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segunda-feira, julho 02, 2018

647 - Sobre o habitar - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647

Infohabitar, Ano XIV, n.º 647
Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º II

Sobre o habitar - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar”

Infohabitar 647


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo dá-se continuidade a uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito, aqui na Infohabitar, e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.

Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um relativo privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; mas os “velhos clássicos”, conhecidos, mal conhecidos ou injustamente pouco ou nada referidos não serão esquecidos, pelas razões óbvias e, até, porque há, sempre, as bibliotecas ...

Como os leitores sabem, tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.

Julga-se que a actualidade é marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito de que descobrimos e do que lemos na WWW, mas também por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente (também na WWW) sobre uma dada temática. Esta velocidade parece ser incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” e salutar e relativo distanciamento no pensar, aprofundada e pacientemente, sobre um dado tema, dificultando a geração de ideias bem sedimentadas e desenvolvidas; e tudo isto ainda influenciado por uma actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas; mas há, sempre, as bibliotecas ...

Parece ser, assim, altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; neste caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco como resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui reinventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo e da investigação atuais, mas que deseja não dar a perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar, profunda e diversificadamente, sobre o atual e futuro quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.

A partir de agora a Infohabitar irá, assim, procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.

O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Habitar no espaço e no tempo - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com


Breves notas explicativas
No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Juhani Pallasmaa (*) intitulado Habitar”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2016 (**).
Salienta-se que o livro tem, já, uma edição em português, também da mesma editora, de 2017 – ver https://ggili.com/habitar-livro.html

Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos mais objectivos, referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas – isto porque a leitura se fez sobre a referida tradução em castelhano.
Nas reflexões e notas que se seguem procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Juhani Pallasmaa.


Apresentação geral
Em primeiro lugar apetece referir a cuidada edição deste “pequeno” livro, com a sua atraente e simples ilustração de capa (parece ser o perfil esquematizado do autor), praticamente um “livro de bolso”, bem manuseável, e que, assim, nos desafia a levá-lo connosco para o irmos lendo, calma e agradavelmente; numa atitude que está bem de acordo com os ensaios que nele estão compilados.
O livro tem 127 páginas e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir do respetivo e sintético prólogo, seguindo-se cinco temas/ensaios específicos, mas expressivamente sequenciais, também em termos cronológicos (desde 1994 a 2015); (ii) seja uma leitura tema/ensaio a tema/ensaio, que se recomenda seja feita após a leitura do referido prólogo; e, considerando a dimensão da obra e o seu interesse, considera-se que uma leitura inicial global irá permitir, posteriormente, o agradável retornar aos seus diversos temas.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, que, muito claramente, e embora tratando-se de ensaios teóricos e com grande relação com a prática elaborados por um arquitecto, poderão ser pessoas com perfis disciplinares muito diversos, desde que interessadas pela temática do habitat humano.
E julga-se que é sempre de saudar e sublinhar a gradual construção de um verdadeiro corpo teórico-prático, neste caso da disciplina da Arquitectura, a partir de consolidadas contribuições de investigadores e pensadores do respetivo ramo teórico, pois Juhani Pallasmaa é arquiteto.


Estrutura e principais temas
Depois de um prólogo pouco extenso, com grande interesse e expressiva autonomia, intitulado “habitar no espaço e no tempo”, e no qual o autor também introduz, minimamente, os ensaios que são, depois, apresentados; temos, cronologicamente, os seguinte temas/ensaios: Identidade, intimidade e domicílio (1994, 31 pg.); O sentido da cidade (1996, 10 pg.); O espaço habitado (1999, 27 pg.); A metáfora vivida (2002, 21 pg.); Habitar no tempo (2015, 13 pg.); concluindo-se com a referência à origem dos referidos ensaios.


Notas elaboradas a partir da leitura do livro “Habitar” de Juhani Pallasmaa
Apontam-se, em seguida, alguns aspetos e ideias que resultaram da leitura do livro e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo realizadas numerosas citações, entre aspas, de frases de Pallasmaa, lidas no seu livro; relembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.

Registam-se e salientam-se, desde já, as palavras com que Juhani Pallasmaa inicia este livro, e nas quais cita o Arq.º Wang Shu (Prémio Pritzker 2012), quando este refere que “para mim qualquer tipo de arquitetura, seja qual for a sua função, é uma casa. Só projeto casas, não arquitetura. As casas são simples. Mantêm sempre uma relação interessante com a verdadeira existência,  com a vida”.
Há aqui, portanto, um grande enfoque na importância do habitar na arquitetura, numa perspetiva que alarga esse sentido de habitar a todas as ações arquitetónicas, e portanto a todas as marcas humanas expressivamente caraterizadas e qualificadas.
Para Juhani Pallasmaa o habitar “é fundamentalmente um intercâmbio e uma extensão; por um lado o habitante situa-se no espaço e o espaço situa-se na consciência do habitante, e, por outro lado, esse lugar converte-se numa exteriorização e numa extensão do seu ser , tanto do ponto de vista mental como físico.”
Uma perspetiva que põe em relevo  papel da humanização na ação arquitetónica ou numa arquitetura, basicamente, (mais) humanizada – preocupada com o homem que é, sempre, o seu habitante.

E, sequencialmente, Pallasmaa avança para a caraterização do que pode/deve ser uma Arquitetura, desejavelmente, tão sensível como “simples” (aspas minhas), e citando Ludwig Wittgenstein, defende que “não pode haver arquitetura onde não há nada a sublimar”.
E remata defendendo que “no mundo obscenamente materialista de hoje a essência poética da arquitetura está ameaçada simultaneamente por dois processos opostos: a funcionalização e a estetização.”
Processos estes que parecem afastar-se dessa (sempre difícil) simplicidade e humanização arquitetónica, esse novelo de qualidades que estão bem presentes nas cidades e nos edifícios antigos, pois:
“As cidades e os edifícios antigos são acolhedores e estimulantes [...], incorporam e evidenciam as marcas/pegadas de um momento diferente do nosso sentido de tempo contemporâneo, nervoso, apressado e liso; projetam um tempo «lento», «espesso» e «táctil».”
E não seria possível deixar aqui de lembrar, a propósito, a noção de “slow-cities”, já apontada no início deste artigo, uma noção que não põe em causa a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, que marca, em profundidade, tantas das cidades e dos edifícios que mais nos marcam/marcaram e de que mais gostamos.

Depois, mais à frente, Pallasmaa defende que “na nossa cultura da abundância chegámos a converter-nos em pessoas sem lar/hogar.”
E, a propósito, não poderia deixar de referir que, há já alguns anos, numa sessão de apresentação de um livro fui questionado, depois de defender um habitat humano verdadeiramente caraterizado e apropriável, por uma pessoa do público que defendia que a habitação atual não deveria ter nada a ver com isso, sendo , sim, um simples produto de consumo.
Mas, afinal, quem sabe se tudo isto não tem, também, a ver com a real dificuldade de se desenvolver essa verdadeira expressividade e humanização no habitat humano, que se liga, tal como aponta Pallasmaa, aos “aspetos mais subtis, emocionais e imprecisos do lar."
E, consequentemente, e tal como aponta o autor, a arquitetura actual caracteriza-se por uma gradual “perda de empatia para com o habitante”, num afastamento da visão social e/ou empática da vida, procurando “encarniçadamente evitar ou eliminar a imagem onírica” [da casa/do lar].
E sobre esta importante matéria que marca (pode marcar) a caraterização do habitat humano e, naturalmente, a sua conceção arquitetónica, esse sonhar a casa/o lar, Pallasmaa questiona se os arquitetos o fazem, ou será que serão os artistas a fazê-lo, mais naturalmente; e incuindo, aqui (digo eu), alguns arquitetos artistas, que concebem “também” (aspas minhas) com arte, sistemática ou excepcionalmente – isto porque, evidentemente, a obra de arte vai acontecendo, julga-se, de forma não sistemática.
E por isso e tal como refere Pallasmaa, “as obras artísticas que tratam o espaço, a luz, os edifícios e o habitar podem proporcionar lições valiosas aos arquitetos sobre a própria essência da arquitetura.”

