quarta-feira, agosto 18, 2010

308 - Percepção rápida da QUALIDADE: Conjunto habitacional premiado no Calhariz de Benfica - Infohabitar 308

Infohabitar, Ano VI, n.º 308
Percepção rápida da QUALIDADE:
Conjunto habitacional premiado no Calhariz de Benfica
artigo de Luís Manuel Jorge Morgado

A visita



Calhariz de Benfica, Lisboa, 13 de Maio às 10 horas da manhã, com algumas nuvens, ameaços de chuva e pontuais abertas. Identifico o conjunto residencial. Preparo-me para uma rápida inspecção, pois o tempo disponível é pouco. Com os conceitos de qualidade arquitectónica residencial presentes percorro-o primeiro pelo exterior. Entro depois no miolo do bairro. Observo de uma forma sistemática. Analiso os pormenores. Sinto os ambientes. Vou disparando a máquina fotográfica...


Fig. 01

Sou observado com atenção pelos poucos residentes que encontro. Sinto-me um forasteiro num território que não é meu. Cumprimento-os, devolvem-me educadamente o gesto e continuo. Vou novamente para o exterior e sou abordado por um homem que recolhe papéis para um saco de lixo:

- O que é que anda aqui a fotografar? - Pergunta-me desconfiado.
- Bom dia, sou arquitecto, estou a fazer um estudo...


- Ah, não é da Gebalis?


- Não! Estou a tirar fotos para fazer um pequeno trabalho para a Universidade.

- Ah...

- Vive aqui não é!? O que é que acha deste conjunto? - Atrevo-me eu.

- Do quê?

- Qual é a sua opinião sobre o bairro, os edifícios, os espaços exteriores?


- É tudo uma merda!


- Como?... - Fico desconcertado.

- É tudo uma merda percebe! Olhe, a água infiltra-se por aqui e vai para o quadro eléctrico. As pessoas são muito porcas. Os miúdos pintam as paredes. Sou eu, que sou pintor que depois estou sempre aqui a limpar. Vem um cheiro horrível das garagens.

- Mas olhe que para mim que sou de fora, isto tem muito bom aspecto. Deve ser agradável viver aqui, tem árvores, é arejado, os edifícios são bonitos.



- Pois tem coisas boas... Reconhece ele mudando o tom.

- E as habitações, as casas, o que é que acha?

- Isso... é bom! Quer ver, sou eu que trato de tudo - abre a porta de entrada do átrio do seu edifício. Tudo muito limpo, muitos vasos, uma passadeira até às escadas.


- Muito bem cuidado... muito bonito, digo eu.

- Mas sou só eu que trato, os meus vizinhos não fazem nada.

Saímos do átrio e continuamos a falar. Diz-me que há só algumas lojas a funcionar, a maioria está vazia. Diz que não percebe porque é que não se usam as garagens. Uma das lojas é ocupada pela Santa Casa da Misericórdia que acusa de ter derrubado os pinos para entrarem automóveis para o interior do quarteirão que deveria ser só para pessoas. Diz que os carros destroem os pavimentos, os sumidouros e a calçada que não foi feita para suportar este peso todo.
Pergunto-lhe se as "praças" não são agradáveis. Aquela onde estamos tem uma bela árvore e bancos para nos sentarmos. Pergunto-lhe também se há muitas crianças.

- Se não fossem os carros... Mas à tarde andam aqui muitos miúdos a jogar... para quem tem filhos é bom!
Despeço-me e ele diz-me novamente que é pintor e continua a apanhar papéis para o saco que depois deita para o lixo. Continua a observar-me e aproxima-se.

- Escreva lá o que está mal...e dá-me um aperto de mão.
Dou-lhe os parabéns pela forma como trata do seu belo bairro.


Fig. 02

Conclusão
Numa visita rápida pelo exterior do conjunto habitacional prémio INH municipal de 2002, no Calhariz de Benfica verifiquei as seguintes marcas evidentes no domínio da qualidade arquitectónica residencial:

- Identidade muito marcada pela imagem forte da arquitectura e pela harmonia do conjunto. Promove a agradabilidade geral dos habitantes que se poderão orgulhar de viver num bairro tão singular.

- A identidade é potenciada pela própria topografia que ajuda a individualizar o território. Os limites são marcados claramente pelos volumes e pelos espaços exteriores. Há um controlo natural do que se passa nos espaços públicos interiores promovendo um sentimento geral de segurança.

- As morfologias do quarteirão, fechado, semi-fechado, e "sugerido", criam condições que propiciam a convivialidade. O tratamento dos espaços exteriores, a existência de árvores, bancos e outros equipamentos promovem o seu uso.

- Nota-se que a arquitectura suscita formas de apropriação provavelmente não previstas pelos projectistas, mas que são positivas naquilo que têm de gestos autênticos de valorização do ambiente residencial.

Como nota final, detectam-se algumas disfunções, nomeadamente no que diz respeito à gestão e uso do espaço: Automóveis a estacionar no miolo pedonal dos quarteirões; destruição de arranjos exteriores pelos automóveis; garagens sem uso; espaços de piso térreo desocupados; algumas apropriações negativas de zonas de estendal para além das previstas; vestígios de vandalismo (vidros partidos, escritos em paredes); e finalmente as fachadas apresentam-se com as colorações desbotadas, o que transforma em negativo aquilo que constitui de início uma marca de identificação positiva.


Autoria do projecto de Arquitectura dos 91 fogos na Travessa do Sargento Abílio
Arquitecto Paulo Tormenta Pinto
Promotor: Município de Lisboa
Construção: 2001

Breves notas do editor:
O autor do artigo, Luís Morgado, é Arquitecto e Professor, cooperou em trabalhos de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), frequenta, actualmente, o Programa de Doutoramento em Arquitectura e Desenho Urbano do DECA do IST.
Este programa de doutoramento em Arquitectura é participado pelo LNEC e especificamente pelos doutorados do seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU), com participações do seu Núcleo de Ecologia Social (NESO).


