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segunda-feira, outubro 28, 2013

458 - Sobre as entradas comuns habitacionais - parte II - Infohabitar 458


Infohabitar, Ano IX, n.º 458

Artigo XXXVIII da Série habitar e viver melhor

Sobre as entradas comuns habitacionais - parte II
António Baptista Coelho

Devido à sua extensão o presente artigo foi dividido em duas partes, que respeitam o seguinte índice (a negrito os itens editados na presente semana)

Índice 
I.Notas introdutórias 
II. Sobre as entradas comuns habitacionais: aspetos gerais 
III. Sobre as entradas comuns habitacionais: sobre a interioridade e domesticidade
IV. Sobre as entradas comuns habitacionais: relação interior/exterior e pormenorização             V. Sobre as entradas comuns habitacionais: a positiva marcação da agregação de habitações 
VI. Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço dos, e salientado os, serviços comuns 
VII. Sobre as entradas comuns habitacionais: para além dos asptos funcionais está quase tudo o que há que considerar na conceção 
VIII. Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço de um escala urbana e habitacional mais humana

V. Sobre as entradas comuns habitacionais: a positiva marcação da agregação de habitações
Naturalmente que a entrada de um edifício multifamiliar deverá, em primeira linha, reflectir e expressar, a dimensão social do respectivo agrupamento de habitações e a, eventual, existência de serviços de apoio domiciliários, devendo referir-se que ela pode variar entre um espaço mínimo, quase reduzido ao estritamente necessário para abrir a porta de entrada – numa opção em que a entrada comum se aproxima, claramente, do sentido de entrada privada das poucas habitações existentes naquele edifício – até soluções próximas das usadas em grandes átrios de hotéis, até porque, neste caso, as funções de entrada e recepção têm grandes semelhanças, quando se trate de  um edifício multifamiliar com grande dimensão e quando se desenvolvam condomínios com funções alargadas, tanto em espaços comuns, como nos serviços prestados ao funcionamento das habitações.
Há, no entanto, nestas matérias uma reflexão necessária que tem a ver com a opção, que pode ser feita, de se optar pela expressão pública de uma presença com grande sobriedade, mesmo tratando-se, por exemplo, de um grande edifício com muitos serviços comuns, numa sequência de espaços e de vistas que se vá revelando, estrategicamente, à medida que o habitante ou o visitante penetre nos espaços comuns de recepção e em outros espaços, com outras valências, que, eventualmente, assegurem uma continuidade mitigada ou filtrada a essas zonas de recepção.

Fig. 03: vizinhança de interesse social em Alvalade, Lisboa, projeto urbano do arquiteto Faria da Costa.

VI. Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço dos, e salientado os, serviços comuns
Nesta matérias do habitar ao serviço do entrar/sair no habitar, e em outras matérias que lhe estão associadas. o limite estará na imaginação fundamentada dos projectistas, mas não se quer deixar de referir que, por um lado, há aqui, naturalmente, muito a aprender com a concepção dos bons espaços de hotelaria, e que, por outro lado, há que assumir e expressar um forte sentido residencial, pois entre estadias curtas e longas haverá diferenças de carácter a evidenciar; mas note-se a forma como se referiu este último aspecto, é que, repete-se, há muito a aprender com a residencialidade oferecida por alguns hotéis, afinal, num cruzamento de ideias de concepção em que a hotelaria vem também encontrar e utilizar muita matéria da residencialidade mais estrita em várias famílias de tipos de hotelaria, que vão dos hotéis de charme, aos hotéis de arte, aos hotéis especialmente dedicados a pessoas idosas, e a outras categorias hoteleiras.
Tal como se sintetizou num estudo anterior  (6) “entrar tem a ver com diversos aspectos fundamentais no habitar entre os quais se destacam:
  •  a transição entre espaços ambientalmente diferentes – abertos ou fechados, maiores e menores, etc;
  • a segurança nessa passagem, que se joga em grande parte nos respectivos aspectos de visibilidade em ambos os sentidos de uso das entradas (entrando ou saindo);
  • a identidade e a atractividade ou dignidade que deve marcar um espaço de transição do público para o privado (de um agregado familiar ou de um grupo);
  • e a espaciosidade equilibrada que deve marcar essa transição, e diz-se equilibrada pois tem de se ligar à espaciosidade que marca o resto do edifício”;
  • e termina-se esta síntese sublinhando-se ainda dois outros aspectos a considerar:  (i) “a apropriação, que se liga à identidade e à atractividade; (ii) e a, cada vez mais vital [porque importante e rara] convivialidade”.
A ideia que se desenvolveu nesta reflexão sobre a entrada como elemento positivo da construção de um habitar que possa influenciar um viver diário mais satisfatório foi não avançar muito em matérias mais específicas e ligadas, por exemplo, a soluções desenvolvidas com objectivos concretos e, eventualmente, pouco replicáveis, como será o caso de soluções expressivamente marcadas pela vida em comum e por um afirmado apoio ao convívio.
A principal ideia foi pensar em soluções que possam servir um amplo leque de gostos habitacionais, através de entradas adequadamente desenvolvidas; e considerando que, depois, e em espaços comuns específicos, poderá haver lugar a uma convivialidade espontânea e livremente assumida.

