

A todos os amigos que cooperam com o Infohabitar das mais variadas formas envia-se, aqui, um abraço fraterno, numa altura em que os indicadores das nossas leituras estarão no limiar do número 100.000; e chama-se a atenção para uma funcionalidade que se encontra no final da listagem da margem direita e que é um pequeno motor de busca por assunto nas edições do Infohabitar.



Foto: um jardim ampliado e bem humanizado no Recife, imagem de ABCoelho.

Esta introdução já vai longa! Portanto fiquemos então com o “jardim ampliado” de Milton Botler, a quem agradecemos este artigo, que não será, com certeza, o seu único artigo no Infohabitar, até porque se entende, no teor do seu texto e no excelente leque bibliográfico que suporta este seu artigo, que estamos em presença de alguém cujas preocupações muito têm em comum com as daqueles que têm dado vida ao Infohabitar e ao Grupo Habitar, preocupações amplas, fundamentadas, estruturalmente multidisciplinares e claramente sensíveis a um objectivo central que é fazer um habitar e uma cidade humanizados e com valia cultural.

E fica aqui a promessa deste editor de vir a fazer um artigo em que divulguem algumas imagens de casos de “jardins ampliados” do lado de cá do Atlântico e onde fale também, um pouco, destas excelentes matérias que podem e devem fazer o jardim ultrapassar as suas margens tradicionais; e a única imagem que aqui se junta é apenas um exemplo a título de confirnação firme deste compromisso; conte com isso caro colega Milton Botler.

Milton Botler é Arquitecto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, foi coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal e Ministério das Cidades e é actualmente assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil; e considerando o currículo e a simpatia do imediato envio deste excelente artigo, fica desde já aqui registado o evidente interesse de o Infohabitar poder vir a editar e divulgar outros artigos do autor em áreas temáticas cruciais para as cidades do século XXI e, designadamente, na área de uma reabilitação urbana humanamente sustentada.

E fica aqui o desafio para o envio de novos artigos sobre este fundamental tema duplo do “jardim e da cidade” e do “jardim ampliado”, quem sabe, talvez uma temática crucial neste tempo de mega-cidades.




Foto: o jardim e a mega-cidade, imagem de ABCoelho.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar




O Jardim Ampliado:Paisagismo e imaginário Urbano no Ambiente de Globalização


Milton Botler (*)


Nota introdutória sobre as imagens que ilustram o artigo: as imagens apresentam exemplos do caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais. O patrimônio local convertido em Shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas, praças e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”.

Este texto faz uma breve abordagem sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea e do paisagismo, na forma de ser interpretar a ordem e a organização dos elementos dessa paisagem.

Nos atuais processos de integração entre cidades são estabelecidos novos domínios e limites espaciais que conformam um “ambiente de globalização”. Genericamente, poderíamos entender esse ambiente como nos apresenta Castells (1999) (1), na forma de pontos nodais, os centros de comando para onde convergem os fluxos de uma sociedade organizada em rede.




Procuramos delimitar esse espaço na idéia de um “ambiente de globalização” que compreende, também, sua dimensão física, os usos, as atividades e as formas de sua apropriação. De um lado, ele é ordenado e organizado para representar o espaço de interação global das cidades e tende a se homogeneizar, também, enquanto ambiente e paisagem. De outro, ordenado e organizado para representar o espaço especifico, o lugar, tende a se diferenciar e a se diversificar. Trata-se aqui, evidentemente, de procurarmos situar a paisagem no campo das identidades locais (Cf, Hall, 1998) (2).



Foto 01 – Puerto Madero, Buenos Aires. Um dos grandes exemplos de requalificação de antigas áreas portuárias para criar um ambiente de globalização na América latina. Foto de Geraldo Marinho

O termo “paisagismo”, ou a atividade, conforme observou Gregotti (1975), está ligado à cultura arquitetônica, tomado da tradição do landscape: “para a arquitetura, a noção de paisagem como material operável, que supere a noção de “jardim”, nasce nos fins do século XVI e foi amplamente usado como elemento de estruturação da cidade barroca”. As origens modernas do “Landscape” estão associadas ao mito iluminista do bom selvagem, ao descobrimento cultural do mundo oriental chinês e japonês e à literatura de viagens; o próprio desenvolvimento do colonialismo recarrega de elementos sobrenaturais (a lembrança da floresta, do lugar selvagem) a natureza doméstica” (3).

