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quinta-feira, dezembro 21, 2006

118 - A CIDADE E O SOLSTÍCIO DE INVERNO, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 118

 - Infohabitar 118

Lisboa adormeceu já se acenderam
Mil velas nos altares das colinas
Guitarras pouco a pouco emudeceram
Fecharam-se as janelas pequeninas
(letra de fado antigo de Lisboa)

Depois do esplendor da luz total no céu metilene habitado de montanhas brancas de cúmulos e do calor do pino de verão, cai devagar rasando todo o céu, a luz doirada de outono (o sono do Inverno), preparando a terra e os homens para o silêncio do inverno em que até a terra tem de descansar e por isso se re-veste de manto branco de neve e adormece, adormecendo com ela os animais que irão hibernar e as plantas que entrarão no seu repouso-vegetativo.

A Terra dorme mas não descansa, escondendo protegidamente as sementes caídas no outono que na terra ainda quente e amaciada pela chuva ficam quebrando lentamente a sua dormência espreguiçando raízes à espera do tempo de aparecer à luz visível na primavera a vir.

CANCIÓN DE INVIERNO
Cantan. Cantan.
¿Dónde cantan los pájaros que cantan?

Ha llovido. Aún las ramas
están sin hojas nuevas. Cantan. Cantan
los pájaros. ¿En dónde cantan
los pájaros que cantan?

No tengo pájaros en jaulas.
No hay niños que los vendan. Cantan.
El valle está muy lejos. Nada...

Yo no sé dónde cantan
los pájaros -cantan, cantan-
los pájaros que cantan.

Juan Ramón Jiménez


Fig. 00: ABC
Acabaram as chuvas e as trovoadas e as folhas das espécies vegetais caducas jazem na terra decompondo-se em húmus para a fertilizar e alimentar. E volta o céu azul limpo e sem nuvens e com luz de “sol-de-inverno”, deixando para trás perdas materiais em bens e animais depois de enxurradas devastadoras em que o nível da água subiu mais de seis metros em vários locais, desta vez também destruindo património natural com aluimentos de encostas devido à implantação em declives indevidos ou em leitos de cheia, ou como sucedeu em 2001 com a queda da Ponte Hintze Ribeiro, mas também património arquitectónico como o caso de Tomar e o deslizamento de parte de muralhas de Valença, o que já havia sucedido em 2001 às muralhas de Santarém, devido à incúria dos homens com esquecimentos difíceis de aceitar e à impermeabilização com equipamento indevido intra-muros, e à ausência de vegetação nas encostas das colinas que facilmente deslizam quando desprotegidas, pois que sempre que a ameaça surgia com as chuvadas (desde anos 80), optou-se por solução exclusiva de engenharia com utilização de betão e cimento, sendo que era óbvio que poria em perigo irreversível, destruindo apenas ou tornando, quantas vezes, a reparação excessivamente onerosa.

A Água não aprecia o cimento para a domesticar para além de certos limites e não esqueçamos nunca Houston e New Orleans cuja catástrofe é irreparável para sempre.

A estes graves acidentes que se repetem anualmente mas cada vez mais perigosamente desde 2001, tão gravosos para as populações atingidas cujas economias são inutilizadas para repor a vida, acresce a destruição das paisagens cuja dinâmica não se quis interpretar para evitar e minimizar o que não é óbvio só para quem aprova a construção do que quer que seja nos locais que pertencem por lei natural, à natureza, apesar da repetição do mesmo fenómeno todos os anos, como se a fatalidade não fosse dos agentes-naturais mas apenas dos agentes-humanos a quem cabe a decisão.

Não esqueçamos ainda a destruição das dunas em S. João da Caparica em Novembro 2006, que apenas com poucas ondas do mar onde as correntes de mar e estuário do rio se interceptam, desapareceram, tendo levado muitos anos a construir e consolidar com a eolo-hidro-dinâmica natural e que num minuto desapareceram por incúria e ignorância dos que autorizam construção urbana onde só há lugar para os cordões dunares (lembremos que é área protegida por alguma razão com critério ecológico), a par dos parques de campismo que terão de desaparecer mas que, curiosamente, já foi anunciado que serão deslocados para local ainda mais frágil como a Arriba Fóssil de arenitos argilosos da Caparica, o que devia ser completamente proibido dada a fragilidade da Arriba, ela também fazendo parte de Área Protegida, assim classificada não apenas pela sua beleza específica mas também fragilidade.

