segunda-feira, novembro 05, 2018

663 - Avaliação Pós-Ocupação, na arquitetura, no urbanismo e no design - Infohabitar 663

INFOHABITAR N.º 663

Avaliação Pós-Ocupação, na arquitetura, no urbanismo e no design: da teoria à prática

Apresentação do livro intitulado:
"Avaliação Pós-Ocupação, na arquitetura, no urbanismo e no design: da teoria à prática"
Organizadores: Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein, Simone Barbosa Villa e Ana Judite Galbiatti Limongi França


     É com muita satisfação que a Infohabitar divulga um novo livro, recentemente editado no Brasil, que apresenta, com desenvolvimento, a metodologia e diversos processos associados à teoria e à prática da Avaliação Pós-Ocupação (APO) – em inglês Post-occupancy evaluation (POE).

     A APO tem tido uma extensa e profunda aplicação no Brasil, designadamente, através do empenhado e continuado esforço de diversos professores e pesquisadores, com destaque para vários colegas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), havendo que registar, entre eles, a Professora Titular Sheila Walbe Ornstein, a quem nos liga uma longa amizade, que já nos deu a honra de participar nesta nossa revista por diversas vezes, que acompanhou uma das nossas práticas de APO (no LNEC), e que tem extensa bibliografia nesta temática.

     Para quem não é, minimamente, conhecedor do que se pretende com as APO, que foram já realizadas em Portugal e no LNEC, no então Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, junta-se um pequeno texto explicativo da pesquisadora brasileira Marilice Costi - editado há alguns anos também aqui na Infohabitar.

      “Uma APO é um tipo de avaliação retrospectiva feita em ambientes construídos após certo tempo de ocupação. Surgiu no período de 1940-50 nos EUA, quando, pela primeira vez, a opinião dos usuários passou a fazer parte de pesquisas exploratórias executadas por geógrafos e psicólogos. A partir daí, os antropólogos e os arquitetos passaram a estudar as relações ambiente-comportamento apropriando-se de métodos das áreas da Psicologia, da Geografia, da Antropologia, da Sociologia e da Engenharia.
     “Tal avaliação é adotada para diagnosticar e recomendar novos projetos. Feita de forma sistêmica e realimentadora, pode propor modificações e reformas no ambiente, pois aprofunda conhecimentos sobre ele. Sua aplicabilidade encontra campo tanto em edificações de porte quanto em pequenos prédios, tanto em interiores quanto em pequenos objetos. Feita por especialistas-avaliadores, ela é o estudo da performance do ambiente considerando-se a opinião de seus ocupantes. É o que a diferencia de Avaliações de Desempenho.
     “Uma APO serve para aferir erros e acer­tos para que se possa monitorar a qualidade. Utiliza-se métodos ou multimétodos, avaliações rigorosas e siste­máticas, tanto em ambientes internos quanto em externos. Para faze-la, é necessário conhecer o ser humano e suas fases de vida, seu comportamento ambiental, como ele se apropria dos espaços, como marca território, como faz interferências, como adapta os locais às suas necessidades.”

(Marilice Costi AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO (APO): MONITORANDO A ARQUITETURA! - Infohabitar n.º 246)

     Como comentário pessoal, muito dirigido à aplicação de APO a conjuntos residenciais, e tendo coordenado três processos de APO – no LNEC designados de Análises Retrospectivas multidisciplinares (realizados já há cerca de 10 anos) – a três extensos conjuntos de bairros e conjuntos de habitação de interesse social financiados pelo então INH – hoje IHRU – gostaria de referir, apenas, que aplicámos uma análise dupla, aos projectos e aos conjuntos habitados, abordando matérias de Arquitectura e Urbanismo, Engenharias e Ciências Sociais, com equipas multidisciplinares, utilizando ferramentas de análise pre´-preparadas, entrevistas a responsáveis e habitantes, levantamentos fotográficos e inquéritos postais a todos os habitantes.