Permitimo-nos retroceder nessa abordagem a alguns elementos semiológicos que julgamos pertinentes. De fato, a idéia de “jardim” foi colocada por Gregotti como uma contraposição entre a escala do espaço privado – sobretudo a do jardim oitocentista que recriava um microcosmo do espaço público para os interiores da burguesia francesa (Arantes, 1993) (4) – e a “escala geográfica” do paisagismo, estendida às cidades e às regiões. Assim, para a cultura urbanística, o jardim pode concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, enquanto a praça, da esfera pública (Cf. Saldanha, 1993) (5). Embora a noção de praça seja demasiado restrita para representar toda a complexidade de recriação de um microcosmo, papel desempenhado, por exemplo, pelos jardins sagrados de determinados povos da antiguidade, conforme observou Mircea Eliade (1992) (6).




Foto 02 – Rua da Moeda. Área de entorno do Paço Alfândega. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto Milton Botler.


Na ausência de uma imagem específica, a recriação, conceitual, de um “jardim ampliado” parece-nos, portanto, uma idéia mais apropriada para designar o papel do paisagismo no universo urbano: a ordenação e a organização de um microcosmo que agrega as mais variadas referências de representação da natureza e do artefato urbano para compor o lugar onde se vive.

No entanto, é do ponto de vista histórico que podemos percebe mais facilmente o processo de transformação da natureza e da busca por tentar representá-la para o interior do mundo urbanizado. Conforme observou Gregotti (Op. cit.1985), a crescente urbanização desencadeada a parir da revolução industrial tornou escassos os espaços e áreas verdes, sendo restringidos os elementos da natureza aos limites dos parques públicos – o autor estende a noção aos grandes parques nacionais.

Neste sentido, observa Le Goff (1997) (7) que “tornando-se um continuum, o espaço urbano já não se distingue tanto do espaço rural. Diminuída a diferença na realidade, ela só vem ampliada na imaginação. É assim que os ecologistas, procurando em vão o campo que escorre entre nossos dedos, aproximam-se do ideal da floresta que, na Idade Média, era, ao contrário, o lugar de repulsa. A floresta lhes parece de repente mais natural. Ela se torna, com uma imagem perfeitamente invertida, encarnação sedutora da natureza”.

As respostas do urbanismo moderno foram variadas, mas sempre voltadas à recuperação ou à recriação de uma natureza perdida, numa espécie de referência aos arquétipos do paraíso, próximo à representação do jardim do éden para a mitologia ocidental judaico-cristã.

As cidades jardins inglesas, preconizadas por Ebnezer Howard, por exemplo, consistiam num interessante modelo que buscou compatibilizar o campo e a cidade industrial, na segunda metade do século XIX. No centro dessa estrutura urbana definiam-se, material e simbolicamente, o parque e o jardim. Este último, uma idéia ampliada do espaço doméstico, estendido à esfera pública, como representação de uma noção de intimidade disseminada na Inglaterra, na era vitoriana – e que se conserva, ainda hoje, como elemento característico da identidade britânica.

A cidade industrial preconizada por Tony Garnier anteciparia o modelo funcionalista desenvolvido pouco mais tarde por Le Corbusier, cujos princípios urbanísticos foram consolidados na Carta de Atenas, em 1933. Ali, a cidade modernista seria pautada por ideário que acreditava representar o progresso da sociedade através do avanço da ciência e da tecnologia. Esse ideário compreenderia, sobretudo, um amplo projeto social concebido para um determinado “homem moderno” e atenderia, funcionalmente, às suas necessidades básicas: trabalhar, circular, habitar e usufruir o lazer. O “jardim ampliado” aparece no modelo “corbusiano”, principalmente, através da concepção do “pilotis” que tem como finalidade a liberação do solo para que a paisagem possa ser percebida e apropriada de forma livre e contínua – Brasília, possivelmente, representa a mais plena realização desse ideário.

A paisagem da cidade contemporânea, no entanto, começa a ser esboçada a partir de outros referenciais. Não mais voltada para um homem moderno, homogêneo e socializado, mas para um sujeito dividido entre o local e o global. Suas cidades, por extensão, são também projetadas para essas duas esferas. Não mais a cidade industrial, mas uma rede de cidades articuladas em torno de um setor terciário moderno, tendo como suporte um avançado aparato tecnológico por onde se movimentam os fluxos da economia global. Uma espécie de “jardim ampliado” de representação do espaço das elites gerenciais que comandam a economia global. Conforme observa Castells (Op. Cit, 1999) esses grupos hegemônicos situam-se de forma ambígua, entre o caráter cosmopolita das elites e o caráter local das pessoas: “O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história”.






Fotos 03 ­e 04 – Vista do exterior e Praça central do Paço Alfândega, no Recife. Antigo convento fundado no século XVII, convertido em depósito alfandegário e, hoje, em shopping Center. Foto de Fred Jordão/Imago

Uma certa dualidade entre a lógica da dominação, representada pela cultura global das elites, e uma lógica da resistência ou, da conservação (8), representada pela cultura local das pessoas. Assim, o caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, será predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais: shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas e praças; resorts, parques temáticos e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”, destinados à atender um determinado público consumidor e protegido por um tipo de fronteira sutilmente delimitada em “muralhas invisíveis”, como bem observou Sevcenko (1985) (9).


Num movimento complementar, são conservados os monumentos (cf. Rossi, 1982) (10), as referências urbanas de valor socialmente reconhecido que identificam e dão sentido à idéia de lugar. Contudo, é importante a percepção de que a recuperação do espaço referencial, tanto a arquitetura ou os fragmentos de uma “natureza original”, mantém aquela ambigüidade entre o local e o global: a rua do Bom Jesus, símbolo da recuperação do antigo bairro do Recife, serve de depósito de uma identidade histórica da cidade – das colonizações portuguesa e holandesa, da presença dos primeiros judeus nas Américas, do “afrancesamento” do centro urbano na primeira revitalização da região portuária, no início do século XX – mas seu sentido é semelhante, por exemplo, ao da Zona Rosa, na cidade do México, do Puerto Madero em Buenos em Buenos Aires, ou do Pelourinho, em Salvador. Consiste num sentido estratégico, de caráter global, da tradução do acervo cultural em “capital simbólico”.



Foto 05 – Rua do Bom Jesus, no Recife, Brasil. Antiga rua dos Judeus, do período da ocupação holandesa, onde está a primeira sinagoga das Américas. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto de Fred Jordão/Imago

Num sentido mais geral, o patrimônio cultural, notadamente o patrimônio edificado, passa a integrar o acervo ambiental, a identificar e pontuar uma diversificação de paisagens entre as cidades. O mesmo ambiente e aparato tecnológico que dá suporte a esse processo de regeneração das cidades possibilitam, por sua vez, um movimento de articulação em torno da conservação do planeta. Referimo-nos, é claro, ao emergir do ambientalismo na pauta da política internacional, ante a perspectiva de esgotamento dos recursos naturais e da própria vida. Nesse contexto, os limites da urbanização são redefinidos em função dos discursos construídos em torno do desenvolvimento sustentável – da exploração racional dos recursos naturais, da conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. Ao nosso ver, essas são algumas relações que permitem uma melhor aproximação sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea.




Figuras 06 e 07 – maquetes eletrônicas para o “Projeto Recife-Olinda”. Uma estratégia de inserção do centro antigo do Recife no ambiente da globalização desenvolvido pela Parque Expo de Portugal; imagens da Parque Expo.

As respostas do urbanismo são novamente variadas e reinterpretadas através de “Planos Estratégicos” e do “Projeto Urbano” (Cf. Borja e Castells, 1997) (11). Neles são selecionados os elementos estratégicos, prioritários, num conjunto de intervenções que, colocadas sob os limites da conservação ambiental, do desenvolvimento sustentável, visam recuperar a vitalidade urbana e integrar as cidades no ambiente de globalização. Nessa dinâmica, a paisagem urbana do ambiente globalizado retorna como objeto de recomposição. De reunião de elementos representativos de “padrões de qualidade de vida” que resultam, novamente, pelo menos na imaginação, em sucessivos “jardins ampliados”.


(*) Arquiteto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi coordenador do Programa de Reabilitação s de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal, Ministério das Cidades e atualmente é assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil.

Notas:
(1) CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Paz e Terra, São Paulo, 1999
(2) HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.
(3) GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1975.
(4) ARANTES, Otília. O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos. São Paulo, Edusp, 1993.
(5) SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça. Edusp, São Paulo, 1993.
(6) ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949.
(7) LE GOFF, Jacques, Por Amor às Cidades. UNESP, São Paulo, 1998.
(8) O termo conservação foi adotado como interpretação da idéia desenvolvida por Castells (1999) para abranger o sentido do termo no vocabulário urbanístico.
(9) SEVCENKO, Nikolau. As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.
(10) ROSSI, A. La Arquitectura de la Ciudad. Barcelona, Gustavo Gili,1982.
(11) BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información. Taurus, Madrid, 1997.
Referências Bibliográficas


ARANTES, Otília. “O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos”. São Paulo, Edusp, 1993

CASTELLS, Manuel. “A Sociedade em Rede”. Paz e Terra, São Paulo, 1999.

BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. “Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información”. Taurus, Madrid, 1997.

LE GOFF, Jacques, “Por Amor às Cidades”. UNESP, São Paulo, 1998.

ELIADE, Mircea. “O Mito do Eterno Retorno”. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949

GREGOTTI, Vittorio. “Território da Arquitetura”. São Paulo, Perspectiva, 1975.

HALL, Stuart. “Identidade Cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.

ROSSI, A. “La Arquitectura de la Ciudad”. Barcelona, Gustavo Gili,1982.

SALDANHA, Nelson. “O Jardim e a Praça”. Edusp, São Paulo, 1993.

SEVCENKO, Nikolau. “As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna”. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.

Nota complementar:
A edição do Infohabitar não quer deixar de registar a nota enviada pelo autor deste artigo no sentido de evidenciar o grande interesse da obra do jurista e fiósofo Nelson Saldanha, “O Jardim e a Praça”, acima referida e que é considerada como um trabalho fundamental na área do estudo sobre as esferas pública e privada.

Artigo preparado para edição em 2008-05-17, por António Baptista Coelho.
Artigo editado no Infohabitar em 2008-05-18, por José Baptista Coelho.
Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.

domingo, fevereiro 24, 2008

184 - Paisagem I: sobre a natureza da paisagem - Infohabitar 184

 - Infohabitar 184

Paisagem I: sobre a natureza da paisagem

Artigo de António Baptista Coelho


Vamos começar este primeiro número da série sobre paisagens com uma pergunta, e iremos terminá-lo com uma certeza.

“O que é uma paisagem? Uma noção mal dominada da qual o conteúdo varia com os modos de apreensão; um espaço sem escala nem geografia precisas que o homem compõe e recompõe segundo s seus meios e as suas aspirações; um local, um sítio remarcável único pela sua beleza e majestade.

A paisagem pode também compreender-se como uma arquitectura susceptível de ser racionalizada pois, como todas as arquitecturas, aquela dos paisagistas é, simultaneamente, ciência, técnica e arte …”

Foram palavras de Marc Emery (1) no editorial do n.º218 da revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , designada com o título Paysages, e o editorial intitula-se “Uma certa ideia de paisagem”, voltaremos a esta pergunta, assim como ficaremos, no final deste artigo com a excelente resposta de Alexandre Chemetoff, a uma ideia de paisagem, mas desde já se faz um esclarecimento, é que quando aqui falarmos de paisagistas nos referimos a todos aqueles que ajudam a fazer paisagens.



Fig. 01 – paisagem da Beira Alta

Sobre a questão do que é uma paisagem diz-nos Burle Marx (2) que há “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída”, e avança, ainda, sobre a natureza e a importância da paisagem afirmando que “além das implicações decorrentes das exigências económicas, não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia a sua razão de ser.” Uma afirmação crucial de Burle Marx, um dos grandes paisagistas do Século XX e um verdadeiro homem de renascimentos e de cultura, que aliou a concepção e a acção directa à reflexão sobre estas matérias.

Burle Marx deixa-nos assim o caminho estruturador neste nosso avanço sobre a natureza da paisagem ao apontar duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída, mas iremos aqui trocar, um pouco, as cartas pensando também, quer sobre como amparar a inelutável humanização de grandes partes de paisagem natural, quer sobre como naturalizar e suavizar a paisagem construída.

Nesta série de artigos, que poderão incluir, espera-se, participações de outros autores, iremos abordar alguns aspectos essenciais numa perspectiva de uma paisagem que se quer recuperada e regenerada e verdadeiramente qualificada pelo e para o homem. Muito há a fazer, grande é o desafio, mas grande também é o prémio que poderemos vir a ganhar com cidades formal e funcionalmente regeneradas em si próprias e na sua integração na natureza e no ambiente natural.



Fig. 02: Alfama, Lisboa

Nestas matérias da paisagem, o desenho da paisagem urbana ou natural é um elemento fundamental.

Sobre o desenho da paisagem urbana nunca é demais lembrar os trabalhos de Cullen e de Lynch (1960) e e sua defesa de uma cidade que tenha uma forte “imagibilidade”, (3) pois “quem sabe se tenha falado muito de forma e pouco de forma na cidade, daquela forma que vai da imagem urbana à imagem doméstica”, tal como defende Gonçalo Byrne (2000) (4):

Já há alguns anos Cullen e Lynch trataram aprofundadamente o tema do desenho da paisagem urbana, Kevin Lynch, repetida e diversificamente, numa perspectiva mais estruturada, que fez a ponte com o desenho urbano que vai até ao desenho do bairro integrado na cidade, assim como vai até aos tempos que se podem e devem expressar nas paisagens urbanas, enquanto Gordon Cullen, essencialmente num magistral pequeno tratado de como ler a paisagem urbana do pormenor (5), reinventou o desenho da imagem urbana verdadeiramente considerado na sua verdadeira importância urbana e de cidade habitada e portanto marcada pelo homem e pelas obras e actividades humanas, uma cidade percorrida a pé, fruída nas suas múltiplas dimensões e assim conhecida nos seus meandros e nas suas múltiplas e ricas variantes.



Fig. 03: azinhaga em Tavira

Lynch estabeleceu bases de estruturação, Cullen preencheu o campo de leitura do tecido urbano com múltiplas, lógicas e sensoriais referências de leitura e de vivência directa. E, já agora, há nesta leitura de proximidade tão cara a Gordon Cullen, uma leitura feita à escala do peão, uma grande e renovada actualidade nas cidades de hoje, que visam tantos critérios de sustentabilidade cívica e ambiental.

E, assim, no caminhar encontramos o “jogo” dos objectos urbanos, tão caro a Cullen e tão afectivo e efectivo, em que, tal como refere Vera Pallamin “cada um dos objetos é tudo o que deles os outros «vêem», pois coexistem num sistema... Ver um objeto, para Merleau-Ponty é vir a habitá-lo e, a partir dele, captar as coisas sob as faces que se lhe apresentam” (6).

Sobre a paisagem natural não falaremos aqui apenas de jardins, mas também falaremos de jardins na cidade, apontando a sua enorme importância em termos de um maior equilíbrio ambiental com reflexos numa cidade que tem de ser marcada por oásis de agradabilidade moderadores do ambiente urbano, mas também em termos de um papel próprio do jardim urbano como local de fuga positiva, de sonho e de aproximação íntima e pessoal à natureza que sempre está em nós, ainda que por vezes longe na memória, mas também local e ambiente de contraponto que nos faça, até, apreciar melhor o meio urbano intenso.

Nesta sequência de artigos falaremos de paisagem urbana e natural, de casos de jardins urbanos que são oásis de natureza numa cidade agreste, oásis inexplicavelmente irreplicados, e falaremos do natural na cidade e talvez da cidade no natural, abordando neste caso um pouco de tipologia do edificado, pois há, realmente, soluções de habitar e urbanas que se caracterizam por assinaláveis capacidades de integração de elementos naturais, enquanto que há casos, quase opostos, de grande dificuldade de integração mútua entre as referidas “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída”.

E não faz sentido qualquer tipo de antagonismo ou fundamentalismo, nem isso é natural, nem nunca dará bom resultado, ma reconhece-se que exige adequada e exigente capacidade de desenho/concepção, pois correm-se riscos seja de faltas, seja de excessos.




Fig. 04: Amoreiras, Lisboa

Outra coisa que aqui se fará, nesta pequena série sobre paisagens, é citar alguns autores quando falam de paisagens, mais publicas ou mais íntimas e pessoais, mais urbanas ou mais amplas e rurais ou marinhas, e tentar ilustrar essas palavras.

E outra coisa que se fará é mostrar algumas imagens de paisagens e comentá-las com rigor e com sentimento, pois rigor e sentimento fazem parte das paisagens do homem e têm de ser aliados numa paisagem harmonizada.

Será com um duplo exemplo destes que se concluirá este primeiro artigo da série.

Mas antes de um tal remate apetece dizer que esta preocupação com a paisagem e designadamente com a paisagem urbana, num sentido lato e que, portanto, tem de incluir a natureza na cidade, é hoje em dia uma preocupação fundamental para que se possa reatribuir verdadeira atractividade às nossas cidades, uma atractividade culturalmente consistente e sóbria, mas que também possa ser sentida por qualquer cidadão como uma atractividade sua, pois a cidade é provavelmente a mais rica construção do homem e nela ele tem de se rever todos os dias e em vários importantes momentos de cada dia.



Fig. 05: Zona Leste do Parque das Nações, Lisboa

Vamos então dar uma primeira resposta à pergunta feita, no início do artigo, sobre o que é uma paisagem:

“A paisagem não é uma arte. A paisagem não é uma teoria. A paisagem não é uma técnica. Não há paisagem, há paisagens, há jardins, há parques, há pracetas, há pátios, há avenidas com árvores, há praças, há colinas, há vinhas e campos de lavanda.

Há a casa onde nascemos e a língua que falamos. Há uma cultura ao mesmo tempo frágil e tenaz … aquela das paisagens.”


Palavras sábias de um outro grande projectista de paisagens, Alexandre Chemetoff (7).
E vai-se concluir este primeiro artigo sobre as paisagens, um artigo um pouco e premeditadamente caótico sobre um tema tão importante nas cidades de hoje, desde as pequenas cidades ou semi-cidades meio adormecidas, que precisam de vida e de carácter, às megacidades tantas vezes confusas que precisam de alguma paz e sossego e de urgentes elementos de reconciliação com a escala humana e com a natureza.

Falámos um pouco da natureza da paisagem, em geral, e especificamente de alguns aspectos de paisagem urbana e de paisagem natural humanizada, e fecha-se este exercício com a ideia de que mais do que paisagem há paisagens e que estas são muito decididamente paisagens afectivas, sentimentais, radicadas nas memórias e na(s) cultura(s).

Sendo assim temos realmente um verdadeiro “bico de obra” à nossa frente, para tentarmos uma certa refundação do papel e da importância das paisagens numa sociedade que favorece, quase exclusivamente, as avaliações racionais, materialistas e objectivas, todas elas muito pouco adequadas a um tal desígnio, pois: “A paisagem não é uma arte. A paisagem não é uma teoria. A paisagem não é uma técnica.”
E no entanto é tudo isso, e mais, porque:

“... Na cidade tranquila, há um jardim que só os namorados sabem” – Daniel Filipe, em “Discurso sobre a cidade”



Fig. 06: um pormenor do Jardim Botânico na Ajuda, em Lisboa.

E na relação directa com esta imagem e usando a memória da vivência do respectivo sítio e da respectiva ocasião em que este sítio foi vivido, pode-se afirmar que há realmente espaços de jardins urbanos onde, em certas horas do dia, quando conseguimos estar apenas nós e a natureza que ali está, encontramos algo cuja definição é difícil, mas que tem facetas de alegria profunda e calma, de relação com tudo o que vive e é visível e nos rodeia, e tem também aspectos de verdadeira paragem aparente do próprio tempo no sentido de conseguirmos viver plenamente todos aqueles ricos e longos segundos, que acabam por ser muito mais do que instantes; e não é só a natureza viva que nos toca, é também o sentido da beleza da natureza humanizada e ordenada que nos satisfaz intimamente.

Talvez nestes caminhos de verdadeira satisfação natural e estética possamos encontrar boas pistas para a crucial melhoria das nossas cidades e outras paisagens, e sem dúvida que são caminhos fundamentais na batalha urgente que há que começar a ganhar pela re-humanização do nosso grande espaço de habitar.

Notas:

(1) Revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , n.º 218, Paysages, Dezembro 1981.
(2) Jacques Leenhardt, org., “Nos Jardins de Burle Marx”, 1994.
(3) Kevin Lynch, “L'Image de la Cite”, 1976 (1960), p.12.
(4) Ricardo Carvalho, “Estou cansado de falar de forma – entrevista com Gonçalo Byrne”, Público, 16 Agosto 2000.
(5) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971). (6) Vera Maria Pallamin, “Forma e percepção – Considerações a partir de Maurice Merleau-Ponty”, 1996, (p.34).
(7) Revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , n.º 218, Paysages, Dezembro 1981.