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segunda-feira, junho 10, 2013

443 - Portugal 10 junho - Infohabitar 443

Infohabitar, Ano IX, n.º 443

Editamos, em seguida, com uma muito especial satisfação, um novo texto daquela que foi uma das primeiras pessoas a escrever no Infohabitar, há já mais de nove anos.
Trata-se da Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos, a quem aqui saudamos com especial carinho e amizade e que nos permitiu a edição de um seu recente texto, elaborado a convite do editor do “Fri-luso”, um jornal português de Fribourg – Suiça, para ser editado neste jornal; aproveitando também para agradecer a este jornal esta gentileza.
Como verão o texto da colega Maria Celeste Ramos está totalmente ligado à semana que vivemos em Portugal (registando-se que a responsabilidade pela escolha das imagens é do editor da Infohabitar).
Fiquem então com “Portugal 10 junho”, aproveitando-se para enviar um abraço amigo e um agradecimento muito especial à Maria Celeste Ramos,

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Portugal 10 junho

Portugal meu país
Pequenino
Onde nasci e cresci e me fiz
Consciente de mim
E do lugar de nascer e de ser o que se é
Assim,
Tu meu querido país nasceste lá para cima em Guimarães que alguém decidiu que fosse
Em 2012 a Capital Europeia da Cultura – e do desporto europeu também
Foste honrado com esse pedido a que respondeste com a dignidade por nós esperada e pelos
outros admirada pois que tão visitada por tantos mundos d’além
E pela primeira vez festejaste tudo o que somos levando para os palcos os habitantes do campo tal
como são e vivem e se enfeitam nas suas vestes e que fizeram as nossas mais belas
paisagens milenares e assim não foram mais esquecidos
E as artes, todas, primordiais de todos os que ainda as guardam na sua inteireza
Gente que parecia ter pertencido sempre a um “palco” que afinal lhe pertence mas nunca tinha
sido, assim, mostrado ao mundo inteiro.




Nasceste nessa Cidade antiga de séculos e de pedra feita
Dura, duradoura, eterna
Até nas casas rurais de granito negro e branco imaculado de cal yin yang
Até nas casas dos animais e desses celeiros empoleirados nas montanhas de pedra únicos no
mundo que denominados de Espigueiros onde não há tecnologias mas apenas o clima e o
nosso ar e sol e calor mas protegidos das chuvas e das intempéries e mesmo dos ratos que
tanto gostam de se alimentar do mesmo que os homens
Criação tão sábia de quem com a natureza rude vive todos os dias e a entente e com ela
dialoga percebendo-a
Casas para guardar os cereais , elas também encimadas por uma cruz
Como nas Catedrais, essa, a de Braga, do séc. III, sede de arcebispado
Quem sabe, a mais velha do mundo



... e sempre a CRUZ que acompanha Portugal

Como tu Cidade, como tu meu País, minha “casa-de-nascer” e
De crescer
Se ser o que cresci e também ser emoções
Em pedra gravadas como vivendo e dizendo-o para sempre
Portugal país pequenino e velho dessa Portus Calle
À procura do Santo Graal aí
Ou talvez naquele Castelo encantado dos Mouros no Monte da Lua implantado
Mouros que também andaram por aqui e deixaram riqueza, riquezas, palavras e
Sabedoria e artes, que aqui ficaram e assimilámos é são parte do sermos o que somos
Porque desde sempre a esta terra tudo vem parar de todos
Os povos do mundo
Até ao mais belo luar que de prata ilumina o Rio inteiro que com o céu se confunde na noite
mais escura
E o sol que em maio é mais luminoso parecendo levar o céu para mais alto e se enche daquelas
montanhas de cúmulos brancos com tanta luz, montanhas celestes tornando-o mais azul
Esse Céu de Buda
Até ao mais belo e prolongado pôr-do-sol do nosso universo e que à tardinha se entrega ao Mar
Para ir descansar até voltar a nascer de todas os tons de rosa e nos faz esquecer que o dia
anterior talvez tivesse sido triste
Mas nos faz de novo re-erguer
E somos assim, país pequenino cheios de luz e de sol e de luar e de poesias e poemas e
poetas grandeza da natureza, dádiva de Deus que criou este lugar e chamou o nosso primeiro
rei para nos governar e guiar e ensinar a honrar o lugar em que nascemos




Poetas que cantam o Amor e as Tágides e o sofrimento com a mesma grandeza
Canta-se a nossa Alma eterna que o Fado sempre cantou e o Mundo reconheceu
E que mesmo com tantas guerras que aqui nos vieram inflingir ou obrigadas a participar e são
motivo de celebração para os países invasores
Mas meu país celebra a Libertação e Liberdade dos verdugos com o 25 abril como celebra o 10
de Junho da Liberdade
E o amor pela Palavra
Que se tornou uma das nossas maiores riquezas
Porque a Minha Pátria é a Língua Portuguesa
Língua que se espalhou pelos 5 continentes e também ela agora humilhada e ofendida e
invadida interessantemente por um único país que por ser populoso se agora poder ser invasor
não pelas
Armas
Mas pelo património que até do Portugal pequenino herdaram porque não tinham sequer língua
A dos seus ancestrais que a Europa desconheciam

Palavra de Luiz Vaz de Camões , poeta, homem das palavras de Amor e de Dor
Que espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar Amor e Arte
Poeta fidalgo e infeliz, deportado e humilhado, ofendido mas também celebrado nos lugares
para onde levou a nossa “alma” e esses países ergueram padrões e a sua efígee em pedra e
bronze – as armas e os barões assinalados
Navegador, épico ao lado da mesma grandeza de Virgílio e Homero
Neste Dia Nacional, Dia 10 de Junho, dia do Verbo e da Língua e de Luis de Camões
A ARMA é a PALAVRA
De amor universal e alma levadas e inscritas nas velas Pandas com o desenho da Cruz de Cristo
na dilatação da Fé e do Império
Vela Latina – vela portuguesa – que chegou ao SriLanca e ao Sião, às terras de Prestes João
das Índias
E ao mais recôndito Continente da Austrália que não foi descoberto por Kook mas por um
português que se perdeu no mar
Segundo reza a cartografia descoberta por caso em Biblioteca de Haia
Mar salgado quanto do teu SAL são lágrimas de Portugal
Os 5 continentes desbravados que Fernão de Magalhães mostrou
como Galileu não se enganou
Ah e até mais um mar se descobriu, e se lhe chamou Pacífico,
até ai desconhecido do mundo que nunca perdeu oportunidade
De ir atrás e reivindicar o que não fez
Como faz agora essa terrível e falsa UNIÃO em que mais uma vez é invasora
e demolidora da Honra de Portugal que já era país quando estava em permanentes guerras e
sem fronteiras definidas.
Como demolidora é quando inventa vacas loucas
E porcos e galinhas transgénicas
E crimes contra a humanidade e mesmo os seus, como hoje,
Em que se deu de comer a operários de fábrica alemã
Alimentos envenenados
As nossas fronteiras, as mais velhas do mundo foi país
E povo que não aniquilou Civilizações e qu,e em vez disso levou,
Levou amor para entre todos os irmãos
Com a palavra de o dizer
Junho 10, o dia da Língua e da palavra
Mas qual ?’
A de não importa que país que a tenha
E a use para celebrar e não como arma de matar
Meu querido país pequenino




Onde aprendi o que sei e sou
Já não somos os “donos do mundo” repartido com outros
Mas será que somos de nós mesmos ??
Diz-se que não
Eu país pequenino e já muito velho e já farto de sofrer
Que de novo a PALAVRA caia sobre os homens e sobre nós
Foi no meu país pequenino
Que tudo aprendi
Até que havia muitos outros e que visitei, mas para voltar sempre a casa
Como faz qualquer emigrante
A esta terra de bemfazer e ser investido da Alma que somos
Para voltar e ser



Maria Celeste d’Oliveira Ramos



18 abril 2013

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº443
Portugal 10 junho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

232 - Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País - Infohabitar 232

Infohabitar, Ano V, n.º 232

Conclui-se, em seguida, a edição de um grande artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos, um dos colaboradores que há mais tempo e mais intensamente têm partilhado esta nosso aventura editorial que está prestes a fazer que está prestes a fazer quatro anos de actividade ininterrupta.

Foi realmente em 21 de Fevereiro de 2005 que se iniciaram as edições semanais do Infohabitar e hoje contamos com mais de 230 artigos organizados em 20 temas, que correspondem a cerca de 2500 páginas ilustradas, que estão sempre disponíveis e que são diariamente consultados por cerca de 200 leitores; os page-views aproximam-se já dos 200.000 .

Tentaremos marcar os nossos jovens quatro anos de edição com um artigo um pouco mais significativo, o que será difícil após este triplo artigo da Celeste Ramos, e volta-se a convidar os leitores para a participação com o envio para os mails abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com de textos em Word com imahens jpg em ficheiros anexos.

E fiquemos, agora, com a terceira e última parte do artigo:
“PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”.

E lembremos a razão de ser deste artigo, em algumas palavras da autora:

“Só o fiz por prazer e AMOR ao meu País e à minha e CIDADE
Por vezes RAIVA é uma forma de gostar
E quem GRITA não é por não gostar dos OUTROS – é por SOFRIMENTO do que só se vê a forma mas não a essência do grito e eu que vivi uma vida inteira a calar o meu GRITO interior, felizmente que grito para não rebentar”

E boa leitura,

A direcção do Infohabitar


PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS – III

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Arquitecta paisagista
participação na ilustração: António Baptista Coelho

A cidade na totalidade das suas virtudes

A cidade na totalidade das suas virtudes mas, opostamente, também dos seus pecados, e sendo que, quem vive ainda “fora dos centros urbanos”, quantas vezes, ao ter de os visitar, não importa por que razões, se cansa e acusa a insanidade urbana na poluição do ar e do som, nas corridas infernais do trânsito e da ausência de tempo que a cidade vai provocando, tornando o viver mais uma vez desumano, com limite do crescimento do crime adentro de espaços de habitar, derivando em insanidade e medo colectivo, mesmo tendo passado um século sobre a desordem da Era Industrial. Mas, mais uma vez, novos modelos de regeneração da qualidade de vida urbana se inventam para que a vida não morra nas cidades e para que os espaços, em vez de abrigar e abranger, não se tornem hostis e aumentem os perigos, para nela se poder viver, perigos como o foi séculos atrás, como se todos os fenómenos humanos urbanos se repetissem por ciclos e não pudesse existir “a cidade ideal” para habitar.