O país vai desmoronando nos centros urbanos e nas áreas protegidas do interior ou litoral por pura ignorância e inobservância das leis que governam a natureza e arrogância de quem tem o poder de decisão, da qual resulta pura destruição, por mais do que suficiente legislação sobre o ambiente que exista, mas que se ignora porque não é para cumprir mas sim para “ultrapassar”, estranhando-se até porque razão muitas autarquias do país têm no pelouro do ambiente um advogado, talvez para facilitar “dar a volta” à aprovação de construção nos locais onde a natureza mais tarde ou mais cedo reclama de forma sem possibilidade de qualquer argumentação humana.



Fig. 01: MCOR-Área Protegida do Litoral de Armação de Pera




Fig. 02: MCOR-Área Protegida do Litoral de Armação de Pera


Fig. 02 cont.: MCOR-Área Protegida do Litoral de Armação de Pera


O país vai empobrecendo na beleza das paisagens construídas e naturais, empobrecendo ano a ano com o fogo de verão e a chuva de Inverno, as populações são afectadas material e psiquicamente e por fim advém empobrecimento intelectual e cultural, já que saber “ler as paisagens” é preciso, num país que se tornou feio e mutilado.

Num planeta tão rico e de grande variabilidade cultural, e bio-diversificado, o actuar contra a natureza e o pactuar com o empobrecimento das paisagens conduz em linha recta ao empobrecimento dos habitantes e, neste tempo de Natal e de solidariedade, neste tempo em que os homens dizem “ser iguais” vale a pena pensar na pobreza de um mundo desertificado, já que 50% da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, 990 milhões de iletrados no mundo são do sexo feminino e em África não se vive subnutrido: em África morre-se de fome, de doença e de abandono; um continente que ainda é explorado na sua riqueza natural para que a Europa tenha a população mais rica do mundo como se o mundo tivesse a alma desertificada.

Solstício de Inverno – nascer de novo Sol, quem sabe se também no coração dos homens?

O INVERNO

Deus está no seu palácio de cristal. Quero dizer que chove, Platero.
Chove. E as últimas flores, que o Outono deixou teimosamente presas
nos ramos exangues, carregam-se de diamantes. Em cada diamante, um
céu, um palácio de cristal, um Deus. Olha esta rosa; tem dentro uma
outra rosa de água; e ao sacudi-la, vês?, cai-lhe a nova flor
brilhante, como alma sua, e ela fica murcha e triste, como a minha.
In Platero Eu, de Juan Ramon Jimenez



Desde tempos imemoriais que a humanidade festeja o nascimento do Sol como o fenómeno mais importante da Terra.

Festa da relação eterna com a fonte emanadora da energia global do planeta. Luz do planeta Terra, tão ávida, que dos 100% de energia que recebe, 50% fica absorvida pelas várias camada da estratosfera e dos restantes 50%, 40% são utilizados na formação e continuidade da vida, sendo que os 10% restantes são devolvidos à atmosfera por irradiação

De acordo com o ciclo solar de cada ano (360-365 dias) o solstício acontece entre 17 e 25 de Dezembro, geo-instante da posição do planeta em que os pólos estão no limite das distâncias ao sol, no máximo do seu afastamento a 21-22 de Junho no solstício de verão e no mínimo de afastamento no de Inverno, sendo que, assim, do eixo solsticial o solstício de verão se revela no hemisfério sul e o de Inverno no hemisfério que habitamos pelo que, quem pode “perseguir” o Sol e calor, sabe onde fazê-lo ou, opostamente, procurar a neve nas latitudes mais altas do hemisfério norte na Europa fria, sendo 21 de Dezembro também o dia mais longo e a noite mais curta no hemisfério sul, e a noite mais longa e mais fria do ano onde estamos agora a celebrar o “Natal” como se o NADA da escuridão fosse necessário para se ver “nascer a luz”







Fig. 03: In: http://pt.wikipedia.org/, percurso diário do sol sobre a terra ao longo das estações

