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segunda-feira, setembro 03, 2018

654 - INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA - Infohabitar 654

INFOHABITAR N.º 654
INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA

Conjunto de 15 artigos

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 15 artigos, editados entre 2006 e 2017, realizados por 13 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática da INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA, aproveitando-se para lembrar que , em Portugal, o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) – grupo de investigação estruturado por Nuno Portas em Novembro de 1969 – foi pioneiro na investigação em Arquitetura, Habitação, Urbanismo e numa abordagem integrada destas temáticas com as das Ciências Sociais.

E lembra-se que esta matéria da INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Entre os temas abordados nos 15 artigos cujos links se disponibilizam, em seguida, salientam-se os seguintes:

- Uma aproximação a uma linha de estruturação de investigação que integre a área do habitat humano em relação estreita com as matérias da arquitetura urbana.
- A apresentação comentada da excelente metodologia que caracterizou o Prémio INH, um prémio honorífico, que proporcionou ao longo das suas 18 edições, uma aproximação anual sistemática entre promotores, projectistas e construtores de cerca de 600 conjuntos habitacionais de todo o País, e os membros dos respectivos júris de avaliação, caracterizados por uma composição multidisciplinar e multi-institucional.
- Uma reflexão livre sobre a importância do desenvolvimento de um habitat humano humanizado, com o sentido amplo de um habitar positivamente marcado pelo homem e positivamente influenciador da sua vida individual, gregária e cívica. Neste sentido abordam-se, no artigo, as seguintes áreas temáticas: as escalas e os tempos do habitar; as humanidades e o habitar; como habitar cidades mais amigas (segurança e convivialidade); a relação com a história e as tipologias do habitar; a importância do bom desenho do habitar; a integração física e social do habitar; e a importância de um sentido amplo, adequado e interrelacionado de natureza, cidade e lugar habitados.
- A apresentação genérica do muito importante papel desempenhado pelo Gabinete Técnico da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa (GTH), no repensar da habitação e do habitar e na tentativa de resolução do problema habitacional em Lisboa, durante um significativo período do século passado.
- Uma apresentação sumária do que foi o convênio/convénio de cooperação técnica e científica, nas áreas do habitar, que foi desenvolvido entre duas prestigiadas instituições da lusofonia, a Universidade de São Paulo (USP) e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), visando-se, muito especificamente, o aprofundamento dos trabalhos conjuntos, do intercâmbio de professores e investigadores e a realização de eventos e acções comuns entre a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (a FAUUSP) e o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC.
- A apresentação das bases metodológicas e de alguns dos resultados da aplicação da Análise Retrospectiva, ou de Pós-Ocupação, na área habitacional, desenvolvida no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, através dos seus Núcleos de Arquitectura e Urbanismo e de Ecologia Social. Esta Análise Retrospectiva foi realizada ao parque habitacional financiado pelo Instituto Nacional de Habitação – habitação apoiada pelo Estado (Habitação de Custos Controlados, HCC) – e foi já aplicada em três campanhas abrangendo, assim, um período temporal significativo.
- Um relato de apresentação sumária, feito com base directa em textos desenvolvidos por diversos membros do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) e do Núcleo de Ecologia Social (NESO), das áreas de estudo e de actuação destas duas unidades de investigação do LNEC, e, designadamente, dos livros e publicações relativos à investigação em arquitectura e urbanismo e em ecologia social, que estão, actualmente, disponíveis na livraria do LNEC.

Fiquem, então, com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial,
tratando-se, neste caso, do que se julga ser uma muito estimulante selecção de casos de referência urbanos e residenciais.


Boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA

Infohabitar, Ano XIII, n.º 600, domingo, janeiro 01, 2017, De 1980 a 2016: um percurso nos estudos sobre Habitat Humano e Arquitetura, – por António Baptista Coelho  http://infohabitar.blogspot.pt/2017/01/de-1980-2016-um-percurso-nos-estudos.html (10 pp.,  10 figg.).

Infohabitar, Ano X, n.º 486, domingo, Junho 01, 2014 – O Silêncio e a Arquitetura : da socialização às ruínas – por António Baptista Coelho. (4 pp., 3 figg.) http://infohabitar.blogspot.pt/2014/06/o-silencio-e-arquitetura-da.html

Infohabitar, Ano X, n.º 485, domingo, Maio 25, 2014 – O silêncio como base de projeto e quadro natural – por António Baptista Coelho. (3 pg, 2 figg.) http://infohabitar.blogspot.pt/2014/05/o-silencio-como-base-de-projeto-e.html

Arquitetura em estado crítico – artigo de Carlos Almeida Marques – Infohabitar n.º 453, Segunda-feira, Setembro 16, 2013 (5 pp., 1 figg.) http://infohabitar.blogspot.pt/2013/09/arquitetura-em-estado-critico.html

O prémio INH/IHRU, um processo de referência - António Baptista Coelho (n.º 423, 20 JAN. 13, 11 págs., 6 figs.).