Advertência ao leitor Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 308
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 18 de Agosto de 2010


terça-feira, agosto 10, 2010

307 - ATRACTIVIDADE E AGRADABILIDADE – RESIDÊNCIA MADRE MARIA CLARA - OUTURELA - Infohabitar 307



Infohabitar, Ano VI, n.º 307
Artigo de João Rainha Castro

Situado na Portela de Carnaxide, numa malha urbana de bairros de cariz social e equipamentos públicos que os servem, o Centro de Dia e Residência para Pessoas Idosas implanta-se como um edifício diferenciador e até singular.





Fig. 01

O edifício funciona como um contraponto ao carácter arquitectónico do bairro residencial e tenta estabelecer um forte sentido de identidade arquitectónica para as comunidades vizinhas, através dos seus materiais particulares, coloridos e texturados.




Fig. 02

O piso térreo é construído por ardósia preta que contrasta com a transparência de vidros grandes dos espaços sociais e públicos. As 60 habitações dispostas no sentido sudoeste-nordeste são distribuídas por quatro pisos, ligados por um espaço central flexível, permitindo pontos de encontro entre utilizadores e visitantes. A circulação e vazios que se criam são parte integrante da estratégia bioclimática pensada para o edifício, a par de um jardim exterior tem a funcionalidade de ser como que uma extensão do espaço público quando este é aberto, procurando desta forma ser também elemento capaz de desenhar espaço público entre as várias tensões urbanas que estão presentes na paisagem.




Fig. 03

É esta aptidão para atrair, cativando a atenção sobre si, desenvolvendo um meio residencial cuidado, atraente e singular que nos permite conferir a atractividade como característica muito presente no empreendimento na Portela. Neste equipamento é evidente o cuidado formal, estético e criativo, recorrendo ao ritmo das fachadas e à cor, características visuais fortes e muito presentes, para promover um construído capaz de marcar o território, desenhando um objecto quase que iconográfico num local de génese social com inúmeros blocos de habitação que são a antítese da aposta realizada no equipamento em apreço. A capacidade criativa e iconográfica da composição construída, bem organizada no lote, desenhando todos os espaços com igual rigor e não deixando nenhum elemento ao acaso >> unificando, traduz-se num equipamento onde a característica atractividade é presença constante.



Fig. 04

No equipamento em apreço esta característica complementa-se e é celebrada com uma outra característica >> agradabilidade arquitectónica residencial, tendo sido desenvolvidas e implementadas soluções que não só contribuem como garante do conforto e bem estar material e funcional, como desenham espaços salubres, cómodos e aprazíveis para o utilizador, onde a multiplicidade de condições naturais de conforto ambiental foram consideradas, abordadas e implementadas na arquitectura como estratégia de trabalho.

É evidente que desde cedo a adequação climática foi uma preocupação, implantado o edifício sobre o eixo Sudoeste-Nordeste, numa estratégia urbana e arquitectónica de promover a entrada de luz natural não só nas habitações como nas circulações, ainda que controlando a entrada do sol de forma cuidada. De igual forma, o edifício desenha-se perpendicular ao eixo da via, minimizando assim a exposição aos ruídos exteriores.






Fig. 05

A existência de um pátio que se abre para um amplo jardim com elementos naturais como árvores e plantas (abertura paisagística) permite a implementação de um ambiente familiar/acolhedor, que se alia ao desenho cuidado de todos os espaços garantindo o conforto ergonómico e funcionalidade do equipamento. Ainda de referir que a ventilação natural dos espaços de circulação é assegurada.




Fig. 06

O Centro de Dia e Residência para Pessoas Idosas é um exemplo cuidado onde se vislumbram com evidência duas características correlativas ao conforto e aspecto da qualidade arquitectónica residencial >> atractividade e agradabilidade



Fig. 07

Autoria do projecto de Arquitectura da RESIDÊNCIA MADRE MARIA CLARA
Arquitectos Cristina Veríssimo, Diogo Burnay e Patrícia Ribeiro; e Arquitecta Paisagista Inês Norton de Matos Promotor: Município de Oeiras
Construtor: Mota Engil, SGPS, S.A. Construção: 2007

Breves notas do editor sobre o presente artigo:


O autor, João Rainha Castro, é Arquitecto Partner do Gabinete QUADRANTE Arquitectura, licenciado em Arquitectura em 98-2003 no Instituto Superior Técnico (IST), frequenta, actualmente, o Programa de Doutoramento em Arquitectura e Desenho Urbano do DECA do IST.

Este programa de doutoramento em Arquitectura é participado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil e especificamente pelos doutorados do seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU), com participações do seu Núcleo de Ecologia Social (NESO).

Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são pro postos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 307
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 10 de Agosto de 2010




domingo, agosto 01, 2010

306 - Apresentação e Programa do 1.º Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono - 1.º CIHEL - Infohabitar 306

Infohabitar, Ano VI, n.º 306
1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono
Desenho e realização de bairros para populações com baixos rendimentos

22, 23 e 24 Setembro 2010,
Lisboa, Centro de Congressos do ISCTE – IUL,

de 20 a 22 de Setembro decorrerá um Workshop sobre o tema
INSCRIÇÕES ABERTAS CONSULTE
http://cihel01.wordpress.com/
Próxima data de inscrições: 3 de Setembro




Fig. 01

Estrutura e organização do 1.º CIHEL
Presidente do Congresso: Arq.ª Helena Roseta, Vereadora da Habitação da CML - Câmara Municipal de Lisboa

Comissão de Honra:

Dr. António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa;
Dr. Domingos Simões Pereira, secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP);
Arq. João Rodeia, Presidente da Ordem dos Arquitectos;
Eng.º Carlos Matias Ramos, Bastonário da Ordem dos Engenheiros;
Prof. Luís Reto, Presidente do ISCTE-IUL;
Dr. António José Mendes Baptista, Presidente do Conselho Directivo do IHRU;
Presidente do Conselho Directivo do LNEC.