Com a já nítida alteração das condições climáticas mundiais de efeitos devastadores não só nos locais onde os homens as provocam, como em locais “inocentes,” porque a natureza não tem fronteiras, fruto das respostas do planeta ser-vivo-sensível que se repercutem por quase todo o planeta, acontece que o frio a que estamos habituados pelo menos no hemisfério norte, faz com que no entanto se assista à deriva e ao desmoronamento de gigantescos blocos dos icebergs dos pólos sul e norte, bem como à diminuição da população dos ursos polares, como se assiste igualmente à derrocada das neves eternas do Monte Kilimanjaro do Quénia ou dos Alpes suíços, onde para além do recuo, há anos, dos seus milenares glaciares, neste Inverno (Dezembro) tendo perdido 2/3 da neve habitual levou a que fossem fechadas as estâncias de turismo de esqui e de neve, conduzindo ao enfraquecimento das economias daí derivadas, pois que a des-responsável actuação do homem dá, opostamente, origem a mais frio e mesmo quedas de neve em locais não habituais, e por vezes fora da estação do frio, como aconteceu em Portugal pelo menos em Torres Novas e em Lisboa e mesmo no Alentejo, em Fevereiro deste ano de 2006.

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse
agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural
inevitável.

Alberto Caeiro, in Poesia, ed Assírio & Alvim, Lisboa, 2001:p.131

Tudo isto faz, assim, pensar em como estas situações denominadas “globais” são apenas de origem local, nos vários locais do mundo de menor consciência global, e que o planeta com todos os seus habitantes do reino animal e vegetal é vítima-global como resultado do somatório das atitudes perfeitamente localizadas e identificáveis, porque o mundo rico se tornou autista.

Das distâncias limite de ambos os pólos da terra em relação ao sol, posição que se alterna nos dois hemisférios nos tempos solsticiais, segue-se o movimento do planeta na direcção das estações equinociais em que em ambos os hemisférios o dia se iguala à noite durante três dias e em que também o calor do dia se iguala ao da noite, com um dos hemisférios protegido pela sombra da noite, enquanto o outro fica iluminado de dia, já que os raios do sol incidem na perpendicular no equador, tempo de calor e de luz para toda a terra nesses breves instantes para de novo voltarem a declinar e repetir condições solsticiais resultantes do movimento conjunto de rotação e de translação da terra à volta do Sol e da posição do seu eixo e plano da elíptica relativamente ao plano do equador-celeste.

A festa milenar de comemoração do nascimento do Sol, ou da Luz, no dia do solstício de Inverno, foi aproveitada pela civilização romana e adaptada mudando a celebração para o dia 25 de Dezembro, fixando esta data até aos nossos dias e fazendo-a coincidir com a do nascimento do Menino Jesus, O Messias, que marca, no império de Roma, o abraçar da religião por Ele pregada nesse império que era antes de deuses pagãos.

O império de Roma tornou-se assim monoteísta e, por isso, os habitantes do império se denominaram católicos, apostólicos romanos, do império que fora de guerra de expansão territorial e de comércio entre os povos conquistados de este a oeste deste lado do Atlântico até aos confins da Europa mais a norte, elegendo Roma como centro e sede da religião que nascia e ainda perdura, depois de Constantino I.

Da celebração do nascimento da Luz passou-se a celebrar o nascimento do filho-Deus no mesmo dia, depois do Concílio de Niceia (ano 336 d.C.), que reuniu os maiores sábios da Igreja que já tinham o conhecimento de toda a tradição e conhecimento da informação dos livros e objectos sagrados, assim como da civilização da Índia e do Egipto, nascendo um novo livro religioso, facto que mudaria a história da Humanidade até com um novo Calendário referido ao nascimento do Filho de Deus que ainda usamos mesmo para datar todos os acontecimentos mundiais da história da Terra e do Homem, incluindo muitas das descobertas arqueológicas, que se referem a Cristo muito simplesmente a.C e d.C; embora “seja dito” que Jesus, que daria lugar a toda a situação histórica e à nossa actual cultura judaico-cristã, poderia ter nascido não em 25 de Dezembro mas sim a 1 de Março no ano V a.C., o que geraria muitas interpretações do Livro dos Livros sendo mais do que 2500 as religiões que o fazem, nessa eterna procura do homem pela origem das coisas que se perdem no tempo mas vão perdurando.

As civilizações mais antigas consideravam o Sol como o filho da Luz e esta representava Deus em vida.

