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sexta-feira, abril 20, 2007

136 - O CÉU DE LISBOA – artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 136

 - Infohabitar 136

O CÉU DE LISBOA


por Celeste Ramos
ilustrações/fotografias com participação de António Baptista Coelho

Convidam-se os leitores a apreciarem um novo texto de Celeste Ramos, um texto sobre “o céu de Lisboa”, ou será que não é sobre o céu da cidade, de qualquer cidade amada.
E depois deste texto, e da mesma boa amiga Celeste, um segundo texto se junta, um texto “segundo”, que não é necessário depois do primeiro, mas que será lido, por quem o quiser ler, desde que com um espírito aberto e receptivo, semelhante ao que foi necessário para o escrever.
E os leitores atentos entenderão o contraste entre o céu da cidade, que nos deixa pensar sem limites, e os limites que existem, cada vez mais, em muito do que ainda faz a verdadeira beleza do nosso mundo.

Foi um pequeno e livre comentário do editor,

ABC



O CÉU DE LISBOA

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…
Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?
Onde fui buscar isto ?
De onde me veio isto ? Isto é melhor do que eu …
Seremos nós neste tempo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ??

(In: Álvaro de Campos, Edição Ática de 1958)



Fig. 00

Que tarde tão bela e tão luminosa tal que toda a gente deveria estar na rua – sim, na rua – a ver o dia, a ver a luz, a ver tudo o que o olhar pode olhar e "ver" para além do que é visto e se mostra. E a ver também as árvores e os pássaros se é que ainda há pássaros na cidade.

Ver e sentir e, podendo, comunicar com alguém o sentimento de banho de luz na tarde luminosa e fresca de Lisboa.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras .
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, na verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e tudo para ele é pouco

Cada alma é uma escada para Deus
É um corredor-Universo para Deus
Cada Alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito



Fig. 01

Olhei para o chão e as pedrinhas dos passeios parecia que sorriam à luz daquele sol rasante iluminando-as e dando-lhe existência na forma, e cor, e luz e vida.


Olhei para as plantas, algumas que sabiam que algo se estava a passar e que iria acabar em breve, despedindo-se do nosso olhar com cor de oiro porque a morte não tem de ser só negro e tristeza porque o negro é a ausências de todas as cores que é também a cor do céu mais escuro e que agora até tem mais cores do que se pode calcular e inventar.

Olhei para a terra tão pouca e cada vez mais rara porque betão e betuminoso a invadem implacável e impunemente mesmo com os Polis que tudo re-qualificam impermeabilizando o inimaginável, mas terra que ainda a há na cidade, e tão castanha e refrescada pela chuva acabada de cair que dava perfume que parecia que respirava e falava com as plantas que segurava bem, porque lhes tinha permitido criar raízes para poderem ali ficar todo o tempo do mundo e serem vistas muitas vezes por muita gente se houver quem para elas goste de olhar e compreender como são vida e alegria da própria terra.



Fig. 02

Mas, e a luz ?
Estava sempre a mudar porque lá mais no alto aquelas nuvens que permitiam o sol e a luz, eram no entanto muito cinzentas e por vezes tão negras, mudando de formas constantemente a desafiar o rosa e o oiro que o sol insistia dar-lhes, como se o céu com os seus caprichos as fizessem dançar e também ouvir muito ao de leve algum diálogo, talvez musical, provocado pela atrito das partículas de água de que se formam e, nunca se sabe, se é sol se é borrasca, se é a maior das tempestades quando as partículas se agridem até faiscar.

No entanto que felizes ainda somos os que vivemos aqui enquanto tudo fizermos individual e colectivamente para que a fricção das partículas de chuva não venha nunca a provocar terríveis perturbações electromagnéticas no céu que fazem tudo desabar - só duas gotinhas de água a friccionar uma na outra, por diferença de temperatura, podem ser o início da pior das devastações e morte pois que sendo embora fenómenos naturais podem ser reforçados na sua violência e ocorrência pela mão humana e mesmo deslocalizados para lugares onde não pertenceria acontecer, como é o caso do país onde até a natureza foi sempre doce e pacífica, mas já não é.

E já não o é, pois que tendo o clima mudado e o país despovoado em benefício das áreas metropolitanas, continua-se a ignorar o constante des-ordenamento de todas as paisagens, mas também a vigilância de áreas remotas e sem habitantes, num eterno esquecimento da dinâmica dos territórios face ao uso humano ou às intempéries, normais ou acidentais, tornando-se assim o ordenamento mais e mais premente não importa em que espaço nacional; diríamos mesmo que a “velha” GNR que a cavalo percorria o país rural, faz falta ela ou outra instituição, que se ocupe de ver “o que se vai passando por aí”.

Mas que felizes podemos ser ainda se percebermos a parte que nos cabe de prevenir e conservar as situações que mantêm o clima que temos ainda, por mais ameaçadoras que já tenham sido algumas situações sobretudo nesta década do novo milénio e mesmo não tendo gravidade maior, o certo é que a nossa cidade começa também e assistir a fenómenos muito fora do que era habitual pois que já neva em Lisboa ou no litoral soalheiro e mesmo no Alentejo.



Fig. 03

Mas que felizes poderemos ser só de ir passear e olhar a luz de todo o ano, olhar a terra e as árvores, olhar as folhas em tempo de despedida mas que deixaram os frutos pendurados e a secar, olhando também para o chão de terra onde caem e logo se transformam em vida, olhar o cais e a água do rio que se entrega ao mar e a luz que dele também vem, e o vento, sim, o vento, a mostrar-se nas ramadas fazendo-o assobiar, e a mostrar-se também na água a ondular, o mesmo vento que faz mudar essas nuvens impacientes que correm pelo céu a anunciar, a anunciar, a anunciar-nos que terra e céu estão ligados e nós de permeio a tentar perceber o que tudo quererá dizer: olhar o chão, olhar o céu, olhar a vida de qualquer lugar.

Sinfonias da terra e céu desdobradas em tudo que a habita, como nós, os habitantes mais cruéis e distraídos das coisas desse eterno diálogo que é imperioso ouvir, ouvir, e não esquecer e escolher ouvir melodia, mas até quando?

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Mas ao mesmo tempo que deixo correr as ideias ia vendo, na SIC Notícias, das 02.30 às 03.OOh da madrugada de 23 setembro 2006 , e pela segunda vez em menos de um ano, um programa sobre os apanhadores de bivalves na ponta mais noroeste do Reino Unido, grande planície de areia de ilhotas e braços de mar e estuários, que logo que a maré começa a subir silenciosamente tudo inundando sem se dar por nada. Estes apanhadores de bivalves, chineses, ilegais, são explorados e arriscam a vida, diariamente, num ritmo de marés que em boa parte desconhecem, dormindo em pardieiros em Liverpool, sem direito a planos nem sonhos de vida, vivendo apenas um dia de cada vez; o que me faz lembrar os portugueses dos anos 60 ou os emigrados do Sahel de hoje, destes primeiros anos do III milénio d.C.