"Habitação em Lisboa: Memória do GTH – 50 ANOS", seguido de "O GTH e o papel do engenheiro Jorge Carvalho de Mesquita" - artigos de Jorge Mangorrinha (n.º 300 - II, 6 Jun. 10, 10 págs., 8 figs.).

Um(a) NAU com 40 anos, III- de 1969 a 2009, 40 anos de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC : Parte III, sobre a investigação programada do NAU - António Baptista Coelho com os membros do NAU do LNEC (Infohabitar, Ano V n.º 276, Dezembro 21, 2009, 10 págs., 18 fig.)

Um(a) NAU com 40 anos, II - de 1969 a 2009, 40 anos de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC : Parte II, sobre os últimos estudos do NAU - António Baptista Coelho com os membros do NAU do LNEC (Infohabitar, Ano V n.º 277, Dezembro 13, 2009, 12 págs., 23 figs.)

De 1969 a 2009, 40 anos de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC: Parte I, sobre a Conferência em 24 de Novembro de 2009 - António Baptista Coelho, com a colaboração de todos os membros do NAU (Infohabitar, Ano V n.º 276, Dezembro 6, 2009, 6 págs., 12 figs.).

Cooperação entre o LNEC e a USP nas áreas da Arquitectura e do Habitar - Notas sobre a cooperação entre o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo nas áreas da Arquitectura e do Habitar - António Baptista Coelho (Infohabitar Ano V n.º 274 , Novembro 29, 2009, 7 págs., 5 figs.).

Algumas definições I, da “habitação” ao “engenho”– artigo de António Baptista Coelho (n.º 180, 24 Janeiro 2008 7 págs., 6 figs.)

A investigação em arquitectura e urbanismo e em ecologia social no LNEC, parte I – António Baptista Coelho e Marluci Menezes (n.º 112, 9 Nov. 06, 18p. 10 fig.).



Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 654
INVESTIGAÇÃO HABITACIONAL E URBANA
 Conjunto de 15 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, março 16, 2009

239 - Novos caminhos da habitação - Infohabitar 239

Infohabitar, Ano V, n.º 239


Novos caminhos da habitação
António Baptista Coelho

Sobre o habitar a cidade e a casa hoje em dia

Estudar a habitação é estudar a cidade e o modo como fazer cidade viva pois, como diz Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e a “cidade sem habitação não faz sentido...” (1)
Vamos então falar um pouco sobre como habitar melhor uma cidade melhor e sobre como a HIS pode participar neste desafio …



Fig. 01: Coop. Habecê, Porto, Viso, 72 f., 1994, Arq.ºs João Pestana, Chaves Almeida e Fernando Neves

A população estabilizou mas as necessidades habitacionais têm crescido, talvez pela junção ainda de críticas faltas de habitação condigna com novas e diversificadas necessidades habitacionais por aumento das pessoas que vivem sós, por uma mutação frequente e brusca na composição dos agregados, pela crescente autonomização residencial dos mais idosos, um grupo etário em crescimento, mas também porque, cada vez mais, há mais pessoas a habitarem diferentes casas e a habitarem a cidade com intensidade.



Fig. 02: os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se

Os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se, é portanto necessário flexibilizar a oferta de soluções urbanas e residenciais e assumir cada vez mais a habitação como vários espaços de habitar, no interior como lugar de trabalho e de recreio, que responda a um amplo leque de necessidades e desejos através da adaptabilidade e da redução das hierarquias funcionais domésticas, e no exterior urbano por uma afirmação de vizinhanças e de uma cidade agradavelmente habitada.



Fig. 03: nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos

E aqui. nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, como defende Jan Gehl (2), enquanto uma casa cheia de gente, como acontecia antigamente, era uma pequena cidade, no caso de uma pessoa que viva só, ou no caso de um casal, precisa-se da vida da cidade para se viver com diversidade e estímulo.

* Dois objectivos aliados: cidade mais viva e melhor habitada

Que problemas são os mais importantes na sociedade e na cidade actuais? Provavelmente estarão entre os mais críticos a falta de vitalidade urbana e a as desmotivantes condições de qualidade habitacional que afectam, ainda, e de diversas formas, muitas pessoas e famílias.

A ideia-chave que aqui se propõe é ser possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive, numa resolução dupla de problemas que foram e são críticos.