     A idéia-base foi procurar entender como é que um dado conjunto de soluções urbanas e habitacionais, realizadas segundo um conjunto recomendativo específico (Recomendações Técnicas de Habitação Social), projectadas por diversos arquitectos e engenheiros e habitadas pelo menos há cinco anos, respondiam aos seus habitantes em termos de satisfação global e específica no que se refere a um amplo leque de elementos (ex., espaço exterior, edifício, espaços comuns, habitação, compartimentos habitáveis, construção, manutenção, relações de vizinhança  no bairro e no edifício, etc.).
     Os resultados obtidos foram úteis no sentido de se apoiar, então, o INH/IHRU com um amplo conjunto de aspectos avaliativos e caracterizadores que puderam ser usados no acompanhamento e eventual aconselhamento de novas intervenções de habitação de interesse social.

     Mas considera-se que a APO tem outras múltiplas e aprofundadas utilidades, seja numa grande diversidade de análises a diversos tipos de edifícios e espaços urbanos, seja visando-se variados objectivos específicos, mas sempre numa perspectiva básica de se procurar assegurar espaços de “habitar” (no sentido amplo do termo) mais adequados e verdadeiramente mais satisfatórios para os seus utentes, harmonizando-se esta vital satisfação, com a também desejada qualidade arquitectónica e construtiva.

     O livro agora publicado tem o grande interesse de proporcionar uma ampla perspectiva sobre a natureza global, as bases teóricas e práticas e as aplicações específicas da APO, através do testemunho directo de um conjunto de importantes pesquisadores da USP, que dedicaram parte da sua vida ao estudo e à aplicação prática da APO no Brasil em diversos quadros de aplicação: é, assim, uma oportunidade única para conhecer melhor o interesse e oportunidade da APO.

     Salienta-se, portanto, a  publicação do novo livro, intitulado, "Avaliação Pós-Ocupação, na arquitetura, no urbanismo e no design: da teoria à prática", realizado por um amplo conjunto de autores e co-organizado pelas professoras  Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein, Simone Barbosa Villa e Ana Judite Galbiatti Limongi França.

     Este livro é resultado de mais de 30 anos de estudo teórico-prático da APO na FAU-USP e contempla os seus avanços e desdobramentos em anos recentes.

     Haverá um lançamento no ENTAC 2018 (12.11), Foz do Iguaçu e na Livraria Cultura (29.11) em São Paulo.

     Apresenta-se, em seguida, o link para a editora do livro aqui apresentado:


     Junta-se, já a seguir, um pequeno texto de apresentação e, depois, o índice do novo livro, que se espera poder despertar merecido interesse nos leitores da Infohabitar.

     A Infohabitar e o seu editor enviam os parabéns aos autores e organizadores deste novo livro, desejando-lhes o merecido êxito editorial,

Lsiboa e LNEC em 5 de novembro de 2018

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Fig: Capa do livro apresentado

     Avaliação Pós-Ocupação (APO) na Arquitetura, no Urbanismo e no Design: da Teoria à Prática leva ao leitor amplo conhecimento conceitual e prático para a aplicação da APO em ambientes construídos e objetos no decorrer de seu uso, de modo a aferir seu desempenho físico, à luz da percepção dos seus usuários.
Trata-se de uma obra que se destina a arquitetos, urbanistas, engenheiros e designers empenhados em embasar o processo decisório de seus projetos, por meio de incorporação de lições aprendidas a partir de edificações e objetos de tipologia semelhante já em uso.

     “Com esta publicação, espera-se aprofundar as pesquisas na área e despertar o interesse de outros importantes grupos que desenvolvem trabalhos em APO no país em compartilhar as suas experiências para contribuir na construção de um corpo coeso de conhecimento científico de evidências para uma efetiva aplicação à prática profissional”
Doris Kowaltowski

Índice de
Avaliação Pós-Ocupação (APO) na Arquitetura, no Urbanismo e no Design: da Teoria à Prática

Parte 1 | A utilização de apo para a melhoria do ambiente construído


1 Avaliação pós‑ocupação (APO) aplicada à realimentação do processo de projeto.
Sheila Walbe Ornstein, Rosaria Ono, Simone Barbosa Villa,
Ana Judite Galbiatti Limongi França

