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quinta-feira, fevereiro 01, 2007

124 - Condição de adaptabilidade dos espaços culturais, um caso de estudo: Solar dos Zagallos – artigo de Ana Tomé (1) e Teresa Heitor (2) - Infohabitar 124

 - Infohabitar 124

Ana Tomé (1)
Teresa Heitor (2)

(1) Arquitecta, Mestre em Construção, Assistente na Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, investigadora do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção (ICIST), e-mail: anatome@civil.ist.utl.pt

(2) Arquitecta, Doutorada em Engenharia do Território, Professora Associada do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), investigadora do ICIST, e-mail: teresa@civil.ist.utl.pt – Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa, Portugal.

Palavras chave: adaptabilidade, reconversão funcional, reabilitação, espaços habitacionais e culturais, Câmara Municipal de Almada, Solar dos Zagallos – Centro de Artes Tradicionais de Almada em Portugal, Avaliação Pós-Ocupação, métodos de representação e análise espacial, satisfação dos utilizadores, compatibilidade/incompatibilidade entre espaço e usos.

RESUMO

A comunicação reporta-se à análise da reconversão funcional de edifícios e ao desenvolvimento de um instrumento de análise susceptível de caracterizar os pressupostos indutores da adaptabilidade espácio-funcional.
O instrumento analítico apoia-se em metodologias de Avaliação Pós-Ocupação (Preiser, 1996; Sanoff, 2001) e em métodos de representação e análise espacial (Hillier e Hanson, 1984). Com base na sua aplicação a um edifício em situação de uso, identificam-se as regras morfológicas presentes, analisam-se alterações espaciais e funcionais ocorridas após a sua ocupação, avalia-se o grau de satisfação dos utilizadores e identificam-se factores de compatibilidade/incompatibilidade entre espaço e usos.

O trabalho desenvolvido baseia-se no estudo de caso do Solar dos Zagallos – Centro de Artes Tradicionais de Almada em Portugal. Datado do séc. XVIII, foi, na sua origem, a casa-mãe de uma quinta agrícola mais tarde transformada em quinta de recreio. Os diferentes proprietários habitaram o Solar de modos distintos, facto reflectido na evolução da sua forma construída. Nos anos oitenta, o Solar foi adquirido pela Câmara Municipal de Almada. Sujeito a recuperação arquitectónica, foi transformado em equipamento cultural do concelho. Analisando esse processo de reactivação funcional, e os modos de apropriação espacial decorrentes, pretende-se contribuir para a compreensão das regras morfológicas intrínsecas à condição de adaptabilidade do espaço arquitectónico e sua interacção com os padrões de uso suportados pelo edificado.

ABSTRACT
The paper refers to the analysis of buildings reconversion and to development of an instrument of spatial and functional analysis capable of describing the space and functional adaptability inductors.
The analytical instrument is based on Post Occupation Evaluation methodologies (Preiser, 1996; Sanoff, 2001) and on space analysis methods (Hillier and Hanson, 1984). Morphologic rules and functional alterations were analyzed. Users satisfaction was evaluated and adequacy factors between space and use are identified.
The work is based on a case study: Solar dos Zagallos – Almada Center of Traditional Arts (Portugal). The building was built in XVIII century as a farm-house and latter was transformed to housing (recreation farm). Along time households needs have changed. This fact had reflexes on the built form. Late in the XX century it was acquired by the local authority and transformed into cultural center. The analysis of the functional reconvertion process, and the understanding of the morphologic rules concerns space adaptability condition and its interaction with the use patterns.

1. ADAPTABILIDADE DOS EDIFÍCIOS – RAZÃO DE SER E ÂMBITO

A análise do desempenho físico e funcional dos edifícios é um tema de estudo relativamente recente. Os actuais modelos de desenvolvimento urbano e a crescente complexidade e especialização dos grupos sociais induziram a necessidade de novos critérios informadores dos actos de projectar, construir e gerir edifícios.

Sendo as estruturas edificadas o suporte operacional das actividades de organização social devem adequar-se, na concepção e uso, ao devir dessas actividades e dessa organização porque, nas sociedades contemporâneas, as respostas “estacionárias” (Thiel, 1996) não são viáveis e poderão ser contraproducentes. As vicissitudes físicas e funcionais de um edifício têm de ser ponderadas em fases de projecto e devem ser estudadas ao longo da sua vida útil.

Metodologias de análise espácio-funcional de edifícios, e pressupostos projectuais subjacentes, poderiam socorrer-se da teorização de William Peña (1987). Para este autor os edifícios são entendidos como objectos físico-espaciais dos quais interessa avaliar a flexibilidade segundo critérios de extensibilidade (possibilidade de ampliação), convertibilidade (capacidade de modificação da organização interna) e versatilidade (polivalência dos espaços).

Esta sistematização analítica pode ser um expedito auxiliar de projectistas e gestores, mas os edifícios não são, apenas, objectos físicos. Trata-se de objectos sociais. Não nascem dos materiais. Nascem de necessidades sociais. Os edifícios não se constroem para assumirem formas de geometria variável. A flexibilidade espacial será uma propriedade física mas não é a essência, a razão de ser do edifício.

O espaço pressupõe o uso e a relação espaço/usos carece de análise inclusiva do protagonista dessa relação: o utilizador, o grupo social. A alteração do espaço é epifenómeno de alterações de uso decorrentes de alterações de organização social. Para um dado edifício a flexibilidade não será mais do que um valor de circunstância, flutuante segundo a natureza do problema espácio-funcional que interessa resolver.

Outros autores (Hillier e Hanson, 1984) também contribuíram para a análise dos edifícios recorrendo a modelos de análise sintáctica que procuram descrever a estrutura configuracional dos sistemas espaciais (arquitectónicos e urbanos). Na perspectiva sintáctica, a linguagem formal da dinâmica urbana e arquitectónica organiza-se segundo estruturas configuracionais relacionadas com estruturas sociais.

Evidenciaram, aqueles autores, que o espaço adquire uma determinada ordem e expressão formal em resultado de um processo social, e que essa expressão é sistematizável segundo tipos morfológicos. Na visão morfogenética de Hillier e Hanson perpassa uma analogia biológica quanto ao processo de configuração formal: o genótipo, como organização genética, e o fenótipo, como organização derivada, distinta mas decorrente do genótipo.

No estudo de edifícios, o genótipo é o conjunto de valores espaciais abstractos que deverão prevalecer nas formas construídas, fenótipos, que dele derivam. Dalton e Kirsan (2005) consideram que o genótipo de um edifício será o grafo mais similar a todos os outros grafos de uma amostra de edifícios da mesma tipologia. Consideram, também, que será mensurável a convergência/divergência entre o grafo genotípico e um seu grafo fenotípico.

A distância, ou divergência, fenotípica entre estruturas configuracionais tem correspondência na modificação das estruturas sociais com ela relacionadas. Observou Hillier (2002) que essa correspondência poderá ser questionável confinando-se o conceito de tipo morfológico a uma relação biunívoca entre um dado padrão de actividade social e uma dada configuração espacial. Para aquele autor o conceito de “tipo” transcenderia a relação entre um único padrão de actividade e uma única forma espacial.

Segundo Hillier, o nexo entre organização social e organização espacial de um edifício deve ser ponderado no quadro de categorias de organizações sociais possíveis e de categorias de formas espaciais possíveis. Um dado edifício corresponderia à conjugação de elementos específicos de uma das categorias com elementos específicos de outra categoria, organizando-se segundo padrões de uso compreensíveis pelos procedimentos metodológicos da análise sintáctica espacial e da análise pós-ocupacional.

Por outro lado, as tipologias morfológicas (espaciais) não podem deixar de ser relacionadas com homólogas tipologias organizacionais (sociais). Os conceitos de genótipo e de fenótipos espaciais terão correspondência em genótipos e fenótipos de organização social. O equilíbrio inicial não pode ser assumido como estável e perene. A estabilidade dessa relação depende dos valores espaciais e dos valores sociais que estejam em causa.

Num edifício entendido como sistema de sistemas técnicos, albergando sistemas sociais, esse processo de adaptação, essa adaptabilidade, sustenta a possibilidade de sobrevivência desse sistema porque a adaptabilidade não depende, exclusivamente, da espacialidade edificada. É uma propriedade determinada pela relação entre o habitante e o edificado.

O processo evolutivo (ou de mera sobrevivência) de um edifício, depende da sua estrutura (construtiva, espacial, funcional, social) mas depende, também, de relações específicas com um contexto envolvente (implantação geográfica, significado histórico, valor de memória, extensão dos laços comunitários, funcionalidade económica, etc.), pelo que a adaptabilidade será um processo contínuo, enquanto que a flexibilidade é um processo pontual, um particular momento no processo de adaptabilidade.