Afinal, cada um pode fazer o quê?? Cada um deverá fazer o quê?



Fig. 04

A minha cidade de céu de todas as cores e luz sem imitação, abriga ainda tanta vida mas também tanta indiferença pelo que se passa pelo mundo, e mesmo pelo que nela se passa, de feio e mesmo de belo porque quem toca a beleza quererá certamente partilhá-la.

Nada?? A impotência do homem comum como eu que só posso, ao menos, escrever sobre isso, e depois?? Depois nada!

Cada um por si, cada nação por si, só pode mesmo ser assim?

O céu cheio de nuvens carregadas de negro e chumbo, para uns a morte, para mim, hoje, a beleza incompleta e imperfeita porque não consigo olhar só uma face das coisas, que até vêm ter comigo sem as ter procurado a esta hora tão tardia.

Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?



Fig. 05

Porque fui ver a beleza da luz e das nuvens negras, e porque gostava de poder partilhar a grandeza do que vi mas que, entretanto, foi interceptada pelo que acontece, lá mais longe, onde nem nuvens havia, mas a morte reinava, não a das folhas das plantas, mas dos homens e dos seus sonhos que não tiveram tempo de sonhar.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,

E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida

Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,

Sentir tudo de todas as maneiras
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são na verdade excessivas

Mas mais completo serei pelo espaço fora

Sursum corda

E fica a Vida, a que persiste.


Texto segundo:



Fig. 06
In:www.dias-com-arvores-fevereiro 2007

Semente de sobreiro: na terra caiu uma semente que ninguém semeou, que dará uma grande e milenar árvore de onde o homem retirará grande riqueza mesmo sem ter de a regar ou adubar, no entanto sempre ameaçada pelo betão e betuminoso, mesmo sendo a árvore protegida por lei há mais tempo no país, mas que os “Polis” em vez de requalificar, abatem.

Olhar o céu, para quê??
Só o céu??
O que o céu dá vê-se cá em baixo no chão!
O país orgulha-se de ser o maior produtor de cortiça e, dela, a melhor para rolhas para o champanhe francês e apesar de ser o sobreiro a árvore há mais tempo protegida, é constante o abate de milhares de árvores, as que se sabe serem abatidas mas, pior, as que não se sabe porque é escandaloso as abater “ao sol”

Porém, esta árvore que nem de água quase precisa porque o que é “grande” muito dá e nada pede, precisa no entanto de um mínimo pois que não é “palmeira-de-oásis”

Acontece que com a generalização sem nenhum critério da eucaliptização do país desde o vale à montanha escarpada, desde o norte chuvoso ao sul seco, acontece que mesmo no norte onde por enquanto ainda chove, onde ainda há manchas de sobreiro no seu estado de floresta natural, nesta “primavera de 2007” quando as folhinhas novas a nascer deviam, como qualquer outra, ser de verde claro, já são amarelas, o sub bosque é pobre porque as plantas bravas do seu ecossistema já não aparecem, nem os pássaros, a atestar o empobrecimento do conjunto e a ausência de água no solo, dada a envolvente de eucaliptal que lhe retira a água que lhe pertenceria, que retira água e vida e desenvolvimento, anunciando assim a morte em directo do que em breve irá acontecer, talvez para justificar o seu “abate” por estarem velhos e podres, esta árvore mais do que centenária e fonte de silêncio e beleza e por fim de bens para as economias pois que sem natureza não há economia a prosperar e não consta que desertificando se encontre petróleo.

A ONU já revelou que em 2050 não haverá água potável para toda a população mundial e, em cada lugar da terra, a água potável é a maior riqueza pois que sem ela nem indústria haverá, mas apenas morte e, quem sabe se em breve a guerra entre os homens deixará de ser o petróleo, mas sim a ÁGUA? – veremos bem cedo que assim será.

E, para já, o aumento de preço da água canalizada aumenta a quantidade de água disponível? E será de direito a água de quem a pode ainda pagar? E será de direito esconder a quantidade que se perde nas canalizações de captação e distribuição? E será de direito o uso da água armazenada em barragens para desporto motorizado e poluente? Valerá perguntar o que são direitos e deveres de Cidadania? E se teremos de ter algum “ensino-especial” para os aprender e fazer aprender?

Valerá a pena?
Por mim, esta sabedoria ainda existe, mas apenas, nos analfabetos-ignorantes-rurais que vão morrendo e envelhecendo e com eles desaparecerá a ética e estética das paisagens que as universidades não sabem ensinar, para além de outros conhecimentos que a Cidade despreza.

Acabei!

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa - Bairro de Santo Amaro
Setembro 29 – 2006 + Fevereiro 11-2007 + Abril 04-2007 (COR)
Revisto e ilustrado para publicação no Infohabitar em 2007-04-06 (ABC)
Editado no Infohabitar em 2007-04-19 (JBC)

quinta-feira, agosto 24, 2006

100 - Cidades à beira-rio e o rio como paisagem, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 100

 - Infohabitar 100



Cidades à beira-rio e o rio como paisagem – a civilização que nasceu da água


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho
A água é a maior e cada vez mais rara riqueza da Terra representando 2/3 do planeta assim como são 2/3 a água do total do corpo humano, sendo que a água potável é finita e o bem mais precioso do planeta, mais do que o ouro ou diamantes ou qualquer outro recurso natural. E como a água, o ar na sua dimensão de oxigénio é o segundo elemento sem o qual não existe qualquer forma de vida, incluindo a própria água de que todos nos lembramos como fórmula química, H2O, esse infinitamente pequeno molecular de que é feita a vida da Terra até à calote da estratosfera.

Já ouvi algures dizer que "Deus passou por aqui", deixou sol (3 mil horas de sol/ano) e praias de areia doirada ao longo de mais de 800 km para além de clima doce todo o ano, deixou um Jardim (como afirmou Unamuno), e os habitantes construíram as paisagens "domesticando" a matéria prima de que dispunham e construíram paisagens diversificadas em todo o território delimitado por fronteiras quase todas naturais, desde 1143, algumas que mereceram ser classificadas UNESCO e REDE NATURA, bem como a Baía de Setúbal foi classificada a mais bela da Europa, fronteiras que talvez tenham ajudado e inspirado o primeiro rei a fazer separar por esse limite físico este "rectângulo de oiro" da terra-mãe peninsular, também denominado por Vitorino Nemésio - esse pedaço de terra debruado de mar, como se de uma ilha se tratasse.

As grandes cidades que fizeram a história do mundo instalaram-se principalmente à beira-mar ou beira-rio, ou na meia encosta de grandes planícies que são os seus leitos de cheia ou de recepção das águas dos pontos altos, ou situam-se, finalmente, nos estuários, onde aflui a maior riqueza do rio que ao erosionar muito devagar leitos e margens ao longo de quilómetros, se bem ocupadas de vegetação ribeirinha que dissipa a energia da corrente servindo de almofada, e os sedimentos transportados vão-se depositando ao longo do percurso do rio, até se entregarem definitivamente na foz dos rios e no mar.