Fig. 04: é possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive - C. M. Matosinhos, Telheiro, 2002, f.44, Arq.º Manuel Correia Fernandes, Const. Norasil

Mesmo com um número reduzido de fogos e com limites de custo é possível enriquecer a paisagem urbana e o que não se deve realmente fazer é quase só habitação, ou quase só lojas, ou quase só equipamento, pois a cidade é tudo isso, a cidade viva é tudo isso, em todos os sítios.

Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.



Fig. 05: cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade - (1991) Faro, Coop. Coobital, Arq. José Lopes da Costa e José Brito

São, por exemplo, os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que tornam a cidade mais habitada e segura e que se podem tornar verdadeiros terceiros espaços das nossas casas, com vantagens para uma vida pessoal, familiar e urbana mais rica e estimulante, mas também é todo um amplo leque de outros equipamentos de proximidade que tornam a cidade circunvizinha mais habitável, porque mais amigável.

Numa cidade assim habitada há que acolher uma grande diversidade de soluções habitacionais, desde a habitação corrente, num multifamiliar, à pequena habitação apoiada e integrada num conjunto de espaços comuns, soluções estas que além de corresponderem a necessidades específicas irão enriquecer a textura vital da cidade.

E para uma cidade mais viva além de melhor habitada e equipada é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos, sendo a sua pedonalização em espaços mais segmentados e diversificados a condição directa para uma sua maior amigabilidade; uma cidade viva e amiga do peão.



Fig. 06: é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos - C.M. de Matosinhos, 2005, Monte Espinho, 108 f., Arqª Paula Petiz, const. FDO

A introdução ou a reintrodução de habitação deve ser, assim, aliada à vitalização e qualificação urbana pormenorizadas, ganhando-se, assim, mais e melhores espaços de habitar e de cidade.

Actuar desta forma depende de se fazer boa arquitectura urbana pormenorizada, numa pequena escala civicamente enriquecedora e muito humana, sem repetições de soluções e com intervenções feitas para cada sítio e marcadas pela qualidade arquitectónica; num processo que exige enquadramento específico, pois o segredo, se o há, é, realmente, a qualidade real do projecto, uma qualidade que tem de ser exigida e verificada, pois dela deve resultar melhores habitações e melhores paisagens urbanas.

E uma qualidade que nunca poderá resultar de tábuas rasas, pois devemos aprender com a experiência.

Notas:
(1) Manuel Correia Fernandes – Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos, p. 1.
(2) Jan GEHL,«A Changing Street Life in a Changing Society» in http://repositories.cdlib.org/ced/places/vol6/iss1/JanGehl/, consultado em 13.02.2009.

Edição Infohabitar por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
15 de Fevereiro de 2009

quinta-feira, março 15, 2007

130 - Humanização do habitar: algumas reflexões – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 130

 - Infohabitar 130


Humanização do habitar: algumas reflexões


António Baptista Coelho


Fig. 1

Disse Carlos de Azevedo que “a casa é um documento autêntico da vida do homem – documento de pedra e cal, mas de extraordinária importância para estudarmos os costumes, a evolução do gosto e da vida social.” (1)
E Vicente Verdú, citado por Anatxu Zabalbeascoa, situa a casa “entre a realidade e o desejo … entre o possível e o desejado” e diz que a casa “pode acolher sonhos e satisfazer necessidades.” (2)



Fig. 2: uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada – Caldas da Rainha, Telheiras Lisboa (Arq. Rodrigo Rau), Parque das Nações Lisboa, o Porto à noite.

Os grandes autores estão a convergir em matérias que muito têm a ver com uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada. Matérias a conjugar em partes de novas e velhas cidades que para serem sustentáveis têm de estar cheias de interesse urbano e de vitalidade habitacional. Cidades que acolham o crescimento da necessidade de mais habitação, que resulta da desagregação da família tradicional, do aumento da esperança de vida, do desenvolvimento do trabalho e do lazer em casa, e também da concentração urbana, que irá agudizar-se nos próximos decénios.

E não nos iludamos, é, de facto, ainda preciso construir nova habitação, Espanha e França têm apontado, recentemente, tal necessidade; e só em França, e por conta dos maus exemplos do passado recente, parece que serão demolidas e feitas “de novo”, 250.000 habitações, em 10 anos, realojando-se, assim, espera-se, melhor, cerca de 5 milhões de suburbanos.


Fig. 3: Madalena, Funchal, de Duarte Cabral de Mello, Maria Manuel Godinho de Almeida e João Francisco Caires (1992)

Mas entre fazer de novo e reabilitar habitação, entre novos conjuntos e o fundamental “construir no construído”, num caso e noutro há que humanizar e vitalizar, urgentemente, centros históricos e subúrbios; e num tal desígnio, é fundamental o habitar, e um habitar bem pormenorizado e qualificado, que não falhe mais nas suas ligações com o habitante e com a cidade, e para tal não chegam os aspectos mais objectivos da qualidade residencial.