1.1 A interdisciplinaridade e o ambiente construído
1.2 A importância dos estudos das relações entre ambiente construído e comportamento humano
1.3 Da avaliação pré-projeto à avaliação pós-ocupação
1.4 Peculiaridades da APO
1.5 Cronologia das atividades e experiências internacionais
1.6 Cronologia das atividades e experiências no Brasil
1.7 Tendências da APO no mundo e no Brasil
Referências bibliográficas

2 APO, desempenho e suas relações com normas e certificações
Ana Judite Galbiatti Limongi França, Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein

2.1 Verificando o desempenho dos sistemas construtivos e prediais: comissionamento
2.2 Avaliações de desempenho e referências normativas
2.3 APO e avaliação de desempenho
2.4 Certificações de desempenho ambiental
2.5 Incorporando a retroalimentação ao processo projetual
Referências bibliográficas

3 Ética em pesquisa de APO
Tânia Pietzschke Abate, Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein

3.1 Conceitos
3.2 Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas que envolvem seres humanos
3.3 Termo de consentimento livre e esclarecido
3.4 Aspectos éticos em pesquisa com indivíduos legalmente incapazes e o termo de assentamento (TA)
3.5 Algumas considerações
Referências bibliográficas

Parte 2 | Fundamentos de apo


4 Procedimentos metodológicos
Simone Barbosa Villa, Rosaria Ono, Ana Judite Galbiatti Limongi França, Sheila Walbe Ornstein

4.1 Abordagem multimétodo
4.2 Como aplicar uma APO
4.3 Avaliações qualiquantitativas sob o ponto de vista do especialista
4.4 Indicadores de desempenho
Referências bibliográficas

5 Método quantitativo para a aferição da percepção dos usuários – questionário
Rosaria Ono e Sheila Walbe Ornstein

5.1 Procedimentos para a estruturação e a elaboração
5.2 Amostragem
5.3 Processamento inicial dos dados
5.4 Tratamento e análise de dados
5.5 Métodos inferenciais de tratamento e análise de dados
Referências bibliográficas

6 Métodos qualitativos para a aferição da percepção dos usuários
Rosaria Ono, Simone Barbosa Villa, Tania P. Abate, Maria Beatriz Pestana Barbosa, Ana Judite Galbiatti Limongi França, Sheila Walbe Ornstein

6.1 Walkthrough
6.2 Wayfinding
6.3 Entrevistas
6.4 Grupo focal
6.5 Poema dos desejos
6.6 Métodos observacionais
6.7 O discurso do sujeito coletivo (DSC)
Referências bibliográficas

7 Formas de apresentação dos resultados
Rosaria Ono , Ana Judite Galbiatti Limongi França, Sheila Walbe Ornstein

7.1 Apresentação do diagnóstico e das recomendações da APO
7.2 Elaborando o relatório de APO
Referências bibliográficas

Parte 3 | Experiências de aplicação


8 Aplicação em empreendimentos habitacionais
Simone Barbosa Villa e Rita de Cássia Pereira Saramago

8.1 Edifícios de apartamentos: avaliação da qualidade espacial e ambiental de edifícios em cidades médias
8.2 Habitação de interesse social: avaliação de empreendimento do Programa Minha Casa, Minha Vida
8.3 Habitação: sistema de avaliação da qualidade por meios digitais
Referências bibliográficas

9 Aplicação em edifícios institucionais
Sheila Walbe Ornstein, Rosaria Ono, Ana Judite Galbiatti Limongi França, Andrea D Angelo Leitner, Maria Beatriz Pestana Barbosa

9.1 Edificações voltadas ao ensino-aprendizagem
9.2 Edifício hospitalar sob a ótica dos fluxos
9.3 Rede metroferroviária sob a ótica da jornada do usuário
9.4 Museu sob a ótica da acessibilidade e da segurança contra incêndio
Referências bibliográficas

