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domingo, julho 25, 2010

305 - Olivais Norte: modernismo e natureza (i) - Infohabitar 305


Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Sobre a integração da arquitectura modernista: Algumas notas introdutórias a propósito do tema da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa António Baptista Coelho

Advertência ao leitor
Faz-se, em primeiro lugar, a seguinte advertência ao leitor: as breves notas que se seguem, e que abordam de uma forma podemos dizer “exploratória” a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, não pretendem ser: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma análise arquitectónica, ainda que parcial, do mesmo bairro; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.
Aproveita-se para sublinhar que qualquer uma das três análises que acabaram de ser referidas é, hoje em dia, vital e muito pertinente, pois já é tempo de se avançar na clarificação de alguns aspectos da Arquitectura e da satisfação residencial que tanto tocam os aspectos de concepção/projecto, como os rumos dessa satisfação, encontrando-se, afinal, alianças reais, mas, à partida consideradas pouco prováveis, por exemplo, entre linguagens formais despojadas e agrado vivencial; considera-se. no entanto,que estas são matérias a desenvolver noutros textos.
Fiquemos então com algumas breves notas sobre o que se considera ser a excelente integração natural e em termos de imagem urbana, proporcionada pelos exemplos de arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa.



Fig. 01: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

A perspectiva de leitura/análise adoptada


A perspectiva de leitura, talvez mais até do que de análise, que foi adoptada, foi a do indivíduo que passeia pelos espaços exteriores do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em seguida designado apenas por Olivais Norte, ou mesmo, apenas por bairro. Naturalmente que a formação desse deambulador não se pode descartar, mas tenta-se remetê-la para uma segunda linha, o que fica sublinhado até pela opção de não se referirem nomes de projectistas e datas de projectos e de obras, matéria que será referida noutros textos, embora se aponte, desde já, uma bibliografia sumária, sempre útil aos mais interessados.



Fig. 02: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Tipos de imagens mais frequentes e/ou dominantes


Quem deambula pelo bairro e não se perde, até porque não é fácil “perdermo-nos” em Olivais Norte, tanto pela equilibrada dimensão global do bairro, como devido a ter ele uma estrutura organizativa muito clara, está muito disponível para poder ser impressionado por imagens/enquadramentos que vão surgindo, e que tanto podem ser:

. dominantemente edificados;
. como expressivamente naturais e associados neste caso ao verde urbano;
. como fortemente marcados por fusões de massa edificada e verde urbano;
. como ainda por extensões espaciais e paisagísticas que nos inculcam sentimentos fortes em termos de espaços e ambientes amplos e caracterizados.


Podemos, naturalmente, considerar - e esta ideia aqui escrita exige um conhecimento prévio e directo, ainda que mínimo, do bairro – que nele se oferecem imagens globais – vistas “panorâmicas” (embora delimitadas, e a este tema já voltaremos) – e sequências de imagens, globalmente caracterizadas pela presença do verde e da natureza, que podemos até designar mais desta forma do que de “verde urbano”, na perspectiva em, que este último será, porventura, um verde mais “educado”, confinado e ordenado (por exemplo em filas de árvores de arruamento em caldeiras e ao longo das ruas).

Enquanto que em Olivais Norte o verde está, aparentemente, “livre”, orgânica e aparentemente desordenado e naturalmente dialogante com a massa edificada; e diz-se “aparentemente”, porque bem sabemos que este verde foi global e pormenorizadamente planeado e desenhado, não só nas suas implantações e misturas específicas, mas também nas formas e ambientes prospectivos que iriam assumir ao longo de dezenas de anos – mais um tema para um outro texto, sem dúvida, mas aqui precisa-se de um colega paisagista.

Temos assim, para sintetizar, uma natureza dominante, que poderemos designar de “bairro jardim”, designação, como sabemos, comum, mas que seria interessante substituir por algo do género “bairro parque” ou “bairro verde”; não sei, porque até continuo a gostar mais do termo bairro-jardim, embora neste caso talvez um bairro-jardim orgânico, ou mesmo um jardim romântico, embora sem quaisquer dos aspectos, relativamente, artificiais, habitualmente embebidos na fábrica do “jardim romântico” – de certa forma o romantismo aqui liga-se à afectividade e envolvência dos ambientes criados, uma matéria à qual tentaremos voltar neste artigo.

Mas, caros leitores, quando deambulamos pelos passeios, pelas sendas, pelos caminhos e pelos relvados/prados de Olivais Norte, somos tão impressionados por essa componente natural/verde, como pelos próprios edifícios, numa alternativa de leitura que pode variar, e varia, por vezes, de instante a instante, e que, provavelmente é uma das matérias-chave das ideias apontadas neste pequeno texto.



Fig. 03: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

O "prédio" na natureza, ou o edifício na natureza
O subtítulo que acabei de usar foi escolhido, exactamente, para tentar aproximar-me da sensação que tive, há alguns meses, numa das minhas frequentes deambulações pelo bairro, ou talvez pelo espaço “urbano verde” que o integra (ideia que me ocorreu ao correr das teclas numa não-ocasional inversão da ideia de “verde urbano”).

Estava, portanto, passeando numa vereda perto dos limites, ou melhor dito, do limiar (bem activo), entre Olivais Norte e a malha maior da Encarnação, quando deparei com a imagem-tipo do edifício embebido no verde, ou talvez deva desde já dizer do edifico modernista em total integração com uma natureza reconfigurada; e passou-me pela cabeça a ideia que há uma grande distância entre a ideia, considerada óbvia, de que a arquitectura modernista é, por “natureza” uma arquitectura da relação com a natureza e da “cidade jardim”, uma ideia que, depois, se aponta ter “x” problemas, desde os sociais aos económicos, embora se possa considerar até plasticamente positiva, e uma ideia real, sentida, experimentada e vivida, por exemplo, no nosso “bairro jardim” mais paradigmático e puro que é Olivais Norte, construído há cerca de 50 anos e aparentemente com uma expressiva continuidade de clara adesão de quem lá tem vivido desde então.

Naturalmente que nestas relações há que ir mais fundo do que pela “imagem”, mas fiquemos para já, neste texto, um pouco por aí, pois a imagem e a leitura que ela permite e suscita é algo muito importante para quem passeia e vive na cidade.





Fig. 04: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Algumas reflexões sobre aspectos formais

Abordam-se, em seguida, sinteticamente quatro aspectos: a questão da escala global e pormenorizada da intervenção; a questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença; e a questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada.
Tentemos abordar, ainda que brevemente e de forma exploratória, estas quatro questões/características na sua aplicação “tipo” em Olivais Norte.



Fig. 05: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(i) A questão da escala global e pormenorizada da intervenção, realizada no bairro: sobre esta matéria, quem visite Olivais Norte com o tempo necessário para poder passear pelo bairro com calma – e quaisquer duas/três horas permitem um conhecimento mínimo –, terá a noção de uma intervenção baseada numa escala edificada e numa edificação caracterizadas por uma forte relação com a dimensão e o uso humanos, aspectos estes presentes em inúmeras situações de pormenor e de relacionamento entre edifícios, entre edifícios e espaços exteriores e entre espaços exteriores.

Ora uma tal condição é, à partida, veículo privilegiado para poder haver uma atenção especial e focada dos habitantes/utentes relativamente às imagens urbanas e paisagísticas propiciadas no bairro e pelo bairro; atenção esta que é o primeiro passo para se estabelecerem relações imagéticas, funcionais e ambientais entre edifícios e natureza.