Figura 4: sobre os vários níveis urbanos habitados; Baixa de Lisboa, Cooperativa Massarelos Porto de Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá, Alvalade Lisboa de Faria da Costa uma rua residencial

E é nessa matéria de uma ampla pormenorização do habitar que muito está em jogo, em termos de humanização: Diz Fumiko Maki, que “nas cidades do passado, há a família e acima desta a comunidade e acima desta a cidade. Há um mundo público evidenciado e, por outro lado, há um mundo privado afirmado, e cada um deles interage com o espaço para formar cidade.”(3)

Entre estes dois mundos sempre houve um terceiro mundo, o do espaço comum ou colectivo, que assegura uma aliança com a convivialidade urbana e citadina , e que é ainda o verdadeiro elemento agregador da cidade de hoje; e Georges Perec descreve-o: "o lugar neutro, que é de todos e de ninguém‚ onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio ecoa..., longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos apenas captamos quase sempre esses ecos estilhaçados, esses restos, esses destroços, esses esboços, esses estímulos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que se chama as «áreas comuns»....”(4)


Figura 5

Mas em todos estes mundos há, hoje em dia, na cidade contemporânea, sinais bem negativos: de desumanização, de isolamento atrás da porta de cada habitação e de crítica falta de cidade habitada e amigável; dá vontade de dizer, falta de cidades suaves e calmas, conceitos estes que podem ser bem copiados da engenharia de tráfego, pois nem só o tráfego precisa de modos suaves e de modos de acalmia; toda a cidade deles necessita.
E sobre eles diz Riken Yamamoto, que “uma coisa que sentimos quando tentamos viver em soluções habitacionais densificadas é que a disposição dos compartimentos separa totalmente do exterior. O encerramento e a abertura das habitações, a relação entre interior e exterior, foram assuntos frequentemente investigados, mas Os sentimentos reais, quando aí tentamos viver são horríveis. Até quando subimos as escadas, vendo apenas portas de segurança fechadas, sentimos uma crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações. E ao entrar e ao fechar-se a porta, tudo se torna um outro mundo, totalmente isolado do mundo real.” (5)
Vale bem a pena confrontar esse “lugar neutro, que é de todos e de ninguém, onde a vida do prédio ecoa”, referido por Perec, com esta “crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações” e com este “outro mundo, totalmente isolado do mundo real”.


Figura 6: sobre os limiares urbanos habitados e coesos, uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade – Alvalade de Faria da Costa, Habijovem Albufeira de Faria da Costa, Chasa Alverca coord. Duarte Cabral de Mello, Monte Espinho Matosinhos de Paula Petiz.

Riken Yamamoto aponta no sentido de uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade, numa linha gémea daquela seguida por Alexander e Chermayeff em 1963 e por Hertzberger em 1991, e diz que tudo é uma questão de “organizações” espaciais; … matéria bem na linha de vários desenvolvimentos feitos neste trabalho, por exemplo, ao nível do desenho, das tipologias residenciais, das “escalas” urbanas e de uma ampla integração.




Figura 7: exemplos de habitações que atingem um significado social (HSS) - Cooperativa Lar Para Todos, Beja, de Raúl Hestnes Ferreira (1986); reabilitação para pequenos fogos para idosos, Funchal, de Susana Fernandes (2001); Fronteira, de Alexandre Costa e Cláudia José (2003); Mosteiró, Vila do Conde, de Miguel Leal (2003); cooperativa UGTIMO, Zambujal, de José Bicho (1997); Mataduços de Carlos Fonseca e Alfredo Machado (2001); Milheirós, de João Carlos Santos (2001); Chouso, de Luís Miranda (1999); e B. Padre Cruz, de Rosa Leitão (1992) ...

Sublinha-se, também, que a humanização do habitar não tem a ver com os custos da construção, mas sim com a qualidade do projecto e da construção. E, a propósito, cita-se uma afirmação bem recente de Kazuo Shinohara: “na nossa enorme sociedade actual há pouca diferença entre fazer cem casas ou duzentas casas; a quantidade que é difícil apurar é o número de casas que são feitas e que atingem um significado social.” (6)
E termina-se lembrando o conceito “from the bedside to the bench”, apontado, recentemente, por António Coutinho; um conceito que, nas áreas do habitar e da arquitectura, tem de ligar urgentemente os casos habitacionais humanizados às mesas de concepção de intervenções habitacionais e urbanas.



Figura 8: da complexidade e da subtileza

E lembremos, a propósito, uma recente e fundamental afirmação de Benevolo e Albretch: “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana...” (7)



Figura 9: habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo

Sustenta Franco Purini que “a etimologia latina de habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo. A base do conceito de habitar é, pois, muito ampla, e exprime um sentido de plenitude, de totalidade e de segurança...” (8)
Temos, assim, a palavra “habitar”, que sintetiza um verdadeiro e amplo serviço de habitação, que parece ser o objectivo central de toda esta ideia; de certo modo até se pode considerar que o conceito de habitar já, em si, inclui o sentido de humanização.



Figura 10: uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos.

Uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos, pois, como escreveu Kafka:
“Quando me deixo levar pela meditação, perco-me em reflexões técnicas, recomeço a sonhar uma toca perfeita sob todos os aspectos, e vejo com os olhos fechados fascinantes possibilidades de arquitecturas ideais...”
E uma humanização do habitar que tem de passar por certezas, Como as de Sophia de Mello Breyner:
“Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes”,

Referências bibliográficas:
[1] Carlos de Azevedo, “Solares Portugueses – introdução ao estudo da casa nobre”, Livros Horizonte, 1988 (1969), (p.13)
2 Anatxu Zabalbeascoa, “La casa del arquitecto”, Ed. Gustavo Gili, p.6, 1995.
3 Fumiko Maki, citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 440.
4 Georges Perec, “A vida modo de usar” 1989, Trad. Pedro Tamen, (1978), p. 19.
5 Kenchiku Zasshi, em “Lifestyles and Layouts of Mass Housing” (1990), citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 441.
6 Kazuo Shinohara, “Now, «modern next»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, Tóquio, TOTO Shuppan 2005, p. 435.
7 Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.
8 Franco Purini, “La Arquitectura Didactica”, pp. 126 a 130 (a marcação a bold é minha).

quinta-feira, janeiro 11, 2007

121 - Sobre a humanização do habitar e o cooperativismo – uma primeira “conversa escrita” entre António Novais e António Baptista Coelho - Infohabitar 121

 - Infohabitar 121


Fig. 1: Beja, Cooperativa de Habitação Económica Lar Para Todos, 1986, projecto coordenado pelo Arq. Raúl Hestnes Ferreira.

Nota explicativa:

Nesta edição apresenta-se mais uma iniciativa do Grupo Habitar e do Infohabitar, que passa pela edição periódica, mas sem intervalos predefinidos, de “pares” e outros conjuntos de sequências de cartas com o título que melhor reflicta o conteúdo da respectiva troca e discussão de ideias; e até pode ser que por exemplo este importante primeiro tema da relação existente e potencial entre um habitar de forma mais humana e a cooperação habitacional nos leve longe: quem sabe!

Edita-se, assim, em seguida uma “conversa escrita”, que se inicia com uma carta, que decorreu naturalmente de uma conversa anterior, da qual a carta tenta fazer o possível relato, e uma carta que informalmente aborda, neste caso, variados temas na área da humanização do habitar e do cooperativismo, e uma carta que levanta ideias e propõe caminhos de discussão; e naturalmente a esta primeira carta segue-se a carta de resposta, que igualmente avança ideias e coloca questões para uma outra terceira carta que está para chegar.

O tema escolhido para esta primeira troca de “palavras escritas” foi o do novelo de aspectos que integram as matérias da humanização do habitar e da sua já existente e potencial relação com o cooperativismo habitacional, um tema que foi tema real de uma última conversa entre nós e que assim agora se abre a todos os leitores do Infohabitar, registando-se que se trata de uma “conversa escrita” entre duas pessoas que têm vivido de forma intensa as questões do habitar e designadamente o que o habitar pode dar para além do tecto e de um fundamental, mas não suficiente, conjunto de funções domésticas.

Apenas mais duas notas importantes:

A primeira é acentuar a natureza inteiramente informal e ao “correr da pena” ou do “bater do teclado” que têm e querem sempre vir a ter estas “conversas escritas”; considera-se ser esta uma opção fundamental nesta pequena aventura, que tem, naturalmente, reflexos numa discorrer de opiniões e de ideias apresentadas de forma um pouco fragmentada, pois essa é a essência de uma conversa, mas uma essência que pode eventualmente traduzir-se numa motivadora e natural agregação de ideias e, deseja-se, numa motivadora dinamização de outras pessoas para esta e para outras “conversas escritas”.

E a segunda nota, que já acabou de ser apontada, é, portanto, a vontade real de poder chamar outras pessoas para esta e para outras “conversas”, com os efeitos enriquecedores que essas pessoas trarão, sem qualquer dúvida, à discussão dos assuntos em consideração; e bastará o respectivo envio à edição do Infohabitar (para
abc@lnec.pt ou abc.infohabitar@gmail.com ).

Uma iniciativa deste tipo implica, naturalmente, uma sintética identificação dos perfis dos autores, e assim regista-se que António Baptista Coelho é investigador do LNEC e Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa (NHC) e António Novais é fundador e Vice-presidente da cooperativa As Sete Bicas. Há, no entanto, que sublinhar que os temas em desenvolvimento o serão, mais em resultado das nossas observações e vivências das realidades do habitar de hoje e menos em consequência das nossas actividades específicas e funções enquanto cooperativistas habitacionais.

Os autores, em 8 de Janeiro de 2007

(as imagens são apenas globalmente ilustrativas e seguem uma ordem cronológica)


Fig. 2: conjunto da Nova Habitação Cooperativa (NHC), na Estrada da Circunvalação, Lisboa, 1995, projecto coordenado pelos arquitectos Rui Pedro Cabrita e Miguel Ângelo Silva.

Caro Baptista Coelho,

Como que continuando a nossa conversa de há dias, agora sob a forma escrita (o que é um tanto mais complicado e demorado), os nossos temas andaram à volta dos meios que tornassem, por um lado, a relação entre os cooperadores com as cooperativas (sejam elas de que ramo forem) mais confiáveis, e das cooperativas em relação aos cooperadores com a oferta, tanto quanto possível, de condições favoráveis e atractivas e dentro das expectativas concretizáveis no que toca aos produtos que colocam ao dispor dos seus associados.

Falando do nosso universo (as cooperativas de habitação) a pergunta que se imporia seria a seguinte: Correspondem as cooperativas, com os produtos que colocam à disposição dos seus cooperadores, ao modelo de utilização e de vivência (proximidade e interacção com a sua vizinhança), que permitam aos cooperadores a desejada integração em ambientes, que sendo novos, não façam àqueles sentirem-se deslocados ou “encasulados”, mas que, antes, facilitem o contacto e o são relacionamento inter-vizinhos?

É sabido que as habitações que hoje se produzem, seja no mercado livre, seja no do mundo cooperativo, obedecem, mais ou menos, a um mesmo padrão construtivo: cozinha mais ou menos minúscula, quartos, sala comum e arrumos. É sabido também que, particularmente nos casais com vida profissional activa, as refeições normais são, tendencialmente, tomadas na cozinha, por questões de mobilidade, de economia de tempo, de tradição, etc.. E será que as habitações (neste caso as cozinhas) dão resposta, pela sua configuração e área, a estas necessidades?

As classes mais débeis economicamente encontravam, até um passado recente, solução para os seus problemas de habitação naquilo a que no Porto se designa por “ilhas”; aglomerados de minúsculas casas construídas em superfície. Nesses aglomerados, havia, muitas vezes, espaço para os canteiros, ou vasos, onde proliferavam mil tipos de plantas e flores, ou para a miudagem conviver em ambiente de brincadeira e de jogos colectivos, hábitos que hoje se vão perdendo, com grande pesar por parte de todos quantos neles então participaram e deles muitos ensinamentos tiraram. Sobrava também o tempo para que os vizinhos, ao se cruzarem nos espaços comuns, parassem para dois dedos de conversa;

Mas a que se devem então os protestos de muitos dos moradores dessas “ilhas”, ou mais recentemente dos moradores de alguns bairros em demolição quando são confrontados com a imposição de se realojarem em novas habitações com índices de conforto e de habitabilidade bem melhores que as de onde provêm? Não será, também porque se confrontam com a consciência de que vão perder, para sempre, aquele ambiente intimista e de solidariedade que viviam nos antigos espaços das suas habitações, ou recantos onde crianças e adultos pudessem ter contacto com a terra, como o faziam naqueles anteriores espaços? Lembremo-nos, de novo, dos jogos que a criançada fazia desenhando-os ou construindo-os com terra, ou do efeito retemperador e de prazer com que muitos adultos se sentiriam se tivessem, por perto, um canteiro onde pudessem amanhar a terra e contemplar o crescimento das suas plantas. Lembremo-nos ainda dos pátios alfacinhas e do efeito intimista e solidário que os mesmos provocavam nos “vizinhos” (haveria que recuperar também este termo, no sentido que o mesmo significava então).

Felizmente que o tipo de habitação que a esmagadora maioria das Cooperativas produz para o alojamento dos seus cooperadores, vai no sentido de responder positivamente a algumas das realidades e constrangimentos acima apontados, através da inclusão, nos seus edificados, de equipamentos sociais e espaços lúdicos e de convívio para todos os grupos etários. Felizmente que muitas das Cooperativas alimentam ainda actividades lúdicas ou desportivas, para benefício dos seus membros.

Com estas acções desenvolvidas pelas Cooperativas de Habitação (construção de habitações dentro de critérios cada vez mais rigorosos e onde se incluem os equipamentos sociais) a interrogação que se põe é se estará tudo feito no que seja o âmbito desta área do cooperativismo e no que sejam as aspirações e determinações dos seus dirigentes. Avanço a resposta: Não!
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Suspendo aqui a minha parte da “conversa”, que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo.

Com os assuntos acima abordados, mais não pretendi que não fosse tentar encontrar um fio para o arranque desta “missão”.

Saúdo-o com cordialidade.

António Novais
06.12.30


Fig. 3: MCH Algarve, Faro, CUPH – Urbanização Janelas de Faro I, projecto coordenado pelos arquitectos Jennifer Silva Pereira e Rogério Paulo Inácio, 2005.

Caro António Novais,

Continuando a nossa conversa, e com algum método seguindo o correr das suas palavras e das ideias que discutimos há pouco mais de um mês – um método que espero poder e podermos baralhar, positivamente, em próximas destas conversas, apetece sublinhar que a habitação não é ou não deveria ser apenas uma “caixa” onde se exercem diversas “funções” habitacionais, funções estas actualmente já muito escalpelizadas.

E a habitação não é uma “caixa” – ou a “gaveta” onde se arrumam pessoas, numa bem adequada ideia da Doutora Isabel Guerra – não só porque a habitação é muito mais do que uma “caixa” definidora de um dado mundo doméstico, sempre o foi, pois nela sempre muito mais se passou do que apenas funções – basta lembrarmo-nos das emoções –, mas também porque a habitação, que esteve na base da aglomeração de casas e da cidade, não pode de forma alguma esquecer-se das razões de coesão e de vivência comum, que estiveram na base da construção citadina. E, se o esquecer, provavelmente inicia aí o princípio do fim da sua razão de existir em termos de unidade específica; e aqui há também funções, mas também emoções.

Explorando um pouco mais esta matéria dá vontade de comentar que, provavelmente, há cerca de 10.000 anos se começou a passar da casa isolada para a “cidade” por razões de protecção mútua, de desenvolvimento económico e cultural e muito provavelmente também por razões de desenvolvimento gregário e associativo, e também de convívio em grupo, enquanto hoje em dia parece ser a reclusão doméstica e talvez mesmo o aprofundar do individualismo, por um lado, e a estratégica reclusão consumista, por outro, que ameaça a vitalidade do espaço público, que constitui afinal a própria matéria-base da cidade.

E voltando, outra vez, um pouco atrás, também uma caixa apenas “habitável” não corresponde ao sentido de protecção, de envolvência e de identidade e de relação com o corpo e o espírito que pode estar presente até no mais pobre abrigo.

Sobre o problema das habitações-tipo feitas para famílias-tipo, dá vontade de dizer que, em boa parte elas só serão as mais adequadas absolutamente por acaso, pois como se sabe não há pessoas-tipo, nunca houve e cada vez menos há, seja considerando a grande diversidade de culturas que cada vez em maior número integram a nossa grande casa europeia, seja porque o viver de forma específica é, cada vez mais e ainda bem, a vontade de muitos.

Naturalmente que um edifício multifamiliar ou um agregado de edifícios unifamiliares só poderá responder com fidelidade a cada conjunto de necessidades e de desejos familiares a muito custo, mas há diversos aspectos em que se pode actuar numa contínua aproximação à satisfação de quem habita: um dos aspectos é o diálogo construtivo e funcional com quem vai habitar e com quem vai projectar, sempre que tal diálogo seja possível; outro aspecto é conhecer o melhor possível o maior número possível de soluções residenciais e urbanas, pois não vale a pena repetir erros e há inúmeras soluções que podem responder a inúmeras solicitações; outro aspecto liga-se à aplicação de cuidados de projecto especificamente dirigidos para se aumentar a adaptabilidade de uma dada solução doméstica genérica, e esta é uma matéria que nem é especialmente complexa e permite uma riquíssima reinterpretação da casa por um razoável leque de formas e desejos de habitar, trata-se sim de uma matéria em que tudo isto é apenas possível com um bom projecto de arquitectura.

Portanto a resposta que dá vontade de dar à questão levantada sobre se as habitações actuais tendem a dar resposta às necessidades actuais, a resposta que se julga mais acertada é que, por regra, não! E pensa-se apenas nas necessidades funcionais, sobre as outras então só excepcionalmente as novas habitações lhes dão resposta; e aqui fica uma pergunta: será que é desejável e possível seguir, como regra, por este caminho de tentar dar resposta também a outras necessidades domésticas que não as apenas funcionais?