Direcção:
Doutor Arq.º António Baptista Coelho
- Grupo Habitar (GH) e NAU/LNEC;

Prof. Arq.º Paulo Tormenta Pinto - ISCTE-IUL e CIAAM

Comissão Científica:

Prof. Arq.º António Reis Cabrita (coord.) - GH e LNEC ap.;
Prof.ª Arq.ª Ana Vaz Milheiro - ISCTE-IUL e CIAAM;
Eng.º Defensor de Castro - GH e CidadeGaia – SRU;
Prof. Arq.º José António Bandeirinha - UC e CES;
Investigador Coordenador, Eng.º José Vasconcelos Paiva - GH e LNEC ap.;
Prof. Arq.º Manuel Correia Fernandes - GH e FAUP;
Prof. Arq.º Manuel Correia Guedes - DECA/IST;
Prof.ª Arq.ª Sheila Walbe Ornstein - FAU/USP

Em termos dos apoios existentes destacam-se, nesta fase de preparação dos trabalhos, os do:

ISCTE – IUL Instituto Universitário de Lisboa;
Câmara Municipal de Lisboa;
Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT);
Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design (CIAUD) da FAUTL;
TAP;
SECIL;
e da revista arqa Arquitectura e Arte.





Fig. 02

Este 1.º CIHEL é realizado pelo GH em parceria com o CIAAM e com o DAU do ISCTE – IUL, e contou com a cooperação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo NAU do LNEC e apoios da FENACHE, da FCSH-UNL, do IITU e de professores e investigadores do IST e da FAUUSP.

Os elementos gráficos do 1.º CIHEL foram realizados pelo Curso Profissional de Técnico de Design Gráfico da Escola Secundária de Sacavém.

Com este Congresso pretende-se alargar o debate sobre a Habitação, em sentido amplo, a outras realidades sociais fisicamente distantes mas afectivamente próximas, em que se destaca o mundo dos países lusófonos em geral e os de África em particular, incluindo-se uma reflexão sobre soluções habitacionais muito económicas para situações especiais.

Este 1.º CIHEL é um Congresso que se debruça sobre a qualidade do habitat residencial promovido para populações com baixos rendimentos e mobilizando portanto recursos modestos. O campo de aplicação de tal objectivo tanto pode ser o das pequenas comunidades urbanas periféricas da Europa, nomeadamente mediterrânica, que lutam com problemas de isolamento e escassez de recursos, como pode ser o de todas as comunidades urbanas dos países em desenvolvimento. As futuras exigências de sustentabilidade ambiental, social e económica aproximam cada vez mais estes dois grupos de populações.


Fig. 03

O tema central do desenho e realização de bairros e agrupamentos residenciais para populações com baixos rendimentos será abordado, no 1.º CIHEL, em 5 conferências e 20 palestras práticas e pouco extensas, por um grupo de oradores provenientes de diversos países da lusofonia, organizadas nas seguintes temáticas:

- Políticas e programas – considerando situações de escala relativamente reduzida e a importância da reabilitação.

- Infraestruturas e equipamentos – considerando perfis de habitabilidade, papel do espaço público e serviços urbanos e sociais.

- Soluções habitacionais e modos de vida – considerando velhas e novas formas de habitar, desejos e necessidades.

- Materiais e tecnologias – considerando aspectos de escassez de recursos e ligados às diversas facetas da sustentabilidade.

Simultaneamente decorrerá uma Exposição, organizada, com painéis ilustrativos de casos práticos e de estudo e uma pequena mostra de materiais e serviços, limitada às instituições e empresas que se disponham a apoiar este 1.º CIHEL.

Um evento desta natureza destina-se aos seguintes tipos principais de intervenientes: Arquitectos lusófonos que tiveram uma vida cheia de acções de pioneirismo e de criatividade, que nos podem dar o seu testemunho, directamente ou por interposta pessoa; jovens arquitectos portugueses que estão no interior do país ou fora da Europa a fazer trabalho básico para o habitat residencial e que seja interessante; Jovens arquitectos lusófonos, nomeadamente do Brasil e dos PALOP’s, que em actividades de projecto de edifícios e de bairros e suas infra-estruturas e equipamentos, mas também na actividade de planeamento e de gestão, estão a resolver problemas e a concretizar obras com qualidade apesar de poucos recursos; Técnicos e investigadores lusófonos e europeus, nomeadamente os mais jovens, que estudam e promovem soluções inovadoras para a habitação, para o habitat residencial em termos de sustentabilidade.

Mais de 60 comunicações passaram um primeiro crivo de análise, das quais 20 foram já seleccionadas para apresentação oral, sendo que as outras serão editadas e apresentadas em posters no âmbito do Congresso. Salienta-se que, tal como é referido no site do 1.º CIHEL, a inscrição confere o direito à participação nos trabalhos específicos do 1.º CIHEL, "intervalos/café” e acesso à documentação- base, a definir, salientando-se que a existência de documentação complementar poderá ser objecto de pagamento específico.


Fig. 04

Este é um 1º Congresso a que se deverão seguir outros Congressos e outras actividades sobre outros enfoques complementares, e mesmo em outras áreas temáticas específicas, mas sempre numa perspectiva directamente ligada a uma expressiva contribuição teórica e prática para a melhoria das condições do habitar, considerado num sentido correcto e amplo, no âmbito das diversas realidades, carências e potencialidades que caracterizam o espaço da lusofonia. Pretende-se criar, na sequência deste 1º Congresso, um grupo, ou uma rede, para assegurar o próximo Congresso e desenvolver outros eventos nestas matérias.

