Mostrar mensagens com a etiqueta árvore. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta árvore. Mostrar todas as mensagens

domingo, junho 22, 2008

202 - OS JARDINS E O HABITAR (II) – artigo de António Baptista Coelho e textos da da London Tree Officers Association - Infohabitar 202

 - Infohabitar 202
Este constitui o segundo de uma série de artigos sobre jardins urbanos, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.

Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.


Salienta-se, ainda, o grande interesse do documento da London Tree Officers Association, que se traduziu e comentou, sintética e informalmente neste artigo, e, desde já, se chama a atenção dos leitores para a consulta do excelente site desta organização, onde será possível ler o documento na sua versão original, assim como consultar outros documentos com muito interesse e oportunidade nestas temáticas.






Fig.01



OS JARDINS E O HABITAR (II)

– sobre as árvores protagonistas do jardim e da cidade; inclui uma tradução comentada de um documento da London Tree Officers Association, ltoa.org.uk


António Baptista Coelho



Este segundo artigo sobre os jardins urbanos tinha, “obrigatoriamente”, de ser desenvolvido em torno do tema da árvore, da árvore urbana, protagonista, quer no seu papel urbano específico, em que ombreia, praticamente, em sentido específico, com o edificado, em termos de escala e de imagem urbana, quer no seu múltiplo papel ambiental, paisagístico e económico. Mas esta especificação da matéria dos jardins urbanos não significa que, em futuros artigos desta série, este mesmo autor, ou outros autores, aqui no Infohabitar, não volte ao fundamental tema do enquadramento da importância e do papel do jardim urbano de hoje, na cidade de hoje.


Já no primeiro artigo desta série se citou Franco Purini, num texto (Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151) em que este autor refere que "uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo".





Fig. 02


Ora, imagine-se que em vez de “casa” se escreve “cidade”, e então teríamos, uma ideia como esta: uma cidade não é uma verdadeira cidade sem jardins, verdadeiros ou imaginários, que a rodeiam e a penetrem, sempre a cidade habitada também como terra, porque “na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira”, porque “os mesmos elementos formam o pó e a pedra”, e, assim o jardim urbano poderá ser paisagem de qualquer cidade, uma paisagem mais interior, “no miolo cerrado dos tecidos urbanos”, como disse Purini, e/ou “paisagem verdadeira na vastidão do campo", como também ele referiu.


E visualizemos onde toda esta força do jardim urbano tem o seu principal núcleo, o seu principal protagonista, e ninguém terá qualquer dúvida que a resposta é a árvore (urbana), a “floresta” que se tornou urbana, e uma força serena que se sente mesmo, por ausência premeditada, naquelas zonas de jardins sem árvores e naqueles espaços urbanos, quase sem árvores, onde a natureza se resume em pequenas floreiras em janelas e em algumas laranjeiras, que como pequenos oásis, sempre inesperados e sempre bem-vindos.


A árvore é, não só, um verdadeiro jardim vertical e concentrado, o que corresponde a um elemento estratégico no ordenamento das cidades sempre “sem espaço” para aquilo que, realmente, é preciso, um verdadeiro jardim vertical sempre sede de biodiversidade e de amenização ambiental, mas a árvore é sempre, também, um efectivo elemento formal de “desenho” da paisagem urbana, veículo de escala humana e de suavização e de agradável contraponto com a escala e a expressão do edificado.


Mas para se jogar em duas dimensões citadinas tão importantes, como são a ambiental/microclimática e do “bom desenho” da paisagem urbana, é preciso saber-se trabalhar, realmente, com tais dimensões, não são, realmente, “coisas”, para curiosos, e entende-se isto quando vivemos, por exemplo, boas ruas arborizadas e cidades marcadas, humanizadas e ambientalmente suavizadas por excelentes parque urbanos intensa e agradavelmente arborizados, como acontece no excelente exemplo das Caldas da Rainha.






Fig. 03


E não é demais interiorizar a importância que têm e terão essas duas dimensões no actual e futuro movimento das megacidades, movimento este ao qual se terá, urgentemente, de associar um importante movimento de recriação dos ambientes naturais, de forma intensificada e concentrada, pontuando essas mega-malhas urbanas e proporcionando que nelas continuemos a ter um vital contacto com a nossa origem natural.


Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.


Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.






Fig. 04


E em Lisboa, por exemplo, entre outros, infelizmente, poucos casos a referir positivamente, temos o excepcional exemplo dos Jardins da Gulbenkian, na sua perspectiva de oferta de pequenas viagens por bosques variados e densos, para nos dar a saborear o interesse que hoje tem, e que sempre teve, o contacto íntimo com a natureza bem dentro da cidade densa; e neste efeito de “bosque” cerrado e misterioso é, naturalmente, fundamental o papel das árvores e arbustos.


De certa forma é muito importante que as cidades de hoje ofereçam uma espécie de pequenos oásis de reconciliação ambiental, paisagística e formal com a natureza e, designadamente, com a floresta primordial, e nesta oferta os jardins urbanos, caracterizados por expressivas árvores “urbanas” são fundamentais elementos protagonistas.


Faz-se, em seguida, uma ampla citação e uma tradução informal e muito pouco comentada (cada tema é seguido de um breve comentário) sobre a multifacetada e fundamental importância das árvores, em textos retirados de um excelente folheto de divulgação disponibilizado pela London Tree Officers Association, ltoa.org.uk , cujo site vivamente se recomenda e onde é possível fazer o download de outros elementos com grande interesse como é o caso de um utilíssimo método de avaliação das árvores (Capital Asset Value for Amenity Trees, CAVAT), que integra os seguintes tipos de factores: valor básico (unitário e relativo ao tamanho); valor de localização e de usufruto (localização, população utente e acessibilidade); valor funcional; valor ajustado (factores ambientais positivos e negativos); e valor total associado a esperança de vida.