Já é do domínio público o aparecimento de novas doenças da cidade principalmente respiratórias mais graves para velhos e sobretudo para as crianças mais novas que desde muito cedo ficam com o handicap respiratório para a vida, porque as cidades se tornaram de novo insalubres, não apenas pela vizinhança de áreas industriais, mas pelo tráfego automóvel imparável, nomeadamente por milhares de camiões TIR que atravessam os Países “sem fronteiras”; sendo que a Suiça, quase País de atravessamento obrigatório de grandes rotas, tentou controlar o tráfego europeu mas não conseguiu; sendo que, com tão grave problema, já se começa a equacionar o uso mais frequente de comboio de passageiros e de mercadorias, para minimizar a poluição que cada País tem de suportar com a “aparente vantagem” de um mundo sem fronteiras mas que afronta a qualidade de vida de outros.

Em paralelo, as populações vão sofrendo fragilidades tornando-as mais vulneráveis a outras doenças, como a gripe, própria mais do Inverno do que do Verão, e que em geral até começa nos Países mais frios e “desce até aos mais quentes”, sendo que em 2008 até começou no nosso País ganhando já a dimensão de epidemia e atingindo 1 milhão de portugueses, o que nunca acontecera, e sendo, mais uma vez, as crianças e os velhos os mais atacados a ponto de precisarem de ser internados, mas para alguns, mesmo tendo-lhes sido dada “alta”, os seus familiares, em Quadra de Natal, não puderam acolhê-los, o que tornou os hospitais uma “casa-refúgio de 3ª idade”.



Fig. 01: a importância das cidades

Cidades e envelhecimento

As cidades não estão preparadas em geral para o envelhecimento global das populações que na Europa atinge já grande percentagem, mais de 17% com tendência para aumentar, já que, por razões múltiplas, nascem cada vez menos crianças, esperando-se o rejuvenescimento das populações através dos nascidos dos emigrantes; numa problemática como se fora um pau-de-dois-bicos, pois que a Europa ainda não conseguiu resolver o problema da sua integração plena e denomina-os de “emigrantes ilegais”, como se entretanto neste milénio se aceitasse o emigrante “sob condição” cada vez mais cruel e a liberdade conquistada na Europa no pós II Guerra Mundial, começasse a desaparecer também.

E este fenómeno fez gerar outro, o da adopção de crianças dos Países mais distantes como a Ásia sobretudo Índia, que praticamente “vendem” os seus filhos, porque não terem condições económicas para os criar e lhes ser “acenado” tratar deles e dar-lhes “um futuro”, o que fez nascer agências de acolhimento dos jovens que por sua vez deram lugar ao aparecimento de agência Internacional sediada na Dinamarca, que é um verdadeiro mercado de compra e venda de crianças para adopção dos países ricos, sobretudo de pais inférteis ou que não querem ter os sacrifícios e custos de inseminação artificial e sendo que as crianças indianas representam, mesmo esfomeadas, um património genético ainda não afectado pela poluição europeia e alimentos químicos que ajudaram a aumentar não apenas a infertilidade humana (o outro lado dos países da abundância), mas até doenças novas de civilização como se o crescimento económico tivesse, também, adulterado os genes humanos e a par das vacas-loucas tivesse transformado os homens em verdadeiros seres transgénicos que, como se sabe, não se reproduzem.

Há no ar um grau de demência civilizacional, pois que a par de um tão recente e mal remendado tratado europeu que recusa no seu preâmbulo a origem judaica cristã e do mandar retirar das escolas o velho Crucifixo símbolo da cristandade, se junta a liberdade de “acasalamento e casamento” entre o mesmo sexo, a par ainda de leis que põem em dúvida a segurança da família e sobretudo da “mãe” e seus filhos, ou outras que libertam o aborto, tentando-se já generalizar a eutanásia, como se a vida fosse reduzida a um código legal de comportamentos sem fronteiras e sem “espaço para prevaricar”, já que a liberdade e libertação é tão total que não sei se a estruturação da personalidade sem quaisquer “baias” não dará o maior caos socio-cultural.


Cidades e jovens

Não sei pensar muito bem sobre o que sucede com os adolescentes e quais as razões do seu comportamento em algumas escolas das grandes cidades.

Mas sei, porque já dava por isso quando dava aulas, que desde os 11 anos os meninos começam a beber álcool quando o seu organismo só está preparado para o processar a partir dos 18 anos. Tomam todo o tipo de drogas leves e até pesadas, entram em coma alcoólico nos fins de semana nas discotecas onde tudo se vende, a libertação dos tabus sexuais conduz a difíceis construções do amor, as escolas demitem-se de marcar faltas aos meninos que vão às aulas, que querem e ouvem os professores que entendem, os meninos de bairros sem qualidade urbana estudam e têm aulas em contentores tão falhos de qualidade como o lugar de habitar, sem espaços de jogos e brincadeiras em locais aprazíveis e em segurança, obtêm carta de condução aos 18 anos quando ainda são crianças irresponsáveis, batem nos pais e gritam aos professores, quando o ensino básico e médio púbico eram de grande excelência e já não é, mas havia livros escolares de certas disciplinas para três anos e agora há para cada disciplina/ano meia dúzia de manuais, que para além de exorbitantemente caros são mal escritos e mal estruturados, e como já li alguns vi ser aí impossível “aprender a gostar de aprender e saber”.

Pais, professores e sociedade não “têm mais tempo”, nem se debruçam sobre cada criatura-menino que vai crescendo mais na rua do que em casa e em condições bem diversas de acordo com a classe sócio-económica dos pais.

A Cidade de hoje oferece o céu e o inferno de mãos dadas e se tanto no Porto como em Lisboa, na Ponte Vasco da Gama, há corridas de carros ilegais e perigosas, onde está a maioria dos adolescentes no fim de semana e será a maioria dos jovens ou apenas os que se vêem? Afinal não se fala sobre os adolescentes senão quando há comportamentos desviados, que no entanto são recentes, mas que no verão 2007 e no 1º semestre de 2008 assustaram o País, sobretudo depois do que se viu ter sucedido no verão 2007 nos arredores de Paris.

São apenas meninos dos “bairros periféricos” das florestas de betão e betuminoso alienantes? Gostava de saber, porque essa juventude será adulta em breve e será população activa e, quem sabe, estará em lugares de decisão.



Fig. 02: cidades novas?

Cidades e emigrantes

E voltando mais uma vez atrás, estes emigrantes são sobretudo oriundos de Leste mas também de África, muitos deles quase “atravessando o continente a pé”, continente que já foi tão explorado pelos países europeus colonialistas e, agora, mesmo depois de serem independentes, não trilham a senda do desenvolvimento, daí resultando problemas dramáticos de “mercado-negro de transporte” para o “mundo rico”, em que a Europa representa mais uma vez o Eldorado, não se contabilizando quantos desses emigrados morrem no mar, e em terra ao atravessar o Shael, que além disso são explorados pelos “passadores” de quem ficam à mercê, fazendo lembrar as grandes emigrações dos portugueses nos anos 60, que a troco de todas as suas economias davam “o salto” e eram igualmente explorados, mas o destino era “aqui perto – a Europa”, embora se possa afirmar que o que se passa neste início do III milénio, atinja nível de crueldade e de mercado que envergonha o próprio Homem.

As cidades que expulsam os habitantes que para não morrerem de fome procuram lugares para trabalhar longe e alimentar as famílias versus as cidades que os recebem e impõem condições mal regulamentadas ou “fecham os olhos” à legalização e lhes permitem a residência para poderem trabalhar (residências que são em 2008 como eram as do início da Era Industrial do séc. XIX), mas com salários a 50% do dos naturais do País que executam o mesmo trabalho, como fazem Inglaterra e Espanha, (havendo meninos e homens portugueses da fronteira que a tal se sujeitam na vizinha Espanha) ,contribuindo para aumento de riqueza mas sem equidade nem lei, como se a Carta dos Direitos do Homem, e os acordos bilaterais entre os países, fossem “letra morta” a que os mais desprotegidos se sujeitam para mal sobreviver.

A cidade não é mais o espaço acolhedor e de mais alegria e conforto de viver, e de esperança, espaço de cultura e de beleza e de acumulação de história da humanidade, mas sim de desqualificação do próprio ser humano porque o “mercado” tomou conta da vida do homem-irmão, que não passa de “mercadoria” de fácil transacção – já não há mais nada para comerciar.

Só que o preço a pagar por esta nova mão-de-obra desqualificada mas abundante, embora entre eles haja também muitos universitários, não é comparável ao fenómeno de “comprar homens” para o futebol, expressão usada igual à de quem compra vacas ou couves – tornando-se o Homem um produto de Mercado.

E quando se pensa em Maddock e na compra do Nasdak e no mercado bolsista entre empresas fictícias, que não existem senão para manusear fortunas que nem se sabe de onde vêm e como foram feitas, dá para pensar em como a cidade dos homens atingiu o maior grau de demência e de insanidade humana e mesmo maldade, porque o TER, não importa como e de quem se saca, dominou o mundo ocidental.


Portugueses deprimidos

No CM de 29 Dezembro de 2008 os números são elucidativos relativamente aos portugueses “sem nome” que se vão suicidando ou entrando em colapso psíquico, sendo que “os psiquiatras estão preocupados com o aumento do número de portugueses deprimidos, uma doença mental que está a afectar cada vez mais pessoas, especialmente nas camadas mais jovens, mas também a gripe que há meses caminha da Ásia até aqui, só num dia fez com que apenas num hospital fossem atendidos 30 mil pessoas com pico no Natal, e de repente lembro um documentário sobre como o vírus “viaja de avião” atravessando continentes, foi dito e mostrado como o vírus contamina os passageiros através da tubagem de ar condicionado que nunca é desinfectada. E no sábado senti, até numa pastelaria (de porta fechada por causa do frio) como o ar estava pesado e infectado.

É sabido que as gripes desta natureza e gravidade conhecem periodicidade embora de longo tempo, mas em 2007 a “gripe das aves asiática” pôs em pânico os portugueses, já que foi recordada a gripe espanhola que matou muitos milhares de pessoas creio que no início do séc XX, e pensava-se poder repetir-se –, mostrando que tudo se globaliza no melhor e no pior, sendo que há cada vez mais razões para repensar como é importante a salvaguarda e minimização dos problemas de saúde pública não apenas com a prevenção anunciada pelo sistema de saúde, mas pela construção da própria cidade.

Saúde pública e saúde social pois que, da mesma forma, o PGR (Procurador Geral da República) afirmou à Rádio Renascença (29 Dezembro) que é grave o aumento de 15 % da criminalidade no País que irá aumentar no País em 2009, derivada também do que já sucede na Europa e derivada, também, do empobrecimento dos portugueses, pelos sucessivos despedimentos e falências de empresas, atrasos no pagamentos de salários e, ainda, pela existência de bairros muito populosos e sem quaisquer condições de vida, sendo bairros de exclusão social – temendo-se rotura social com esse tipo de violência que vai progredindo.