Entre o Druidas esse era o dia da fertilidade sendo que muitas mulheres escolhiam a data para mais tarde “darem à luz.” Para os asiáticos o solstício era um velho de barbas no alto da montanha vestido de vermelho e branco (talvez origem do pai-natal), ser que representava deus na terra e trazia para os homens o seu filho-sol, mas já os egípcios festejavam o solstício com rituais de magia que envolviam o cultivo de sementes e as fecundações.

Os Maias elaboraram um perfeito calendário usando o solstício como início do ciclo do Sol e da Lua na terra – em 21 de Junho e 21 de Dezembro a radiação do sol atinge o seu momento máximo – tendo feito essa projecção até 2012. No hemisfério sul os Incas mais tradicionalistas e outros indígenas das Américas celebram 21 de Junho e 21 de Dezembro, pois que a celebração do “Natal” só foi para as Américas exportada com a catequização feita pelos europeus, na renascença, com os “descobrimentos.”

Com ou sem verdade histórica as “trocas” culturais geram trocas comercias (e vice versa) e o nascimento de novos fluxos de indústrias e serviços, e lucros para quem agarra as ideias e as faz espalhar e comerciar, por vezes acabando com antigas tradições sem pudor pela deformação de culturas e saberes ancestrais mais próximos da “alma” das gentes, uniformizando-se o mundo, talvez em demasia, no que se denomina de “civilizar” e fazer evoluir, até que “um dia” outros homens, desejavelmente, irão recuperar tradições, aproximando-se, assim, da sua essência e procurando não a desvirtuar.

O dia 21 de Dezembro é, porém, o dia do Sol planetário, com ou sem religiões, com ou sem bom ou mau aproveitamento.

É o solstício da Luz-da luz do Sol e da Lua e do nascimento da VIDA na Terra. Fim de um ano para que outro comece.

Todos os homens precisam de datas para os ritmar, festejando na terra os ritmos do céu e sempre foi assim com menor ou maior fidelidade.

Mas vejamos ainda por outros ângulos: Solstício, de sol que nasce, é Zhi no calendário chinês (chegada do Inverno), data de extrema importância e de celebração da passagem do ano em que, igualmente, se celebra o Sabbath neo-pagão Yule.

No oposto, no solstício de Verão e ao pôr-do-sol ao meio dia em Stonehenge, os raios do Sol são perpendiculares ao plano da terra e, portanto, sem sombra.

Embora toda a vida da terra e dos reinos animal e vegetal tenham manifestações derivadas das quatro estações toda a vida depende da energia e da luz do Sol e da Lua, incluindo os ritmos diários do homem e dos mares (marés) – Sol a energia global, Lua o planeta morto e fóssil, sem luz própria, filtro da energia do Sol para com a terra de que é satélite na sua rotação de um dia sobre si mesma e de translação de 28 dias à volta do sol –, macro e micro do planeta e seu satélite a comandar a nossa vida.

O homem tem de encontrar explicação para todas as coisas e em todas as coisas vê sinais e símbolos; agarra-os e usa-os de acordo com o seu tempo e história e dá-lhes a forma mais apetecível.



Fig. 04: ABC
Passou o Outono já, já torna o frio...
- Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol gelado...
- O sol, e as águas límpidas do rio.

Camilo Pessanha, in Clepsidra-ed. Amar Arte, Coimbra, 1994: p.17-2006 centenário de nascimento.

Tudo o que se passa no céu se reflecte em manifestações de festa, pagã ou religiosa, inspirando-se nas celebrações celestes.
Eterna inspiração do homem com a cabeça nas estrelas e os pés na terra, festejando os deuses ou um só Deus com oferendas e sacrifícios, pois que parece essa é, também, a sua condição de ligar sempre o céu e a terra.




Os homens governam os homens e o seu destino, fazem a guerra e a paz, governam a terra e os seus recursos mais valiosos, desde os minerais mais escondidos desmontando montanhas para encontrar o oiro ou escavando gigantescas cavernas para lhes sacar diamantes, celebram em obras literárias os duendes da floresta mas dizimam-na para explorar as madeiras preciosas e os seus frutos e animais que abrigam e dela dependem, arrastando também para a “morte” e o silêncio os mais variados e complexos ecossistemas, que dão lugar ao deserto e, na sua ânsia de mais riqueza material, despovoam os mais longínquos territórios e os ecossistemas-humanos interdependentes; e chamam-se de civilizados e evoluídos, exibindo e ostentando a sua capacidade de “vencer a natureza hostil,” daí resultando apenas pobreza da terra e dos Homens.