Depois, sobre a essência do lar/fogo, o autor refere que “não é um simples objeto, ou um edifício, mas um estado difuso e complexo que integra recordações e imagens” e que se tem de caraterizar, tanto por um sentido de estabilidade/permanência – referindo-se Pallasmaa  a Bachelard –, como por um cuidado equilíbrio entre comunidade e privacidade – referindo-se o autor ao livro de Alexander e Chermayeff, “Comunidade e Privacidade” (e não posso aqui de referir que, desde há muito tempo, não registava uma referência específica a esta obra, que também considero fundamental).

Pallasmaa desenvolve, em seguida, as estimulantes matérias da imagem, da nostalgia, da identidade e da intimidade no lar/habitação, passando, depois, para o que designa de “ingredientes do lar/casa”, sendo alguns deles mais genéricos e outros mais específicos e, por vezes, simbólicos (ex., a chaminé, a mesa).

E finalmente, nesta matéria da caraterização do habitar/lar aborda a relação da respetiva conceção arquitetónica com objetivos de tolerância, mas também de estímulo e de um forte relacionamento com a vida; e aqui aponta que a arquitetura contemporânea de vanguarda tende a abandonar a problemática do habitar, e que a arquitetura actual “parece ter abandonado por completo a vida e ter-se dirigido para a pura invenção arquitetónica”; e sobre esta matéria cita um famoso arquiteto bem conhecido, que defende que, atualmente, a arquitetura deve abrigar e não romantizar essa função de abrigo.

Juhani Pallasmaa passa depois para um ensaio sobre o sentido da cidade – a cidade percebida, recordada e imaginada.
Poderíamos nós dizer: a cidade bem habitada e sentida. Apontando interessantes aspetos, como os que são, em seguida, registados: que “a cidade contém mais do que se pode descrever”;  que “a imagem de uma cidade acolhedora não é uma expressão visual, mas sim um princípio integrado que se baseia numa dupla e peculiar fusão: habitamos a cidade e a cidade habita-nos.”
E depois fala/escreve sobre as cidades que se visitam e nos visitam continuamente, sobre as cidades multisensoriais, sobre os remansos verdes e apaziguadores que marcam as cidades, sobre as cidades “afortunadas” junto à agua, e sobre as cidades velozes na sua perceção; rematando, de certa forma, com algumas ideias:
“ Temos uma capacidade inata para recordar e imaginar lugares. A perceção, a memória e a imaginação estão em constante interação;”
“há cidades que permanecem como meras imagens visuais ao ser recordadas, e cidades que se recordam em toda a sua vivacidade/animação.”   
E parece ser , aqui, tão interessante como oportuno ensaiar a aplicação destas últimas noções ao habitar no seu conjunto e lembrando o lar/casa: e tudo se aplica, praticamente da mesma forma; recordar e imaginar/recriar lugares, lembrar ativamente sítios verdadeiramente habitados/vivos e expressivamente caraterizados.

Depois, naturalmente, Pallasmaa avança para a temática global do “espaço habitado”, num extenso ensaio em que aborda diversos subtemas, entre os quais se salientam os seguintes: o mundo e a mente, o espaço existencial (“vivemos um mundo onde o material e o mental, o experimentado, o recordado e o imaginado, se fundem completamente entre si”); a realidade da imaginação; a realidade da arte; utilidade e inutilidade (“na opinião de Alvar Aalto a arquitetura não é em absoluto uma área da tecnologia; é uma forma de «arqui-tecnologia».” Pallasmaa citando Göran Schildt, em “Alvar Aalto Luonnoksia”); novidade e eternidade; arte e emoção; a tarefa da arte; o conhecimento através da arte; o pensamento sensorial; a mão que pensa,
e aqui chegado Pallasmaa cita (a partir de “The Sculptor Speaks” de Philip James) o que julgo ser uma extraordinária frase do grande escultor Henry Moore sobre como o escultor deve “«agarrar» simultaneamente múltiplos pontos de vista na sua obra” – e citando o princípio da frase de Moore, que podemos usar no que considero ser uma excelente aproximação também à conceção arquitetónica:
“Isto é o que o escultor deve fazer. Deve esforçar-se continuamente em pensar a forma, e utilizá-la, na sua completa totalidade espacial[...] Visualiza mentalmente uma forma complexa a partir tudo o que a rodeia; enquanto olha de um lado sabe como é o outro; identifica-se com o seu centro de gravidade, a sua massa, o seu peso; está consciente do seu volume e do espaço que a forma move/subtrai no ar.”
E Pallasmaa termina este ensaio com um texto que salienta a importância da imaginação para uma vida plena e digna.

O ensaio que se segue intitula-se “a metáfora vivida” e nele o autor contrapõe a actual cultura materialista e racional, que considera os edifícios como elementos apenas instrumentais e utilitários e que os “equipa”, estrategicamente, com imagens visualmente estimulantes mas não radicadas na nossa experiência existencial, a  uma arquitetura onde “as casas da nossa memória e imaginação estruturam as nossas experiências” – relativas ao habitar casa e cidade, de certa forma, intermediando e estruturando essa mútua relação.
E, sequencialmente, no ensaio aborda variados temas, entre os quais se apontam os seguintes: a arquitetura como matáfora; a imagem poética; a imagem arquitetónica (“a arquitetura humaniza o mundo ao dar-lhe uma medida e um horizonte”); a casa e o corpo; a historicidade das imagens; imaginário da janela e da porta; tradição e novidade (“a tradição é uma impressionante sedimentação de imagens e não pode inventar-se, só se pode viver-se. A tradição constitui uma escavação sem fim de mitos, recordações e experiências comuns.”).

Juhani Pallasmaa conclui este seu livro com um ensaio recente (2015) sobre o “habitar no tempo” e nele, de certa forma, parece estabilizar uma série de ideias anteriormente apontadas no livro, citando-se, aqui, algumas delas.
. “Ao mediar entre o mundo e nós próprios a arquitetura proporciona marcos e horizontes diferenciados para a experiência, o conhecimento e o significado. Essa visão que hoje prevalece da arquitetura como simples objeto e estrutura visual estetizada é, portanto, significativamente errónea.”
. “No entanto, para além de vivermos no espaço também habitamos o tempo, e a arquitetura medeia igualmente a nossa relação com a passagem do tempo, dando assim uma medida humana ao tempo interminável. “
E, a propósito, não seria possível deixar de referir mais uma daquelas obras sobre arquitetura que deveriam marcar, sempre, a formação em arquitetura: trata-se, naturalmente, do livro de Kevin Lynch “What time is this place?” (1972).
. “Para além de criar a experiência de um espaço único e diferenciado a tarefa fundamental da arquitetura é conservar e definir um sentido de continuidade cultural e salvaguardar a nossa experiência do passado;”
. “As identidades não aderem a coisas isoladas, mas sim à continuidade da cultura e da vida.”
E, “finalmente” (aspas minhas), Juhani Pallasmaa sublinha o caráter e a importância dos sítios/lugares antigos:
“ Um cenário sofisticado, com a sua autoridade e profundidade históricas, coloca-nos em sintonia com as qualidades sensoriais/sensíveis e de entendimento tanto do caráter humano como do cultural”; uma afirmação que, na minha opinião, se aplica com toda a adequação a qualquer obra relevante de arquitetura.