Desde já se sublinha que este Capital Asset Value for Amenity Trees é, realmente, um instrumento de trabalho de enorme valor pois equaciona numa perspectiva integrada de valor económico, social e cultural a presença das árvores, que, tantas vezes, são ainda tratadas, entre nós, como se fossem elementos que surgem instantaneamente num dado local, e como elementos que se tiram e põem com a simplicidade e a eventual leviandade que poderá caracterizar a instalação e a remoção de um painel publicitário ou de um terminal de Multibanco, e, realmente, para além de se tratar de algo vivo e único, é algo com história/tempo, que nunca se poderá, verdadeiramente, reconstituir e que para compensar exigirá, quase sempre, um muito complexo e pesado investimento.




Fig. 05


Quase-citando, assim, o excelente folheto da London Tree Officers Association as árvores têm os seguintes três grandes grupos de vantagens: relativas à saúde e ao de bem-estar; sociais e ambientais; e económicas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos de saúde e de bem-estar:


“As árvores reduzem risco de cancro na pele através do sombreamento em relação à radiação ultravioleta”; e hoje em dia esta problemática está bem na ordem do dia e se queremos estimular a circulação pedonal devemos proteger os peões.


“Os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores, porque estas proporcionam descontracção psicológica e um sentido de bem-estar, suavizando o ambiente urbano”; este é um sentimento que sentimos, frequentemente, nos locais urbanos agradavelmente arborizados e que temos, por vezes, dificuldade em descrever e atenção para o grande interesse deste efeito, por exemplo, em zonas residenciais e onde se pretenda o desenvolvimento do lazer urbano.


“As árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; ora é conhecida, por um lado, a importância que tem o sossego acústico na satisfação com o uso do espaço urbano e habitacional, assim como é também conhecida a má influência das poeiras no nosso bem-estar e saúde.


“À medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”; temos aqui, fortemente, a matéria de que se faz boa parte dos bons projectos de arquitectura urbana e residencial, portanto, fica evidenciada a importância das árvores numa concepção arquitectónica com um amplo e verdadeiro sentido exigencial.


Vantagens das árvores em termos de influência no clima (“mudança climática) e microclima (clima local):


“As árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores, incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; sendo assim, a conclusão que se impõe é que a plantação de novas árvores e o cuidar bem das que existem, globalmente, mas também especialmente nas grandes zonas urbanas, deveria ser uma das principais medidas na batalha pela melhoria ambiental do nosso planeta, até porque se a nossa sociedade é cada vez mais urbana há que reforçar urgentemente um equilíbrio global com mais elementos naturais, como são as árvores, e matizando, muito mais, as próprias zonas urbanas com verde urbano, no qual as árvores têm um papel protagonista.


“As árvores trabalham todo o ano e continuamente para nós, suavizando, localmente, picos extremos de temperaturas – refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; trata-se, então, de um sinal de inteligência e de estratégia o utilizarmos, intensamente, um meio com tão grande capacidade de eficácia ambiental.


“Árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”; trata-se, novamente, de uma vantagem com evidentes e múltiplas consequências positivas em grandes meios urbanos, associando o referido papel de moderação ambiental com um directo papel em termos de melhoria da infraestruturação.




Vantagens das árvores em termos aspectos sociais e ambientais:


“Pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; as palavras falam por si, e todos sabemos que falam verdade, só que por vezes até parece que a história pouco vale nas nossas paisagens citadinas e rurais.


“As árvores proporcionam, nas suas zonas de integração, um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; sempre assim foi, a floresta sempre foi geradora de variados meios e sempre o homem se fixou nas suas margens, gozando-a como riqueza intrínseca e como riqueza de paisagem.


“As árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração”; e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas, que por vezes tão longe estão dos ciclos naturais, e o próprio passar do tempo é também fundamental como percepção individual e social, e além de tudo isto há o espectáculo sensorial das estações e do tempo ameno ou das intempéries que tão directamente é sentido na companhia das árvores.


“As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia – pequenas e grandes – ao longo de todo o ano”; cada árvore, para além de ser uma pequena “fábrica” química positiva, produtora de oxigénio, como acima se lembrou, é também um pequeno mundo que alberga um amplo leque de elementos da flora e da fauna, as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos económicos:


“A presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%”; são números que fazem pensar, e talvez que nestes números esteja, espera-se, o princípio do fim de tantos crimes contra tantas velhas e excelentes árvores, e vale a pena pensarmos que estes números apenas concretizam aspectos de verdadeira valia paisagística local.


“Quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; sem comentários, mas é provavelmente uma das medidas ambientais mais fácil de implementar, desde que o seja com eficácia técnica ampla, pois também há sempre o risco de só se ver uma parte da verdade e começarmos a plantar árvores sem as enquadrar num adequado equilíbrio ambiental e paisagístico, que está ligado a cada região, a cada local e a cada microclima.


“As árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; trata-se de uma constatação evidente, mas podemos juntar que na jardinagem, por exemplo, é possível conciliar meios humanos muito qualificados com outros menos qualificados o que é também um excelente recurso social em termos de emprego e de ocupação.


“As árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”; é também uma afirmação que não precisa de comentários, mas tal como vãos as coisas, até parece muito racional que nenhuma via de racionalidade energética e de poupança de recursos deva ser esquecida, e esta é uma via que tem também uma importante visibilidade local em termos didácticos e de boas-práticas.





Fig. 06


Para concluir regista-se que não é, com certeza, por acaso, que algumas das maiores cidades do mundo, como Tóquio e Nova Iorque, se têm privilegiado a plantação e o cuidado no tratamento das grandes árvores urbanas, com um enfoque especial nas Ginkgo biloba, consideradas das mais velhas árvores que existem, daquelas que podem atingir maior longevidade e parece que daquelas que melhor se adaptam ao meio urbano poluído e melhor podem contribuir para a sua melhoria ambiental. Não é, com certeza, caso único, e nesta matéria é naturalmente fundamental estarmos com as “nossas” árvores, aquelas mais adaptadas aos nossos climas e microclimas e aquelas que, tradicionalmente, têm contribuído para a caracterização das nossas cidades, vilas e aldeias, mas é, sem dúvida, muito importante e urgente o desenvolvimento, aprofundamento e/ou divulgação de estudos desse género sobre as nossas árvores urbanas, assim como terminar, de vez, com o desrespeito para com a árvore, que ainda caracteriza muitas situações correntes na nossa sociedade.