Para inscrição ou mais alguma informação, consultar o site do 1.º CIHEL http://cihel01.wordpress.com/, e/ou contactar o respectivo Secretariado: Departamento de Arquitectura e Urbanismo ISCTE – IUL, Ala Autónoma, Sala 335, Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, tel. +351 21 7903060, cihel01@gmail.com

Estamos num momento crucial na organização do 1.º CIHEL, estando a estrutura logística de base totalmente garantida, será, no entanto, ainda possível participar no apoio ao 1.º CIHEL através de patrocínios, que poderão revestir modalidades e contrapartidas a discutir em pormenor, considerando formas habituais de desenvolvimento deste tipo de iniciativas.

A rematar este texto de apresentação edita-se o programa completo e actualizado do 1.º CIHEL .

Fig. 05:

Programa actualizado do 1.º CIHEL em Julho de 2010

O 1.º CIHEL – Congresso Internacional (da) Habitação no Espaço Lusófono – desenho e realização de bairros para populações com baixos rendimentos a realizar de 22 a 24 de Setembro de 2010, terá a duração de três dias; o Congresso será antecedido, por um Workshop.

Salienta-se, ainda, que o 1.º CIHEL será realizado no Centro de Congressos do ISCTE-IUL, no seu principal auditório, uma excelente sala com cerca de 500 lugares, estando ainda reservadas salas de apoio complementares, incluindo uma ampla sala de exposições; mais se salienta que o edifício onde se irá realizar o 1.º CIHEL tem uma atraente caracterização arquitectónica, é da autoria do Arq.º Raúl Hestnes Ferreira e foi Prémio Valmor, encontrando-se numa zona central de Lisboa, junto a Entrecampos; e possuindo, portanto, excelentes acessibilidades.

Apenas a título de exemplo juntam-se, em seguida, algumas imagens do edifício onde decorrerá o 1.º CIHEL, imagens estas que foram retiradas do site do respectivo autor, João Morgado, que em seguida se refere, salientando-se que a menor qualidade destas reproduções nada tem a ver com a excelente qualidade das imagens originais.
Convidam-se então os leitores a passearem pelo edifício do ISCTE através da excelente reportagem fotográfica de João Morgado facilmente acessível clicando em: http://www.photo.joaomorgado.com/portfolio/isctecomplex/


Fig. 06: Imagens do edifício e do auditório do ISCTE - IUL onde se realizará o 1.º CIHEL, imagens retiradas do site de João Morgado, http://www.photo.joaomorgado.com/portfolio/isctecomplex/

PROGRAMA DO 1.º CIHEL
(em fase de confirmação no que se refere à confirmação da presença dos respectivos autores na apresentação das comunicações/palestras)

22 a 24 de Setembro de 2010, no Centro de Congressos do ISCTE – IUL, Lisboa
DIA 22 – ABERTURA DO CONGRESSO
14.30h/16.30h – Inscrições e entrega de documentação, balcão da entrada (Edifício II)

16.30h/18h – Grande Auditório: Sessão de Boas Vindas e apresentação do Congresso: Prof. Doutor Luís Reto (Reitor do ISCTE-IUL); Prof. Doutor Arq.º Vasco Moreira Rato (Director do DAU do ISCTE-IUL); Doutor Arq.º António Baptista Coelho (Presidente do Grupo Habitar e Ch. NAU do LNEC.)

Sessão de Abertura - por membros da Comissão de Honra (a definir)

Abertura formal do Congresso – Arquitecta Helena Roseta, Veradora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa, Presidente do 1.º CIHEL (a confirmar)

18h/19h – Grande Auditório: Palestra Magistral proferida pelo Arquitecto João Filgueiras Lima (LELÉ) sobre o tema do Congresso.
Apresentação: pelo Prof. Doutor Arq.º Paulo Tormenta Pinto (Presidente do CIAAM)
19/20h – cocktail

DIA 23 – TEMAS A e B
9h/9.30h – Inscrições e entrega de documentação, balcão da entrada (Edifício II)

Sessão/tema A – Políticas e programas – considerando situações de escala relativamente reduzida e a importância da reabilitação.
9.30h/11h
Grande Auditório: Mesa: Presidente, a convidar; Moderador, membro da Comissão Científica.Conferência de Abertura – pelo Professor Doutor Arquitecto António Gameiro, Bastonário da Ordem de Arquitectos de Angola – conferência sobre o actual desenvolvimento urbano e habitacional em Angola. Comunicações/palestras:

Margareth Matiko Uemura e Lizete Maria de Rubano - “Política Urbana e Habitacional e Gestão da Cidade “

João Pedro e José Jorge Boueri – “Exigências de espaço aplicáveis à construção de habitação de interesse social: comparação entre Portugal e Município de São Paulo”

11h/11.30h – Intervalo

Comunicações/palestras:

Maria Tavares - “HE.FCP*: uma Perspectiva Estratégica [nos anos 50 e 60 em Portugal]“

Marluci Menezes e Álvaro Pereira – “O Problema Social da Habitação: Princípios para um
Programa de Investigação-Acção”

12.30h/13.00h – Debate

13.00h/14.30h – Almoço (livre)

Sessão/tema B – Infra-estruturas e equipamentos – considerando perfis de habitabilidade, papel do espaço público e serviços urbanos e sociais.
14.30h/16h – Grande Auditório

Mesa: Presidente, a convidar; Moderador, membro da Comissão Científica.

Conferência de Abertura – pelo Professor Arquitecto Paulino Pires, da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane – conferência sobre a problemática habitacional em Moçambique.
Comunicações/palestras:

Lizete Maria Rubano, Luiz António Recamán Barros e Lucas Fehr – “Uma Ação na Cidade: Urbanização em Áreas Urbanas Críticas”

David Manuel Leite Santos Viana – “A Habitação low-cost [in]formal entre a Infra-Estrutura e a Super-Estrutura”

16h/16.30h – Intervalo

Comunicações/palestras

Nirce S. Medvedovski, Lígia Chiarelli, Sara Roester e Mateus Coswing - “Inserção urbana e terciarização da gestão nos projectos de empreendimento PAR”

Izabela Naves Coelho Teobaldo – “A Morfologia Urbana como Instrumento de Análise do Espaço Construído e Vivenciado”

Dina de Paoli – “O Desenho Urbano na Visão dos Moradores de Conjuntos Habitacionais de Interesse Social: Projeto INOVAHABIS e o Relatório ‘Sense of Place’”

17.30h/18.00h – Debate

DIA 24 – TEMAS C e D
Sessão/tema C – Soluções habitacionais e modos de vida – considerando velhas e novas formas de habitar, desejos e necessidades.
9h/11h – Grande Auditório

Mesa: Presidente, a convidar; Moderador, membro da Comissão Científica.