Juhani Pallasmaa termina este seu "Habitar" com a seguinte frase: “La arquitetura relevante permite experimentarnos a nosotros mismos como seres completamente corpóreos y espirituales.”

Boa leitura, é o que se deseja,

António Baptista Coelho


(*)Juhani Pallasmaa  (Hämeenlinna, 1936) é arquitecto em Helsínquia, foi professor de Arquitectura na Universidade de Tecnologia de Helsínquia, director do Museu de Arquitectura da Finlândia e professor convidado em diversas escolas de arquitectura em todo o muno; é autor de numerosos artigos sobre filosofia, psicologia e teoria da arquitectura e da arte, e de um conjunto de livros bem conhecidos.
(notas retiradas da apresentação do autor na badana do livro)

Outros livros de Juhani Pallasmaa  na Gustavo Gili:
. La imagen corpórea. Imaginación e imaginário en la arquitectura.
. La mano que piensa. Sabiduria existencial y corporal en la arquitectura
. Los ojos de la piel. La arquitectura y los sentidos
  Prólogo de Steven Hall y epílogo de Peter Mackeith

(**) Juhani Pallasmaa, "Habitar", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2016
Tradução de Àlex Giménez Imiralzadu
127 pg., sem figuras.
ISBN: 978-84-252-2923-7

Página do site da editora dedicado ao livro, na sua edição em português:
https://ggili.com/habitar-livro.html

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 647
Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º II
Habitar no espaço e no tempo - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista da GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



segunda-feira, abril 30, 2018

639 - Pequenos sítios domésticos I: dos lugares de sentar e mesa aos (re)cantos “activos” – Infohabitar 639

Infohabitar, Ano XIV, n.º 639

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CXII


por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Introdução sobre os pequenos sítios domésticos

(Nota prévia: por uma questão de autonomia de leitura a introdução será repetida nos vários artigos sobre esta temática dos pequenos sítios domésticos)
Para além dos habituais espaços domésticos globalmente associados a compartimentos mais de estar ou mais de circulação e/ou recepção e que bem conhecemos, uma boa habitação, que nos “diga” realmente algo, para além de, simplesmente, nos abrigar, deve integrar, de forma muito natural, diversos tipos de sítios domésticos, entre os quais se contam os “lugares janela”, já desenvolvidos, mas cuja variedade dependerá da capacidade de quem bem projecta e de quem bem habita esse espaço doméstico.
Mas não tenhamos quaisquer dúvidas de que essa capacidade de adequada e estimulante integração de múltiplos pequenos sítios domésticos, propícios a variadas conjugações de microfunções e microapropriações depende em boa parte de um adequado, pormenorizado e rico/imaginativo projecto de Arquitectura, que facilitará e até incentivará tais condições, enquanto, se não existir esse projecto bem qualificado, quando o mundo doméstico é “manejado” de forma “maquinal” e rigidamente “unificada”, os resultados no uso e apropriação da habitação tenderão a ser muito “áridos” e funcional e formalmente muito pobres.
De certa forma aquilo que se aplica/acontece ao nível urbano e relativo aos aspectos de localização/integração, que têm enorme importância na satisfação dos habitantes – resumindo-se, por vezes, na ideia de que o que interesse primeiro é o sítio, depois o sítio e ainda depois o sítio … -  é algo que acontecerá, depois, ao nível do edifício, quando ele integra habitações com a riqueza da conjugação de variados sítios domésticos, e, depois, ao próprio nível doméstico, considerado, e bem, como a conjugação de variados e ricos pequenos sítios que nos servem, marcam e que apropriamos.
Em seguida iremos comentar diversos “pequenos sítios domésticos”, sem a ambição de os esgotarmos a todos, naturalmente; pois a sua diversidade está apenas dependente da sensibilidade e da imaginação de quem os projecta e de quem os habita – mas mesmo a este último nível é de grande importância o desenvolvimento da reflexão dos projectistas sobre estas matérias, reflexões estas que naturalmente, sendo feitas de forma clara/acessível, irão municiar/influenciar uma grande e adequada riqueza nessa apropriação pelos habitantes.


Lugares de sentar suplementares e agradáveis

Praticamente tão importante como criar determinadas quantidades de espaço interior doméstico é criar espaços que integrem naturalmente sítios onde, depois de se introduzirem os elementos de mobiliário correntes se possam colocar lugares de sentar suplementares e agradáveis, porque, por exemplo, perto de uma janela ou de uma mesa, ou bem orientados relativamente à televisão.
A suplementaridade destes lugares de sentar deve ser considerada em relação com o programa funcional corrente numa dada habitação, pois considera-se que deve haver uma disponibilização constante destes lugares de sentar e, inclusivamente, um seu cuidadoso tratamento, que os torne aliciantes.
Uma outra possibilidade bastante versátil é proporcionada por cadeiras dobráveis, que sejam usadas apenas quando necessárias, mas para tal é importante haver espaço para as arrumar de forma a que estejam sempre "à mão".

Lugares-mesa

Tal como referiu o arquitecto Hermann Hertzberger, numa palestra no LNEC em Maio de 2010, na concepção arquitectónica interior é fundamental proporcionar os mais diversos tipos de condições de integração de mesas dos mais diversos tipos. Afinal, as mesas são parceiras essenciais na dinamização e apoio ao desenvolvimento das mais diversas actividades, desde as refeições, às lides domésticas, ao trabalho profissional, ao lazer e à leitura.
De certa forma as mesas nunca serão de mais numa habitação, mas há que as integrar de forma adequada e elas consomem realmente espaço, mesmo quando escamoteáveis.
E os lugares-mesa obrigam naturalmente a cadeiras ou bancos de apoio, que eventualmente se poderão recolher debaixo das respectivas mesas.
Os conjuntos mesa/cadeiras escamoteáveis são, provavelmente, dos mais antigos elementos de mobiliário criados no apoio a uma vida doméstica que era marcada pelo nomadismo.