E já há, felizmente, alguns bons sinais nestas matérias, aqui bem ilustrados com o muito recente transplante de algumas grandes árvores, na sequência das obras, em desenvolvimento, para a construção da nova estação de Metro da Encarnação, em Lisboa, de que se juntam, em seguida, duas imagens.






Fig. 07






Fig. 08


Editado por José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
22 de Junho de 2008

domingo, março 09, 2008

186 - Paisagens II: algumas notas sobre a árvore na cidade - Infohabitar 186

 - Infohabitar 186


Algumas notas sobre a árvore na cidade

Texto de António Baptista Coelho sobre palestra de Maria Celeste Ramos.

A propósito de um relato informal do que nos disse a Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos na sua excelente palestra no Auditório 2 do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa em 14 de Fevereiro de 2008, apontam-se muitas ideias referidas pela palestrante e desenvolvem-se, um pouco, algumas linhas de pensamento sobre a árvore e a cidade.
De forma alguma se faz aqui um apontamento sistemático da muito rica intervenção de Celeste Ramos, apontam-se apenas algumas das ideias expostas, que mútua e minimamente se estruturam e sobre as quais se desenvolvem alguns comentários pessoais. E desde já se afirma que não se está aqui a esgotar o tema da relação entre a árvore e a cidade, previsto para esta sequência de artigos sobre a paisagem.

Falemos um pouco da cidade para começar.

A dimensão da cidade já não é aquela pela qual se optou ao longo de milénios e neste jogo relativo à dimensão da cidade há aspectos fundamentais a considerar, entre os quais um dos mais importantes é que a cidade é tanto um espaço físico como um espaço emocional – e, por vezes, e, hoje em dia, muitas vezes, há um grande esquecimento da dimensão emocional da cidade e das suas partes e elementos constituintes. De certa forma já nos aproximámos desta matéria no primeiro artigo desta série, quando se referiu a importância da paisagem urbana e quando se tentou oferecer uma definição de paisagem, muito ampla e afectiva.

É importante lembrar aqui que, em séculos passados, para além de se tratar de outros tempos e outras realidades, nas quais havia realmente graves problemas em termos de pobreza e de qualidade de vida, e tal como apontou Celeste Ramos, as cidades tinham uma dimensão mais palpável, mais sentimental, mais física. E não será possível recuperar, hoje, um pouco dessa dimensão? Reaprendendo como fazer ruas e praças para as pessoas e pondo de lado, para sempre, o urbanismo feito para ser bonito nos desenhos e para ser útil ao veículo e a uma sociedade que, afinal, nem será aquela que mais nos interessa e que é a mais adequada a um ambiente regenerado?


Fig. 01: Alfama

E desenhar agora, desta maneira, formalizando-se aquilo que muitas vezes se fez de forma relativamente espontânea, mas também, muitas vezes, de forma exemplarmente objectivada e concretizada, será, como indicou a palestrante: desenhar com a natureza, organicamente; e/ou desenhar com uma racionalidade esclarecida. Empenhando-nos, sempre, na nobre e exigente tarefa de criar os ambientes da casa e da cidade.

Um outro aspecto a considerar é que a cidade é também o espaço dos serviços, dos serviços “ao pé da porta” e da rica conjugação de uma grande diversidade de serviços, mas Celeste Ramos defende que até isso está a desaparecer, substituído pela especialização e concentração excessivas. E esta noção de cidade de serviços ao pé da porta, de cidade que se habita entre a casa de cada um e a rua que é de todos, é uma noção de plenitude urbana que se integra bem com os aspectos de ligação à natureza que nos são proporcionados pelo verde urbano, pelo jardim urbano e especificamente pela árvore urbana, que é afinal um pequeno jardim em altura. E teremos, assim, idealmente, as vantagens da civilização, sem perder parte das vantagens da natureza.

Para além destas questões ligadas à concepção e à cidade desenhada, a cidade é também, como referiu Celeste Ramos, o espaço do sonho, o que obriga a ser um espaço condigno e com relações com a imaginação, a criatividade e a diversidade e isto terá sempre a ver com o verde urbano.

Afinal, e tal como referiu a palestrante, um dos elementos da cidade é o conforto visual, e se ele existir sentimos paz, quando percorremos a cidade, e há também os equilíbrios nas alturas e nas cores dos elementos dos cenários urbanos; e se assim acontecer sentimo-nos bem e ficamos mais disponíveis para a cidade e as outras pessoas que também a habitam, e em tudo isto, e tal como afirma Celeste Ramos, o que mais nos atrai e o que mais nos faz sair e flanar na cidade é o belo, e o belo tem a ver com o direito ao belo.

E assim se vai conformando e vitalizando uma cidade mais próxima de nós, humanos, próxima, por proximidade física e por identidade e atractividade, uma cidade que nos distrai verdadeiramente e que nos emociona e, consequentemente, nos convence a sair e a usar os seus espaços e que nos diz, em todos eles, que o que ali nos oferece é um verdadeiro suplemento de alma e de funções ao que temos bem guardado e ali bem à mão nos nossos mundos domésticos.


Fig. 02: Lisboa, da Graça ao Castelo

Naturalmente que tudo isto não se faz apenas com o verde urbano, mas faz-se sempre considerando e incluindo a natureza e a paisagem natural, de forma integrada com e na paisagem urbana, mesmo quando numa relação paralela ou de contraponto.