Conferência de Abertura - pelo Arquitecto Estanislau da Silva Ferreira, Assessor do Ministro das Infra-estruturas da Guiné-Bissau – conferência sobre a problemática da habitação sob o ponto de vista social na Guiné-Bissau.
Comunicações/palestras:

Mário Márcio Santos Queiroz e Tatiana Leal Andrade – “A Participação Acadêmica na Formulação de Proposta de Requalificação Técnica de Áreas Urbanas e Edificações em Comunidades Subnormais, com Prerrogativas da Lei Federal Nº 11.888/08″

Walter José Ferreira Galvão e Sheila Walbe Ornstein - “Edifícios de Apartamentos da Década de 50 no Centro da Cidade de São Paulo, Brasil. Perspectivas de Adequação aos Modos de Vida Contemporânea”

11h/11.30h – Intervalo

Comunicações/palestras:

Paula Petiz – “Sobre a “Noção” de Espaço Intermédio em Contexto de Realojamento – Algumas Reflexões. Conjunto Habitacional de Monte Espinho”

Simone Barbosa Villa – “A APO como Elemento Norteador de Práticas de Projeto de HIS. O Caso do Projeto (Mora)”

Marta Cruz – “Configurações Espaciais e Familiares na Habitação Unifamiliar Contemporânea. O Caso da Cooperativa de Habitação Económica O Lar do Trabalhador”

12.30h/13.00h – Debate

13.30h/14.30h – Almoço

Sessão/tema D – Materiais e tecnologias – considerando aspectos de escassez de recursos e ligados às diversas facetas da sustentabilidade.
14.30h/16h – Grande Auditório

Mesa: Presidente, a convidar; Moderador, membro da Comissão Científica.

Conferência de Abertura – pelo Arquitecto José Dias, que durante 20 anos desenvolveu actividades na área da habitação social no Instituto da Habitação de Macau – conferência sobre o tema pensar a habitação a partir da experiência de habitação social em Macau.
Comunicações/palestras:

Rachel Falcão Costa – “Projecto HABITA VIDA: a Aliança entre o RESGATE DE Técnicas Construtivas Tradicionais, a Utilização de Recursos Disponíveis e Tecnologia Social Específica como um dos Caminhos possíveis para a Melhoria da Qualidade da Habitação Popular e do Espaço Quotidiano”

Juan Mascaró – “Habitação Popular: uma Oportunidade para o Uso de Tecnologia Adequada”
16h/16.30h – Intervalo

Comunicações/palestras:

Maria Fernanda da Silva Rodrigues, José Cardoso Teixeira e José Claudino Cardoso “Estado de Conservação de Edifícios de Habitação a Custos Controlados”
Adriana Gelpi e Rosa Maria L. Kalil – “Habitação de interesse social & sustentabilidade: o caso de Passo Fundo, RS, Brasil”

Rita de Cássia Silva Sant´Anna Alvarenga, Délia Porto Fassoni, Carlos Alexandre Braz de Carvalho, Larissa Almeida Miranda, Paulo César Moreira Pinto Júnior e Eduardo D. Paula Junior - “Avaliação do Potencial do Grits como Material de Construção na Produção de Tijolos de Solo-Cimento”
17.30h/18.00h – Debate

Sessão de encerramento do Congresso

18.00h/19.00h – Grande Auditório

Mesa: Presidente, a convidar; Moderador, membro da Comissão Científica.

Pequenas intervenções por inscrição prévia
Palavras finais – pelo Prof. Arquitecto António Reis Cabrita, Presidente da Comissão Científica do 1.º CIHEL.

Fig. 07

Para inscrição ou mais alguma informação, consultar o site do 1.º CIHEL http://cihel01.wordpress.com/
e/ou contactar o respectivo Secretariado: Departamento de Arquitectura e Urbanismo ISCTE – IUL, Ala Autónoma, Sala 335, Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, tel. +351 21 7903060, cihel01@gmail.com
António Baptista Coelho (GH e LNEC)
Paulo Tormenta Pinto (ISCTE-IUL e CIAAM)
António Reis Cabrita (Comissão Científica)


Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 306
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 1 de Agosto de 2010

domingo, julho 25, 2010

305 - Olivais Norte: modernismo e natureza (i) - Infohabitar 305


Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Sobre a integração da arquitectura modernista: Algumas notas introdutórias a propósito do tema da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa António Baptista Coelho

Advertência ao leitor
Faz-se, em primeiro lugar, a seguinte advertência ao leitor: as breves notas que se seguem, e que abordam de uma forma podemos dizer “exploratória” a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, não pretendem ser: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma análise arquitectónica, ainda que parcial, do mesmo bairro; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.
Aproveita-se para sublinhar que qualquer uma das três análises que acabaram de ser referidas é, hoje em dia, vital e muito pertinente, pois já é tempo de se avançar na clarificação de alguns aspectos da Arquitectura e da satisfação residencial que tanto tocam os aspectos de concepção/projecto, como os rumos dessa satisfação, encontrando-se, afinal, alianças reais, mas, à partida consideradas pouco prováveis, por exemplo, entre linguagens formais despojadas e agrado vivencial; considera-se. no entanto,que estas são matérias a desenvolver noutros textos.
Fiquemos então com algumas breves notas sobre o que se considera ser a excelente integração natural e em termos de imagem urbana, proporcionada pelos exemplos de arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa.