(Re)cantos "activos"

Por (re)cantos activos pretende-se definir um conceito de subespaços domésticos, que se integram noutros espaços ou compartimentos de maior dimensão, e cujas dimensões, configuração e proximidades específicas, designadamente, a determinadas zonas de actividades e a vãos de janela, lhes confere excelentes potencialidades para o exercício de variados usos funcionais ou de lazer, produzindo-se, em consequência, um evidente enriquecimentos do conjunto de actividades realizado nesse espaço ou compartimento em que o (re)canto se integra.
Salienta-se que estas condições não obrigam, nem a uma subdivisão do espaço principal, nem à demarcação física do (re)canto, que deverá ser marcado, essencialmente, pelo conjunto de elementos de mobiliário que o integram e por um determinado sentido de "cenário" funcional e/ou ambiental mais adequado à sua caracterização.
Assim se aplica, naturalmente, o referido fazer “de cada casa ... uma porção de lugares", objectivo que, aqui, será fazer de cada compartimento e espaço doméstico uma porção de lugares, bem conjugados, mas individualmente caracterizados e sempre carregados de sentido doméstico. E não tenhamos dúvida de que uma habitação constituída por espaços, cada um deles, integrados por uma "porção de lugares", será uma verdadeira habitação/cidade, adequada a cada um dos elementos do agregado, mas também à sua totalidade e às suas ampliações periódicas, com outros familiares e amigos.
A existência de (re)cantos em espaços e compartimentos, pode ser adequadamente fundamentada, nomeadamente, por critérios: funcionais (ex., desenvolvimento de actividades de apoio a usos estruturantes, como é o caso da instalação de uma pequena mesa de apoio a uma biblioteca) ; ambientais (ex., condições específicas de ventilação, insolação e iluminação natural, extremamente adequadas para determinados tipos de actividades); formais (ex., poder integrar mobiliário de família ou antiguidades); e paisagísticos (ex., proporcionar determinadas vistas, muito "dirigidas" e/ou "enquadradas" sobre o exterior próximo ou longínquo).
A adequada fundamentação, aqui considerada, para os (re)cantos domésticos, pode e deve ser reforçada por acumulações/concentrações desses critérios, acumulações estas que muito reforçam a imagem e o carácter de certos elementos/(re)cantos, o exemplo disto é dado pelas "bay-windows" que são justificáveis "à luz" de todos os tipos de critérios, que foram acima referidos.
Segundo Alexander conseguem-se ambientes atraentes e espaços muito íntimos, quando se faz variar a alturas do tecto, proporcionando-se arrumações sob zonas elevadas e sobre zonas rebaixadas (ex., criação de recantos de estar com um tecto falso bem rebaixado, aproveitando-se o desvão assim criado para arrumações e prateleiras - a altura útil conseguida nesses desvãos, para um pé-direito corrente, é de cerca de 0.60m - e previsão de zonas com pés-direitos muito altos, onde seja possível desenvolver zonas em galeria).
E não devemos esquecer que, tal como apontam Claire e Michel Duplay, o próprio mobiliário, quando atingindo grandes dimensões, pode criar "nichos" bem interessantes; uma possibilidade que é, actualmente, mais usada na concepção de espaços para crianças. ...
Finalmente sublinha-se que o emprego do termo (re)canto não significa que tais espaços tenham de ser desenvolvidos em zonas reentrantes dos compartimentos, referindo-se, assim, esse termo a uma sub-zona dimensionalmente reduzida e que não tem existência doméstica autonomizada do funcionamento do compartimento ou espaço principal em que se integra.
Notas:
(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 770 a 772.
(2) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", p. 136.
Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 639

Pequenos sítios domésticos I: dos lugares de sentar e mesa aos (re)cantos “activos” – Infohabitar 639

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.
Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



segunda-feira, julho 01, 2013

446 - A emergência da dimensão existencial nas cidades - Uma proposta a partir do Centro Histórico de Évora- Infohabitar 446

Infohabitar 446 

É sempre com uma satisfação muito especial que a Infohabitar e a sua edição dão as boas-vindas a um novo autor nas/das nossas páginas; fazemos assim esta brevíssima introdução a um excelente artigo da colega Susana Mourão, um artigo que conjuga e muito bem diversas áreas de conhecimento e de intervenção, que desenvolve uma reflexão, hoje em dia, muito oportuna relativa às temáticas da reabilitação/regeneração urbana e do viver a habitação de cada um (a tal que é ou pode ser uma segunda pele), e o habitar (que é também a vizinhança e o quadro urbano de integração) e a cidade de todos nós e nosso património.
Este artigo introduz, também, uma inovação na Infohabitar, com as ligações a alguns pequenos filmes em que a referida autora teve a colaboração da colega Marta Galvão Lucas.

Deseja-se uma boa leitura e espera-se que este seja o princípio de uma longa colaboração da Susana Mourão na Infohabitar.


António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

A emergência da dimensão existencial nas cidades - Uma proposta a partir do Centro Histórico de Évora


Susana Mourão

Socióloga, Pós-graduada em Design Urbano pelo Centro Português Design e Universidade Barcelona; Técnica Superior na Câmara Municipal de Évora
susmourao@gmail.com
Évora, Portugal

Nota Biográfica

Licenciada em Sociologia (1994l2000); Pósgraduada em Design Urbano pelo Centro Português Design e Universidade Barcelona (2002). Socióloga na Câmara Municipal de Évora desde 1998, tendo colaborado no Plano Estratégico Cultural do Concelho de Évora 1998l 2000, em 2001l2002 integra o Departamento Centro Histórico de Évora, Património e Cultura, na gestão de processos de reabilitação de edifícios, em 2009 colaborou no Plano de Gestão Centro Histórico de Évora, desde 2010, Coordena o Plano Local de Habitação e Reabilitação Urbana para o Concelho de Évora.

Desde 1999 trabalha em video para a produção de documentos em investigação social, nomeadamente em torno das questões do lugar. Em 1999 “Todos os Nomes menos Nacionalismo”, 2007 “Imagens ]ex[clusivas”, 2012 “Participação com rosto” em pós-produção. Desde 2005 com a colaboração de Marta Galvão Lucas, tem realizado práticas documentadas em video, sobre os moradores e a reabilitação das suas casas, no Centro Histórico de Évora. Em 2012 terminou “Henriqueta, uma cartografia íntima 2008l2012” que foi apresentada no Festival Escrita na Paisagem:

http://www.escritanapaisagem.net/event/27

Resumo

O Centro Histórico de Évora é Património Mundial desde 1986, pelo seu conjunto de valor patrimonial que é um elemento primordial de estruturação, caracterização, e identificação da cidade de Évora. Para a Salvaguarda e Valorização Patrimonial do Centro Histórico de Évora foi desenvolvida uma política de preservação do seu carácter patrimonial e dos elementos que constituem a sua imagem adaptando-os à vida contemporânea, e todas as intervenções são condicionadas ao seu valor patrimonial e ao seu espaço envolvente. Neste sentido, com a Classificação de Património Mundial e a sua respectiva política de Salvaguarda e Valorização Patrimonial, podemos afirmar, que o Centro Histórico de Évora de um lugar de vocação Patrimonial.

Mas, o carácter do Centro Histórico de Évora vai além da sua “imagem” patrimonial ou dos elementos patrimoniais que o constituem, ele é um lugar do dia-a-dia da vida humana, sendo o seu espaço preenchido pelo sentido humano de habitar. Por isso, o carácter deste lugar é significativo e não apenas uma imagem para quem o habita. Assim, sendo o Centro Histórico de Évora um lugar habitado, a sua política de Salvaguarda e Valorização Patrimonial está distante de quem o habita, sendo emergente a sua dimensão existencial.