Fig. 1: “esse pedaço de terra debruado de mar” … “estuários, onde aflui a maior riqueza do rio.”

Todas as grandes Capitais do mundo estão nessas condições, e os rios fizeram também florescer as grandes civilizações sendo a do Egipto a primeira que virá à memória de todos nós, da mesma forma que podemos pensar na mais antiga e grande civilização entre o Tigre e Eufrates, onde se diz ter sido situado o Éden Bíblico e que é hoje o Iraque, ou o Estado de Nova Iorque à beira do Potomac.

Mas também a mítica Lisboa de Ulisses tem a privilegiada situação de ficar, duplamente, à beira-rio e beira-mar, com a particularidade de ter o denominado Mar da Palha que parece um pequeno "mediterrâneo" à disposição da cidade e que é um viveiro permanente das mais variadas espécies piscícolas que aí desovam na primavera para mais tarde alcançarem o alto mar já que a influência das marés se faz sentir até Vila Franca de Xira, com grande riqueza piscícola, e depois a juzante com águas "misturadas" rio-mar, o sapal que nenhuma autarquia tem relutância em aterrar para construir sem controlo, espaço que é grande viveiro da mais variada fauna piscícola que vem do mar ali desovar na Primavera, e logo regressar ao mar.

Não passaram muitos anos mas será que há quem se lembre da grande produção de ostras do estuário do Tejo? Arrisco afirmar que é curta a memória e pergunto, de seguida, a que preço está um prato de salmão do rio Minho ou de lampreia ou, ainda, de sável do rio Tejo.

Num artigo saído na revista Visão (3 Novembro 1994), poderá ler-se "«Povo que matas o Rio» - centrais nucleares espanholas, contaminação com metais pesados, morte de peixes, pesca ilegal, que mais irá acontecer ao Tejo ?'' – e o LNEC afirmou, quando do estudo do Plano Hidrológico espanhol, que o Tejo perdeu 25% do seu caudal. Pode ler-se no mesmo artigo que o Tejo é o maior pólo de desenvolvimento do país, alimenta as mais importantes áreas agrícolas do Ribatejo, é um centro de comunicação fundamental e ainda uma gigantesca maternidade de peixes (e eu acrescento que já não é) e, entretanto, na sua bacia hidrográfica de 24 869 km2, a maior do país, que vai de Estremoz à Guarda, vivem cerca de 3 milhões e 700 mil pessoas, mais de 1/3 da população portuguesa e, desta, mais de metade vive na Grande Lisboa e, assim, a pressão humana, urbana e industrial torna o rio Tejo um gigantesco espaço poluído; é que a água, como vento, são os elementos de transporte, por excelência, de vida (sem poluição) ou de morte (poluídos).

E daí resulta que o empobrecimento dos valores da natureza só pode conduzir ao empobrecimento das populações e do país irreversivelmente porque a natureza não se inventa.




Fig. 2: pescadores no Norte do Brasil.

A ausência de políticas de envolvimento de verdade na conservação dos valores de natureza inalienáveis, leva à morte da natureza e ao consequente empobrecimento dos homens, que da exploração sustentável dos bens da natureza dependem, invocando-se contudo e quotidianamente, razões "de desenvolvimento económico", como se água e o que contém de seres vivos e qualidade climática e ambiental, não fossem riqueza verdadeira.
Recuperando a sua frequente situação à beira da água, as grandes capitais actuais do mundo, os grandes centros urbanos e culturais e de maior procura turística ao longo de todo o ano, como Londres, Paris, Salzburg, Buda+Peste, Nova Iorque ou Florença, tiram partido da sua arquitectura tradicional intacta e restaurada, afinal, o "primeiro bem de raiz" para habitantes e visitantes e um constante ponto de partida de desenvolvimento de riqueza que assenta na história e cultura, e artes, de que o turismo é ávido e de que é desmultiplicador, inventando novos factores económicos ou recuperando tradições, não sendo necessária muita inteligência para não deitar fora, como Portugal tem feito, a sua herança de memória e a identidade dos lugares em que assenta a civilização, e que representa riqueza nacional mas também património do mundo.
E se o País dificilmente se porá a par do desenvolvimento industrial-de-2ª.vaga, só lhe restará não destruir mais os sectores primários, a terra e as zonas húmidas, o mar, e a sua grandeza de património histórico, edificado e imaterial.

Olhemos para a cartografia do País onde nascemos e vejam-se as cidades mais sólidas mais antigas bem como vilas e aldeias de beira-rio, e como as suas economias, e cultura, se desenvolveram e dependem de cada afluente de cada grande e pequeno rio; e ao olhar desse modo, interiorizemos que inutilizar com nova habitação ou estrada, cada ribeira que é o primeiro caudal de não importa que grande rio, é destruir tudo o que se passar a jusante, implacavelmente, é destruir vida e cultura e economias, é fazer deserto ecológico e humano, e por fim deserto físico, o que é apenas uma questão de tempo – tendo os decisores conseguido destruir, em apenas umas muito escassas dezenas de anos o que levou séculos a humanizar, tornar fértil.



Fig 3: Amarante e o Tâmega.

Portugal tem (tinha) uma extraordinário sistema hidrográfico homogeneamente distribuído, de que ressaltam os estuários do Douro (origem ancestral do comércio nacional com todo o mundo nos séculos XVIII e XIX), os vales do Mondego, do Tejo e do Sado, tendo estes últimos merecido pertencer à rede de Zonas Húmidas mais importantes da Europa, e em que a baía de Setúbal mereceu recentemente ser classificada "a mais bela da Europa", e o Tejo, pela sua riqueza física e biótica fazer parte da área protegida do Tejo internacional.

A importância dos rios em Portugal vem de longe, dos tempos da pré-história, de que é exemplo Foz Côa, com as gravuras rupestres datadas de há mais de 20 mil anos deixando testemunho das formas humanas mais remotas de viver, e sendo que o Guadiana é não só uma lição da convulsão morfo-geológica da Península Ibérica, como já foi o em tempos o último porto de mar do Mediterrâneo, pois que era navegável até Mértola, tendo ainda sido ponto de passagem de outras civilizações que invadiram o país de que restam vestígios, alguns dos quais hoje acessíveis no museu local; no registar da história do rio e dos homens, que é de uma riqueza inestimável.
Com a extraordinária distribuição das mais pequenas às maiores ribeiras em cada bacia hidrográfica, e com o clima ameno, não podia o País deixar de ser agrícola ao longo de milénios, situação esta que se alterou radicalmente, já que até 1986 o país produzia 75% das necessidades alimentares passando hoje apenas para apenas 25%, e sem se assistir à dignificação do solo agrícola e da sua produção, bem como dos homens rurais que tiveram a coragem de se dedicar às coisas da terra que produz alimentos; terra esta também ameaçada pela recente invasão de eucalipto, que é esgotador da terra em apenas 40 anos.
Com tal riqueza natural selvagem e construída pelos rurais, imaginemos então que classificação mundial poderiam ter as nossas grandes zonas húmidas (que incluem o litoral marítimo até 6 metros de fundo na baixa mar), se não tivessem sido tão destruídas, poluídas e continuamente discutidas “parlamentarmente” com tanta superficialidade e ignorância, e que economias podiam ter continuado a gerar se se compreendesse, de facto, o valor que têm, nem que fosse “só” pela sua "beleza", esse valor maior de todas as coisas da Terra e do Homem, e que, afinal, hoje e no futuro também vende/rá, porque a indústria do turismo é e será a mais poderosa do mundo e tem um crescimento imparável, excepto nos locais em guerra.
Afinal, as paisagens oferecem ao homem o que lhes é pedido de recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer "beleza" e recursos de recreio, lazer e dinamização da expressão artística.



Fig 4: “As paisagens oferecem … recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer «beleza».”

E é interessante atentar que do caminhar a pé pela estrada romana ou em liteiras, de há muitas centenas de anos, o turismo, de hoje, entre tantas das suas opções, voltou também ao caminhar a pé, por exemplo, ao longo dos vestígios dessa mesma estrada romana, mas para tal, para se poder contar com tão grande riqueza de possibilidades, muito há a fazer e a não deixar fazer, terminando-se de vez com o desprezo pelo nosso riquíssimo património.

O nosso País não tem de facto nem ouro nem diamantes, mas tem séculos de história feito em PEDRA e em PAISAGENS, a sua riqueza maior, e todas as artes delas derivadas e tornadas indústrias seculares, que já ninguém da cidade faz ou dá importância, porque as cidades tornaram-se tão extensas que se divorciaram da paisagem natural.

Na ausência dessas matérias-primas, que são as mais valiosas para os mercados actuais, não se encontrou, em Portugal, compensação no valor do mosaico paisagístico, nem na existência dos monumentos que contém desde a pré-história, e na situação geográfica que permite ser plataforma giratória de ir e vir entre este e o outro lado do mar.

Mas falemos de água e de rios e pergunte-se, o que é que em Portugal terá agora valor para se poder justificar que se encanem continuamente ribeiras sem a menor hesitação, só porque se atravessam no caminho da "expansão urbana em contínuo de laje de betão" (19% do território nacional é impermeável), quando em qualquer país europeu, nascido depois deste que habitamos, o "rio faz parte do tecido urbano" e é espaço de recreio por excelência, sendo mesmo, como em Inglaterra, núcleo “genético” gerador de aglomerado urbano.
É urgente que Portugal volte a amar os seus rios e as serras e as árvores e as cidades e os monumentos e as paisagens, que são todos património da origem de toda a vida natural e dos gestos de humanização, e são B.I. e ponto de partida do verdadeiro desenvolvimento, sem ser necessário ter de imitar nada, e, assim, sem correr o risco do "passar de moda."
É urgente voltar a amar e honrar o património paisagístico ancestral e multifacetado, natural e construído, acima e abaixo da linha de terra, e fazer dele património sociocultural e económico, nacional e mundial.
E há que salientar que o RIO é por si só uma paisagem desde a nascente à foz, com ou sem conjuntos urbanos nas suas margens, e é corredor ecológico por excelência, não importa de que dimensão.
As mais importantes cidades do nosso País fizeram-se com o mar e com os rios, numa linha quase contínua paralela à costa marítima, sendo as arquitecturas e as economias resultado directo da comunhão com a ÁGUA, e não esqueçamos Nemésio, ao referir-se a "este pedaço de terra bordejado de mar" que fez "civilização."
Já foi afirmado muitas vezes pela ONU que a partir de 2025, a água potável total do mundo, não chegará para os seus habitantes, já que o ciclo da água é um ciclo fechado e água é também civilização e saúde sendo o consumo per capita um dos mais actualizados índices de aferição do grau de desenvolvimento.
Sendo certo que a água doce total do planeta equivale exclusivamente a 4500 mil km3 para a água doce de superfície e 100 mil km3 para a água doce subterrânea, 25 milhões de km3 para o gelo dos pólos contra 1330 milhões de km3 para a água dos oceanos, sendo que se pode considerar ainda a água atmosférica como sendo apenas de 13 mil km3 e são tão só 400 mil km3 a evaporação e precipitação que se equilibra por ano. E porque a infiltração da água no solo é principal nas áreas florestadas (montanhas), a sua erradicação impede a água de abastecer toalhas freáticas bem como não produz o oxigénio da sua responsabilidade em que a sua produção por hectare ronda o valor necessário para uma população de 50 mil habitantes.
Paralelamente o homem "civilizado" utiliza por dia 100 litros de água e respira 60 litros de oxigénio, e ainda raramente na cidade se separam as águas negras das águas residuais industriais, para que as primeiras possam ser reutilizadas na lavagem das ruas e rega dos jardins e mesmo agricultura, desperdiçando-se, assim, a água que se tem disponível e, pior, desflorestando-se e impermeabilizando-se em excesso, designadamente, nas cada vez maiores, grandes cidades, e originando-se que cada vez mais água da chuva, para a mesma queda pluviométrica, vá dar ao rio e ao mar em vez de ficar nos continentes.




Fig. 5: E o século xxi é/será o século das grandes cidades.

Talvez porque ar e água não tenham fronteiras, estes sejam os dois elementos sagrados da China – o feng-shui – considerados, por vezes, em projectos, mas apenas ligados à orientação da habitação, continuando-se, mesmo depois de se conhecer, como hoje em dia, o valor da água e a sua finitude, com um quase desprezo, nos planos de ordenamento urbano, pelo valor da terra e da água, e mesmo do clima, que são tratados como se fossem "substituíveis."

E que felicidade é, e poderia ser, poder viver na proximidade da maior riqueza electro-magnética, biótica e de bens naturais do planeta que é a fronteira/margem terra-mar onde muitos e grandes rios se vêem "oferecer" ao mar, mas oferecendo o que transportam resultando na grande fertilidade dos estuários.

Que cidade e habitantes felizes os que podem usufruir dos valores estéticos das paisagens marinhas e fluviais, sempre especiais com a presença da água, a sua cor e luz, e movimento e deles retirar paz e consolo e contemplação, para além da manutenção da sua presença como fonte de alimento – Paris cidade interior atravessada pelo Sena, sem o rio talvez não fosse nem capital, nem teria aquele clima nem luz filtrada pelo nevoeiro, que só a presença da água permite, quando se evapora, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo.





Fig. 6: Aquele clima, aquela luz filtrada, que só a presença da água permite, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo – a margem de Lisboa e os veleiros.

A água é, como diz no Alcorão, "a fonte de toda a vida", não apenas no sentido físico mas também espiritual, e por isso na Índia há 7 rios considerados sagrados, da mesma forma que é sagrada, para os cristãos, a água benta, ou a água do Baptismo, a água do Rio Jordão onde Jesus foi baptizado, porque há homens que conseguem perceber que há sítios e lugares sagrados, e florestas sagradas, locais onde sentem o Divino na Terra, e em todos os tempos sempre a água esteve ligada ao DIVINO, como no Ganges que para tudo serve, e, mesmo imundo, não deixa de ser "sagrado."
Os rios foram e continuam a ser, em Portugal, meras "linhas de água" de captação de recursos e onde se rejeitam efluentes, os mais poluídos e devastadores da qualidade da água a ponto de matar a fauna piscícola e mamíferos das margens e até a mata e a vegetação das margens e as terras em que se vão infiltrando ao longo do seu percurso.
Mas o vento e água, sagrados para os chineses, devê-lo-iam ser para o mundo inteiro, já que são, por excelência, os dois veículos naturais de transporte: transportam a vida (o ar transporta o polén), ou transportam a morte (a poluição do ar e da água).
Com as alterações climáticas mundiais, de que já chegaram ao país as consequências, como nunca é necessário reaprender a desenhar com a natureza dando prioridade à água e aos seus locais naturais de infiltração e de drenagem que são os vales e retomar com a maior seriedade a legislação de ordenamento e de protecção dos locais que guardam a vida natural/cultural do nosso País; todos os erros humanos com o ar e água se podem evitar, basta deixá-los PASSAR pelos lugares naturais que lhes pertencem percebendo, para além de razões científicas e técnicas e estéticas, o espírito de cada lugar. E lembremos os monges agrónomos, os Beneditinos, que construíram o Convento de Alcobaça deixando o Côa passar, livremente, pela cozinha e não haverá no mundo muitos "monumentos" construídos em cima de um rio, deixando-o ser rio.
Meter uma linha de água não importa de que dimensão, num CANEIRO não é possível em nenhum país do mundo e, onde se fizer, a natureza mais tarde ou mais cedo reclamará o que lhe pertence como aconteceu no fim do ano de 2005 em New Orleans e Houston, situações bem paradigmáticas da invencibilidade da natureza por mais avançadas que sejam as tecnologias e as máquinas para a dominar porque até os factores de imponderabilidade são bem mais prováveis do que o domínio humano por mais que o homem desafie a natureza, como lhe compete e é humano fazer.
Sabe-se como é inútil construir paredões de betão senão acidentalmente, nem sequer espigões de pedras feias e colocadas ad hoc, porque um litoral não é uma área portuária contínua.
Espigões e paredões fazem parte de uma atitude que prolifera por esses litorais fora, fazendo-se desmoronar falésias sobretudo desde o boom turístico dos anos 60 que tudo constrói no limite das falésias ou mesmo em pleno areal. É sabido que o mar está actualmente a tornar a avançar (progressões e regressões) naturalmente, no seu cósmico movimento dinâmico super-milenar, senão não haveria altas falésias cobertas de fósseis marinhos ao longo da costa portuguesa como as da Costa da Caparica e do Algarve, de arenito e com alternância de camadas de argila porosa, porque o mar "recuou", sendo complicado não haver "conhecimento" nas disciplinas de planeamento e ordenamento bio-físico suficiente, e de geologia, para que se minimizem as catástrofes naturais anunciadas.
O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela, ganhando em eficiência e perenidade do construído, ganhando em qualidade da natureza e do ambiente e de beleza das paisagens e por fim ganhando em termos económicos já que tem de dispor de muitos milhões de unidades monetárias para constantemente refazer os enganos de planeamento e projecto, gasto que em vez de ser revertido para desenvolvimento sustentável e restauro do património, é gasto em "reparações" que serão cada vez mais difíceis de efectuar, à beira-rio e à beira-mar.




Fig 7: “O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela.”

Impermeabilizar leitos de rio, tornou-se normal em Portugal sendo curioso o caso de Ponte de Lima em cujo leito em anos de pouco caudal se fazem feiras, e que foi "cimentado" nos anos 90 após anos de areal a descoberto – mas que em 1991 provocou uma das piores cheias de sempre da região, e, da mesma forma, se construiu Miraflores no leito de uma das duas maiores ribeiras de Lisboa – a de Algés –, a par da segunda maior ribeira sobre a qual se construiu a avenida de Ceuta, porque foi esquecido que em 1983 houve enxurradas catastróficas na zona de Lisboa e Oeiras até Cascais, por haver construção indevida em leito de ribeiras.
A natureza é previsível e imprevisível e a única forma de minimizar as consequências está em saber decidir controlar a decisão de impermeabilização e de "parcelamento" de espaços físicos férteis e de funções múltiplas, conhecendo e respeitando as características de cada local e a sua função primordial, e podendo-se até dizer que "o que está certo está belo."

E como já se disse, cada "linha de água" é por si só uma paisagem e uma "entidade" a considerar no quadro de "ordenamento do território (urbano e rural) - é um Corredor Ecológico por excelência.
Basta pensar em como a cidade trata a água nas sua forma mais elementar e que tem a ver com a quantidade de queda pluviométrica urbana que, como é sabido, pode ser superior à da envolvente rural, já que, na cidade, a temperatura média diária pode ser superior em 6 a 7ºC devido a ser um contínuo de materiais inertes e com muito baixa relação percentual de área permeável, representada por parques e jardins, públicos e privados, que são áreas de beleza e de memória das "estações do ano", áreas de infiltração da água da chuva e regularizadores climáticos, são "natureza viva dentro da cidade", são vida.
E quando a cidade entra em crise ambiental, entra em crise, igualmente, a cultura dos seus habitantes, que mais e mais se distanciam da realidade da natureza e do que dela provém para que a cidade exista.
Creio eu bem que hoje tudo o que se passa não apenas no campo, mas também relativamente ao valor das componentes ambientais – e sobretudo à água – é, cada vez mais, um problema de cultura urbana porque os rurais já não habitam o campo e a cidade não é educada para esses valores, e talvez nem mesmo para os valores de urbanidade.




Fig. 8: Cidade e urbanidade.

Por mim, sempre me extasiei com a Terra e o que contém tanto de natureza, como feito pelos homens num diálogo de arte, que só pode ser diálogo de amor. E, por que não dizer também que, como os "antigos", vejo o Divino no rio, na árvore suporte do mundo, e na inspiração humana que faz catedrais.
Ou então dizer, como São Francisco de Assis, “a minha Irmã Terra, a minha irmã Lua, os meus irmãos peixes!” Não será tudo manifestação do mesmo? Que o homem vai descodificando?



Fig. 9: “A minha Irmã Terra, a minha irmã Lua …”

E porque os homens se divorciaram das coisas da natureza e da origem das Cidades-Civilização, agora fazem desmoronar também as cidades onde moram, sem darem conta de que já não há mais nada para destruir a não ser o próprio homem.



Maria Celeste d’Oliveira Ramos, em Outubro 2005
Colaboração e imagens de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006

sexta-feira, julho 14, 2006

93 - A CIDADE QUE SOU E TENHO EM MIM – Maria Celeste Ramos ; REGRA DE OURO: HABITAR – Maria João Eloy - Infohabitar 93

 - Infohabitar 93

Artigo duplo
Introdução
Das propostas do PNPOT (1) destacamos o tema “Portugal: os grandes problemas para o Ordenamento do Território” (2), elegendo o domínio que incide na “Expansão urbana desordenada e correspondentes efeitos na fragmentação e desqualificação do tecido urbano e dos espaços envolventes” para, numa abordagem não institucional, empreendermos uma reflexão sobre o acto de ‘habitar’, a pretexto das louváveis intenções das alíneas seguintes:
Degradação da qualidade de muitas áreas residenciais, sobretudo nas periferias e nos centros históricos das cidades, e persistência de importantes segmentos de população sem acesso condigno à habitação, agravando as disparidades sociais intra-urbanas”; “Insuficiência das políticas públicas e da cultura cívica no acolhimento e integração dos imigrantes, acentuando a segregação espacial e a exclusão social nas áreas urbanas”.
(1) No dia 27 de Abril de 2006, foi publicada em Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros que aprova para discussão pública a proposta técnica do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território, PNPOT. O período de discussão pública ocorre de 17 de Maio a 9 de Agosto de 2006.
(2) http://www.territorioportugal.pt/Proposta.aspx

A CIDADE QUE SOU E TENHO EM MIM

Maria Celeste Ramos



A cidade é como a vida – está dentro de mim e sou dela pertença.
Ao atravessá-la a caminho da escola ou do local de trabalhar ou, simplesmente, de ir daqui para acolá, recolhem-se imagens codificadas que vão para uma zona do cérebro, arquivo da memória imagética, como vão as imagens de qualquer outra vivência no espaço familiar.
A vida é um processo de acumulação de imagens (3) anexando a respectiva emoção que, frequente e tardiamente, já não é uma memória mas uma recordação, baralhando o "tempo" cronológico mas deixando uma sucessão de "pegadas."
A cidade educa e eleva, ensina e informa estabelecendo um relacionamento eu-cidade-espaço-acontecimento, transmite alegria e/ou dor, nem que seja a provocada pelas enxurradas e pelo fogo, porque a cidade não é apenas o espaço físico impessoal e impessoalizado, mas sim o que nele se vive e se troca.
A Cidade como a Casa é palco de-vida-acontecer e tal que, ao viajar-se para longe se traz, igualmente, a memória do lugar habitado por outrém, colhida emocional e culturalmente e vivida como se o homem e o espaço fossem impossíveis de dissociar, tornando-nos mais ricos e conscientes ao adquirir mais experiência vivencial e matéria de troca, porque viajar é por si só aprender.
Uma cidade abandonada pelos habitantes é uma cidade fantasma que o vento e o tempo devoram ficando só ruínas, ou nem isso.
A cidade vive porque nela se habita com-a-vida-toda e será sempre o espelho multi-facetado das vivências humanas e das estações do tempo.
A cidade é o espaço de crescimento e desenvolvimento do ser humano que vai construindo memória colectiva como herança de cada geração, para a legar às gerações que vão nascendo.
Lisboa é a minha Cidade - é a cidade que eu tenho cá dentro – porque a gente pertence às cidade e às vilas e a cidade pertence à gente numa interacção constante.
Como as pegadas que deixamos na vida dos outros, a cidade deixa em nós matéria de identificação do que somos e que transborda para não importa que habitante urbano ou rural.




Lugar que pode ser também cidade do ESQUECIMENTO - cidade que esquece os velhos porque os DESACTIVA, ou não valoriza os que, sendo portadores de handicap, são também cidadãos activos, criativos e produtivos
E porque a cidade é o espaço de abrigo que fornece habitação, cultura, religião, serviços, jardins e bem estar, é também o lugar que dá prioridade ao automóvel sobre o peão – que se limita a fornecer espaços lúdicos só para os teenager e não para os velhos, num ambiente que se torna progressivamente hostil e incomunicável com o habitante, perdendo o sentido de cidade e das funções para que foi contruída – as funções dos cidadãos.
Esta Cidade de hoje é a cidade onde MORA o quê ?? A alienação ? O esquecimento da origem da sua função ?? O esquecimento da criação de lugares com "espírito do lugar" e espírito de criar condições de vizinhança, de bem estar e de alegria e de um orgulho de pertença de nela habitar.
(3) Na esteira de George Steiner: “Não é o passado literal que nos governa, excepto, talvez, muma acepção biológica. São imagens do passado: com frequência tão intensamente estruturadas e tão imperativas como os mitos. As imagens e as construçõs simbólicas do passado encontram-se impressas, quase à maneira de informações genéticas, na nossa sensibilidade. (…)” – “No Castelo do Barba Azul – Algumas Notas para a Redefinição da Cultura” (1971), Relógio d’Água, 1992, p 13
Maria Celeste d’Oliveira Ramos, 4 junho 2006
Fotos: ‘O Rio como Paisagem’, Doca de Santo Amaro, Lisboa, 2006 – MCOR.


REGRA DE OURO: HABITAR

Maria João Eloy



A utilização do termo ‘habitar’ traduz tradições e pressupostos contraditórios, reveladores do estatuto dos habitantes de lugares em regime de paz, que é irreconciliável com o dos que sobrevivem nos lugares em guerra; pensar na qualidade do ‘habitar’, releva o significado de pertencer ou não a uma comunidade, de ser ou não reconhecido como habitante, de viver como deslocado e emigrante ou de, paulatinamente, permanecer há gerações no mesmo território.
Além destas situações, em que os envolvidos se empenham na sua cidadania, sempre se puderam encontrar, no ‘habitar’, os sintomas de não pertencer e não acreditar, reflexo das singularidades da vida nua que ignora o implacável poder soberano da cidade, “a coisa mais universal, a coisa mais partilhada (...)” porque “com a cidade temos a impressão de descobrir o mundo tal qual ele é, ‘em directo’, de sermos actor e observador, exploradores de uma selva viva que constitui o próprio corpo da sociedade.”(4)
Reflectindo sobre a esperança daqueles a quem restam tentativas reiteradas de aceder a condições precárias de ‘habitar’, recorrerei à noção de irreparável de Agamben, que não retira nobreza a esse modo de ‘existir’: “O irreparável não é nem uma essência, nem uma existência, nem uma substância, nem uma qualidade, nem um possível, nem um necessário. Não é propriamente uma modalidade do ser, mas é o ser que se dá desde logo na modalidade, é as suas modalidades. Não é assim, mas é o seu assim.” (5)