Fig. 01: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

A perspectiva de leitura/análise adoptada


A perspectiva de leitura, talvez mais até do que de análise, que foi adoptada, foi a do indivíduo que passeia pelos espaços exteriores do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em seguida designado apenas por Olivais Norte, ou mesmo, apenas por bairro. Naturalmente que a formação desse deambulador não se pode descartar, mas tenta-se remetê-la para uma segunda linha, o que fica sublinhado até pela opção de não se referirem nomes de projectistas e datas de projectos e de obras, matéria que será referida noutros textos, embora se aponte, desde já, uma bibliografia sumária, sempre útil aos mais interessados.



Fig. 02: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Tipos de imagens mais frequentes e/ou dominantes


Quem deambula pelo bairro e não se perde, até porque não é fácil “perdermo-nos” em Olivais Norte, tanto pela equilibrada dimensão global do bairro, como devido a ter ele uma estrutura organizativa muito clara, está muito disponível para poder ser impressionado por imagens/enquadramentos que vão surgindo, e que tanto podem ser:

. dominantemente edificados;
. como expressivamente naturais e associados neste caso ao verde urbano;
. como fortemente marcados por fusões de massa edificada e verde urbano;
. como ainda por extensões espaciais e paisagísticas que nos inculcam sentimentos fortes em termos de espaços e ambientes amplos e caracterizados.


Podemos, naturalmente, considerar - e esta ideia aqui escrita exige um conhecimento prévio e directo, ainda que mínimo, do bairro – que nele se oferecem imagens globais – vistas “panorâmicas” (embora delimitadas, e a este tema já voltaremos) – e sequências de imagens, globalmente caracterizadas pela presença do verde e da natureza, que podemos até designar mais desta forma do que de “verde urbano”, na perspectiva em, que este último será, porventura, um verde mais “educado”, confinado e ordenado (por exemplo em filas de árvores de arruamento em caldeiras e ao longo das ruas).

Enquanto que em Olivais Norte o verde está, aparentemente, “livre”, orgânica e aparentemente desordenado e naturalmente dialogante com a massa edificada; e diz-se “aparentemente”, porque bem sabemos que este verde foi global e pormenorizadamente planeado e desenhado, não só nas suas implantações e misturas específicas, mas também nas formas e ambientes prospectivos que iriam assumir ao longo de dezenas de anos – mais um tema para um outro texto, sem dúvida, mas aqui precisa-se de um colega paisagista.

Temos assim, para sintetizar, uma natureza dominante, que poderemos designar de “bairro jardim”, designação, como sabemos, comum, mas que seria interessante substituir por algo do género “bairro parque” ou “bairro verde”; não sei, porque até continuo a gostar mais do termo bairro-jardim, embora neste caso talvez um bairro-jardim orgânico, ou mesmo um jardim romântico, embora sem quaisquer dos aspectos, relativamente, artificiais, habitualmente embebidos na fábrica do “jardim romântico” – de certa forma o romantismo aqui liga-se à afectividade e envolvência dos ambientes criados, uma matéria à qual tentaremos voltar neste artigo.

Mas, caros leitores, quando deambulamos pelos passeios, pelas sendas, pelos caminhos e pelos relvados/prados de Olivais Norte, somos tão impressionados por essa componente natural/verde, como pelos próprios edifícios, numa alternativa de leitura que pode variar, e varia, por vezes, de instante a instante, e que, provavelmente é uma das matérias-chave das ideias apontadas neste pequeno texto.



Fig. 03: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

O "prédio" na natureza, ou o edifício na natureza
O subtítulo que acabei de usar foi escolhido, exactamente, para tentar aproximar-me da sensação que tive, há alguns meses, numa das minhas frequentes deambulações pelo bairro, ou talvez pelo espaço “urbano verde” que o integra (ideia que me ocorreu ao correr das teclas numa não-ocasional inversão da ideia de “verde urbano”).

Estava, portanto, passeando numa vereda perto dos limites, ou melhor dito, do limiar (bem activo), entre Olivais Norte e a malha maior da Encarnação, quando deparei com a imagem-tipo do edifício embebido no verde, ou talvez deva desde já dizer do edifico modernista em total integração com uma natureza reconfigurada; e passou-me pela cabeça a ideia que há uma grande distância entre a ideia, considerada óbvia, de que a arquitectura modernista é, por “natureza” uma arquitectura da relação com a natureza e da “cidade jardim”, uma ideia que, depois, se aponta ter “x” problemas, desde os sociais aos económicos, embora se possa considerar até plasticamente positiva, e uma ideia real, sentida, experimentada e vivida, por exemplo, no nosso “bairro jardim” mais paradigmático e puro que é Olivais Norte, construído há cerca de 50 anos e aparentemente com uma expressiva continuidade de clara adesão de quem lá tem vivido desde então.

Naturalmente que nestas relações há que ir mais fundo do que pela “imagem”, mas fiquemos para já, neste texto, um pouco por aí, pois a imagem e a leitura que ela permite e suscita é algo muito importante para quem passeia e vive na cidade.





Fig. 04: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Algumas reflexões sobre aspectos formais

Abordam-se, em seguida, sinteticamente quatro aspectos: a questão da escala global e pormenorizada da intervenção; a questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença; e a questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada.
Tentemos abordar, ainda que brevemente e de forma exploratória, estas quatro questões/características na sua aplicação “tipo” em Olivais Norte.



Fig. 05: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(i) A questão da escala global e pormenorizada da intervenção, realizada no bairro: sobre esta matéria, quem visite Olivais Norte com o tempo necessário para poder passear pelo bairro com calma – e quaisquer duas/três horas permitem um conhecimento mínimo –, terá a noção de uma intervenção baseada numa escala edificada e numa edificação caracterizadas por uma forte relação com a dimensão e o uso humanos, aspectos estes presentes em inúmeras situações de pormenor e de relacionamento entre edifícios, entre edifícios e espaços exteriores e entre espaços exteriores.