Palavras-chave

O lugar de vocação patrimonial e o lugar existencial


O lugar de vocação patrimonial

O Centro Histórico de Évora foi classificado como Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO em 1986. Esta classificação é delimitada pela muralha "Vauban" construída no século XVII e no seu interior encontra-se a "cidade-museu” (i), que contém 20 séculos de história dos povos e civilizações que habitaram em Évora. O Centro Histórico de Évora "é o melhor exemplo de cidade da idade de ouro portuguesa após a destruição de Lisboa no terramoto de 1755" (ii) e "só a paisagem urbana de Évora permite actualmente compreender a influência exercida pela arquitectura portuguesa no Brasil, em sítios como Salvador da Baía (inscrito em 1985 na lista de Património Mundial)" (iii). Este lugar único com 20 séculos de história, desde a sua romanização “Liberalitas Júlia” que conserva a partir de uma ruína o Templo de Diana. Quanto ao visigótico, a cidade cristã ocupou o espaço amuralhado romano, que sob o domínio muçulmano foi aperfeiçoado o seu sistema defensivo, tendo como vestígio uma porta fortificada e restos da Medina. Quanto à época medieval, temos a Sé Catedral que iniciou em 1186 e concluída no século XIV. Com a idade do Ouro, constroem-se conventos como em 1452 Convento de Santa Clara, 1480 a Igreja Real e o Convento de S. Francisco, 1470 Convento dos Lóios com a Igreja Evangelista em 1485. Com o estilo Manuelino destacam-se o Palácio dos Condes de Basto, a Igreja Santo Antão, de Santa Helena do Monte de Calvário, etc. No século XVI o Aqueduto da Água de Prata e as suas fontes, como a Praça do Giraldo. Em 1553, Évora afirma a sua influência intelectual e religiosa através da Universidade do Espírito Santo, que desempenha o papel análogo à Universidade de Coimbra.

Para além do património monumental, o Centro Histórico de Évora tem uma arquitectura menor de casas térreas, brancas de cal, cobertas de telhas ou terraços, que se situem nas ruas estreitas que definem a estrutura medieval e o crescimento concêntrico do Centro Histórico, dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Com a classificação do Centro Histórico de Évora, como Património Mundial, foi o reconhecimento da sua Vocação Patrimonial (iv). Neste sentido, foi desenvolvida uma política de Salvaguarda e Valorização do Centro Histórico, através do Plano de Urbanização, da responsabilidade da Câmara Municipal de Évora. No Plano de Urbanização de Évora, o Centro Histórico é identificado como "um grande conjunto de valor patrimonial" sendo "um elemento primordial de estruturação, caracterização e identificação da cidade de Évora".(v)

A Vocação Patrimonial deste conjunto, não é identificado como "Cidade-Museu" mas sim, "A Cidade Intramuros" (vi) que é delimitada pela “área envolvente, a norte e poente, e pela cerca medieval e, a sul e a nascente, pela muralha do Século XVII/XVIII, coincidindo com o espaço classificado Património Mundial da Unesco em 26 de Novembro de 1986 e considerado o melhor exemplo de cidade da idade de ouro portuguesa pelo ICOMOS. Inclui 35 imóveis classificados por decreto, entre 190 elementos de valor patrimonial.” (vii) O Centro Histórico de Évora é um lugar de 104 hectares, delimitado pela muralha "Vauban" construída no século XVII, que contém edifícios classificados como monumentos nacionais e de elementos de valor patrimonial. Sem dúvida, que o Plano de Urbanização de Évora reforça a vocação patrimonial do Centro Histórico.

Para além da sua Vocação Patrimonial, a Cidade Intramuros "deverá manter a sua plurifuncionalidade com a presença da habitação, do terciário, equipamento, comércio e serviço, hotelaria e indústria artesanal” (viii) e todas as "obras relativas a edificações deverão procurar compatibilizar uma atitude de salvaguarda e valorização do património com o objectivo de dotar todos os edifícios de boas condições de habitabilidade” (ix).

Com esta recomendação, o Plano de Urbanização de Évora propõe as grandes funções urbanas do Centro Histórico (plurifuncionalidade), como habitar, trabalhar, passear, etc. e todas as intervenções no edificado deverão Salvaguardar e Valorizar o seu Património. Por “Património” entende "todos os espaços, conjuntos, edifícios ou elementos pontuais cujas características morfológicas, ambientais ou arquitectónicas se pretende preservar e como tal sejam identificados" (x) e deverão "ser salvaguardados e valorizados em todas as intervenções a efectuar na cidade" (xi) isto é, a Salvaguarda e Valorização Patrimonial consiste na “preservação do carácter e dos elementos determinantes que constituem a sua imagem adaptando-os à vida contemporânea” (xii) sendo todas as intervenções condicionadas "em função do património, das transformações do seu espaço envolvente".(xiii)

Este conjunto de grande valor patrimonial, onde estão inseridos 35 imóveis classificados e 190 elementos de valor patrimonial, todas as intervenções estão condicionadas à sua função patrimonial, através da preservação das características morfológicas, ambientais e arquitectónicas, isto é, valorizar e salvaguardar o seu carácter (xiv) visual. A preservação das características morfológicas, ambientais e arquitectónicas são de acordo com a classificação dos edifícios e das fachadas. Os edifícios são classificados como Monumentos Nacionais e de valor patrimonial E1, E2 e E3. Quanto aos Monumentos Nacionais apenas poderão ser objecto de “obras de conservação, restauro e eventualmente de reabilitação” (xv), os edifícios com valor patrimonial E1 e E2 apenas serão objecto de “obras de conservação, restauro e reabilitação, com preservação integral da fachada” (xvi), os edifícios com valor patrimonial E3 apenas serão objecto de “obras de conservação, restauro e reabilitação que poderão estender-se à fachada” (xvii).

Assim, os projectos de intervenção deverão cumprir os objectivos gerais de defesa do património, mesmo quando se trate de dotar um edifício de condições mínimas de habitabilidade, isto é, alterar um edifício para dotar de iluminação e ventilação natural ou ampliar o edifício para ter uma dimensão mínima de habitabilidade como um T0, conforme o Regime Geral de Urbanização Urbana, a solução projectada não poderá contrariar as razões que determinaram a classificação do edifício. Por outro lado, caso sejam encontrados elementos arquitectónicos que valorizem o edifício, as regras anteriores não se aplicam.

Para além dos edifícios classificados, também são objecto de salvaguarda e valorização as fachadas de valor patrimonial, sendo classificadas de F1 e F2. As fachadas classificadas de F1 deverão ser preservadas e as F2 poderão sofrer alterações controladas, mas não podem perder o traçado anterior ou o seu perfil de conjunto. Quando às fachadas classificadas que estejam em ruína recomenda-se a sua demolição e consequente reconstrução de acordo com as características da fachada, através de um projecto rigoroso do existente e respectiva documentação fotográfica.

Para além do edificado, existem zonas verdes de valor patrimonial que deverão ser preservadas com as características da época ou épocas de construção. Contudo, todo o Centro Histórico deverá ter acompanhamento histórico/arqueológico nas intervenções no subsolo e nas estruturas dos edifícios, pois caso se verifique a descoberta de elementos patrimoniais arquitectónicos ou achados arqueológicos, o Município de Évora poderá suspender as intervenções, para o respectivo estudo, identificação e registo dos elementos encontrados. Só após o estudo, identificação e registo dos elementos poderão prosseguir as intervenções.

Também existem elementos de valor patrimonial com classificação por P que deverão ser conservados e valorizados, tais como, chaminés, platibandas, reixas, grades de ferro decoradas em varandas, açoteias, mirantes e contramirantes.

Resumindo, todas as intervenções no Centro Histórico de Évora seguem um projecto de arquitectura rigorosamente condicionado às questões patrimoniais, segundo a política de Salvaguarda e Valorização Patrimonial que corresponde à preservação das características morfológicas, ambientais e arquitectónicas dos edifícios.