Como objecto social, o edifício depende de uma área de suporte territorial e de uma envolvente de suporte cultural e económico. Neste sentido a adaptabilidade é uma propriedade inclusiva do edifício no seu contexto. Contrariamente, a flexibilidade é uma propriedade, exclusiva de um edifício, circunscrita ao seu espaço interno (Figura 1).




Figura 1 – Adaptabilidade e flexibilidade: âmbitos de influência

Sendo objectos sociais, os edifícios não podem ser analisados como meros abrigos de sobrevivência e organização dos grupos humanos. Em contrapartida também não são seres naturais. Não podendo evoluir segundo um darwinismo adaptativo têm de ser concebidos e têm de ser geridos por critérios que permitam a coerência da relação espaço/função consoante foi assumida na génese do edifício, na matriz social, espacial e territorial que suportou o acto de construir.

Interpretações sintácticas espaciais, intervenções flexibilizando o edificado, requalificações do grupo social utilizador, são questões que não se esgotam nem se resolvem no edifício em si mesmo. Se, por razões práticas, os edifícios podem ser entendidos como simples abrigos, nas situações como as do Solar dos Zagallos (recuperação/renovação/uso cultural) outros critérios devem prevalecer para que o desempenho dos edifícios não dependa de decisões administrativas, para que possam viver e respirar sem estarem ligados a um ventilador político.

O estudo visou compreender as relações entre o espaço edificado do objecto de estudo e os usos actuais. O estudo efectuado corresponde a uma aproximação ao estudo das condições de adaptabilidade do edifício. A abordagem focou-se no conhecimento da capacidade de resposta do sistema espacial às solicitações decorrentes das actividades culturais implementadas. Permitiu estabelecer conclusões relativamente ao embebimento do Solar dos Zagallos no tecido social e urbano do concelho. Assim, foi possível delinear uma primeira apreciação do processo adaptativo do Solar ao presente estatuto funcional.

O artigo está dividido em cinco partes. Na primeira parte discutiu-se a razão de ser e âmbito do conceito de adaptabilidade; na segunda parte faz-se o enquadramento histórico do caso de estudo e explicita-se o seu desempenho actual; na terceira parte explana-se a metodologia aplicada e enunciam-se as principais conclusões obtidas em cada etapa; na quarta parte estabelece-se o diagnóstico do caso de estudo e discutem-se factores indutores da adaptabilidade do edifício, na quinta e última parte enunciam-se conclusões gerais e indicam-se futuras linhas de desenvolvimento do trabalho.

2. SOLAR DOS ZAGALLOS – REFERÊNCIA HISTÓRICA; DESEMPENHO ACTUAL


A Quinta dos Zagallos está classificada como património municipal. A Quinta integra diversos edifícios de entre os quais se destaca o edifício residencial designado por Solar. É uma construção do século XVIII, constituída por dois pisos organizados em L (Figura 2).

Ao longo da sua existência a Quinta e o Solar atravessaram vicissitudes modeladoras da sua identidade física e social. Utilizadores distintos matizaram a apropriação dos espaços. Na sua génese o Solar foi casa agrícola transformada em quinta de recreio pelos proprietários, a família Zagallos. Nesse período (início do século XIX) foi construído o corpo dos salões complementado com a escadaria de acesso ao pátio. Cerca de um século mais tarde, o declínio financeiro dos proprietários determinou a cedência do Solar a um credor – a família Piano – que lhe reconverteu o uso, transformando-o em habitação alternativa de férias.

Em finais do século XX, dificuldades financeiras da família proprietária determinaram a sua venda à Câmara Municipal de Almada. O Solar foi objecto de um processo de recuperação. A função original foi alterada: a habitação unifamiliar (espaço privado) deu lugar a um equipamento cultural (espaço público). Actualmente o Município procura estabilizar a identidade funcional do edifício como Centro de Artes Tradicionais do concelho.

As novas valências de uso pretendem satisfazer três vertentes: fruição/lazer, criação/formação e pesquisa/formação. A gestão do Solar procura adaptá-lo a suporte de pontuais iniciativas culturais (pequenos espectáculos teatrais; concertos de música; palestras). Como actividade permanente foi instalada uma exposição de olaria relacionada com o passado histórico da região.


Figura 2 – Solar dos Zagallos: localização (Quinta dos Zagallos); piso 0, piso 1 e perspectiva do pátio

No decurso de duzentos anos a relação entre o sistema espacial do Solar e as actividades nele desenvolvidas pelos seus utilizadores-proprietários manteve-se relativamente estável. O carácter residencial do espaço, suporte de uma família economicamente preponderante nos destinos da comunidade, constituiu o traço comum que marcou esse passado do edifício.

O contexto envolvente do Solar e da Quinta também manteve o seu cunho rural. Ainda hoje, apesar da urbanização generalizada e da implantação industrial, subsistem resquícios de práticas remanescentes do amanho da terra. A aquisição do Solar pela entidade camarária corresponde a uma alteração dessa primitiva relação de equilíbrio espácio-funcional. Marca uma nova fase de existência do edifício.

3. ABORDAGEM METODOLÓGICA


A abordagem sistémica da Avaliação Pós-Ocupação (APO) foi o processo metodológico sustentador do objectivo deste estudo. Neste âmbito destacam-se, pela relevância das informações recolhidas, as observações directas. Este método possibilitou a aquisição de informação privilegiada sobre vivências do edifício e do território. O diagnóstico da actual relação espaço-uso incorporou outras metodologias complementares tais como a abordagem sintáctica espacial. A aplicação do modelo sintáctico permitiu identificar, objectivamente, propriedades espaciais e cotejá-las com os modos de apropriação e uso do espaço observados.

As linhas gerais da abordagem metodológica desenvolvida encontram-se sintetizadas no quadro da Figura 3. O objecto de estudo foi caracterizado de acordo com três componentes: físico-construtiva; espácio-funcional e comportamental (Ornstein, 1995). Complementarmente, procedeu-se à caracterização sumária da envolvente no sentido de contextualizar o objecto de estudo. Esta contextualização abrangeu vários aspectos: geo-físicos, históricos, sócio-económicos, espaciais. Considerou não só a caracterização do enquadramento espacial próximo e imediato do Solar – a própria Quinta como, também, a caracterização do enquadramento urbano da vila da Sobreda onde aquele se localiza (acessibilidades, estrutura morfológica, componentes funcionais, etc.).

O processo analítico seguido congregou vários métodos de investigação de acordo com os objectivos específicos de cada componente a caracterizar. As observações directas constituíram-se como uma fonte de informação preferencial comum a todas as componentes consideradas e suporte de todas as fases do trabalho. As entrevistas a entidades significativas quanto ao seu conhecimento sobre o Solar, constituíram outra importante fonte de informação, devido ao número restrito de dados sistematizados sobre o assunto. Por este meio, foi possível aprofundar aspectos concretos da matéria em estudo (por ex. continuidades e descontinuidades das atribuições funcionais do Solar após a sua ocupação pela entidade camarária).

As observações indirectas (consulta de documentação disponível sobre eventos passados, relatos informais, etc.) constituíram informação de natureza complementar que permitiu estender o conhecimento das actividades culturais além do presente imediato. Os questionários permitiram colher informações relativamente ao seu perfil dos visitantes do Solar. Permitiram, também, avaliar outros aspectos: modo de conhecimento dos eventos; conhecimento prévio do espaço e meio de transporte utilizado. Possibilitaram, ainda, estabelecer uma apreciação global dos utilizadores relativamente ao ambiente construído do Solar.

A necessidade de investigar questões de natureza específica requereu o recurso a abordagens especializadas. No âmbito da caracterização físico-construtiva do Solar, foi desenvolvida pesquisa no sentido de procurar as razões subjacentes a um dos principais problemas patológicos detectados na estrutura do Solar – humidade nas paredes evidenciado nos Salões. As acções desenvolvidas implicaram o contacto com especialistas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil - LNEC (Lisboa).




Figura 3 – Quadro-síntese: abordagem metodológica (perspectiva geral)

No âmbito da caracterização espácio-funcional, a aplicação do modelo sintáctico desenvolvido por Hillier e Hanson (1984) permitiu aprofundar o conhecimento do sistema espacial e das suas propriedades configuracionais e, em particular, identificar a vocação funcional dos espaços.

Seguidamente, e relativamente a cada componente caracterizada, explanam-se alguns dos procedimentos desenvolvidos no âmbito dos métodos aplicados.