Ora uma tal condição é, à partida, veículo privilegiado para poder haver uma atenção especial e focada dos habitantes/utentes relativamente às imagens urbanas e paisagísticas propiciadas no bairro e pelo bairro; atenção esta que é o primeiro passo para se estabelecerem relações imagéticas, funcionais e ambientais entre edifícios e natureza.



Fig. 06: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(ii) A questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença, no bairro e de certa forma uma questão central nas intervenções “modernistas”: sobre esta condição o que importa referir, à partida, é que mais do que visar a concepção de edifícios e de espaços exteriores específicos, se visou, em Olivais Norte, a “construção” de vizinhanças coesas de edifícos e de espaços exteriores, coesas, porque complementares e atraentemente contrastantes; e afinal não foi por se terem privilegiado as vizinhanças, ou os conjuntos de micro-urbanismo, que se proporcionou menos atenção às obras de Arquitectura e de Paisagem; não senhor, antes pelo contrário, do reforço da vizinhança e do micro-urbanismo salientaram-se e salientam-se hoje em dia as excelentes obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem.

E assim se entende melhor que se criaram as condições relativa ou potencialmente ideais para se salientar a relação e o interesse da relação entre essas obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem, e então como tais obras foram marcadas, sistematicamente, pela excelência “individualizada”, o conjunto, ou, melhor, os conjuntos multiformes e infinitamente variados em termos de pontos de vista – aspecto este ligado à própria natureza do racionalismo edificado em meio paisagístico – ficam indelével mas afirmadamente marcados por uma qualidade global, que é maior do que a simples soma das partes da qualidade individual das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada.


Fig. 07: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iii) A questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada, que é também uma questão central em todas as intervenções “modernistas” melhor qualificadas ou mais genuínas, e na matéria aqui em consideração, designadamente, na relação entre formas simples e racionais, pormenores depurados e materiais “verdadeiros”, todas estas adjectivações aplicadas aos edifícios (entre outros adjectivos possíveis), e uma natureza recriada com sensibilidade e também com verdade, em termos das formas e das espécies mais adequadas aos locais específicos e às relações globais e particulares com os elementos edificados e construídos com que se devem integrar.

Há que sublinhar, aqui, ter sido esta matéria específica aquela que despoletou, directamente, esta reflexão e esta nossa primeira incursão nesta temática: ter encontrado um edifício tão “simples” e tão bem desenhado, tão bem integrado num espaço natural bem composto e reconfigurado, uma pequena parcela de jardim ou parque orgânico, marcado pelos fundamentais objectivos de se procurar uma simulação reforçada de ambientes naturais característicos (ex., bosque, orla de bosque, prado, etc.).

E daqui resulta que da possível fusão, numa escala de vizinhança, portanto de grande proximidade, entre uma Arquitectura positiva e afirmadamente sóbria e atraente e uma conseguida simulação de um ambiente natural, resulta um efeito final, simultaneamente, de grande integração formal entre edificado e natureza, e também de uma insuspeita valorização, quer especificamente desse edificado, quer desse “recanto” natural; afinal, o tema de base que suscitou esta reflexão.


Fig. 08: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iv) Finalmente, mas nunca em último lugar, importa referir a questão da própria qualidade do desenho das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada, uma matéria que é evidente no bairro de Olivais Norte, sítio onde não há, por regra, lugar a arquitecturas edificadas e paisagísticas que estejam abaixo da excelência.

Sobre esta matéria específica muito haveria e haverá a comentar, mas fica sempre a ideia de que quando tratamos de fazer conjuntos urbanos e pequenos bairros de uma cidade que teve história e que quer continuar a fazer história, não deveríamos aceitar um nível arquitectónico exigencial abaixo da excelência, designadamente, quando se desenvolvem conjuntos com dimensão urbana significativa; afinal há um direito à criatividade, sem dúvida que há, mas tem também de haver um direito cidadão a essa excelência urbana e residencial com sentido amplo e de certa forma comsensual, e por aqui ficamos nesta temática para já.

Algumas notas complementares, mas importantes, que ficam por desenvolver

Várias são as questões que podem ser consideradas como formal e/ou funcionalmente complementares a estes aspectos de integração entre modernismo edificado e natureza reconfigurada, mas que, na prática têm tudo a ver com o êxito que se pensa ter sido atingido, pelo menos, neste bairro de Olivais Norte.

Apontam-se em seguida, sumariamente, algumas dessas questões, por regra associadas a determinados aspectos qualitativos, seja de micro-urbanismo, seja de concepção do edifício e da própria célula habitacional privada.


Fig. 09: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Um dos aspectos é haver vida de bairro em Olivais Norte, não sendo por não haver ruas e quarteirões e pracetas que deixa de haver no bairro uma estimulante vida diária, uma matéria que terá a ver, seja com a actual centralidade e a excelente acessibilidade urbana gozada pelo bairro, designadamente, em termos de transportes colectivos, seja com a existência de um pequeno “centro cívico”, verdadeiramente multifuncional e estrategicamente concentrado e bem situado/acessível a pé a todos os moradores do bairro. Mais desenvolvimentos do tema terão de ficar para outros textos.

Outro aspecto é ser necessário fazer contas sobre o que custa a manutenção do verde publico em Olivais Norte. Sem dúvida que será/é uma manutenção dispendiosa, designadamente, nas estações mais quentes, mas atentemos à situação de haver grandes extensões de “erva” e terra sob grandes árvores, onde é quase só necessário limpar, e haver grandes relvados e/ou prados cuja mecanização da manutenção será sempre possível e está já em parte desenvolvida, sendo eventualmente a actual opção por mão de obra intensiva uma escolha que eventualmente poderá visar uma perspectiva de criar mais emprego ainda que com base, eventualmente, em ordenados reduzidos.