À necessidade de transmissão, no mundo civilizado, das regras de ouro de ‘habitar’ – aparentemente ausentes do ‘habitar’ precário de todo o tipo de desalojados – tem-se vindo a contrapor uma valorização do papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo, numa autoregulação indomável que lança uma disparidade de desafios à pesquisa dos conceitos normalizados para projectar habitação; através de persistentes e trangressoras reconfigurações das regras do ordenamento territorial, do urbanismo e da arquitectura, assiste-se à tentativa de “combater o niilismo do mundo moderno: o abstracto lugar onde não há lugar da metrópole, a destruição do mundo interior do espírito e a impossibilidade de morar de um modo autêntico, no sentido heideggeriano do termo”, como o entende M. Cacciari (6).
É neste sentido que, ao reproduzir a lamentação de Gabriel o Pensador em “O resto do mundo” (7), pretendo ir além da invocação do folclore urbano das metrópoles, interrogando-me sobre o valor dos recursos criativos de grande parte da humanidade; de ‘gente’ que, vivendo fora dos limiares do ‘habitar’ regulamentado dos prósperos centros urbanos, se confronta com a linguagem estrangeira da cidadania participativa, sem lhe poder retorquir, senão através do discurso musical e poético – entre outras formas, das menos violentas, do discurso de ‘existir’:
O resto do mundo
Eu queria morar numa favela (...)
O meu sonho é morar numa favela
Eu me chamo de chêroso como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser seu dotô
Eu num tenho nome
Eu num tenho identidade
Eu num tenho nem certeza se eu sou gente de verdade (...)
Eu sou o resto O resto do mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou... Eu num sou ninguém (...)
Eu sou sujo eu sou feio eu sou anti-social
Eu num posso aparecer na foto do cartão postal
Porque pro rico e pro turista eu sou poluição
Sei que sou um brasileiro Mas eu não sou cidadão
Eu não tenho dignidade ou um teto pra morar (...)
Eu sei que a maioria do Brasil é pobre
Mas eu num chego a ser pobre eu sou podre!
Um fracassado Mas não fui eu que fracassei
Porque eu num pude tentar
Então que culpa eu terei
Quando eu me revoltar quebrar queimar matar
Não tenho nada a perder Meu dia vai chegar
Será que vai chegar? (...)
Eu num sou registrado Eu num sou batizado
Eu num sou civilizado eu num sou filho do Senhor
Eu num sou computado eu num sou consultado
Eu num sou vacinado Contribuinte eu num sou
Eu num sou comemorado eu num sou considerado
Evitando alongar esta interrogação, onde não cabe uma conclusão, escolheria o topos ou clichê que é conhecido na tradição como locus amoenus (lugar ameno, recanto aprazível) para, tentando não-entender e não-classificar os lugares de ‘habitar’ atrás exemplificados, perscrutar neles o ameno, o aprazível e o belo …
(4) Portzamparc, C. de - Prefácio a “ Vers la troisième ville ? ”, Mongin, Olivier; Hachette, 1995 pp. 8, 9.
(5) Agamben, Giorgio – “A comunidade que vem” (1991) - ed.Presença 1993, p 73.
(6) Cacciari, Massimo – “Architecture & Nihilism: on the philosophy of modern architecture”, London, Yale University Press, 1995.
(7) Excertos do texto da faixa 10 “O resto do mundo”, Gabriel o Pensador - CD, Chaos, 1993.
Maria João Eloy, Junho 2006
Fotos:
‘Um rectângulo de ouro no Rio de Janeiro’, 2003 – Vera Eloy.
‘Ordenamento do território entre Pemba e a ilha do Ibo’, Moçambique, 2005 – Margarida Nicolau.
‘O Resto do Abandono’, Ilha do Ibo, Moçambique, 2005 – Margarida Nicolau.

terça-feira, março 28, 2006

76 - A CIDADE E O EQUINÓCIO DA PRIMAVERA - um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 76

 - Infohabitar 76

A CIDADE E O EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

um artigo de Celeste Ramos
Imagens de António Baptista Coelho

Sem consciência do que fomos
e do que somos
nunca saberemos estar
PRESENTES
no que quer que seja que viermos a SER

António Telmo

É dito que de uma gigantesca nuvem rodopiante e formada por poeiras cósmicas e gases que se contraiu, dela saiu, há 4600 milhões de anos, destacada e bem estruturada, uma pequena estrela rodeada de outros corpos celestes que foi denominado sistema solar. Essa estrela que dá energia global ao planeta que habitamos pesa mil vezes mais do que os 10 planetas que giram à sua volta e tem a força gravitacional que determina as suas rotas com grande precisão.
A esse ponto minúsculo do universo, pertence um outro, o planeta Terra em que apenas na sua superfície – a crosta terrestre – habita vida desde há 4 mil milhões de anos, possível depois da formação da atmosfera há 2500 milhões de anos e dos mares onde nasceu a primeira centelha de vida.
Então algures na crosta terrestre um animal de 4 patas se levantou e passou a erectus e do que descendemos e que a partir dessa "verticalidade" emergente continuou a evoluir desenvolvendo a sua caixa torácica para melhor respirar e, sobretudo, emitir outros sons até aí nunca emitidos e que a pouco e pouco se transformaram em "palavra", primeiro oral, mas que só muito mais tarde ganharia a forma escrita iniciada em pequeninos quadrados de barro onde imprimia caracteres, espécie de primeiro "livro" onde definiria o seu quotidiano tendo passado assim a comunicar de forma mais perene e a transmitir cultura e civilização.


Que longe fica sem sermos capazes de ter consciência desse tempo-quantitativo decorrido para que pudéssemos imaginar ter nascido desse pontinho do céu e aterrado sobre Terra firme para aprender a comunicar com os outros homens sobre o que se "via e sentia" nessa dimensão primeira e que, afinal, é a mais importante descoberta do homem, que sucedeu apenas há 6 mil anos, a escrita, já depois da descoberta do fogo e da roda, como se parecesse uma história de total ficção, masque não é.
Tempo-luz que o céu levou a manifestar-se para preparar a vinda do homem e os instrumentos para comunicar entre si e com os deuses. Para agora vermos que tão curta é a vida do homem, distinto dos outros seres vivos habitantes que o precederam para que pudesse existir e viver no Planeta que se engalanou em festa com todos os bens necessários para com suas mãos e inteligência tomar conta da sua “casa-terra."
Depois do trabalho dos deuses pôs-se o homem a construir cidades cada vez mais evoluídas e belíssimas paisagens que "arrumou" a seu jeito observando a plenitude da natureza e tratou, também, de melhorar a qualidade da sua vida, aumentando o conforto e bem estar, cultura e recreio, e tempo, pois que também ordenou o tempo para que fosse mais coerente o uso que dele fazia para executar as tarefas com que se foi comprometendo.
E deste tão devagar de toda a evolução, bem depressa esqueceu de onde e como veio e onde chegou, desligou-se do tempo e do modo e fez imperar sobre a Terra – e os homens – as suas leis inventadas e que, quase do dia para a noite se viraram contra a Terra e todos os habitantes viventes, porque, arrogante, deixou de querer ouvir os "sinais" e delineou outro rumo para todo o seu percurso evolutivo; e, curiosamente, sabendo o que faz e tendo total consciência que destrói esse milagre da vida de que é feito, bem como a sua morada.