Este é o caminho certo, mas há muitos caminhos errados, caminhos que Celeste Ramos foi referindo e sublinhando numa sequência de situações negativas que apontou, referidas a um bairro de Lisboa, onde mora, mas que podem ser infelizmente generalizadas a outros bairros de Lisboa e de outras cidades. E nestas situações destacam-se os crime da gradual impermeabilização dos espaços urbanos, do abate dos pequenos bosques que ainda resistem seja em velhos jardins seja no miolo dos velhos quarteirões, da falta de respeito pelas grande árvores que deviam ser preservadas, e da gradual elevação da altura do edificado que reduz a amenidade ambiental das ruas e que afasta cada vez mais as pessoas dessas ruas; e depois, depois, é a redução do conforto ambiental exterior, é a redução da biodiversidade, é a descaracterização de bairros e vizinhanças, é a redução do interesse funcional e visual dos espaços urbanos e é a contribuição para a desvitalização destes espaços. E Celeste Ramos resume tudo isto ao dizer “que já não há vida na minha rua”.

E não tenhamos ilusões sobre o protagonismo da árvore urbana em todas estas matérias, pois com apontou a palestrante a árvore dá: beleza, natureza viva na cidade, escala, variabilidade e diversidade de cenários e equilíbrio ambiental ao longo do ano. Pois a árvore é um verdadeiro e concentrado micro-jardim vertical.

Disse Celeste Ramos que na cidade antiga não eram precisas árvores, porque a natureza, o rio – no caso de Lisboa e de tantas outras cidades – e as próprias árvores de bosques e de hortas estavam logo ali, pois o campo estava logo ali, e, além disso, não havia poluição urbana significativa que, por exemplo, libertasse CO2, e exigisse uma intervenção específica. Mas hoje em dia, o campo está bem longe, e há muita poluição; logo, o verde urbano e especificamente as árvores são também necessárias como elemento de regeneração ambiental.

E note-se que o verde urbano e especificamente a árvore urbana é elemento positivo não apenas para o clima físico, seja no Verão seja no Inverno, mas também para o clima emocional e mesmo para o clima estético de um dado bairro de uma dada cidade, assim o sublinhou Celeste Ramos; e note-se aqui a importância de tais facetas qualitativas na nossa sociedade da pressa e da descaracterização.

A árvore na cidade foi ainda referida como um elemento urbano que ou se associa à estrutura/organização da cidade, sendo a sua presença imperativa, ou, é de algum modo descartado por determinadas soluções e ambientes específicos. Mas defende-se que, em qualquer dos casos, o verde urbano tem de estabelecer um diálogo continuado com o edificado urbano; numa relação contínuo edificado/contínuo verde, que irá variar, caso a caso, zona a zona, que poderá caracterizar-se em determinados locais por uma quase ausência de verde urbano, mas que, mesmo em tais locais, assim se criarão ambientes em positivo contraponto com a referida relação de continuidade edificado/verde, muito variável e rica em termos de aspecto e de caracterização.


Fig. 03: Campo de Ourique

Este será, provavelmente, um dos principais meios de assegurar a fundamental relação afectiva e efectiva com cada lugar. Uma relação que se ligará à essência primordial que em tudo existe, tal como defendeu a palestrante, que marca todas as bases de conhecimento, e assim também devemos considerar que há uma essência primordial no habitar e no habitar a cidade e parte desta essência liga-se à presença ou ausência premeditadas de árvores nas ruas e praças citadinas.

Na discussão que se seguiu falou-se, ainda, do “subúrbio do subúrbio”, das estradas que foram plataformas de paisagens e hoje são amostras de pequenos horrores, falou-se, assim, de uma macrocidade descaracterizada e inimiga, que destruiu a paisagem ampla em que cresceu e que não tem “espaço” para o verde urbano no seu âmago, uma cidade da pressa e do feio, afinal uma cidade bem diferente daquela onde um qualquer pequeno jardim, bem cuidado mas sem vaidades, pode ser um sítio sobre o qual se diga: “aqui não há tempo, só há calma e beleza”, assim o disse Celeste Ramos.

E imaginemos, apenas, o bem que fará podermo-nos refugiar, por momentos muito longos, em tais ambientes, e consideremos imaginemos a simples possibilidade de poder ter também alguns simples jardins de árvores ao longo das ruas, árvores que, tal como apontou Celeste Ramos, nos dizem: “sou natureza, sou abrigo, dou sombra, sou diferença, não tapo as fachadas, sou beleza.”

A propósito de uma palestra falámos um pouco da cidade, da árvore e da árvore na cidade. Tal como sublinhámos no princípio do texto desenvolvemos apenas algumas notas breves sobre um tema apaixonante e hoje crucial nas tantas tristes cidades que temos e nas megacidades que teremos, e, portanto um tema a que se voltará várias vezes, e talvez sob perspectivas específicas, nesta série de artigos sobre as paisagens, pois as árvores são quase sempre as protagonistas da paisagem natural e muitas vezes partilham protagonismo com os edifícios na paisagem urbana, não lhes retirando o papel principal e muitas vezes valorizando-o, uma capacidade que dota a árvore urbana com uma capacidade de extrema utilidade quando pensamos em acções de regeneração e melhoria amplas do tecido urbano.

É ainda muito interessante aprofundar a importância do papel da árvore na cidade, afinal o sítio dos edifícios, mas árvores e edifícios talvez tenham pontos comuns, e muitas vezes as cidades sucederam aos bosques nas orlas das florestas e nas margens de rios e de mares, e, além de tudo isto, que longe nos levaria, é ainda importante referir, desde já, que tal como disse Levi-Srauss: “É lícito comparar, e não de maneira metafórica (...), uma cidade com uma sinfonia ou com um poema; são objectos com a mesma natureza. Possivelmente mais pormenorizada(preciosa), ainda, a cidade situa-se na confluência da natureza e do artifício (...). É tanto objecto natural, como sujeito cultural; indivíduo e grupo; vivida e sonhada; a coisa humana por excelência.”
O sublinhado, relativo a estar a cidade na “confluência da natureza e do artifício” foi nosso e a citação foi retirada do belíssimo artigo de Rafel Toriz, intitulado “Cartografias: Las ciudades – el lenguaje – y la voz que las habita”, um artigo editado no excelente site “Antroposmoderno”, recomendando-se vivamente o artigo e o site.


Fig. 04: Graça

E sobre uma tal confluência citadina entre natureza e artifício parece ser, desde já, fundamental apontar que se ela existe então ela tem de ter presença efectiva e afectiva, e se não existir então essa cidade não é a cidade dos homens, não é a cidade onde nos podemos rever e que nos apoia e motiva todos os dias, desde os aspectos de pormenor aos de orientação, pois, como já se disse atrás, mesmo quando na cidade não há pontualmente verde urbano pode e deve haver uma forte presença da natureza na relação com a paisagem e com o ambiente do local (como acontece, por exemplo, nas ruas da Baixa de Lisboa abertas ao Tejo) e pode e deve haver um excelente contraponto ou com partes da cidade caracterizadamente naturalizadas ou com margens da cidade muito marcadas pela natureza e numa tal caracterização a árvore é realmente protagonista, pois além de constituir um verdadeiro jardim vertical e concentrado ela de certa forma é um edifício vivo que boa companhia faz aos de pedra e cal pois suaviza-os e dá-lhes escala, isto para além de habitar verdadeiramente o espaço público e aí ela é de certo modo parceira e amiga do homem.

E já agora acabemos esta primeira e pequena reflexão sobre uma cidade naturalizada e habitada pelas árvores, com as primeiras palavras de Rafel Toriz no referido artigo:
“É uma certeza: estamos condenados a viver nas cidades, a desprezá-las e a adorá-las com horror e simpatia.(...)”

Sem dúvida que as árvores poderão ajudar-nos a desprezar muito menos e a adorar muito mais as nossas cidades, mas para isso há que pensar, objectivamente, em tudo aquilo que podemos e devemos fazer para melhorar as suas respectivas condições de instalação e tratamento, pois as árvores não são adereços citadinos, são sim elementos vivos e protagonistas urbanos de pleno direito, que muito nos darão, bastando para isso serem apenas minimamente cuidadas e respeitadas; e se passarmos destes mínimo e entrarmos na arte da paisagem, então ficaremos e ficamos deslumbrados com o verdadeiro e caloroso espectáculo de certas árvores na cidade.

Nota:
http://www.antroposmoderno.com/

Texto desenvolvido a partir da palestra de Maria Celeste Ramos, na Universidade Nova de Lisboa em 14 de Fevereiro de 2008, concluído em 1 de Março de 2008 na Encarnação – Olivais Norte, e ilustrado posteriormente.

Editado em de Março, por José Baptista Coelho

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

126 - A árvore suporte do mundo no espaço urbano (I) – dos homens-árvore às florestas de resinosas e folhosas, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 126

 - Infohabitar 126

Celeste Ramos
Participação de António Baptista Coelho na ilustração (parte das figuras)


Palavras-chave: ecossistemas globais [alianças florestais mundiais - floresta (mata) - continuum naturale-contínuo edificado]; REN urbana, estrutura verde urbana e corredor verde [pulmões urbanos]; árvore notável, árvore património e árvore viária [na estrada, no passeio de peão e alameda e no jardim público e privado]; água na cidade e fauna urbana; ecossistema urbano versus ecossistema humano [a alma das gentes e da árvore - espaços para a alma, o silêncio, a meditação e o divino - a música do vento e a árvore inspiração do poeta - a árvore que na copa capta o sol e na raiz capta a água]; o espírito da árvore e o espírito do homem

Resumo
Partindo de citação breve dos grandes agrupamentos fitossociológicos planetários a fim de ter uma ideia global das condições geo-edafo-climáticas que os determinam, passando pela caracterização de resinosas e folhosas, centra-se a forma como são "escolhidas" para o espaço urbano e referem-se as mais variadas funções na qualificação do espaço urbano e termina-se com apelo de geo-consciência e geo-cidadania.






A árvore suporte do mundo no espaço urbano

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores
É preciso também não ter filosofia nenhuma
Com filosofia não há arvores - há ideias apenas
Há só cada um de nós, como uma cave
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela

Filosofia de janela fechada
Alberto Caeiro, 1925





A cidade é por excelência o espaço dos homens e há Homens que são como árvores


Da semente virtual de que nasceram, lançaram como vida uma radícula e caulículo, um folículo, flor e fruto, muitas flores que deram fruto e sementes, muitas sementes.
Conheci uma "árvore" dessas, grande, o fundador na universidade técnica de Lisboa, do curso de arquitectura-paisagista em 1942, que votou toda a vida ao seu sonho.

A árvore, a paisagem, a vida, a beleza, a ordem das coisas revalorizando-as num todo holístico, para conforto final do homem integrado no seu meio como se lhe tivesse sempre pertencido em réplica do Éden.

Como homem inteligente e sensível e multicultural, da árvore nasceu um grande tronco, a primeira geração dos seus alunos alguns dos quais ainda vivos, Gonçalo Ribeiro Telles, seu primeiro assistente, António Viana Barreto, Ilídio de Araújo, Álvaro Ponce Dentinho, os primeiros professores, conhecidos no mundo da profissão, tendo eu própria que iniciei a "profissão-no-feminino", testemunhado, em congressos internacionais, como essa semente não só era conhecida, como dava imediatamente "selo de qualidade" a quem quer que tivesse sido seu aluno, facto que reporto como invulgar naquele tempo, não sendo, no entanto, hoje invulgar dizer-se que "estudei canto ou piano com", "fiz doutoramento orientado por" ou, fiz "os meus estudos na universidade de", atestando, assim, a qualidade do conhecimento adquirido.

Esse mundo dos saberes da Terra e dos Homens, não se resumindo porém a esses profissionais, tornou-se prisioneiro-aprisionado dos que tendo apenas aprendido alguns termos lexicais, se julgam possuidores por direito e convicção, fazendo os usos mais nefastos para a Terra e para os Homens, podendo-se observar, nas paisagens urbanas e rurais e sócio-culturais, a apreensão que desses valores fizeram, desmantelando-as; mas não tenhamos medo demais, porque a religião pode ser mal usada por quem a professa, mas continua imutável na sua essência, como todas as verdades da verdade das coisas.

