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terça-feira, abril 18, 2017

607 - As grandes cidades e a origem das cidades - Infohabitar 607

Infohabitar, Ano XIII, n.º 607

O homem foi moldando o espaço às suas necessidades, e tudo bem enquanto o homem não teve o poder necessário para de subverter a ordem natural e paisagística; aí começaram os problemas graves, hoje tão evidentes e tão críticos.
Para não nos sentirmos, hoje, no início do século XXI, excessivamente culpados, da fealdade e do caos urbano que nos rodeia, importa ter presente que a realidade da “super-urbanização” com a criação de metrópoles gigantescas e a referida e terrível subversão das paisagens é um fenómeno que aconteceu, de certa forma, há “instantes” na história do homem moderno.
Provavelmente uma das primeiras (pequenas) cidades foi Jericó (com cerca de 1000 habitantes em 2,5 hectares), que se situou/situa na actual Palestina, tendo surgido há cerca de 10.000 anos (ainda hoje existe uma cidade com esse nome, julga-se que sensivelmente no mesmo local), e as grandes metrópoles actuais, que são verdadeiras regiões/países, das quais é exemplo muito significativo São Paulo – com os seus 10 milhões de habitantes e 16 milhões na região metropolitana –, eram apenas grandes cidades em meados do século XX. São Paulo tinha no início do século XX um pouco mais de 130.000 habitantes e cerca de três milhões no início da década de 60 do mesmo século.


E em tudo isto também é esclarecedor constatar que, embora o fogo tenha sido dominado há cerca de 500.000 anos (meio milhão de anos num planeta com cerca de 4.500 milhões de anos), o homem moderno (sapiens-sapiens) tem, “apenas”, uma história de cerca de 150.000 anos e uma história cultural mais consistente entre cerca de 30.000 e 50.000 anos (mas os primeiros hominídeos viveram há cerca de cinco milhões de anos).
O pensamento simbólico e a arte parece surgir (só) há cerca de 35.000 anos, quando a esperança de vida aumenta significativamente - de cerca "de 15 para 30 anos e os humanos se tornam mais sábios” (artigo de Maggie Fox no Público) - pois começam a tomar conta e a dar valor aos mais velhos e mais fracos, sendo aqui essencial o desenvolvimento de um conjunto encadeado de relações de afectividade e de solidariedade e a associada e gradual valorização da experiência e do contar da mesma, entre gerações, numa perspectiva que também faz valorizar a cultura e a identidade.
E é assim que o desenvolvimento do pensamento simbólico e da arte antecipa, afinal, a própria invenção, primeiro, dos pequenos espaços urbanos constituídos por orgânicos aglomerados de casas, sem ruas, e depois do sistema de casas ligado e separado por ruas e outros espaços de invenção do sentido cívico, de que é exemplo a tal pequena cidade de Jericó iniciada talvez há cerca de 10.000 anos, e que terá sido, sem dúvida, antecedida por muitos pequenos povoados cuja localização se revela, naturalmente, muito difícil.



A ideia que neste pequeno texto se quer deixar é que não sabemos nem, verdadeiramente, podemos saber lidar com o tecido urbano das super-cidades e da super-urbanização, pois não temos experiência prévia de tais situações. A história da vida urbana é, realmente, muito curta e não temos possibilidade de actuar segundo a experiência adquirida nas grandes cidades, pois aqui estamos a entrar constantemente em novos territórios.
Podemos, sim, avançar, positivamente, com ideias fortes, ideias claras e positivas sobre valores acima de qualquer dúvida, como é a defesa e a valorização, sem tréguas, da paisagem natural e do património urbano e rural.
Naturalmente, há que continuar a moldar o espaço deste planeta às necessidades humanas, mas necessidades estas que devem também ser, cada vez mais, exigentes e esclarecidas; às vezes certas necessidades não serão provavelmente verdadeiras necessidades, mas sim resultados de circunstâncias e situações.
A este nível, por exemplo, a questão da maior ou menor necessidade do veículo privado na cidade é algo que merece reflexão muito séria, pois provavelmente tal presença faz cada vez menos sentido; mas tal reflexão tem de ser obrigatoriamente articulada com outros aspectos e exigências de qualidade de vida, caso contrário corre-se o risco de o doente poder até morrer do remédio – o péssimo resultado para a sustentabilidade urbana que resultou do desenvolvimento de amplas zonas pedonais como sucedeu em São Paulo é exemplo vivo e constatável de uma importante faceta desta problemática.
Como acima se disse, o homem foi moldando o espaço às suas necessidades, e tudo bem durante os mais de dez mil anos em que não teve o poder necessário para, com a desculpa de tal adequação, contribuir criticamente para a subversão da ordem natural, paisagística e cultural, com um sentido amplo.
A qualidade de vida das populações era provavelmente uma preocupação pouco presente, quando a vida corria lentamente e as transformações espaciais urbanas e habitacionais sucediam com cadências extremamente lentas, de certa forma de acordo com o ritmo de vida lento que aconteceu até provavelmente meados do século XX; basta pensar um pouco sobre aquelas fotografias que vemos dos anos 40 e 50 em Portugal e também atentarmos nos filmes da época.
A partir de certa altura tudo adquiriu uma rapidez por vezes agressiva e explosiva, pensando na expansão urbana, e quando tal aconteceu não havia critérios “à altura” para racionalizar tal explosão dobrando-a no respeito pela salvaguarda da qualidade de vida das populações; provavelmente nem as populações tinham a noção de que deveriam poder ter essa qualidade de vida.
E aqui há também que considerar o que é, ou o que deve ser realmente considerada, a “qualidade de vida”. Será que é algo por todos assumido da mesma forma? E se acontecer, como parece provável, que haja diversas formas de entender e viver essa qualidade de vida, não haverá aspectos que devam e possam ser intensamente divulgados como fundamentais e potencialmente generalizáveis? As tais ideias fortes, claras e positivas sobre valores acima de qualquer dúvida, como é a defesa e a valorização, sem tréguas, da paisagem natural e do património urbano e rural.
E para se avançar desta forma não podemos ser excessivamente optimistas e confiar inteiramente na boa vontade, na racionalidade, na ponderação, na sensatez e na imparcialidade dos actores envolvidos nas decisões sobre essas temáticas.

Lisboa, Encarnação, 18 de Abril de 2017

Notas finais: este artigo foi editado, originalmente, na Infohabitar em Setembro de 2005, tendo sido revisto e atualizado para a presente edição, mas apenas de forma muito ligeira, de modo a manter-se o sentido essencial da edição original.

António Baptista Coelho
(texto e desenhos)


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 607
Agradecimentos da Semana CIHEL2017
Editor: António Baptista Coelho – abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, outubro 26, 2009

269 - Uma cidade atraente feita de densidades e imagens estimulantes - Infohabitar 269

artigo de António Baptista Coelho

Infohabitar, Ano V, n.º 269
Série habitar e viver melhor, VII:
Uma cidade atraente feita de densidades e imagens vitalizadoras


Nota inicial à presente edição deste artigo: o artigo que se segue corresponde a uma edição revista, comentada e significativamente complementada e re-ilustrada, de um artigo anteriormente publicado no Infohabitar, e que aqui é integrado na Série "habitar e viver melhor"; a ilustração é, no entanto, ainda genérica e indicativa, podendo vir a ser, posteriormente, realizada, em novas edições,numa opção mais desenvolvida e sistemática, que inclua um número significativo de figuras comentadas.

Segundo Christian Norberg-Schulz, o encontro implica proximidade e densidade em termos espaciais, e este autor defende, também, que o encontro - podemos dizer a convivialidade - decorre também da variedade, afirmações estas que muito longe nos levarão quando nos lembramos dos grandes conjuntos habitacionais repetidos até à náusea. E Norberg-Schulz sublinha que uma tal exigência de variedade obrigará, simultaneamente, a um cuidar específico da unidade e da caracterização, isto para que se garanta salvaguarde a, sempre fundamental, criação de uma totalidade, um lugar.

Há, assim, que aprofundar proximidade, densidade e diversidade na arquitectura urbana pormenorizada quando se pretende um espaço residencial e citadino convivial, um objectivo fundamental numa qualquer solução de habitar, mas vital quando as relações de sociabilidade e vitalidade nas vizinhanças próximas são dos principais meios que os habitantes dispõem para prosseguirem uma vida diária mais estimulante, como acontece quando estas pessoas têm poucos meios para procurarem tais condições longe dessas suas vizinhanças de proximidade; condição esta que de forma alguma põe em causa o papel estruturante destas vizinhanças próximas quando se trata de outros grupos sociais mais favorecidos.





Fig. 01: Realojamento da CM de Lisboa na Travessa do Sargento Abílio, Arq. Paulo Tormenta Pinto (2001, 91 habitações).

E, tal como se aponta acima, há que perseguir e aprofundar tais condições de densifificação e de diversidade urbano-residencial num quadro de cuidadosa unificação e estimulante caracterização das respectivas imagens urbanas de proximidade. E engana-se quem imagina que são objectivos opostos tais condições de diversidade e de unidade de imagens, ainda cumulativamente no tal quadro de uma densificação estratégica - porque muito cuidadosa e ao serviço de determinados e variáveis objectivos humanos e urbanos -, e estão aí muitas malhas citadinas coesas e estimulante e harmoniosamente diversificadas para provar que tais condições se podem aliar; mas aqui e como em muitas outras situações muito depende da qualidade e do avisado controlo de qualidade do projecto de arquitectura urbana pormenorizada, e uma qualidade que está muito mais além da "simples" qualidade quantitativa e "material".




Fig. 02: parte do grande, recente e bem vitalizado conjunto cooperativo do Vale Formoso de Cima em Lisboa, urbanismo de António Piano e Eduardo Campelo (2006).

É ainda Christian Norberg-Schulz que defende que a densidade não chega, naturalmente, para a criação dessa totalidade, sendo necessária uma afirmada continuidade urbana, uma continuidade marcada e enriquecida nas suas imagens urbanas ppelas referidas condições estratégicas de densidade e de diversidade; e, afinal, è nesta perspectiva que, tal como sublinha Norberg-Schulz, uma experiência urbana é muito frequentemente descrita com termos como: dentro, entre, sob, sobre, à frente, atrás, perto de; termos que indicam uma organização espacial variada, mas integrada (1).