O que se aponta aqui é, essencialmente, que há contas a fazer nesta matéria e haverá, provavelmente, lições positivas e negativas a retirar sobre formas de actuação paisagística desenvolvidas no bairro - temática a desenvolver desejavelmente em parceria com um colega paisagista noutros artigos desta série.

Ainda nas áreas da manutenção urbanística seria interessante realizar um estudo comparativo entre o que tem custado a manutenção dos troços viários de tráfego misto e das vias "clássicas" (rodoviárias marginadas por passeios) de Olivais Norte, e o que custa a aplicação corrente e isolada dessa mesma solução "clássica"; é que, pelo menos aparentemente, as referidas vias mistas do bairro parecem estar, em boa parte, intocadas e quase sem precisarem de manutenção desde há cerca de 50 anos.

Outro aspecto é considerar o verdadeiro nível de qualidade de vida e de saúde ambiental que é possível em Olivais Norte; matéria esta com enorme importância numa sociedade actual, marcada pelo stress e pela poluição - temática fundamental a desenvolver.

Outro aspecto a desenvolver refere-se a estarmos em presença de uma dos mais "acabados" e positivos exemplos portugueses de aplicação de uma rede pedonal estruturadora, embora bem conjugada com as vias para veículos, num conjunto residencial com grande dimensão.

E ainda um outro aspecto tem a ver com a verdadeira qualidade de desenho edificado e de “desenho de natureza” que foi aplicada em Olivais Norte, e aqui há necessariamente uma pequena história a fazer e ensinamentos a recolher, numa altura em que será cada vez mais vital assegurar essa qualidade.

Naturalmente estas são matérias a desenvolver e que terão grande importância num fundamentado aprofundamento dos processos que regem a satisfação urbana e residencial.


Fig. 10: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Comentários de remate
A título de remate global sobre a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, sublinha-se o que foi referido no início deste artigo, sobre não se ter pretendido fazer aqui: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma sua análise arquitectónica, ainda que parcial; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.

Deambulou-se pelo bairro, afinal “um bairro”, embora sem ruas com continuidade, sem quarteirões e sem uma afirmada continuidade física com a cidade central, e pensou-se, um pouco, sobre como a sua arquitectura modernista, predominantemente, habitacional constituiu, durante cinquenta anos, portanto durante meio século, e constituirá, muito provavelmente durante muito mais tempo, um verdadeiro trunfo citadino, de vizinhança e edificado com claro sinal positivo, tanto em termos vivenciais, como em termos culturais.

E um trunfo que em breve ficará ainda mais valorizado com a abertura da estação de Metro da Encarnação - e aqui aproveita-se para sublinhar que deveria ser assegurada uma re-estruturação viária e do estacionamento que, após a abertura da estação, garantisse a manutenção de uma paz residencial mínima aos residentes, enquanto, simultaneamente, proporcionasse condições favoráveis de estacionamento a um número significativo de automóveis - e salienta-se que se julga ser possível este tipo de solução e que é tempo de se acabar com intervenções parecelares e desintegradas em termos das condições funcionais oferecidas; é evidente que a abertura de uma nova estação de Metro irá gerar um movimento intenso de veículos de não-residentes e parece ser possível prever acrescidas condições de estacionamento e salvaguardar a paz residencial que constitui parte integrante do carácter do bairro.

Voltando ao tema centtal do artigo, para o concluir, podemos referir que, afinal, parece ser possível fazer “cidade modernista” coesa, atraente e viva; aprendamos pois, um pouco mais, com o muito que há para aprender em Olivais Norte – Encarnação, tanto nos aspectos globais e pormenorizados de concepção, que aqui não foram abordados, como nestes aspectos de relação entre “partidos”, racionalistas, depurados e muito bem qualificados em termos de desenho e uma natureza igualmente bem “desenhada” e com expressiva presença; uma excelente realidade que está, claramente, a “milhas de distância” dos infelizmente frequentes casos de mau desenho de "arquitectura" cheio de pormenores sem sentido e mal acompanhado por um verde urbano negativamente ausente ou tristemente fingido.

Em outros artigos desta série sobre Olivais Norte, que irá sendo editada sem qualquer ordem previamente definida, e a propósito deste excelente caso de estudo, serão abordados outros temas que caracterizam este bairro-jardim modernista e que têm toda a actualidade na mega-cidade actual.

Alguns documentos de aprofundamento (numa primeira e breve listagem)
ASSOCIAÇÃO DOS ARQUITECTOS PORTUGUESES (AAP), Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa (GUAL). Lisboa: AAP, 1987, 311 p.

COELHO, António Baptista – Qualidade Arquitectónica Residencial – rumos e factores de análise. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 8, 2000 , 475 p.

COELHO, António Baptista; PEDRO, João Branco – Do Bairro e da Vizinhança à Habitação. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 2, 1998, 530 p.

GABINETE TÉCNICO DA HABITAÇÃO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA – Principal Legislação da Habitação Económica interessando à cidade de Lisboa de 1912.07.26 a 1964.12.28, em boletim gth, vol. 1, n.º 3. Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa, 1964.

PEREIRA, Nuno Teotónio – As Casas Económicas, 1947 – 1969, em Jornal Arquitectos n.º 16, 17 e 18. Março/Abril. Lisboa, 1983, 4 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos (1947 – 1996, selecção). Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, FAUP Publicações, 1996.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Tempos, Lugares, Pessoas. Matosinhos: Contemporânea Jornal “Público”, Colecção Os Contemporâneos do Público, 1996, 144 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio (colaboração de António Baptista Coelho) – Os Olivais – experiência colectiva de uma geração, Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação. Lisboa: AAP, 1998, 8 p.

TOSTÕES, Ana (coord.) – Arquitectura e Cidadania, Atelier Nuno Teotónio Pereira. Lisboa: Quimera Editores, Catálogo, 2004, 331 p.

Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 25 de Julho de 2010