Este problema de violência mais brutal teve início em 2007 com falências (verdadeiras e falsas) continuadas de empresas e da sua deslocalização, fazendo aumentar o número de desempregados, num valor dos mais altos da UE, quando, em 2006, havia a mais baixa percentagem europeia mas não são porém bem classificados os grupos sociais portadores de tal violência já que, em Dezembro em Atenas e alargada a mais cidades, a violência surgiu dos universitários que não conseguiram encontrar emprego, o que igualmente sucedeu nas ruas de Paris.

A esta situação acresce a falência de Bancos e empresas “parasitárias” e o desaparecimento dos depósitos de cidadãos vulgares que perdem as poupanças da sua vida, sendo que o estado depressionário de jovens e de adultos tem muitas origens, não sendo a “cidade” capaz de dar resposta aos cidadãos, haja universitários a mais ou a menos, sendo que porém, não tendo embora lido em lado nenhum, não é em vão que o desemprego aumentou na Europa rica devido à ganância das empresas e governos, que permitiram, como nunca, a deslocalização dos agentes de produção para a Ásia, antes de criar alternativa para os que foram despedidos mesmo com os subsídios dos Fundos de Desemprego.



Fig. 03: cidade doente

A doença da Cidade

O Homem já não tem qualquer valor – só o Mercado dá ordens –, só não se contabiliza os custos em “saúde pública” e sanidade dos habitantes, sendo que também a tendência para privatizar a “doença”

Sim a doença da Cidade – a cidade que mata os seus habitantes está condenada a morrer nas suas mais nobres funções.

Restará o direito ao “grito” enquanto não for “calado” mais uma vez pois que tudo se repete em espiral.

Paralelamente, perante o desmoronar da sociedade, a “Caixa do Pão da Igreja de Santo António” vai ajudando dando pão e 5 euros a cada um dos que aí recorrem e, isto, na UE rica e evoluída, que se pavoneia em Bruxelas e Estrasburgo com os mais altos salários e mordomias pagas pelos impostos dos que entram em depressão.

Mas na situação oposta, e como aconteceu no “fim de ano”, foi habitual a sua passagem fora do País e em destinos tradicionais como Brasil e Caraíbas, Cabo Verde e Madeira, Cuba e México e República Dominicana parecendo assim que há sempre a quem a depressão nunca atinja.

E como uma anomalia nunca vem só, o Presidente da República fez após o tempo de noticiário da TV1 das 20 h de 29 de Dezembro, uma declaração de quatro minutos sobre o “assunto do Estatuto dos Açores” que através de Lei Ordinária se sobrepõe a Lei Constitucional, relativamente aos poderes do PR versus os de uma Região Autónoma, levantando-se querela institucional após 34 anos de democracia, como se o Governo não tivesse mais nada para fazer e governar o País, em vez de inventar problemas onde “tudo parecia bem”, dando voz ao ditado “quando não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, não havendo, actualmente, e desde 2000, senão uma acumulação de sucessivos problemas económico-sociais que resvalam e revelam o caos estrutural do País e a incapacidade de governar cidades e homens bem como as mais altas instituições de cuja anarquia são, sempre, os mais afectados, o cidadão comum que quer Pão, Trabalho e Sossego – revelando mais uma tipologia de entre todas as patologias da Cidade.

Um ambiente doente só pode fazer adoecer quem nele habita – plantas, animais, pessoas.

Estaremos talvez em tempos de esgotamento de formas de governação da vida dos cidadãos que serviram até aqui, e que será necessário rever e refazer, refazendo também os actores activos e manifestamente incapazes de sentido de serviço do colectivo e não exclusivamente do aproveitamento para bem pessoal e individual.

A Cidade onde habitam os investigadores e os maiores criadores dos projectos de valor colectivo e que fazem evoluir as sociedades, está desde o início do milénio a gerar os maiores conflitos a um grau de patologias em que apenas uma minoria pode “passar ao lado”.

Das vantagens da abertura de fronteiras, na Europa e logo a seguir em quase todo o mundo, também vem o contraponto desta gripe que se teme, poder “viajar” de avião, não apenas com as pessoas mas com os produtos de importação-exportação, bem como outras convulsões económicas e sociais num total descontrolo, que atingem as maiorias como uma “doença” em cadeia.


O drama das cidades dos homens

Este é o drama das cidades dos homens – das cidades de hoje, não importa em que país do mundo que enriqueceu no tempo “colonial” com a exploração dos recursos naturais de África e com uma “mão-de-obra” nova, gentil e obrigada, e que apenas meio século depois toma outras formas de exploração dos homens, desertificando o continente que agoniza com as doenças mais fatais como a cólera e a tuberculose e sida, e agora a fome, passando pelo comércio das jovens para mercado sexual, ou para a “deslocalização” da licença das multinacionais da indústria de fabrico de medicamentos, das grandes marcas europeias, para fabrico de genéricos contrafeitos e que provocam a morte de muitos milhares de pessoas em África e Índia. Num verdadeiro “filme de horror e morte” com populações que além de terem outra cultura e linguagem, e hábitos, não sabem nem ler nem escrever e são apenas vítimas silenciosas, situação conhecido do mundo ocidental, denunciada apenas por alguns jornalistas “sem medo”, com risco da própria vida.

E voltando ao ambiente urbano diremos que depois há as aves que habitam quase apenas a terra e as zonas húmidas, mas também as que habitam mais os ares do que a terra, sendo que damos mais por elas na altura das grandes migrações nos equinócios da Primavera e Outono, mas há-as também autóctones e ficam-se sempre por ali, no local que a sua espécie elegeu para habitar, viver, reproduzir-se e dar mais vida e beleza, e variabilidade de riqueza aos lugares, não esquecendo as espécies cinegéticas que habitam as matas e que os homens gostam de caçar, mas também as há que adoptaram o meio urbano e a ele se habituaram se encontrarem as condições de coabitação no espaço cada vez mais artificial em que a cidade se tornou.



Fig. 04: o campo cada vez tem menos espaço na cidade, cada vez mais preenchida com betão

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade, também através de agricultura peri-urbana ou hortas e jardins no miolo de quarteirões antigos da cidade reticulada, onde também podemos olhar árvores de fruto como a figueira e a nespereira, e quantas vezes a oliveira que ficou no interior urbano que se expandiu e se deixou ficar, cada uma a espreitar por cima de altos muros e a darem-nos o tempo de cada estação do ano, a dar forma e perfumes, e cor, escala e flores e “oxigénio” para todos os sentidos, ajudando-nos a renovar ritmos urbanos individuais e colectivos sem disso nos apercebermos, já que o homem da cidade se queixa de tanta chuva e de tanto frio, se queixa dos ramos que lhe entram pela janela, sem pensar nas vantagens da natureza viva dentro da cidade, que a climatiza e humaniza e o ajuda a refazer “humores”.

E tudo começa pequenino e serve o Propósito da Criação e a utilidade dos homens, seja para seu alimento ou pura manifestação de beleza a contemplar e enriquecer a inteligência e alma dos seres que somos, através da sua simples observação e forma de manifestação.

Tudo nasce, tudo se desenvolve, tudo tem um destino e tudo morre, as plantas e os animais, os pássaros e também os homens e os lugares de habitar, tantos deles perdidos no espaço e no tempo, fantasmas de civilizações passadas e locais desactivados do interesse dos tempos, algumas soterradas, outras sítios arqueológicos muito procurados pelo turismo que se debruça, cada vez mais, nos espaços que contam a história dos lugares e dos homens anteriores e que deixaram de ter interesse como locais de troca comercial de que resultava sempre troca cultural.

Mas as eras de evolução do homem levam-no a outros lugares e desde as cidades mais antigas perdidas e ficando apenas no mito, às que desabaram como Ephesus ou foram soterradas como Pompeia no séc. VII a.C., ou com tsunamis tão recentes já neste III milénio como Acheh (27 de Dezembro de 2004) ou Houston (2007) – tudo acontece às cidades como aos homens – nascem e desaparecem por vezes lamentavelmente.

Mas o mesmo adentro do nosso País, como a Bracara Augusta , cidade milenar e mais velha do que a maioria dos países que séculos levaram até definir fronteiras, entre outros Países nascidos tão recentemente, de valor histórico e arqueológico que o mais recente sentido de ordenamento e desenvolvimento condenam para sempre e são património da humanidade desaparecido sabe-se lá por que razão – mas a nossa Bracara Augusta já está debaixo do chão de betão.

Mas podem ainda existir cidades que há séculos se foram implantando e crescendo nos locais que os homens escolheram por razões de amenidade e maior conforto climático, como a fria Guarda, quem diria, pois é a que fica situada no ponto mais alto do País, ali à cota da existência dos Castanheiros que os fogos vão dizimando e fazendo desaparecer a riqueza para os homens explorarem, ou na vizinhança de locais de outros bens de produção alimentar seja à beira mar ou beira-rio, como a maior parte das cidades portuguesas, ou até nos locais mais inacessíveis e também inóspitos, por razões de defesa contra ladrões ou invasores como Almeida ou Valença, Elvas ou Óbidos, dentro de muralhas, mas que já as extravasaram há muito, para mais uma vez retirar dos locais os benefícios convenientes em cada tempo histórico.

Mas debrucemo-nos sobre as cidades que habitamos hoje, não importa de que idade e de que história falam.


Dos velhos e das árvores

E porque se quer falar dos velhos e das árvores começaremos por dizer que a árvore “entrou” na cidade à medida que crescia, já que as cidades mais antigas não precisavam delas porque tinham todo o campo e natureza ali ao debruçar das muralhas.

A cidade cresce não apenas com o aumento das famílias mas também com as migrações internas, ou até mesmo com o afluxo de emigrantes naturais ou estrangeiros que é necessário alojar, e talvez semelhantemente ao afluxo excepcional dos rurais à cidade que começou a industrializar-se, os fluxos de hoje assentam em fenómenos diferentes e mais complexos socio-culturalmente, como não há memória na história do mundo, e gerando, mais uma vez, a desintegração das periferias e a densificação do casco histórico, em superfície e em altura, ajudado agora pelos novos materiais e processos de construção.