De entre esses "sinais" destacam-se como mais óbvios e reguladores da evolução da vida global, os solstícios e equinócios, relação mais íntima, como que visceral, e casamento indissolúvel do Sol e da Terra.
No dia 22 de março de 2006 às 11.57 h o Sol no seu movimento aparente é observado frente ao grau zero da constelação de Carneiro, hora em que cientificamente está estipulado o início do equinócio da primavera, também denominado o início do ano astrológico e que coincide, especialmente no ocidente, com o ano civil actual, relógio cósmico adoptado para gerir os gestos dos homens em todas as latitudes
Por esta razão todas as criaturas nascidas ao longo de um mês pertencerão a este signo e pelas suas energias celestes serão regidas, independentemente de suas crenças, mais do que as que nasceram noutro mês do ano, influenciados pelo Sol e pela Lua e por todo o universo que nos serve de proteccão – chapéu estrelado que abriga o mundo, que serve de "relógio e de memória" para mudarmos os nossos ritmos e atitudes
Da mesma forma é assim influenciada a Terra que revestirá, mais uma vez, as característica do tempo equinocial de um renascimento de toda a vida da natureza animal e vegetal e que, como sempre, se repercute no comportamento físico e psíquico do homem e das suas actividades laborais e económicas e até de férias, muito embora tenha sido em pleno Inverno a demanda das Amendoeiras em flor no Algarve e em Trás-os-Montes em espécie de peregrinação panteísta que a natureza convida a fazer e a que se responde "naturalmente."



Se no equinócio do Outono foi tempo das últimas sementeiras para aproveitar o que resta de água no solo e de fertilidade, quando as folhas caíram e se desnudaram as plantas perenes que atapetaram o chão de todas as cores de oiro e cobre, desenvolvendo-se em húmus antes que a terra arrefeça com o frio do inverno e da neve, porque já esgotara no Verão o máximo da água que continha.
E assim também se iniciará agora o tempo de novas sementeiras de Primavera, mas em que, opostamente, a terra atingirá o máximo de armazenamento de água invernal reaparecendo o calor que se inicia em cada Primavera para que mais tarde se possa tudo repetir e colher os frutos culminantes no Verão, mas depois de passar pelo esplendor de MAIO (e tempo de Nª. Senhora e de Luz de Buda), em que toda a terra estará no máximo de generosidade de água no solo e fertilidade da terra, e de floração a anunciar os frutos e também as sementes para o Verão e que, uma vez ainda, voltarão a cair na terra, num eterno retorno de vida.
Também o céu cinzento dará lugar a céu mais limpo e azul, o Sol estará mais alto e dará mais calor, haverá mais luz e as nuvens terão novas formas de branco imaculado de cúmulos a anunciar, também, mudanças.
Não há sol como o de Maio
nem luar como o de Janeiro
nem cravo como o regado
nem amor como o primeiro
mas lá há-de vir o de Agosto
que lhe dará pelo rosto
O céu que ordena à terra e o homem que gestua quantas vezes sem saber porquê nesses hábitos que lhe estão talvez impressos no genoma biológico e cultural e de memória colectiva ancestral, ajudado pela observação da azáfama das aves migradoras e dos bichos que saem da sua hibernação e se mostram para que se veja que a "vida acordou" do longo sono de Inverno mais uma vez, e mais uma vez vêm cumprir o seu destino no tempo cósmico exacto de se reproduzir para que a vida não acabe e sempre aconteça.



Por toda a terra e mar das zonas mais gelada às mais quentes a debandada de multidões dos mais variados animais cruzam milhares de quilómetros sem parar até chegar ao seu destino para cumprir os seus ciclos programados e inexoráveis e que estão dentro de nós e nos acordam os sentidos ao olhar os frutos de cada estação, ao cheirar os perfumes dos frutos e das flores e da terra molhada, ao olhar as folhas que caem e que de novo rebentam em botão, renovando-nos também alegria que até o tempo nevoento consome e o Sol que reaparece e nos sorri e faz sorrir, só porque lá está e convida a olhar para cima e ver os bandos de andorinhas regressarem aos mesmos ninhos que têm de refazer e que voltaram anunciando vida também, no céu anunciando um grande ciclo climácico e planetário e de nascimento cósmico.
A semente escondida debaixo da terra fértil em esforço para germinar rompe-se até ser vista e porque não a alma do homem em silêncio recolhido para a vida interior volta a procurar o sol. O pólen das flores masculinas encontra o ovário das flores femininas. Os bichos acasalam e os que estavam em hibernação voltam à luz e calor do dia. Saem das tocas. Já nada está escondido, incubado ou hibernado. Tudo sai para a dimensão do visível, renasce e agita-se – mostra-se.
Tempo da Festa da Primavera, sendo 21 de Março escolhido pelos homens para ser o Dia Mundial da Poesia, essa forma superior de usar as palavras, forma também simbólica que toca os arquétipos da alma humana que os compreende para além da própria palavra.
Equinócio da Primavera e da estação primeira – o recomeço da vida global em que a duração do dia é rigorosamente igual à da noite, em que a força do dia iguala a força da noite durante três dias e que, a partir daí, o dia recomeça a crescer até atingir o seu máximo no pino do Verão no solstício e a noite é mínima, opostamente ao solstício do Inverno, dia e noite iguais também no equinócio de Outono mas em que é o dia que desfalece até ao Natal.



Tempo que anuncia a Páscoa e a Ressurreição de Jesus, outra festa intermédia dos ciclos cósmicos anuais, que depois do Natal e do Seu nascimento e do novo sol do coração do homem e celebração da família, depois da purificação da Quaresma, morre então o Homem, para ressuscitar triunfante para glória do Pai e sua glória espiritual e, então sim, ir depois de "férias de verão" num contínuo vaivém das coisas do corpo e do espírito da terra, e do corpo e do espírito do homem ad eternum.
É a Sagração da Primavera e do tempo em que por amor tudo recomeça com toda a força de ser. É a festa da vida. Hino à vida e à alegria do despertar e do existir depois do silêncio e do frio e do jejum.
É a própria Força – força-amor do imanifestado para o manifestado da Criação e da Vida Primordial ritmos e alternâncias revelados pelas paisagens que habitamos e pelo homem recriados.
Ritmos na Terra, no Céu e no Homem, que com a Primavera revela o máximo da força da vida; Primavera - a prova de existência da Vida - Sagração da Vida.
A neve derreteu
Nos píncaros da serra;
O gado berra
Dentro dos currais,
A lembrar aos zagais
O fim do cativeiro;
Anda no ar um perfumado cheiro
A terra revolvida;
O vento emudeceu;
O sol desceu;
A primavera vai chegar, florida.

Miguel Torga - Diário XI (1969)
Lisboa-Bairro de Santo.Amaro – 19 Março 2006
Maria.Celeste.Ramos
Imagens de António.Baptista.Coelho