A densidade está na ordem do dia: começou a estar na mente de muitos, há alguns anos, por razões talvez mais formais, ou talvez mais sociais, consoante a formação de quem sobre ela reflectia; e hoje em dia as razões ligadas à desvitalização urbana de tantos centros desertificados e de tantas periferias inacabadas e desterradas e ao evidente e sempre presente potencial de forte crescimento dos preços dos combustíveis, vão trazendo a densidade para a primeira linha das preocupações relativas a uma melhor cidade, mais agradável e mais sustentável, tantos em termos ambientais, como de qualidade de uma vivência mais intensa e funcional e formalmente mais rica.

É interessante pensar que o redescobrir da densidade aconteceu numa altura em que a www estava a marcar a nossa vida e as nossas redes de relações, possibilitando, exactamente, o "reinocastelo" ou o "aquário" individual de cada um (situações estas bem diversas de: reino ou de quaário/prisão), longe de quase todos os outros, fisicamente, entenda-se! Será que não foi uma certa nostalgia desse contacto físico e uma nostalgia que nunca o foi, verdadeiramente, num pequeno grupo de arquitectos urbanitas que terá feito renascer essa fome de densidade física e de verdadeiro espectáculo urbano, ainda antes dele ser funcional e economicamente necessário?

Estas questões da densidade têm muito a ver com toda a matéria da imagem urbana - matéria esta sempre menorizada na sua essencial importância (que merece urgentes e aprofundadas reflexões práticas) -, que, por sua vez, tem tudo a ver com uma verdadeira qualidade arquitectónica aplicada, cuidadosamente, ao desenho urbano de pormenor. O que significa que será, provavelmente, possível densificar mais do que o correntemente previsto, com ganhos habitacionais evidentes, em termos de proximidade a zonas centrais e vitalização e convivialidade na cidade, e também com ganhos para uma imagem da cidade mais rica, mais diversificada e estimulante. Mas para tal, e tal como já se defendeu nesta reflexão, não basta "um qualquer desenho de arquitecto", pois este patamar de resultados só será possível com a intervenção de uma Arquitectura muito bem qualificada e, simultaneamente, com exigentes e estratégicos controlos dessa mesma qualidade arquitectónica.



Fig. 03: conjunto de habitação de interesse social bem integrado no casco antigo de Barcelona, de Josep Llinàs Carmona (1995).

Naturalmente, todo um processo como este não é compatível com quaisquer tipos de soluções pré-feitas e repetidas de outros sítios, para outros sítios e para outros habitantes. Estas intervenções têm de ser "fatos" bem à medida e fatos de grandes alfaiates, é o mínimo que se pode exigir para acções que vão marcar e, desejavelmente, revitalizar e enriquecer, culturalmente, partes estratégicas da cidade central e periférica, e só assim se entenderá que em tais sítios, com tais tipos de objectivos e com um muito elevado e enquadrado patamar qualitativo, de perfil muito amplo, sejam eventual e "pontualmente" aceites aumentos das densidades correntemente aceites.

Todas estas condicionantes têm a ver com a exigência de que tais soluções redensificadas, terão de ter a arte e o engenho para, mesmo com mais densidade, não transigirem nos aspectos fundamentais de segurança, privacidade, acessibilidade, conforto ambiental no exterior e relação com a escala humana e serem mesmo elementos postivamente influenciadores de uma afirmada convivialidade e de um quadro de imagems urbanas atraente e coracterizador; e será até possível dizer que tais soluções de densificação devem ser, em boa parte, baseadas, exactamente, na necessidade de melhoria deste mesmo amplo e exigente leque de condições, por exemplo no que se refere a melhores condições de conforto ambiental e de segurança no uso dos espaços exteriores.

Passemos então, sinteticamente, em revista estes tipos de condições, que se considera poderem ser associadas a intervenções com densidades significativas.

Sendo este o caminho que é urgente seguir no fazer melhor cidade e melhor habitação, mais de que limites impostos pelo afastamento entre edifícios os aspectos a ter em conta devem privilegiar as condições mais adequadas de relacionamento entre a vida doméstica e a vida urbana, no espaço público, e nesta matéria uma importante limitação está na situação de as crianças perderem a percepção da proximidade do solo, desde que estando acima de seis pisos e Sidónio Pardal sublinha que, a partir desta altura, "diminui, de algum modo, a percepção telúrica da casa" (2); ora, perder-se esta percepção de ligação com a terra e com o espaço público deveria ser um elemento condicionador de uma equilibrada, mas afirmada, densificação da cidade.




Fig. 04, a Unidade Residencial João Barbeiro, Beja, de Raúl Hestnes Ferreira e Manuel Miranda (1984, 48 habitações).

Este enfoque no facilitar do uso das vizinhanças urbanas pelas crianças é fundamental pois liga-se a aspectos de melhor formação e socialização dos futuros cidadãos - uma condição que seria só ela merecedora de apurados cuidados de concepção residencial -, porque proporciona, através de uma tal possibilidade, um significativo potencial de conhecimento e de convívio natural entre os familiares dessas crianças (quando as acompamham e quando se visitam nas suas habitações), porque se associa a fundamentais aspectos de visibilidade e proximidade de segurança, a partir das habitações, relativamente aos espaços exteriores onde brincam as crianças, porque as condições mais adequadas para um uso intenso do exterior pelas crianças são, em boa parte, também responsáveis pela dinamização desse uso pelo amplo grupo dos cidadãos "seniores", e, finalmente, porque, considerando tudo isto assim se potenciam condições gçobais que estimulam o uso mais intenso dos exteriores residenciais e urbanos e o desenvolvimento de boas condições de segurança pública nas respectivas vizinhanças. Sinteticamente, zonas urbanas e residenciais mais densas, mais baixas e com afirmadas condições de continuidade e de identidade urbana serão, tendencialmente, zonas mais usadas, porque mais agradáveis, mais apropriáveis e mais seguras.



Fig. 05: o renovado conjunto portuense da Bouça de Siza Vieira e António Madureira; renovado e completado pela inicativa cooperativa (2006).

Há assim o renovar dos caminhos que nos levam para soluções urbanas não muito altas, mas que atinjam uma muito significativa densidade habitacional através de um desenho ele próprio denso e arquitectonicamente bem trabalhado. E nesta perspectiva há que sublinhar que uma zona com alta densidade e baixa altura proporciona um carácter urbano intenso e contínuo, com edifícios bem próximos uns dos outros (3), desde que não se prejudicando aspectos essenciais de conforto em termos de luz natural, ventilação e relativo sossego acústico. E é até possível referir que uma malha deste tipo será, potencialmente, muito agradável em termos de conforto ambiental, sendo, por exemplo, climaticamente muito adequada durante o Verão, através de sombras frescas porque tendencialmente contínuas e densas, podendo não ser a densidade sentida como excessiva em termos formais, porque se entenderá, directamente, a justificação climática dessas ricas e orgânicas densidades.

Os exemplos da arquitectura tradicional citadina portuguesa oferecem, naturalmente, um manancial praticamente inesgotável de soluções com este tipo de condições, mas atenção que não se está a fazer, aqui, nenhum manifesto revivalista, pois é possível e desejável fazer novo com tais objectivos específicos.



Fig. 06: a Baixa de Coimbra


Continuando a aprofundar esta ideia de mais densidade sem altura excessiva e visando-se o objectivo do desenvolvimento de espaços urbanos vivos e plenamente satisfatórios consideram-se, em seguida, alguns aspectos de imagem urbana e residencial de pormenor, muito influenciados por estudos ingleses nestas matérias (4).

A densificação deve suportar, fisicamente, uma condição de equilibrado e muito reduzido atravessamento de cada núcleo urbano, proporcionando-se um certo sentido de protecção física e psicológica de quem ali vive relativamente ao exterior urbano. Não se defende aqui a criação de ilhas, mas sim de espaços de vizinhança urbana cujas ligações privilegiadas à cidade sejam essencialmente dominadas pelos seus residentes, onde os veículos da envolvente não dominem e onde os estranhos possam ser naturalmente identificados e visualmente acompanhados, condições estas óptimas para um uso da rua intenso por crianças e idosos; e nesta matéria são óptimas as soluções muito densificadas e com grande número de vãos domésticos e até de espaços exteriores privados (pátios, quintais e eventuais acessos directos ao espaço público) bem relacionados com o nível da rua.

Há um conjunto de aspectos que sempre marcam soluções urbanas e residenciais que harmonizam densidade, identidade positiva, funcionalidade, vitalidade urbana, sentido de vizinhança e um conjunto de qualidades diversificado que podemos sintetizar na ideia de agradabilidade residencial (ex., sossego, equilíbrio de temperaturas, privacidade, segurança, boa gestão local, etc.); entre tais aspectos lembram-se, desenvolvem-se e e comentam-se, em seguida, aqueles que referi num estudo editado no LNEC em 1998 (5):

. Evitar o atravessamento integral da “nossa” zona residencial, tanto por veículos a ela estranhos (ruído, insegurança, poluição, incómodo nocturno devido aos faróis), como por caminhos pedonais com grande continuidade urbana (evitar contactos entre crianças e estranhos à área de residências); evitando-se, até, evidenciar as ligações ao “exterior” da “nossa” zona.

. Onde haja intenso movimento pedonal, a aproximação final a cada grupo de fogos (até cerca de 20), deve ser feita para servi-los exclusivamente; construindo-se, assim, um sentimento de pertença e de identidade que poderá ajudar a equilibrar alguns aspectos, eventualmente, menos positivos da densificação.

. As distâncias entre veículos e entrada do edifício habitacional devem ser cuidadosamente consideradas, harmonizando-se as desvantagens ambientais com as vantagens funcionais; e atenção que a densificação implica um potencial de uso rodoviário muito intenso e que só será possível privilegiar o peão, com êxito, se o estacionamento e o tráfegos de veículos estiver adequadamente resolvido.

. Os grupos de estacionamentos publicamente visíveis não devem exceder um determinado número de unidades em cada localização; caso contrário a paisagem urbana perde boa parte da sua qualidade.

. O recreio de crianças em espaços públicos deve merecer toda a atenção, constituindo-se, mesmo, em um dos elementos urbanos estruturadores das soluções; e atenção que em zonas densificadas esta questão tem de ser objecto de cuidados reforçados – e quem visite as “células sociais” de Alvalade, em Lisboa, com os recreios das suas Escolas Primárias e os seus jardins de vizinhança bem rodeados de habitação e sem tráfego de atravessamento entende como é bem possível respeitar esta condição.

. Desenvolvimento de espaços mistos (peões e veículos) agradáveis e atraentes ("amenity open spaces"), conjugando caminhos e acessos de veículos, áreas pavimentadas e ajardinadas, caracterizadamente multifuncionais e em favor do recreio livre e seguro das crianças. De certa forma e sinteticamente trata-se de fazer o espaço público residencial de vizinhança do habitar, no respeito dos seus condicionalismos próprios de durabilidade e de equilíbrio ambiental e paisagístico, mas caracterizados por uma amenidade e uma atractividade que estejam, claramente, ao serviço de um habitar o exterior, em segurança e com agrado, por todos os habitantes, sendo que as crianças são os habitantes mais exigentes. E atenção que a densificação obriga a cuidados específicos em termos de tipos de arranjos, durabilidade e gestão.

Referi no citado estudo do LNEC que o agrupamento de fogos sem ser em blocos contínuos e uniformes tem vantagens para a privacidade, para a redução do número de utentes por zona exterior equipada e para o consequente aumento da identificação com o sítio de residência.




Fig. 07: a Baixa de Coimbra


Mantenho esta ideia, mas clarifico-a sublinhando que a referência a “blocos contínuos e uniformes” corresponde às soluções em que se projectam edifícios repetidos e desligados dos seus sítios de implantação, enquanto, pelo contrário, é fundamental que a continuidade do edificado e a respectiva continuidade de espaços exteriores sejam projectadas em total integração. «Nada de mais, é assim que se deve fazer sempre!» - poderão comentar sobre este assunto; mas bem sabemos que entre o que se deve e o que se faz há grandes diferenças, e devemos ter a certeza que em qualquer caso e, muito mais, quando se pretende densificar um determinado conjunto, é essencial um projecto desenvolvido pormenorizadamente a três dimensões, que tanto configure, atraentemente, o edificado como formalize, adequada e amavelavelmente, os espaços livres que lhes são contíguos, uma opção que, por sinal, é também fundamental para se criarem espaços interiores e exteriores com melhores condições ambientais (insolação, ventilação, luz natural, resguardo acústico).

Finalmente, quando se densifica é essencial salvaguardar as questões de privacidade e, nestas, as relações com zonas pedonais são, habitualmente, críticas, devendo ser objecto de um cuidadoso projecto que assegure distâncias mínimas a vãos domésticos e a respectiva protecção, em termos de interposição de barreiras e de elementos de bloqueio da intrusão visual exterior.

Nestas questões de densidade é de grande importância considerar, por um lado, os aspectos de conforto ambiental e de microclima e, por outro lado, as questões ligadas à distância inter-pessoal, estudadas por Claude Lamure (6), pois muito de uma boa solução de densificação, ou muitos dos possíveis problemas com a densidade, têm a ver com uma dupla adequação: climática/ambiental, e social.

Para concluir, para já, esta breve reflexão sobre os aspectos de densificação urbana lembramos um interessante estudo de Bartolomeu Costa Cabral (7) onde este projectista verificou que a percentagem de ocupação da construção (8) é determinante para a definição do número de pisos. E este arquitecto, ao comparar as percentagens utilizadas em diversos empreendimentos realizados pela Federação das Caixas de Previdência durante os anos 60 com as que podem ser calculadas em zonas antigas, obteve valores muito diversos: 12 a 13% para as primeiras e 50 a 60% para as segundas.



Fig. 08, um pormenor do denso, agradavelmente contínuo e apropriável Bairro de Alvalade, Lisboa, urbanismo de Faria da Costa

Tomando isto em conta, Bartolomeu Costa Cabral continua o seu raciocínio considerando que todo o terreno livre tem de ter um destino definido e, assim, implica um custo que incide também sobre os fogos desenvolvidos; e conclui que um conjunto residencial será tanto mais económico quanto maior for o número de fogos e a sua percentagem de ocupação, valor este que, como refere Bartolomeu Costa Cabral, “tem de ser compatível com todas as necessidades de espaço livre”.

Um pouco mais à frente, no mesmo estudo (9), o autor aponta, referindo estudos ingleses, que “entrando apenas com certos «standards» de afastamento, as formas de maior «rendimento» são as de tipo páteo, seguindo-se as de tipo banda e por último a forma pontual, dado que permitem regressivamente maior percentagem de ocupação de solo.” E, logo a seguir, Bartolomeu Costa Cabral refere como aspectos limitativos da densificação as questões de estacionamento superficial, jogos e logradouro, “independentes das formas de agrupamento”.

Se nos lembramos que, na altura, havia uma forte limitação em todo este processo, por quase ausência de desenvolvimento de garagens subterrâneas de estacionamento, somos levados a concluir que há, hoje em dia, uma clara potencialidade de desenvolvimento de soluções densificadas, desde que aproveitando, e bem, os espaços e os equipamentos da cidade consolidada, cerzindo o espaço urbano e desde que tais soluções sejam feitas com uma qualidade arquitectónica verdadeiramente garantida, caso contrário nem vale a pena pensar em densificar pois os resultados podem ser verdadeiramente catastróficos; e o leitor acredite que não tenho quaisquer dúvidas nos benefícios potenciais d e uma cuidadosa densificação seja para uma cidade mais feliz seja para habitantes mais felizes, mas não podemos ter, neste caso, quaisquer dúvidas em termos da qualidade das intervenções pois há “em jogo” o bem-estar e mesmo a segurança de muitos habitantes e a viabilidade de partes estratégicas da cidade.

Para rematar, para já, esta matéria e lembrando a indicação de Bartolomeu Costa Cabral relativamente a soluções de agrupamentos residenciais densificados e com um significativo somatório de espaços de implantação de edifícios e de exteriores comuns ou privatizados, podemos afirmar que soluções deste tipo, para além de permitirem alturas baixas nos edifícios, com as vantagens acima apontadas, tornam praticamente obrigatório o tratamento dos exteriores (10), pois, afinal, acaba por sobrar “pouco” para o espaço público, e sendo pouco ele será quase obrigatoriamente bem tratado.

(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 55.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 69.
(3) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning".
(4) Greater London Council, "Low Rise High Density Housing Study".
(5) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, ITA n.º 2.
(6) Claude Lamure ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 56 e 57) considera a seguinte tabela de distâncias interpessoais: íntima, de 0 a 0.50m; pessoal, de 0.50 a 1.25m, considerando-se que abaixo de 0.75m é possível agarrar alguém, simplesmente, estendendo-se os braços e que até 1.25m é sempre possível o apertar de mãos (cumprimento formal); social, de 1.25 a 3.50m, considerando-se que até 2.10m se situa a distância da conversa informal e da clara visibilidade da fisionomia dos parceiros de conversa, enquanto entre 2.10 e 3.50m de distância entre pessoas, as conversas tornam-se formais e a atenção abarca toda a silhueta humana e não especificamente a cara; e pública, acima de 3.50m; mas devendo, sempre, respeitar-se os limiares básicos de 1.25m (possibilidade de apertar mãos) e de 1.50m (2x0.75m), que é o limite de segurança mútua relativamente ao acto de agarrar o outro, estendendo os braços.
(7) Bartolomeu Costa Cabral, "Formas de Agrupamento de Habitação", pp. 18 a 20.
(8) Id. Ibid, p. 18 - “Percentagem de ocupação da construção: ou seja uma relação entre a soma das áreas de implantação dos diferentes edifícios e a área do terreno considerado.”
(9) Id. Ibid., pp.19 e 20.
(10) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", p. 134.

Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar, Ano V, n.º 269
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte,
26 de Outubro de 2009Edição de José Baptista Coelho

Label: habitação, habitação humanizada, cidade humanizada

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

233 - Equipar o habitar, habitar os equipamentos – requalificar os equipamentos sociais - Infohabitar 233

Infohabitar, Ano V, n.º 233

Equipar o habitar, habitar os equipamentos – requalificar os equipamentos sociais
António Baptista Coelho



Fig. 01


Os equipamentos do habitar

Os equipamentos de utilização colectiva são as edificações e os espaços não edificados afectos à provisão de bens e serviços destinados à satisfação das necessidades colectivas dos cidadãos; e sublinha-se que estas necessidades colectivas correspondem a um conjunto dinâmico reconhecido em cada momento no quadro político e normativo.

Esta é uma perspectiva institucional e interessante pois, hoje em dia, a cidade tem uma dinâmica que se deve reflectir nos novos equipamentos sociais, quer porque os habitantes da cidade actual precisam de apoios que antes aconteciam no seio da família, quer porque a cidade de hoje está muito envelhecida, e os idosos precisam de apoios, quer porque a própria cidade que saiu da miragem funcionalista é uma cidade um pouco doente, em que os bairros, as vizinhanças e os centros precisam de equipamentos que qualifiquem o habitar como muito mais do que um simples abrigo.

E aqui há todo um caminho a seguir seja nos novos equipamentos seja nas acções de requalificação dos muitos já existentes.


Fig. 02

O habitar num sentido completo/amplo

Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E neste sentido entendido como diversas entidades, por exemplo: habitar-habitar; habitar-trabalho; habitar-escola; habitar-apoio a idosos; habitar-comércio vitalizador; habitar-convívio, etc.

Já passou o tempo das especializações funcionais sem sentido urbano e sem carácter humano, já passou o tempo dos enclaves dos bairros sociais estigmatizados, porque isolados e tristes, já passou o tempo das zonas de escritórios que afinal à noite se transformam em cidades mortas, já passou o tempo do isolamento dos nossos idosos em sítios que de lar só têm o nome, e que quando são bons são caros e mesmo assim, tantas vezes são simulacros de hospitais, sem carácter doméstico; afinal já se fez mal, muitas vezes, mas parece que já se percebeu que a cidade é criticamente alérgica a tais sítios marcados por funções únicas, pois a cidade verdadeira é a da mistura, da polivalência, e da convivência de actividades e de pessoas diversas.

Os equipamentos sociais devem fazer parte integrante de um tecido urbano bem vivo, e para isto há que os qualificar como espaços habitados que devem ser acolhedores, além de funcionais, e como elementos vitalizadores das respectivas vizinhanças urbanas, onde a sua presença tem de ser activa e não pode resumir-se aos velhos raios de influência funcionalistas.


Fig. 03

A integração dos equipamentos num habitar urbano vivo: os equipamentos correntes; e os terceiros espaços

E assim, os equipamentos sociais para serem globalmente sustentáveis, também em termos sociais e urbanos, devem fazer parte do tecido da cidade viva, participando nessa vida e nunca a prejudicando seja pela criação de quebras na continuidade urbana, seja pela sua absurda localização em edifícios segregados do resto da cidade.

E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade viva, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.

São os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que tornam a cidade mais habitada e segura e que se podem tornar verdadeiros terceiros espaços das nossas casas, com vantagens para uma vida pessoal, familiar e urbana mais rica e estimulante, mas também é todo um amplo leque de outros equipamentos que podem prestar serviços específicos, mas onde seja também possível o estar e o convívio espontâneo, quando se leva a roupa a engomar, quando se acompanha o filho à escola, quando se vai ao ginásio, etc., etc.



Fig. 04

As novas formas de habitar: o habitar como um serviço diversificado; e o habitar apoiado

Entrando, agora, nos edifícios importa sublinhar que os equipamentos podem conjugar-se, intimamente, com os espaços do habitar através de uma grande diversidade de soluções habitacionais; pois podemos ter:

. desde habitações correntes, mas que possam ser facilmente servidas por apoios habitacionais e de saúde;

. às soluções residenciais em que se integram diversos menus de serviços comuns;

. às soluções residenciais em cuja vivência se misturem, com a máxima naturalidade, pessoas sem quaisquer necessidades em termos de apoios habitacionais e vivenciais, mas que desejem um tipo de vida diária potencialmente mais gregário, e pessoas que tenham necessidades em termos desses apoios;

. até soluções residenciais marcadas por exigências específicas e críticas em termos de apoios habitacionais e vivenciais;

. e, naturalmente, soluções de grande ligação entre actividades residenciais e outras de grande apoio de saúde e hospitalar.



Fig. 05

A integração do habitar nos equipamentos: os recantos humanizados, os serviços humanizados

Há ainda uma terceira via da ligação entre equipamentos e habitação, que tem a ver com a expressiva caracterização residencial que deve marcar muitos dos espaços comuns e privados de um grande leque de equipamentos sociais com valências habitacionais.

Quando até os hospitais humanizam e diversificam os seus tradicionais ambientes esterilizados e uniformizados, não há qualquer justificação para se manter esta opção triste e monótona em tantos espaços onde há que harmonizar actividades residenciais, de lazer, formativas e culturais, com algumas actividades nas áreas da habitação apoiada e do apoio à saúde; misturas estas que caracterizam muitos dos equipamentos sociais existentes e dedicados ao apoio aos idosos, às crianças e às pessoas com deficiência.

O que estas pessoas precisam, nos espaços onde passam boa parte do dia ou mesmo todo o dia, é um ambiente caracterizadamente residencializado, caloroso, apropriável, envolvente, protector, ambientalmente confortável, seguro, atraentemente ligado com o exterior e a natureza e estimulantemente relacionado com uma cidade verdadeiramente amigável.



Fig. 06

Aprofundamento da qualidade vivencial e urbana dos equipamentos

Registam-se agora algumas notas, a considerar numa tónica de dinâmico aprofundamento da qualidade urbana e residencial das acções de qualificação (novos equipamentos) e requalificação (equipamentos existentes) dos equipamentos sociais:

. É importante dar relevo à amplitude do conforto ambiental na satisfação habitacional; pois se considerarmos que se os aspectos ligados à iluminação natural, ao conforto térmico, á ventilação e ao isolamento acústico determinam significativamente essa satisfação no caso da habitação corrente, o que acontecerá quando nos referimos a habitação para pessoas com diversos condicionamentos? E, assim, há que ter em conta esta situação, em cada intervenção, não apenas de uma forma global e impessoal, mas sim ao nível do pormenor, com reflexos directos nos diversos espaços mais usados dos equipamentos, melhorando-os em termos de aspectos de humanização e domesticidade – o que implica uma atenta e sensível intervenção nos respectivos espaços interiores.

. Há que ter muito cuidado na escolha de elementos de mobiliário e de equipamento, bem como na sua associação mútua, criando-se ambientes de vivência, bem adequados não apenas em termos funcionais e de durabilidade, mas também numa afirmada contribuição para a construção de ambientes sossegados, intimistas, envolventes e residenciais. E nesta sequência de ideias a muito positiva previsão de equipamentos e de espaços adequados à dinamização do uso de computadores deve ser bem harmonizada em termos de ambientes interiores.

. Quanto à segurança importa sublinhar três aspectos: um deles refere-se à necessidade de se proporcionar segurança efectiva contra incêndio e contra intrusões reduzindo, ao máximo, o impacto visual e ambiental de tais medidas para quem usa os equipamentos e neles habita, de forma a manter-se a referida residencialização global com um mínimo de estigmas e de sentido de reclusão; outro aspecto tem a ver com a atenção muito especial que deve ser dirigida para as condições de evacuação e acessibilidade dos equipamentos em acções de emergência; e o último aspecto tem a ver com a ideia de que as boas condições de segurança contra incêndio e contra intrusões estão ligadas a uma adequada integração e vitalização urbana, enquanto, pelo contrário, equipamentos segregados são basicamente pouco seguros.

. É fundamental que os espaços e equipamentos pormenorizados desenvolvidos sejam razoavelmente versáteis, de modo a poderem ser adaptáveis à mutação dos utentes, à evolução dos usos, à alteração das soluções de intervenção social e mesmo à evolução das necessidades gerais e pormenorizadas em termos de equipamentos sociais.

. Finalmente, lembra-se que os objectivos específicos de muitos equipamentos sociais defendem, quer o estímulo à integração e inclusão urbana dos seus utentes, quer a abertura à comunidade dos próprios equipamentos, o que será possível e desejável através da oferta de apoios a diversas actividades que possam atrair alguma vida urbana para os equipamentos. Condições estas que devem ter reflexo seja ao nível do serviço de transportes públicos, seja no apoio ás deslocações a pé, mas também num arranjo envolvente humanizado, bem naturalizado, protegido do tráfego rodoviário e vitalizado. E em associação com estes cuidados, importa aprofundar o desenvolvimento e equipamento dos espaços exteriores privativos dos equipamentos.

E não é possível deixar aqui se sublinhar que em todos estes aspectos da intervenção nos equipamentos sociais novos ou preexistentes é fundamental a contribuição de uma intervenção arquitectónica sabedora, sensível e bem pormenorizada, uma intervenção que será, sem dúvida, uma mais-valia seja em termos dos referidos aspectos vivenciais e urbanos, seja considerando a maior eficácia económica e social dos investimentos dirigidos para estas intervenções; e não tenhamos dúvidas que este caminho, mais do que uma necessidade será um verdadeiro trunfo em termos de uma melhor intervenção, pois sob a capa de uma aparente facilidade e simplicidade das acções escondem-se aspectos físicos e sociais, funcionais e afectivos, que exigem, frequentemente, soluções pequenas em dimensão, mas complexas na sua constituição e potencialmente associadas a aspectos de satisfação e de segurança muito importantes.



Fig. 07

Notas conclusivas

Termina-se com o reforço da ideia de que faz todo o sentido assumirmos uma percepção do habitar com um sentido amplo, que cuida da estratégica disseminação dos equipamentos numa cidade que por eles possa ser vitalizada; e lembro que nas cerca de 40 tipologias de equipamentos sociais existentes, quase 2/3 estão directamente ligadas a aspectos do habitar.

Acredita-se que o presente e o futuro estão na diversidade de soluções de habitar, preenchendo e vitalizando os vazios da cidade, assim como estão numa ampla família de equipamentos sociais vitalizadores dessa cidade e onde todos nós nos possamos sentir agradavelmente em casa, uma casa atraente e protectora, e na cidade, uma cidade amigável; afinal tanto os ambientes habitacionais monótonos, repetitivos e tristes, como os equipamentos sociais com ambientes frios e uniformizados têm de ser soluções passadas e não mais repetidas, pois o caminho é o da humanização e de uma sensível diversificação.

E deixam-se sinceros votos do melhor êxito para o novo e bem-vindo Programa da Câmara Municipal de Cascais, no âmbito da fundamental requalificação dos equipamentos socais, numa adequada perspectiva ambiental e socialmente sustentável.


Artigo concluído em 8 de Fevereiro de 2009

Nota explicativa e complementar:

O texto aqui editado integrou uma apresentação pública que aconteceu no dia 6 de Fevereiro de 2009 no Centro Cultural de Cascais, por ocasião do lançamento do programa Requalifica Five, da Câmara Municipal de Cascais, um programa destinado a apoiar e incentivar a requalificação integrada e amplamente qualificada de um grande número de equipamentos sociais existentes no concelho de Cascais.
Nesta apresentação foi sinteticamente abordado um estudo em desenvolvimento no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil destinado à elaboração de Recomendações Técnicas para diversas valências de equipamentos sociais (novos equipamentos e melhoria de equipamentos existentes), realizado no âmbito de um protocolo de Cooperação Técnica e Científica entre o LNEC e o Instituto de Segurança Social, com financiamentos comunitários.


Edição no Infohabitar, por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 9 de Fevereiro de 2009

segunda-feira, outubro 13, 2008

217 - Arquitectura sustentável: além do ambiente - Infohabitar 217

Infohabitar 217

Arquitectura e sustentabilidade, para além dos aspectos ambientais: os outros aspectos da sustentabilidade: da qualidade arquitectónica à satisfação residencial


Arq. António Baptista Coelho (Laboratório Nacional de Engenharia Civil e Grupo Habitar)


Resumo
A ideia que se sublinha nesta intervenção é ser fundamental considerar outros aspectos, além dos ambientais, quando o objectivo é o desenvolvimento arquitectónico de partes de cidade mais humanizadas e sustentáveis.

Salienta-se, assim, ser fundamental: considerar uma noção de sustentabilidade completa e integradora; dar a devida importância à faceta urbana da sustentabilidade; privilegiar as matérias do equilíbrio ambiental, da recuperação da paisagem e da adequada naturalização do espaço urbano; e aprofundar e privilegiar, urgentemente, as facetas humanas, sociais e culturais da relação entre Arquitectura e sustentabilidade, favorecendo, sob todas as formas possíveis, cidades amigas/humanizadas, culturalmente valiosas e vivas.

Conclui-se esta matéria da relação com uma reflexão sobre a relação entre as ideias ligadas ao habitar sustentável ou durável, no sentido amplo do termo, e a perspectiva de um habitar gerador de satisfação e mesmo de felicidade.
E desde já se salienta que todas as facetas da sustentabilidade devem ser natural e adequadamente integradas e associadas a um projecto de Arquitectura, que constitua sempre um positivo elemento urbano e paisagístico, o que configura um desafio complexo, mas sempre aliciante; e, afinal, tal como referiram Leonardo Benevolo e Benno Albretch (As Origens da Arquitectura, 2002): “Os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza.”

Nota inicial: As figuras que ilustraram, abundantemente, a “versão falada” do presente artigo – apresentada no Congresso “Arquitectura Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado”, que teve lugar em 3 e 4 de Outubro de 2008, em Aveiro, referiram-se, na sua quase totalidade, a conjuntos residenciais portugueses de Habitação a Custo Controlado (habitação apoiada pelo Estado, antes financiada pelo Instituto Nacional de Habitação, hoje Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), alguns deles realizados com a introdução de soluções de projecto e tecnológicas de aproveitamento passivo da energia solar; desta ilustração fica a ideia que fazer habitação globalmente mais sustentável/durável é algo compatível com a promoção de habitação de interesse social.



Figura 1: Vila Nova de Famalicão, Gondifelos, 32 fogos promovidos em 1996 pela C.M. de V. N. de Famalicão, com projecto coordenado pelos arquitectos José Gigante e João Álvaro Rocha. Trata-se de uma solução que se caracteriza, em termos tecnológicos e construtivos, e na organização e distribuição de cada habitação, por aspectos de aproveitamento passivo da energia solar, e que corresponde à solução que obteve o 3.º Prémio no Concurso Internacional “PLEA 88 – Passive and Low Energy Architecture – Bloco de Habitação Social,” patrocinado, entre outras instituições, pelo INH e que decorreu em Julho de 1988. A esta intervenção específica foi atribuído o Prémio INH municipal de 1997.

I - Arquitectura e sustentabilidade, para além dos aspectos ambientais – outros aspectos da sustentabilidade: da satisfação residencial à qualidade arquitectónica

A ideia que se quer deixar sublinhada nesta intervenção é ser fundamental considerar outros aspectos, além dos ambientais, quando o objectivo é o desenvolvimento de partes de cidade mais humanizadas e sustentáveis.

De certa forma encontramos um excelente paralelismo para esta ideia na definição que Claire e Michel Duplay deram de “franja do Edifício: a zona que o envolve desde o solo, à cobertura, passando pela fachada e o “lugar de expressão construtiva, de adaptação climática e de refúgio do imaginário" (1); e comenta-se que as matérias do ambiente constituem, aqui, talvez, cerca de um terço da totalidade da matéria, que se desenvolve, igualmente, pela “expressão construtiva” e pelo “refúgio do imaginário” – e sobrarão ainda outras facetas arquitectónicas nesta franja entre interior e exterior, lugar estratégico das relações que são, afinal, a própria matéria-base da Arquitectura.

A título de comentário genérico sobre este amigável confronto entre o que se consideram ser as matérias da sustentabilidade e da Arquitectura, apontam-se, em seguida, sumariamente, algumas grandes linhas temáticas que se julga deverem ser seguidas quando se trata desta matéria.

a) Há que ser prático e construtivo na abordagem da relação entre Arquitectura e sustentabilidade. E para isso importa assumir a vital importância dos exemplos de sustentabilidade e divulgá-los, comentá-los, visitá-los, reflectir sobre eles, completá-los, discuti-los e utilizá-los; há que ter a sabedoria para começar a levantar dúvidas construtivas sobre hierarquias de objectivos que devam marcar estas matérias; e importa procurar integrar o melhor possível, numa perspectiva arquitectónica, os ensinamentos especializados que estão já disponíveis.

b) É fundamental considerar uma noção de sustentabilidade completa e integradora. E neste sentido há que procurar considerar e divulgar a ideia de sustentabilidade de uma forma completa, nos seus conteúdos fundamentais e designadamente também naqueles aspectos que podem ser, até, menos evidentes, mas que são também estruturadores; e há que ter a coragem de começar a estabilizar ideias fortes e integradoras, começando a passar das listas gerais para as hierarquias estruturadas e para os “novelos” de objectivos que, caso a caso, e conforme as características das situações concretas, possam e devam ser privilegiados.

c) É essencial dar a devida importância à faceta urbana da sustentabilidade.
E, para tal, é urgente aprofundar e divulgar a faceta urbana da sustentabilidade, avançando-se numa abordagem estrategicamente integrada com a sustentabilidade no edificado; e importa aqui reflectir, especificamente, sobre as matérias da requalificação, do preenchimento e da revitalização, sintetizadas no conceito “construir no construído,” como é abordado no excelente livro de Francisco de Gracia, com o mesmo título - e julga-se ser este um aspecto que, como se verá, tem implicações fortes no próprio conteúdo global do próprio conceito de sustentabilidade.

d) Ainda nesta faceta urbana da sustentabilidade, mas de uma forma específica, há que privilegiar as matérias do equilíbrio ambiental, da recuperação da paisagem e da adequada naturalização do espaço urbano.

e) Numa faceta fortemente arquitectónica da sustentabilidade, que se liga às facetas urbanas, já referidas, mas também aos aspectos de humanização, a seguir apontados, devem apontar-se matérias arquitectonicamente tão estruturantes como o sentido de abrigo, o sentimento de conforto, os cuidados de integração paisagística e de proximidade, e, naturalmente, a construção da forma e do ambiente pela luz natural.

f) E finalmente e de forma urgente e crucial importa aprofundar e privilegiar as facetas humanas, sociais e culturais da relação entre Arquitectura e sustentabilidade, favorecendo, sob todas as formas possíveis, cidades amigas/humanizadas, culturalmente valiosas e vivas.
Em seguida, fazem-se alguns comentários breves sobre cada um destes temas.

E complementarmente a estas linhas temáticas importa reflectir um pouco sobre a relação entre as ideias de habitar sustentável e de habitar gerador de satisfação; o que se faz no final deste artigo.


Figura 2: conjunto cooperativo promovido pela Norbiceta (cooperativas Nortecoope, As Sete Bicas e Ceta), na Ponte da Pedra, Matosinhos, em 2006, projectado pelo Arq. António Carlos Coelho, financiado pelo INH no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, e integrado no Programa Europeu Sustainable Housing in Europe (SHE) – inclui diversos aspectos de sustentabilidade ambiental e urbana; esta solução foi amplamente destacada e premiada no âmbito nacional e internacional, destacando-se, aqui, o Prémio INH/IHRU de Promoção Cooperativa 2007.

I. a) Sobre a vital importância dos exemplos e da aprendizagem técnica

Nada resulta melhor em termos de apoio à concepção e à promoção do que a visita a obras feitas e do que o diálogo com os seus responsáveis e com quem lá vive para se poderem entender vantagens e desvantagens das soluções aí desenvolvidas. E sublinhe-se que o trabalhar com exemplos é também uma forma sustentada de avançar no conhecimento das matérias, pois ir pelos exemplos é mergulhar na prática, é aprofundar tudo aquilo que estabelece pontes entre o projecto e a satisfação de utentes e moradores; pontes estas que podem ser inesperadas ou até incómodas, mas que são sempre pertinentes e muito úteis em intervenções subsequentes.

E no aprofundamento técnico muitos aspectos carecem de esclarecimento, tais como, por exemplo, a eficácia real, no que se refere à permeabilidade pluvial, de diversas soluções de revestimento do espaço exterior público e os respectivos custos de execução, e, ao nível do edificado, o caminho da viabilidade da aplicação dos painéis fotovoltaicos – ainda há muito pouco tempo foi divulgada uma imagem de habitação de interesse social em Itália com grandes painéis deste tipo. Importa nestas e noutras matérias esclarecer o custo-benefício de um amplo leque de soluções, para que se possa daí partir para uma sua aplicação bem fundamentada, começando a reduzir-se, estrategicamente, o actual excesso de opiniões, tantas vezes contraditórias.


Figura 3

I. b) Sobre uma ideia completa e integradora de sustentabilidade

Em 2006, num encontro no LNEC, o Prof. Oliveira Fernandes definiu como três facetas da sustentabilidade os aspectos ambientais, económicos e sociais.

A sustentabilidade na área ambiental tem sido estudada, em termos de aspectos a desenvolver, enquanto a sustentabilidade económica da cidade e das suas diversas partes tem ainda muito a aprofundar, situação que se agrava, claramente, no que se refere à falta de aprofundamento arquitectónico e urbanístico da sustentabilidade social e urbana – por exemplo, sabe-se e têm-se provas críticas da necessidade de haver misturas sociais e funcionais em cada bairro e em cada vizinhança, mas do saber ao fazer, como regra, há ainda uma grande distância. E, depois, há ainda todo o excelente mundo da sustentabilidade cultural, uma matéria que se liga às anteriores, mas que tem naturalmente força própria, designadamente, em aspectos ligados a uma adequada e estimulante caracterização paisagística; e é importante que, desde já, se assuma a sustentabilidade com este leque amplo e completo de desenvolvimento, até também porque o património cultural é já hoje e será, cada vez mais, um dos principais recursos de Portugal e da Europa.

Na intervenção referida Oliveira Fernandes sublinhou, que a sustentabilidade implica uma visão integrada; e a ideia que se deixa é que a própria sustentabilidade urbana e do habitar corresponde a uma tendência fundamental em termos de integração: ambiental, funcional, paisagística, social e cultural.

Estamos, ainda, hoje em dia, numa fase de proliferação de grandes listagens de aspectos a considerar para a melhoria da sustentabilidade urbana e residencial, no entanto começa a ser urgente definir prioridades, objectivos e opções fundamentais, e neste processo é crucial ter em conta que cada sítio é um sítio e que a sua caracterização específica (ex., funcional e visual) constitui um elemento insubstituível da sua sustentabilidade integrada; numa opção de crucial identificação de cada sítio e de cada parte de cidade, e numa opção de negação das cidades “placebo” ou “franchising”, anónimas e uniformes, cidades estas sem futuro, portanto insustentáveis, neste século das cidades.


Figura 4: entre o “velho” e bom Alvalade, o conjunto de realojamento da CML na Tv. do Sargento Abílio. Lx., Arq. Paulo Tormenta Pinto, e o Metro do Porto.

I. c) Sobre a urgente faceta de arquitectura urbana da sustentabilidade e o “construir no construído”

Como foi, também, apontado por Oliveira Fernandes e tem sido sublinhado por outros estudiosos, as cidades não são, por natureza, sustentáveis, designadamente, em termos ambientais.

Mas se quisermos avançar nesta matéria há que tentar tudo fazer para se reduzirem as influências ambientalmente negativas das cidades e para o fazer há que privilegiar, sistematicamente, intervenções integradas e consistentes, designadamente, nos seguintes aspectos (numa listagem que designo como aberta ou dinâmica e que integra múltiplos aspectos de uma boa-arte da Arquitectura): estruturar o novo espaço urbano tendo em conta a geometria da insolação em edifícios e espaços públicos; ter em conta o conforto acústico e a protecção acústica; maximizar a permeabilidade dos espaços exteriores relativamente à água das chuvas; desenvolver o aproveitamento local maximizado do ciclo da água; considerar um verdadeiro e positivo verde urbano; fomentar os usos pedonais funcionais e recreativos; apoiar o uso de bicicletas e outros meios de acessibilidade amigos do ambiente; dinamizar o convívio vicinal; estimular o uso de transportes públicos; considerar as características de composição e de reutilização dos materiais usados nos espaços exteriores, favorecendo aqueles que sejam mais amigos do ambiente.

E num novelo tão integrado de objectivos como é o caso, há que encontrar fortes fios condutores e neste sentido é muito desejável privilegiar um verdadeiro protagonismo formal e funcional do espaço público e da imagem urbana, um protagonismo também direccionado para a dinamização do recreio, do lazer e do desporto no exterior público e para o indefectível favorecimento do convívio vicinal e urbano; convívios estes cada vez mais cruciais numa sociedade que tende a viver entre um autista isolamento doméstico e individual e um massificado e estereotipado consumo de espaços colectivos, ditos de uso “público”, como é o caso dos “centros comerciais”.

E há aqui total concordância com as opiniões de William Mitchell, que defende a harmonização de muitos dos aspectos positivos da sociedade em rede e do habitar apoiado pelas tecnologias de informação e comunicação, com o aprofundamento das relações humanas directas e da vida cívica e urbana local e caracterizada – e a ideia é que muito se tem a ganhar com uma tal aliança.

Afinal é fundamental, tal como escreveu Daniel Filpe, “ uma cidade onde acontecem coisas” (2) e numa cidade assim “de vez em quando apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios” (3).

Ainda nesta perspectiva integradora e basicamente urbana da sustentabilidade importa sublinhar a oportunidade e importância da ideia do “construir no construído”, uma ideia lançada por Francisco de Gracia, e que é, ela própria, uma base fundamental de sustentabilidade urbana, física e social, pois trata de se privilegiar a intervenção seja na reabilitação de determinadas parcelas da cidade, tornando-as novamente úteis e atenuando-se a expansão da cidade sobre o meio natural, mas também se refere ao importante aspecto de se privilegiar o preenchimento, a colmatação e o cerzir do espaço urbano preexistente, a rentabilização de infraestruturas e uma cuidada e vitalizadora densificação urbana.

O “construir no construído” tende a anular os espaços residuais e marginais, a avançar na anulação de zonas social e por vezes ambientalmente problemáticas, e, associa-se, naturalmente, devido à sua própria natureza, que favorece intervenções com escala geral reduzida, ao privilegiar das intervenções pequenas e expressivamente humanizadas, bem integradas nas suas envolventes, bem estruturadas, que acolhem, frequentemente e de forma positiva, afirmadas referências à escala à escala e usos humanos, proporcionando-se interessantes condições de dinamização do carácter local e da convivialidade vicinal. E, afinal, o “construir no construído” é muito arquitectónico pois repousa numa pormenorização que deve responder, positivamente, àquilo que os nossos olhos querem encontrar nas sequências de vizinhanças de proximidade que constituem a cidade.


Figura 5

I. d) Sobre o privilegiar do equilíbrio paisagístico e ambiental e da cuidada naturalização do espaço urbano

Esta temática tem toda a ligação com a que acabámos de desenvolver e terá com certeza outros aprofundamentos por especialistas nas diversas matérias; no entanto, configura aspectos específicos críticos e urgentes a que importa dar a devida atenção.

Um destes aspectos, provavelmente um aspecto determinante, tem a ver com a importância do desenvolvimento do verde urbano e designadamente da plantação de árvores como factor de redução do CO2 - Al Gore, no âmbito do seu filme, recentemente exibido, “An Inconvenient Truth”, refere que uma árvore consome, em média, ao longo da sua vida, uma tonelada de CO2.

Mas além desta vantagem as árvores urbanas são excelentes aliados de uma ampla sustentabilidade pois, tal como é referido pela London Tree Officers Association (LTOA), cujo site se recomenda (ltoa.org.uk ), as árvores urbanas têm múltiplas vantagens (entre aspas citações da LTOA):

Nas áreas da saúde e do bem-estar: reduzem o risco de cancro na pele através do sombreamento; “os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores”; “as árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; e “à medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”.

Em termos de influência no clima local: “as árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores, incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; “suavizam, localmente, picos extremos de temperaturas, refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; “árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”.

E em termos aspectos sociais e ambientais: “pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; “as árvores proporcionam … um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; “as árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração” – e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas - ; “As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia ao longo de todo o ano” – as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.

E no que se refere a vantagens económicas: “a presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%”; “quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; “as árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; “as árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”.

E como importante suplemento a todas estas vantagens regista-se que o verde urbano tem uma importância tão vital como impossível de quantificar, pois, como diz Daniel Filipe, refere-se à dimensão afectiva: o jardim “é um pequeno mundo a três dimensões sentimentais.” (4)

A pergunta que aqui se deixa é que se está provado o grande interesse da arborização urbana não se entende a razão de uma tal medida não avançar e com carácter de urgência. E, provavelmente, a melhor resposta nesta matéria estará na aplicação de espécies arbóreas muito duradouras, pouco exigentes em manutenção e que suportem bem a poluição urbana.


Figura 6: Habitação social no centro urbano, Conde Barão Lx., Arqs Castro caldas e Nuno Távora; Coop. Massarelos, Arq.s Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá; Reabilitação e realojamento na Qt. Do Guarda Livros, V.N. De Gaia, Arq. Paulo Alzamora; Fontinha, Porto, CMP, Arqs Costa Macedo, Rui Mealha e Tresa Miranda; e Fontainhas, Porto, CMP, Arqs Helder Ribeiro e Amândio Cupido.


I. e) Abordando, agora, sumariamente, a matéria fortemente arquitectónica da sustentabilidade, que se liga às facetas urbanas, já referidas, mas também aos aspectos de humanização, a seguir apontados, deve sublinhar-se a relevância, o peso histórico e a actual oportunidade de matérias arquitectonicamente tão estruturantes como o sentido de abrigo, o sentimento de conforto, os cuidados de integração paisagística e de proximidade, e, naturalmente, a construção da forma e do ambiente pela luz natural.

É interessante comentar, aqui, aquilo que muitos dos que aqui estão sentem ao pensarem nestes temas, é que eles integram, basicamente, a própria natureza do fazer da Arquitectura, seja num sentido prático evidente em tantos grandes projectistas, seja num sentido mais teórico e basta lembrarmos partes de alguns dos títulos dos capítulos do livro de Steen Eiler Rasmussen intitulado “experiencing architecture – arquitetura vivenciada” (na tradução brasileira) (5) – por exemplo: sólidos e cavidades, efeitos contrastantes, planos de cor, e a luz do dia em arquitectura – para termos a certeza que assim acontece, e depois avançando para as matérias do abrigo, lá está o incontornável Norberg-Schulz e entre a prática e a teoria as lições de Hertzberger e as mais recentes de Simon Unwin.

É com uma dolorosa brevidade que passo por estas matérias, não só pelo que tenho estudado mas também porque fiz algum projecto e obra durante duas dezenas de anos e tenho continuado, sempre, a ver, com olhos de ver, muitas obras de Arquitectura, mas afinal há a célebre afirmação de Corbusier, que sintetiza muito de tudo isto: “A arquitectura é o jogo sábio, correcto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz.”

Uma reflexão que tem complementaridade na ideia que marca as seguintes palavras escritas por Fernando Távora em 1962: “Portugal é dotado de belíssimos sítios naturais e os nossos antepassados deixaram-nos excelentes lições quanto ao equilíbrio sítio-edifício, mas em face dos crimes que vemos cometerem-se aqui e ali contra a nossa paisagem, não será difícil concluir que tal sentimento de equilíbrio abandonou os nossos contemporâneos pois que, de um modo quase geral, quando um edifício de hoje se instala num sítio, perdem-se um e outro por ausência de relações correctas entre ambos.” (6)

Afinal e como referiram Nuno Portas e Gonçalo Byrne, na Universidade de Aveiro, no início do seminário, “Arquitectura e sustentabilidade: futuro com [ ] passado”, em 29 de Setembro de 2008, na Universidade de Aveiro, as questões da sustentabilidade começam no território, antes da Arquitectura, o edifício tem autonomia, mas há a estratégia urbana e paisagística.

E os mesmos autores concordaram na importância da exequibilidade de uma sustentabilidade arquitectónica que não seja excessivamente ambiental, por ser também social e económica e marcada por uma urbanidade ampla, não limitada aos centros das cidades e uma sustentabilidade arquitectónica em que uma boa parte dos aspectos projectuais a ter em conta se referem aos já sublinhados factores de localização e orientação, sucedendo-se numa sequencial redução dimensional os aspectos ligados ao aproveitamento e controlo de energias passivas e, finalmente, numa escala muito mais reduzida os designados sistemas activos; e em tudo isto parece considerarem necessário um novo debate sobre a Arquitectura e um aprofundamento do discurso e da reflexão sobre a cidade, considerando, muito especificamente, a nossa cultura e as nossas regiões.


Figura 7: diversas vistas, entre Barcelona, Matosinhos e Malmö, neste caso com um conjunto realizado em colaboração com Charles Moore

I. f) Finalmente, nesta sequência de ideias, apontam-se algumas notas sobre o fundamental papel de cidades e de vizinhanças amigáveis, humanizadas e vitalizadas, como potenciais redentoras deste século das cidades; afinal, algumas notas sobre a humanização do habitar, nas suas diversas facetas, como elemento fulcral da sua sustentabilidade

Ao falar-se das grandes linhas da sustentabilidade urbana e residencial não faria qualquer sentido deixar de referir ser fundamental que tudo o que se faça para melhorar as nossas cidades “centrais” desabitadas e os nossos subúrbios descaracterizados, se integre numa linha obrigatória e exigente de contribuição para a respectiva vitalização e humanização, considerando-se que neste último aspecto tem lugar cativo uma verdadeira qualidade cultural que possa ir devolvendo a cidade a uma estima pública activa e convivial – uma ideia defendida, no LNEC, já há alguns anos, pela Arqª Valente Pereira. Afinal, pouco ganharemos em ter novas partes da cidade, por exemplo, energeticamente eficientes se elas forem culturalmente empobrecedoras e socialmente desvitalizadas; e não esqueçamos que vivemos, cada vez mais, o século das grandes cidades e nas grandes cidades tais problemas, e os associados problemas de desintegração sociocultural, tão evidenciados, entre nós, nos últimos meses, assumem uma importância determinante.

Nestas matérias e relativamente à questão sensível e complexa da insegurança urbana, uma matéria que se julga ser o sintoma mais objectivo de uma cidade doente, portanto não sustentável, defende-se que ele só poderá vir a ser relativamente solucionado com cidades e partes de cidade amigáveis, porque bem habitadas, humanizadas e socialmente diversificadas e vitalizadas.

Actuar directamente sobre a insegurança urbana ajuda, naturalmente, mas não tem eficácia adequada numa perspectiva de futuro, a não ser que numa perspectiva convivial e cívica como aquela seguida no policiamento “orientado para a comunidade”; há sim que actuar sobre a coesão física e social da cidade, sobre a respectiva gestão local de proximidade e, paralelamente, sobre uma segurança pública de comunidade. As questões ligadas à insegurança urbana serão, provavelmente, os sintomas mais agudos e graves de uma situação de insustentabilidade urbana e porventura social; naturalmente que a insegurança e as situações de banditismo e de vandalismo que a provocam não serão erradicados com a adopção de uma ampla sustentabilidade urbana, tal como foi aqui apontado, mas não tenhamos dúvidas que a influência de tais medidas no bem-estar urbano e vivencial será sempre muito forte e fundamental.

E lembremos que estamos, hoje, já bem dentro do “século das cidades”, com mais pessoas a viverem nas cidades do que no campo, num movimento migratório que continuará, e, portanto, numa perspectiva que tem, obrigatoriamente, de conciliar ambiente, cidade e bem-estar em condições de grande densificação, portanto temos um problema duplo nos braços: resgatar as condições ambientais negativas ainda predominantes; e proporcionar uma boa qualidade de vida em meios urbanos densos – e esperemos que deste conjunto complexo de problemas resultem soluções para a insustentável situação de centros urbanos sem habitantes e de periferias sem vida urbana.



Figura 8: diversas vistas e um exemplo de Habitação a Custo Controlados, a Cooperativa O Nosso Piso, em Conceição de Tavira, do Arq. Pedro Serra Alves

II. Entre a casa sustentável e a casa que satisfaz: algumas notas de enquadramento

Para concluir esta intervenção sobre as outras sustentabilidades, para além da ambiental, que tanto importam no fazer da Arquitectura, gostaria de reflectir um pouco sobre a relação entre as ideias de habitar sustentável e de habitar gerador de satisfação.

Nesta matéria devo confessar que vivo bem em casas sem quaisquer gadgets e sem quaisquer especializações nas múltiplas áreas da dita sustentabilidade habitacional, assim como estou a ser muito mais feliz com um telemóvel mais simples e com mais autonomia do que a máquina altamente sofisticada que tive até há pouco tempo atrás.

Devo dizer, também, que não tenho, evidentemente, quaisquer dúvidas sobre a urgente importância da implementação de medidas integráveis como aspectos de sustentabilidade. E não tenho quaisquer dúvidas na matéria porque, por um lado, o fundamental, é clara a influência que certos aspectos, associáveis ao tema da dita sustentabilidade, têm para a sustentabilidade ambiental global, mas também para uma maior satisfação residencial, e, cumulativamente, é cada vez mais claro o peso que tais cuidados poderão ter no orçamento de cada família (ex., os preços da electricidade e da água são exemplos claros de uma tal realidade).

Dito isto tentarei dar uma resposta à questão sobre que características de sustentabilidade poderão cooperar na configuração de um habitar potencialmente mais feliz, porque mais influenciador de uma vida mais feliz.

O que faz uma casa confortável e económica? Portanto, o que faz uma casa dita “sustentável”?

Uma casa deve ser termicamente equilibrada – fresca no Verão e cálida no Inverno – e isto é possível, há muitos anos, através de uma construção bem desenvolvida em termos de uma adequada orientação solar, de uma cuidada pormenorização, e de uma construção que isole e proporcione uma ventilação estratégica; afinal objectivos que desde há milhares de anos estão connosco, só que, muitas vezes, esquecidos, designadamente, por ignorância ou vontade de lucro fácil.

Os cuidados de boa orientação solar e de boa ventilação marcaram, desde sempre, a Arquitectura, e o desenvolvimento de uma construção adequada tem encontrado, nos últimos anos, um leque cada vez maior e mais versátil de soluções, que proporcionam máximas condições de isolamento com um mínimo de ocupação espacial e uma maximização da facilidade da construção, condições estas que também têm caracterizado, por exemplo, quer os vãos domésticos, em que, cada vez mais é possível aliar o máximo de luz a um máximo de condições de controlo da luz e de outros aspectos associáveis, quer as diversas instalações associadas a aspectos de conforto e de funcionalidade.

Mas atenção, é salutar ter presente que há milhares de anos já se praticavam estes objectivos de bem-viver a casa, sem dúvida para poucos, de uma forma mais elaborada e conseguida, mas num equilíbrio de meios e de necessidades extremamente significativo se considerarmos o que era possível fazer em cada época – e é realmente impressionante e muito útil termos a consciência do elaborado conforto de uma grande casa romana e da forma como ela tão bem dialogava com o clima, com a paisagem, com os recursos naturais – da água à argila – e, naturalmente, com a vida doméstica e o carácter que envolvia esse mesma vida.

Se avançarmos nas áreas do consumo de energia e de água as lições são idênticas, pois é igualmente salutar lembrar que desde há milhares de anos se usa a força do vento e dos cursos de água para múltiplos fins, isto apenas para dar um exemplo. É evidente que a escala das necessidades aumentou de forma quase incontrolável, mas é importante termos presente que deixámos de usar, por exemplo, moinhos eólicos para regar hortas, há poucas dezenas de anos, e na mesma altura deixámos de usar fogões a lenha, e, nas cidades, reconvertemos muitas linhas de eléctricos a autocarros, enquanto inventámos regulamentos que dão, em princípio, mais luz natural às habitações, mas tornam as ruas menos abrigadas do sol, do vento e da chuva, e hoje em dia, estamos a recuperar muitas dessas soluções, até no que se refere à densificação urbana; não de uma forma saudosista, mas por razões práticas.

Se tentarmos discriminar, sinteticamente, os principais tipos de facetas de um amplo leque de matérias ligadas a uma verdadeira sustentabilidade residencial com reflexos nas áreas da Arquitectura teremos, naturalmente, aspectos de:

. integração paisagística (urbana e rural) e, associada, harmonização microclimática;

. redução do consumo de recursos não renováveis;

equilibrada e vitalizada densificação urbana;

. disponibilização e controlo da luz natural e da insolação no interior dos edifícios (e não esqueçamos o contributo da boa luz natural para a satisfação com o habitar);

. disponibilização de uma eficaz solução de isolamento térmico e de ventilação natural, proporcionando um conforto doméstico não encasulado e, portanto, bem ligado ao exterior (uma espécie de isolamento activo);

. disponibilização de excelentes condições de isolamento acústico (e não esqueçamos o contributo da falta de isolamento acústico para as más relações entre vizinhos e até entre “vizinhos” da mesma habitação);

. e disponibilização de um leque de materiais, acabamentos e instalações amigos da saúde humana e do ambiente.

Há, ainda, que especificar, sobre estas áreas da “sustentabilidade”, dois aspectos, sendo um positivo e o outro negativo.

O primeiro é um aspecto motivador e que tem muito a ver com a natureza básica de toda esta reflexão e que se liga à fundamental fusão entre estas matérias da sustentabilidade/durabilidade e o bom desenho de Arquitectura – e afinal o bom desenho de Arquitectura sempre tratou de boa parte destas matérias.

O segundo aspecto, muito pouco motivador, mas necessário, tem a ver com um alerta para o muito “gato por lebre” que por aí se anda a vender nesta matéria da sustentabilidade, …, e era muito importante que certos aspectos fossem objecto de um máximo esclarecimento em termos dos equilíbrios ou desequilíbrios custo-benefício que certas soluções proporcionam – e nesta matéria é fundamental apontar que, muito provavelmente, um bom isolamento térmico e acústico caracterizando uma habitação bem orientada relativamente ao Sol e com muita luz natural caracteriza uma solução muito mais positiva e “sustentável” do que outra sem essas características, mas “compensada” pelos mais variados gadgets mais ou menos tecnológicos.

O que, assim, se quer salientar é, por um lado, que a sustentabilidade, além de ser ambiental, tem de ser funcional, social e cultural e tem de ter uma perspectiva de consistência e de durabilidade o mais possível completa, que vá até do espaço urbano ao vivencial, considerando os próprios processos de concepção arquitectónica; e que o ter-se de certa forma redescoberto o conceito de “sustentabilidade ambiental” não significa que boa parte do que ele implica não estivesse já a ser aplicado por uma Arquitectura bem informada e qualificada e até a ser entre nós abordada por muitos colegas desde há bastantes anos; e o que dizer daqueles que, entre nós, há cerca de 15 anos projectaram casas solares passivas, como aconteceu com o colega Fausto Simões (7).

De certa forma trata-se, também, de unificar conceitos preexistentes nas áreas da térmica, da ventilação, da luz natural e da acústica – por exemplo, no LNEC, desde há cerca de 40 anos que estas matérias foram objecto de estudos específicos e de trabalho específico numa perspectiva de diversos núcleos de investigação, núcleos estes que foram recentemente associados numa parceria estratégica no âmbito da Equipa Especial Edificação Sustentável, coordenada pelo colega Eng. Pina dos Santos. Assimilar tais conhecimentos às matérias ligadas à energia, ao aproveitamento passivo e activo da energia solar e eólica e às matérias da poupança de recursos e da reciclagem, conjugar estes temas com as matérias da domótica, que são aliás fundamentais para fazer funcionar tudo isto e que foram extremamente favorecidas pelos recentes e incríveis avanços da informática e conseguiremos fazer, hoje em dia, as melhores soluções urbanas e residenciais com todo este renovado e reforçado cocktail tecnológico.

Mas lembremos que todas as mais exigentes e inovadoras condições de sustentabilidade ambiental residencial terão um resultado final muito reduzido se não forem aplicadas num quadro urbano igualmente estruturado por tais tipos de exigências; pois, realmente, fará muito pouco sentido, por exemplo, pouparmos água tratada nas descargas sanitárias, e pagarmos as novas instalações que para isso são necessárias, enquanto na rua se continue a usar a água tratada para regar a relva e, ainda, quando na rua continue a haver incríveis perdas nas canalizações. E poderíamos realizar idênticos raciocínios para muitas outras matérias.

E reafirma-se que o fazer tudo isto não pode, de qualquer forma, substituir-se ao fazer a boa Arquitectura urbana e residencial; e atenção que, infelizmente, há sempre quem goste de substituir o que é fazer engenho e arte, apenas por uma maquinal aplicação tecnológica, até, por vezes, pouco fundamentada.
Afinal, tal como defendeu Norberg-Schulz, uma verdadeira casa não é apenas um refúgio, uma toca, um "não lugar" uniforme, mas exige um espaço distinto e uma cena que se possa imaginar (8); diz Moore que “a cena vazia de um compartimento é definida pelos seus limites, animada pela luz, organizada em torno de um «pivot» e aberta graças à vista” ("The Places of Houses", Moore, Allen e Lyndon).

E a Arquitectura é muito mais do que apenas a função, é também, como refere Kirby Lockard, um «contar» ou uma arte comunicativa (9).


Figura 9

Devo dizer que as casas onde vivo, com satisfação, pouco têm de aspectos de sustentabilidade ambiental, ou talvez esteja a ser injusto, pois em um dos casos a casa está cheia de luz natural e de vistas e integrada num grande jardim público, enquanto no outro caso trata-se de uma casa que foi evoluindo, desde um grande coração de adobe e que está totalmente rodeada por árvores e arbustos; numa e noutra tenho calor no Verão, mas se não tiver cuidado com o abrir e fechar de portas e janelas, e tenho sempre algum frio no Inverno, mas não excessivo, desde que tenha idêntico cuidado com a abertura de portas e janelas.

E qualquer destas casas tem um excelente e forte carácter arquitectónico, e talvez esta última condição deva constituir-se numa outra verdadeira faceta de uma sustentabilidade arquitectónica com âmbito geral, numa espécie de vasos comunicantes qualitativos em que certas qualidades mais efectivas acabam por equilibrar deficiências noutras facetas – e talvez seja por isso que, por exemplo, as excelentes condições de vizinhança e de integração paisagística de Olivais Norte, associadas a excelentes projectos habitacionais, acabam por suavizar as reduzidas condições espaciais nas habitações; e talvez por isso seja que num dos primeiros casos de clara eficiência energética em habitação de interesse social, em Vila do Conde, os habitantes não consideravam a habitação pouco espaçosa (e era-o, efectivamente), qualificando-a sim como “confortável”.

E não será que toda esta questão se liga, profundamente, a um outro aspecto da sustentabilidade residencial que tem a ver, directamente, com a própria qualidade arquitectónica do habitar, uma qualidade que para ser da matéria da Arquitectura se preocupará, sempre, activamente, com aspectos de integração paisagística, de orientação solar, de iluminação natural abundante e eficaz e de conforto diário, matérias estas que acabámos de lembrar; e além disso há o desenho, há a qualidade do desenho, o segredo que provavelmente é o fio condutor ou a matéria aglutinadora de todas essas preocupações, mas que vai para além dessa função, criando sítios de vida que nos marcam positivamente, em cada dia.

É que as casas nos fazem, ou ajudam muito ao que somos ou podemos ser, e se as casas são agradáveis, caracterizadas e positivamente misteriosas ou curiosas, elas ajudam-nos a ter vidas igualmente agradáveis, caracterizadas e, pelo menos, curiosas, o que será já sem dúvida muito preferível a vidas monótonas e semelhantes umas ás outras.

E nestas matérias os aspectos que se ligam, realmente, ao jargão da “sustentabilidade” marcam uma presença significativa, designadamente, no que se refere à integração paisagística e urbana, à insolação, à luz natural, ao conforto térmico, ao sossego acústico, à higiene e saúde no habitar (os bons cheiros da cera), à segurança no uso normal e, naturalmente, à economia no uso dos recursos naturais.

É, no entanto, importante que tenhamos a noção de que todas estas matérias tinham sido já aprofundadas, ainda que parcelar ou especializadamente, antes da invenção do referido termo, isso numa altura em que andávamos levianamente a viver e a habitar como se não houvesse pegada ecológica; e é importante ter a noção de que todas estas matérias faziam já parte de um projecto de Arquitectura ecológica e eticamente desenvolvido, e talvez por isso tantos bons projectos de Arquitectura do habitar continuam hoje em dia, passados dezenas e, mesmo por vezes, centenas de anos a serem excelentes sítios de vida.

Talvez a diferença esteja em que, hoje em dia, a regra tem de ser fazer Arquitectura com um tal leque de preocupações de bem-viver, e, além disso, nunca esquecendo que há ainda o desenho, o “verdadeiro” desenho (verdadeiro entre aspas) ou há complementarmente uma matéria de concepção arquitectónica que é aquela verdadeiramente responsável pela coesão dessas preocupações específicas e ainda, suplementarmente (o tal e um verdadeiro suplemento de alma), por uma caracterização que faz de cada obra uma obra agradavelmente única.

A sustentabilidade residencial tem de ser considerada numa perspectiva completa, em que a sustentabilidade ambiental é uma das diversas facetas da verdadeira sustentabilidade, que é também paisagística, urbana, social, funcional e, naturalmente, cultural, sendo que em todas estas facetas há um evidente e determinante peso da qualidade da concepção de Arquitectura.

Devo, por fim, sublinhar que julgo que os aspectos arquitectónicos ligados directa e indirectamente às questões de implantação, orientação e estruturação e pormenorização do conforto ambiental do habitar, interior e exterior, deveriam merecer da parte do projecto de Arquitectura uma renovada, profunda e criteriosa exigência em termos de concepção e execução; trata-se, afinal, da matéria própria da história da Arquitectura e naturalmente da razão primeira do abrigo, que fez nascer de certa forma a própria ideia da Arquitectura.

Quero, também, realçar que há assuntos sociais da Arquitectura do habitar, assuntos estes hoje em dia críticos por se ligarem a aspectos de integração ou desintegração que têm igualmente de merecer uma redobrada atenção de todos aqueles que projectam e decidem sobre o habitar; e a ideia que aqui quero deixar sublinhada, é que esta é, hoje em dia, em Portugal, uma matéria fulcral, urgente e vital para a sustentabilidade urbana.

Num idêntico registo de urgência e de importância devo ainda salientar a grande exigência de que deveríamos revestir todas as iniciativas ligadas à construção e reconstrução de uma paisagem urbana e natural, ambiental e culturalmente mais equilibrada, trata-se, igualmente, de uma essencial matéria de sustentabilidade, uma sustentabilidade que vai do bem-estar amplo de que podemos rodear o nosso dia-a-dia ao acervo cultural que assim poderemos salvaguardar e reabilitar e que afinal é e será, também, um dos nossos principais meios económicos. E numa relação total com todos estes aspectos ligados à boa integração natural, física e social e ao equilíbrio paisagístico temos, naturalmente, a questão da própria qualidade do desenho do habitar, um tema que também aqui nos une neste Congresso e um tema que, afinal, sempre motivou os técnicos que, nestas áreas, sempre consideraram que a “pedra e cal” não faz qualquer sentido sem uma ligação forte com quem a habita e com a cidade onde se integra.

Notas:

(1) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", pp. 138, 139 e 143.
(2) Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1ªed. 1956, p.51 e 52, refere-se ao Porto)
(3) Id. Ibid., “uma rua qualquer”, p.70.
(4) Id. Ibid., p.77
(5) Steen Eiler Rasmussen, “Arquitetura vivenciada”, Martins Fontes, São Paulo, 1998 (1986).
(6) Fernando Távora, “Da organização do espaço”, p.59.
(7) O Arq. Fausto Simões, além de estudioso e projectista traduziu o fundamental documento “A Green Vitruvius – Princípios e Práticas de Projecto para uma Arquitectura Sustentável”, Ordem dos Arquitectos, 2001.
(8) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 105.
(9) William Kirby Lockard, "Drawing as a Means to Architecture", p. 95.


Nota final: este artigo foi a base da intervenção do autor no Congresso “Arquitectura Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado”, que teve lugar em 3 e 4 de Outubro de 2008, em Aveiro, e foram discutidas as fundamentais e tão actuais relações entre a Arquitectura e as matérias da sustentabilidade.

O Congresso, que reuniu mais de 300 pessoas na Reitoria da Universidade de Aveiro, será objecto de um artigo no Infohabitar – a editar em princípio já na próxima semana.

O Congresso foi realizado na sequência de um workshop sobre a mesma temática, que teve lugar com grande participação entre 29 de Setembro e 2 de Outubro.

A organização do Congresso foi conjunta do NAAV - Núcleo de Arquitectos de Aveiro da Ordem dos Arquitectos e do GH - Grupo Habitar, Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, com o apoio institucional da Universidade de Aveiro, com o patrocínio da CIN, e outros importantes apoios, que foram devidamente divulgados.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 11 de Outubro de 2008-10-12
Editado no Infohabitar, por José Baptista Coelho, em 12 de Outubro de 2008