3.1 Caracterização físico-construtiva

O Solar é uma construção tradicional, com paredes exteriores portantes, de alvenaria húmida de pedra e tijolo contemporânea do Terramoto de 1755. Identificaram-se e sistematizaram-se problemas relativos ao estado de conservação do edifício. Elaborou-se um documento, referente às patologias da construção, constituído por três fichas: a primeira, comporta a informação base e as outras duas comportam informação complementar que permite localizar e identificar o problema focado na primeira.

A caracterização patológica assenta em três informações essenciais: os sintomas apresentados pela patologia, (modo como se manifesta); a natureza da patologia, (identificação do tipo de problema em causa); e a sua causa provável, (um diagnóstico definitivo carece, nos casos mais complexos de investigação específica).

Concluiu-se que as patologias que mais afectam o Solar estão relacionadas com condensações e humidades do terreno, que ascendem por capilaridade, resultantes da alteração do comportamento termo-higrométrico das paredes afectadas. As suas causas não são directamente originadas por uso intenso ou desadequado. Antes se conotam com uma reconstrução deficiente, que nem sempre terá tido presente conhecimentos actualizados da problemática específica dos problemas referenciados. A impermeabilização das paredes com a aplicação de rebocos novos, de cimento, ao invés de cal, conjugados com deficiências na execução do corte de humidade das fundações permitiu explicar os sintomas observados.

A reconstrução efectuada, ao repor a aparência do edifício, não terá recuperado a sua lógica construtiva subjacente, cunhada na matriz formativa do objecto. A alteração desse equilíbrio termo-higrométrico poderá vir a comprometer definitivamente o suporte construído do edifício e, deste modo, a sua própria existência.

3.2 Caracterização espácio-funcional
A análise das propriedades espaciais do sistema, e da sua relação com as actividades em curso, recorreu ao método da Análise Sintáctica. Foi aplicado o modelo gama (g) vocacionado para a descrição de objectos arquitectónicos.

As representações gráficas utilizadas baseiam-se no mapa convexo (representa relações de contenção espacial e de contiguidade; é o menor conjunto de espaços convexos de maior área); no mapa axial (representa relações de acessibilidade física e visual; é o menor conjunto de linhas axiais de maior comprimento); e no mapa g (grafo justificado que representa o programa e a fragmentação espacial). Os três tipos de representações do modelo g (piso 1) encontram-se exemplificados na Figura 4.


Figura 4 – mapa convexo, mapa axial e grafo justificado: (piso 1)

As informações do mapa convexo permitiram a análise da dimensão local do sistema. Compreendeu-se a distribuição e a extensão dos sectores funcionais no espaço. O Sector Cultural é aquele que ocupa mais células e as células de maior dimensão, enquanto o Sector Administrativo é mais concentrado no espaço. A contiguidade espacial detectada comporta uma diferença básica: o número de adjacências directas entre células é mais elevado para os gestores e menor para os visitantes. Os primeiros condicionam a evolução espacial dos segundos diminuindo a permeabilidade directa entre células. As células mais condicionadas são aquelas que possuem adjacências directas com o exterior (os salões, por exemplo).

Os mapas axiais permitiram analisar a dimensão global do sistema. Traduzem uma diferença essencial quanto às distintas acessibilidades dos utilizadores: para os gestores a acessibilidade é total; para os visitantes a acessibilidade é condicionada. A rede de acessibilidades caracteriza-se pela sua densidade e é marcada por grandes eixos de desenvolvimento axial. Resultam da profusão de espaços de transição existentes e da elevada adjacência que caracteriza a dimensão local do sistema. Nos salões (piso 1), as acessibilidades geradas permitem estabelecer fluências muito intensas entre interior e exterior. A concentração de acessibilidades exteriores nesta zona possibilita a sua autonomização espácio-funcional relativamente ao todo.

Os grafos justificados permitiram estudar configurações distintas que o sistema espacial pode apresentar, e analisar variações nas propriedades sintácticas do espaço, resultantes dos condicionamentos introduzidos pelos gestores. Os grafos referenciados aos gestores expressam as qualidades do sistema espacial, utilizado em toda a sua extensão; os grafos referenciados aos visitantes constituem derivações do sistema original. Expressam utilizações parciais do espaço. A quantidade de derivações que o sistema original apresenta traduz a versatilidade do sistema espacial implicando, por outro lado, maior dificuldade na sua descodificação e controlo.

Concluiu-se que o sistema se caracteriza por acentuada profundidade espacial marcada por extensas linhas de percurso. A intensa acessibilidade espacial resulta não só da profundidade do sistema mas, também, da sua permeabilidade (interior e interior/exterior).

Como consequência da multiplicação de adjacências directas entre espaços próximos, assiste-se à formação de sub-sistemas cíclicos promotores da dispersão do controlo espacial – fenómeno particularmente sensível nas conexões dentro-fora. Alguns espaços (salas da coordenação) conjugam propriedades espaciais complementares: elevada contiguidade e obrigatoriedade de passagem. Os gestores controlam e acedem rapidamente ao sistema.

A natureza da versatilidade do sistema resulta da possibilidade de condicionamentos diferenciados (embora limitados) do espaço em função das solicitações das actividades acolhidas. As limitações prendem-se, essencialmente, com aspectos de extensibilidade (áreas úteis restritas e indisponibilidade de espaço livre) e de conversibilidade (rigidez do tipo de estrutura portante).

3.3 Caracterização comportamental (usos)

A análise dos modos de apropriação espacial do Solar teve, a montante, o esclarecimento da constituição dos grupos de utilizadores-tipo. Estes abarcam uma variedade de sub-grupos de visitantes que interagem de modos diferenciados com o objecto de estudo. A análise incidiu sobre o sub-grupo atraído ao Solar pelas suas actividades culturais. A sua interacção com o espaço é mais intensa e directa relativamente a outros sub-grupos de visitantes.

A importância das observações directas no conhecimento dos modos de apropriação do espaço justificam o destaque de algumas situações observadas. A informação foi recolhida através de registos fotográficos, desenhados e escritos. Referenciam-se dois eventos ambos caracterizados por ocupação extensiva do espaço e concentração de elevado número de utilizadores. Os acontecimentos descritos implicaram respostas diferenciadas do sistema espacial às cargas de uso a que foram sujeitos. Contribuíram para a compreensão das limitações das capacidades de uso do Solar. Os eventos decorreram durante as festividades natalícias (2002).

A observação de um espectáculo de música com crianças e jovens, do Coro Juvenil e Infantil do Conservatório Regional de Almada, permitiu assistir a uma ocupação do espaço que ultrapassou os limites da sua capacidade (Figura 5). Os grupos actuantes, constítuidos por alunos e professores, e a assistência formada por familiares e amigos, concentraram mais de uma centena de visitantes.

O espectáculo ocorreu no Salão Dourado e demorou cerca de uma hora. Os espectadores tinham acesso através das escadarias do pátio com entrada pelo do Salão Verde. No entanto, os acessos não foram controlados e o público rapidamente abriu as portas do Jardim de Aparato relativas a ambos os salões. O Salão Dourado encontrava-se completamente lotado bem como com o corredor central e periferia do compartimento, ocupados com espectadores de pé.

As salas vizinhas dos salões foram ocupadas pelos artistas como salas de ensaio e camarins. O acesso ao sistema era feito a partir do percurso sul com entrada através da Sala 1. Mais uma vez, não sendo controlados os acessos, foi aberta a porta de ligação com a varanda (entrada do público). Estabeleceu-se grande promiscuidade entre fluxos de espectadores e de artistas. As actuações decorreram num clima de grande perturbação, com muito ruído de fundo, resultante dos movimentos caóticos de atravessamento do espaço, inviabilizando a audição e visualização das apresentações em condições aceitáveis.

O segundo evento observado – cantos populares – corresponde à recriação de uma memória natalícia em que os habitantes da vila, em Janeiro, visitavam as casas senhoriais brindando os donos com cânticos da época. O evento implicou uma ocupação do espaço em toda a sua extensão, por um número bastante alargado de pessoas, durante um período de tempo que decorreu por quatro ou cinco horas (Figura 6).


Figura 5 – Registo: Coro Juvenil Figura 6 – Registo: Janeiras

A Presidente da Câmara, na varanda dos salões, assumia o papel de proprietária recebendo os grupos actuantes que aguardavam sinal de entrada junto do portão do pátio. Ao sinal, avançavam até junto da escada exterior. Faziam uma primeira actuação enquanto o grupo seguinte aguardava junto da fogueira acesa no pátio. Subiam as escadas e faziam uma segunda actuação no Salão Verde. Finalmente, conduzidos por elementos da equipa do Solar, atravessavam o Salão Dourado, as Salas 1 e 2, e todo o corredor, em direcção às salas a nascente onde era servida uma ceia. Terminada a refeição, o grupo descia ao piso 0, pelas escadas interiores, acedendo novamente ao pátio.

Concluiu-se que a estrutura espacial tem alguma capacidade para suportar picos de ocupação concentrados desde que a evolução dos utilizadores no espaço seja muito controlada. Estas observações permitiram aprofundar a compreensão da versatilidade espacial do sistema e dos condicionamentos da sua usabilidade. O contraste estabelecido entre os dois eventos, evidenciou a importância do controlo do sistema para o funcionamento normal das actividades. Foi igualmente evidente o facto de esse controlo ser muito volátil dada a acentuada permeabilidade física e visual do sistema espacial.

4. DIAGNÓSTICO E DISCUSSÃO


A abordagem metodológica seguida permitiu estabelecer o diagnóstico da presente relação entre o espaço do Solar e os seus usos. O programa de actividades culturais implementado, temporalmente descontínuo, não se encontra estabilizado. Assiste-se a ensaios de utilizações (condicionados por limites orçamentais apertados) que procuram dotar o sistema de um sentido de uso perene hesitantemente decorrente da antiga quinta de recreio. Como consequência, o espaço apresenta-se sub-utilizado com dois picos de ocupação localizados na época natalícia e ano novo e na festa do Solar, em Junho.

A modificação dos padrões de uso da antiga habitação (sem ventilação natural resultante da abertura diária de portas e janelas, sem produção de calor na cozinha agora desactivada e com uma ocupação quase sempre residual) contribui, subtilmente, para um processo de degradação potenciado por técnicas de reabilitação não coerentes com a lógica construtiva do edifício.

Embora, devido à delicadeza da estrutura centenária e limitações da sua versatilidade espacial, o uso do Solar deva ser condicionado relativamente ao número de utilizadores e tempo de utilização tal necessidade não deve ponderar apenas factores quantitativos. Deve antes visar uma estratégia de uso assente na qualidade de ocupação subjacente a uma nova ordem funcional. Essa qualidade, questão sensível neste caso, exprimiria a compatibilidade entre o padrão configuracional do espaço e os padrões de actividades dos utilizadores. O uso é o elo a recuperar.

Nos tempos primordiais, o Solar constituia-se como um pólo actuante sobre a envolvente. As relações estabelecidas com o contexto resultavam da sua integração no tecido social da Sobreda, facto potenciado por este ser um meio pequeno. A Quinta dos Zagallos empregava parte da população da vila. O predomínio económico e financeiro da família conferia-lhe influência política nos destinos da Sobreda. Tal relação encontrava paralelo do ponto de vista urbano: a entrada principal da Quinta, situada no antigo Largo do Rio, rematava a rua principal da Sobreda. Hoje, a antiga via apresenta-se segregada na malha urbana subvertida por urbanizações desfiguradoras da paisagem.

A equipa gestora do Solar ensaia alguns usos reportados à memória de usos passados. São exemplos disso certas actividades desenvolvidas. Tratam-se de eventos episódicos que não satisfazem a necessidade de reconstituir consequentemente a natureza da função original e dotar este espaço de uma usabilidade coerente. Outras actividades (como as exposições) nada comportam de identitário relativamente ao espaço que as suporta (nem quanto ao seu conteúdo, nem quanto ao modo como se espacializam no sistema).

O Solar, não obstante o seu aparato cénico, e o investimento na sua recuperação, parece uma entidade sem radiação proporcional ao seu estatuto. Em contrapartida, edifícios vizinhos de análoga tipologia genotípica, recuperados por particulares, apresentam uma notável vitalidade. A estes edifícios foi dado um uso utilitário (celebração de eventos sociais) análogo ao da sua matriz. Ao Solar foi dado um uso institucional pouco consequente. Naqueles casos, foi desenvolvido um processo de adaptação, de compatibilidade das alterações funcionais com as alterações espaciais e sociais. Essas actividades de sucesso não cedem o passo à urbanização mantendo presente a antiga estrutura morfológica do território.

A procura de um conteúdo de uso mais consequente e natural para o invólucro espacial do Solar é uma questão intimamente ligada ao conhecimento das condições de adaptabilidade do edifício. As metodologias existentes, aplicadas a este estudo, permitiram fazer o retrato da actual situação. A APO é vocacionada para o estudo de edifícios em uso; a Análise Sintáctica debruça-se sobre o estudo do espaço e das propriedades decorrentes da sua configuração. No entanto, por si só, estas abordagens não abrangem as questões levantadas pelo conceito da adaptabilidade. As respostas terão de ser procuradas na matriz formativa do objecto. O objectivo será clarificar o carácter desses usos primordiais. Para compreender esses valores será necessário extravasar para além do objecto. Há que fazê-lo no tempo (procurando as razões subjacentes à sua origem) e no espaço (analisando a sua ancoragem morfológica, funcional e social ao território). A pesquisa de outros valores requer instrumentos de análise adequados. Outras abordagens metodológicas serão necessárias para inquirir os valores da adaptabilidade.

5. DESENVOLVIMENTOS FUTUROS


No estudo efectuado procurou-se analisar as capacidades adaptativas do Solar às actividades culturais implementadas. Concluiu-se que o espaço apresenta uma versatilidade moderada resultante da capacidade de compartimentação interna e da autonomização do sistema espacial; suporta ocupações extensivas desde que muito controladas. O espaço solarengo encontra-se sub-utilizado. A reinterpretação autárquica do sentido do uso da antiga quinta de recreio e fruição não estará a ser eficaz na reconversão funcional do edifício.

O aprofundamento das condições de adaptabilidade de espaços culturais terá como referência o Solar e assentará em três vertentes: 1) estudo das questões relacionadas com esse espaço público; 2) comparação com outros exemplos significativos; 3) desenvolvimento de abordagens metodológicas específicas.

O aprofundamento de aspectos relacionados com o caso de estudo do Solar implica a identificação da matriz formativa do objecto sendo relevante analisar o edifício no seu contexto urbano actual. A comparação do grafo genotípico do Solar com os grafos fenotípicos marcantes de cada fase da sua existência contribuirá para o esclarecimento do processo evolutivo do sistema espacial.

Confrontar-se-á esse conhecimento com os perfis dos grupos de utilizadores que, em cada uma dessas fases, habitaram o edifício e com os seus padrões de actividades. A consideração de outros casos de estudo permitirá estabelecer análises comparativas relativamente às condições de adaptabilidade de espaços culturais. Procurar-se-á comparar e analisar as condições de adaptabilidade de edifícios reconvertidos para fins culturais e de edifícios projectados para essas necessidades.

O estudo das condições de adaptabilidade de espaços culturais exige o desenvolvimento de abordagens metodológicas específicas. As técnicas de observação das relações entre espaço e utilizadores recorrem frequentemente a procedimentos de observação directa. As dificuldades e limitações de registo que este tipo de técnicas comporta são evidentes. Dependem das capacidades de quem observa (capacidades de concentração, de decisão, de registo, etc.). Também não permitem registar a simultaneidade/continuidade dos acontecimentos culturais, factores determinantes para o estudo do fenómeno. Por estas razões, procurar-se-á desenvolver técnicas alternativas de observação e registo que permitam ultrapassar as limitações dos procedimentos convencionais da observação directa muito dependentes do factor humano.

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quinta-feira, agosto 24, 2006

100 - Cidades à beira-rio e o rio como paisagem, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 100

 - Infohabitar 100



Cidades à beira-rio e o rio como paisagem – a civilização que nasceu da água


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho
A água é a maior e cada vez mais rara riqueza da Terra representando 2/3 do planeta assim como são 2/3 a água do total do corpo humano, sendo que a água potável é finita e o bem mais precioso do planeta, mais do que o ouro ou diamantes ou qualquer outro recurso natural. E como a água, o ar na sua dimensão de oxigénio é o segundo elemento sem o qual não existe qualquer forma de vida, incluindo a própria água de que todos nos lembramos como fórmula química, H2O, esse infinitamente pequeno molecular de que é feita a vida da Terra até à calote da estratosfera.

Já ouvi algures dizer que "Deus passou por aqui", deixou sol (3 mil horas de sol/ano) e praias de areia doirada ao longo de mais de 800 km para além de clima doce todo o ano, deixou um Jardim (como afirmou Unamuno), e os habitantes construíram as paisagens "domesticando" a matéria prima de que dispunham e construíram paisagens diversificadas em todo o território delimitado por fronteiras quase todas naturais, desde 1143, algumas que mereceram ser classificadas UNESCO e REDE NATURA, bem como a Baía de Setúbal foi classificada a mais bela da Europa, fronteiras que talvez tenham ajudado e inspirado o primeiro rei a fazer separar por esse limite físico este "rectângulo de oiro" da terra-mãe peninsular, também denominado por Vitorino Nemésio - esse pedaço de terra debruado de mar, como se de uma ilha se tratasse.

As grandes cidades que fizeram a história do mundo instalaram-se principalmente à beira-mar ou beira-rio, ou na meia encosta de grandes planícies que são os seus leitos de cheia ou de recepção das águas dos pontos altos, ou situam-se, finalmente, nos estuários, onde aflui a maior riqueza do rio que ao erosionar muito devagar leitos e margens ao longo de quilómetros, se bem ocupadas de vegetação ribeirinha que dissipa a energia da corrente servindo de almofada, e os sedimentos transportados vão-se depositando ao longo do percurso do rio, até se entregarem definitivamente na foz dos rios e no mar.




Fig. 1: “esse pedaço de terra debruado de mar” … “estuários, onde aflui a maior riqueza do rio.”

Todas as grandes Capitais do mundo estão nessas condições, e os rios fizeram também florescer as grandes civilizações sendo a do Egipto a primeira que virá à memória de todos nós, da mesma forma que podemos pensar na mais antiga e grande civilização entre o Tigre e Eufrates, onde se diz ter sido situado o Éden Bíblico e que é hoje o Iraque, ou o Estado de Nova Iorque à beira do Potomac.

Mas também a mítica Lisboa de Ulisses tem a privilegiada situação de ficar, duplamente, à beira-rio e beira-mar, com a particularidade de ter o denominado Mar da Palha que parece um pequeno "mediterrâneo" à disposição da cidade e que é um viveiro permanente das mais variadas espécies piscícolas que aí desovam na primavera para mais tarde alcançarem o alto mar já que a influência das marés se faz sentir até Vila Franca de Xira, com grande riqueza piscícola, e depois a juzante com águas "misturadas" rio-mar, o sapal que nenhuma autarquia tem relutância em aterrar para construir sem controlo, espaço que é grande viveiro da mais variada fauna piscícola que vem do mar ali desovar na Primavera, e logo regressar ao mar.

Não passaram muitos anos mas será que há quem se lembre da grande produção de ostras do estuário do Tejo? Arrisco afirmar que é curta a memória e pergunto, de seguida, a que preço está um prato de salmão do rio Minho ou de lampreia ou, ainda, de sável do rio Tejo.

Num artigo saído na revista Visão (3 Novembro 1994), poderá ler-se "«Povo que matas o Rio» - centrais nucleares espanholas, contaminação com metais pesados, morte de peixes, pesca ilegal, que mais irá acontecer ao Tejo ?'' – e o LNEC afirmou, quando do estudo do Plano Hidrológico espanhol, que o Tejo perdeu 25% do seu caudal. Pode ler-se no mesmo artigo que o Tejo é o maior pólo de desenvolvimento do país, alimenta as mais importantes áreas agrícolas do Ribatejo, é um centro de comunicação fundamental e ainda uma gigantesca maternidade de peixes (e eu acrescento que já não é) e, entretanto, na sua bacia hidrográfica de 24 869 km2, a maior do país, que vai de Estremoz à Guarda, vivem cerca de 3 milhões e 700 mil pessoas, mais de 1/3 da população portuguesa e, desta, mais de metade vive na Grande Lisboa e, assim, a pressão humana, urbana e industrial torna o rio Tejo um gigantesco espaço poluído; é que a água, como vento, são os elementos de transporte, por excelência, de vida (sem poluição) ou de morte (poluídos).

E daí resulta que o empobrecimento dos valores da natureza só pode conduzir ao empobrecimento das populações e do país irreversivelmente porque a natureza não se inventa.




Fig. 2: pescadores no Norte do Brasil.

A ausência de políticas de envolvimento de verdade na conservação dos valores de natureza inalienáveis, leva à morte da natureza e ao consequente empobrecimento dos homens, que da exploração sustentável dos bens da natureza dependem, invocando-se contudo e quotidianamente, razões "de desenvolvimento económico", como se água e o que contém de seres vivos e qualidade climática e ambiental, não fossem riqueza verdadeira.
Recuperando a sua frequente situação à beira da água, as grandes capitais actuais do mundo, os grandes centros urbanos e culturais e de maior procura turística ao longo de todo o ano, como Londres, Paris, Salzburg, Buda+Peste, Nova Iorque ou Florença, tiram partido da sua arquitectura tradicional intacta e restaurada, afinal, o "primeiro bem de raiz" para habitantes e visitantes e um constante ponto de partida de desenvolvimento de riqueza que assenta na história e cultura, e artes, de que o turismo é ávido e de que é desmultiplicador, inventando novos factores económicos ou recuperando tradições, não sendo necessária muita inteligência para não deitar fora, como Portugal tem feito, a sua herança de memória e a identidade dos lugares em que assenta a civilização, e que representa riqueza nacional mas também património do mundo.
E se o País dificilmente se porá a par do desenvolvimento industrial-de-2ª.vaga, só lhe restará não destruir mais os sectores primários, a terra e as zonas húmidas, o mar, e a sua grandeza de património histórico, edificado e imaterial.

Olhemos para a cartografia do País onde nascemos e vejam-se as cidades mais sólidas mais antigas bem como vilas e aldeias de beira-rio, e como as suas economias, e cultura, se desenvolveram e dependem de cada afluente de cada grande e pequeno rio; e ao olhar desse modo, interiorizemos que inutilizar com nova habitação ou estrada, cada ribeira que é o primeiro caudal de não importa que grande rio, é destruir tudo o que se passar a jusante, implacavelmente, é destruir vida e cultura e economias, é fazer deserto ecológico e humano, e por fim deserto físico, o que é apenas uma questão de tempo – tendo os decisores conseguido destruir, em apenas umas muito escassas dezenas de anos o que levou séculos a humanizar, tornar fértil.



Fig 3: Amarante e o Tâmega.

Portugal tem (tinha) uma extraordinário sistema hidrográfico homogeneamente distribuído, de que ressaltam os estuários do Douro (origem ancestral do comércio nacional com todo o mundo nos séculos XVIII e XIX), os vales do Mondego, do Tejo e do Sado, tendo estes últimos merecido pertencer à rede de Zonas Húmidas mais importantes da Europa, e em que a baía de Setúbal mereceu recentemente ser classificada "a mais bela da Europa", e o Tejo, pela sua riqueza física e biótica fazer parte da área protegida do Tejo internacional.

A importância dos rios em Portugal vem de longe, dos tempos da pré-história, de que é exemplo Foz Côa, com as gravuras rupestres datadas de há mais de 20 mil anos deixando testemunho das formas humanas mais remotas de viver, e sendo que o Guadiana é não só uma lição da convulsão morfo-geológica da Península Ibérica, como já foi o em tempos o último porto de mar do Mediterrâneo, pois que era navegável até Mértola, tendo ainda sido ponto de passagem de outras civilizações que invadiram o país de que restam vestígios, alguns dos quais hoje acessíveis no museu local; no registar da história do rio e dos homens, que é de uma riqueza inestimável.
Com a extraordinária distribuição das mais pequenas às maiores ribeiras em cada bacia hidrográfica, e com o clima ameno, não podia o País deixar de ser agrícola ao longo de milénios, situação esta que se alterou radicalmente, já que até 1986 o país produzia 75% das necessidades alimentares passando hoje apenas para apenas 25%, e sem se assistir à dignificação do solo agrícola e da sua produção, bem como dos homens rurais que tiveram a coragem de se dedicar às coisas da terra que produz alimentos; terra esta também ameaçada pela recente invasão de eucalipto, que é esgotador da terra em apenas 40 anos.
Com tal riqueza natural selvagem e construída pelos rurais, imaginemos então que classificação mundial poderiam ter as nossas grandes zonas húmidas (que incluem o litoral marítimo até 6 metros de fundo na baixa mar), se não tivessem sido tão destruídas, poluídas e continuamente discutidas “parlamentarmente” com tanta superficialidade e ignorância, e que economias podiam ter continuado a gerar se se compreendesse, de facto, o valor que têm, nem que fosse “só” pela sua "beleza", esse valor maior de todas as coisas da Terra e do Homem, e que, afinal, hoje e no futuro também vende/rá, porque a indústria do turismo é e será a mais poderosa do mundo e tem um crescimento imparável, excepto nos locais em guerra.
Afinal, as paisagens oferecem ao homem o que lhes é pedido de recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer "beleza" e recursos de recreio, lazer e dinamização da expressão artística.



Fig 4: “As paisagens oferecem … recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer «beleza».”

E é interessante atentar que do caminhar a pé pela estrada romana ou em liteiras, de há muitas centenas de anos, o turismo, de hoje, entre tantas das suas opções, voltou também ao caminhar a pé, por exemplo, ao longo dos vestígios dessa mesma estrada romana, mas para tal, para se poder contar com tão grande riqueza de possibilidades, muito há a fazer e a não deixar fazer, terminando-se de vez com o desprezo pelo nosso riquíssimo património.

O nosso País não tem de facto nem ouro nem diamantes, mas tem séculos de história feito em PEDRA e em PAISAGENS, a sua riqueza maior, e todas as artes delas derivadas e tornadas indústrias seculares, que já ninguém da cidade faz ou dá importância, porque as cidades tornaram-se tão extensas que se divorciaram da paisagem natural.

Na ausência dessas matérias-primas, que são as mais valiosas para os mercados actuais, não se encontrou, em Portugal, compensação no valor do mosaico paisagístico, nem na existência dos monumentos que contém desde a pré-história, e na situação geográfica que permite ser plataforma giratória de ir e vir entre este e o outro lado do mar.

Mas falemos de água e de rios e pergunte-se, o que é que em Portugal terá agora valor para se poder justificar que se encanem continuamente ribeiras sem a menor hesitação, só porque se atravessam no caminho da "expansão urbana em contínuo de laje de betão" (19% do território nacional é impermeável), quando em qualquer país europeu, nascido depois deste que habitamos, o "rio faz parte do tecido urbano" e é espaço de recreio por excelência, sendo mesmo, como em Inglaterra, núcleo “genético” gerador de aglomerado urbano.
É urgente que Portugal volte a amar os seus rios e as serras e as árvores e as cidades e os monumentos e as paisagens, que são todos património da origem de toda a vida natural e dos gestos de humanização, e são B.I. e ponto de partida do verdadeiro desenvolvimento, sem ser necessário ter de imitar nada, e, assim, sem correr o risco do "passar de moda."
É urgente voltar a amar e honrar o património paisagístico ancestral e multifacetado, natural e construído, acima e abaixo da linha de terra, e fazer dele património sociocultural e económico, nacional e mundial.
E há que salientar que o RIO é por si só uma paisagem desde a nascente à foz, com ou sem conjuntos urbanos nas suas margens, e é corredor ecológico por excelência, não importa de que dimensão.
As mais importantes cidades do nosso País fizeram-se com o mar e com os rios, numa linha quase contínua paralela à costa marítima, sendo as arquitecturas e as economias resultado directo da comunhão com a ÁGUA, e não esqueçamos Nemésio, ao referir-se a "este pedaço de terra bordejado de mar" que fez "civilização."
Já foi afirmado muitas vezes pela ONU que a partir de 2025, a água potável total do mundo, não chegará para os seus habitantes, já que o ciclo da água é um ciclo fechado e água é também civilização e saúde sendo o consumo per capita um dos mais actualizados índices de aferição do grau de desenvolvimento.
Sendo certo que a água doce total do planeta equivale exclusivamente a 4500 mil km3 para a água doce de superfície e 100 mil km3 para a água doce subterrânea, 25 milhões de km3 para o gelo dos pólos contra 1330 milhões de km3 para a água dos oceanos, sendo que se pode considerar ainda a água atmosférica como sendo apenas de 13 mil km3 e são tão só 400 mil km3 a evaporação e precipitação que se equilibra por ano. E porque a infiltração da água no solo é principal nas áreas florestadas (montanhas), a sua erradicação impede a água de abastecer toalhas freáticas bem como não produz o oxigénio da sua responsabilidade em que a sua produção por hectare ronda o valor necessário para uma população de 50 mil habitantes.
Paralelamente o homem "civilizado" utiliza por dia 100 litros de água e respira 60 litros de oxigénio, e ainda raramente na cidade se separam as águas negras das águas residuais industriais, para que as primeiras possam ser reutilizadas na lavagem das ruas e rega dos jardins e mesmo agricultura, desperdiçando-se, assim, a água que se tem disponível e, pior, desflorestando-se e impermeabilizando-se em excesso, designadamente, nas cada vez maiores, grandes cidades, e originando-se que cada vez mais água da chuva, para a mesma queda pluviométrica, vá dar ao rio e ao mar em vez de ficar nos continentes.




Fig. 5: E o século xxi é/será o século das grandes cidades.

Talvez porque ar e água não tenham fronteiras, estes sejam os dois elementos sagrados da China – o feng-shui – considerados, por vezes, em projectos, mas apenas ligados à orientação da habitação, continuando-se, mesmo depois de se conhecer, como hoje em dia, o valor da água e a sua finitude, com um quase desprezo, nos planos de ordenamento urbano, pelo valor da terra e da água, e mesmo do clima, que são tratados como se fossem "substituíveis."

E que felicidade é, e poderia ser, poder viver na proximidade da maior riqueza electro-magnética, biótica e de bens naturais do planeta que é a fronteira/margem terra-mar onde muitos e grandes rios se vêem "oferecer" ao mar, mas oferecendo o que transportam resultando na grande fertilidade dos estuários.

Que cidade e habitantes felizes os que podem usufruir dos valores estéticos das paisagens marinhas e fluviais, sempre especiais com a presença da água, a sua cor e luz, e movimento e deles retirar paz e consolo e contemplação, para além da manutenção da sua presença como fonte de alimento – Paris cidade interior atravessada pelo Sena, sem o rio talvez não fosse nem capital, nem teria aquele clima nem luz filtrada pelo nevoeiro, que só a presença da água permite, quando se evapora, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo.





Fig. 6: Aquele clima, aquela luz filtrada, que só a presença da água permite, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo – a margem de Lisboa e os veleiros.

A água é, como diz no Alcorão, "a fonte de toda a vida", não apenas no sentido físico mas também espiritual, e por isso na Índia há 7 rios considerados sagrados, da mesma forma que é sagrada, para os cristãos, a água benta, ou a água do Baptismo, a água do Rio Jordão onde Jesus foi baptizado, porque há homens que conseguem perceber que há sítios e lugares sagrados, e florestas sagradas, locais onde sentem o Divino na Terra, e em todos os tempos sempre a água esteve ligada ao DIVINO, como no Ganges que para tudo serve, e, mesmo imundo, não deixa de ser "sagrado."
Os rios foram e continuam a ser, em Portugal, meras "linhas de água" de captação de recursos e onde se rejeitam efluentes, os mais poluídos e devastadores da qualidade da água a ponto de matar a fauna piscícola e mamíferos das margens e até a mata e a vegetação das margens e as terras em que se vão infiltrando ao longo do seu percurso.
Mas o vento e água, sagrados para os chineses, devê-lo-iam ser para o mundo inteiro, já que são, por excelência, os dois veículos naturais de transporte: transportam a vida (o ar transporta o polén), ou transportam a morte (a poluição do ar e da água).
Com as alterações climáticas mundiais, de que já chegaram ao país as consequências, como nunca é necessário reaprender a desenhar com a natureza dando prioridade à água e aos seus locais naturais de infiltração e de drenagem que são os vales e retomar com a maior seriedade a legislação de ordenamento e de protecção dos locais que guardam a vida natural/cultural do nosso País; todos os erros humanos com o ar e água se podem evitar, basta deixá-los PASSAR pelos lugares naturais que lhes pertencem percebendo, para além de razões científicas e técnicas e estéticas, o espírito de cada lugar. E lembremos os monges agrónomos, os Beneditinos, que construíram o Convento de Alcobaça deixando o Côa passar, livremente, pela cozinha e não haverá no mundo muitos "monumentos" construídos em cima de um rio, deixando-o ser rio.
Meter uma linha de água não importa de que dimensão, num CANEIRO não é possível em nenhum país do mundo e, onde se fizer, a natureza mais tarde ou mais cedo reclamará o que lhe pertence como aconteceu no fim do ano de 2005 em New Orleans e Houston, situações bem paradigmáticas da invencibilidade da natureza por mais avançadas que sejam as tecnologias e as máquinas para a dominar porque até os factores de imponderabilidade são bem mais prováveis do que o domínio humano por mais que o homem desafie a natureza, como lhe compete e é humano fazer.
Sabe-se como é inútil construir paredões de betão senão acidentalmente, nem sequer espigões de pedras feias e colocadas ad hoc, porque um litoral não é uma área portuária contínua.
Espigões e paredões fazem parte de uma atitude que prolifera por esses litorais fora, fazendo-se desmoronar falésias sobretudo desde o boom turístico dos anos 60 que tudo constrói no limite das falésias ou mesmo em pleno areal. É sabido que o mar está actualmente a tornar a avançar (progressões e regressões) naturalmente, no seu cósmico movimento dinâmico super-milenar, senão não haveria altas falésias cobertas de fósseis marinhos ao longo da costa portuguesa como as da Costa da Caparica e do Algarve, de arenito e com alternância de camadas de argila porosa, porque o mar "recuou", sendo complicado não haver "conhecimento" nas disciplinas de planeamento e ordenamento bio-físico suficiente, e de geologia, para que se minimizem as catástrofes naturais anunciadas.
O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela, ganhando em eficiência e perenidade do construído, ganhando em qualidade da natureza e do ambiente e de beleza das paisagens e por fim ganhando em termos económicos já que tem de dispor de muitos milhões de unidades monetárias para constantemente refazer os enganos de planeamento e projecto, gasto que em vez de ser revertido para desenvolvimento sustentável e restauro do património, é gasto em "reparações" que serão cada vez mais difíceis de efectuar, à beira-rio e à beira-mar.




Fig 7: “O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela.”

Impermeabilizar leitos de rio, tornou-se normal em Portugal sendo curioso o caso de Ponte de Lima em cujo leito em anos de pouco caudal se fazem feiras, e que foi "cimentado" nos anos 90 após anos de areal a descoberto – mas que em 1991 provocou uma das piores cheias de sempre da região, e, da mesma forma, se construiu Miraflores no leito de uma das duas maiores ribeiras de Lisboa – a de Algés –, a par da segunda maior ribeira sobre a qual se construiu a avenida de Ceuta, porque foi esquecido que em 1983 houve enxurradas catastróficas na zona de Lisboa e Oeiras até Cascais, por haver construção indevida em leito de ribeiras.
A natureza é previsível e imprevisível e a única forma de minimizar as consequências está em saber decidir controlar a decisão de impermeabilização e de "parcelamento" de espaços físicos férteis e de funções múltiplas, conhecendo e respeitando as características de cada local e a sua função primordial, e podendo-se até dizer que "o que está certo está belo."

E como já se disse, cada "linha de água" é por si só uma paisagem e uma "entidade" a considerar no quadro de "ordenamento do território (urbano e rural) - é um Corredor Ecológico por excelência.
Basta pensar em como a cidade trata a água nas sua forma mais elementar e que tem a ver com a quantidade de queda pluviométrica urbana que, como é sabido, pode ser superior à da envolvente rural, já que, na cidade, a temperatura média diária pode ser superior em 6 a 7ºC devido a ser um contínuo de materiais inertes e com muito baixa relação percentual de área permeável, representada por parques e jardins, públicos e privados, que são áreas de beleza e de memória das "estações do ano", áreas de infiltração da água da chuva e regularizadores climáticos, são "natureza viva dentro da cidade", são vida.
E quando a cidade entra em crise ambiental, entra em crise, igualmente, a cultura dos seus habitantes, que mais e mais se distanciam da realidade da natureza e do que dela provém para que a cidade exista.
Creio eu bem que hoje tudo o que se passa não apenas no campo, mas também relativamente ao valor das componentes ambientais – e sobretudo à água – é, cada vez mais, um problema de cultura urbana porque os rurais já não habitam o campo e a cidade não é educada para esses valores, e talvez nem mesmo para os valores de urbanidade.




Fig. 8: Cidade e urbanidade.

Por mim, sempre me extasiei com a Terra e o que contém tanto de natureza, como feito pelos homens num diálogo de arte, que só pode ser diálogo de amor. E, por que não dizer também que, como os "antigos", vejo o Divino no rio, na árvore suporte do mundo, e na inspiração humana que faz catedrais.
Ou então dizer, como São Francisco de Assis, “a minha Irmã Terra, a minha irmã Lua, os meus irmãos peixes!” Não será tudo manifestação do mesmo? Que o homem vai descodificando?



Fig. 9: “A minha Irmã Terra, a minha irmã Lua …”

E porque os homens se divorciaram das coisas da natureza e da origem das Cidades-Civilização, agora fazem desmoronar também as cidades onde moram, sem darem conta de que já não há mais nada para destruir a não ser o próprio homem.



Maria Celeste d’Oliveira Ramos, em Outubro 2005
Colaboração e imagens de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006

quinta-feira, agosto 17, 2006

99 - A CIDADE e o RECREIO, um artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 99

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A CIDADE E O RECREIO, O ESPAÇO E O TEMPO – ESPAÇO DE ALEGRIA E DE FORMAÇÃO DO CIDADÃO

Artigo de Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho

A cidade é de facto o espaço privilegiado para a vida dos homens, e tempos houve em que havia a preocupação de definir cidade – civitas –, ou seja, definir espaço e funções de um certo aglomerado habitacional para que merecesse designação específica e diferenciada.
O lugar (pueblo-parish), a aldeia (village), a vila e a cidade (ville-town-city), depois metrópole, área metropolitana ou mais recentemente a megalópolis, radica na especificidade da actividade por grupos de habitantes.

O lugar e a aldeia seriam os locais habitados por aqueles que se dedicavam exclusivamente ao sector primário, enquanto que, depois, "subir-se-ia" na hierarquia da designação, não apenas com base no número de habitantes, mas também na pirâmide das funções do secundário e terciário, culminando-se na cidade, que é, por excelência, espaço terciário. O ordenamento das paisagens do campo e urbanas seguia de perto o ordenamento urbano e humano, qualificando espaços e funções.
O recreio e "loisir" são comuns a todos os lugares "habitados" (e mesmo adentro da habitação privada), mas tomam maior relevância à medida que aumenta o número de habitantes, e tal que no planeamento urbano passou a haver "quantificação" per/capita para determinadas tipologias de espaços exteriores para que os actuais espaços urbanos, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, fossem planeados e construídos com inteligência visando o bem-estar do cidadão e, mais recentemente, o bem estar da própria "natureza"selvagem" dentro da cidade e na sua envolvência.





Fig.1: Um pouco de cidade em Belém, Lisboa.

Tudo isto para que a vida permaneça, vida que não pode ser "deixada apenas à sobrevivência" dos espaços do campo, eles também em ameaça permanente pela desordem de tipologias de ocupação e pela ausência de percepção do valor de cada espaço especificadamente, e para que a cidade não seja apenas uma laje contínua de betão e de betuminoso onde a vida se torna insuportável, porque já é completamente anti-natura; e tal que entre um candeeiro e uma árvore centenária não há hesitação: corta-se a árvore!
Assim há regras urbanas que vão evoluindo com o tempo e a demografia dos espaços urbanos, não apenas para a geo-distribuição das funções da cidade, de que é a mais dignificada a de administração, a que se seguem as de ensino e religião, de saúde e de cultura, e de recreio e desporto.
E estas funções estão sempre a ser focadas quando se escreve sobre a cidade e a renovação do seu desenho, e sobre a "deslocalização" de funções que igualmente são alteradas pela evolução de diversas condições funcionais, entre as quais se destacam as ligadas às acessibilidades e aos transportes públicos.
E entre as funções da cidade estão as associadas aos espaços de recreio e de desporto, e aos espaços livres e públicos como os largos e praças, cujas funções poderão estar mais limitadas à cultura e ao comércio ou, simplesmente, poderão ser pequenas parcelas que se articulam no desenho de planeamento e ordenamento e que são “apenas” espaços de "respiração", para além dos espaços de circulação da cidade, e que desenham a sua estrutura fundamental e servem as suas qualidades de mobilidade.




Fig. 2: O recreio “livre e na rua”, num conjunto habitacional de interesse social da C. M. de Vila Nova de Gaia, na Quinta do Guarda Livros, Oliveira do Douro, projecto do Arq. Paulo Alzamora, 2001.

Quanto aos espaços de desporto há que citar a que classe etária nos referimos, já que, à partida, os espaços de desporto, porque exigem maior área, deverão situar-se longe do coração da cidade, podendo distribuir-se radialmente e em anéis concêntricos, para que o acesso não seja penoso pela distância às áreas de habitação, e pela dificuldade ou perda de tempo na deslocação, considerando-se as classes etárias a que se destinam, sob pena de, por exemplo, se desmotivarem os adolescentes que já têm autonomia de deslocação e correspondem à população urbana que está nas idades de formação de todo o seu ser físico e psíquico, e para quem o desporto é escola de auto-conhecimento e de desenvolvimento máximo da sua motricidade, de capacidades globais e de socialização, e de encontro em alegria, e para quem o recreio mais importante é o desporto de ar livre, podendo embora fazer-se em espaços fechados, mas menos saudáveis.
Desporto que deve também ser feito no espaço escolar onde à partida devia ser natural e óbvio, mas aí a situação tornou-se problema tão complicado que não quero ir por aí. Mas não tenho dúvidas em afirmar que uma das razões de repulsa escolar e mau aproveitamento, que no limite poderá culminar na violência dos jovens, pode radicar, mais do que se afirma, na ausência do desporto a que nunca nenhum jovem se furta, e por isso brinca e joga nos locais mais insólitos e inesperados porque essa é também condição natural de ser adolescente, mesmo desfavorecido, até porque é sabido que "nos bairros de violência" esta não se generaliza a todos os adolescentes, nem sequer aos que são exclusivamente oriundos dos grupos sociais mais pobres.
E quando uma escola primária ou de ensino básico tem um pátio, mas não tem árvores e o seu pavimento é apenas de betuminoso repulsivo e perigoso: lamenta-se profundamente que as crianças não mereçam melhor.
E da mesma forma se lamenta que os espaços infantis das cidades estejam equipados com brinquedos de poucas marcas monopolizadoras do mercado dando origem a uma “tipologia” muito marcada pelo "modelo único” nas formas, cores e materiais, frequentemente, muito caros na aquisição e implantação, e sem alternativa de restauro, ficando milhares de euros postos a um canto quando se partem e enferrujam, sempre iguais de norte a sul, sem a possibilidade de haver terra ou areia, sem árvores e sem relvados para as brincadeiras e jogos livres, sem criatividade e numa monótona e triste “igualdade.”





Fig. 3: “E bastariam, apenas, extensos relvados” – o miolo do quarteirão de habitação de interesse social da cooperativa Coohafal, na Madalena, Funchal, projecto do Arq. Guilherme António Barreiros Salvador, 1988.

E bastariam apenas extensos relvados e árvores que permitissem espaços de sol e de sombra, onde as crianças pudessem correr e "brigar" e aprender, então sim, igualdade e fraternidade, e estes espaços permitem a utilização por todas as classes etárias e proporcionam um custo mínimo de conservação; mas devem estar em locais caracterizados pela segurança e pelo sossego – afinal condições que são fundamentais para a saúde em meio urbano.
A este respeito e com o propósito de minimizar acidentes existe o Decreto-Lei 379/97 que visa propostas de alteração de planeamento, construção e manutenção, inspecção e fiscalização de espaço de jogos e de recreio; mas acho complicado ter-se chegado ao ponto de ser necessário "legislar o brincar", é mesmo a "condição humana."
O contexto social é muito mais complexo do que isto e cada homem adulto ou adolescente em formação, é vítima, ou fruto, de todo o complexo de inter-relações socioculturais e se por acaso a região de Lisboa e Vale do Tejo é considerada pela UE das sub-regiões de maior rendimento per/capita, diríamos então que de facto os graves problemas dos adolescentes não é um problema de riqueza regional, mas de outros problemas que foram descuidados e esquecidos, “ghetizando-se” os adolescentes.
A exclusão social não radica apenas na componente da eventual débil economia da família, mas igualmente na qualidade da oferta das instituições escolares, e da própria cidade, nos seus espaços; mas aqui há que referir os associados e frequentes “esquecimentos” das classes de decisão, sobretudo autárquicas.
Mas eu quero, hoje, aqui, falar, essencialmente, da cidade e da alegria e dos espaços em que o cidadão se pode retemperar do cansaço e da monotonia, tendo não importa que idade e ocupação diária e ao longo de todo o ano, e onde e como a cidade é espaço em que essa alegria natural e humana pode e tem de ser renovada, porque a cidade é espaço de viver e de ACONTECER em cada dia de cada ano, no seu ciclo não apenas anual e civil mas também diário e cósmico.
É mesmo a "condição humana" que é posta em causa porque brincar é natural, rir é natural, ser feliz é natural – e desejável.
O contexo social é muito mais complexo do que isto e cada homem adulto ou adolescente em formação, é vítima, ou fruto, de todo um complexo de inter-relações socioculturais, e se, por exemplo, por acaso a região de Lisboa e Vale do Tejo é considerada pela UE das sub-regiões de maior rendimento per/capita, diríamos então que de facto os graves problemas dos adolescentes não se referem a um problema de riqueza regional, mas a outros problemas, que foram descuidados e esquecidos, ghetizando-se, realmente, os adolescentes.
Qualquer adulto poderá pensar que "brincar" é apenas um acto infantil e próprio das idades mais jovens ou, então, brinca apenas para brincar com seu filho, menino, não receando o "ridículo", em privado, tal é a força de alegria que emana do bebé ou do pré-adolescente. Mas a alegria é própria do ser humano não importa a forma como vive e, se vive só, ou mais dificilmente se é velho e só, então a "alegria" até parecerá não poder ter mais lugar nos seus olhos ou no seu andar. E não devia ser assim, pois a cidade é, por natureza, lugar de encontro e de festa/alegria.




Fig. 4: "Grande homem é o que não perdeu a sua alma de criança."

Alguém que não recordo disse que "grande homem é o que não perdeu a sua alma de criança" e sabe-se bem como está a desaparecer do adulto, essa capacidade de manifestar a dimensão mais simples de "ser simples e ser menino", sorriso directo e cheio de luz que virá do interior e que tende, infelizmente, a enfraquecer com a idade .
Mas quando que se afirma que os velhos são como os meninos, creio bem que não são apenas tão frágeis como eles mas que, para os que passam os seus "bojadores", a mesma alegria simples e aquela luz no olhar regressam como património revalorizado e que repartem com seus netos ou com quem estiver no seu caminho, e se o sorriso falhar mais vale um sorriso triste do que não ter sorriso algum.
Quantos velhos se observam tristes pelas ruas por onde passamos?
Mas, quantas crianças também, não têm um sorriso, nunca sorriram?
A alegria corresponde a uma dimensão de saúde no corpo e na mente em que a cidade tem uma grande dimensão de responsabilidade, não por razões socioeconómicas, mas simplesmente pelos espaços físicos que na cidade têm de existir para que "viver na rua seja também prazer."
Que dimensão cabe à cidade apenas no sentido físico de espaço de estar e de convívio para que ao menos a natureza do homem comunique com a natureza das árvores e das flores e dos espaços onde as crianças "gritam e brincam"?




Fig. 5: É preciso que "viver na rua seja também prazer”; arte urbana em Almada.

Mas serão os adolescentes os mais esquecidos na sociedade actual – porque já saíram da alçada protectora de seus pais e largados à vida sem espaços de prazer e de estar colectivo, pelo que o seu crescimento é deveras problemático, o seu corpo físico e mente crescem mas sem desenvolvimento criativo e preparador para a fase adulta.
E hoje em dia a, quase, regra é a cidade e a sociedade só oferecem, ao adolescente, lugares de recreio nocturno que muitas vezes nem sequer são locais de música e convívio, mas, sim, frequentemente, sítios de ruído e poluição e de convite à droga e ao álcool a partir de idades cada vez mais baixas.
Esta situação inutiliza para a vida inteira qualquer adolescente porque o cérebro não se desenvolveu saudavelmente e, até aos 18 anos, a biologia humana não está ainda desenvolvida para poder fazer a síntese deste tipo de erros, mas sobretudo das "ofertas" de uma cidade irresponsável e comercial em que só importa o comércio e não os cidadãos, mesmo os que são a semente do futuro.
É urgente pensar e planear a ocupação dos adolescentes, considerando especificamente, as respectivas circunstâncias e os mais adequados espaços escolares e públicos, porque os adolescentes são a seiva de cada nação.
Os adolescentes têm de ter direito à cidade e à alegria, têm de ter direito aos espaços colectivos de crescimento motor, psíquico e social. O movimento de degradação da oferta da cidade para com os adolescentes pode e deve ser invertido sob pena de a cidade não ter mais razão de existir para além de dormitório colectivo.
É preciso cidade para rir e brincar, para ver rir e ver brincar e partilhar alegria infantil e colectiva.

Lisboa -bairro de Santo Amaro – domingo, 12 de Março 2006.
Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006.
Edição de José Romana Baptista Coelho.