Ao entrar-se nesta matéria de outras necessidades habitacionais para além das funcionais, tendo presente, naturalmente, que há ainda necessidades funcionais por cumprir, mas não é por isso que se deve parar a reflexão sobre estas matérias, portanto neste aprofundamento dos rumos e das dimensões da satisfação residencial, há que fazer duas coisas fundamentais: olhar a rua e a cidade e sair de casa, e poder ter vontade de sair de casa; e poder depois olhar e lembrar a nossa casa de fora e ter vontade de a ela voltar e de nela receber os amigos que devem poder vir pela rua com agrado.

E aqui parece centrar-se a matéria que se levanta quando se pensa na insatisfação de certas pessoas quando confrontadas com ter de sair de um sítio de habitar com pouco conforto, mas com elevado potencial de apropriação, convivialidade e relações directas que são aquelas que em boa parte dinamizam a ajuda mútua, para irem habitar novas habitações, por vezes, com elevados níveis de conforto e de habitabilidade, portanto com elevados parâmetros qualitativos funcionais, mas, frequentemente, com reduzidos parâmetros qualitativos ligados a aspectos de identidade, apropriação, convivialidade e mesmo sentido de afinidade e de amigabilidade.

Fazer casas “amigas” de quem nelas mora, para além de serem “amigas” do ambiente, e fazer cidades “amigas” dos seus habitantes. Nestas matérias há muito que fazer pois sabe-se que muito aqui terá a ver com a escala e, tal como refere no seu texto, com a relação com o solo e com a possibilidade de usar a rua e os espaços de transição entre casa e rua com alguma liberdade e mesmo com alguma alegria – e nada disto trata de aspectos subjectivos ou inexistentes, são aspectos difíceis de medir, pois claro, mas que eles existem não haja dúvida. E talvez sobre esta matéria valha a pena prolongarmos um pouco o nosso diálogo em futuros textos, se assim considerar oportuno.

Mas seria importante ter também a sua opinião como habitante e como dirigente de uma grande cooperativa de habitação sobre uma outra faceta desta última temática, é que parece que, por vezes, o principal problema nem é uma pouco eficaz interpretação ou reinterpretação de tais “valores” pouco mensuráveis, mas que enriquecem o sentido do habitar a casa e a cidade, o pior parecem ser aqueles inúmeros casos em que fica evidente no projecto a quase total ausência de preocupações com tal natureza.

Com certeza que é difícil projectar ambientes residenciais intimistas e potenciadores de solidariedade, ou pelo menos de convívio, mas as cooperativas têm conseguido fazer alguns, não é verdade? E não será que vale a pena um tal cuidado e um tal trabalho aprofundado? E não será que muita desta matéria tem suporte directo numa cuidadosa aplicação de determinadas soluções tipológicas, feitas de edifícios e de espaços entre edifícios, ambos criteriosa e fundamentadamente desenhados? Mais um tema que fica em aberto.

E não será que nos últimos anos tem havido algum abrandamento neste tipo de preocupações práticas, designadamente, também nas próprias cooperativas? E não será que é cada vez mais urgente retomar uma tal linha de habitar humanizado e solidário, ainda que naturalmente apoiando os habitantes de hoje, e portanto sensível aos novos hábitos domésticos e urbanos? E que linhas deverão ser privilegiadas para se ir cumprindo um tal sentido de evolução da promoção habitacional e designadamente da promoção habitacional cooperativa?

A resposta que dá no seu texto a esta matéria é que acha que não, que acha que nem tudo está feito na área do cooperativismo habitacional no que se liga a estas matérias de uma ponderada, mas afirmada humanização e dinamização social e convivial da nossa promoção habitacional. Mas como avançar? E como avançar de forma eficaz numa sociedade que cada vez mais está, como diz, encasulada?

E não será também vital para as cidades deste nosso novo século das cidades que na pequena escala das suas vizinhanças algo se comece a passar de forma diferente, isto é, de forma mais humana e convivial?

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Termino então por aqui, para já, esta minha parte da “conversa” que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo, por sua vez bem ligada à nossa outra costela de habitantes deste século das cidades que estamos a viver pela primeira vez.

Reconheço que fui um pouco longo, o que tentarei corrigir na próxima “conversa escrita”, na sequência da recepção das suas e, eventualmente, de outras ideias que aguardo com expectativa.

Saúdo-o com cordialidade.

António Baptista Coelho
2007.01.05


Fig. 4: Conjunto Habitacional da Bouça, Porto, Cooperativa Águas Férreas – cooperativas Ceta e As Sete Bicas e Associação de Moradores da Bouça –, 2006, projecto coordenado pelo Arq. Siza Vieira, uma acção de reabilitação e de completação (72 novos fogos) da obra que tinha sido parcialmente concluída em 1979; fotografia disponibilizada pelos promotores.