Neste sentido, a salvaguarda e valorização do Centro Histórico de Évora pretende criar uma “ideia de permanência” como tentativa de superar a acção do tempo, através de uma política de reabilitação (manutenção, da conservação, da restauração, da reabilitação ou das reconstruções) do seu património. Estas acções de intervenção no seu património arquitectónico revestem-se em torno de um “culto patrimonial”, através da preservação do carácter visual dos seus edifícios adaptando-os à vida contemporânea. Por outro lado, está associada a "ideia de continuidade" do património, para evitar rupturas ou perda de valores patrimoniais. Neste sentido, o Plano de Urbanização de Évora apresenta uma classificação de valores patrimoniais segundo várias categorias: edifícios que são monumentos nacionais e edifícios de valor patrimonial (E1, E2, E3), fachadas de valor patrimonial (F1,F2) etc. Associadas a estas ideias de permanência e continuidade, está subjacente a "ideia de conhecimento" como a mensagem histórica "verdadeira" através dos valores patrimoniais, como o ano de construção, o autor, etc. Segundo as ideias de “permanência, continuidade e conhecimento" do culto patrimonial, a preservação da imagem do Centro Histórico de Évora, é como um “espelho no qual nós, os membros das sociedades humanas do século XX, contemplaríamos a nossa imagem” (xviii). À luz destas ideias, vamos apresentar um projecto de reabilitação de um edifício no Centro Histórico de Évora, segundo a sua política de Salvaguarda e Valorização Patrimonial.

Em 2006, o edifício situado na Rua do Cano 75, está em mau estado de conservação e não tem condições de habitabilidade: não tem casa de banho, não tem condições de higiene e salubridade mínimas, sendo necessária uma intervenção profunda.

O edifício está inserido em zona de protecção contígua ao Monumento Nacional "Aqueduto da Água de Prata" e a sua fachada é Classificada de F1, sendo que deverá ser preservada. Apesar de ter 2 pisos, edifício é de influência rural, com 70 m2, ocupando um lote de 3,5 m de largura e 10 m de comprimento. A fachada tem poucas aberturas, apenas a porta de entrada e uma janela no 1º piso, sendo marcante a chaminé alta situada à face da rua, sem elementos decorativos.

O projecto de arquitectura direcciona-se na criação de um saguão para a criação de luz natural e ventilação do edifício, para a construção de uma casa de banho e de uma cozinha, e alterou a escada de acesso ao piso 1. Neste sentido, propõe manter a estrutura do edifício, e propõe adaptar a cobertura de forma a criar o saguão e melhorar as condições de isolamento térmico, conservando o tipo de telha existente e com particular preocupação com a inclusão de rulos e caleiras. Quanto à fachada é mantida na sua essência, mas propõe a construção uma janela no piso 0, idêntica à existente no piso 1.

existente .... proposta




Figura 1 – Plantas com o existente e proposta de reabilitação da Rua do Cano 75, em Évora
Fonte: Arquitecto Pedro Marques, autor do projecto

No interior do edifício mantêm-se os arcos de suporte da estrutura à vista, e as paredes serão revestidas a gesso cartonado com isolamento. A nova escada será em estrutura metálica e forrada a madeira. Os pavimentos serão substituídos por mosaico no piso 0 e no piso 1 será de madeira flutuante. As canalizações serão construídas assim como os esgotos, e a instalação eléctrica será alterada. Com esta intervenção, pretende-se ao nível do piso 0 as áreas comuns, sala e cozinha e arrumo, ao nível do piso 1 a área privativa, o quarto, a casa de banho e um pequeno espaço multifuncional.

Ao longo deste projecto de arquitectura verificamos que se pretende preservar o carácter patrimonial, ao mesmo tempo, que propõe a adaptação deste edifício à vida contemporânea da função habitar. Resumindo, este projecto tem como ponto de partida um espaço “vazio” (figura 1: existente) para projectar uma habitação condicionada pelo carácter visual do património arquitectónico (figura 1: proposto), isto é, “o culto patrimonial”.

A descoberta da dimensão existencial

Este edifício está inserido no Centro Histórico de Évora que é, sem dúvida, um centro urbano único, pela sua beleza, homogeneidade e dimensão, e pelo valor do seu património cultural e arquitectónico, mas entre os 35 imóveis classificados por decreto e 190 elementos de valor patrimonial, nomeadamente na "arquitectura menor, dos sécs. XVI, XVII e XVIII que se exprime globalmente num conjunto de casas térreas, brancas de cal, cobertas de telhas ou terraços, apertadas ao longo de ruas estreitas que seguem a estrutura medieval no núcleo antigo e ilustram o crescimento concêntrico até séc. XVII" (xix) habitam pessoas. Em 2011, a "cidade intramuros" tem 4326 (xx) alojamentos, dos quais 2426 (xxi) são alojamentos de residência habitual, isto é, 56% dos alojamentos são habitados, mas habitar, não é de lógica matemática ou quantitativa de concretizar uma das multifuncionalidades do Centro Histórico de Évora: a habitação.

Habitar implica preencher um espaço pelo sentido humano, e neste sentido, um espaço não é “vazio” mas sim “extensivo” e o seu carácter não é apenas uma imagem, mas sim, um carácter significativo pelos seus habitantes. Assim, este lugar habitado, o Centro Histórico de Évora é fenómeno do dia-a-dia da vida humana, e o seu espaço e o seu carácter não podem ser reduzidos à sua estrutura física, isto é, às suas características morfológicas, ambientais e arquitectónicas, mas como, a sua estrutura física se relaciona com a estrutura psicológica de quem o habita enquanto envolvente significativa. (xxii)

Neste sentido, vamos partir novamente do projecto de reabilitação do edifício situado na Rua do Cano 75, que sumariamente sabemos a sua localização, as condicionantes patrimoniais, o mau estado de conservação e as más condições de habitabilidade. Para além disto, o espaço deste edifício apresenta-se como “vazio”, e a partir deste espaço “vazio” projecta-se um desenho rigoroso condicionado às questões patrimoniais e às condições contemporâneas da função habitar. Mas este espaço apresentado como “vazio” no projecto de arquitectura está cheio de "coisas" como móveis, roupas, utensílios e objectos.


Vídeo 1 – uma casa cheia de “coisas”
http://vimeo.com/68550730
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

Nesta casa, em 5 de Junho de 1931 nasceu Henriqueta Vieira Santos. Desde o dia do seu nascimento, Henriqueta vive nesta casa. Em 2007, com 77 anos de idade, ela vai mudar-se pela primeira vez da casa onde nasceu e sempre viveu, porque, como sabemos pelo projecto de arquitectura, a sua casa não tem condições de habitabilidade e vai ter obras de reabilitação profunda, conforme o projecto apresentado.