10 Aplicação com enfoques diferenciados

10.1 Elaboração de diretrizes com vistas à requalificação de edificações
Ana Judite Galbiatti Limongi França, Maria Beatriz Pestana Barbosa, Marcelo de Andrade Roméro, Sheila Walbe Ornstein
10.2 Aplicação no contexto da certificação ambiental
10.3 Aplicação para aferição de aspectos de desempenho e usabilidade
Referências bibliográficas

Parte 4 | Disseminação e caminhos futuros

11 Ensino de APO
Rosaria Ono , Sheila Walbe Ornstein , Simone Barbosa Villa, Marcelo de Andrade Roméro

11.1 A experiência da FAU-USP
11.2 A experiência da FAUeD-UFU
11.3 Modelos de programas da disciplina de APO na graduação e na pós-graduação
Referências bibliográficas

12 Avanços e caminhos a seguir
Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein, Simone Barbosa Villa, Ana Judite Galbiatti Limongi França
Referências bibliográficas

Salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 663

Avaliação Pós-Ocupação, na arquitetura, no urbanismo e no design: da teoria à prática



Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


terça-feira, outubro 30, 2018

662 - HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR - Infohabitar 662

INFOHABITAR N.º 662
HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR

Conjunto de 27 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 27 artigos, editados entre 2005 e 2012, desenvolvidos por 9 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema das HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR.

Lembra-se que esta matéria das HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria das HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.

“Ele também avança no jogo da caverna” – uma inovadora tipologia residencial e urbana em Hamburgo, Aufbruch in Hamm-Süd, Arq. Czerner und Czerner, 2000.
“Só o homem constrói habitações que variam de acordo com requisitos, clima e padrão cultural... ele também avança no jogo da caverna, para métodos cada vez mais refinados de espaços fechados. Pouco a pouco ele empenha-se em dar forma a tudo o que o cerca.”
Steen Eiler Rasmussen, “Arquitetura Vivenciada”, 1998 (1986), p.32

Há que sublinhar que à questão tipológica se atribui uma importância fulcral na conquista de um habitar humanizado e arquitectonicamente valioso, desde que a “velha” questão da tipologia seja agora considerada e seguida numa perspectiva por um lado extremamente ligada à prática – constatação da vida das gentes nas soluções habitacionais que foram sendo inventadas – e por outro muito construtiva ou orgânica e extremamente solta de preconceitos, mas muito fiel à história e à tradição dos habitares humanos.
Procura-se avançar, essencialmente, em dois aspectos fundamentais:
- O primeiro é a grande importância específica que tem a matéria tipológica ligada ao habitar o meio urbano, e nesta linha fica muito evidenciada a importância que tem uma sedimentada prática de projecto/desenho de arquitectura em tudo o que nos leve para reflexões mais sistematizadas, designadamente, sobre as tipologias humanizadas, suas formas e conteúdos preferenciais.
- O outro é a grande ligação que existe entre as matérias e os estudos ligados às utopias do habitar e às utopias urbanas e a sua respectiva humanização, e, mediando, temos os aspectos “centrais” da concepção e do projecto; e saliente-se que tais matérias consideradas mais utópicas e/ou ligadas às raízes mais profundas dos conceitos de habitar e de cidade, são fundamentais na construção de uma matéria tipológica habitacional que realmente nos toque em profundidade e nos motive na busca de melhores e mais humanizadas soluções residenciais.
O que se procura clarificar e propor é que a matéria tipológica associada à da humanização do habitar e da cidade possa continuar a merecer abordagens específicas, marcadas pela igualdade de tratamento entre os referidos objectivos humanos e cívicos e objectivos mais formais e projectuais, que se consideram tão essenciais para um avanço fundamentado e prático nesta matéria, como são os objectivos de humanização e caracterização, que são os mais considerados neste trabalho. E numa época bem marcada pela multiplicidade dos contextos urbanos e residenciais e pela diversidade dos modos de vida e dos desejos de como habitar, fica claramente evidente a importância desta linha de estudos.
Nesta matéria das tipologias habitacionais as “Lições de Arquitectura” de Hertzberger  - Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, trad. Eduardo Lima Machado, 1996 (1991) - são fundamentais, pois ele nelas traça uma linha sequencial e bem articulada de concepção dos espaços residenciais extremamente ligada à pormenorização coerente e fundamentada da casa, do edifício e da rua/zona de proximidade, privilegiando a humanização do habitar e sublinhando aspectos verdadeiramente “construtores” de tipologias e de variações tipológicas residenciais, e designadamente:
- as soleiras e os espaços de acesso aos fogos;
- as vistas estratégicas sobre o exterior e sobre o interior, pontos de expressão de hospitalidade e que podem fazem transparecer ou mesmo expandir, controladamente, os espaços domésticos, ajudando a combater situações de solidão (hoje tão frequentes);
- os espaços comuns como zonas de algum recreio juvenil vigiado e de convívio, ou mesmo com papel de “rua” quando os seus utentes assim o necessitam (ex. idosos);
- os edifícios integrando uma estimulante variedade de acessos privados e/ou geminados, em diversos níveis e configurações;
- e os espaços do tipo “rua de convivência”, considerados e pormenorizados como verdadeiras  “salas de estar comunitárias” (ou jardins considerados como salas de estar ao ar livre), combatendo-se o automóvel preponderante, a descontinuidade física, as densidades reduzidas (número de fogos e número de habitantes/fogo) e a falta de conforto do espaço público face a um interior doméstico cada vez mais cativante, apoiando-se o recreio infantil e a diversidade de contactos casa/rua, e vitalizando-se/polarizando-se o espaço público com um máximo de acessos directos a fogos bem identificados e apropriáveis.
Há aqui, portanto, um léxico de “pequenos” elementos de composição do habitar que podem ser os verdadeiros protagonistas da composição de variadíssimas tipologias de habitar – e atente-se no sublinhado –, como se dos fogos e de uma sua aturada pormenorização passássemos, por exemplo, para a rua, a praceta, o pequeno quarteirão, sem uma nota de importância especial para o edifício, e note-se a carga de relação com o habitante, com a casa habitada, com o sítio “super-humanizado” que é esta casa, que desta forma se atinge; fica, assim, de pé, uma ideia concretizadora de um reforço da importância dos espaços privados – a casa – e públicos – a rua, a praceta, por exemplo – e de uma, eventual, possibilidade de maior apagamento do edifício, como “obra” isolada e, quem sabe, mais protagonista, bem como dos espaços colectivos desse edifício, a não ser que estes tenham condições de assumir um verdadeiro protagonismo formal e funcional, que seja considerado importante numa dada situação/solução urbana específica.



Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial  das HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

As grandes cidades e a origem das cidades

Composição de edifícios habitacionais

Origens da cidade

Cidade densa

Casa-pátio

Habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

Arquitectura e Habitação: velhos aliados – a Arquitectura e o Problema Português da Habitação, 1948-2008

Nos 60 anos do 1.º Congresso Nacional de Arquitectura , textos de, e organizados por, Nuno Teotónio Pereira

Relação entre o Habitar e a História

O habitar, da proto-história aos romanos

Prémio INH/IHRU 2007

20 Anos de habitação social portuguesa

Arquitectura da habitação social portuguesa recente

Cidades à beira-rio e o rio como paisagem

O Espaço Como Dominação e Consciência

Premiados e mencionados no Prémio INH 2006

Arquitectura por arquitectas

Edifício COPAN

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João - um texto de análise do Arq.ºDuarte Nuno Simões


Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR

COELHO, António Baptista – IInfohabitar, Ano XIII, n.º 607, terça-feira, abril 18, 2017, As grandes cidades e a origem das cidadeshttp://infohabitar.blogspot.pt/2017/04/as-grandes-cidades-e-origem-das-cidades_18.html , ( 3 pp., 2 figg.).
Composição de edifícios habitacionais e conhecimento histórico - I - António Baptista Coelho (n.º 445, 24 JUN. 13, 4 págs., 4 figs.).
Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa e quase sem ruas (i) - António Baptista Coelho (n.º 383, 4 Mar. 12, 4 págs., 3 figs.).
"O limite do habitar: o exposto e o recluso", seguido de "casa-pátio: uma tipologia muito versátil" - Décio Gonçalves e António baptista Coelho (n.º 287, 28 Fev. 10, 6 págs., 7 figs.).
Sobre a casa-pátio: elementos de enquadramento - António Baptista Coelho (Infohabitar, Ano VI, n.º 283, Janeiro 31, 2010, 6 p., 3 fig.)
Arquitectura e Habitação: velhos aliados – a Arquitectura e o Problema Português da Habitação, 1948-2008, Artigo de António Baptista Coelho (n.º 208, 1 Ago. 2008, 5 págs., 4 figs.).
Nos 60 anos do 1.º Congresso Nacional de Arquitectura , textos de, e organizados por, Nuno Teotónio Pereira (n.º 206, 20 Jul. 2008, 9 págs., 7 fig.).
Relação entre o Habitar e a História - I , António Baptista Coelho (n.º 167, 2 Nov. 07, 6 p., 4 fig.).
O habitar, da proto-história aos romanos – Paços de Ferreira 12 e 13 de Outubro - António Baptista Coelho (n.º 164, 25 Out. 07, 20 p., 27 fig.).
Prémio INH/IHRU 2007 – 19ª Edição - Júri do Prémio INH/IHRU 2007 (n.º149, 19 Jul. 07, 11 p.,12 fig.) .
20 Anos de habitação social portuguesa - António Baptista Coelho (n.º 143, 7 Jun. 07, 16 p., 10 fig.).
Arquitectura da habitação social portuguesa recente – resenha de Sheila Walbe Ornstein (n.º 142, 31 Mai. 07, p., 4 fig.).
Cidades à beira-rio e o rio como paisagem: a civilização que nasceu da água - Celeste Ramos com a colaboração e ilustração de António Baptista Coelho (n.º 100, 24 Ago. 06, 10p., 9 fig.).
O Espaço Como Dominação e Consciência – artigo de Maria Luiza Forneck, ilustração de Susana Abreu, sobre as Missões Jesuítas no Sul do Brasil (n.º 97, 4 Ago. 06, 6p., 7 fig.).
Outros destaques no Prémio INH 2006 – António Baptista Coelho (n.º 92, 9 Jul., 9p., 19 fig.).
Premiados e mencionados no Prémio INH 2006 – António Baptista Coelho e Maria Celeste Ramos (n.º 91, 3 Jul 06, 10p., 18 fig.).
Prémio INH 2006: candidaturas da promoção privada, parte II – reportagem de António Baptista Coelho (n.º 89, 23 Jun. 06, 5p., 16 fig.).
Prémio Instituto Nacional de Habitação 2006: as candidaturas da promoção privada, parte I – reportagem de António Baptista Coelho (n.º 88, 17 Jun. 06, 7p., 17 fig.).
Prémio Instituto Nacional de Habitação 2006: candidaturas municipais e de entidade pública empresarial – reportagem de António Baptista Coelho (n.º 87, 11 Jun. 06, 6p. 14fig.).
Prémio InstitutoNacional de Habitação 2006: candidaturas cooperativas – reportagem de António Baptista Coelho (n.º 86, 4 Jun. 06).
Arquitectura no feminino – texto de Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho do conjunto residencial projectado pela Arqª Ana Valente e promovido pela CM de Esposende (n.º 77, 4 Abr. 06, 6p. 6fig.).
As grandes cidades e a origem das cidades – António Baptista Coelho (n.º 41, ABC, 22 Set. 05, 4 p., 2 fig.).
Edifício COPAN: marco de revitalização habitacional em São Paulo – Parte II – um artigo do Arq.º Walter Galvão e da Prof.ª Sheila Ornstein (n.º 28, 27 Jun. 05, 5 p., 4 fig.).
Edifício COPAN: marco de revitalização habitacional em São Paulo – Parte I - um artigo do Arq.º Walter Galvão e da Prof.ª Sheila Ornstein (n.º 27, 22 Jun. 05, 7 p., 3 fig., 3 com.).


Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 662
HISTÓRIA(S) E TIPOLOGIAS DO HABITAR
Conjunto de 27 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.