É ainda notável a forma como Portugal guarda e celebra a tradição ligada a festas pagãs ancestrais e religiosas que as assimilaram, sendo que a Festa do Presépio será, nesta época, das mais importantes e únicas no mundo sendo que, exactamente em 2006, foi desencaixotado depois de séculos arrumado a um canto, certamente um dos maiores e mais belos do mundo, o Presépio renascentista devolvido ao local original – o actual Museu de Ajulejaria de Lisboa – o Convento da Madre Deus, sendo interessante assinalar que pela primeira vez no nosso tempo democrático está aberta no Palácio de Belém uma exposição de Presépios, de iniciativa da mulher do Presidente da República, e a visitar gratuitamente.

E talvez porque a situação económica do país está “em baixa,” tem havido diversas iniciativas da parte de várias entidades privadas e de solidariedade social, incluindo a TV que dia 17 fez uma bela festa arrecadando donativos para os meninos internados no IPO (e UNICEF), parecendo assim haver menos autismo para com aqueles a quem a vida não dá a mão como seja uma festa de pré-natal com almoço e distribuição de roupa para os sem-abrigo, para além da habitual festa dos Hospitais e tantas certamente de que não teremos conhecimento.

Natal, festa de solidariedade ao menos uma vez num ano inteiro.


Celebremos o Presépio e a Sagrada Família da nossa Tradição Portuguesa.

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa – Bairro de Santo Amaro
Iniciado a 01 Dezembro de 2006, acabado a 18 Dezembro de 2006.

Nota final: 2006, ano de comemoração de centenários
- Agostinho da Silva (1906-2006).
- Camilo Pessanha (1867-1926) – único livro: Clepsidra.
- Amadeo Sousa Cardoso (1887-1918).



sexta-feira, dezembro 16, 2005

59 - O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade – um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 59

 - Infohabitar 59

O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade

um artigo de Celeste Ramos
Imagens de A.B.Coelho

Nunca nenhum acontecimento na História das Civilizações marcou tanto os homens como o nascimento de Jesus em Belém da Palestina, como se a partir daí a História passasse a ser re-escrita, perdurando até hoje esse "marco" ao longo de dois mil anos e que se tornou imaterial.
O próprio Império Romano que marcou sobretudo o mundo mediterrânico e europeu com a Pax Romana e a sua cultura técnica e estética poderia ser o primeiro gesto de globalização e unificação do "estar em paz e simultaneamente em desenvolvimento" dos povos e lugares conquistados. Porém, o avanço das legiões romanas Germânia fora, e o seu contacto com os Teutões, que se previa poderem ser, igualmente, absorvidos, levaria à última etapa da queda lenta do longo e grande Império de Roma.

Interessante entretanto os adoradores de muitos deuses pagãos, que nos deixaram para sempre essa ímpar faceta cultural da mitologia romana tão paralela à grega, terem tido como último Imperador Constantino, que, ao instalar-se uma nova religião – o cristianismo – a ela aderiu a ponto de mandar pintar nos escudos dos soldados e centuriões das suas Legiões os símbolos desse Deus único (Jesus "O" Cristo), cujos sinais teria visto em sonho, passando as guerras de conquista a ser a partir daí levadas a cabo em seu nome, o do Menino que nasceu em Belém.

Foi assim que em honra ao "novo deus" fundou com a maior grandeza e fausto Constantinopla (antes Bizâncio), a nova Roma, que seria o centro do Império Romano do Oriente, em que igrejas, monumentos e palácios teriam riqueza de formas de arquitectura exterior e interior, e fausto de ornamentos, jamais visto, império que cairia em definitivo, com a invasão dos Otomanos, mas depois de ser a capital do Império Bizantino de 330 a 1453, portanto durante mais de mil anos.