A sua casa está cheia de “coisas” como móveis, de roupas, de utensílios e de objectos. O espaço desta casa não é “vazio”, mas sim “extensivo”, preenchido pelo sentido humano de Henriqueta. Em cada móvel, Henriqueta recorda pessoas e momentos da sua vida. Abrem-se gavetas e portas e encontramos “coisas” como roupa, utensílios e objectos que são antropomórficos (xxiii). A estrutura deste lugar não é apenas de ordem funcional e quantitativa pelo acumular de “coisas” como móveis, roupas, utensílios e objectos. A estrutura deste lugar é de ordem simbólica e qualitativa que revelam o carácter personalizado de Henriqueta, porque apenas ela se orienta e se identifica neste lugar. (xxiv) Assim, este edifício na Rua do Cano 75 em Évora, que está em mau estado de conservação e não tem condições de habitabilidade, que está inserido na zona de protecção ao Monumento Nacional “Aqueduto da Água de Prata” com fachada classificada F1, que deverá ser preservada, é um edifício habitado, que protegeu e foi protegido por Henriqueta. Ela tem que seleccionar e empacotar as suas “coisas”, os seus móveis, as suas roupas, os seus utensílios e os seus objectos, para levar para a habitação temporária. É difícil … através de Henriqueta, as suas “coisas” como os seus móveis, as suas roupas, os seus utensílios e os seus objectos, descobrimos a dimensão existencial deste lugar. (xxv)


Vídeo 2 - A descoberta da dimensão existencial
http://vimeo.com/68640949
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

Ao seleccionar e empacotar as suas “coisas” como os móveis, utensílios, roupas e objectos a levar para a "habitação" temporária, Henriqueta lembra, refaz, reconstrói e repensa a sua vida. Ela é idosa e não sabe se um dia vai regressar à sua "casa". Apesar do mau estado de conservação e da falta de condições de habitabilidade do edifício na Rua do Cano 75, esta casa foi um lugar estável na vida de Henriqueta desde que nasceu até hoje. Ela recorda os momentos passados na sua casa, através das suas “coisas”, dos seus móveis, das suas roupas, dos seus utensílios e dos seus objectos, que são verdadeiros lugares da sua dimensão existencial (xxvi), sendo a sua casa o equivalente simbólico ao corpo de Henriqueta. (xxvii)

Ela ao recordar a sua vida através das suas “coisas”, dos seus móveis, das suas roupas, dos seus utensílios e dos seus objectos, ela fica triste, ansiosa, melancólica, desorientada… o lugar estável que sempre cuidou, se orientou e identificou vai desaparecer. Este comportamento físico revela sentimentos de perda que são equivalentes ao sentimento de luto. A perda do lugar, onde Henriqueta nasceu e sempre viveu, fragiliza a sua “estabilidade existencial” e com ela a sua “estabilidade emocional”. (xxviii) Neste sentido, ela necessita de apoio psicossocial que é essencial para a sua “estabilidade existencial”. Este apoio é ao nível emocional, que começa pela tentativa de criar uma “estabilidade de lugar” na habitação temporária através da selecção das suas “coisas”, dos seus móveis, das suas roupas, dos seus utensílios e dos seus objectos com os quais Henriqueta tem uma ligação emocional muito forte.


Vídeo 3 – Os primeiros objectos da mudança para a habitação temporária
http://vimeo.com/68554733
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12


Após a mudança para a habitação temporária, a casa fica vazia, isto é, este lugar protegido já não tem as “coisas”, os móveis, as roupas, os utensílios nem os objectos, este lugar apenas existe na memória de Henriqueta. Ela nunca viu nem sentiu a sua casa vazia. Ela sabe que a sua casa vai ser demolida. Ela precisa de se despedir. Ela precisa de tempo e de espaço existencial (xxix), pois não se orienta e não se identifica no espaço, apenas se orienta e se identifica através da memória daquele lugar, agora vazio.


Vídeo 4 – A despedida da casa
http://vimeo.com/68844274
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

Enquanto projecto, é necessário transmitir à Henriqueta uma ideia de futuro, quanto à reabilitação da sua casa, para ela começar a ter uma imagem mental do futuro da sua casa, in loco.


Vídeo 5 – A casa no futuro
http://vimeo.com/68556997
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

O realojamento temporário é próximo da sua casa em reabilitação. Para o apoio psicossocial, esta proximidade permite que a moradora mantenha as suas relações de vizinhança, mantendo de certa forma a sua “estabilidade social”, ao mesmo tempo que acompanha o processo de reabilitação da sua casa. Manter esta ligação com a reabilitação da sua casa é essencial, porque reabilitar é sinónimo de habitar (xxx).


Vídeo 6 – Visita à obra
http://vimeo.com/68642524
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

Em 2012, Henriqueta regressa e reabita a sua "casa" e trouxe as suas “coisas”, os seus móveis, as suas roupas, os seus utensílios e os seus objectos, que a acompanharam durante o processo de reabilitação da sua “casa”.

Henriqueta também comprou “coisas” novas, como móveis, roupas, utensílios e objectos. A sua “casa” ficou com novas funcionalidades como uma cozinha nova com equipamento fixo, uma casa de banho completa, um roupeiro novo e ela comprou “coisas” novas para as novas funções e uso do dia a dia.

Por outro lado, deitaram fora as suas “coisas”, os seus móveis, as suas roupas, os seus utensílios e os seus objectos que perderam a sua função e o seu uso, como o lavatório de ferro, o toalheiro improvisado, um armário de apoio à casa de banho improvisada, uma estrutura de pendurar panelas, uma meia porta de entrada, um tapete na parede, etc.

Após 6 meses da mudança definitiva, para a sua Casa na Rua do Cano 75, Henriqueta fala da sua vivência. A idosa está em adaptação às novas funções da sua casa. Ela fala das suas “coisas”, dos seus móveis, dos seus utensílios, das suas roupas e dos seus objectos que não fazem parte da sua “casa” reabilitada. Com 81 anos, Henriqueta todos os dias recorda histórias passadas na sua casa. Ela recorda estas histórias passadas da sua vida porque deixou de ver as suas “coisas”, os seus móveis, as suas roupas, os seus utensílios e os seus objectos que foram deitados fora. Ela sente falta. Por isso, podemos deitar fora as “coisas” como os móveis, as roupas, os utensílios e os objectos que perderam a sua função e o seu uso, mas não perderam a sua função emocional, de recordar, de viver, de sentir a sua dimensão existencial. Assim, o apoio psicossocial através de um processo de reabilitação emocional foi essencial para o acompanhamento do projecto de reabilitação deste edifício, porque permitiu a descoberta da dimensão existencial deste lugar.


Vídeo 7 – Reabitar a casa
http://vimeo.com/68858065
Fonte: Mourão, S., Lucas M. em “Henriqueta, uma cartografia íntima” Prática Documentada, 2007l12

Conclusão

Após a análise, da política de Salvaguarda e Valorização do Centro Histórico de Évora, e a sua implementação através do rigor de um projecto de reabilitação de um edifício, condicionado às questões patrimoniais, podemos afirmar, que esta competência de reabilitação apoia-se num planeamento prospectivo que parte do seu património físico e projecta a preservação da sua imagem para o futuro, e esquece a sua dimensão existencial, isto é, o modo como se vive e como se sente no Centro Histórico de Évora.

Assim, é necessário que esta política de salvaguarda e valorização patrimonial ultrapasse este impasse de “culto patrimonial” que está distante do fenómeno do dia a dia da vida humana: o Centro Histórico de Évora é um lugar habitado.