É assim incessante o movimento das cidades que quase se tornam ingovernáveis do ponto de vista de planeamento e ordenamento urbano continuadamente, mas sobretudo pela implantação e reorientação dos equipamentos, uniformemente distribuídos no tecido urbano, acessíveis a todas as classes socio-culturais e económicas e das novas exigências da modernidade e diferenças do viver, fazendo das nossas cidades, sobretudo das capitais, uma massa de pessoas desenhando não apenas a maior interculturalidade de sempre com a tendência de integralidade, à medida que os novos habitantes, e os sistemas de política dos governantes, se debruçam sobre os processos de integração e igualização de procedimentos para todo o ser humano que procura os nossos lugares de habitar – espécie de cidade global na variabilidade dos habitantes de todas as proveniências geo-culturais, vivendo no mesmo espaço e sob a mesma lei de civilidade deste País milenar e acolhedor de todas as raças, que desde há séculos aprendeu a conviver e misturar sem complexos.

E se por acaso quisermos pensar quantas as nacionalidades do mundo inteiro e quantas delas até aqui vieram parar, tenho dificuldade em saber se faltará alguma, como se o País que percorreu os mundos e com mundos se misturou no planeta inteiro, tivesse agora, na própria “casa”, todo o mundo que nos procurou na esperança de estar melhor, e em paz, do que nos locais onde nasceram.

Que ideia terão do País que procuraram? Gostava de saber.

È certo já que o País é igualmente procurado, e cada vez mais, pelos velhos europeus já reformados e que depois de terem nascido e sido membros activos das suas sociedades, decidissem ficar neste País de Paz e de Sol para viver, sobretudo no sul, com praia e boa e variada gastronomia todo o ano como se fosse o “paraíso sonhado” e alcançado para viver esse tempo de reforma que se quer tranquila e em clima de eleição.

É interessante constatar que a cidade envelhece e, nela, os seus habitantes, e se a cidade se pode reequipar e modernizar, para os homens a vida é inexorável e curta e geração sucede a geração até no mesmo lugar.



Fig. 05: a cidade fica!

Os homens passam e a cidade fica

Onde nasceu? De onde é a sua família? A Cidade como factor de identidade.

A cidade que cresce e se acrescenta em novos bairros e nova arquitectura, responde ao grau de modernidade temporal, mas já não abdica da árvore e de outros espaços ajardinados, de desporto e de recreio, mesmo que insira no seu espaço histórico, praças e jardins antigos e jardins botânicos até com árvores centenárias e milenares, como se cada “habitante” do mesmo espaço fosse revelador dos tempos percorridos.

Muda o desenho da cidade, muda o desenho dos espaços verdes e parques e jardins, muda a forma de os usar, e a forma do habitante se apropriar da cidade e, quantas vezes, se olharmos uma grande árvore em bairro mais recente, veremos que tem a mesma “idade” do edificado seguindo as idades a par, identificando-se também o tempo de cada desenho urbano. Que interessante o Tempo que cada cidade nos ensina, tempo histórico e cultural, tempo climático e civilizacional – o tempo-idade na cidade.

E mesmo tendo iniciado este escrito em Maio, porque até as ideias tê de amadurecer com o tempo, hoje, no dia a que se chama MÁGICO, só porque se muda de ano civil, mágico para muitos sim, mas creio bem que não será indiferente, mesmo para esses, que para a maioria da população do País, e do mundo, e até desta cidade, nada terá nem de mágico nem sequer de diferente, porque será apenas mais um dia que se somará às suas vidas ou mais um dia em que mais vidas serão inutilizadas pela morte de guerras infindáveis e cruéis, pelas doenças novas ou mesmo as que estavam erradicadas e que voltaram a invadir o mundo dos que não têm nem casa nem pão e que vivem em “cidades-guetos”, deslocados dentro até do seu próprio país, onde não há nada, a não ser medo e tristeza e inumanidade e não há MAGIA nem nas palavras do Papa ou do director-geral da ONU, palavras que caem no chão como as folhas mortas das árvores que nesta época não têm flores nem sequer só folhas, revelando a “nudez” da vida, o seu repouso em silêncio da terra e da vida e a sua temporalidade e infinita fragilidade, como se fora tempo de recolhimento para mais intensa vida interior.

Interessante que neste último dia do ano que ainda corre, não a mensagem, mas as palavras pessimistas de Mário Soares, que não parecendo ter alguma vez sido homem sem esperança, afirmando (SIC 16 h – Janeiro de 2009) que o próximo ano poderá ser o ANO da REVOLTA daqueles que cada vez mais têm cada vez menos, no mesmo tempo em que cada vez menos têm cada vez mais.

E porque o artigo devia ser pequeno mas se estendeu como uma enxurrada e falta falar de árvores e de velhos vou acabar.

Cresci nesta cidade onde estudei e trabalhei e, como eu, todos os outros habitantes de cada lugar, de formas diferentes mas que deram a cada lugar o seu espírito e aos lugares se afeiçoaram, porque onde moramos é a “nossa casa” com não importa que relação de vizinhança e sendo que se envelhece a população da Europa ou do País, o mesmo sucede no mau bairro e mesmo na minha RUA.

Assim sendo, os reformados que abundam e tendo ou não família, têm uma forma de estar que há alguns anos venho apreciando porque é também essa a minha condição e o que se aprender só de olhar e ver quem passa, ou frequentar o mesmo local colectivo, foi-se criando “uma comunidade de afectos” em que todos nos conhecemos e cumprimentamos e nos queremos bem além de partilhar algo da vida vivida, outra forma de enriquecimento e aprendizagem apenas através do conviver.


Como se o meu bairro fosse uma cidade …

Como se o meu bairro fosse uma cidade dentro da cidade, como se a minha rua fosse o meu bairro inteiro e fosse também a continuação da minha casa, como se o local colectivo de convívio diário tão perto de minha porta, fosse o prolongamento do meu viver e não apenas “o local de tomar a bica”.

Comunidade de afectos e de bem-estar como se a “cidade” estivesse toda aqui e daqui sair fosse como “ir a Lisboa”, como se a rua fosse a minha casa e os meus relacionamentos de amizade e de vizinhança.

Nunca eu em tal pensara, porque me ocupara com outras coisas, mas deixei que acontecesse, e assim foi, amizade que se vai consolidando e crescendo, como crescem e envelhecem as árvores da rua, companheiras inseparáveis do casario e dos pássaros que nela poisam, que sem folhas nos dão a dimensão do Inverno e outro céu, e na Primavera tornam a rebentar em flor e folhinhas claras a anunciar a estação do ano em que por amor tudo recomeça, e outro céu, anunciadoras de todas as estações do ano e dos seus ritmos, como os ritmos dos homens de nascer e envelhecer pois que nesta rua e local colectivo de frequência diária, há bebés e seus pais, há pretos e brancos e mesmo drogados, que nos falamos e eu insisto que assim seja, há nacionais e de outras nações, embora haja um “núcleo duro” de frequentadores que criaram um ambiente invulgar nesse local colectivo de que já não prescindo, e nos sentimos todos bem, onde até se almoça e compra pão, onde a “população” vai variando com a idade e com os seus afazeres e, a partir do almoço, o espaço é todo nosso, dos que já estão reformados, que ficamos para mais tarde, com o dia que vai morrendo, com a luz do sol que vai caindo, como as horas, como o tempo.

E num pequeno espaço do bairro, apenas numa só rua, todos conhecem todos e até os seu cães, que andam a passear e nos conhecem também – ecossistema para além do humano, em bairro de paz onde se está bem e nada falta pois que tem tudo o que é necessário ao quotidiano e mesmo além disso, e certamente por tal razão e quase de repente e apenas há menos de meia dúzia de anos não pára a construção de mais habitação e de mais altura, e quantos mais demandam aqui viver, como se fugissem dos locais onde a cidade se tornou mais cruel e era excessivamente impessoal.

A todos os tempos arquitectónicos da rua, se acresce as árvores e os pássaros e os cãezinhos bem tratados e todos os bebés e adultos, todas as profissões e serviços, e todos os velhos que passam e os que param a ver se estão os seus amigos e vizinhos, ou mesmo familiares, e assim é a RUA ONDE MORO – o meu pedaço de rua – pois que tão pouco basta – extensão da minha casa ao sair da porta, e extensão dos meus afectos, local de encontro de quem já se conhece e se quer bem.



Fig. 06: a cidade dos bairros vivos.

Cidade velha de afectos novos

Vejamos entretanto quantos velhos há em Portugal (CM – de 20 de Dezembro de 2008).

Portugal é o 10º país do mundo com maior percentagem de velhos – 18 %

Dados gerais:
- Mais de 65 anos – 11849 831 - 772 405 do sexo masculino e 1077 426 feminino
- Com mais de 100 anos – 185 homens e 754 mulheres.
- O envelhecimento – o País tem por cada 100 crianças com menos de 14 anos o nº de 114 velhos com mais de 65 anos.
- Tem 26% de analfabetos – tem 61% com a 4ª classe – tem 77% de reformados.
- Tem 36% de população que ganha menos de 379 euros/mês dos quais 24% homens e 27% mulheres.
- Tem 1562 lares com 61 087 velhos.
- 17633097 velhos ganham 353.95 euros.
- Tem 820 519 homens que ganham 448.60 euros e 942 578 mulheres que ganham 271.50 euros.

Por escalões e quantidade de funções:
- Menos de 400 euros há 1442 000.
- Entre 400 e 1186 euros – há 269 000.
- Mais de 11 86 euros – há 52 000.

Aposentados e reformados da Função Pública - dados da CG Aposentações:
- Menos de 500 euros – tem 94 484.
- 500-1000 euros – 122 244.
- 1000-2000 euros – tem 105.213.
- Mais de 2000 euros 70 724.

A prioridade é alargar o apoio domiciliário – integrar no seio familiar e nas suas casas sempre que possível por ser a melhor solução.

Porque morrem as Cidades ??
Porque morrem as Árvores ??
Porque morre um País ??
Porque morre uma Civilização

Porque morre o que morre ?? e devia ser Vida e Alegria.

E, também porquê, surge de repente um Homem que até pareceria um ilustre cidadão desconhecido, que surge dos fins do mundo, ainda com o handicap de ser negro no mundo ainda tão racista, apenas um homem, chamado Barak Obama, não o novo salvador do seu País arruinado e focado durante tantas dezenas de anos, na manutenção de guerras sem fim desde Cuba até ao Médio Oriente, em nome de quê ? Não o salvador do seu País mas que, como um raio, iluminou a UE da escuridão em que se vem mergulhando.

Será um novo profeta como um Buda, como um Cristo Redentor?

Que fogo do incendiar o mundo neste Inverno frio e sem dinheiro como se o mundo tivesse de partir do NADA. O que tem ele de incomum com a sua vida e família comum? Não será sinal de que o homem comum pode ser a esperança do mundo.

Que fim de tempos iniciado com o Brasil e o seu mensalão.

Que fim de tempos com Portugal e o seu “viaje primeiro e pague depois”.