Estes profissionais cujos nomes se citaram, troncos da mesma raiz, apenas em meio século conquistaram o privilégio de ver hoje o trabalho de suas vidas constituir património intelectual nacional, ao ter sido "arquivado" na biblioteca nacional da direcção-geral de edifícios e monumentos no Forte de Sacavém (Jan.2006), património de uma vida de seriedade e de pesquisa pioneira, tornado património público pelo menos nacional.

Como eles, a árvore cujo fuste for cortado transversalmente mostra "anéis de crescimento" vendo-se uns mais claros e frágeis, anéis de crescimento em primavera chuvosa já a aquecer, outros mais escuros e densos, os anéis de crescimento de Inverno de tempo seco e frio, mas não parando de crescer mesmo que cada um, como cada árvore, tenha tempo de vida geneticamente determinado, mas dando sempre semente, porque ninguém extingue a vida por mais desgraçada que a torne.





Dessa árvore nasceram as grandes ramadas

Dessa árvore e do seu tronco que denomino eu própria de primeira geração, nasceram as grandes ramadas, já em pleno feminino, talvez porque essa profissão trata da vida e do fazer nascer e crescer e não pareceria certo que, mais uma vez, fosse gueto exclusivo do mundo masculino, neste tempo em que guetos se desfazem e novos nascem, enquanto os homens não interiorizarem que só há homens num único gueto que é o ser humano e o próprio Planeta e, até lá, uns vão à frente dos outros na destruição de guetos e na re-construção das coisas mais consentâneas com a verdade da Terra e dos Homens.

A preparação intelectual recebida tratava da vida no seu todo em áreas tanto científicas como do mundo das artes e da intuição sensível, saber sem guetos nem descontinuidades, puzzle em pirâmide do conhecimento do Planeta e não apenas de uma "das partes" (já que cada parte contém o todo como o macro contém o micro), perpassando da geologia à geografia e história ou história de Arte dos Jardins, botânica e filosofia e desenho e construção dos espaços concebidos, obra "acabada desde o estudo do espírito do lugar", ao planeamento e projecto até o ver de pé.

Abençoados os homens-árvore que, como esta árvore-pioneira, dão vida à vida e a fazem perpetuar num fluir contínuo passado de geração em geração e lhe vão acrescentando a sua criatividade individualizada sem perder a essência da semente.

A 11 de Março é celebrado o Dia Mundial da Árvore, data na qual a actividade mais importante se confina apenas ao ambiente escolar básico com passeios pela natureza e a plantação de uma árvore nem sequer em espaço escolar, como se as ciências da natureza se resumissem a "coisa de crianças", sem mais significado nem continuidade vida fora, qual semente que não vai dar fruto em idade de adulto e de decisão; esquecendo-se que o ensinamento destas ciências, base da ecologia e do ordenamento das paisagens urbanas e rurais e do ordenamento da vida, permite ficar "marcado" como se fica ao aprender a língua-mãe, nos gestos do quotidiano e para manutenção e fiscalização, natural, da qualidade de vida e do ambiente privado e do todo colectivo.





A terra-mãe agoniza


Por isso a terra-mãe, como a nossa que habitamos, agoniza, e a cidade das pedras e da água, dos jardins e da árvore, continua a revelar o maior desequilíbrio porque se perdeu a mais importante dimensão e função da terra e da árvore e daquilo que dela deriva como sustentáculo do próprio solo e clima (situações edafo-climáticas), de sustentação dos declives, da fauna terrestre e dos pássaros e da flora, da qualidade do ar e da água (e quantidade), dos perfumes, da cor e até da luz e das formas, enfim, da "saúde da terra", fora e dentro da cidade, e por fim das quatro estações do ano que o homem não pode alterar só por se tratar de uma dimensão do céu, mas que até contra elas se rebela dentro do espaço urbano, porque calor sempre lhe agrada, mas, sobretudo chuva, o faz decepcionar e denominar "mau tempo", como se sempre tivesse havido bom e mau tempo, excepto, de facto, agora, em que o homem interveio de forma inconsciente e desastrosa mas continuando, mesmo assim, a acusar "o tempo", sempre o tempo, como se fosse inocentemente autista e recusasse aceitar a parte que lhe cabe e "emendar a mão".

Interessante ver como o homem urbano, mesmo o mais erudito, esqueceu o que aprendeu na idade escolar truncando, a partir daí, a sua existência como um elemento da cadeia global da vida, embora seja o elemento do topo da cadeia alimentar planetária, tornando-se exactamente por isso o grande predador.





A árvore da cidade e as “cidades” das árvores – as florestas

Mas a ÁRVORE da Cidade não nasceu na cidade porque a cidade, mesmo Ur com os seus 6 mil anos, é posterior, como tudo o que o homem fez, porque a árvore é o ser mais velho da terra, sustentáculo do mundo e da vida.

A Árvore faz parte de conjuntos maiores denominados Associações e Alianças (sistemas fitossociológicos), mais comummente designados por ecossistemas, como se a árvore fosse deles a semente que lhes vai dar origem e abrigo a outras espécies vegetais e também os animais, num todo diferenciado de interdependência em interdependências maiores e globais, por regiões planetárias, distinguindo-se assim a floresta do frio e neve ou Boreal, da floresta equatorial e inter-tropical sua derivada e, por fim, a floresta da zona temperada, sobretudo do hemisfério norte de planícies húmidas e savanas, de áreas montanhosas e grandes vales, área e riqueza consumidas ao longo de milénios para se implantar a Ecúmena (20-40ºN), onde é maior a variabilidade de solos e de climas, de fauna e de flora, o Paraíso do homem, o Hemisfério Norte com as Zonas Temperada Quente e Temperada Fria.

Para quem se interessar pela árvore em Portugal e os ecossistemas naturais que determinam, adquira o livrinho simples e bem sistematizado – A Árvore – de autoria de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles e perceberá o que se escreve, apesar de quase ninguém de nenhuma condição sócio-cultural saber nenhum nome das árvores (e arbustos) com que co-habita toda a vida e que até terá ao sair da porta de sua casa, e perguntar-se-á porquê.

No entanto, o espaço nacional possui verdadeiras raridades mundiais, como é o caso do complexo vegetal da Serra da Arrábida, recentemente classificado como Parque Natural e fazendo parte da Rede Natura e da Biosfera, para preservação dos vestígios da floresta mediterrânica, no entanto o local escolhido, pelos decisores, para extracção, com dinamite, de pedra para construção da Expo-98, e do complexo urbano que se lhe seguiu, implantado no leito de máxima cheia do Tejo, privatizando espaço público e entaipando o rio que já não pode ser usufruído como paisagem quando se toma o comboio Lisboa-Porto, ignorando-se completamente os princípios de ética da natureza e direitos colectivos ao património natural global de direito público.

Em contrapartida, ainda se conseguiu salvar, outra raridade igualmente única no mundo, a formação florestal denominada Laurisilva (de Laurus-loureiro + silva-floresta) existente na Ilha da Madeira nas grandes altitudes, floresta higrófila da região sub-tropical húmida com quase 15 mil hectares, ricos em espécies todas perenes como o Till e Vinhático (sempre usados para o magnífico mobiliário de igrejas e conventos e para os mais delicados desenhos de talha), para além do Barbusano, Cedro da Madeira e loureiro que bem conhecemos no nosso quotidiano, floresta com a particularidade de ser de folha perene nas árvores e arbustos, fetos e musgos, líquenes e plantas endémicas, numa massa densa em todos os seus "andares" (perfil da floresta). Esta reserva gigantesca do Conselho da Europa apenas desde 1992, património UNESCO desde Dezembro de 1999, é reserva de valor não apenas botânico, mas de turismo de lazer e científico, algumas das "jóias da coroa do património natural" que só muito tardiamente se protegeu por imposição de Directivas da UE sobre Aves e Habitats Selvagens .





Resinosas e Folhosas


Assim sendo, vejamos a forma mais fácil e pragmática de distinguir dois grandes grupos de árvores – as Resinosas e as Folhosas.

Quanto às primeiras, originárias de latitudes frias e mesmo geladas, as folhas são, principalmente agulhas agrupadas de 2 em duas a 5 em 5, ou escamas imbricadas organizadas em raminhos planos ou "despenteados", com as copas em geral de forma piramidal, por mais variadas que sejam as ordens em que se agrupam várias famílias (taxonomia e nomenclatura) e, portanto, os órgãos de que é formado todo o mundo vegetal e a Árvore (dendrologia).

Das áreas geladas das brancas montanhas de neve do Canadá, faz parte essa escultura do Vidoeiro (Bétula celtiberica), espécie que na última glaciação veio até ao vale do Zêzere e lá ficou, entre as moreias na Serra da Estrela.

Em contrapartida, outras folhosas, de folhas diminutas e perenes, mas de áreas quentes e secas, serão os carvalhos do sul (sobreiro-Quercus suber e azinheira-Quercus ilex spp. rotundifolia), abundantes no habitat próprio de Trás-os-Montes e Alentejo (e na serra algarvia), no norte acompanhadas pelo castanheiro (Castanea sativa), enquanto no sul litoral são acompanhados do pinheiro manso "pin parasol" (Pinus pinea), produtora de magníficos pinhões, espécies votadas ao maior desprezo quando se trata de abrir estradas, ou de implantar urbanizações privadas e turísticas, ou mesmo de as fazer submergir com a faraónica e duvidosa barragem do Alqueva com 60 km de regolfo, que foi sepultura de 4 milhões de árvores da flora natural selvagem (mas altamente produtiva), que não passa do maior lago artificial europeu e que é apenas efluente de todo o tipo de poluição do país vizinho onde está a nascente do Guadiana e alguns afluentes, mesmo que lhe tenha sido retida, a montante da fronteira, alta percentagem do seu alto caudal, logo descarregado em tempo de cheias, no país vizinho, como acontece com o Tejo e o Douro e sendo que, mesmo muito bem "arborizadas as margens de qualquer rio", com os rios internacionais e a capacidade de construção de barragens gigantescas, a tendência dos países onde tem origem a nascente, têm tendência para reter a água em tempo seco e de a expulsar em tempo de grandes chuvadas.

Antes das barragens, os países detentores dos estuários possuíam por geo-direito, essa riqueza e, recentemente, são verdadeiras "ETAR" porque a lei internacional não funciona.

Mas voltando ao sobreiro, essa grande árvore centenária, continua a ser objecto de "orgulho" nacional ao dizer-se que dele se produzem as melhores rolhas do mundo de cuja produção é exportada 70% para o champanhe francês, e embora sendo desde há muito a árvore mais protegida, é diário o noticiário sobre o abate ilegal e legalizado de centenas de sobreiros, mesmo existindo na administração pública ministro do ambiente desde 1975.





Sobre a fundamental investigação agronómica

E destaca-se o actual total desinteresse pela investigação agronómica, que já teve tempos áureos no país a partir da primeira metade do século passado, tanto em solos (primeiras cartas de solos mundiais em paralelo com a classificação americana), de que foi pioneiro no mundo Botelho da Costa, um velho professor meu, como em outras matérias: na Estação de Citricultura de Setúbal (actualmente grande urbanização sem qualquer memória das famosas laranjas de Setúbal) com o director Eng.º Henrique Roovers da Costa Neves; na Estação de Pomicultura (e sobreiro) de Alcobaça com o investigador Eng.º Vieira da Natividade (sem qualquer memória da produção e variabilidade de fruteiras); e ainda na Estação Agronómica Nacional em Oeiras fundada pelo agrónomo Sousa da Câmara. Todas elas com os dias contados desde há apenas 20 anos.

O grande mosaico paisagístico do país desapareceu, correspondente às suas 33 regiões-naturais (classificação de Ribeiro Telles), apesar da diminuta superfície do país, adentro das 11 províncias administrativas, desaparecendo os muitos saberes de muitos homens ilustres a par dos saberes dos habitantes rurais, desaparecendo a grande riqueza da terra (e do mar). Morreram sem direito a Requiem. Deram lugar ao economicismo patético e demolidor dos bens naturais nacionais, riqueza primordial impedida de se desenvolver e de dar continuidade à identidade nacional primordial e a todos nós descendentes desses habitantes nativos que já existiam quando da invasão Romana, resistindo ainda mais de 1000 Castros na região Porto-Braga, mosaico paisagista humanizado não apenas no tratamento da terra mas também na construção desses "cidades" de pedra de planta circular e telhado de colmo e das Ermidas também de granito.





Ainda sobre folhosas e resinosas

Como árvore igualmente folhosa e perene lembremos a Alfarrobeira sobretudo algarvia, que pode ser milenar, de que, igualmente, não se soube retirar proveito excepto na aguardente feita a partir dos seus frutos, que, na Europa, são importados para alimentação, sobretudo na doçaria. Nada português é matéria-prima, ponto de partida de indústrias agro-alimentares, excepto para "lenha para lareira" ou, de preferência, para betuminoso e betão.

O sistema vascular das resinosas, primário, a composição orgânico-mineral e a pequenez desses elementos aéreos de superfície mínima e rija (agulhas e/ou escamas), faz com que necessitem de pouca, muito pouca água e aguentem calor sem transpirar, o que não significa que não sejam frágeis, e tal que não vegetam, em geral, nem em solo demasiado húmido embora precisem de chuva mas com solos de boa drenagem interna para não reterem água originando apodrecimento do sistema radicular (têm como habitat essencial as montanhas e vertentes que as protegem das derrocadas e são o principal responsável pela infiltração das chuvadas).

As resinosas não vegetam em boas condições em espaço urbano, excepto bem acompanhadas em conjuntos em Jardins, ou em áreas urbanas de clima frio e ar puro, como é o caso por exemplo de Trancoso, que acaba, neste mês de Novembro 2006, de ser escolhida para o primeiro projecto europeu, pioneiro, de "cidade-ecológica" – ora que boa notícia.

Quase exclusivamente são árvores de folha perene ou sempre-verde, excepto duas ou três excepções como é por exemplo o caso do Taxodium disticum e da Akea sp. Mas como qualquer indivíduo do mundo vegetal, sem no entanto perder a sua bela copa, deixam ao longo do ano cair na terra folhas, raminhos, frutos e sementes que se vão biodegradando com o auxílio dos microorganismos do solo (terra-viva), sendo que a folhada (elementos separados da planta mãe mas ainda reconhecíveis) se vai decompondo e formando húmus ácido (moor).

A este grande grupo "opõem-se" as folhosas, quase todas de folha caduca (no Outono e de que as magnoleáceas serão excepção porque são sempre-verdes), altamente ricas nos seus componentes minero-orgânicos e cuja folhada ou manta morta constitui um denso e macio tapete que o tempo biodegrada e dá origem ao húmus doce ou alcalino (mull).





Das formas das árvores aos jardins

As copas têm as mais variadas formas bem como as folhas sempre macias e mesmo frágeis, simples ou compostas e mesmo re-compostas, de muito pequena dimensão como as dos belos jacarandás de flor lilás em junho, ou as das magníficas e gigantescas faias de folha verde ou rubra, os plátanos tão acusados de provocar alergias com os seus frutos múltiplos de aquénios, ou as enormes folhas das pequenas Catalpa bignonioides ou, ainda, as esplendorosas tílias de cujas flores nos habituámos a beber chá e a usufruir a sombra à porta de casa ou beneficiar da luz coada como que por abat-jour, e que têm, algumas, folhas em forma de coração (Tília cordata), ou a levar para casa aqueles molhos de frutos com forma estranha de di-sâmaras, que escondem e protegem as suas sementes, muito pequeninas, que precisam daquelas grandes "asas" para que o vento as leve muito longe, para povoar os territórios e a vida se desmultiplique em segurança.

E se por acaso se gostar de ouvir o vento, que melhor ocasião e lugar do que entrar numa floresta (ou mesmo mata ou parque e jardim) e ouvir a música das folhas e ramos que se entrelaçam e quase agridem, bem como não haverá melhor lugar para ouvir a música do total silêncio e ficarmos ali, parados, como que integrados naquele lugar e de alma consolada na companhia daquelas irmãs-de-vida.






Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrada nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do Inverno o vento do verão
o vento é o maior veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

O valor do vento
Ruy Belo - Homem de palavra, 1978


PLANTAI ÁRVORES


PLANTAI VIDA







Lisboa 28 de Outubro a 8 de Novembro - Bairro de Santo Amaro

Maria celeste d'Oliveira Ramos
Engª. silvicultora e arquitecta-paisagista

Revisto para publicação no Infohabitar e re-ilustrado por António Baptista Coelho (figuras), em 11 de Fevereiro de 2007. Editado por José Baptista Coelho em 15 de Fevereiro de 2007

Nota de editor:
Acaba aqui a primeira parte deste novo excelente e grande artigo de Celeste Ramos que, na próxima semana terá conclusão, também aqui no Infohabitar com a “A árvore suporte do mundo no espaço urbano (II) – das árvores/jardins”.
Este artigo corresponde ao texto-base de uma conferência que foi proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.


Alguns sites que “falam” de árvores:

http://www.dias-com-arvores.blogsopt.com/

http://arborday.org/trees/majTreesMain.cfm

http://asiatours.net/press/en/images-laos.html

http://www.europanostra.org/images/awards_2004_winners/buckelwiesen2.jpg

http://fount-k.com/~tomo/sumb/yun_2654.jpg

http://www.owlfish.com/weblog/2004/10/toronto-autumn.jpg

http://www.britishacorn.com/tourism/sandalwood/index.html

http://www.fireflybooks.com/travel/new.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Jakarta_silhouetto.jpg