Enquanto lugar habitado, o Centro Histórico de Évora não é um espaço “vazio” e com um carácter meramente visual, mas sim um espaço preenchido pelo sentido humano e revela um carácter significativo por quem o habita. Para tentar sair deste “culto”, temos que tentar olhar o corpo patrimonial do Centro Histórico de Évora como equivalente simbólico ao corpo humano, e reabilitar este corpo patrimonial é sinónimo de reabilitar o corpo de quem o habita. Assim, a partir desta experiência no Centro Histórico de Évora propõe-se a emergência da dimensão existencial nas cidades, porque “as cidades actuais vivem em função de um passado, presente e futuro através do seu planeamento prospectivo. Este planeamento prospectivo é fruto de uma cultura tecnológica, que valoriza o tempo futuro e operatório das mudanças nas cidades, e esquece o tempo existencial de como as cidades vivem e sentem o seu tempo.” (xxxi)


NOTAS:

(i) Declaração de Valor do Centro Histórico de Évora, UNESCO 1986, para consulta em: www.cmevora.pt/pt/conteudos/areas%20tematicas/centro%20historico/Patrim%c3%b3nio%20da%20Humanidade.htm

(ii) Declaração de Valor do Centro Histórico de Évora, UNESCO 1986

(iii) Declaração de Valor do Centro Histórico de Évora, UNESCO 1986

(iv) “The Basic act of architecture is therefore to understand the “vocation” of the place” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 23

(v) Plano de Urbanização de Évora, artº8, nº1, para consulta em:

http://www.cm-evora.pt/NR/rdonlyres/000111bb/hraqqnkjwlnqivbxvuttbevkqypkpdev/PlanodeUrbanizacao.pdf

(vi) Plano Urbanização de Évora, Capítulo III

(vii) Plano Urbanização de Évora, artº8, nº1

(viii) Plano Urbanização de Évora, artº62

(ix) Plano Urbanização de Évora, artº66, nº1

(x) Plano Urbanização de Évora, artº5, nº1

(xi) Plano Urbanização de Évora, artº7, nº1

(xii) Plano Urbanização de Évora, artº7, nº2, a)

(xiii) Plano Urbanização de Évora, artº7, nº2, b)

(xiv) “Character” is at the same time a more general and a more concrete concept than “space”. On the one hand it denotes a general comprehensive atmosphere, and on the other the concrete form and substance of the space-defining elements…We have pointed out that different actions demand places with a different character. A dwelling has to be “protective”, an office “practical”, a ball-room “festive” and a church “solemn”. When we visit a foreign city, we are usually struck by its particular character, which becomes an important part of the experience…In general we have to emphasize that all places have a character, and that character is the mode in which the world is “given.” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 14

(xv) Plano Urbanização de Évora, artº13

(xvi) Plano Urbanização de Évora, artº14, nº1

(xvii) Plano Urbanização de Évora, artº14, nº2

(xviii) “Por outras palavras, a observação e o tratamento selectivo dos bens patrimoniais não contribuiria para fundar uma identidade cultural dinamicamente assumida. Eles tenderiam a ser substituídos pela autocontemplação passiva e o culto de uma identidade genérica. Ter-se-ía reconhecido aí a marca do narcisismo. O património teria assim perdido a sua função construtiva em benefício de uma função defensiva que asseguraria o recolhimento de uma identidade ameaçada” in, Choay, Frabçoise, A Alegoria do Património, 2000: 212

(xix) Declaração de Valor do Centro Histórico de Évora, UNESCO 1986, para consulta em: www.cmevora.pt/pt/conteudos/areas%20tematicas/centro%20historico/Patrim%c3%b3nio%20da%20Humanidade.htm

(xx) Censos 2011, Instituto Nacional de Estatística

(xxi) Censos 2011, Instituto Nacional de Estatística

(xxii) “Man dwells wen he can orientate himself within and identify himself with an environment, or, in short, when he experiences the environment as meaningful” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 5

(xxiii) “Seres e objectos estão aliás ligados, extraindo os objectos de tal conluio uma densidade, um valor afectivo que se convencionou chamar a sua “presença”. Aquilo que faz a profundidade das casas de infância, sua pregnância na lembrança, é evidentemente esta estrutura complexa de interioridade onde os objectos despenteiam diante de nossos olhos os limites de uma configuração simbólica chamada residência. A cesura entre o interior e o exterior, sua oposição formal sob o signo social da propriedade e sob o signo psicológico da imanência da família faz deste espaço tradicional uma transparência fechada. Antropomórficos, estes deuses domésticos, que são objectos, se fazem, encarnando no espaço os laços afectivos da permanência do grupo, docemente imortais até que uma geração moderna os afaste ou os disperse ou às vezes os reinstaure em uma actualidade nostálgica de velhos objectos”in Baudrillard, Jean “O sistemas dos objectos”, 2002: 22

(xxiv) “When man dwells, he his simultaneously located in space and exposed to a certain environmental character. The Two psychological functions involved, may be called “orientation” and “identification.” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 19

(xxv) “we have used the word “dwelling” to indicate the total man-place relationship. To understand more fully what this word implies, it is useful to return to the distinction between “space” and “character”. When man dwells, he is simultaneously located in space and exposed to certain environmental character. The two psychological functions involved, may be called “orientation” and “identification”. To gain en existential foothold man has to be able to orientate himself; he has to know where he is. But he also has to identify him self with the environment, that is, he has to know how he is a certain place.” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 19

(xxvi) “…the things themselves are the places, and do not only “belong” to a place” in Schulz, Christian Norberg, Genius Loci, Towards a phenomenology of architecture, 1984: 176

(xxvii) “Os objectos têm assim - os móveis especialmente - além de sua função prática, uma função primordial de vaso, que pertence ao imaginário e a que corresponde a sua receptividade psicológica. São portanto o reflexo de toda uma visão do mundo onde cada ser é concebido como um “vaso de interioridade” e as relações como correlações transcendentes das substâncias – sendo a própria casa o equivalente simbólico do corpo humano, cujo poderoso esquema orgânico se generaliza em seguida em um esquema ideal de integração das estruturas sociais.” in Baudrillard, Jean “O sistemas dos objectos”, 2002: 34

(xxviii) Mourão, Susana, Do projecto de reabilitação de edifícios habitacionais ao projecto de reabilitação emocional - REHABITA, in actas do 2º Congresso Internacional da Habitação em Espaço Lusófono, 2013

(xxix) “Contudo, ter substituído a questão do património na perspectiva antropológica que é a sua, não coloca mais isso por à nosso disposição os meios de reapropriação da competência de edificar, que dizer, de empreender a travessia concreta e prática do espelho patrimonial, que resta agora evocar. Esta travessia não pode ser tentada senão através da mediação do nosso corpo. Ela passa, precisamente, por um corpo a corpo, o corpo humano com o corpo patrimonial. Ao primeiro, cabe mobilizar e recolocar em alerta todos os sentidos, restabelecer a autoridade do toque, da cinestesia, da cinética, da audição e do próprio odor e recusar, conjuntamente, a hegemonia do olhar e as seduções da imagem fotográfica ou numérica. Ao segundo, incumbiria um papel propedêutico: fazer aprender ou reaprender as três dimensões do espaço humano, as suas escalas, a sua articulação, a sua contextualização, na duração das travessias, de voltas e percursos comparáveis aos par couer (de cor) da memória orgânica, doravante negligenciados pela instituição escolar e que permitiam aos académicos de outrora que se apropriassem do seu património literário.” in Choay, Françoise, A Alegoria do Património, Edições 70, 2000: 224

(xxx) Segundo Heidegger, “construir é, em seu ser, fazer habitar. Realizar o ser do construir é edificar lugares mediante a agregação de seus espaços. Só quando podemos habitar é que podemos construir”in Choay, Françoise, O Urbanismo, Utopias e realidades, Uma Antologia, 2005: 348

(xxxi) Mourão, Susana e Lucas, Marta in http://www.escritanapaisagem.net/event/27


Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.




Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº446
A emergência da dimensão existencial nas cidades - Uma proposta a partir do Centro Histórico de Évora
Edição de José Baptista Coelho
LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte