sexta-feira, setembro 15, 2006

103 - Opiniões de NunoPortas sobre o espaço público - relato de ABCoelho - Infohabitar 103

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Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema – e do lançamento de uma colectânea do LNEC sobre –, “humanização e vitalização dos espaços públicos”


(Nuno Portas, urbanismo, espaço público, tempo das cidades, espaço, espaçamento, estruturação, temporalidade, integração, lugar, não-lugar, humanização, vitalização, Fortaleza, Olinda)


Porque se considera uma temática crucial e porque houve, como sempre, ideias lançadas com grande interesse, e porque se considera que é também com ideias renovadas que se irá apoiando o estudo e a intervenção nas áreas do habitar e da cidade, houve a ideia de juntar neste artigo as notas que foram sendo registadas ao longo da recente palestra de Nuno Portas, sobre a temática da “humanização e vitalização dos espaços públicos”, que teve lugar no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, no dia 5 de Julho de 2006, a propósito do recente lançamento do N.º 4 da Série do LNEC, Cadernos Edifícios, uma publicação monográfica, sobre o tema referido, que integra textos que, foram realizados, sobre o referido assunto, por 15 autores com diferentes formações e especializações.

Salienta-se que estas notas são informais e criticamente “sincopadas”, porque resultaram, de forma directa, e, evidentemente, com um mínimo de complementos, exceptuando os considerados necessários para a construção do texto, das anotações manuscritas, que foram registadas ao longo da palestra/charla de NunoPortas; sublinhando-se que, entre aspas, se referem algumas citações, que se julga serem razoavelmente fiéis a partes da intervenção de Nuno Portas.

Por eventuais e naturais infidelidades e por uma estrutura discursiva que, de nenhuma forma, faz justiça à dinâmica e ao interesse do discurso do palestrante, apresentam-se, desde já as devidas desculpas, seja ao palestrante, seja aos leitores. Mas entre tentar fazer um relato muito mais fiel e exigente, no seu desenvolvimento, que seria bastante difícil, ou nada fazer, e “perder” um encadeado de interessantes ideias, optou-se pela via de se fazer este registo informal.
E assim se apresenta, repete-se, informalmente, uma versão, sempre pessoal, daquilo que por NunoPortas foi dito, na Sala 1 do LNEC, em 5 de Julho de 2006, sobre o tema da “humanização e da vitalização do espaço público.”



Fig. 1: “Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano” (Fortaleza)


“Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano”, uma referência a Françoise Choay. E neste tempo do urbano a questão das designações comporta, hoje em dia novidades, e provavelmente o conceito de “espaço de uso colectivo”, um espaço que está no passeio, ainda público, mas está, também, no shopping, que é um espaço privado, mas de uso colectivo e onde se aplicam tratamentos “choque” para recriação da rua (eu diria mesmo de uma rua cenário e intensificada).

ESPAÇAMENTO(S)

“Espaço livre. Espaço livre de quê? De construções, penso eu – mas só disso”.
Hoje, com o factor tempo e os novos meios de velocidade, criaram-se maiores espaçamentos – os “espacements” referidos por Choay –, os espaços “entre” foram perdendo os contornos, e as próprias cidades também foram perdendo os seus velhos contornos, de muralhas e, mais tarde, de circunvalações. E na sequência desta ausência de contornos “os falsos burgos, os faubourgs”, desenvolveram-se em mancha de óleo sobre o território, criando-se talvez um pouco das “cidades genéricas”, referidas por Rem Koolhas, embora não pareça que Portas concorde com esta perspectiva.
Ficou assim evidenciada a importância e a actualidade da ideia de “espacement”, ou espaçamento(s), importância essa que também decorre do próprio desenvolvimento histórico do sentido e do carácter de espaço urbano, tal como acabou de ser, apenas, minimamente apontado.

Desta base de reflexão Portas passou a uma defesa da necessidade de haver uma mudança de paradigmas, e referiu ser mesmo “necessário reinventar o espaço público”, não se tratando de um assunto em que chegue “limar arestas”, e sendo necessária alguma radicalidade, porque o espaço público que era, antes, unimodal, servindo, essencialmente, ao peão, tornou-se multimodal ou intermodal, marcado por aspectos monumentais e simbólicos, designadamente, nos seus pontos fundamentais, como são, por exemplo, as gares que conjugam diversos tipos de tráfegos e que têm elevados números de utentes. Uma mudança realmente radical e estruturante.

E há contra-sensos que importa ter em conta pois será, provavelmente, perigoso passar de edifícios “desconstruídos” para uma paisagem que tenda, também, para a desconstrução; e exemplificando o que considera ser alguma falta de sentido, Portas apontou as zonas verdes que, hoje em dia, por vezes têm pouco ou nenhum verde. E, desenvolvendo um pouco mais os aspectos fundamentais desta matéria, que se refere às intenções básicas de como actuar na paisagem urbana, Portas sublinhou que “o espaço público não é um décor, mas sim a estrutura da cidade”, e, no entanto, e tal como é apontado num recente livro, as cidades de hoje estão, realmente, em boa parte desconstruídas e são desestruturantes, porque abdicaram da unidade e NunoPortas defende ser necessário encontrar um novo paradigma, servido por um trabalho muito mais multidisciplinar do que aquele que foi desenvolvido há cerca de 50 anos face a questões que tinham, já então, algumas semelhanças aos actuais problemas.

NunoPortas voltou a salientar que é prioritário o estudo do espaço público, que é “o elemento aparentemente «negativo», mas que é o mais duradouro da cidade, porque, afinal, o que mais caracteriza a cidade são os seus «vazios», que são aquilo que mais perdura na história da humanidade.” Esses espaços que, tal como sublinha Portas, são apenas “aparentemente vazios.”



Fig. 2: o espaço público é o elemento mais duradouro da cidade (Fortaleza)

A CIDADE NÃO É UM PALIMPSESTO

“A cidade não é um palimpsesto” (pergaminho manuscrito, de que se fez desaparecer a primeira escrita, para nele escrever de novo” – definição do Dicionário Francisco Torrinha) refere Portas, e continua sublinhando que a “cidade não é um quadro com camadas”, e que até os próprios loteadores clandestinos o sabem, pois também fizeram ruas; e as ruas e as praças, foi o que sempre ficou, característica esta que já não se verifica com os edifícios.

Depois, NunoPortas fez questão de sublinhar a enorme importância dos eixos da cidade e das formas/usos/hábitos que aí decorrem ao longo de muitas dezenas e mesmo centenas de anos; e a propósito desta matéria citou a questão recentemente levantada pela intervenção de Siza Vieira em Madrid, na zona nobre dos museus, onde Siza se atreveu a mudar algo nos eixos e nos hábitos urbanos, numa rearrumação de espaços vazios, que foi provavelmente entrar em colisão com essa unidade, bem reforçada pelo tempo, de formas de uso de espaços urbanos “vazios” mas estruturadores.

TEMPORALIDADE

E foi assim que, nesta sua charla, NunoPortas juntou a noção de temporalidade à, antes referida, noção de espaçamento, e é muito importante interiorizar bem a temporalidade da cidade, e isto tem de se reflectir nas forças/expressões com que são representados, na cidade, os seus aspectos mais certos e, provavelmente, mais permanentes e estruturantes, ou mais incertos e, provavelmente, mais fugazes; mas, disse Portas, que a situação mais comum é “o certo e o incerto serem representados da mesma maneira e com a mesma força – nos planos de pormenor, por exemplo.”

Mas: “Fazer a maqueta da cidade como será daqui a 200 anos é impossível”, a cidade não é algo instantâneo, “senão muito excepcionalmente.”
E tem de se trabalhar com esta condição, tratando os diversos elementos urbanos em combinações ou sequências diversificadas e mutantes de interligações, contactos e referências, cuja metáfora, diz NunoPortas, é o “hiper texto”, pois não é possível trabalhar com todos os elementos ao mesmo tempo, nem todos os elementos têm, evidentemente, a ver com tudo.

INTEGRAÇÃO

E aqui se identifica outra das ideias fortes, que, para além do espaçamento e da temporalidade, foram salientadas na charla de NunoPortas, que é a questão da importância de um dado elemento urbano respeitar aspectos essenciais de integração, e Portas diz que “ele deveria ser, pelo menos, relativamente integrado”; e Portas ironiza: “como se tudo – contra–natura – pudesse ser decidido no mesmo instante.”
Mas como tal não é possível, e não corresponde à realidade, é necessária uma “mudança de paradigma, não só relativamente ao espaço público, mas também quanto ao planeamento.”

Nestas matérias importa interiorizar que o espaço colectivo pode, por exemplo, penetrar nos edifícios, e este aspecto, entre outros mais ou menos inovadores aspectos, têm de estar presentes nessa mudança de paradigma. Mas o que NunoPortas parece considerar fundamental em tal mudança é a passagem de uma preocupação com “tudo”, quando se intervém e pensa (n)o espaço público/comum, preocupação esta que, sendo impossível, resvala frequentemente para um certo vazio de intenções e preocupações, para uma actuação seguindo um processo idêntico ao do “hiper-texto”.



Fig. 3: navegando como através de um hiper-texto (Fortaleza)


“HIPER-TEXTO”

Um “hiper-texto” em que estão definidas várias grelhas gerais de aspectos/itens a considerar, por exemplo, a ecologia, as infraestruturas, e as actividades – incluindo aqui as que estão contidas nos edifícios –, sublinhando-se que, evidentemente, cada um desses aspectos, se estrutura, ele próprio, numa outra grelha temática, mais fina, e assim sucessivamente.

Portas refere que quando se reflecte e se actua em matéria de espaço urbano as nossas linhas de procedimentos andam dentro dessas sub-grelhas, ligando, “navegando”, como que através de um verdadeiro “hiper-texto”; e assim cada matéria a tratar poderá e deverá ter uma combinação/sequência ou percurso específico de preocupações e actuações mais desejáveis, porque globalmente mais adequadas, mais eficazes e mais apropriadas à tal sociedade/cidade em que realmente não é possível que tudo se passe em simultâneo, e em que a temporalidade também acaba por desenhar.
Como sublinha Portas isto “é complexo, mas é muito menos complexo do que tudo ter a ver com tudo.”

SABER DESINTEGRAR

Provavelmente para ajudar a reduzir esta complexidade NunoPortas referiu o exemplo que costuma dar nas suas aulas de urbanismo e que é a importância que tem a actuação de “subdividir bem”, ou, como também designou, “a arte de saber desintegrar”, a arte de saber partir o problema (urbano) em aspectos mais simples e de conseguir identificar e entender o melhor processo para começar a resolver o grupo dos problemas e de conexões.

Neste processo, tal como apontou NunoPortas, é essencial perceber, o melhor possível, os desígnios, os desejos, os vários aspectos de uma dada questão, e depois de perceber bem um dado passo, uma dada situação, deve-se passar a outro “ponto”, e depois a outro, e a outro, nessa já defendida lógica de conexões de “hiper-texto”, uma lógica que, naturalmente, será sempre bem marcada pelas referidas questões de espaçamento e de temporalidade.

PLURIDISCIPLINARIDADE

E, neste processo, e considerando-se, tal como refere NunoPortas, a grande valia da pluridisciplinaridade, é fundamental ter bem presente que não é possível, nem desejável, “chamar todos para resolver tudo”; de certa forma também aqui se aplicará a tal lógica do “hiper-texto.”

Chegado aqui NunoPortas dedicou-se, um pouco, aos cadernos Edifícios 4, que abordaram a temática da “humanização e da vitalização dos espaços públicos”, e salientou que, sendo uma colectânea com grande interesse sobre o assunto, é, na sua opinião, uma visão marcada por alguma nostalgia dos espaços públicos citadinos históricos; “o que, sendo natural, não é suficiente.”
E embora na sua charla a seguinte ideia tivesse sido, apenas, um pouco mais tarde lançada, não se resiste a referir, já aqui, a importante questão da “defesa da cidade antiga e da rejeição da cidade que nasceu nas costas dela”, uma questão que provavelmente explicará esse ”excesso” de nostalgia – e sublinhe-se que esta hipótese foi aqui anexada pelo responsável por este texto e coordenador do referido número dos Cadernos.

Continuando, então, já num registo mais direccionado para a actuação no espaço público, NunoPortas apontou que, por exemplo, nas intervenções realizadas no âmbito do programa Polis, o que tem marcado mais tem sido “o redesenho, o redesígnio e até, por vezes, a própria cosmética urbana”, tendo o cuidado de sublinhar que esta “cosmética” já não significa qualquer tipo de crítica negativa; “faz parte do «decor» de hoje mas pode não ser «suficiente».”



Fig. 4: lugares e não-lugares (Olinda)


LUGARES E NÃO-LUGARES

E aqui foi abordada, a propósito da tal “cidade que nasceu nas costas da cidade antiga”, a questão das cidades fragmentadas, muitas vezes, por Planos de Pormenor, e, sequencialmente, foi referida a questão dos “lugares e não-lugares” e proposta a reflexão sobre “porquê alguns lugares deixaram de o ser e outros não-lugares se transformaram em lugares.”
Uma matéria que bem mereceria um número dos Cadernos Edifícios, pela sua importância e oportunidade – novamente um complemento feito pelo responsável por este texto –, e toda uma matéria, que tal como apontou NunoPortas teve uma recente e muito meritória abordagem no recém-publicado livro, intitulado “Cidade e Democracia: 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal”, coordenado por Álvaro Domingues.
Salientou, ainda, Portas, que há elementos urbanos com distintas temporalidades, por exemplo, os shoppings são feitos para cerca de 25 anos e depois serão reciclados ou substituídos, e há espaço público que não aspira a ser estruturador, e nem todo o espaço público tem a mesma durabilidade e adaptabilidade.

Portas aponta que o espaço público certamente irá mudar, e os transportes, e o comércio, tudo muito mudou e tudo muito mudará, e tudo isto se deveria ligar a um sensível e exigente estudo dos usos, mas numa perspectiva que esclareça bem que se está a tratar de estilos de vida e de modos de vida cujas características específicas e de durabilidade não deixarão de ter influências estruturantes na cidade. Disse ainda NunoPortas que o que mais fazemos hoje em dia é redesenhar espaços públicos preexistentes, mas para o fazer é necessário procurar as aspirações mais profundas dos seus habitantes, numa referência aos tais estudos dos usos e das tendências no uso.



Fig. 5: “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos” (Fortaleza)


MAIS DO QUE QUANTIDADE O QUE IMPORTA É A QUALIDADE DOS ESPAÇOS PÚBLICOS

E Portas concluiu a sua charla, sublinhando que há estudos sobre trechos urbanos, mas que são necessários estudos amplos sobre o espaço público e que “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos”, e o que mais interessa é um projecto urbano que seja um híbrido de arquitectura e de urbanismo, que seja marcado “pelas coisas que determinem outras” outras, pois os planos são cristalização do futuro. E referiu, ainda, que a chave dos novos projectos urbanos que sejam capazes de fazer novos espaços públicos está numa gestão proactiva e no conhecimento científico que lhe seja fornecido.

Os prometidos vinte minutos de charla passaram a cinquenta, e passaram depressa. Sublinha-se aqui, mais uma vez, que se tratou de um relato cuidado, mas informal, baseado em notas manuscritas.

Texto geral e imagens de António Baptista Coelho – imagens baseadas numa única sequência de arquivo referida a Fortaleza e Recife, reduzindo-se a ilustração a uma função de acompanhamento pontual e informal das ideias desenvolvidas.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 12 de Setembro de 2006

sexta-feira, setembro 08, 2006

102 - LISBOA – cidade que quer ser UNESCO, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 102

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LISBOA – cidade que quer ser UNESCOBreve apontamento sobre estacionamento automóvel subterrâneo



Muito frequentemente o noticiário da televisão ou da imprensa escrita levanta "lebres" sobre problemas das cidades, um pouco de todas elas, mas sendo Lisboa e Porto sempre as vedetas já que são cidades-capital, o Porto capital do país atlântico e berço da solidificação da nacionalidade e reforço do país que somos ainda, e Lisboa capital do país mediterrânico e cais de embarque e desembarque do mundo e, ainda, capital do poder.




Fig. 1: Rossio, Maio 2005 – Monumentos, Cow Parade, trânsito e estacionamento para turistas.

Hoje também, 18 de Agosto, e ao fim de 3 meses de presença no espaço público, deixaram a cidade as 101 vacas da Cow Parade que lhe davam alguma novidade de arte na rua, alegria e diferença, tendo constado que de todas as cidades do mundo por onde se realizou a exposição, Lisboa foi o local onde teriam sido mais bem tratadas pelos habitantes, como que a mostrar que nem há nem vandalismo nem indiferença por este tipo de acontecimento que dinamizou a cidade e despertou o olhar dos que viverão um quotidiano mais monótono e rotineiro, já que Lisboa é uma cidade extremamente vandalizada não apenas com grafittis, impossíveis de extirpar, nos mais importantes e frágeis monumentos de calcário macio, para além de outros monumentos que estão durante anos tapados com extensos lençóis de publicidade que cobrem toda a fachada atestando, mas não garantindo, que estão a ser restaurados, provocando o maior distúrbio e poluição visual, como se já não bastasse o excesso de gigantescos painéis de publicidade ao mais insignificante produto, incluindo a publicidade em movimento de todos os transportes públicos sem excepção – mas não se vê publicidade a produtos culturais, nem cultura na rua, sendo que, entretanto, há legislação para a "poluição visual."
E se por caso algo de cultural "acontece" no verão, logo surgem imensos e desinteressantes palcos e barraquinhas nas praças (ou relvados da Torre de Belém) que deveriam estar sempre limpas e desimpedidas e que depois do espectáculo acabar ficam tempos sem fim antes que a autarquia decida retirá-las.
Assim poderia parecer que o cidadão comum é indiferente e selvagem mas lembremos a recente exposição de fotografia sobre Lisboa na Praça de Comércio, muito visitada, bem como a anterior exposição das gigantescas esculturas de Botero, acontecimentos que, de tão raros, caíram no esquecimento e é fundamental a sua renovação contínua já que Lisboa é uma cidade única possuindo cinco praças contíguas que poderiam ser o coração da animação cultural de rua.




Fig. 2: Botero na Praça do Comércio, 1998 – Foto: Dias dos Reis.


Interessante constatar que decorre em Edimburgo o Festival anual de Teatro de rua, iniciado em 1947 e que não apenas alegra a cidade durante três meses por ano, como atrai milhões de turistas sendo, duplamente, acontecimento cultural e de grande benefício para reanimação económica do local e do país em geral.
Hoje também, no programa de televisão "Alice no país dos Viajantes" a entrevista com alguém (António J. Gonçalves) que um dia começou, sem programar, a olhar o rosto do cidadão anónimo e aparentemente indiferente que viaja no metropolitano e começou a desenhá-lo, cidadão aparentemente distraído de olhar ausente e igual a quem está ao lado, tendo esta iniciativa conduzido não apenas a perceber a real diferença e peculiaridade de cada pessoa desenhada, de tal forma que se entusiasmou e repetiu, ao longo de três anos, a mesma procura do "rosto anónimo" nos metropolitanos em 10 cidades capitais do mundo nos cinco continentes.
Interessante porque a partir desta atitude sem finalidade que não apenas o seu prazer de desenhar, conduziria mais tarde a ter outro olhar sobre o cidadão-urbano e que o levaria até a decidir a profissão de designer, que tem hoje, pois que a partir desse simples impulso inconsciente o fez descobrir características pessoais até aí não reveladas.


Fig. 3: Rossio, Maio 2005 – Cow Parade.


Lisboa, onde parece que só acontece sempre a mesma coisa, dependendo de quem a olha, ou que o que existe estará organizado e institucionalizado até nos aspectos negativos, permite ainda acontecimentos especiais e novos despertares para quem se interessa pela "paisagem-humana", sendo que o autor citado, à medida que avançava na sua aventura por várias cidades do mundo captando o ritus de cada rosto, acabou por encontrar afinidades nos homens e mulheres das mais variadas condições culturais, tendo afirmado que aprendeu também, só pelo olhar, que não podia ultrapassar o limite do "privado" em pleno espaço público, silêncio interior de observado e observador, viagem que o levou além da rotina e permitiu ver uma faceta da "vida" do cidadão da cidade –, que interessante me parece este "despertar" pessoal.

As mesmas cidades do mundo são tanto úteros de germinação de saberes e cultura, de qualidade de vida e de alegria e bem-estar, como de actos de violação do mais importante da vida para além da democracia e que é a PAZ entre os países, como se a união das nações que protege os direitos humanos e a paz mundial já tivesse envelhecido a ponto de ser inútil qualquer Resolução para bem comum, lei mundial sem qualquer importância e conteúdo reduzida a artifício que está caindo por terra.
A cidade que não é ainda local de conforto para os habitantes residenciais e passantes, é no entanto um livro-de-história-viva e óbvia de cada país, actualizada com cada acontecimento, por sua vez livro-aberto e jornal-diário da evolução e aceitação-rejeição, conforto ou stress e comportamentos de que nas pedras e pelas pedras fala, e responde, à vida do quotidiano e nos vai informando como os mandantes vão ignorando o valor dos patrimónios construídos e imateriais que fazem a vida do homem da cidade e dela esperam condições para serem felizes e com ela evoluírem em vez de se degradarem.



Fig. 4: jornal diário de Lisboa I – Os eventos e as obras como cidade-efémera: partida do raly Lisboa-Dakar nos Jerónimos, castanhas e pastéis em Belém, festa do fim do ano na Pç. do Comércio e estaleiro da ampliação do Metro na Alameda.

O habitat do homem não se limita ao espaço físico da sua casa e rua, sendo que a sua evolução cultural e de cidadania radicando no espaço-tempo-vivência é, igualmente, legível em cada momento.
Relação íntima, contudo tornada tão inconsciente porque repetitiva e tal que a cidade espaço-físico envelhece e perde qualidade estética e cultural e com ela o cidadão apressado ou mais indiferente ou de viver penoso e triste, toma a degradação por osmose do lugar e habitua-se, por vezes esquecendo os seus valores mais humanizantes que podem até chegar à violência com o descontentamento acumulado que tem limites de "restauro."
A cidade-física desumanizada arrasta a desumanização comportamental do habitante individual e colectivamente porque, isoladamente, se confronta com a impotência de refazer-se a si mesmo e muito menos a própria cidade.
Como ser cultural o homem aprende no seu habitat mas também desaprende, colabora na dignificação e vitalização da cidade, ou na sua agonia.




Fig. 5: jornal diário de Lisboa II – A arquitectura como cenário do trânsito.

Vem este breve apontamento a propósito sobretudo da discreta notícia no CM de 16 de Maio de 2006 em que a comissária da dinamização da candidatura da Baixa Pombalina a Património da Humanidade, ameaçou demitir-se se fosse construído estacionamento automóvel subterrâneo no Largo Barão de Quintela, atitude que apelida de "torpe e inútil crime" e demonstra que "os autarcas que elegemos continuam a não saber governar a cidade histórica" (opinião igualmente exposta ao diário “O Público”).
Mas logo outra vereadora, mentora do comissariado, apresentou "alternativa" à construção desse parque de estacionamento.
Mas nunca foi discutido, ou tornada pública, a discussão do parque de estacionamento subterrâneo do Largo do Martim Moniz que, a seu tempo de construção, originou algum deslizamento da encosta da Mouraria (concurso de ideias 1981), para além de difícil solução de drenagem de águas pluviais, como não foi discutida a construção do parque automóvel subterrâneo debaixo da estátua de Luís de Camões (mas é certo que à rua Garrett lhe foi retirado carácter e dignidade com a sucessão de diferentes pavimentos e cotas), nem de outros dois de 5 pisos subterrâneos na Calçada do Combro, parques situados em zonas da cidade tão históricas como a Baixa pombalina, como o Bairro Alto, Bica, ou Alfama e Mouraria, como o Chiado e Largo de Camões, zonas que em fim de semana engarrafam durante longas horas a partir das 24h, para entrada dos jovens nos parques porque é a hora de início do seu fim-de-semana, o que impede, a horas ainda normais de qualquer cidadão andar na rua (por ser hora de saída de qualquer espectáculo), impedindo igualmente a circulação dos ainda existentes transportes públicos, de que se destaca o sobrevivente eléctrico que lá vai tocando para desimpedir caminho, sem conseguir.

Que alternativa?
Que espaço físico de Lisboa é alternativa à Lisboa histórica e aos dois eixos fundamentais do seu desenvolvimento (Av.ª da Liberdade-Fontes Pereira de Melo - Av.ª da República), que são auto-estradas urbanas que para além de se terem já tornado altamente perigosas para o peão foram inutilizadas para a habitação com túneis e uma quase total exclusividade de serviços?
Que espaço físico de Lisboa é alternativa se a Lisboa histórica é continuamente dizimada com túneis, desvios e "atalhos" de que o do Marquês é o mais recente e ainda mais gravoso do que os anteriores, desfazendo para sempre a imagem do orgulhoso Marquês que fez construir essa Baixa Pombalina, rotunda hoje reduzida à maior e mais intolerável pequenez urbana, ainda por cima situada num eixo que é espinha-dorsal da cidade desde que foi iniciado com o Passeio Público onde se passeava Eça de Queiroz para "olhar e ser visto"?

Quebrou-se a "espinha dorsal" irreversivelmente e, a seguir, vai-se partindo e desfazendo o "esqueleto" ou casco histórico da cidade em nome do desenvolvimento que tem tido como "matriz" geradora o acesso por automóvel e os locais para o seu estacionamento.
Desmantela-se a Cidade por causa do automóvel e do estacionamento com túneis, passagens desniveladas e nós viários, desde o interior urbano até às margens do rio, constituindo cortinas de floresta-betão que impedem a visibilidade da cidade longe e perto em geral, bem como dos mais carismáticos e identitários monumentos da cidade e, a seguir, desmantelam-se os bairros ainda carismáticos de Alcântara e beira rio para surgirem Torres que vão adulterando os belos sky-line da cidade de colinas que está entaipada de densos take-away conjuntos habitacionais em espécie de fast-arquitectura internacional sem desenho e sem alma.
Desmantelam-se os espaços públicos da cidade-mãe cujos habitantes se vêem compelidos a deslocalizar-se para os bairros periféricos, também históricos e de qualidade de vida e do ambiente, que igualmente se vão desumanizando com a densificação habitacional anónima, ou para fora da grande Lisboa, em processo imparável.


Fig. 6: acesso ao Parque subterrâneo das Portas do Sol em Alfama.


Os parques subterrâneos no miolo urbano central vão proliferando e competindo com as infra-estruturas gerais urbanas naturalmente enterradas e a que a modernidade acrescenta outras mais actuais, para além do Metropolitano, como se houvesse já outros "andares" subterrâneos da cidade.
Haverá alternativa para continuar a fazer solo-urbano em mais andares subterrâneos?
Haverá possibilidade de ter alternativa preenchendo a mesma área urbana densificando-a em superfície, preenchendo todos os espaços de respiração da cidade, e densificando também em altura acima e abaixo do solo? Alternativa à que contempla o automóvel e nunca o habitante, atitude que transvaza a cidade capital e se repercute até Bragança em cujo coração histórico o automóvel já conquistou o "subterrâneo"? O que contribui para a impermeabilização da totalidade do solo urbanizado sem espaço para entrar a chuva quando cai e se infiltrar e, por isso, originar enxurradas à primeira chuvada.

A impermeabilização dos aglomerados urbanos, pequenos e maiores, traz problemas de grande gravidade relativamente à água no solo e recarga das toalhas freáticas e, com mais andares subterrâneos, esse problema torna-se cada vez mais e mais grave, conduzindo a maior secura da terra, pois que a água que nela cai é rejeitada, mesmo nos jardins igualmente de pavimentos impermeáveis, ou nos magníficos separadores de trânsito centrais da maioria das ruas de Lisboa que, ou desapareceram para alargamento das faixas de rodagem, ou ficaram, mas porque no Inverno os automóveis aí estacionavam e se enchiam de lama, foram cobertos de betuminoso porque a "Árvore não é importante e a água da chuva também não" e sumir-se-á nalgum sumidouro qualquer e já está provado que sujos ou limpos não há sumidouros que cheguem porque para não haver enxurradas é necessários que os locais de drenagem absorvam a totalidade da chuva em 50% do tempo da queda pluviométrica.

A alternativa das cidades europeias (que ultrapassa a UE) e do mundo mais evoluído é cada vez mais o transporte colectivo e não o privado e que o seu uso nos centros urbanos seja regulado.
Cidade espaço-colectivo, espaço dos homens, de conforto e cultura, de andar na rua a pé ao sol e à chuva, a passear e a correr, a visitar monumentos e miradouros, já não existe (tornou-se refém do transporte privado), excepto nos bairros cada vez mais periféricos onde nascem novos bairros por vezes até "problemáticos" ou, então, condomínios altamente defendidos por sofisticada tecnologia, como se se vivesse em "prisões" fomentando um separatismo humano cada vez mais desaconselhável cultural e sociologicamente.


Fig. 7: jornal diário de Lisboa III – As ruas da Baixa pombalina como parques de estacionamento

Os centros mais nobres da cidade de Lisboa, que quer ser UNESCO apenas num bocadinho tão pequeno como a Baixa Pombalina que já nem sequer tem "vida" mas apenas a dos que aí trabalham ou nela desembocam para atingir locais de trabalho muito afastados, estão martirizados com o automóvel e os estacionamentos que se concentram cada vez mais nesses centros, em espécie de "condomínios-auto", a dialogar com os condomínios dos que da cidade histórica fogem para se concentrarem "emparedados", como se estes espaços fossem cada vez mais individuais e individualizados sem lugar para o COLECTIVO – unidades-colectivas individualizadas, ghetizadas – cidade fechada sobre si mesma e virando costas aos que vivem ainda "na rua que é livre" e que não virou ainda "auto-estrada urbana."


Fig. 8: jornal diário de Lisboa IV – O Tejo como monumento.