Em comemoração do nascimento de Jesus Cristo e da visita dos Reis Magos, representou-se o estábulo em que Jesus nasceu – talvez feito de barro, provavelmente complementando uma saliência ou pequena gruta na rocha (segundo S. Jerónimo) –, desde o século IV, embora os presépios com figuras esculpidas se baseiem em reconstituições do pré-renascentista São Francisco de Assis.

O Natal passaria a ser comemorado por todo o Mundo onde há um cristão, sendo o Presépio e a Missa do Galo seguidos pela Consoada, todos símbolos fortes da comemoração actual do Natal de Jesus, Natal também dos homens cristãos que celebram a festa da "sagrada família" e da sua família também, nessa "noite fria e a mais longa do ano", a noite do solstício de inverno, e, aliás, natal significa "nascimento de novo sol".

E o Natal é celebrado por muitos homens que se intitulam pagãos, rasgando fronteiras físicas e étnicas, sociais e culturais, como se o "natal" e esse novo "sol" existisse e renascesse em cada homem, não importando qual a sua motivação interior.

O Natal é um acontecimento na aldeia, na vila, na cidade e na família. Assim não há rua de qualquer lugar que não assinale a festa do Natal. E parece que há mais leveza e alegria no rosto de toda a gente, que se pacifica, e também o rosto da cidade se veste dos mais variados e cada vez mais perfeitos enfeites de luz, que sendo embora obras de arte pública efémera, tornam os espaços habitados tão diferentes que convidam até a ir à rua ver o que os homens fizeram para proporcionar e partilhar alegria colectivamente.

Este tempo marca toda a gente de todas as idades e condições sociais, e as ruas estão mais vivas como se participassem dessa azáfama. Da mesma forma muda a gastronomia e a doçaria, tão rica e gulosa, como muda até o interior de cada habitação que se torna mais festiva e adornada.




Afinal, por dentro da casa e na rua, a cidade muda porque muda a atitude dos homens. Há mais luz, mais arte, mais solidariedade e mais união entre os humanos, que pelo menos por estes instantes se despojam um pouco do seu quotidiano e das suas guerras, e dão um lugar maior à paz.

Os ritmos da Cidade e dos seus habitantes mudam com as estações do ano e, no solstício de Inverno, há paragem e meditação sobre o nosso sol interior e para encontro do homem com o melhor de si mesmo, como preparação para se celebrar o novo ano que se aproxima com toda a renovação possível para se "entrar com o pé direito", e se renascer, mesmo antes do renascimento da natureza na primavera, que a seguir vem, porque estamos também ainda num tempo de repouso e despojamento da natureza e de hibernação da vida.

E será frio só por fora, pois a terra conserva o seu calor interior, para mais tarde nos dar a emoção de tudo voltar a reflorescer, porque por amor tudo recomeça. Como se a própria Terra parasse a sua azáfama, o solo descansasse da sua produção, as árvores se despissem de folhas porque já entregaram os seus frutos no verão, e tudo se "recolhesse", preparando o que virá a seguir, em ciclos contínuos da natureza e dos homens, ciclos cósmicos a que o homem responde e se realizam de acordo com cada estação do ano, e como se o sítio do habitar, a Cidade, do mais pequeno povoado à maior urbe, fosse o eterno espaço-espelho-e-testemunho de toda a acção humana.



Seja em honra dos deuses ou de um só Deus, dos seus heróis, ou santos da sua devoção, sempre os homens festejaram as datas dos seus calendários históricos e culturais, misturando o sagrado e o profano sem complexos.

É ainda uma das grandes riquezas deste País onde nascemos, que ainda não esqueceu a tradição concretizada nas festas e romarias em terra de vale ou de montanha, no rio e no mar, as festas das estações; e, entre elas, uma há que é sempre muito especial, porque é a festa do nascimento e do renascimento, a festa do Natal.

E a cidade, que teima em desfazer-se e desmoronar-se numa ânsia tantas vezes cega de modernização, não pode deixar de perpetuar a celebração das suas festas sagradas e populares que, se morrerem, arrastarão consigo mais pedaços da vida urbana e da identidade urbana.

Santo Natal, com muita paz, para todos os "visitadores" do infohabitar e o desejo mais sincero de que o Ano Novo seja, de facto, NOVO e renovador.


Lisboa, Bairro de Santo Amaro, Dezembro de 2005
Maria Celeste d'Oliveira Ramos – arquitecta-paisagista

Imagens de A.B.Coelho