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segunda-feira, janeiro 26, 2009

231 - Do Aqueduto de Lisboa aos novos Vazios - Infohabitar 231

Infohabitar, Ano V, n.º 231

Do Aqueduto de Lisboa aos novos Vazios
Teresa Marat-Mendes

Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE)
Secção Autónoma de Arquitectura e Urbanismo
Av.ª das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal
teresa.marat-mendes@iscte.pt


Resumo

A paisagem de Lisboa, durante o século XVIII assistiu a uma profunda transformação do seu espaço público como consequência da construção do aqueduto das Águas Livres de Lisboa. Aqueduto este que respondia às necessidades prementes de abastecimento da cidade e que projectava uma infra-estrutura fundamental para o desenvolvimento da Lisboa Ocidental por decreto de D. João V em 1731.

As transformações geradas pelo aqueduto na cidade de Lisboa e no seu Termo são inúmeras. Com especial relevância para a presente comunicação referimo-nos aos espaços públicos gerados por esta grande infra-estrutura, e que se podem diferenciar em duas categorias. Uma primeira que se constitui pelos espaços públicos que chegaram até hoje integrados na estrutura urbana da cidade de Lisboa, e uma segunda que se constitui pelos espaços públicos que em grande parte se encontram esquecidos e desarticulados da estrutura urbana do Termo de Lisboa. Os espaços públicos que se encontram inseridos nesta segunda categoria, constituem hoje um grande número de Vazios, que outrora constituíram parte intrínseca do território e de uma ordem espacial urbana bem concreta. Ordem esta que se regia através de unidades morfológicas concretas.

É precisamente a identificação desses Vazios e da sua oportunidade enquanto espaços de intervenção na paisagem urbana de Lisboa e do seu Termo de hoje, bem como na delimitação das unidades morfológicas atrás mencionadas, que a presente comunicação pretende oferecer através de uma nova aproximação metodológica ao estudo do património e da paisagem, como expressão de um modelo sustentável de ordenamento do território. Onde, a gestão e a obtenção de recursos, nomeadamente a água constitui elemento essencial na estruturação desse mesmo ordenamento do território e das suas respectivas unidades morfológicas.

1. Introdução

Enrique Tello, na sua análise sobre a formação histórica das paisagens agrárias mediterrâneas, defende que a paisagem pode ser lida, de um ponto de vista histórico, como a expressão territorial do metabolismo que qualquer sociedade mantém sobre os sistemas naturais que a sustentam (1). Tomando como ponto de partida esta noção de expressão territorial a presente comunicação baseia a sua leitura da paisagem do território no resultado dos modelos de gestão de recursos das sociedades que ocuparam esse mesmo território.

A análise da paisagem emerge assim como um elemento importantíssimo no entendimento das fontes de recursos e dos sistemas técnicos que geraram essa mesma paisagem. A presente comunicação através da análise da paisagem de Lisboa e do seu Termo, promove um novo olhar sobre a paisagem de Lisboa -a forma do território – desde a óptica da gestão dos recursos.

O exemplo em análise refere-se à paisagem de Lisboa, que em meados do sec. XVIII assistiu a uma profunda transformação, quer do seu espaço público, quer do seu Termo, como consequência da construção do aqueduto das Águas Livres de Lisboa. Transformação esta que ocorreu como resultado de uma estruturação do território mediante o reconhecimento das condições de matriz biofísica preexistente e da aplicação de sistemas de captação e de transporte tradicionais, a uma escala que supera a dimensão da percepção das várias unidades morfológicas analisadas, quer sejam elas os chafarizes públicos, as praças ou as quintas reais.

De forma a responder aos objectivos propostos a presente comunicação encontra-se estruturada em três partes. Uma primeira parte – O Aqueduto das Águas Livres de Lisboa - que se refere à escala territorial como sendo a primeira escala necessária para um correcto entendimento da paisagem enquanto expressão de um modelo de gestão e de obtenção de recursos. A segunda parte – As quintas e o Termo de Lisboa - identifica um modelo de gestão do território, cuja unidade morfológica é a quinta. Unidade morfológica esta que representa uma unidade tipológica de estruturação do território, e que foi responsável pela modulação e estrutura de parcelamento e loteamento à qual responderam, respectivamente, o Termo e a cidade de Lisboa. E finalmente, a terceira e última parte desta comunicação – Os Vazios - refere-se aos vazios deixados por toda esta estrutura do território do sec. XVIII, e muitos dos quais ainda se encontram perceptíveis e objecto de intervenção enquanto Vazios Úteis.


2. O Aqueduto das Águas Livres de Lisboa.
“E Lisboa, onde todos bebem água, não tem mais que um estreito chafariz para tanta gente e outro para os cavalos” (2).

Quando em 1571 Francisco de Holanda questionava na obra Da Fabrica que falece ha cidade de Lysboa porque é que Lisboa não possuía então mais do que “unicamente, dois chafarizes, um para a população e outro para as cavalgaduras”, denunciava não só a “carência e a deficentíssima condição higiénica do abastecimento de água a Lisboa”(2), como também chamava a tenção para a existência prévia de um aqueduto Romano que havia satisfeito as necessidades da população de Lisboa, denominado de “Ágoa Livre”, e que provinha dos sítios de Belas, Carenque e redondezas.

Na realidade, a problemática do abastecimento de água à cidade de Lisboa não era uma questão nova. Vários haviam sido os estudos realizados que, do ponto de vista técnico, permitiam que se tivesse realizado um aqueduto para abastecer a cidade de Lisboa, e que propunham o aproveitamento das fontes de Águas Livres. Contudo, por questões de ordem financeira e também de ordem politica apenas a 12 de Maio de 1731, por alvará de D. João V se manda dar início à construção do Aqueduto das Águas Livres (3).

É precisamente esta infra-estrutura, e todo o conhecimento de engenharia e arquitectura que a suportou, que viria a marcar uma página importante não só na história urbana da cidade de Lisboa como também na do seu Termo.

Quando através do Alvará de 12 de Maio de 1731 se permitia que a “dita obra se faça pelas ditas terras, fazendas, moinhos, cazas, quintaes e herdades por onde houver de vir, ainda que sejão de pessoas privilegiadas, e de qualquer condição, qualidade, e privilégio incorporado em direito, posto que seja Desembargador, porquanto todos têm obrigação de dar passagem a dita agoa e não há privilégio algû, que disto o escuse” (4), permitia-se também, mesmo que indirectamente, a transformação de todo o território de Lisboa e do seu Termo. Território este que, até aqui, havia sido estruturado à escala que a técnica de obtenção dos recursos naturais havia permitido até então.

O Aqueduto das Águas Livres viria a dotar a Lisboa e ao seu Termo uma nova escala e técnica de obtenção de recursos, que permitiu transformar a sua fisionomia e portanto a sua paisagem. Uma nova página na história urbana de Lisboa e do seu Termo se abria agora, através da leitura de uma nova e futura expressão territorial.

Enquanto que em Lisboa, a transformação da paisagem deveu-se sobretudo à multiplicação de inúmeros chafarizes pela cidade, que todo o novo sistema de galerias subterrâneas e aéreas permitam, o que implicou também a proliferação de inúmeros espaços públicos através de novas praças especiais ou o reaproveitamento de praças pré-existentes pelo tecido urbano da cidade; no território do Termo de Lisboa a transformação da paisagem implicou sobretudo um crescimento urbano acentuado ao longo dos 58,135 km que totalizam o percurso do aqueduto e de todos os seus aquedutos subsidiários.

Percurso este que permitiu o aparecimento de novas quintas, a intensificação da exploração agrícola dessas mesmas quintas e de outras já pré-existentes e o alargamento de núcleos urbanos pré-existentes, a uma escala sem precedente.

Embora toda a estrutura do Aqueduto das Águas Livres, conforme registado na Planta Geral do Aqueduto das Águas Livres (Figura 1), se situasse geograficamente entre Lisboa e Caneças, a real escala da transformação territorial provocada por esta infra-estrutura foi bem mais vasta. Abrangeu toda a cidade de Lisboa e o seu Termo, tendo tido repercussões na paisagem de um território mais vasto. Este território, conforme se constata na Carta Corográfica dos Arredores de Lisboa (Figura 2), é delimitado a sul pelo Rio Tejo, a Norte pela cordilheira da Serra de Sintra estendendo-se até Caneças e Sabugo, a poente, pelo Oceano Atlântico e a nascente pelo Mar da Palha.

Sobre o território atrás delimitado é possível verificarmos ainda uma distribuição espacial de vários núcleos urbanos de uma forma muito homogénea, encontrando-se um distanciamento quase constante entre os mesmos. Sendo que, acima do limite Norte do território em análise, a distancia que separa os diferentes núcleos é já superior, embora a sua disposição espacial seja ela também uniforme.

Também uma análise sobre a cartografia da época, nomeadamente sobre a Carta dos Arredores de Lisboa de 1898, do Corpo do Estado Maior, à escala 1:20.000, permite-nos verificar que ao longo de todo o percurso do Aqueduto das Águas Livres não se registou uma intensificação de núcleos urbanos (6). O propósito da construção do aqueduto havia sido essencialmente o abastecimento de água à cidade de Lisboa e ao Palácio e Quinta Real de Queluz. Assim, se pode explicar porque é que a distribuição geográfica dos núcleos urbanos preexistentes como a sua dimensão se mantiveram inalteradas até ao final da primeira metade do sec. XX. Contudo, o abastecimento de água a Queluz, serviria de mote a outras Quintas e Palácios para encontrarem fontes de abastecimento próprias. Embora ainda esteja por esclarecer se estes abastecimentos através de aquedutos ou minas de água são anteriores ou posteriores ao próprio aqueduto, a verdade é que à época da construção do Aqueduto das Águas Livres, todo o território do Termo de Lisboa se intensificou em termos de exploração agrícola, através da intensificação de culturas e de quintas pré-existentes e ainda através da criação de novas quintas.

O conhecimento e as técnicas para a gestão e a obtenção do recurso água que tornou possível a construção do Aqueduto das Águas Livres tornou também possível a proliferação de novos aquedutos para abastecimento de outras Quintas, Palácios e núcleos urbanos, ao longo do Termo de Lisboa. São exemplos o Aqueduto de Carnaxide para abastecimento da povoação de Caxias, o Aqueduto de Queijas – Caxias para abastecimento da Quinta Real de Caxias, o complexo de aquedutos subterrâneos situados entre os Capuchos e Colares em Sintra, o complexo de aquedutos subterrâneos situados perto da Quinta da Penha Longa em Sintra, outros vários subterrâneos situados na Serra de Sintra, o aqueduto da Quinta do Marquês em Oeiras, os dois aquedutos situados perto de Paço de Arcos, o aqueduto situado em Valle de Mourão perto do Cacém, o aqueduto situado na Talla perto da Ribeira da Jarda, bem como outros pequenos aquedutos e minas de captação de água dispersas por este mesmo território.

Em 1880, quando todo o sistema do Aqueduto das Águas Livres se havia tornado insuficiente para servir o elevado número de população da cidade de Lisboa com o seu caudal de água, um novo sistema de abastecimento de água serviria agora a cidade de Lisboa, através do Aqueduto do Alviela, que encontrou na Estação dos Barbadinhos o seu ponto receptor.

No entanto, durante um século, desde 1731 até á primeira parte do sec. XIX, Lisboa e o seu Termo assistiram a uma nítida transformação da sua estrutura rural e urbana, i.e., da sua paisagem, fruto da construção do aqueduto das Águas Livres e de toda uma proliferação de novas infra-estruturas (pequenos aquedutos e minas). Tal facto, não se deveu apenas ao processo de paz que a terminada Guerra de Sucessão de Espanha permitiu, ou da disponibilidade económica que o ouro do Brasil facilitou, ou ainda pela afirmação artística que a arte e a arquitectura joanina testemunharam, mas sobretudo pela possibilidade que a nova técnica de exploração do recurso água permitiu ao possibilitar à cidade de Lisboa estabelecer com os seu Termo uma relação intrínseca, a uma escala sem precedente.

A escala necessária para o correcto entendimento da paisagem de Lisboa enquanto expressão de um modelo de gestão de obtenção de recursos estava agora definida.




Figura 1 - Planta Geral do Aqueduto das Águas Livres. Fonte: Museu da Água de Lisboa.



Figura 2 - Localização do Aqueduto das Águas Livres sobre Carta Corográfica dos Arredores de Lisboa, Guerin de Lamotte, 1821. Fonte: Instituto Geográfico Português.


Figura 3 - Aqueduto das Águas Livres, Vale de Alcântara, s.d., fotógrafo não identificado, Arquivo Fotográfico, Cota Actual ACU002501.
Figura 4 - Aqueduto da Quinta do Marquês de Pombal, Oeiras, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.



Figura 5 - Aqueduto do Arneiro, Oeiras, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat, Mendes.
Figura 6 - Aqueduto das Águas Livres, Reboleira, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.




Figura 7 - Aqueduto da Quinta da Boa Viagem, Caxias, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.
Figura 8 - Aqueduto da Quinta Real de Caxias, Caxias, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.


3. As Quintas do Termo de LisboaA par das transformações urbanas ocorridas na cidade de Lisboa, através da abertura de novas praças e na reestruturação de espaços públicos pré-existentes, a escala de transformação proporcionada pelo Aqueduto das Águas Livres no Termo de Lisboa foi também ela notável.

A transformação da paisagem rural e urbana no Termo de Lisboa revela um conhecimento notável de técnicas de gestão do recurso água, através da distribuição de diferentes propriedades agrícolas, que embora identificadas na cartografia militar com data posterior à da data de construção do Aqueduto das Águas Livres (6), demonstram que estas diferentes propriedades, de origem agrícola e também de recreio, não dependiam do abastecimento de água fornecido pelo Aqueduto das Águas Livres, uma vez dependiam de sistemas de aquedutos próprios, portanto autónomas na seu sustento face ao recurso água.

Alguns exemplos de aquedutos, independentes do Aqueduto das Águas Livres, que abasteciam diferentes propriedades agrícolas e de recreio foram já atrás mencionados. Evidenciando-se, a titulo exemplificativo, o Aqueduto da Quinta do Marques em Oeiras, o Aqueduto do Arneiro, o Aqueduto da Real Quinta de Caxias e o Aqueduto da Quinta da Boa Viagem em Caxias, respectivamente exibidos através das figuras 4, 5, 7 e 8.

Esta complexa rede de quintas dispersas por todo o Termo de Lisboa, subsidiava através dos seus próprios sistemas de captação de água próprios as suas próprias culturas; dispondo por quase todo o território do Termo de Lisboa, uma extensa rede de parcelamento, que ordenava o território com base no recurso água.

As técnicas de obtenção do recurso água empregues nas diferentes propriedades agrícolas eram todavia comuns às técnicas empregues na construção do Aqueduto das Águas Livres. A disposição topográfica das diferentes propriedades agrícolas revela portanto um conhecimento profundo das possibilidades de obtenção do recurso água. Conhecimento este que supostamente estaria bem sedimento e consolidado na prática de gestão territorial, à época, e que segundo Enrique Tello revela o metabolismo que a sociedade mantinha sobre os seus sistemas naturais.

Este conhecimento, conforme aqui revelado para a cidade de Lisboa e do seu Termo, não se esgotaria todavia no território aqui identificado e em análise.
Vários outros exemplos sobre aplicações deste tipo de conhecimento acerca de técnicas de gestão e obtenção do recurso água chegaram todavia até nós. Em Portugal temos, entre outros exemplos, o exemplo da Mitra em Évora, o Aqueduto da Água da Prata e o abastecimento de Água a Évora, o Palácio de Tomar e o seu Aqueduto. Mas também na Europa e fora dela, inúmeros exemplos atestam a implementação destas técnicas de gestão de recurso que por sua vez conformaram a fisionomia e a paisagem de muitas cidades. Uma análise mais atenta e exaustiva desses diferentes exemplos permitiria identificar e enumerar as diferentes técnicas empregues bem como ainda as verdadeiras escalas de leitura dos territórios em causa, e desta forma engrandecer a história urbana de todos esses exemplos.

No caso concreto de Lisboa e do seu Termo, que aqui se encontra em análise, há contudo uma particularidade que o destaca dos outros exemplos. Embora muitíssimo fragmentado por toda uma proliferação da urbanização que tomou conta de toda a periferia de Lisboa, o objecto de análise (o antigo Termo) ainda se encontra parcialmente “vivo” e disponível para leitura, no que diz respeito à leitura das unidades morfológicas que compõem a sua paisagem.

Estes territórios fragmentados distribuem-se por duas categorias de espaço, ou unidades morfológicas: os Núcleos Urbanos e as Quintas. E são estes territórios fragmentados que constituem um conjunto de Vazios, enquanto oportunidades não só de intervenção futura, mas também de leitura da própria história urbana de Lisboa e da sua paisagem.

A primeira categoria de unidade morfológica dessa paisagem diz respeito aos antigos núcleos urbanos. Estes núcleos urbanos, embora de origem muito mais remota que a data da construção do Aqueduto das Águas Livres, souberam mesmo após a sua construção co-existir com toda a dinâmica territorial, social e económica que esta infra-estrutura impôs, ao suportarem a sua estrutura morfológica, a sua identidade e unidade. Contudo, após o “boom” construtivo que teve inicio na periferia de Lisboa a partir dos anos 60 do sec. XX, com os clandestinos, até aos dias de hoje com as operações de loteamento e urbanização, a unidade morfológica que caracterizava estes núcleos acabou por se corromper e fragmentar, perante a agressividade das novas construções cuja escala e massificação em nada respeitou os núcleos preexistentes.

Desses núcleos restam hoje territórios fragmentados – Vazios que urgem um maior cuidado e atenção.

A segunda categoria de espaço ou de unidade morfológica corresponde às antigas quintas, que outrora formaram uma complexa rede de quintas dispersas por todo o Termo de Lisboa e que subsidiavam através de sistemas de captação de água próprios, as suas próprias culturas. Também essa complexa rede de quintas acabou por se extinguir com o passar dos anos fruto do seu abandono e do surgimento de outros modos de viver e de subsistência.
O abandono de uma sociedade agrícola em detrimento do surgimento de uma sociedade industrial acabou por determinar o abandono de uma ordem de gestão do território que havia marcado a paisagem de Lisboa.

Contudo, hoje ainda são visíveis no Território de Lisboa pequenos fragmentos dessa antiga rede, e que correspondem a quintas abandonas e outras todavia em parcial funcionamento. Estes fragmentos constituem eles próprios também Vazios Úteis. Um olhar atento na preservação do seu património edificado, agrícola e respectivos sistemas de captação de água, será todavia importante.

Esse olhar poderá proporcionar aquando de futuras intervenções ou de acções de reabilitação a possibilidade de devolver ao Território de Lisboa e à sua paisagem um equilíbrio ecológico.

Marat-Mendes e Cuchi (5) na sua análise sobre o sistema de abastecimento de água nas Quintas Reais de Lisboa descrevem as Quintas Reais como organismos autónomos do ponto de vista da exploração, obtenção e abastecimento de água às diferentes necessidades das diferentes quintas, quer sejam estas de recreio ou produtivas.

Tal como se pode constatar na legenda da Planta da Real Quinta de Caxias de 1844 (figura 9), esta enumera diferentes elementos alusivos à água, tais como a Grande Cascata, a Casa do Poço, o Telheiro da Nora, o Tanque do Hércules, o Tanque da Várzea, o Tanque da Cartuxa, o Tanque das Claudias, o Tanque da Vinha e o Aqueduto de Queijas. Através destes elementos facilmente se identifica onde é que água chega à Quinta, contudo já não é tão simples a identificação da distribuição da água dentro da Quinta, embora seja possível reconhecermos os diferentes depósitos de água que regulam o sistema.

Da planta das Minas e Encanamentos dágua do Almoxarifado de Caxias (figura 10) de 1901, é possível identificarmos contudo a verdadeira escala territorial sobre a qual dependia a Quinta Real de Caxias, através da identificação das diferentes pontos de captações de água que abasteciam a Quinta Real de Caxias (5).

Embora a Quinta Real de Caxias apresente os seus limites delimitados através de muros muito altos, ela dependia todavia de recursos, como a água que provinham de uma escala territorial que não a local. A água que abastecia a Quinta Real de Caxias não provinha apenas das duas minas de águas situadas nas imediações da Quinta, localizadas a nascente, mas também de outras minas localizadas em Queijas, na serra de Carnaxide, localizada a 2 km a Norte de Caxias (5).

Da análise da Quinta Real de Caxias, e da identificação da sua infra-estrutura própria de captação de água, é possível identificarmos uma unidade morfológica que extravasa os seus limites físicos, os muros, no que diz respeito à gestão e obtenção do recurso água. Embora actualmente a infra-estrutura de captação de água da Quinta Real de Caxias se encontre destruída, e portanto inoperacional, a sua reabilitação poderia devolver a Caxias uma nova possibilidade de rega que não aquela actualmente em uso –a água de rede da companhia, bem como a criação de um corredor verde autosuficiente. A destruição da infoestrutura identificada teve lugar com as obras da auto-estrada A5, nomeadamente com a construção do troço Estádio Nacional- Cascais, no final dos anos 80.

Embora a Quinta Real de Caxias e a Quinta de Recreio do Marques de Pombal em Oeiras constituam de facto, os exemplos mais paradigmáticos de quintas e aquedutos, pela sua imponência arquitectónica e conservação, um vasto numero de outras quintas e aquedutos encontram-se todavia dispersos no território do antigo Termo de Lisboa, e constituem sem duvida notáveis exemplos de Vazios Urbanos que requerem um olhar atento e objecto de intervenção que vá ao encontro da recuperação do ordenamento do território com base numa gestão de recursos mais sustentável do que aquela actualmente em uso.



Figura 9 - Planta da Real Quinta de Caxias, 1844; Planta do capitão engenheiro J. Abreu, Escala 1:1.000, Fonte: Biblioteca Nacional de Lisboa.





Figura 10 - Planta das minas e encanamentos d'agua do Almoxarifado de Caxias, 1901, Escala 1:5.000.


4 - Os Vazios - As praças e outros espaços públicos
Os Vazios que constituem a terceira e ultima parte deste artigo referem-se e constituem-se pelas praças e outros espaços públicos formados aquando da construção do Aqueduto das Águas Livres dentro da cidade de Lisboa, e também no seu Termo, que proporcionaram a localização de diversas fontes e chafarizes públicos em diferentes pontos da cidade e no seu Termo.
Estamos perante uma escala de leitura diferente daquelas que foram até aqui analisadas - a territorial e a das quintas, e corresponde à escala da praça e do espaço publico.

A construção do Aqueduto das Águas Livres de Lisboa alterou a paisagem urbana da cidade. Massivas galerias de pedra proporcionaram uma nova leitura da cidade baseada no recurso água. Desde o monumental Viaduto do Aqueduto das Águas Livres no vale de Alcântara (figura 3), passando pelo Arco das Amoreiras (figura 12), pela Arcaria do Jardim das Amoreiras (figura 13) e pela Mãe de Água das Amoreiras (figura 16), o Aqueduto distribuía-se pela cidade de Lisboa proporcionando alterações nas praças existentes. Como exemplos temos, entre outros, a construção do Chafariz das Amoreiras hoje extinto (figura 11), o Chafariz do Largo do Rato, o Chafariz da Rua do Século, o Chafariz da Esperança (figura 14) e o Chafariz das Janelas Verdes. Também o Palácio das Necessidades viria a ser abastecido por esta infra-estrutura, que alterou também a imagem da sua fachada principal conforme se pode verificar na figura 15.

Também no Termo de Lisboa, os Vazios encontraram espaço de enquadramento. Exemplos como o Chafariz de Carnaxide (figura 17) e o Chafariz da Buraca (figura 18) testemunham o aparecimento de novos largos e espaços públicos criados nessa altura, para o abastecimento de água das populações. No entanto, como já referido, muitos desses espaços encontram-se localizados junto a antigos núcleos, hoje territórios fragmentados e esquecidos, fomentando uma desarticulação destes elementos dos seus primitivos núcleos, com por exemplo o largo das lavadouras em Queijas na Rua da Mina (figura 20).

Uma outra categoria de vazios associada ao Aqueduto das Águas Livres de Lisboa é possível de ser referenciada. Esta categoria refere-se aos vazios urbanos criados aquando na urbanização de novos espaços urbanos na periferia da cidade de Lisboa, e que não souberam articular os seus traçados e espaços públicos com a infra-estrutura do aqueduto já existente. São disso exemplo, as urbanizações na Amadora (figura 21) e da Reboleira (figura 22).

Conclusões
A presente comunicação ao identificar diferentes categorias de Vazios na cidade de Lisboa e do seu Termo, em termos de unidades morfológicas distintas, como consequência da construção do aqueduto das Águas Livres, pretendeu sobretudo chamar a atenção para a necessidade de entender o património e os espaços público – os Vazios Urbanos - a uma escala territorial e não somente a local.

A escala territorial não representa apenas a primeira escala necessária para um correcto entendimento da paisagem tradicional enquanto expressão de um modelo de gestão e de obtenção de recursos; mas, representa também a primeira escala necessária para uma correcta intervenção no território, de forma a equacioná-lo de um razoável equilíbrio ecológico, do ponto de vista dos recursos naturais, bem como na correcta intervenção sobre o património edificado e espaço público.



Figura 11 - Rua das Amoreiras, Chafariz das Amoreiras, 1938, Eduardo Portugal (1900-1958), Arquivo Fotográfico, Código de referência: PT/AMLIS/AF/EDP/S00327.
Figura 12 - Arco das Amoreiras (entre 1898 e 1908), Fotógrafo não identificado, Arquivo fotográfico.



Figura 13 - Praça das Amoreiras, Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, 1945. Eduardo Portugal (1900-1958), Arquivo Fotográfico, Código de referência: PT/AMLIS/AF/EDP/S00295.
Figura 14 - Chafariz da Esperança, 1907, Joshua Benoliel (1873-1932), Arquivo Fotográfico,.
Cota actual JBN001231.




Figura 15 - Palácio das Necessidades, Litografia colorida de Celestino Brelaz, 1832. Mário de Oliveira (-) , Arquivo Fotográfico, Código de referência: PT/AMLIS/AF/MAO/S00548.
Figura 16 - Largo do Rato, Planta nº 26 do Atlas da Carta Topolgráfica de Lisboa (1857-8). Filipe Folque.



Figura 17 - Chafariz de Carnaxide, 2007, Fonte Arquivo Teresa Marat-Mendes.
Figura 18 - Rua da Buraca, Chafariz da Buraca, Aqueduto das Águas Livres, 1939, Eduardo Portugal (1900-1958), Arquivo Fotográfico, cota actual EDP, Código de referência: PT/AMLIS/AF/EDP/I00303.





Figura 19 - Respiradouro do Aqueduto das Águas Livres, Cova da Moura, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.
Figura 20 - Rua da Mina, Lavadouro, Queijas, 2007, Fonte Arquivo Teresa Marat-Mendes.





Figura 21 - Aqueduto das Águas Livres, Buraca-Amadora, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.
Figura 22 - Aqueduto das Águas Livres, Reboleira, 2007, Fonte: Arquivo Teresa Marat-Mendes.


Bibliografia
(1) TELLO, Enrique 1999. “La Formación histórica de los paisjes agrários mediterráneos: una aproximación evolutiva”, in História Agraria, 19, pp.195-211.

(2) SEGURADO, Jorge, 1970. Francisco d’Ollanda. Edições Excelsior, Lisboa, p.211.

(3) MOITA, Irisalva (ed. Lit), 1994. O Livro de Lisboa, Livros Horizonte, Lisboa, p.294.

(4) Citado por Irisalva Moita in O Aqueduto das águas Livres e o abastecimento de água a Lisboa in Câmara Municipal de Lisboa, 1990, D. João V e o abastecimento de água a Lisboa, CML, Lisboa. p. 30.

(5) MARAT-MENDES, Teresa e CUCHI, Albert (2007). “The role of resources management on shaping the landscape patterns: the water in the Royal Estates of Lisbon region” in Actas da 1ª Conferência Regional euromediterránea. Arquitectura Tradicional mediterránea. Presente y Futuro. Barcelona, 12-15 Julho de 2007. pp36-38.

(6) CORPO DO ESTADO MAIOR (1898). Carta dos Arredores de Lisboa à escala 1:20.000.

Lisboa, Infohabitar, Encarnação – Olivais Norte
Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 24 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 25 de Janeiro de 2009.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

56 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida - um artigo de Paulo Machado - Infohabitar 56

 - Infohabitar 56

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida

um artigo de Paulo Machado, Sociólogo, Investigador Auxiliar no LNEC, onde integra o Núcleo de Ecologia Social.

Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem... e aquelas a quem respeitam.

Na nossa sociedade é sensível uma alteração vocabular que importa reter: aos velhos de antigamente sucederam os homens e as mulheres da 3ª Idade e da 4ª Idade, os idosos de hoje. A expressão velho ou velha, enquanto designativo, caiu em desuso, salvo quando se pretende caracterizar alguém do ponto de vista do seu estado presente, por comparação ao passado ou por comparação com outrém: “envelheceu de repente”; “está a ficar velho”; “ele está mais velho do que ela”. Caso contrário, a designação socialmente correcta é amaciada (idoso, a mais usada, de preferência a ancião, sénior, geronte, velhote), e o termo velho ganha um sentido quase pejorativo.

A alteração vocabular deixa perceber uma mudança social com um significado próprio. Esta nova opção vocabular não se aplicou aos tecidos inertes (à habitação), embora eles possuam “vida”, façam viver a cidade e preservem a vida de quem neles se abriga. Daqui resulta que um idoso possa ser referenciado numa velha casa, sendo improvável ouvir dizer que um idoso apartamento é morada de uma mulher velha. Sem pruridos, dizemos que um edifício está velho quando revela sinais de deterioração. Mas é afirmação socialmente menos consentida se essa senescência for de alguém que estimamos e respeitamos.

Esta deferência vocabular introduzida nas sociedades Ocidentais contemporâneas quando nos referimos aos mais velhos espelha a nossa própria posição sobre essa condição humana e social (a velhice). É questão que não cabe aqui esmiuçar. Mas pode ter implicações sobre o modo como compreendemos a relação do homem e da mulher idosos com o seu espaço vivido. Por exemplo, pode levar-nos a pensar em soluções residenciais assistidas, dos próprios (apoio domiciliário) ou especialmente construídas para o efeito. Nestes casos, a gama existente vai das pequenas unidades residenciais (condominiais, agrupamento de famílias) aos grandes equipamentos (lares, casas de repouso), numa lógica de descontinuidade geracional mais ou menos radical.

A questão do alojamento das pessoas de maior idade, quando entendida como tal (isto é, questão de uma geração e não da nossa organização social) acaba por ser tributária do mesmo processamento social, que categoriza etariamente e favorece uma estereotipia social baseada na idade. Esse processamento é um fenómeno social normalizador (e normativo) que reduz a complexidade do real e homogeneíza as pessoas e os seus grupos de pertença. As ‘crianças’, os ‘adolescentes’, ‘os jovens adultos’, os ‘adultos’, os ‘idosos’ são produto desse processo, e a organização da vida social é determinada por estas categorizações, retroagindo incessantemente.




Imagem 1: A cidade e os seus equipamentos exigem atenção redobrada para um usufruto em condições adequadas. O “típico” pode ser adverso ao idoso.

As cidades, expoentes máximos da concentração humana e da civilização urbanocêntrica, reproduzem na sua ordem social e espacial este modo segmentado de ver a sociedade. Enquanto as urbes se confundiram com crescimento populacional, pujança económica, sorvedouros de mão-de-obra jovem e espaços de elevada atractibilidade, poucos foram os que imaginaram (e se preocuparam) com os velhos que nelas habitavam, e a questão do envelhecimento demográfico não lhes dizia directamente respeito.

Desenganem-se, porém, aqueles que pensam que as cidades não envelhecem demograficamente, em estreita relação com o envelhecimento do seu edificado e das demais infra-estruturas. Provámo-lo à saciedade em estudos recentes. Entre nós, por exemplo, a maioria da população com mais de 65 anos de idade já não residia, em 2001, maioritariamente, em lugares com menos de 2.000 habitantes (apenas 47,6%, contra 53% dez anos antes), e o maior aumento nas últimas décadas tem-se verificado nos centros urbanos, quer de média, quer de grande dimensão. No início deste século XXI, mais de ⅓ (35%) dos idosos vive em aglomerados considerados urbanos (> 10.000 habitantes). Mais precisamente: 592 mil pessoas idosas.

As cidades, nomeadamente as de maior dimensão, reflectem nas suas estruturas populacionais esta tendência demográfica para o envelhecimento, embora a expressão do peso relativo da população idosa se faça sentir ainda mais, dado que a própria transformação urbana se encarrega de proceder a uma segregação demográfica que expulsa para as periferias as gerações mais novas, criando as condições para o aparecimento de áreas dentro da cidade (freguesias, quarteirões, bairros) em que a proporção de idosos é elevadíssima, em muitos casos ultrapassando 30% da população aí residente. A Cidade de Lisboa reflecte bem este fenómeno.



Imagem 2: A secularização crescente e a desparoquialização das práticas religiosas têm contribuído para o isolamento progressivo do idoso, mesmo na “sua “ Igreja.

A segregação demográfica (ou dissociação etária), entendida neste duplo sentido do envelhecimento populacional das cidades e rejuvenescimento das suas periferias, pode ser definida como a desigual repartição dos diferentes grupos sexo-etários no seio das aglomerações urbanas, e é um fenómeno gerador de importantes disfunções sociais e urbanas. A elas nos poderemos vir a referir em outras ocasiões.

Por agora, fiquemo-nos por uma breve caracterização da cidade de Lisboa e do seu envelhecimento, acompanhada de comentários que sugerem aberta discussão.




Os factos da cidade envelhecida que já foi de muitas e desvairadas gentes.


1. Cidade de pouco mais de meio milhão de habitantes (564 mil em 2001), em Lisboa residem cerca de 134 mil idosos (pessoas com mais de 65 anos de idade). Para que se compreenda a reconfiguração demográfica da cidade-capital, são mais 10.000 do que há dez anos, quase mais 20.000 do que há vinte anos.


NENHUM PROJECTO PARA LISBOA PODE FICAR INDIFERENTE AO FACTO DE A CIDADE REGISTAR, ANUALMENTE, UM ACRÉSCIMO DE SENSIVELMENTE MAIS 1.000 PESSOAS IDOSAS, QUANDO O VOLUME TOTAL DE POPULAÇÃO NÃO PÁRA DE DIMINUIR.


2. O total de residentes idosos em 2001 correspondia, numericamente, e grosso modo, ao volume de residentes de todas as idades que a cidade deixou escapar desde 1940. Parte considerável das suas freguesias perdeu diversidade geracional, envelheceu e não apresenta sinais de “retoma” demográfica sustentada.



O PROBLEMA SOCIAL EM MUITAS FREGUESIAS DA CIDADE NÃO É APENAS O FACTO DE ESTAREM ENVELHECIDAS.
É TAMBÉM, E SOBRETUDO, O FACTO DE CADA VEZ SEREM MENOS OS HABITANTES QUE NÃO SÃO IDOSOS.


3. Dos 134 mil idosos residentes, aproximadamente 43% têm mais de 75 anos de idade. E destes muito idosos, quase 40 mil são mulheres.



NÃO BASTA DIZER QUE A CIDADE ESTÁ ENVELHECIDA. É PRECISO TOMAR CONSCIÊNCIA DE QUE OS IDOSOS ESTÃO MAIS VELHOS, O QUE SIGNIFICA QUE OS CUIDADOS DE QUE CARECEM AUMENTAM E PROLONGAM-SE NO TEMPO.


4. Das 53 freguesias, só em 5 existem mais jovens (até aos 15 anos) do que idosos. Essas freguesias são a Ameixoeira, Carnide, Charneca, Lumiar e Marvila.


5. Estes factos explicam porque Lisboa é a cidade portuguesa mais envelhecida, a capital europeia com maior proporção de idosos e uma das cidades europeias com maior envelhecimento demográfico.


No conjunto da cidade, o número de idosos é o dobro dos jovens (134 mil vs. 66 mil).






6. As projecções demográficas indicam que a tendência para o envelhecimento se manterá e acentuará nas próximas décadas. Lisboa não escapará a esse desígnio demográfico.



A DINÂMICA SOCIAL E DEMOGRÁFICA IMPÕE RESPOSTAS POLÍTICAS QUE NÃO PODEM SER ADIADAS.


7. Mas também a própria Área Metropolitana conhecerá um fenómeno de envelhecimento. Estimam-se que sejam hoje cerca de 326 mil os idosos residentes na AML, mas dentro de 10 anos serão quase 400 mil.



AS QUESTÕES DO ENVELHECIMENTO NÃO DIZEM APENAS RESPEITO A LISBOA MAS A TODA A SUA ÁREA METROPOLITANA E É TAMBÉM NESSE CONTEXTO QUE DEVERÃO SER PENSADAS.


A estes factos demográficos, outros indicadores sociais se podem associar:

8. Pelo menos 34.000 idosos da Cidade (dos 134 mil residentes, i.e., 25%) vivem sós em casa.


9. Pelo menos mais 50.000 viverão apenas com o seu cônjuge, o que significa que cerca de 62% viverão sós ou acompanhados com outro idoso.



O TOTAL ISOLAMENTO OU A DEPENDÊNCIA DE OUTRO IDOSO SÃO FACTOS A QUE NÃO PODEMOS FICAR INSENSÍVEIS E QUE SUGEREM POLÍTICAS SOCIAIS ACTIVAS PARA OS MAIS VELHOS.


10. A relação entre a idade das pessoas e a idade dos alojamentos e as suas más condições habitacionais é fortíssima (e estatisticamente irrefutável), denunciando que a precaridade das condições em que habitam será, em muitos caso, muito elevada.



O PROBLEMA DAS MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS NÃO ADAPTADAS ÀS NECESSIDADES DOS MAIS VELHOS PODE SER ATACADO.


11. Nem todos vivem no centro da Cidade. Grande parte vive nas avenidas novas, em Alvalade, em Benfica, muitos (cerca de 6.500) em bairros sociais de realojamento.



É ERRADO PENSAR-SE QUE SÓ EXISTEM IDOSOS NAS ZONAS HISTÓRICAS DA CIDADE.


12. Mais de 3.000 vivem em lares e residências para idosos (2 em cada 100).


13. O índice de risco rodoviário (nomeadamente no atravessamento das ruas) é várias vezes superior à média (de todas as idades).


14. O medo (sentimento de insegurança) gerado pelos furtos e roubos de que são alvo é o maior de entre todos os cidadãos.


15. A mobilidade (uso do transporte próprio ou público) é a mais baixa de entre todos os moradores.



OS RISCOS RELACIONADOS COM A UTILIZAÇÃO DA VIA PÚBLICA, O MEDO DE SER ASSALTADO, A AUSÊNCIA DE UMA REDE DE TRANSPORTES ADEQUADA, A FALTA DE RECURSOS MATERIAIS EXIGEM RESPOSTAS.


16. O rendimento mensal médio é dos mais baixos.


17. Pela óptica mais restrita dos índices de pobreza (i.e., em que o critério assegura que as pessoas identificadas nesta categoria possuem rendimentos correspondentes a 60% da mediana do valor da receita líquida total por adulto equivalente), obtém-se um nicho de idosos pobres residentes na Cidade em torno dos 50 mil, ou seja, cerca de 37% do total de idosos residentes.


alguém poderá ficar indiferente a uma estimativa que admite que o número de idosos pobres na cidade ronde os 50 mil?

18. Deverá ter-se em consideração que 92% dos homens e mulheres com mais de 65 anos e residentes na cidade são “inactivos” (o que significa serem reformados, aposentados ou domésticos, não exercendo uma actividade remunerada), e que os 8% que ainda trabalham, a maioria fá-lo apenas até aos 69 anos de idade, predominando (nestes casos), por ordem decrescente de importância, os seguintes grupos sócio-económicos:


Trabalhadores não qualificados (de diferentes sectores) (21%)

Quadros intelectuais e científicos (15,4%)

Empregados administrativos do comércio e serviços (15%)

Pequenos patrões do comércio e serviços (7%)

Directores e quadros dirigentes do Estado e empresas (5,5%)


A INACTIVIDADE PROFISSIONAL DA VELHICE URBANA, SOBRETUDO DAQUELES QUE SE ENCONTRAM PSICOLOGICAMENTE E FUNCIONALMENTE APTOS, PODERIA SER A MAIOR FORÇA DE TRABALHO SOCIAL DISPONÍVEL AO SERVIÇO DE UMA CIDADE SOLIDÁRIA


19. Deverá ter-se também em consideração que 43% das pessoas residentes em Lisboa que foram identificadas como portadores de uma qualquer deficiência e independentemente do grau de incapacidade (motora, auditiva, visual, mental ou outra, cfr. dados de 2001) tinham mais de 65 anos de idade. Aliás 43% dos idosos estavam nessa situação.


Comente você mesmo!





Imagem 3: Há alguma inconvencionalidade no modo de vida do idoso urbano, que o cosmopolitismo não esbate, e pelo contrário acentua.

segunda-feira, novembro 28, 2005

55 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar - um artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 55

 - Infohabitar 55

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar

um artigo de António Baptista Coelho

A 22 de Novembro de 2005 decorreu no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, a 3.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar (GH). Foi uma primeira incursão do GH numa temática que é, hoje em dia, crucial para todos nós e para os nossos próprios projectos de vida, mas também para a vida das nossas cidades, pois o envelhecimento da população e o envelhecimento do seu quadro de vida são processos que se influenciam, mútua e muito negativamente.




Após uma introdução sobre a dinâmica do GH, a intervenção de base da sessão foi realizada pelo doutor Paulo Machado, sociólogo, Investigador do Núcleo de Ecologia Social do LNEC. Em seguida, e com as palavras do próprio Paulo Machado faz-se a síntese da sua intervenção:

“Num quadro de profundas transformações demográficas, sociais, culturais, políticas e económicas, as cidades portuguesas acordam, a cada dia que passa, mais envelhecidas.

Causa e efeito dessas mesmas transformações, o envelhecimento urbano não surpreende mas faz pensar sobre:
  • a sustentabilidade dos tecidos urbanos num contexto de esgotamento intergeracional,
  • a capacidade de corresponder à satisfação das exigências técnicas (mais ligadas ao edifício e ao fogo), funcionais (de segurança, de mobilidade, de acessibilidade aos bens e serviços) e avaliativas (qualidade de vida auto-percepcionada) dos idosos residentes,
  • a humanização possível da cidade como património cultural/civilizacional.
A intervenção proposta procura situar a mudança social que induz as transformações, caracterizá-la no que em relação a Lisboa respeita, identificar alguns dos problemas já sinalizados e desafios sugeridos por essa mudança, discutindo soluções num quadro de reflexão técnico-científica alimentada pela intervenção cívica.”



Levantaram-se nesta intervenção variadas e interessantíssimas questões, e entre estas destacam-se e ficam para próximo debate e aprofundamento:
  • A satisfação relativa a um dado espaço de vivência alarga-se da casa, à rua, ao bairro e à cidade; e a compreensão da relação entre as pessoas e os espaços exige um grande esforço interdisciplinar e metodológico, designadamente, no sentido de se poder e dever reinventar o lugar onde se envelhece – da cidade, ao bairro e à célula doméstica.
  • A inversão da antiga “pirâmide” etária é algo de irreversível e temos de saber/fazer viver (n)uma sociedade/cidade com um número muito grande de idosos (cada vez mais idosos), de pessoas que vivem sozinhas, de idosos que vivem sós e de idosos cuja solidão se associa à pobreza. E este é um problema muito crítico em zonas do interior do País; e aqui o meio citadino até pode proporcionar alguns aspectos positivos.
  • A satisfação das exigências técnicas não corresponde à satisfação das necessidades de bem-estar. Há excelentes equipamentos de apoio a idosos, em termos de funcionalidade conforto ambiental, em que as pessoas se sentem menos bem porque estão fora do seu espaço de habitar conhecido e “familiar”. Acabam por se sentir estranhos num ambiente que lhes é estranho. Os equipamentos deviam ser das comunidades e não apenas da cidade; e além disto a cidade transformou-se, tal como disse Paulo machado, “essa nova cidade que é a minha cidade, mas que eu já não reconheço.”
  • E uma nova cidade que é muito pouco amiga do natural vagar dos idosos na circulação e no uso dos espaços públicos, e, generalizando-se, uma cidade muito pouco amiga do peão. Um questão que tem uma visibilidade clara nos terríveis números dos atropelamentos, mas que tem uma raiz profunda, ainda nas palavras de Paulo Machado, ”numa dissociação entre a casa e a rua que primeiro se estranhou e, depois, se entranhou.” Mas uma questão que também se liga a uma cidade que já não é marcada, como devia ser, pela civilidade.
  • Mas é possível e essencial intervir na cidade e nos seus espaços públicos e nos seus elementos de vitalização, como são os pólos de comércio diário. É possível mas há que ter presente que o tempo de intervenção necessário é muito longo, “o médio prazo da cidade é muito longo” (P. Machado).
Note-se que estes apontamentos são apenas, isso mesmo, apontamentos de uma exposição com grande interesse, ligada a tantas outras matérias do habitar com tanto interesse e que gerou questões e intervenções da plateia que nos teriam levado bem longe, houvesse tempo para tal.




Em seguida o Eng.º Duarte Nuno Ribeiro Gonçalves, Presidente da Direcção da Cooperativa Colmeia, apresentou um inovador e recém—inaugurado equipamento para idosos e crianças na zona do Parque das Nações , em Lisboa, projectado pelos arquitectos do gabinete SerraAlvarez.

Neste conjunto, merecedor de uma visita, associa-se um quarteirão urbano atraente e agradavelmente densificado, destinado a habitação, com um piso térreo quase inteiramente destinado a dois equipamentos “gémeos”, acessíveis a partir de uma entrada comum, ligada a um serviço de gestão central e também comum aos dois equipamentos:
  • um deles destinado a crianças (a “Casa das Abelhinhas”);
  • e o outro destinado à estadia prolongada de idosos (a “Casa dos Mestres”), onde se integram 30 quartos individuais e duplos, para 45 residentes, com excelentes condições de privacidade, funcionalidade e convívio;
  • entre um e outro equipamento, no miolo do quarteirão, um espaço exterior de lazer constitui, de certa forma, um espaço de relação entre as crianças e os idosos.
Naturalmente, salienta-se a possibilidade que aqui se oferece de uma “parceria” no habitar, entre uma família com uma habitação integrada no quarteirão e um membro idoso desta mesma família, que possa eventualmente necessitar de cuidados especiais e/ou que queira morar perto mas independentemente, e que poderá residir na “Casa dos Mestres.”




Nesta mesma linha de Intervenção seguiram-se as palavras de Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE (Federação das Cooperativas de Habitação Económica) e da Cooperativa As Sete Bicas, de Matosinhos, sobre um novo equipamento misto, residencial e de apoio a idosos, actualmente a ser iniciado por esta cooperativa.

É também de grande interesse a perspectiva desta cooperativa, que depois de ter proporcionado excelentes condições de habitação a muitas famílias, acompanha a evolução das necessidades destas famílias, agora muitas delas já idosas, e propõe uma nova tipologia de habitar, do tipo “residência assistida”, em que se associam 30 quartos com todo um leque completo de serviços de apoio a “seniores”, a um conjunto relativamente corrente de habitações (40 fogos).

Nos quartos da “residência assistida” vai haver idosos que irão pagar uma mensalidade “social” ao lado de outros quartos cujas mensalidades são ao nível “do mercado”.




Sublinha-se que esta experiência “mista” de habitação e habitação assistida está já a ser repetida pela Cooperativa noutros empreendimentos em fase de programação. Pode-se, assim, salientar, tal como disse G. Vilaverde, que a iniciativa cooperativa, depois do apoio à infância, ao convívio, e ao equipamento diário e social está, agora, a seguir no sentido do apoio diversificado aos idosos, mas sempre de uma forma integrada, integradora e muito positivamente caracterizada em cada sítio de intervenção.




Finalmente o arquitecto e Investigador António Reis Cabrita, da Direcção do Grupo Habitar, associou a temática dos idosos na cidade envelhecida às respostas que podem ser proporcionadas pelas novas tipologias de habitação.

Não se irá aqui fazer, naturalmente, uma síntese adequada desta intervenção, tal ficará para o próprio em artigo próprio, que terá, sem dúvida, grande actualidade. Referem-se, apenas, e informalmente, alguns temas de interesse que foram apontados:
  • A grande diversidade de respostas para o habitar dos idosos, ligada à grande diversidade das condições exigidas por: idosos sós mas autónomos, agregados familiares envelhecidos, idosos com necessidade de apoios específicos, idosos com necessidades de apoios críticos, etc.
  • A urgente necessidade de se considerarem grandes aspectos estratégicos, tais como:
. a importância do percurso residencial;
. a importância do apoio/enquadramento social;
. a grande expressão numérica dos idosos na sociedade actual;
. a crescente semelhança entre família nuclear e família de idosos;
. a actual e crescente valorização do espaço do habitar individual (o que tem grande interesse na problemática dos idosos);
. o “fechamento territorial” que caracteriza o nosso envelhecimento – mas que se associa a outros aspectos de relação e caracterização territorial (ex., “eu transporto comigo o meu mundo”, “eu tenho o meu recanto”);
. a possibilidade de fazer o espaço do habitar e designadamente o espaço doméstico adaptar-se ao envelhecimento da família e aos mundos dos idosos – situação que pode concretizar-se numa perspectiva que privilegie, por exemplo, “não mudar o idosos, mas mudar a casa”;
. e a preocupação, que tem de ser constante, de fazer o espaço doméstico prolongar-se, natural e agradavelmente, pela vizinhança, pelo bairro e pela cidade.
  • A afirmação que um serviço humanizado é mais importante do que uma estrutura física muito boa – mas contudo é muito importante esta mesma qualidade. E a afirmação que a integração social, comunitária e familiar do idoso é ainda mais importante do que esse serviço humanizado.
  • Relativamente ao projecto destaca-se:
. a importância dos aspectos simbólicos e afectivos;
. a valorização da adaptabilidade e a grande importância da acessibilidade (com sentido amplo);
. o desenvolvimento de níveis de satisfação ergonómica: (i) gerais, (ii) para idosos e (iii) para situações-limite (que provavelmente podem ter ainda um dado escalonamento);
. a aplicação de soluções de arquitectura moderna consideradas muito adequadas para idosos (ex., compartimentação adaptável, abertura ao exterior, exterior privado e acessibilidade urbanas);
. e o desenvolvimento de soluções tipológicas específicas (ex., sub-divisão, geminação e “suites”).




Tal como referiu Reis Cabrita, o idoso vai assumir, cada vez mais, um papel activo e muito diversificado na sociedade, papel este bem distinto do corrente estereotipo que ainda temos do mesmo idoso.

Sendo assim há que pensar de forma integrada na problemática dos idosos e das cidades, provavelmente focando os aspectos de envelhecimento de uns e outras, mas aproveitando todas as virtualidades e especificidades que possam contribuir para a melhoria das condições de vida dos idosos – que serão cada vez mais – e das condições de vida nas cidades, onde cada vez mais pessoas viverão. E tal como foi referido pelo Arq. José Bicho não podemos, de forma alguma, criar “guetos” para idosos, tal como, infelizmente, criámos alguns “guetos” de “habitação social.”

O debate marcou todas as intervenções havidas e generalizou-se no final da sessão. A ideia que fica é que é uma temática que exige um aprofundamento cuidadoso, uma discussão extensa e um sistemático confrontar entre os estudos e a prática, e tudo isto com um carácter de urgência e prioritário. E sendo assim o GH está já a preparar uma nova sessão técnica sobre esta temática noutra cidade do País.


Lisboa e Encarnação/Olivais N, 28 Novembro 2005

Contactos do Grupo Habitar: Porto, José Clemente Ricon, Arq. - jroliveira@inh.pt - Tel. 226079670 / Fax. 226079679; Lisboa: António Baptista Coelho, Arq. - abc@lnec.pt - Tel. 218443679 / Fax. 218443028