Lisboa auto-suicida-se como cidade, mas quer ser UNESCO ali apenas no que lhe resta, na Baixa Pombalina já tão decadente e desinteressante, cuja vida cultural, social e comercial já lá não está porque se "deslocalizou" também, porque os habitantes dali foram sendo expulsos para além do insolúvel problema do túnel do metropolitano que fez desaparecer o Cais das Colunas e que não tem solução à vista e é paisagem dolorosa de se olhar com os lixos acumulados e águas paradas, num espectáculo que define a maior degradação da forma de governar a cidade histórica capital que no séc. XVI era "modelo" de pujança e beleza e modernidade que a "europa" visitava para admirar o esplendor cultural e económico e até de moda.



Fig. 9: jornal diário de Lisboa V – As praças como auto-estradas:
Pç. Marquês de Pombal, Pç. da Figueira, Pç. do Oriente e Pç. dos Restauradores.

Que dignificação para o Espaço Unesco ? Grito de desespero? Esperança de conservação de uma página de história mas já sem "Cais das Colunas"? Tentativa de re-vitalização?
Será que Lisboa histórica e cultural a merecer ser UNESCO "se resume" à Baixa Pombalina? E a dois monumentos, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, esta também já tão entaipada com nós viários que não se vê de lado nenhum e tal que para ser "descoberta" mesmo por quem habita a cidade, é necessário descobrir o mais complicado dos circuitos para lá chegar e nenhum deles pode ser feito a pé – cidade entaipada.
A vereadora que não queria o referido estacionamento automóvel subterrâneo tinha razão ao afirmar que "os autarcas que elegemos continuam a não saber governar a cidade histórica."


Maria Celeste d'Oliveira Ramos – Sábado, 18 Agosto 2006 – Bairro de Santo Amaro – também assediado como nunca pelo camartelo que derruba edifícios do séc. XIX ou outros de igual interesse que "datam" o bairro e a evolução e "idades" da cidade e que, assim, não passa de "um bairro-qualquer -incaracterístico" de tão maltratado pelos decisores e onde já não respira nem esta parte da cidade nem os residentes que assistem, impotentes, nesta última década, ao desaparecimento da qualidade da arquitectura e do ambiente e das perspectivas sobre o rio que estão definitivamente comprometidas, como se o rio já não fizesse parte integrante de toda a cidade.

Fotografias da arqtª Maria João Eloy e de Dias dos Reis.

18 Agosto 2006
Maria Celeste d'Oliveira Ramos

sexta-feira, setembro 01, 2006

101 - Nova arquitectura em Aveiro, artigo de Pedro e António Baptista Coelho - Infohabitar 101

 - Infohabitar 101


Uma viagem pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro – uma reportagem fotográfica informal


Pedro Romana Baptista Coelho

António Baptista Coelho


(Aveiro, Universidade de Aveiro, arquitectura recente, arquitectura portuguesa, Adalberto Dias, Alcino Soutinho, BernardoFerrão, Carrilho daGraça, Francisco Aires Mateus, Gonçalo Byrne, João Almeida, JoaquimOliveira, Manuel Aires Mateus, NunoPortas, PedroRamalho, SizaVieira, Eduardo Souto deMoura, Victor Carvalho, VítorFigueiredo)

Neste artigo, essencialmente fotográfico, não se pretende fazer qualquer análise arquitectónica do muito rico património arquitectónico que tem sido desenvolvido, ao longo de quase duas décadas, pela Universidade de Aveiro, nem realizar um levantamento minimamente exaustivo das obras que aí estão concretizadas.


Pretende-se, sim, contribuir para despertar ou redinamizar o interesse por este conjunto único de arquitecturas escolares, marcado por regras de desenho que se sentem, com agrado, mas igualmente por uma rica diversidade de imagens de arquitectura e por variadas facetas do desenho associadas à marcação e à caracterização pelas escalas humana e urbana.

E este objectivo de divulgação tem a ver, especificamente, com o evidenciar do grande interesse que terá, sem qualquer dúvida, para qualquer pessoa que tenha gosto pela arquitectura, do desenho à construção, ou pela arte e pela cultura, uma visita a este conjunto, que se poderá considerar único, de espaços urbanos e edifícios, que, de certa forma são sítios de habitar, são uma “pequena” cidade habitada, e onde também se incluem excelentes exemplos de arquitectura residencial.

E trata-se de uma proposta de visita que, associada, por exemplo, a um passeio pela sempre diferente e muito atraente zona central de Aveiro, pode assegurar um dia verdadeiramente memorável.

Façamos, assim, uma viagem fotográfica informal pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro, estruturada numa sequência cronológica, quase sem palavras e numa muito racionada versão de cerca de uma imagem por obra, e, sublinha-se, não se referindo e mostrando todas as obras que interessa olhar com olhos de ver, nesta muito humanizada, envolvente e atraente cidade universitária; trata-se assim de uma mostra de imagens não exaustiva e que, como já se referiu, tem como principal objectivo despertar o interesse por aquilo que sem dúvida será uma excelente visita, não só para arquitectos, mas para todos aqueles que se interessem por uma cidade bem desenhada, e que, portanto, dá vontade de habitar.

Nota: as sintéticas referências às autorias dos projectos indicam, em cada caso, o(s) arquitecto(s) projectista(s) coordenador(es).




Fig. 00: Plano Geral do campus da Universidade de Aveiro, NunoPortas, 1988.

Fig. 01: depósito de água, Álvaro Siza Vieira, 1991.




Fig. 02: Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial, Pedro Ramalho e Luís Ramalho, 1992.




Fig. 03: Departamento de Engenharia Cerâmica e do Vidro, Alcino Soutinho, 1992.




Fig. 04: Departamento de Química, Alcino Soutinho, 1993.




Fig. 05: Departamento de Geociências, Eduardo Souto deMoura, 1993.




Fig. 06: Instituto de Engenharia Electrónica e Telemática de Aveiro, BernardoFerrão, 1994.




Fig. 07: Biblioteca, Serviços de Documentação, Sala de Exposições Hélène de Beauvoir, Álvaro Siza Vieira, 1995.




Fig. 08: Biblioteca, Serviços de Documentação, Sala de Exposições Hélène de Beauvoir, Álvaro Siza Vieira, 1995.




Fig. 09: Departamento de Engenharia Mecânica, Adalberto Dias, 1996.




Fig. 10: Residências de Estudantes, Adalberto Dias, 1990/1998.




Fig. 11: Edifício Central e da Reitoria, Gonçalo Byrne e Manuel Aires Mateus, 2000.




Fig. 12: Livraria e Sala de Exposições (com anfiteatro na cobertura), NunoPortas e JoaquimOliveira, 2000.




Fig. 13: Complexo Pedagógico, Científico e Tecnológico, Vítor Figueiredo, 2000.




Fig. 14: Ponte Pedonal sobre o esteiro de São Pedro, João Luís Carrilho daGraça, 2001.




Fig. 15: Refeitório do Crasto (1º plano), Manuel e Francisco Aires Mateus, e Casa do Estudante (2º plano), João Almeida e VictorCarvalho, 2001.




Fig. 16: Secção Autónoma de Engenharia Civil, JoaquimOliveira, 2004.


Elementos bibliográficos e de referência consultados e a consultar:
http://www.ua.pt/campus.asp
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arquitectura_na_Universidade_de_Aveiro

FERNANDES, Fátima; CANNATÁ, “Michele, Arquitectura portuguesa contemporânea,- 1991-2001”, Porto, Asa Editores, 2001.
TOUSSAINT, Michel, “Arquitectura para o ensino superior”, Jornal Arquitectos, 126-127, Agosto/Setembro 1993.
TEIXEIRA, Manuel, “Construção universitária recente em Portugal”, Jornal Arquitectos, 126-127, Agosto/Setembro 1993.

Edição: José Baptista Coelho

quinta-feira, agosto 24, 2006

100 - Cidades à beira-rio e o rio como paisagem, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 100

 - Infohabitar 100



Cidades à beira-rio e o rio como paisagem – a civilização que nasceu da água


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho
A água é a maior e cada vez mais rara riqueza da Terra representando 2/3 do planeta assim como são 2/3 a água do total do corpo humano, sendo que a água potável é finita e o bem mais precioso do planeta, mais do que o ouro ou diamantes ou qualquer outro recurso natural. E como a água, o ar na sua dimensão de oxigénio é o segundo elemento sem o qual não existe qualquer forma de vida, incluindo a própria água de que todos nos lembramos como fórmula química, H2O, esse infinitamente pequeno molecular de que é feita a vida da Terra até à calote da estratosfera.

Já ouvi algures dizer que "Deus passou por aqui", deixou sol (3 mil horas de sol/ano) e praias de areia doirada ao longo de mais de 800 km para além de clima doce todo o ano, deixou um Jardim (como afirmou Unamuno), e os habitantes construíram as paisagens "domesticando" a matéria prima de que dispunham e construíram paisagens diversificadas em todo o território delimitado por fronteiras quase todas naturais, desde 1143, algumas que mereceram ser classificadas UNESCO e REDE NATURA, bem como a Baía de Setúbal foi classificada a mais bela da Europa, fronteiras que talvez tenham ajudado e inspirado o primeiro rei a fazer separar por esse limite físico este "rectângulo de oiro" da terra-mãe peninsular, também denominado por Vitorino Nemésio - esse pedaço de terra debruado de mar, como se de uma ilha se tratasse.

As grandes cidades que fizeram a história do mundo instalaram-se principalmente à beira-mar ou beira-rio, ou na meia encosta de grandes planícies que são os seus leitos de cheia ou de recepção das águas dos pontos altos, ou situam-se, finalmente, nos estuários, onde aflui a maior riqueza do rio que ao erosionar muito devagar leitos e margens ao longo de quilómetros, se bem ocupadas de vegetação ribeirinha que dissipa a energia da corrente servindo de almofada, e os sedimentos transportados vão-se depositando ao longo do percurso do rio, até se entregarem definitivamente na foz dos rios e no mar.




Fig. 1: “esse pedaço de terra debruado de mar” … “estuários, onde aflui a maior riqueza do rio.”

Todas as grandes Capitais do mundo estão nessas condições, e os rios fizeram também florescer as grandes civilizações sendo a do Egipto a primeira que virá à memória de todos nós, da mesma forma que podemos pensar na mais antiga e grande civilização entre o Tigre e Eufrates, onde se diz ter sido situado o Éden Bíblico e que é hoje o Iraque, ou o Estado de Nova Iorque à beira do Potomac.

Mas também a mítica Lisboa de Ulisses tem a privilegiada situação de ficar, duplamente, à beira-rio e beira-mar, com a particularidade de ter o denominado Mar da Palha que parece um pequeno "mediterrâneo" à disposição da cidade e que é um viveiro permanente das mais variadas espécies piscícolas que aí desovam na primavera para mais tarde alcançarem o alto mar já que a influência das marés se faz sentir até Vila Franca de Xira, com grande riqueza piscícola, e depois a juzante com águas "misturadas" rio-mar, o sapal que nenhuma autarquia tem relutância em aterrar para construir sem controlo, espaço que é grande viveiro da mais variada fauna piscícola que vem do mar ali desovar na Primavera, e logo regressar ao mar.

Não passaram muitos anos mas será que há quem se lembre da grande produção de ostras do estuário do Tejo? Arrisco afirmar que é curta a memória e pergunto, de seguida, a que preço está um prato de salmão do rio Minho ou de lampreia ou, ainda, de sável do rio Tejo.

Num artigo saído na revista Visão (3 Novembro 1994), poderá ler-se "«Povo que matas o Rio» - centrais nucleares espanholas, contaminação com metais pesados, morte de peixes, pesca ilegal, que mais irá acontecer ao Tejo ?'' – e o LNEC afirmou, quando do estudo do Plano Hidrológico espanhol, que o Tejo perdeu 25% do seu caudal. Pode ler-se no mesmo artigo que o Tejo é o maior pólo de desenvolvimento do país, alimenta as mais importantes áreas agrícolas do Ribatejo, é um centro de comunicação fundamental e ainda uma gigantesca maternidade de peixes (e eu acrescento que já não é) e, entretanto, na sua bacia hidrográfica de 24 869 km2, a maior do país, que vai de Estremoz à Guarda, vivem cerca de 3 milhões e 700 mil pessoas, mais de 1/3 da população portuguesa e, desta, mais de metade vive na Grande Lisboa e, assim, a pressão humana, urbana e industrial torna o rio Tejo um gigantesco espaço poluído; é que a água, como vento, são os elementos de transporte, por excelência, de vida (sem poluição) ou de morte (poluídos).

E daí resulta que o empobrecimento dos valores da natureza só pode conduzir ao empobrecimento das populações e do país irreversivelmente porque a natureza não se inventa.




Fig. 2: pescadores no Norte do Brasil.

A ausência de políticas de envolvimento de verdade na conservação dos valores de natureza inalienáveis, leva à morte da natureza e ao consequente empobrecimento dos homens, que da exploração sustentável dos bens da natureza dependem, invocando-se contudo e quotidianamente, razões "de desenvolvimento económico", como se água e o que contém de seres vivos e qualidade climática e ambiental, não fossem riqueza verdadeira.
Recuperando a sua frequente situação à beira da água, as grandes capitais actuais do mundo, os grandes centros urbanos e culturais e de maior procura turística ao longo de todo o ano, como Londres, Paris, Salzburg, Buda+Peste, Nova Iorque ou Florença, tiram partido da sua arquitectura tradicional intacta e restaurada, afinal, o "primeiro bem de raiz" para habitantes e visitantes e um constante ponto de partida de desenvolvimento de riqueza que assenta na história e cultura, e artes, de que o turismo é ávido e de que é desmultiplicador, inventando novos factores económicos ou recuperando tradições, não sendo necessária muita inteligência para não deitar fora, como Portugal tem feito, a sua herança de memória e a identidade dos lugares em que assenta a civilização, e que representa riqueza nacional mas também património do mundo.
E se o País dificilmente se porá a par do desenvolvimento industrial-de-2ª.vaga, só lhe restará não destruir mais os sectores primários, a terra e as zonas húmidas, o mar, e a sua grandeza de património histórico, edificado e imaterial.

Olhemos para a cartografia do País onde nascemos e vejam-se as cidades mais sólidas mais antigas bem como vilas e aldeias de beira-rio, e como as suas economias, e cultura, se desenvolveram e dependem de cada afluente de cada grande e pequeno rio; e ao olhar desse modo, interiorizemos que inutilizar com nova habitação ou estrada, cada ribeira que é o primeiro caudal de não importa que grande rio, é destruir tudo o que se passar a jusante, implacavelmente, é destruir vida e cultura e economias, é fazer deserto ecológico e humano, e por fim deserto físico, o que é apenas uma questão de tempo – tendo os decisores conseguido destruir, em apenas umas muito escassas dezenas de anos o que levou séculos a humanizar, tornar fértil.



Fig 3: Amarante e o Tâmega.

Portugal tem (tinha) uma extraordinário sistema hidrográfico homogeneamente distribuído, de que ressaltam os estuários do Douro (origem ancestral do comércio nacional com todo o mundo nos séculos XVIII e XIX), os vales do Mondego, do Tejo e do Sado, tendo estes últimos merecido pertencer à rede de Zonas Húmidas mais importantes da Europa, e em que a baía de Setúbal mereceu recentemente ser classificada "a mais bela da Europa", e o Tejo, pela sua riqueza física e biótica fazer parte da área protegida do Tejo internacional.

A importância dos rios em Portugal vem de longe, dos tempos da pré-história, de que é exemplo Foz Côa, com as gravuras rupestres datadas de há mais de 20 mil anos deixando testemunho das formas humanas mais remotas de viver, e sendo que o Guadiana é não só uma lição da convulsão morfo-geológica da Península Ibérica, como já foi o em tempos o último porto de mar do Mediterrâneo, pois que era navegável até Mértola, tendo ainda sido ponto de passagem de outras civilizações que invadiram o país de que restam vestígios, alguns dos quais hoje acessíveis no museu local; no registar da história do rio e dos homens, que é de uma riqueza inestimável.
Com a extraordinária distribuição das mais pequenas às maiores ribeiras em cada bacia hidrográfica, e com o clima ameno, não podia o País deixar de ser agrícola ao longo de milénios, situação esta que se alterou radicalmente, já que até 1986 o país produzia 75% das necessidades alimentares passando hoje apenas para apenas 25%, e sem se assistir à dignificação do solo agrícola e da sua produção, bem como dos homens rurais que tiveram a coragem de se dedicar às coisas da terra que produz alimentos; terra esta também ameaçada pela recente invasão de eucalipto, que é esgotador da terra em apenas 40 anos.
Com tal riqueza natural selvagem e construída pelos rurais, imaginemos então que classificação mundial poderiam ter as nossas grandes zonas húmidas (que incluem o litoral marítimo até 6 metros de fundo na baixa mar), se não tivessem sido tão destruídas, poluídas e continuamente discutidas “parlamentarmente” com tanta superficialidade e ignorância, e que economias podiam ter continuado a gerar se se compreendesse, de facto, o valor que têm, nem que fosse “só” pela sua "beleza", esse valor maior de todas as coisas da Terra e do Homem, e que, afinal, hoje e no futuro também vende/rá, porque a indústria do turismo é e será a mais poderosa do mundo e tem um crescimento imparável, excepto nos locais em guerra.
Afinal, as paisagens oferecem ao homem o que lhes é pedido de recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer "beleza" e recursos de recreio, lazer e dinamização da expressão artística.



Fig 4: “As paisagens oferecem … recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer «beleza».”

E é interessante atentar que do caminhar a pé pela estrada romana ou em liteiras, de há muitas centenas de anos, o turismo, de hoje, entre tantas das suas opções, voltou também ao caminhar a pé, por exemplo, ao longo dos vestígios dessa mesma estrada romana, mas para tal, para se poder contar com tão grande riqueza de possibilidades, muito há a fazer e a não deixar fazer, terminando-se de vez com o desprezo pelo nosso riquíssimo património.

O nosso País não tem de facto nem ouro nem diamantes, mas tem séculos de história feito em PEDRA e em PAISAGENS, a sua riqueza maior, e todas as artes delas derivadas e tornadas indústrias seculares, que já ninguém da cidade faz ou dá importância, porque as cidades tornaram-se tão extensas que se divorciaram da paisagem natural.

Na ausência dessas matérias-primas, que são as mais valiosas para os mercados actuais, não se encontrou, em Portugal, compensação no valor do mosaico paisagístico, nem na existência dos monumentos que contém desde a pré-história, e na situação geográfica que permite ser plataforma giratória de ir e vir entre este e o outro lado do mar.

Mas falemos de água e de rios e pergunte-se, o que é que em Portugal terá agora valor para se poder justificar que se encanem continuamente ribeiras sem a menor hesitação, só porque se atravessam no caminho da "expansão urbana em contínuo de laje de betão" (19% do território nacional é impermeável), quando em qualquer país europeu, nascido depois deste que habitamos, o "rio faz parte do tecido urbano" e é espaço de recreio por excelência, sendo mesmo, como em Inglaterra, núcleo “genético” gerador de aglomerado urbano.
É urgente que Portugal volte a amar os seus rios e as serras e as árvores e as cidades e os monumentos e as paisagens, que são todos património da origem de toda a vida natural e dos gestos de humanização, e são B.I. e ponto de partida do verdadeiro desenvolvimento, sem ser necessário ter de imitar nada, e, assim, sem correr o risco do "passar de moda."
É urgente voltar a amar e honrar o património paisagístico ancestral e multifacetado, natural e construído, acima e abaixo da linha de terra, e fazer dele património sociocultural e económico, nacional e mundial.
E há que salientar que o RIO é por si só uma paisagem desde a nascente à foz, com ou sem conjuntos urbanos nas suas margens, e é corredor ecológico por excelência, não importa de que dimensão.
As mais importantes cidades do nosso País fizeram-se com o mar e com os rios, numa linha quase contínua paralela à costa marítima, sendo as arquitecturas e as economias resultado directo da comunhão com a ÁGUA, e não esqueçamos Nemésio, ao referir-se a "este pedaço de terra bordejado de mar" que fez "civilização."
Já foi afirmado muitas vezes pela ONU que a partir de 2025, a água potável total do mundo, não chegará para os seus habitantes, já que o ciclo da água é um ciclo fechado e água é também civilização e saúde sendo o consumo per capita um dos mais actualizados índices de aferição do grau de desenvolvimento.
Sendo certo que a água doce total do planeta equivale exclusivamente a 4500 mil km3 para a água doce de superfície e 100 mil km3 para a água doce subterrânea, 25 milhões de km3 para o gelo dos pólos contra 1330 milhões de km3 para a água dos oceanos, sendo que se pode considerar ainda a água atmosférica como sendo apenas de 13 mil km3 e são tão só 400 mil km3 a evaporação e precipitação que se equilibra por ano. E porque a infiltração da água no solo é principal nas áreas florestadas (montanhas), a sua erradicação impede a água de abastecer toalhas freáticas bem como não produz o oxigénio da sua responsabilidade em que a sua produção por hectare ronda o valor necessário para uma população de 50 mil habitantes.
Paralelamente o homem "civilizado" utiliza por dia 100 litros de água e respira 60 litros de oxigénio, e ainda raramente na cidade se separam as águas negras das águas residuais industriais, para que as primeiras possam ser reutilizadas na lavagem das ruas e rega dos jardins e mesmo agricultura, desperdiçando-se, assim, a água que se tem disponível e, pior, desflorestando-se e impermeabilizando-se em excesso, designadamente, nas cada vez maiores, grandes cidades, e originando-se que cada vez mais água da chuva, para a mesma queda pluviométrica, vá dar ao rio e ao mar em vez de ficar nos continentes.




Fig. 5: E o século xxi é/será o século das grandes cidades.

Talvez porque ar e água não tenham fronteiras, estes sejam os dois elementos sagrados da China – o feng-shui – considerados, por vezes, em projectos, mas apenas ligados à orientação da habitação, continuando-se, mesmo depois de se conhecer, como hoje em dia, o valor da água e a sua finitude, com um quase desprezo, nos planos de ordenamento urbano, pelo valor da terra e da água, e mesmo do clima, que são tratados como se fossem "substituíveis."

E que felicidade é, e poderia ser, poder viver na proximidade da maior riqueza electro-magnética, biótica e de bens naturais do planeta que é a fronteira/margem terra-mar onde muitos e grandes rios se vêem "oferecer" ao mar, mas oferecendo o que transportam resultando na grande fertilidade dos estuários.

Que cidade e habitantes felizes os que podem usufruir dos valores estéticos das paisagens marinhas e fluviais, sempre especiais com a presença da água, a sua cor e luz, e movimento e deles retirar paz e consolo e contemplação, para além da manutenção da sua presença como fonte de alimento – Paris cidade interior atravessada pelo Sena, sem o rio talvez não fosse nem capital, nem teria aquele clima nem luz filtrada pelo nevoeiro, que só a presença da água permite, quando se evapora, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo.





Fig. 6: Aquele clima, aquela luz filtrada, que só a presença da água permite, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo – a margem de Lisboa e os veleiros.

A água é, como diz no Alcorão, "a fonte de toda a vida", não apenas no sentido físico mas também espiritual, e por isso na Índia há 7 rios considerados sagrados, da mesma forma que é sagrada, para os cristãos, a água benta, ou a água do Baptismo, a água do Rio Jordão onde Jesus foi baptizado, porque há homens que conseguem perceber que há sítios e lugares sagrados, e florestas sagradas, locais onde sentem o Divino na Terra, e em todos os tempos sempre a água esteve ligada ao DIVINO, como no Ganges que para tudo serve, e, mesmo imundo, não deixa de ser "sagrado."
Os rios foram e continuam a ser, em Portugal, meras "linhas de água" de captação de recursos e onde se rejeitam efluentes, os mais poluídos e devastadores da qualidade da água a ponto de matar a fauna piscícola e mamíferos das margens e até a mata e a vegetação das margens e as terras em que se vão infiltrando ao longo do seu percurso.
Mas o vento e água, sagrados para os chineses, devê-lo-iam ser para o mundo inteiro, já que são, por excelência, os dois veículos naturais de transporte: transportam a vida (o ar transporta o polén), ou transportam a morte (a poluição do ar e da água).
Com as alterações climáticas mundiais, de que já chegaram ao país as consequências, como nunca é necessário reaprender a desenhar com a natureza dando prioridade à água e aos seus locais naturais de infiltração e de drenagem que são os vales e retomar com a maior seriedade a legislação de ordenamento e de protecção dos locais que guardam a vida natural/cultural do nosso País; todos os erros humanos com o ar e água se podem evitar, basta deixá-los PASSAR pelos lugares naturais que lhes pertencem percebendo, para além de razões científicas e técnicas e estéticas, o espírito de cada lugar. E lembremos os monges agrónomos, os Beneditinos, que construíram o Convento de Alcobaça deixando o Côa passar, livremente, pela cozinha e não haverá no mundo muitos "monumentos" construídos em cima de um rio, deixando-o ser rio.
Meter uma linha de água não importa de que dimensão, num CANEIRO não é possível em nenhum país do mundo e, onde se fizer, a natureza mais tarde ou mais cedo reclamará o que lhe pertence como aconteceu no fim do ano de 2005 em New Orleans e Houston, situações bem paradigmáticas da invencibilidade da natureza por mais avançadas que sejam as tecnologias e as máquinas para a dominar porque até os factores de imponderabilidade são bem mais prováveis do que o domínio humano por mais que o homem desafie a natureza, como lhe compete e é humano fazer.
Sabe-se como é inútil construir paredões de betão senão acidentalmente, nem sequer espigões de pedras feias e colocadas ad hoc, porque um litoral não é uma área portuária contínua.
Espigões e paredões fazem parte de uma atitude que prolifera por esses litorais fora, fazendo-se desmoronar falésias sobretudo desde o boom turístico dos anos 60 que tudo constrói no limite das falésias ou mesmo em pleno areal. É sabido que o mar está actualmente a tornar a avançar (progressões e regressões) naturalmente, no seu cósmico movimento dinâmico super-milenar, senão não haveria altas falésias cobertas de fósseis marinhos ao longo da costa portuguesa como as da Costa da Caparica e do Algarve, de arenito e com alternância de camadas de argila porosa, porque o mar "recuou", sendo complicado não haver "conhecimento" nas disciplinas de planeamento e ordenamento bio-físico suficiente, e de geologia, para que se minimizem as catástrofes naturais anunciadas.
O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela, ganhando em eficiência e perenidade do construído, ganhando em qualidade da natureza e do ambiente e de beleza das paisagens e por fim ganhando em termos económicos já que tem de dispor de muitos milhões de unidades monetárias para constantemente refazer os enganos de planeamento e projecto, gasto que em vez de ser revertido para desenvolvimento sustentável e restauro do património, é gasto em "reparações" que serão cada vez mais difíceis de efectuar, à beira-rio e à beira-mar.




Fig 7: “O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela.”

Impermeabilizar leitos de rio, tornou-se normal em Portugal sendo curioso o caso de Ponte de Lima em cujo leito em anos de pouco caudal se fazem feiras, e que foi "cimentado" nos anos 90 após anos de areal a descoberto – mas que em 1991 provocou uma das piores cheias de sempre da região, e, da mesma forma, se construiu Miraflores no leito de uma das duas maiores ribeiras de Lisboa – a de Algés –, a par da segunda maior ribeira sobre a qual se construiu a avenida de Ceuta, porque foi esquecido que em 1983 houve enxurradas catastróficas na zona de Lisboa e Oeiras até Cascais, por haver construção indevida em leito de ribeiras.
A natureza é previsível e imprevisível e a única forma de minimizar as consequências está em saber decidir controlar a decisão de impermeabilização e de "parcelamento" de espaços físicos férteis e de funções múltiplas, conhecendo e respeitando as características de cada local e a sua função primordial, e podendo-se até dizer que "o que está certo está belo."

E como já se disse, cada "linha de água" é por si só uma paisagem e uma "entidade" a considerar no quadro de "ordenamento do território (urbano e rural) - é um Corredor Ecológico por excelência.
Basta pensar em como a cidade trata a água nas sua forma mais elementar e que tem a ver com a quantidade de queda pluviométrica urbana que, como é sabido, pode ser superior à da envolvente rural, já que, na cidade, a temperatura média diária pode ser superior em 6 a 7ºC devido a ser um contínuo de materiais inertes e com muito baixa relação percentual de área permeável, representada por parques e jardins, públicos e privados, que são áreas de beleza e de memória das "estações do ano", áreas de infiltração da água da chuva e regularizadores climáticos, são "natureza viva dentro da cidade", são vida.
E quando a cidade entra em crise ambiental, entra em crise, igualmente, a cultura dos seus habitantes, que mais e mais se distanciam da realidade da natureza e do que dela provém para que a cidade exista.
Creio eu bem que hoje tudo o que se passa não apenas no campo, mas também relativamente ao valor das componentes ambientais – e sobretudo à água – é, cada vez mais, um problema de cultura urbana porque os rurais já não habitam o campo e a cidade não é educada para esses valores, e talvez nem mesmo para os valores de urbanidade.




Fig. 8: Cidade e urbanidade.

Por mim, sempre me extasiei com a Terra e o que contém tanto de natureza, como feito pelos homens num diálogo de arte, que só pode ser diálogo de amor. E, por que não dizer também que, como os "antigos", vejo o Divino no rio, na árvore suporte do mundo, e na inspiração humana que faz catedrais.
Ou então dizer, como São Francisco de Assis, “a minha Irmã Terra, a minha irmã Lua, os meus irmãos peixes!” Não será tudo manifestação do mesmo? Que o homem vai descodificando?



Fig. 9: “A minha Irmã Terra, a minha irmã Lua …”

E porque os homens se divorciaram das coisas da natureza e da origem das Cidades-Civilização, agora fazem desmoronar também as cidades onde moram, sem darem conta de que já não há mais nada para destruir a não ser o próprio homem.



Maria Celeste d’Oliveira Ramos, em Outubro 2005
Colaboração e imagens de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006