Isto que acabo de escrever não é mais do que o que fui aprendendo e olhando de um século de vivências directas e indirectas do mundo “civilizado” em que me movimentei e movimento, mesmo tendo visitado “alguns Países” considerados desse mundo que apelidam de III – vamos lá pensar porquê e como me posiciono.

Porque morrem as Cidades e há tanto sofrimento?

Por falta de amor já que morrer também pode ser belo quando chega “a hora”.
Também morrem as estrelas para que outras nasçam.

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a 9 de Janeiro de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho

Nota importante: esta série de artigos foi dividida em três edições semanais, de que a última foi agora editada.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 31 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 2 de Fevereiro de 2009.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

230 - PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES, PORQUE MORRE UM PAÍS – II - Infohabitar 230

Infohabitar, Ano V, n.º 230

Com quase nenhumas palavras de introdução apresenta-se, em seguida, a segunda parte do artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos, sob o título geral “PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”, que iremos editar, sequencialmente, ainda esta semana, sendo a terceira e última parte do artigo alternado, na próxima semana, com uma outra colaboração, neste caso, da Arq.ª Teresa Marat-Mendes, da Secção Autónoma de Arquitectura e Urbanismo do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), que nos oferecerá, aqui, na próxima semana, o artigo “Do Aqueduto de Lisboa aos novos Vazios”, do qual se reproduz uma pequena passagem introdutória:

“… A paisagem de Lisboa, durante o século XVIII assistiu a uma profunda transformação do seu espaço público como consequência da construção do aqueduto das Águas Livres de Lisboa… É precisamente a identificação desses Vazios e da sua oportunidade enquanto espaços de intervenção na paisagem urbana de Lisboa e do seu Termo de hoje, bem como na delimitação das unidades morfológicas atrás mencionadas, que a presente comunicação pretende oferecer através de uma nova aproximação metodológica ao estudo do património e da paisagem, …”

Mas, desde já, fiquemos com as palavras de Maria Celeste Ramos e como entenderemos há múltiplas ligações entre as suas preocupações e uma adequada atenção aos novos vazios urbanos,

e boa leitura,

A direcção do Infohabitar

PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS – II

O mundo está sem controle – como o crime – porque tudo é global !!

Cofi Annan foi o homem da transição e que chamou a atenção para os problemas mundiais e criou na ONU um Directório formado por conjunto de Países, tendo apenas ficado um governo para o mundo ocidental Europa e USA. E de repente não se aceita um mundo privilegiado mas sim uma cidadania global para acabar com o mercado da guerra e das armas, da economia da droga e do mercado bolsista, o mercado “humano” de degradação do homem e das crianças.

O neoliberalismo – o mercado e a política conduziram à situação do mundo actual e a voltar a Marx, mas sem a ditadura do proletariado e do totalitarismo.

Um dia virá em que a Revolução francesa do séc. XVIII será de “liberdade, igualdade, fraternidade” uma benção para o mundo. Só não se sabe quando e, para já, dois séculos passaram e só há “liberdade” – bem ou mal usada, falta o resto que é mais importante e sem o que a “liberdade” não faz total sentido porque só se é livre com responsabilidade e ÉTICA.

O mundo é ainda uma Sociedade do TER .
Falta muito para ser uma Sociedade do SER.





Fig. 01: (sobre uma sociedade do SER) mo Jardim do Miradouro em Lisboa.


O homem não é um ser evoluído – é o maior predador da natureza e do próprio Homem – e é o ser mais jovem de todos os seres vivos do Planeta – é apenas isso, embora procure outros planetas para desvendar o céu e quem sabe se para procurar outra “casa”, já que tanto desarrumou esta.

É claro que se sai da situação a que se chegou até porque entretanto o “encosto” na UE impede a maior insolvência do que se faz e não faz – mas a própria UE já não é o que era e há-de sair do beco mas, mais uma vez, o beco nacional parece um cul-de-sac que vai deprimindo os habitantes – como se tudo estivesse em “roda-livre” imparável.

Um dia a rica Europa de hoje será um farol do mundo porque tem tudo para o ser – assim queira, mas sem depredar os “vizinhos e o mundo” e entenda que a “deslocalização” é ainda uma forma de depredação dos “vizinhos” que a engrandeceram, tendo que se recuperar valores antigos.

Estes 22 anos de comunidade europeia que deu prosperidade e em que a Ibéria deu grande contributo desde o séc XVI com o Tratado de Tordesilhas o que não deu só riqueza material, e se o Brasil é hoje uma potência, também é devido a D. João VI que deu a independência a uma potência do Sul que ficou estruturado cultural e economicamente sendo primórdios de globalização e união de todos os Países e se há quem tenha conhecimento de todo o Mundo é Portugal e Espanha pelo que não é de subestimar esse passado que tem de ser reequacionado.

Mas já Jacques Delors, ainda a UE tinha poucos Países aderentes, dizia que o seu crescimento teria um dia o espectro do desmantelamento sem no entanto se poder afirmar que o cumprimento dos deficit viria pôr a descoberto algo mais importante do que isso – e já dizia Sampaio que há mais mundo para além do deficit –, e assim foi, por falta de visão do mundo que explodia por outras teorias sem controle de nenhum País dentro e fora da EU.

Mas tudo muda sempre – e ficarão vítimas pelo caminho .


Há mais mundo para além do deficit
E falando em ruína, fale-se do sector primário que, como tudo o que já se disse atrás, está em ruína pelo menos desde 1986 com a imposição da PAC (Política agrícola comum), ao sector primário da agricultura e das pesca, de um País tão rico tanto em património milenar agro-silvo-pastoril e de espécies piscícolas de rio, mas principalmente de mar, cuja plataforma continental que além de extensa entrando mar dentro, tem uma interessante forma geomorfológica que abriga muitas espécies sendo ainda a ZEE a maior da UE pois que inclui o mar da Ilha da Madeira e do arquipélago dos Açores. Mas a PAC impôs cotas de produção no País, que a cumpriu abatendo os barcos de pesca sobretudo de pesca artesanal, que não provoca extinção do pescado ao contrário dos barcos de arrasto que levam tudo a direito e ao destruir redes de pesca de nylon perdidas no mar, além de não serem biodegradáveis, nelas de “enforcam” os grandes mamíferos do mar desequilibrando todos os ecossistemas marítimos.

Mas não houve quem estivesse à altura de dialogar com os seus pares nas instâncias europeias, e não poderá nunca confundir-se o sector agrícola da Holanda com o de Inglaterra ou França, pois que são e serão sempre Países e climas diferentes e sobretudo solos de outra profundidade e grau de fertilidade, e climas e latitudes, e a terra é o que é, e dá o que dá e não o que se quer que dê, muito embora nos solos mais pobres do País se cultive uma das culturas mais importantes e ricas que dá pelo nome de Vinho do Porto, que a PAC não conseguiu alienar.

É fundamental amar o País que se tem, conhecê-lo como é e nas suas infinitas variabilidades e não ignorar isso, e deixar de querer fazer o que “se faz lá fora” ,mas sim fazer o que o País precisa de acordo com o que é sem ser inventado e muito menos ignorado.




Fig. 02:

O País é uma realidade palpável

Sem a matéria prima do mar acabou a indústria derivada das conservas de atum e sardinha famosas no mundo, empobrecendo os pescadores e os locais onde vivem, reflectindo-se nos serviços de secagem, armazenamento e distribuição e sendo que o comércio, para satisfazer a procura, resiste à custa de importação dos produtos que tinha e da maior qualidade e tal que, pelo menos nos anos 60, do século passado, parte do turismo algarvio era responsável pela publicidade da gastronomia portuguesa ligadas às espécies do mar.

Zonas do País havia de grande riqueza e variabilidade sendo que ao longo das estações, e segundo os tempos de defeso, muitos agricultores eram também pescadores, actividades que alternavam com as estações e o estado do mar, como é por exemplo o caso de Caparica que, entretanto, com o turismo da mais duvidosa qualidade, construiu equipamento urbano e turístico, onde a terra era de alta produção e beleza e sendo que o mesmo sucedeu em Carcavelos, cujo vinho ia para a mesa dos Czares e hoje tem, também, apenas betão e betuminoso e uma infinidade alienante de rotundas.

Em paralelo cabe aqui falar na Barragem do Alqueva construída em Alqueva – Portel - em 2002, construída após 40 anos de hesitações, a fim de transformar a riqueza do sequeiro, em regadio, mas, mais uma vez, a palavra que não passa de palavra e nada feito até hoje, num local em que as aldeias, incluindo Portel, estavam cheias de crianças e de esperança e como já não há água para a agricultura, porque entretanto as lei da PAC impediram o cultivo e sujeitou a quotas, entretanto será para a construção de complexos turísticos para um total de 22 500 camas, e para campos de golfe.

Mas, como era de esperar, quer-se investimento e como a mão-de-obra local envelheceu, acontece a invasão em força do País vizinho, que tudo compra, mesmo os maiores e melhores olivais; e, como dizia um biólogo que viu transformar o Alentejo de sequeiro a perder de vistas e rico em aves de muitas espécies e gatos bravos que viviam nos vales encravados nos montes, tudo foi para debaixo de água incluindo 4 milhões de oliveiras e sobreiros que não foram desmatados e apodrecem e provocam formação de bio-gás toxico, matando-se natureza e áreas agrícolas e cinegéticas, a fábrica de celulose e a Aldeia da Luz cujos habitantes “receberam” uma Aldeia da Luz-Nova, substituindo a antiga, mas que entretanto entristeceram e lhes morreu a vida e a alegria do lugar de viver.

Actualmente, o local que tinha 20 % de desempregados hoje tem 50%, mais uma versão impressionante do que é não saber ter um plano nacional de desenvolvimento global do País para o curto e longo prazo, e apenas ter situações pontuais, acidentais e gratuitas fazendo lembrar antigos projectos, igualmente gorados, como o do Cachão (Trás-os-Montes) e ainda o do Regadio do Caia, igualmente inviável e ainda o do Vale do Mondego, mega-projectos que não aproveitaram a ninguém; e pergunto-me como se resiste e até quando, colonizados ou não por Espanha, como o Algarve foi por Inglaterra.

Já não há ninguém que resista, já não há ninguém que diga NÃO, e o empobrecimento veloz e real dos habitantes que muito dói desde 2000, é acrescido da ameaça de que 2009 será muito pior, e está com certeza radicado nesta sucessão imparável de insucessos desinteligentes, que fez disparar nova emigração, desta vez não apenas de mão de obra “desqualificada”, mas também de intelectuais.