Fig. 06: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(ii) A questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença, no bairro e de certa forma uma questão central nas intervenções “modernistas”: sobre esta condição o que importa referir, à partida, é que mais do que visar a concepção de edifícios e de espaços exteriores específicos, se visou, em Olivais Norte, a “construção” de vizinhanças coesas de edifícos e de espaços exteriores, coesas, porque complementares e atraentemente contrastantes; e afinal não foi por se terem privilegiado as vizinhanças, ou os conjuntos de micro-urbanismo, que se proporcionou menos atenção às obras de Arquitectura e de Paisagem; não senhor, antes pelo contrário, do reforço da vizinhança e do micro-urbanismo salientaram-se e salientam-se hoje em dia as excelentes obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem.

E assim se entende melhor que se criaram as condições relativa ou potencialmente ideais para se salientar a relação e o interesse da relação entre essas obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem, e então como tais obras foram marcadas, sistematicamente, pela excelência “individualizada”, o conjunto, ou, melhor, os conjuntos multiformes e infinitamente variados em termos de pontos de vista – aspecto este ligado à própria natureza do racionalismo edificado em meio paisagístico – ficam indelével mas afirmadamente marcados por uma qualidade global, que é maior do que a simples soma das partes da qualidade individual das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada.


Fig. 07: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iii) A questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada, que é também uma questão central em todas as intervenções “modernistas” melhor qualificadas ou mais genuínas, e na matéria aqui em consideração, designadamente, na relação entre formas simples e racionais, pormenores depurados e materiais “verdadeiros”, todas estas adjectivações aplicadas aos edifícios (entre outros adjectivos possíveis), e uma natureza recriada com sensibilidade e também com verdade, em termos das formas e das espécies mais adequadas aos locais específicos e às relações globais e particulares com os elementos edificados e construídos com que se devem integrar.

Há que sublinhar, aqui, ter sido esta matéria específica aquela que despoletou, directamente, esta reflexão e esta nossa primeira incursão nesta temática: ter encontrado um edifício tão “simples” e tão bem desenhado, tão bem integrado num espaço natural bem composto e reconfigurado, uma pequena parcela de jardim ou parque orgânico, marcado pelos fundamentais objectivos de se procurar uma simulação reforçada de ambientes naturais característicos (ex., bosque, orla de bosque, prado, etc.).

E daqui resulta que da possível fusão, numa escala de vizinhança, portanto de grande proximidade, entre uma Arquitectura positiva e afirmadamente sóbria e atraente e uma conseguida simulação de um ambiente natural, resulta um efeito final, simultaneamente, de grande integração formal entre edificado e natureza, e também de uma insuspeita valorização, quer especificamente desse edificado, quer desse “recanto” natural; afinal, o tema de base que suscitou esta reflexão.


Fig. 08: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iv) Finalmente, mas nunca em último lugar, importa referir a questão da própria qualidade do desenho das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada, uma matéria que é evidente no bairro de Olivais Norte, sítio onde não há, por regra, lugar a arquitecturas edificadas e paisagísticas que estejam abaixo da excelência.

Sobre esta matéria específica muito haveria e haverá a comentar, mas fica sempre a ideia de que quando tratamos de fazer conjuntos urbanos e pequenos bairros de uma cidade que teve história e que quer continuar a fazer história, não deveríamos aceitar um nível arquitectónico exigencial abaixo da excelência, designadamente, quando se desenvolvem conjuntos com dimensão urbana significativa; afinal há um direito à criatividade, sem dúvida que há, mas tem também de haver um direito cidadão a essa excelência urbana e residencial com sentido amplo e de certa forma comsensual, e por aqui ficamos nesta temática para já.

Algumas notas complementares, mas importantes, que ficam por desenvolver

Várias são as questões que podem ser consideradas como formal e/ou funcionalmente complementares a estes aspectos de integração entre modernismo edificado e natureza reconfigurada, mas que, na prática têm tudo a ver com o êxito que se pensa ter sido atingido, pelo menos, neste bairro de Olivais Norte.

Apontam-se em seguida, sumariamente, algumas dessas questões, por regra associadas a determinados aspectos qualitativos, seja de micro-urbanismo, seja de concepção do edifício e da própria célula habitacional privada.


Fig. 09: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Um dos aspectos é haver vida de bairro em Olivais Norte, não sendo por não haver ruas e quarteirões e pracetas que deixa de haver no bairro uma estimulante vida diária, uma matéria que terá a ver, seja com a actual centralidade e a excelente acessibilidade urbana gozada pelo bairro, designadamente, em termos de transportes colectivos, seja com a existência de um pequeno “centro cívico”, verdadeiramente multifuncional e estrategicamente concentrado e bem situado/acessível a pé a todos os moradores do bairro. Mais desenvolvimentos do tema terão de ficar para outros textos.

Outro aspecto é ser necessário fazer contas sobre o que custa a manutenção do verde publico em Olivais Norte. Sem dúvida que será/é uma manutenção dispendiosa, designadamente, nas estações mais quentes, mas atentemos à situação de haver grandes extensões de “erva” e terra sob grandes árvores, onde é quase só necessário limpar, e haver grandes relvados e/ou prados cuja mecanização da manutenção será sempre possível e está já em parte desenvolvida, sendo eventualmente a actual opção por mão de obra intensiva uma escolha que eventualmente poderá visar uma perspectiva de criar mais emprego ainda que com base, eventualmente, em ordenados reduzidos.

O que se aponta aqui é, essencialmente, que há contas a fazer nesta matéria e haverá, provavelmente, lições positivas e negativas a retirar sobre formas de actuação paisagística desenvolvidas no bairro - temática a desenvolver desejavelmente em parceria com um colega paisagista noutros artigos desta série.

Ainda nas áreas da manutenção urbanística seria interessante realizar um estudo comparativo entre o que tem custado a manutenção dos troços viários de tráfego misto e das vias "clássicas" (rodoviárias marginadas por passeios) de Olivais Norte, e o que custa a aplicação corrente e isolada dessa mesma solução "clássica"; é que, pelo menos aparentemente, as referidas vias mistas do bairro parecem estar, em boa parte, intocadas e quase sem precisarem de manutenção desde há cerca de 50 anos.

Outro aspecto é considerar o verdadeiro nível de qualidade de vida e de saúde ambiental que é possível em Olivais Norte; matéria esta com enorme importância numa sociedade actual, marcada pelo stress e pela poluição - temática fundamental a desenvolver.

Outro aspecto a desenvolver refere-se a estarmos em presença de uma dos mais "acabados" e positivos exemplos portugueses de aplicação de uma rede pedonal estruturadora, embora bem conjugada com as vias para veículos, num conjunto residencial com grande dimensão.

E ainda um outro aspecto tem a ver com a verdadeira qualidade de desenho edificado e de “desenho de natureza” que foi aplicada em Olivais Norte, e aqui há necessariamente uma pequena história a fazer e ensinamentos a recolher, numa altura em que será cada vez mais vital assegurar essa qualidade.

Naturalmente estas são matérias a desenvolver e que terão grande importância num fundamentado aprofundamento dos processos que regem a satisfação urbana e residencial.


Fig. 10: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Comentários de remate
A título de remate global sobre a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, sublinha-se o que foi referido no início deste artigo, sobre não se ter pretendido fazer aqui: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma sua análise arquitectónica, ainda que parcial; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.