Também é sabido que ao envelhecimento da população se alia a desertificação humana como é o caso dos concelhos de Sabugal e Almeida que em 6 anos perderam 7 mil habitantes, fecharam escolas há 15 anos e há apenas 1 criança que brinca sozinha e vai à escola ao Sabugal que fica a 15 km de casa, e é triste por não ter com quem brincar, como tristes se sentem os velhos que são mais do que 400, alguns com 90 anos de idade e sem apoios, sendo que nem sequer há emprego para ninguém e a tendência é apenas morrer o local ao morrerem os habitantes que sobram – um entrevistado disse que até é um problema também de ordenamento do território pois que nem sequer há uma linha de água limpa.

Esta zona que foi de grande emigração nos anos 50 e 60 é agora desertificada em termos populacionais devido não só ao envelhecimento da população, mas por falta de outras formas de revivificar os lugares e dar valor e mercado ao que produzem, não havendo assim planeamento do desenvolvimento global do País mas apenas a proposta de obras faraónicas todas em Lisboa, o que também desequilibra e destrói a Cidade que vai criando guetos de pobres e de miséria e de crime urbano por habitantes cada vez mais jovens, como se a cidade já se tornasse ingovernável, como o País no seu todo.





Fig. 03: a destruição da paisagem natural e rural na vizinhança da cidade; entre Lisboa e Loures.

Assim morrem os lugares
Assim morrem os lugares que sem habitantes se tornam lugares fantasma e abrigo não se sabe de quê não admirando, assim, que tenha em 2007 havido muitas notícias de assalto aos velhos que vivem “isolados como se vivessem no fim do mundo.”

Mas quando algo de estrutural não vai bem com facilidade se propaga a outros sectores da vivência humana e tudo tende a piorar, quanto a cultura de massas fornecida pela TV quase se resume, desde há alguns anos, ao futebol para o homem à hora nobre do noticiário (notícias para quê e quais ??) e telenovelas brasileiras tão deprimentes como as portuguesas, para a mulher, restando concursos de música “pimba” para todas as idades e género, porque o plano de desenvolvimento cultural é tão frágil e medíocre como todos os que vêm sendo implantados, que desqualificam paisagens, riquezas naturais e habitantes num frenesim de aparência de que “tudo está bem” quando, afinal, nunca esteve tão desgraçadamente mal.

Portugal investe e pede aos contribuintes que paguem os investimentos megalómanos de obras megalómanas, através dos impostos que pagam cada vez mais altos, para depois vender a preço de saldo aos espanhóis, não apenas a terra e culturas, e vida de vidas, e como Lisboa já é o País inteiro, bem cedo haverá uma terceira Ponte para que a cidade se encha ainda mais de automóveis para além de um TGV, porque o mega-investimento dos últimos anos 80 na modernização das linhas e catenárias, será mais uma vez inutilizado por um TGV que nada adianta relativamente ao Alfa Pendular, e que muitos economistas portugueses e empresários dizem não servir para nada nem dar desenvolvimento continuado, talvez porque mais de 75% da população vive no litoral sobrelotado já de pessoas e de infra-estruturas em vez desse investimento ser feito no interior e para situações que reabilitem o que eram os locais.

Inglaterra e Irlanda têm apenas uma auto-estrada e quanto a TGV só um pais de grande dimensão como França ou Espanha podem justificar tal investimento, já que o País de pequena dimensão nem espaço físico tem para que o TGV atinja a velocidade para que foi concebido, nem que seja directo Lisboa-Porto e, se for assim, para que serve se ainda há habitantes noutros locais litorais ?

As terras sem crianças envelhecem e ficam desertas tanto de culturas agrícolas como de habitantes e de actividades comerciais e culturais dos homens, e que impressionante é ouvir crianças e adolescentes que ainda ficaram, dizerem que “vivo um dia de cada vez” como se se tivesse cortado o sonho, e até as crianças já fossem “velhas.”

Um País que não tem independência no sector de produção dos alimentos, não tem independência nacional, tem de importar não se sabe hoje que qualidade de produção, sem que possamos esquecer o “espectro da fome” que ameaçou o País no verão de 2008 por causa da crise petrolífera e dos transportes que bloquearam a Europa, problema principal ligado com o trigo e o pão e, hoje, o pãozinho mais pequeno custa 25 cêntimos, ou seja 50 escudos, quando custava até fim dos passados anos 70 apenas 3 tostões; o que as gerações urbanas de hoje nem sequer sabem e não sei se sabem também, se os 25% dos que vivem abaixo do nível de pobreza, terão ao menos como comprar apenas o pão.

E o velho ditado diz que “casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.”

É um País mentiroso e fantasista e nem sequer com cultura cívica e humanista, o que revela igualmente, pobreza de mente e de espírito.

E de repente lembro como um amigo desde a infância, ex-Secretário de Estado dizia, mas que já cá não está para dizer nada nem comparar coisa nenhuma, dizia-me, já em meados da passada década de 90, que este País é MENTIRA. Pois é, é mentira.

Será muito difícil de compreender que o País não possa recorrer às suas riquezas naturais para se desenvolver (como a França se desenvolveu a partir da agricultura e se integrou na mesma CEE), mas que, paralelamente, lhe seja imposto o mercado da concorrência feroz, como feroz é o investimento “estrangeiro” que eventualmente cria empregos de miséria, mas que leva todo o lucro para os Países investidores, em todos os sectores de investimento, situação tão patente e iniciada com o investimento no turismo algarvio nos passados anos 60, a par da construção de equipamento que também só dá “emprego menor”, como se o País não fosse mais do que o “quintal” da Europa”, que explora o que quer e a seu bel prazer, em nome da equidade do mercado comum, cujas regras e leis não são apenas injustas mas são mesmo amorais, e que, por isso, nem sempre cumpridas como é o caso da Dinamarca que adapta as Directivas europeias como é mais conveniente para o seu enriquecimento; e que se pense mais como cada País “governa” os seus interesses e respectivas populações pois que, empobrecendo os habitantes, empobrecem os lugares e o seu património paisagístico, e isto em qualquer tipo de aglomerado urbano.

Não se empobrece por decisão de ser pobre.




Fig. 04: Espiral imparável de destruição de um valioso património preexistente.


Espiral imparável de destruição do preexistente
Assim, o mesmo se passa com de edificado urbano, monumental civil e religioso e, ainda, de património imaterial, como entrou em ruína, em 2007, o sector de transformação e, mais recentemente em 2007-2008, o sector do comércio de que ainda não se viu nem o fim nem os resultados.

A continuar nesta espiral imparável de destruição do preexistente sem o recuperar e pelo contrário substituir por mais oneroso e sobretudo inútil, o País será, como já foi dito pela OCDE o mais pobre da UE, quando há pouco tempo era “o aluno exemplar” mas que parece ter “chumbado” tão depressa.

Os maiores empresários que constantemente são interpelados pelos mass-media afirmam que os projectos deveriam ser os mais pequenos e de reconstrução e reabilitação de tudo o que está degradado, até por ser um País de pequena dimensão que já não precisa de mais aeroportos (há três aeroportos internacionais e Inglaterra por exemplo só tem dois).

Tudo morre, sobretudo e com mais velocidade desde a última década de 80, não por falta nem de matérias primas nem de paisagem, nem da mais excelente mão-de-obra e até criatividade do homem anónimo, nem da falta sequer de património cultural e religioso milenar, mas porque a ruína é apenas humana, como se fosse o último elo da degradação a atingir, para tudo recomeçar do zero.

E tudo isto se alia à ruína financeira e económica, como não podia deixar de ser derivada da interdependência do exterior global – espécie de morte anunciada, e tal que levou o presidente da república a tecer, como nunca, considerações sobre o “estado de ilusão” e debilidade do País que se não “arregaçar as mangas”, ficará com o “restante património” para vender a preço de saldo aos estrangeiros, incluindo a Banca, o que aliás é feito silenciosa e ocultamente, há algumas décadas e foi, a seu tempo, muito bem explicado por Mário Soares, de que ninguém se lembrará, já que os portugueses nem sequer têm memória nem se interessam, lamentavelmente, para além do seu quotidiano e do seu “ter.”

Também no fim do ano Mário Soares alertou para o grande descontentamento do “povo” e que poderá por aí haver “revoluções”, o que já tinha poucos dias antes sido dito por Manuel Alegre.

Talvez que as gerações que hoje têm 18 anos sejam os que terão a capacidade, e vontade, de fazer “limpeza” às gerações que estão ainda nos lugares de decisão, não à semelhança dos míticos anos 60, mas como tiver que ser e, quem sabe, pela mão também dos emigrantes letrados que de todo o mundo adoptaram o País para viver sobretudo a partir do ano 2000, dando sangue novo e miscigenação cultural e ética, que no País não tem tido lugar há muito.

Apesar do título do artigo, que parecerá muito concreto, não deixa de vir a propósito o que foi dito pela deputada Ana Gomes no dia 4 de Janeiro 2009, no noticiário da TV1, que a propósito da guerra de Israelo-Palestiniana teceu considerações muito interessantes, e bem longe das feitas pelas dezenas dos actuais comentadores políticos que terão medo de ser “despedidos” e substituídos do seu lugar de “montra”, tendo ainda afirmado a propósito da tão massacrada “crise” económica e financeira, que Portugal desperdiçou tantos milhões que vieram da CEE, gastos em adquirir “todo-o-terreno” e pouco mais (também dei por isso).

Voltando a recuperar o fio da meada, porque quero falar de cidades e de árvores e da população mais velha, e deixando estes cenários de “morte anunciada”, durante este mesmo tempo histórico, os USA de hoje tornavam-se independentes dos colonizadores e iam andar a par com esta revolução da nova forma de desenhar cidades, aproveitando igualmente o surto de industrialização, tendo-se ainda tornado o País de emigrantes de todas as nacionalidades, e o Eldorado, que sempre foi e que, curiosamente, é também hoje e mais ainda desde 2008, não apenas em esperança para quem o demanda, mas para o mundo inteiro, como se nos tempos actuais tanto a ruína como a esperança depressa passassem do individual para o global e o mundo fosse pequenino e uma CASA comum, toda ela decadente e arruinada esperando-se um salvador que virá repor a ordem perdida.

Esta cidade merece rejuvenescimento
Entretanto Lisboa, cidade que foi a primeira cidade moderna do séc.XVIII, está no entanto a perder qualidades no espaço europeu, sem poder mais rivalizar entre as restantes capitais que com ou sem guerra se regeneram a alta velocidade e disso se orgulham e se empenham para correr a querer pertencer à comunidade europeia, pelo que esta cidade merece o rejuvenescimento respectivo, sem no entanto se achar que vem a propósito, mais uma vez, a construção do insólito elevador a partir da Baixa na Praça dos Restauradores para o Castelo, cortando visualmente toda a beleza das colinas onde a cidade se foi instalando e engrandecendo, pois que já bastam os velhos e belos elevadores que sempre teve, sendo que a cidade-capital não precisa de mais bizarrias e adulterações da sua secular imagem romântica e versátil que exibe séculos de urbanismo e arquitectura e artes, indicando tais ideias o total vazio de ideias e a incapacidade de, apesar da insistência de falta de capacidade de investimento, se pretender investir no indizível e adulterar, mais uma vez, o que deu renome à cidade em todo o mundo durante pelo menos dois séculos.

E há tantas prioridades de reabilitação da velha cidade e da sua arquitectura e da alegria de nela habitar, não esquecendo os únicos chafarizes, que o mundo não tem, belas peças de arquitectura, que são há algumas dezenas de anos apenas vazadouros de lixos e que, se fossem restaurados, não só contariam a história da distribuição da água à cidade para pessoas e animais, mas encheriam a cidade de pontos de água e de beleza e arte, água em circuito fechado por razões de economia e de limpeza e purificação automática, iluminados ou não à noite (como os famosos chafarizes de Roma de que é ex-libris a Fontana di Trevi).




Fig. 05: os habitantes têm direito ao Belo dentro da Cidade

Os habitantes têm direito ao Belo dentro da Cidade
Tanto a Fonte da Alameda Afonso Henriques como a Praça de Belém já não têm os jogos de água e de luz de várias cores que há meia dúzia de anos tinham, para além de poderem contribuir para a regulação climática nos verões quentes e secos, sendo ainda que os habitantes têm direito ao Belo dentro da Cidade que tem pouco e mau equipamento e mobiliário urbano (ou totalmente desaproveitado e desprezado), e ainda votado ao alheamento camarário parecendo que há, apenas, os chafarizes do Rossio e que tanto basta.

E se foi colocado em local insólito como a Praça de Espanha, o Arco monumental retirado da rua de São Bento que esteve dezenas de anos com as pedras a monte em vários locais da cidade, porque não aproveitar, e igualmente deslocar para o centro urbano, alguns chafarizes da Estrada de Benfica como é o caso do que foi transferido de lugar para lugar e finalmente para o “point rond” da Estefânia ??? e, ainda, restaurar e fazer funcionar o Chafariz d’El-Rei da Avª de Santa Apolónia ??

Porquê desperdiçar uma tal abundância de chafarizes de que nem se dá pela sua existência, construídos há tantas dezenas de anos, e propô-los novamente à cidade, que parece há mais de uma dezena de anos um estaleiro infindável e instalado em definitivo, com essas centenas de edifícios cobertos totalmente por tapumes sem graça e até destruídos pelo vento e chuva, ou só com publicidade a “sabonetes e/ou cerveja”, em tantas ruas nas zonas históricas, tapando até monumentos.

Construir por construir para mostrar dinamismo e obra, em tempos de penúria económica e financeira, para não falar na penúria cultural, só comparável com a febre de construção de rotundas sobre rotundas que não servem para nada em termos de mobilidade e contenção de trânsito e que, além de destruírem e ocuparem muito espaço físico, algum de grande interesse de equilíbrio ecológico, parte dele até urbanizado e derrubando boa e velha arquitectura e desalojando quem ali nasceu, inutiliza ainda áreas de alta produção como hortas seculares, empobrecendo o ambiente e a sua versatilidade de mosaico paisagístico.

Porém a demontrar a sua importância poderá observar-se nos “espaços perdidos” e entre o sistema viário, que há quem insista em reaproveitar e refazer hortas, até em taludes de ribeiras parecendo um jardim, pois que é próprio dos homens ter a sua horta, não sendo, embora, “le Potager du Roi”, mas é, é o “potager de cada roi” que lhe serve de suplemento alimentar e económico, para além de ser espaço de recreio e entretenimento, e aprendizagem das coisas vivas, para todos os membros de cada família.

A horta não é sinal de pobreza mas de riqueza e para tanto que se visitem as hortas da periferia de Hamburgo, de cidadãos urbanos que preferem passar os seus fins de semana a tratar de horta e jardim, fazendo concursos cujos prémios são “os produtos cultivados e as sementes.”

Quanto a tapumes de edifícios em restauro, Paris é exemplar, não por não serem usados para publicidade mas, ao menos são-no com grande arte, sendo que em Lisboa apenas reconheço um na Rua do Alecrim a desembocar no Cais do Sodré, com uma gigante e colorida escultura de uma lagarta de panos coloridos, bem interessante, a atrair a atenção de quem passa, em vez de ser alucinante, como foram os tapumes do Cais das Colunas que por ali ficaram esquecidos 10 anos, inaugurados em Dezembro 2008, embora apenas retirados parcialmente pois que se prolongam até ao Cais do Sodré, cuja Estação da CP esteve tapada outros tantos anos, agora parcialmente destapada, mas de novo entaipada com novo edifício, que embora desenhado por arquitecto notável, a sua situação em cima do rio, cortou totalmente a visão contínua do Rio sendo que não há nem nunca houve Lisboa sem o Tejo “inteiro”, olhe-se lá de onde se olhar.

A excepção dá-se nesta última década em que as margens do rio são o último reduto para as piores intervenções de urbanismo com as mais desastrosas intervenções em nome da modernidade e que nem sequer é imitação da área da EXPO-98 que não se tornou exemplar logo que a expo terminou ficando uma cidade densa e artificial que podia ter sido um bairro de excepcional qualidade da era moderna de arquitectura e novos usos e exigências do espaço oriental da cidade, a fazer diálogo de modernidade com o bairro de Telheiras, mas de onde alguns moradores fogem pois excesso de artificialidade de betão e betuminoso sem ter de longe a alma que têm os bairros mais antigos.





Fig. 06: no Cais do Sodré “ … cortou totalmente a visão contínua do Rio …”

Espaços de “cidade nova”

Estes espaços de “cidade nova” que se iniciou no País nos anos 60 com Olivais Norte e Sul, não conseguiram completamente apanhar o “espírito de cidade e de vivência de vizinhança”, e de contacto directo com o Rio, mesmo ali à beira, que sendo o maior pólo de atracção não é para todos os habitantes pois que se vão entaipando de km em km, em vez de construir sim, mas deixar todo o rio, e sempre, como a área de recreio e beleza por excelência para toda a cidade

Tapar e construir sobre a beira-rio não, não é modernidade, é apenas destruição da fruição total do rio, do longe e do perto, por todos os que vivem ou demandam a cidade que, agora, terão de perguntar onde fica o rio e por onde se pode ir até o encontrar, aliás como acontece com a “entaipada” Torre de Belém, um ex-libris da cidade, sacrificado por construção urbana desqualificada nos locais mais insólitos, mas sobretudo pelas passagens aéreas para automóvel que passou a ter prioridade na cidade conduzindo a construções que a desvirtuam e lhe escondem os tesouros.

Parece assim que não há urbanistas ou, a haver, só desqualificam a cidade secular parecendo que mais lhes interessa o projecto do que a cidade.

O que é mais importante para Lisboa é simplesmente “lavar-lhe a cara”, restaurar os edifícios decadentes e as varandas de ferro forjado enferrujado, a par dos belos e centenários cinemas e teatros, alguns que nem sequer resistiram ao tempo e eram peças de história da arquitectura, restaurar as faixas centrais da Avª. da Liberdade e seus jardins e lagos, bancos de madeira sem ripado nem tinta, e estatuária, e retirar o betuminoso de uma vez por todas (apenas retirado parcialmente nos Restauradores, e que belo ficou). Com tão pouco acrescentar-se-ia tanto e que tão pouco custaria à edilidade.

E basta assim ver o bom resultado do que se diz quanto ao pavimento que foi aplicado a uma parte da Av. da Liberdade, frente ao cinema Condes, e que, apesar de tudo o que falta, só com isso ganhou mais Luz e dignidade, mesmo não tendo sido restaurados os espaços de peão que são espaços de acumulação de lixos e de restaurantes de pré-fabricados indignos em cor e desenho, passando pela estatuária – dignidade recuperada apenas nos edifícios adaptados a lojas de grandes marcas e, quem sabe, se por serem de marcas estrangeiras, os novos ocupantes perceberam o valor do que viram sem tentações de adulterar e “modernizar” saloiamente.

Uma das mais belas capitais do mundo ocidental

Não invalida, no entanto, que Lisboa após total destruição pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755, seja a primeira cidade moderna do séc. XVIII e tenha sido e ficado como exemplaridade urbana e humana, sujeita embora, e agora, a maus tratos por abandono e envelhecimento difícil de aceitar, quando podia, em pleno, ser uma das mais belas capitais do mundo ocidental, com a sua luz única em qualquer estação do ano mesmo em dias de chuva e de céu de nuvens negras, a habitação secular de características meridionais, de relevos que faz dela a “Roma do Ocidente”, dos inúmeros miradouros tapados por urbanizações nas encostas que lá do alto tapam a vista para o rio, ou que o entaipam nas suas margens.

Lisboa está em plena, acelerada e desesperada degradação – não envelhece – morre.

O que se tem feito em Lisboa sobretudo a partir do fim da passada década de 90, é estar a caminho de a transformar quase em cidade “vulgar”, já que a cidade vive mais pelos conjuntos urbanos do que pelos seus monumentos, que até são entaipados, apesar de ter ainda belos jardins e a Baixa Pombalina, esse núcleo gerador na parte mais plana e de geometria inteligente de ruas perpendiculares ao correr do Rio e dele recebendo a vista, e as brisas, zona que se vira toda para o Rio, que possui cinco grandes e belas praças que podiam ser o maior espaço privilegiado de peão, em continuum de beleza, de cultura e de recreio, para bem do cidadão habitante ou turista, local a votar ao comércio de luxo, como a sua toponímia ainda indica, a rua do ouro e rua da prata, luxo que é apanágio de qualquer outra cidade que se preza e é orgulho de quem nela vive e razão também de ser de visita turística contínua, porque até o clima o permite durante todo o ano pois que é comum ver, em pleno Inverno, quando os portugueses se enchem de vestuário de lã e de grossos casacos, ver turistas de bermudas e manga curta porque são oriundos de Países frios e de neblinas constantes da Europa setentrional, como se a cidade não pudesse perceber e aceitar que a melhor publicidade é a gratuita que advém daqueles que a visitam e passam a palavra aos amigos e vizinhos e escrevem sobre o que viram.

Lisboa de ar pobretão e vulgar, que o excesso de túneis invade no centro e a despedaça em territórios hostis em cada rua, onde o betuminoso predomina e o automóvel reina e engarrafa – que lindas cinco praças ao lado umas das outras que poderiam ser inundadas de gente e de Festa para ser vivida como uma cidade-capital invulgar, mas sem a tentação de invadir as zonas mais nobres, com mais estacionamentos subterrâneos que lhe desfazem as entranhas e nada resolvem nem em estacionamento nem em circulação.

Pelo contrário estes estacionamentos nunca deveriam ter sido construídos, porque torturam a cidade de trânsito como sucede ao fim de semana no Largo de Camões, onde nada anda nem o eléctrico, pelo que é preciso, e fundamental, recuperar para essas áreas o transporte público, já existente, ou outro de tipo a criar como existe na Baixa de Coimbra, e banir o automóvel desses lugares nobres o que, por sua vez, traria o peão para a rua, como sempre foi desde os passados anos 50 em que “todo o mundo” ia à Baixa tantas vezes só para “ver e ser visto”, sendo que, como está actualmente, as zonas mais nobres se esvaziam à hora de fecho do comércio, tornando-se área de actos de violência ou de situações indesejáveis socialmente, e de que o cidadão comum foge já há muitos anos – cidade vazia – cidade desprotegida.

Lisboa precisa sobretudo de ser governada e gerida por homens com cultura

Antes do aparecimento da “nova cidade” vivia em pardieiros, sem água nem electricidade nem saneamento básico, a mão de obra escrava para a indústria, fazendo nascer uma nova classe sociocultural – o proletariado - que não mais regressaria ao Campo porque, ao menos, tinham trabalho e estavam perto dos “centros urbanos”, tendo este afluxo populacional representado um dos maiores êxodos humanos da história dos homens diferenciando e edificando, até aos nossos dias, a dualidade cidade-campo e a sua interdependência e fazendo crescer a humanidade cultural e cientificamente.

E nascendo a necessidade de alojamento desta nova população que, longe da natureza e vivendo em locais poluídos e inóspitos na periferia das cidades existentes, deu-se origem a tal caos, que era preciso reinventar as cidades, era preciso reordenar os espaços e até novas formas de viver, e assim foi, mas como a roda da fortuna está em cima mas volta a estar em baixo, assiste-se agora à posição da roda muito em baixo.

Foram alguns os arquitectos que deram origem a novos conceitos de cidade, a cidade satélite, a cidade nova e a cidade nova industrial e, ainda, a Cidade-Jardim (Ebenezer com Letchworth e Wellwin), que introduzisse a “natureza viva dentro da cidade” de que os novos habitantes tinham saudades e haviam perdido o contacto, pois que os espaços urbanos se expandiam e a “natureza” ia ficando cada vez mais longe, e se por um lado eram absorvidos os palácios e jardins senhoriais das periferias, doados à população, outros ainda ficavam nas periferias de que Lisboa é também exemplo com a Qt. do Marquês de Alorna ou a Qt. das Conchas e a Qt. do Lumiar que abriga o Museu do Traje, entre outras que ainda não foram retalhadas para mais bairros de alienação urbana e humana como a Qt. da Fonte e do Mocho, onde os guetos de abandono e pobreza geraram os mais graves problemas de cidadania.

Estas quintas e palácios da Europa que não foram absorvidas pela expansão urbana e doadas à população, ficaram na periferia, mas igualmente abertos aos novos habitantes como o Bosque de Bolonha e o Bosque de Vincennes e mesmo o de Saint-Germain-en-Laie, que passaram a constituir a “ceinture-verte-de-Paris” como foram construídos novos jardins que eram desenhados para equilíbrio e humanização dos novos conjuntos edificados de que é exemplo tanto o Hyde Park de Londres como o Central Park de Nova York, ou o Parque Eduardo VII em Lisboa sendo que, no entanto, relativamente ao trabalho do professor Ribeiro Telles do “corredor Verde de Lisboa, proposta que tem mais de 20 anos, e que ligaria o Parque Eduardo VII a Monsanto, em contínuo natural-contínuo cultural, as áreas já não estão lá, sobretudo Monsanto onde se decidiu, o mais erroneamente possível, um pólo universitário onde já existem três faculdades.

Entretanto, como qualquer grande decisão, “consta” que, a partir desse pólo universitário, será aberta uma auto-estrada urbana arrasando a Tapada da Ajuda (espaço fechado e murado e que ainda antes do 25 de Abril foi classificado como Jardim Botânico onde se encontra o Instituto de Agronomia, hoje já um grande pólo de urbanização que nem sequer é considerado clandestino), sendo que a auto-estrada urbana passará pela rua Luís de Camões e desembocará (e/ou também arrasará) o complexo de palacetes da Carris de Lisboa da rua 1º de Maio para dar mais espaço para a célebre área das Torres de Alcântara.

Esta pura demência acabará com um dos últimos bairros antigos onde reina a paz e é um ecossistema urbano e humano, onde nada falta de equipamento geral, de saúde, de equipamento monumental, religioso e cultural para todas as classes etárias e socio-económicas e culturais é, por isso, bairro de PAZ, onde habitam grupos representativos de todos os povos do mundo que para o bairro emigraram, nele vivem e trabalham e têm acesso a todos os níveis de educação bem como a todo o tipo de serviço tradicional, e de lazer, que quase nenhum bairro de Lisboa ainda terá, para além de ter todos os transportes que o ligam seja para este ou oeste e para norte como se fora um pólo distribuidor de circulações e ligações a toda a cidade e para fora dela.

Fazer neste bairro o que quer que seja como estão a fazer com densificação urbana em superfície e altura é desfazer o bairro e torná-lo sem carácter e sem as funções que sempre exerceu, tentação que se repete exactamente onde tudo ou quase tudo já estava certo.




Fig. 07: a constante e crítica densificação e impermeabilização na cidade consolidada – um caso no Bairro do Alto de Santo Amaro em Lisboa.

“O meu bairro é uma cidade dentro da cidade”
Por isso mesmo há anos escrevi algo - “o meu bairro é uma cidade dentro da cidade” - de onde não preciso de sair porque tudo há “ao pé da porta” ou à distância do andar a pé, tudo o que é necessário à vida do quotidiano, saindo do bairro apenas os que aqui moram mas não trabalham noutros locais, e entrando os que aqui não moram, mas trabalham, num interessante vaivém em que quase todos se conhecem porque todos os dias se cruzam nas ruas ou nos serviços existentes, como uma grande família e com quem se estabelece laços de amizade e de bem de estar de vizinhança, por sua vez bairro onde há todas as classes etárias desde os acabados de nascer aos meus velhos e mesmo alquebrados pelo tempo.

Numa pequena ou grande cidade penso ser este o exemplo de “bairro ideal para a cidade ideal” – fraterna, generosa e pacífica, com a paz social que não existe nos outros bairros, sendo que apesar de possuir grande esquadra de PSP nem sequer é policiado mesmo para a população de “drogados” que para aqui migrou há poucos anos, e a quem eu dou sempre bom dia como ao mais exemplar dos habitantes, e que tendo sido “segregados”, já o não são, e entram praticamente em todos os locais públicos.

Neste Bairro de que falo existem muitos animais domésticos que os seus donos passeiam todos os dias (até gatinhos passeiam às costas do dono ou com trela como de cão se tratasse) sendo interessante que todos nos cumprimentamos, pessoas e animais. Ecossistema humano e de afectos que é difícil mas possível de construir – bastou-me descobrir que era possível se quisesse tentar, pois que se por um lado quem vive na cidade é porque quererá “passar anónimo”, aqui a cidade UNE e torna-se pequena e bem sucedida, mesmo que se saiba que tentar construir o ideal não é tê-lo de mão beijada.

Nasceram novas cidades mas, como todas as coisas que o homem humaniza, também desumaniza, crescem e desenvolvem-se, mas também envelhecem e morrem, podendo no entanto voltar a renascer – como primaveras do céu e da terra. E, em geral, tudo o que nasce é belo e nada dá mais alegria do que o nascer de uma criança.

E sempre ouvi dizer a minha mãe que tudo o que nasce tão pequenino é de grande simplicidade e beleza, é a vida a sorrir na sua maior grandeza e simplicidade como se aí residisse a verdade mais gloriosa da vida.

É como quando nasce uma flor, não importa em que estação do ano, pois que neste clima abençoado há sempre plantas a nascer, permitindo que haja sempre flores todo o ano, e que belo é ver um canteiro florido, uma árvore que rebenta em flor antes mesmo de dar folhinhas como as olaias em Março cor-de-rosa invulgar e os jacarandás em Junho de belo azul anil, da mesma forma que um campo de pousio (não é o set aside da PAC), depois de levantada a última cultura que deixa ficar o restolho doirado ou solo nu cor da terra e que, de repente, em primavera precoce, se enche de flores de plantas anuais de todas as cores, banco de genes de espécies bravias que sempre existiram e é fundamental permitir que existam para que a vida permaneça e o solo se renove, neste vaivém de nascer e morrer e perpetuar a vida e a beleza.

E que belo é também ver as borboletas que logo aparecem visitando as flores das plantinhas mais humildes como as pascoínhas roxas (que aparecem na Páscoa) ou as maias cor-de-rosa esguias e direitas ao céu (do mês de Maio), para além dos cardos e alcachofras roxas para queimar na fogueira de Santo António e o rosmaninho perfumado para queimar e saltar à fogueira e, ainda, a alfazema para perfumar as gavetas da roupa, para além de todos os malmequeres brancos e amarelos, como se o homem, por mais urbano que se tenha tornado, não pudesse viver sem natureza à sua porta.

Com muita pena minha se estas plantinhas invadem os taludes das estradas e entram na “cidade”, logo o zeloso cantoneiro se apressa a cortá-las cerce, pois que não as considera “criaturas urbanas”, porque não sabe o seu valor, não as sabe disciplinar e misturar com “espécies urbanizadas” e que têm de resistir ao ambiente hostil do betão e do betuminoso e de predominância de áreas impermeáveis e, ainda, da presença dos transportes que empestam o ar e o envenenam e é preciso compensar com a presença das plantas e das flores, e de terra e de relvados a servir de filtros a todas as poeiras e permitir que a chuva que cai nas cidades seja benfazeja a limpar o ar e a baptizar a terra ressequida e a não provocar enxurradas se não estiver toda impermeabilizada, e se também, quando o clima é quente e seco, transpirada pelas plantas e evaporada pela terra (evapo-transpiração), amenizando o clima hostil das cidades de agora, e acrescentando maior qualidade do ambiente geral em que os habitantes acabados de nascer ou os que já estão no fim da linha do seu existir, adoecem mais e contagiam-se uns aos outros porque a cidade, local de concentrações pode ser, também local de adoecer e provocar epidemias.


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a início de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho


Nota importante: esta série de artigos está dividida em três edições semanais, de que a última será editada a 1 de Fevereiro de 2009; interromperemos, portanto, a edição desta série de artigos para editar um texto de outro autor.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 18 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 19 de Janeiro de 2009.