Deambulou-se pelo bairro, afinal “um bairro”, embora sem ruas com continuidade, sem quarteirões e sem uma afirmada continuidade física com a cidade central, e pensou-se, um pouco, sobre como a sua arquitectura modernista, predominantemente, habitacional constituiu, durante cinquenta anos, portanto durante meio século, e constituirá, muito provavelmente durante muito mais tempo, um verdadeiro trunfo citadino, de vizinhança e edificado com claro sinal positivo, tanto em termos vivenciais, como em termos culturais.

E um trunfo que em breve ficará ainda mais valorizado com a abertura da estação de Metro da Encarnação - e aqui aproveita-se para sublinhar que deveria ser assegurada uma re-estruturação viária e do estacionamento que, após a abertura da estação, garantisse a manutenção de uma paz residencial mínima aos residentes, enquanto, simultaneamente, proporcionasse condições favoráveis de estacionamento a um número significativo de automóveis - e salienta-se que se julga ser possível este tipo de solução e que é tempo de se acabar com intervenções parecelares e desintegradas em termos das condições funcionais oferecidas; é evidente que a abertura de uma nova estação de Metro irá gerar um movimento intenso de veículos de não-residentes e parece ser possível prever acrescidas condições de estacionamento e salvaguardar a paz residencial que constitui parte integrante do carácter do bairro.

Voltando ao tema centtal do artigo, para o concluir, podemos referir que, afinal, parece ser possível fazer “cidade modernista” coesa, atraente e viva; aprendamos pois, um pouco mais, com o muito que há para aprender em Olivais Norte – Encarnação, tanto nos aspectos globais e pormenorizados de concepção, que aqui não foram abordados, como nestes aspectos de relação entre “partidos”, racionalistas, depurados e muito bem qualificados em termos de desenho e uma natureza igualmente bem “desenhada” e com expressiva presença; uma excelente realidade que está, claramente, a “milhas de distância” dos infelizmente frequentes casos de mau desenho de "arquitectura" cheio de pormenores sem sentido e mal acompanhado por um verde urbano negativamente ausente ou tristemente fingido.

Em outros artigos desta série sobre Olivais Norte, que irá sendo editada sem qualquer ordem previamente definida, e a propósito deste excelente caso de estudo, serão abordados outros temas que caracterizam este bairro-jardim modernista e que têm toda a actualidade na mega-cidade actual.

Alguns documentos de aprofundamento (numa primeira e breve listagem)
ASSOCIAÇÃO DOS ARQUITECTOS PORTUGUESES (AAP), Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa (GUAL). Lisboa: AAP, 1987, 311 p.

COELHO, António Baptista – Qualidade Arquitectónica Residencial – rumos e factores de análise. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 8, 2000 , 475 p.

COELHO, António Baptista; PEDRO, João Branco – Do Bairro e da Vizinhança à Habitação. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 2, 1998, 530 p.

GABINETE TÉCNICO DA HABITAÇÃO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA – Principal Legislação da Habitação Económica interessando à cidade de Lisboa de 1912.07.26 a 1964.12.28, em boletim gth, vol. 1, n.º 3. Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa, 1964.

PEREIRA, Nuno Teotónio – As Casas Económicas, 1947 – 1969, em Jornal Arquitectos n.º 16, 17 e 18. Março/Abril. Lisboa, 1983, 4 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos (1947 – 1996, selecção). Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, FAUP Publicações, 1996.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Tempos, Lugares, Pessoas. Matosinhos: Contemporânea Jornal “Público”, Colecção Os Contemporâneos do Público, 1996, 144 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio (colaboração de António Baptista Coelho) – Os Olivais – experiência colectiva de uma geração, Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação. Lisboa: AAP, 1998, 8 p.

TOSTÕES, Ana (coord.) – Arquitectura e Cidadania, Atelier Nuno Teotónio Pereira. Lisboa: Quimera Editores, Catálogo, 2004, 331 p.

Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 25 de Julho de 2010

segunda-feira, maio 19, 2008

197 - O Jardim Ampliado – artigo de Milton Botler - Infohabitar 197

 - Infohabitar 197
Tem sido uma alegria frequente a entrada de novos amigos nesta pequena mas excelente aventura da edição no Infohabitar, e é, portanto, com uma muito especial satisfação que editamos hoje um novo colega, o arquitecto Milton Botler, com um estimulante texto sobre a ampliação da ideia do jardim no contexto da nova cidade globalizada.

É muito interessante a forma como estes novos colegas de edição chegam ao nosso espaço, um espaço que nos seus melhores períodos de 24 horas de leitura chega já a cerca de 800 consultas de artigos; e aqui chegam, como foi o caso do arquitecto Milton Botler, através da simples leitura de um dado artigo, neste caso o último que saiu, sobre o jardim e a cidade, e, depois, há o simples contacto com a edição do nosso Infohabitar e a nossa esfera editorial se alarga com naturalidade, enriquecendo-se todos os que aqui se reúnem escrevendo, lendo e enviando mensagens em que, frequentemente, manifestam a sua satisfação para com este nosso fórum semanal de discussão e divulgação sobre o habitar e a cidade alaragada de hoje em dia.

A todos os amigos que cooperam com o Infohabitar das mais variadas formas envia-se, aqui, um abraço fraterno, numa altura em que os indicadores das nossas leituras estarão no limiar do número 100.000; e chama-se a atenção para uma funcionalidade que se encontra no final da listagem da margem direita e que é um pequeno motor de busca por assunto nas edições do Infohabitar.



Foto: um jardim ampliado e bem humanizado no Recife, imagem de ABCoelho.

Esta introdução já vai longa! Portanto fiquemos então com o “jardim ampliado” de Milton Botler, a quem agradecemos este artigo, que não será, com certeza, o seu único artigo no Infohabitar, até porque se entende, no teor do seu texto e no excelente leque bibliográfico que suporta este seu artigo, que estamos em presença de alguém cujas preocupações muito têm em comum com as daqueles que têm dado vida ao Infohabitar e ao Grupo Habitar, preocupações amplas, fundamentadas, estruturalmente multidisciplinares e claramente sensíveis a um objectivo central que é fazer um habitar e uma cidade humanizados e com valia cultural.

E fica aqui a promessa deste editor de vir a fazer um artigo em que divulguem algumas imagens de casos de “jardins ampliados” do lado de cá do Atlântico e onde fale também, um pouco, destas excelentes matérias que podem e devem fazer o jardim ultrapassar as suas margens tradicionais; e a única imagem que aqui se junta é apenas um exemplo a título de confirnação firme deste compromisso; conte com isso caro colega Milton Botler.

Milton Botler é Arquitecto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, foi coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal e Ministério das Cidades e é actualmente assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil; e considerando o currículo e a simpatia do imediato envio deste excelente artigo, fica desde já aqui registado o evidente interesse de o Infohabitar poder vir a editar e divulgar outros artigos do autor em áreas temáticas cruciais para as cidades do século XXI e, designadamente, na área de uma reabilitação urbana humanamente sustentada.

E fica aqui o desafio para o envio de novos artigos sobre este fundamental tema duplo do “jardim e da cidade” e do “jardim ampliado”, quem sabe, talvez uma temática crucial neste tempo de mega-cidades.




Foto: o jardim e a mega-cidade, imagem de ABCoelho.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar




O Jardim Ampliado:Paisagismo e imaginário Urbano no Ambiente de Globalização


Milton Botler (*)


Nota introdutória sobre as imagens que ilustram o artigo: as imagens apresentam exemplos do caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais. O patrimônio local convertido em Shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas, praças e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”.

Este texto faz uma breve abordagem sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea e do paisagismo, na forma de ser interpretar a ordem e a organização dos elementos dessa paisagem.

Nos atuais processos de integração entre cidades são estabelecidos novos domínios e limites espaciais que conformam um “ambiente de globalização”. Genericamente, poderíamos entender esse ambiente como nos apresenta Castells (1999) (1), na forma de pontos nodais, os centros de comando para onde convergem os fluxos de uma sociedade organizada em rede.




Procuramos delimitar esse espaço na idéia de um “ambiente de globalização” que compreende, também, sua dimensão física, os usos, as atividades e as formas de sua apropriação. De um lado, ele é ordenado e organizado para representar o espaço de interação global das cidades e tende a se homogeneizar, também, enquanto ambiente e paisagem. De outro, ordenado e organizado para representar o espaço especifico, o lugar, tende a se diferenciar e a se diversificar. Trata-se aqui, evidentemente, de procurarmos situar a paisagem no campo das identidades locais (Cf, Hall, 1998) (2).



Foto 01 – Puerto Madero, Buenos Aires. Um dos grandes exemplos de requalificação de antigas áreas portuárias para criar um ambiente de globalização na América latina. Foto de Geraldo Marinho

O termo “paisagismo”, ou a atividade, conforme observou Gregotti (1975), está ligado à cultura arquitetônica, tomado da tradição do landscape: “para a arquitetura, a noção de paisagem como material operável, que supere a noção de “jardim”, nasce nos fins do século XVI e foi amplamente usado como elemento de estruturação da cidade barroca”. As origens modernas do “Landscape” estão associadas ao mito iluminista do bom selvagem, ao descobrimento cultural do mundo oriental chinês e japonês e à literatura de viagens; o próprio desenvolvimento do colonialismo recarrega de elementos sobrenaturais (a lembrança da floresta, do lugar selvagem) a natureza doméstica” (3).

Permitimo-nos retroceder nessa abordagem a alguns elementos semiológicos que julgamos pertinentes. De fato, a idéia de “jardim” foi colocada por Gregotti como uma contraposição entre a escala do espaço privado – sobretudo a do jardim oitocentista que recriava um microcosmo do espaço público para os interiores da burguesia francesa (Arantes, 1993) (4) – e a “escala geográfica” do paisagismo, estendida às cidades e às regiões. Assim, para a cultura urbanística, o jardim pode concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, enquanto a praça, da esfera pública (Cf. Saldanha, 1993) (5). Embora a noção de praça seja demasiado restrita para representar toda a complexidade de recriação de um microcosmo, papel desempenhado, por exemplo, pelos jardins sagrados de determinados povos da antiguidade, conforme observou Mircea Eliade (1992) (6).




Foto 02 – Rua da Moeda. Área de entorno do Paço Alfândega. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto Milton Botler.


Na ausência de uma imagem específica, a recriação, conceitual, de um “jardim ampliado” parece-nos, portanto, uma idéia mais apropriada para designar o papel do paisagismo no universo urbano: a ordenação e a organização de um microcosmo que agrega as mais variadas referências de representação da natureza e do artefato urbano para compor o lugar onde se vive.

No entanto, é do ponto de vista histórico que podemos percebe mais facilmente o processo de transformação da natureza e da busca por tentar representá-la para o interior do mundo urbanizado. Conforme observou Gregotti (Op. cit.1985), a crescente urbanização desencadeada a parir da revolução industrial tornou escassos os espaços e áreas verdes, sendo restringidos os elementos da natureza aos limites dos parques públicos – o autor estende a noção aos grandes parques nacionais.

Neste sentido, observa Le Goff (1997) (7) que “tornando-se um continuum, o espaço urbano já não se distingue tanto do espaço rural. Diminuída a diferença na realidade, ela só vem ampliada na imaginação. É assim que os ecologistas, procurando em vão o campo que escorre entre nossos dedos, aproximam-se do ideal da floresta que, na Idade Média, era, ao contrário, o lugar de repulsa. A floresta lhes parece de repente mais natural. Ela se torna, com uma imagem perfeitamente invertida, encarnação sedutora da natureza”.

As respostas do urbanismo moderno foram variadas, mas sempre voltadas à recuperação ou à recriação de uma natureza perdida, numa espécie de referência aos arquétipos do paraíso, próximo à representação do jardim do éden para a mitologia ocidental judaico-cristã.

As cidades jardins inglesas, preconizadas por Ebnezer Howard, por exemplo, consistiam num interessante modelo que buscou compatibilizar o campo e a cidade industrial, na segunda metade do século XIX. No centro dessa estrutura urbana definiam-se, material e simbolicamente, o parque e o jardim. Este último, uma idéia ampliada do espaço doméstico, estendido à esfera pública, como representação de uma noção de intimidade disseminada na Inglaterra, na era vitoriana – e que se conserva, ainda hoje, como elemento característico da identidade britânica.

A cidade industrial preconizada por Tony Garnier anteciparia o modelo funcionalista desenvolvido pouco mais tarde por Le Corbusier, cujos princípios urbanísticos foram consolidados na Carta de Atenas, em 1933. Ali, a cidade modernista seria pautada por ideário que acreditava representar o progresso da sociedade através do avanço da ciência e da tecnologia. Esse ideário compreenderia, sobretudo, um amplo projeto social concebido para um determinado “homem moderno” e atenderia, funcionalmente, às suas necessidades básicas: trabalhar, circular, habitar e usufruir o lazer. O “jardim ampliado” aparece no modelo “corbusiano”, principalmente, através da concepção do “pilotis” que tem como finalidade a liberação do solo para que a paisagem possa ser percebida e apropriada de forma livre e contínua – Brasília, possivelmente, representa a mais plena realização desse ideário.

A paisagem da cidade contemporânea, no entanto, começa a ser esboçada a partir de outros referenciais. Não mais voltada para um homem moderno, homogêneo e socializado, mas para um sujeito dividido entre o local e o global. Suas cidades, por extensão, são também projetadas para essas duas esferas. Não mais a cidade industrial, mas uma rede de cidades articuladas em torno de um setor terciário moderno, tendo como suporte um avançado aparato tecnológico por onde se movimentam os fluxos da economia global. Uma espécie de “jardim ampliado” de representação do espaço das elites gerenciais que comandam a economia global. Conforme observa Castells (Op. Cit, 1999) esses grupos hegemônicos situam-se de forma ambígua, entre o caráter cosmopolita das elites e o caráter local das pessoas: “O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história”.






Fotos 03 ­e 04 – Vista do exterior e Praça central do Paço Alfândega, no Recife. Antigo convento fundado no século XVII, convertido em depósito alfandegário e, hoje, em shopping Center. Foto de Fred Jordão/Imago

Uma certa dualidade entre a lógica da dominação, representada pela cultura global das elites, e uma lógica da resistência ou, da conservação (8), representada pela cultura local das pessoas. Assim, o caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, será predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais: shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas e praças; resorts, parques temáticos e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”, destinados à atender um determinado público consumidor e protegido por um tipo de fronteira sutilmente delimitada em “muralhas invisíveis”, como bem observou Sevcenko (1985) (9).


Num movimento complementar, são conservados os monumentos (cf. Rossi, 1982) (10), as referências urbanas de valor socialmente reconhecido que identificam e dão sentido à idéia de lugar. Contudo, é importante a percepção de que a recuperação do espaço referencial, tanto a arquitetura ou os fragmentos de uma “natureza original”, mantém aquela ambigüidade entre o local e o global: a rua do Bom Jesus, símbolo da recuperação do antigo bairro do Recife, serve de depósito de uma identidade histórica da cidade – das colonizações portuguesa e holandesa, da presença dos primeiros judeus nas Américas, do “afrancesamento” do centro urbano na primeira revitalização da região portuária, no início do século XX – mas seu sentido é semelhante, por exemplo, ao da Zona Rosa, na cidade do México, do Puerto Madero em Buenos em Buenos Aires, ou do Pelourinho, em Salvador. Consiste num sentido estratégico, de caráter global, da tradução do acervo cultural em “capital simbólico”.



Foto 05 – Rua do Bom Jesus, no Recife, Brasil. Antiga rua dos Judeus, do período da ocupação holandesa, onde está a primeira sinagoga das Américas. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto de Fred Jordão/Imago

Num sentido mais geral, o patrimônio cultural, notadamente o patrimônio edificado, passa a integrar o acervo ambiental, a identificar e pontuar uma diversificação de paisagens entre as cidades. O mesmo ambiente e aparato tecnológico que dá suporte a esse processo de regeneração das cidades possibilitam, por sua vez, um movimento de articulação em torno da conservação do planeta. Referimo-nos, é claro, ao emergir do ambientalismo na pauta da política internacional, ante a perspectiva de esgotamento dos recursos naturais e da própria vida. Nesse contexto, os limites da urbanização são redefinidos em função dos discursos construídos em torno do desenvolvimento sustentável – da exploração racional dos recursos naturais, da conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. Ao nosso ver, essas são algumas relações que permitem uma melhor aproximação sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea.




Figuras 06 e 07 – maquetes eletrônicas para o “Projeto Recife-Olinda”. Uma estratégia de inserção do centro antigo do Recife no ambiente da globalização desenvolvido pela Parque Expo de Portugal; imagens da Parque Expo.

As respostas do urbanismo são novamente variadas e reinterpretadas através de “Planos Estratégicos” e do “Projeto Urbano” (Cf. Borja e Castells, 1997) (11). Neles são selecionados os elementos estratégicos, prioritários, num conjunto de intervenções que, colocadas sob os limites da conservação ambiental, do desenvolvimento sustentável, visam recuperar a vitalidade urbana e integrar as cidades no ambiente de globalização. Nessa dinâmica, a paisagem urbana do ambiente globalizado retorna como objeto de recomposição. De reunião de elementos representativos de “padrões de qualidade de vida” que resultam, novamente, pelo menos na imaginação, em sucessivos “jardins ampliados”.


(*) Arquiteto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi coordenador do Programa de Reabilitação s de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal, Ministério das Cidades e atualmente é assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil.

Notas:
(1) CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Paz e Terra, São Paulo, 1999
(2) HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.
(3) GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1975.
(4) ARANTES, Otília. O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos. São Paulo, Edusp, 1993.
(5) SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça. Edusp, São Paulo, 1993.
(6) ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949.
(7) LE GOFF, Jacques, Por Amor às Cidades. UNESP, São Paulo, 1998.
(8) O termo conservação foi adotado como interpretação da idéia desenvolvida por Castells (1999) para abranger o sentido do termo no vocabulário urbanístico.
(9) SEVCENKO, Nikolau. As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.
(10) ROSSI, A. La Arquitectura de la Ciudad. Barcelona, Gustavo Gili,1982.
(11) BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información. Taurus, Madrid, 1997.
Referências Bibliográficas


ARANTES, Otília. “O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos”. São Paulo, Edusp, 1993

CASTELLS, Manuel. “A Sociedade em Rede”. Paz e Terra, São Paulo, 1999.

BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. “Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información”. Taurus, Madrid, 1997.

LE GOFF, Jacques, “Por Amor às Cidades”. UNESP, São Paulo, 1998.

ELIADE, Mircea. “O Mito do Eterno Retorno”. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949

GREGOTTI, Vittorio. “Território da Arquitetura”. São Paulo, Perspectiva, 1975.

HALL, Stuart. “Identidade Cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.

ROSSI, A. “La Arquitectura de la Ciudad”. Barcelona, Gustavo Gili,1982.

SALDANHA, Nelson. “O Jardim e a Praça”. Edusp, São Paulo, 1993.

SEVCENKO, Nikolau. “As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna”. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.

Nota complementar:
A edição do Infohabitar não quer deixar de registar a nota enviada pelo autor deste artigo no sentido de evidenciar o grande interesse da obra do jurista e fiósofo Nelson Saldanha, “O Jardim e a Praça”, acima referida e que é considerada como um trabalho fundamental na área do estudo sobre as esferas pública e privada.

Artigo preparado para edição em 2008-05-17, por António Baptista Coelho.
Artigo editado no Infohabitar em 2008-05-18, por José Baptista Coelho.
Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

127 - A árvore suporte do mundo no espaço urbano (II) – das árvores/jardins, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 127

 - Infohabitar 127

Celeste Ramos
Participação de António Baptista Coelho na ilustração (parte das figuras

Palavras-chave: ecossistemas globais [alianças florestais mundiais - floresta (mata) - continuum naturale-contínuo edificado]; REN urbana, estrutura verde urbana e corredor verde [pulmões urbanos]; árvore notável, árvore património e árvore viária [na estrada, no passeio de peão e alameda e no jardim público e privado]; água na cidade e fauna urbana; ecossistema urbano versus ecossistema humano [a alma das gentes e da árvore - espaços para a alma, o silêncio, a meditação e o divino - a música do vento e a árvore inspiração do poeta - a árvore que na copa capta o sol e na raiz capta a água]; o espírito da árvore e o espírito do homem


Resumo
Partindo de citação breve dos grandes agrupamentos fitossociológicos planetários a fim de ter uma ideia global das condições geo-edafo-climáticas que os determinam, passando pela caracterização de resinosas e folhosas, centra-se a forma como são "escolhidas" para o espaço urbano e referem-se as mais variadas funções na qualificação do espaço urbano e termina-se com apelo de geo-consciência e geo-cidadania.

Da árvore ao jardim uma excelente e crucial viagem urbana

Se for grande e muito arborizado qualquer jardim ou parque urbano, de tudo isto podemos recolher o prazer e ensinamentos da natureza sem precisar de sair da cidade, mas onde estão, nas cidades, esses grandes jardins? E o hábito de os frequentar?

Onde estão os grandes parques de periferia de equilíbrio ecológico e climático e de sinalização-verde da cidade, de recepção das grandes cargas pluviométricas previsíveis ou "anormais", lugares constantemente ameaçados pelo romper de mais estradas ou arruamentos e gigantescos equipamentos urbanos, e outras coisas da cidade, reduzindo-os a caricaturas de jardim e de espaços de protecção ecológica, que deveriam constituir as "cinturas verdes urbanas”, sobretudo nas grandes metrópoles, áreas também importantes para desporto e lazer, como é Monsanto (Mont Saint) ou o Bois de Bologne?

Fisiografia, solo e clima, determinam a existência das espécies, a não ser que se introduzam "exóticas", de que o melhor exemplo será o da Serra de Sintra de que foi responsável o rei D. Fernando de Sax e Cobourg, que por condição e amor às árvores e sua imensa variabilidade de formas e cor, coleccionou tantas espécies de quase todo o mundo que fez da Feteira da Condessa um verdadeiro Arboretum conhecido no mundo e visitado também por isso, parecendo-me que esse paraíso vegetal está actualmente no total abandono e degradação, sujeito a fogo e vandalismo, como tantas coisas preciosas e únicas do país, que tantos antepassados se preocuparam em trazer e humanizar para depois usufruir, privadamente, e mais tarde publicamente, e de que os melhores exemplos no país serão Serralves e a quinta do Convento de Tibães, com projecto de recuperação feito por arquitecto-paisagista, agraciado com prémio europeu pelo seu magnífico restauro.




Quase todos os climas do mundo

O país de norte a sul contém, também por condição de situação geográfica e orográfica, quase todos os climas do mundo (atlântico, alpino, euro-atlântico e mediterrânico) e, daí, a maior variabilidade do mundo vegetal, tanto na floresta como em culturas agro-fruti-florícolas, e tanto nas áreas de regadio como de sequeiro, que o FOGO, betão e betuminoso, expansão urbana e de Centros Comerciais, vão dizimando. Riqueza a que só alguns, muito poucos, dão valor, como se se tivesse implantado o "ódio à árvore" e aos Jardins e mesmo à terra agricultável – que é, apenas, 36% do território nacional segundo a investigação e execução da cartografia orientada por esse grande agrónomo Ário Lobo de Azevedo –, porque é “prioritária” a construção de equipamento de consumismo popular ou elitista como o golfe, ou é preciso que "o arquitecto" modernize aquela alameda ou outro espaço qualquer, que já fez história e é memória dos lugares e habitantes, mas que interesse tem? Se é preciso fazer e desfazer constantemente, porque a criatividade e desenvolvimento deste e daquele lugar só se faz "modernizando" desta maneira destrutiva e irracional, repetitiva e inútil a que os decisores nos habituaram como se fosse normal e inteligente? Não, não é, porque privado da sua história – paisagem-memória – um povo entra em degradação.

A tal propósito é oportuno citar a imagem que correu na TV1-20h de 12 Novembro 2006, de um milhão de ovelhas que os agricultores de Espanha levaram até à capital a fim de reclamar contra a destruição e o corte das áreas de pastagem, com 125 mil km de estradas e expansão urbana, de que Portugal é vítima não apenas com as famosas IPs, designadas de estradas-criminosas pela UE, por várias razões: local de implantação, desenho de traçado, declives longitudinais, ausência de separadores de trânsito central para a velocidade legal, destruição de pequenos e grandes relevos e respectivos micro-climas e ecossistemas, e, por fim, pelo desmantelamento de ecossistemas.

No país o problema agrícola foi resolvido da forma mais brutal. Pois que se deixou simplesmente de considerar o sector agrícola e a sua população, parte dela obrigada a demandar o litoral, abandonando-se a produção agrícola e tudo o que daí derivava de actos contínuos de âmbito de produção artesanal e cultural, só reanimada pelos emigrantes que nunca, por enquanto, desistem de voltar à sua aldeia, em férias de Verão e de Natal, reavivando tradições e costumes, mas com os dias contados porque seus filhos já construíram suas vidas fora do país.




Nunca vi nada, nada que valha a Pena

"Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto e nunca vi nada, nada que valha a Pena. É a cousa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro Jardim de Klingsor e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal" – Richard Strauss.

Já decorreu muito tempo sobre a acção dos "Monges agrónomos" - os Beneditinos - com o seu amor ao cultivo da videira para produção do vinho de celebração da Missa, e das flores para o Altar, e de árvores de fruta, que deram fama a Alcobaça de que resiste muito pouco, porque os decisores insistem, desde 1986, no país florestal (que ardeu) e não no país agrícola que tem 2 mil anos, porque os produtos agrícolas "alheios", dizem, são mais baratos, embora sejam apenas produtos químicos que há muito põem em perigo a saúde pública, sendo que França já voltou atrás muito recentemente, recuperando a sua agricultura-ecológica.

E ainda assim somos o país mais velho do mundo na delimitação das fronteiras físicas, tendo também, sem ser por acaso, a mais velha zona agrícola demarcada do mundo, a região do Douro, que faz agora 250 anos, mais velha do que alguns países tidos como desenvolvidos e fazendo parte do grupo restrito dos que decidem a vida do resto do mundo. Pobre país que perdeu a sua independência alimentar e de tão alta qualidade, pois que a sua gastronomia continua a ser apreciada mundo fora, e é cartaz turístico associado a saberes respectivos do cultivo da terra, bem como a manifestações culturais ancestrais, que se vão perdendo, quebrando-se uma longa cadeia de interdependências saudáveis, produtivas e autosustentáveis, perdidas nos jogos políticos indecifráveis e empobrecedores da própria cultura primordial nacional, e sabendo-se, contudo, que nenhum país do Clube Europeu, tão recentemente criado, destruiu um único m2 agrícola.

E é, assim, o país obrigado a importar o que "come", sem que se vislumbre qualquer opção até porque, por outro lado, os jovens abandonaram o interior produtivo e não irão mais deixar a cidade, os que ficaram envelhecem e morrem, ou suicidam-se e os poucos resistentes não são bastantes para recuperar e reanimar tudo o que se perdeu em escassas dezenas de anos em que se destruiu o que se construiu em 2 mil anos – pão e história e tradição nunca recicladas ou reabilitadas.




Sobre as velhas árvores e sobre o que não faz qualquer sentido

Pobres as árvores que levaram dezenas e centenas (ou milhares como as oliveiras - Olea sativa ou Sequoias sempervirens) de anos a ser Árvore e a conquistar o seu ecossistema de árvores de sombra que abriga, de árvores e arbustos de orla ou de clareira, e que, em minutos, a serra mecânica corta e transforma em lenha, inútil, dizimando-se o clima e a fertilidade do solo, pobres as árvores de espaço urbano que, igualmente, têm de dar lugar ao betão.

E é interessante focar como as velhas oliveiras que restaram em Lisboa (em Portugal há figueiras e oliveiras de norte a sul e de este a oeste), mesmo milenares, são muitas delas transplantadas, como é o caso do Jardim a que deram o nome “Jardim das Oliveiras”, no CCB; oliveira, a Árvore dos Santos Óleos dos cristãos do Mediterrâneo e ainda hoje respeitada pelos Judeus portugueses, cujo óleo é usado para cerimónias especiais da sua religião, afirmando-se que a qualidade do seu azeite é de valor superior, sobretudo o das oliveiras que ainda persistem em Trás-os-Montes.

Não será que a árvore também sofre? Não será que também a árvore tem alma?

Sobre a árvore centro de vida

E os animais da fauna cinegética (aves e mamíferos) que abriga bem como todas as espécies vegetais que à sua sombra se desenvolvem? E as colmeias? E todos os produtos dela derivados que são vida e economias e património do país e do mundo global? E que são igualmente ecossistemas de áreas ribeirinhas e outras zonas húmidas, que são local privilegiado de aves migradoras que, sem local de alimento e nidificação, se vão extinguindo, e que a UE insiste, através de Directivas, em fazer conservar nos países do sul (e do Sol) tanto as Aves como os Habitats.

E o como se destrói o seu húmus doce (mull), que a chuva ajuda a fazer escorrer encosta abaixo para fertilizar e ajudar a determinar o zonamento agro-silvo-pastoril; para além das sementes que vai "semeando".

Ora desta multiplicidade de árvores produtivas e benfazejas, incluindo árvores de fruto, o homem urbano escolheu algumas para as introduzir no seu espaço de habitar .




A cidade jardim no miolo dos quarteirões

No miolo dos quarteirões, fez pomar e horta-jardim quase como reminiscência da sua origem rural ancestral, plantou figueiras e nespereiras, pessegueiros e amendoeiras e pilriteiros, fez horta de legumes que consome ao longo ao ano, e não se esqueceu de plantas ornamentais como a bouganvillea, a roseira e os jarros, os narcisos e as dálias, e tantas outras espécies de jardim, que há pouco tempo ainda se assomavam aos muros de delimitação do casario nobre ou menos nobre, ou eram por outros vistos de andares mais altos, regalo para o olhar e memória ancestral e, ainda, terra permeável que absorvia grande parte da queda pluviométrica alimentando toalhas freáticas urbanas, e assim amenizava o clima, através da evapo-transpiração no Verão, e permitia respirar ar puro e nunca ozono e que, a seu tempo, impedia as enxurradas, que apenas há uma vintena de anos aumentam de intensidade e gravidade; e que, no Inverno, já sem folhas, deixavam olhar o Sol que aquecia a cidade.

Hoje, esses quarteirões são locais de densificação urbana ou de construções auxiliares para estacionamento automóvel ou, simplesmente, lixeiras colectivas dos materiais mais imprevisíveis, que se abandonam, porque "educação ambiental" é, também, assunto escolar de meninos, para desenhar e aprender a brincar, sem intenção de ir formando cultura e consciência.

Os jardins de traseira, tão importantes como os pequenos jardins de quarteirão, cheios de árvores e arbustos e plantas anuais, que se enchiam na primavera de pássaros de telhado e andorinhas, que voltavam na primavera ao mesmo lugar, já não existem nem fazem história, mas não são merecedores de qualquer manifestação na Avenida da Liberdade; porque qualidade de vida, sobretudo desde a década de 80, não passa de peditório de aumento salarial, porque a tal se resume a exigente cultura urbana portuguesa.


A cidade histórica desmorona de esquecimento e desprezo. A VIDA começa a morrer na Cidade.

A ecologia urbana passa a ser diferente e os habitantes animais são outros, como as formigas, as baratas e as ratazanas e a insalubridade geral, porque os funcionários da CM envenenam os pombos e dizimam cães e gatos "vadios", pois que já nem esses habitantes "tradicionais" existem, porque não é sinal de se ser civilizado nem mesmo nos bairros periféricos e mais "familiares".




A Árvore na Cidade

Assim a ÁRVORE na Cidade, seja a de arruamento (ou alinhamento) em fileira única ou em alameda, em sebe para protecção do vento ou divisão de propriedade, ou maciço em Jardim, isolada como exemplar-património, em enquadramento paisagístico de edifícios singulares, não é mais do que a que foi escolhida nos ecossistemas naturais por poder adaptar-se às mais difíceis condições de poluição e exiguidade de espaço, tendo o "jardineiro" imitado em espaço artificial os ecossistemas naturais de que o mais brilhante exemplo é o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ou quase "torturando" os seres vegetais obrigando-as ao desenho mais geométrico obedecendo à planta do espaço ajardinado ou mesmo domesticando-lhe a forma natural de que Vaux-le-Vicomte será o mais belo exemplo de jardins do mundo, desenhado pelo erudito jardineiro e hidráulico Le Nôtre para o ministro das finanças de Louis XIV, que logo encomendou a construção de Versailles, num pântano, sendo que Villandry, no Vale do Loire, do séc. XVII, é igualmente de grande beleza, sendo duplamente jardim de prazer e de ervas de cozinha, horta e pomar, mas sendo que, em Versailles, continua a existir o "Potager du Roi", embora se tenha destruído, em Serralves, a área de Horta, para construir Museu de Arte Moderna desenhado por altamente premiado arquitecto - sem opção, porque para arquitecto das pedras não há opção para arquitecto-paisagista.

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim. Sempre o homem procurou o divino nas estrelas do céu, mas foi nos jardins que o encontrou e lhe chamou Éden. Dos jardins suspensos da Babilónia chegou-se ao esplendor do jardim formal obrigando as plantas a conterem-se na forma artificial até que o próprio homem se libertou da sua imposição à natureza libertando-a à sua forma natural com o jardim à inglesa.

A árvore na cidade já pouco é indicadora das quatro estações do ano com as suas folhas perenes ou caducas exibindo todas as cores de doirado a castanho e ferrugem de Outono, não dá ninho e alimento aos pássaros e não obriga o cidadão a lembrar-se como é a natureza e o clima e como são os ritmos naturais, como acontece no espaço rural que ainda é habitado, a árvore já não transpira no Verão para equilibrar a humidade relativa do ar, juntamente com a evaporação da terra, que já não há por ter dado lugar ao betuminoso, sendo assim quase nula a evapo-transpiração; e assim a temperatura média urbana alterou-se porque as áreas são de matérias artificiais acumuladoras de calor, a árvore já não é agente de infiltração da chuva através dos orifícios criados pelas suas raízes, porque nos jardins já só há cimento e as caldeiras são calcadas e impermeabilizadas pelo automóvel que sobre ela estaciona.
Há/houve árvores na cidade

Há árvores de folhas persistentes e outras, cujas folhas são caducas.Mas o que me faz confusão, é que andem nuas no invernoe vistam um sobretudo de folhasno verão!
FolhagensJorge Sousa Braga, Herbário (1999)

Era uma árvore no passeio
E fosse tempo claro ou feio
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho
E foi vivendo. Viveu gasta
músculo e flama de ginasta
quanto mais uma arvorezinha
meio garota de sobrinha




Carlos Drummond d'Andrade, Mola de Bolso


A Árvore já não existe nos separadores de trânsito centrais que foram destruídos para alargar o número de faixas de rodagem ou, nos que existem, a terra foi tapada por betuminoso para servir de estacionamento automóvel, que não pode ficar sujo de lama.

O homem urbano só olha para a árvore quando os seus ramos lhe entram pela janela ou lhe tapam a vista e quer ver cortadas, mas é capaz de se queixar da sua ausência quando o calor de verão aperta.

Com o sol a trepar pelas árvores
Não tardará
que a manhã corra mais limpa
e se possa beber

Véspera de Sol
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra, 1982





Cidades "plantadas" à beira-rio



São muitas as cidades "plantadas" à beira-rio, mas nem todas têm um rio tão largo, um rio tão belo como o Tejo, que não é apenas ocupado com os transportes públicos como a maioria dos que atravessam a cidade ao meio, partindo-a e desligando-a, porque os serviços tomam conta dela pois que o Tejo separa e une as cidades que se implantaram na borda do seu pequeno "mediterrâneo" - O Mar da Palha -, na cidade-capital que lhe é "sobranceira" do alto das suas colinas, sentinela vigilante de ambas as margens, tão maltratadas e mal aproveitadas para usufruto da população que as invade logo que o tempo seja de sol.

Haverá muitos rios belos como o Tejo mas não há nada mais belo do que o Rio da minha aldeia/cidade e com as áreas verdes, que entram na cidade e se vão ligando aos grandes e pequenos jardins privados e públicos, por ela dispersos, perfaz o Continuum naturale.

Morreu no Tejo a gaivota mais esbelta
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos
Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos de poetas embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor de velas, embalai-a


Tejo – elegia para uma gaivota, Sebastião da Gama – Campo Aberto


Tu que passas por mim tão indiferente
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente
do mar a nascente
és curso do tempo já vivido
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo ??

Por isso, à tua beira se demora
aquele que a saudade ainda trespassa
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora
só um homem a olhar o que passa
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo !

Um voo desferido é uma gaivota
não é o voo da imaginação
gritos não são agoiros, são a lota ...
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo

Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade
Saudade tenho sim, mas de perder
as águas vivas da realidade
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu em mim que me vejo !

O Tejo corre no Tejo, Alexandre O’Neill - Feira Cabisbaixa





O fantástico século XX



Depois da II Guerra Mundial o mundo parecia regenerar-se e engrandecer e dar espaço ao enriquecimento material já que à libertação do feminino no virar do século XIX-XX se seguiu, nos anos 60, o movimento juvenil de S.Francisco do flower-power, make love not war, que foi o primeiro "ensaio já de escala mundial" de resposta à liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução francesa, pois que também nasciam novas nações submergidas no colonialismo.

Mas a segunda metade do séc. XX foi, em paralelo, o tempo de maior desenvolvimento, de todos os tempos, de todas as ciências e tecnologias que se por um lado vieram em benefício do Homem, por outro, foram de destruição até ao actual nível de agonia da Terra-Mãe, a Gaia, planeta sagrado. Da individualização imperou o individualismo, mas estando mais uma vez atentos, os jovens que são sempre o sangue novo e a seiva do mundo, construíram a universalidade do amor entre todos sem distinguir nem famílias nem idades, nem mesmo nações, de que vocês são, todos, o produto final como se se tivesse finalmente encontrado o ecossistema global Terra-Homem.

Da grande escuridão do Poder da Igreja e dos Estados, ou mesmo da família, começa-se a ver acenderem-se cada vez mais velinhas no mundo de que vocês já fazem parte e que disso têm de ter consciência e, agora, não apenas em termos de relacionamentos humanos, mas também da relação HOMEM-HABITAT, dando continuidade a esse Geo-instante para construção de uma Geo-consciência de Geo-cidadania, ou não estivéssemos já numa total visão do sentido da globalização, não da selvagem que vigora, mas daquela que vos pertence continuar como tarefa gigantesca, sob pena de estar em perigo não apenas a Terra mas também o homem e a vida global, homem que, apenas em 50 anos, desbaratou o que a Gaia ofereceu depois de se ter engalanado em festa durante 4 mil e 600 milhões de anos para que estivéssemos aqui.



A esperança


Eu que herdei o passado de que vos falo e atravessei a grandeza e queda do Homem e do Planeta só posso, como ser vivo no fim da linha da vida, confio na juventude, e por isso digo que os jovens portugueses não são já só portugueses, mas sim pessoas globais, apenas se distinguem dos outros jovens pela língua-mãe e talvez por uma alma tão diferente das dos restantes países, alma-colectiva e riqueza nacional a preservar neste mundo global mal entendido de estandardização dos gestos da vida.

Que parte cabe a cada cidadão, e a cada jovem, para manter viva a tradição-memória definidora da nossa cultura, e seguir um bom caminho? Cabe às novas gerações tratar, como trata a sua casa, esta Gaia e dela ser vigilante responsável não apenas em termos de local de habitar nem mesmo de território nacional, já que a Natureza não tem as fronteiras que o Homem desenhou para criar países, pelo que, hoje, no mundo global de gestos e costumes semelhantes, aculturados e hibridados, o que fizermos na nossa “casa” reflecte-se além fronteiras próximas e longínquas, porque só há uma Casa, o Planeta Azul.

A função das árvores

Nos cinco continentes, as árvores, na sua maior diversidade têm todas a mesma função de suportar o mundo e o clima e a vida global.

Formas imponentes à beira rio, nas montanhas geladas ou nos vales, e mesmo nos oásis dos desertos de areia. Esculturas vivas definidoras geoestratégicas e geoclimáticas de todas as longitudes e latitudes do planeta.

Lições de vida do ser e no estar no “lugar identificando-o diferenciadamente, dele tomando a identidade e, aqui sim, o termo sustentável colhe a sua maior expressão e significado. Mas multiressistentes e adaptáveis o homem colheu-as de um lugar e levou-as para mais perto de si, mesmo para ao-pé-da-porta e por isso nos permitiram conhecer de perto o que estaria só tão longe.

E se o país pequenino em dimensão física pela sua situação geo-gráfica-climática na ponta mais ocidental da Europa, solo e relevo, é repositório da maior variabilidade de árvores atlânticas e mediterrânicas, também, recebeu as muitas exóticas para aqui trazidas ao longo de séculos por reis ou viajantes, que tão bem se adaptaram não se sentindo “estrangeiras” nesta “nesga de terra rodeada de mar”. E assim sendo é repositório de espécies arbóreas dos cinco continentes, neste rectângulo “quase” de oiro.

Mas riqueza tamanha foi transformada em “achas para a fogueira” e tal que, desprotegidos os solos a chuva os faz aluir e descarnar até às pedras-mãe (rocha-mãe), fazendo jorrar a pouca vegetação que resta e o solo fértil transformado em lama até entrar na habitação e mesmo em património monumental provocando enxurradas catastróficas, pobreza e dor, apesar de chuvadas com queda pluviométrica normal, própria do clima português de características ancestrais de instabilidade.


Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária

Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária – vida – beleza – livro de leitura e de aprendizagem também das quatro estações do ano e da sua dimensão de abrigo de outros seres que dela dependem. Na área geográfica de clima planetário equatorial e Ásia das Monções, as árvores são eternamente verdes (abundância de calor e chuva todo o ano – duas estações – das chuvas e do cacimbo).

Cada árvore, porém, ao ser deslocalizada, mantém, em outro lugar, as suas características genómicas.


PLANTAI ÁRVORES


PLANTAI VIDA


Lisboa 28 de Outubro a 8 de Novembro - Bairro de Santo Amaro
Maria celeste d'Oliveira Ramos
engª.silvicultora e arquitecta-paisagista

Refere-se, em seguida, um elemento bibliográfico fundamental nestas temáticas:
Contributos para a Identificação e Caracterização da Paisagem em Portugal Continental (+ volume Açores)”
Editado pela DGOTDU-Projecto co-financiado pela Comunidade europeia - FEDER - Programa Interreg II C – Sudoeste europeu
Edição elaborada pela Universidade de Évora - departamento de Ordenamento Biofísico e Paisagistico, 2002
Coordenado pelos professores arquiectos paisagistas - Alexandre Cancela d'Abreu ,Teresa Pinto Correia e Rosário Oliveira
Sete livros: uma caixa de cartografia das unidades de paisagem do país e um CD – preço 100 euros


Texto-base de conferência proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.

Revisto para publicação no Infohabitar e re-ilustrado por António Baptista Coelho, em 11 de Fevereiro de 2007.

Editado por José Baptista Coelho, em 22 de Fevereiro de 2007


Nota do editor:
Acaba aqui este novo excelente e grande artigo de Celeste Ramos que foi editado esta semana e na semana passada aqui no Infohabitar com o título e sub-títulos: “A árvore suporte do mundo no espaço urbano: (I) dos homens-árvore às florestas de resinosas e folhosas; e (II) das árvores/jardins”.
Este artigo corresponde ao texto-base de uma conferência que foi proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.


Alguns sites que “falam” de árvores:

http://www.dias-com-arvores.blogsopt.com/

http://arborday.org/trees/majTreesMain.cfm

http://asiatours.net/press/en/images-laos.html

http://www.europanostra.org/images/awards_2004_winners/buckelwiesen2.jpg

http://fount-k.com/~tomo/sumb/yun_2654.jpg

http://www.owlfish.com/weblog/2004/10/toronto-autumn.jpg

http://www.britishacorn.com/tourism/sandalwood/index.html

http://www.fireflybooks.com/travel/new.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Jakarta_silhouetto.jpg