VII. Sobre as entradas comuns habitacionais: para além dos asptos funcionais está quase tudo o que há que considerar na conceção
Globalmente e para rematar este tema, há que destacar que as entradas dos edifícios têm de se caracterizar por aspectos muito mais amplos e diversificados do que, apenas, por simples questões funcionais, que se ligam, designadamente e por exemplo, a aspectos de acessibilidade e à eficácia no uso dos receptáculos postais e de baterias de contadores.
Dá vontade de dizer que há aqueles edifícios onde nem tais aspectos funcionais são considerados, há, depois, um outro grupo que respeita tais funcionalidades, e que podemos considerar habitacionalmente "adequados" e há, finalmente, aqueles edifícios cujas entradas são verdadeiros espaços de habitar com satisfação, e para tal, como se referiu, nem é preciso muito espaço nem muito dinheiro em equipamentos e acabamentos; precisamos, sim, de capacidade e qualidade de projecto.

Fig. 04: pormenor de edifício de interesse social em Alvalade, Lisboa, projeto de Miguel Jacobetty.

Faltará, desde já e basicamente, fazer aqui uma fundamental reflexão sobre a importância da entrada comum como pólo de estruturação do conjunto de acessos comuns do edifício multifamiliar, uma reflexão que é feita através de algumas palavras do Arq.º Bartolomeu Costa Cabral, que sublinham que "a localização das entradas e a sua articulação com os percursos exteriores é muito importante na definição da relação edifício-circulação, considerando-se necessária uma grande clareza no conjunto do sistema de acessos... garantindo aos fogos, simultaneamente, um grande isolamento e uma grande comunicabilidade com o sistema de acessos e o exterior, sendo os contactos com as funções da «rua» considerados como fundamentais..." (7)
E esta última reflexão tem também muito a ver com o desenvolvimento de pequenas agregações de habitações, nas quais ou se opta por uma simples entrada comum, espacialmente contida, embora estrategicamente bem marcada e agradavelmente visível, ou, alternativamente, se opta pela afirmação de uma expressiva desagregação do edifício, assumindo-se cada habitação e cada acesso habitacional como uma entidade com relativa autonomia formal e funcional, no caminho para uma solução em que, mais do que o conjunto edificado, se evidencia a presença de cada habitação e de cada acesso habitacional. E esta é uma matéria, que por si própria, justificaria um pequeno capítulo de desenvolvimento e que, portanto, importa explorar.

VIII. Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço de um escala urbana e habitacional mais humana
Esta tipologia de diversidade de opções tem muito a ver com favorecer-se, nesta reflexão, a solução de ligação, mais afirmada, entre rua e habitação, que tem sido abordada ao longo deste processo de estudo como uma forma de nos podermos reaproximar de ruas mais vivas e de habitações mais apropriadas; uma perspectiva que tem, sempre, muito a ver com a opção mais geral por núcleos urbanos estruturados para os peões e bem servidos por transportes públicos de proximidade - assunto que merece cuidadoso e urgente desenvolvimento
E sobre esta matéria da constituição de entradas comuns para pequenos conjuntos de habitações criando agregados de pequenas vizinhanças bem estruturadas, importa referir, ainda, que pode haver uma opção específica neste sentido, por exemplo, para apoio a um grupo de habitantes que optam por um expressivo desenvolvimento de espaços e serviços comuns (ex., um pequeno pólo residencial para pessoas sós e pequenos agregados familiares).
E podemos comentar que este privilegiar da entrada comum, provavelmente, associado a um significativo desenvolvimento de outros espaços comuns, poderá configurar verdadeiras soluções de “habitação colectiva”, pois há um transportar ou uma extensão para espaços colectivos de várias funções habitualmente realizadas nos espaços domésticos.
E de certa forma e no limite podemos pensar aqui em soluções de habitar em que a agregação de habitações em vizinhanças seja um assunto e a disponibilização de espaços e equipamentos comuns seja outro assunto, embora, naturalmente, bem articulados entre eles.

Fig. 05: zona de entrada de edifício de interesse social em Olivais Norte, Lisboa, projeto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas.

Falta fazer um brevíssimo apontamento sobre as entradas comuns em edifícios para uma família (unifamiliares) ou até para duas (bifamiliares) a quatro famílias (tri e tetrafamiliares), mas sempre fortemente agregados em conjuntos com afirmada unidade e continuidade, considerando-se que, na prática, tais soluções seguirão tudo aquilo atrás referido para os multifamiliares, pois, na realidade, o que aqui sucederá é uma agregação de habitações com significativa e afirmada individualidade.
E aproveita-se para sublinhar considerar-se que esta linha de opção por unifamiliares ou pequenos multifamiliares mutuamente densificados e bem agregados é, basicamente, muito compatível, quer com a sempre presente força do individualismo familiar doméstico, quer com todo um flexível conjunto de vantagens comuns do multifamiliar, quer, ainda, com a solução de ligação privilegiada, entre casa e rua, que tem sido proposta neste processo de estudo.

Notas:
(6) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, LNEC, ITA n.º 2.
(7) Bartolomeu Costa Cabral, "Formas de Agrupamento de Habitação", p. 30.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº458
Sobre as entradas comuns habitacionais - parte II
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, outubro 07, 2013

456 - Qualidade e criatividade nos espaços comuns habitacionais - Infohabitar 456

Infohabitar, Ano IX, n.º 456
Nota da edição: com o apoio dos leitores, que agradecemos, a Infohabitar acabou de ultrapassar a "barreira" das 400.000 consultas; e aproveita-se para referir que, devido a ausências em trabalho, o próximo número será publicado em 21 de outubro de 2013.

ARTIGO XXXVII da Série Habitar e Viver Melhor 

A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (II) - os perfis de qualidade e de criatividade nos espaços comuns habitacionais

António Baptista Coelho

A razão de ser de um edifício habitacional é conter um determinado conjunto de habitações, e podemos considerar que, mesmo quando “evoluímos”, por exemplo,  para soluções mais próximas dos equipamentos hoteleiros, onde há, portanto, mais extensas e diversificadas áreas comuns, mesmo nestes casos o uso de tais espaços se concentra nos pólos de acessibilidade e nos principais equipamentos, ligados à restauração (ex., restaurante, bar) e ao lazer (ex., ginásio, piscina).
No entanto, quando, hoje em dia, começamos, finalmente e ainda bem, a pôr em causa as organizações domésticas mais correntes, pensando a casa, seja numa perspectiva de forte potencial de adaptabilidade a diversas formas de vivência doméstica, seja ao serviço de formas de habitar muito específicas, então fará, também, todo o sentido pensar os espaços comuns do multifamiliar (do pequeno ao grande multififamiliar) com idêntica abertura de espírito; embora não esquecendo, tal como se apontou, que a razão de ser deste edifício é proporcionar uma boa agregação de habitações.
Mas nesta última afirmação, do edifício multifamiliar como “uma positiva agregação de habitações”, resulta, diretamente, que tal associação deve servir, o melhor possível, as condições de conforto ambiental, de identidade e apropriação e de dignidade e de atractividade, que são possíveis em cada uma das suas habitações, e, cumulativamente, deve servir pela sua dimensão, configuração e formas organizativas e de acessibilidade específicas, aos seus habitantes, designadamente, em tudo o que tenha a ver com as condições de agradabilidade, segurança e sociabilidade no uso, aplicáveis nos respectivos espaços comuns ou coletivos; e, naturalmente, estas e aquelas condições não são fáceis de cumprir, se o objectivo é fazer, realmente, bem.
Na reflexão sobre os aspectos qualitativos gerais que podemos privilegiar nos espaços comuns e na respectiva pormenorização é possível considerar alguns temas, que, em seguida, se lançam, sinteticamente, e um pouco como sugestões para posteriores e estimulantes desenvolvimentos do tema.
O sentido comum ou coletivo pode e deve ser investido, especificamente, na organização geral, na “ambientalização”, no dimensionamento e no recheio funcional e pormenorizado dos espaços comuns. De nada vale visar-se uma determinada ideia que, depois, não encontra suporte nos respectivos espaços de concretização, e há que ter bem presente que o objectivo mais corrente é, sem dúvida, a criação de espaços comuns, pelos quais se chega às habitações privadas e nos quais nos devemos sentir confortáveis, tudo o resto serão objetivos específicos que obrigarão a condições funcionais e ambientais específicas; não faz, por exemplo, qualquer sentido prever uma sala de condomínio afastada das principais zonas de circulação, com pouco espaço e mal acabada e equipada e dizer que se trata de um espaço que irá estimular a convivialidade e o sentido de comunidade, trata-se apenas de um sítio para reuniões e, mesmo assim, até pode nem ter condições adequadas para essa finalidade.
São muito diversas as soluções possíveis de “ambientalização” de um dado conjunto de espaços comuns, mas para que funcionem, realmente, importa que tais espaços constituam uma verdadeira mais-valia funcional, formal e ambiental para os seus habitantes, caso contrário mais vale reduzi-los a uma sua mínima expressão espacial e a uma máxima funcionalidade de manutenção.
Fig. 1 - espaços comuns estratégica e adequadamente reduzidos em Alvalade, Lisboa .

E uma tal mais-valia obriga a um projecto exigente e realizado com grande precaução e alguma coragem pois fazer um verdadeiro edifício de “habitação colectiva” é necessário programar espaços e prever uma adequada gestão local de proximidade. Afinal, tal como referem Eleb e Chatelet  “os "Locais Comuns Residenciais" têm uma longa história de alguns êxitos e numerosas falhas, que alimentam a demonstração que a sociabilidade não se pode programar ... para fazer funcionar um LCR é necessário um responsável”. (1)
Fazer espaços comuns residenciais deve passar por fazer verdadeiros espaços de fruição comum, com imagens e funcionalidades que podem ser idênticas, por xemplo, às que caraterizam os espaços sociais de estabelecimentos hoteleiros, o que será, sem dúvida, uma opção, por exemplo, em residências que associem habitações privativas, com diversos dimensionamentos, a um amplo conjunto de espaços e serviços comuns.
Mas fazer espaços comuns residenciais pode também passar pela criação de espaços comuns exteriores nos quais é possível qualquer pessoa entrar, mas para quando aí entrarmos sentirmos a sensação de estarmos, de certo modo, a “invadir” um espaço que não nos pertence, porque é próprio apenas daquele conjunto residencial a que está directamente ligado - e refere-se, aqui, "de certo modo", pois a ideia não é criar condomínuios privados e exclusivos, mas sim espaços de vizinhança onde se percebe ser a respetiva vizinhança quem comanda na respetiva gestão, sendo ideial que nos sintamos bem-vindos - e em tudo isto tem de haver mestria no projeto, na obra e na gestão diária e de proximidade.
E a título de exemplo do que aqui se visa lembram-se mais algumas palavras do excelente livro de Eleb e Chatelet:, “F. Soler e J Bernard  propõem ... um pátio central muito amplo em torno do qual se organizam os apartamentos … a sua ambição foi prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários, escavados no coração dos edifícios, verdadeiros locais de convivialidade, interstícios indispensáveis entre a cidade e a família.” (2)

Fig. 2 - um espaço deste tipo no excelente Alvalade, que cada vez mais se dá a descobrir; os "segredos de Alvalade" (nas palavras do escritor Cardoso Pires), são muitos e ricos (opinião pessoal).

E, depois, e ainda muito nesta estimulante perspectiva de “prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários”, que é, na prática, não mais do que simular as relações ainda hoje encontradas entre tantas habitações e ruas de zonas históricas, e tal como também apontam as referidas autoras (Eleb e Chatelet) as galerias de acesso comum podem ser “tratadas como espaços de encontro e recreio” e a principal escada pode constituir “pela sua arquitectura, um local de encontro à escala do edifício”; (3)  afinal nada que um bom projectista não saiba, mas infelizmente sabedoria muito pouco praticada, há que o dizer, exceptuando excelentes e numerosos exemplos que marcam a história da habitação de interesse social.

Fig. 3 - espaços de vizinhança naturalmente conviviais, encontrados em zonas históricas e que tardam a ser "reinterpretados" pelas novas arquiteturas urbanas e habitacionais.

Um outro aspecto a ter, especificamente, em conta na conceção dos espaços comuns (e como se verá, em futuros artigos esta série, na conceção dos espaços domésticos e não domésticos privatizados) é a força e a importância que aí tem a integração da natureza, numa primeira linha pela fundamental, disseminada e estratégica introdução da luz natural; uma força que fica bem evidenciada no mesmo livro de Eleb e Chatelet, que referem que: “Quando se sai do elevador e há luz natural, pode-se conversar. Favorece-se a convivialidade pela qualidade do espaço que se desenvolve, o resto está ligado à cultura especial de cada sítio." (4)
E uma tal introdução da natureza prolonga-se, naturalmente, de forma essencial pela diversificada e introdução de pátios ajardinados, floreiras, espaços para vasos e vãos amplos e estratégicos sobre elementos naturais exteriores.
Importa termos presente que estamos aqui, verdadeiramente, em presença de um verdadeiro “motor” da apropriação e da satisfação residencial e talvez por esta razão se assiste, hoje em dia, à concretização de alguns edifícios praticamente fundidos com a vegetação. E trata-se de uma matéria que tem, evidentemente, (i) uma razão ambiental, no sentido mais físico do termo, pois, como é sabido, as zonas verdes integradas e contíguas proporcionam frescura ambiental, (ii) mas que tem também uma razão funcional associada a importantes aspectos de melhoria das condições de privacidade e de marcação espacial, e que tem, igualmente, (iii) uma razão bem efetiva, embora não quantificável, no que se refere ao desenvolvimento de excelentes influências psicológicas, afetivas e sensoriais capazes de melhorar, objectivamente, estados de depressão e de stress, constituindo, objectivamente, um factor determinante na caracterização dos espaços comuns residenciais como espaços potencialmente geradores de paz e de satisfação; e não será por acaso que grandes empresas e hospitais psiquiátricos favorecem a integração de espaços naturais, que possam ser intensamente vistos e vividos.
Ainda um outro aspecto a considerar, especificamente, nesta reflexão sobre as qualidades a privilegiar nos espaços comuns residenciais tem a ver com o equilíbrio, que aqui sé desejável, entre condições de apropriação (pessoal ou familiar) e de dignidade ou de apropriação comum/colectiva.
A ideia que se deixa é que nem é recomendável uma situação em que o ambiente interior do edifício seja expressivamente marcado, na sua globalidade, pelas intervenções e pelos gostos específicos de cada um, nem será desejável um ambiente comum “frio”, descaraterizado e impessoal; e podemos mesmo referir que, hoje em dia, um ambiente deste tipo nem é bem-vindo num edifício de escritórios.

Fig. 04: os excelentes espaços comuns da Cooperativa de habitação Caselcoop no velho Bairro Económico de Caselas em Lisboa - projeto do Arq.º Justino Morais (na imagem, de branco).

Provavelmente o equilíbrio estará em espaços comuns estrategicamente marcados por uma dignidade servida por um gosto eventualmente “neutro”, mas expressivamente presente, em zonas mais usadas por todos os vizinhos, e, à medida que nos aproximamos das portas das habitações, mais marcados por elementos de apropriação afirmados, embora, sempre, com claros traços comuns. E aqui é interessante comentar que as galerias comuns exteriores proporcionam excelentes condições deste último tipo, devido à sua evidente relação com o espaço exterior, que é público.
Finalmente, nesta breve reflexão sobre as qualidades a privilegiar nos espaços comuns residenciais, registam-se, apenas algumas poucas ideias sobre um tema, que, só ele, poderia e poderá estimular um percurso de investigação: trata-se da forma como podemos lidar com o respeito pelo sentido comum, ou pelo carácter unificado do edifício.
Nesta matéria há que apontar, pelo menos, dois temas, sendo um deles que deve ser obrigatório este respeito ou este “partido”, como era costume dizer-se entre arquitectos, ainda que ele se possa diluir, seja numa assinalável afirmação da identidade de cada habitação, seja numa cívica afirmação de um expressivo anonimato urbano, numa perspectiva que, em vez de fazer o edifício impor-se, integra o edifício, expressivamente, na continuidade da sua vizinhança urbana; mas engana-se que achar que opções como esta não têm em conta a força e a “personalidade” do edifício com um todo. E o outro aspecto tem a ver, natural e especificamente, com a dimensão do desenho de Arquitetura, e nesta dimensão espera-se que muito longe esteja o tempo em que o caráter unitário da obra não tenha atenções específicas, reflexões específicas e, depois, mensagens específicas, na imagem urbana da respetiva vizinhança urbana.
E fica por abordar a dimensão "maior ou menor", mais afirmada ou quase ausente, dos espaços comuns habitacionais de conjuntos residenciais, tendo-se em conta as mais diversas dimensões e afirmações de conjugação do respetivo conjunto de habitações (matéria a tartar em futuros artigos).
Notas:
(1) Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui.  Paris : Éditions de l’Épure, 1997 (Col. Recherche d’Architecture), pp. 90 e 91.
(2) Idem p. 85.
(3) Idem, p. 74.
(4) Idem, p. 85.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº456
A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (II) - os perfis de qualidade dos espaços comuns habitacionais
Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


segunda-feira, setembro 30, 2013

455 - Espaços comuns habitacionais (I) - Infohabitar 455


Infohabitar, Ano IX, n.º 455

Artigo XXXVI da Série habitar e viver melhor

A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (I)

António Baptista Coelho

Falamos, agora, um pouco, daqueles sítios e daqueles elementos do edifício ou do agregado de habitações, que podem ser verdadeiros protagonistas em termos de marcação de identidades estimulantes e de relações entre zonas mais públicas e mais privadas, em termos de se evidenciarem aspectos de apropriação natural e equilibrada, e mesmo em termos de caraterização de soluções de habitação que aproveitem e explorem, ao máximo, uma aliança activa entre o enorme potencial de riqueza e diversidade de pormenorização urbana e os elementos responsáveis por uma caracterização residencial marcada, quer por um sentido doméstico amplo, quer pela identidade de cada habitação.
Há, realmente, alguns elementos urbanos, como as entradas, as escadas, as passagens, as janelas próximas do nível da rua, os muros, as floreiras e outros elementos de pormenor, que podem caracterizar, muito positivamente, as vizinhanças urbanas, tanto com um interessante cunho individual, como com um estimulante caráter orgânico e diversificado (nada monótono), quer, ainda, criando imagens locais de ruas, pracetas e outros espaços de vizinhança local, agradavelmente marcados por uma mistura de um sentido urbano e residencial “único”.

Fig 1: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

E há, depois, todo um amplo leque de espaços comuns, dominantemente interiores, que podem ser "manejados" de forma a caraterizar positivamente a solução residencial e atenção que estamos aqui a referir-nos:
(i) quer a grandes soluções de habitação apoiada estruturadas em torno de amplos e multifuncionais espaços comuns com muitas valências funcionais e "ambientais" (exemplo: uma residência com células habitacionais relativamente pouco desenvolvidas e amplos espaços e múltiplos serviços comuns e/ou on demand);
(ii) quer a pequenos multifamiliares cujos espaços comuns são estrategicamente reduzidos em termos de espaciosidade, mas estrategicamente muito bem pormenorizados em termos de atratividade e capacidade de apropriação;
(iii) quer a agrupamentos residenciais constituídos por agregados de edifícios unifamiliares e de muito pequenos multifamiliares, mas onde continua a haver um estartégico e natural sentido de comunidade optativa, mas sempre funcional em termos de aspetos como a identidade local, a segurança e a opção pelo convívio; e sublinha-se ser esta matéria que se julga ter hoje em dia grande importância;
(iv) quer, até, a uma forma de tratar o unifamiliar, na sua "pele" mais pública, que consiga atribuir-lhe um interessante sentido de cidade e de articulação numa relativa ou afirmada continuidade urbanística.
De certa forma podemos considerar que esta aproximação a determinadas soluções habitacionais tendo por base as caraterísticas dos respetivos espaços comuns, desde a sua expressiva presença até à sua relativa ou total ausência, corresponde a uma nova forma de desenvolvimento tipológico, que tem sempre de se relacionar com as caraterísticas das respetivas vizinhanças urbanas e paisagísticas; uma matéria que foi desenvolvida já em outros artigos desta série.
Importa ainda referir que a diversidade de aspetos caraterizadores dos espaços comuns, ou semiprivados, habitacionais não se esgotam nas grandes famílias tipológicas que são apontadas em seguida (das entradas comuns, aos patins, garagens, etc.), havendo variadas matérias a ter em conta e que, muitas vezes, resultam no desenvolvimento das soluções mais adequadas e estimulantes; e neste sentido importa, desde já, registar, que os espaços comuns, ou semiprivados, habitacionais podem e devem ser cuidadosamente manejados e (re)configurados em termos dimensionais, funcionais, de integração, qualitativos, identitários, “apropriativos”, conviviais, privatizadores, securizadores, etc. – e nos próximos artigos desta série apenas iremos aflorar um pouco esta estimulante matéria, que é responsável pela urgente e bem desejável reinvenção tipológica habitacional e urbana.


Fig 2: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

Importa sublinhar que são estes espaços, elementos e aspetos qualitativos e quantitativos os verdadeiros potenciais autores de uma renovada tipologia do habitar, muito mais coerente seja em termos de adequação individual e familiar, seja em termos de vizinhança urbana e mesmo paisagística.
E não tenhamos dúvidas de que há um extenso manancial de criatividade tipológica do habitar (habitação e vizinhança), e um, ainda mais, extenso registo de soluções e dos seus principais resultados (humanos e urbanos), que estão disponíveis para ser ponderados e (re)aplicados e devidamente "reformatados" pelos projetistas, numa perspetiva que se carateriza por estar bem sustentada em termos muito diversificados, desde aspetos de integração urbana e vicinal a uma estimulante adequação aos modos de vida e aos desejos domésticos específicos de famílias e de gostos individuais; e uma tal perspetiva não afeta nem aspetos funcionais e de segurança, que têm as suas “normas” de aplicação específicas, nem aspetos de economia da construção, que têm também as suas recomendações específicas.
Houve, sim, durante boa parte do Século XX, uma ideia, que se revelou errada, de que todos “teriam” de habitar de forma idêntica e que, em síntese, quase que só havia duas tipologias distintas, que eram o uni ou o multifamiliar, sendo que este último era, até, por vezes, ridiculamente, idêntico na sua estruturação de espaços comuns, mesmo em edifícios com dimensões e altura bem distintas. Fomos aceitando tal ideia, que hoje se entende que não faz sentido, assim como fomos sendo habituados a soluções domésticas organizadas segundo uma mesma “regra” funcional, o que também não parece estar correto; mas hoje em dia podemos começar a pensar diferente e a diversificar, atenta e coerentemente, tipologias de edifícios de habitação e mistos (habitação e serviços) e tipologias domésticas que sejam amigas de diversas formas de habitar.
Podemos ainda referir que o atual conhecimento relativamente aos mais diversos aspetos da qualidade habitacional – conforto ambiental, funcionalidade, segurança, acessibilidade, etc. – permite autonimizar, pelo menos parcialmente, o necessário cumprimento destes aspetos do desenvolvimento de soluções habitacionais diversificadamente organizadas.
Mas há, no entanto, um aspeto que é essencial em tudo isto e que se liga a uma significativa qualidade arquitetónica do projeto, pis, afinal, (re)inventar boas tipologia exige excelente arquitetura, uma arquitetura com qualidade, que não estará, naturalmente, ao alcance de todos os projetistas e que exige que, do lado dos habitantes utentes, haja processos seguros para a sua respetiva apreciação e desejada validação, caso contrário podemos estar a aceitar soluções funcionalmente incoerentes e até perdulárias em termos de espaços e de custos. E se há um setor habitacional onde todos estes cuidados qualitativos são essenciais, pois estamos a tratar de bens públicos, ele é o da habitação de interesse social; até porque no setor da habitação privada o mecanismo do mercado e até da arquitetura de autor poderá ir equilibrando uma variada e, talvez, adequada oferta de soluções residenciais – embora eta adequação tenda a acontecer, essencialmente, nos setores menos económicos da habitação privada (uma matéria que fica para posterior desenvolvimento).
São os seguintes os espaços comuns ou semi-privados mais correntes, que se consideram e que serão abordados em diversos e futuros artigos desta série:
·        Entradas comuns e sua pormenorização.
  • Átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos.
  • Elevadores.
  • Escadas comuns.
  • Patins de distribuição para habitações.
  • Galerias interiores (corredores).
  • Galerias exteriores.
  • Garagens.
  • Aspectos qualitativos gerais nos espaços comuns e respectiva pormenorização.
  • Elementos “verdes”.

Fig. 3: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

Desde já se salienta haver aspetos fundamentais numa qualificação humana e arquitectónica dos espaços comuns residenciais e nestes aspetos e a título de significativo exemplo, assume uma importância fundamental a possibilidade de se ter luz natural pois, afinal, tal como refere o Arq. Ch. Labbé “quando se sai do elevador e há luz natural, pode-se conversar, favorece-se a convivialidade pela qualidade do espaço que se desenvolve”. (1)
E, naturalmente, que a luz natural e as respetivas zonas mais iluminadas e mais em sombra, não estará sozinha num leque fundamental de qualidades do habitar a ter em conta nos espaços comuns e semi-privados.
Não se irá, em próximos artigos desta série, fazer uma viagem exaustiva por todos esses tipos de espaços e elementos, mas apenas proporcionar algumas indicações e alguns exemplos de tais soluções, que se julga serem diretamente responsáveis por uma boa parte da satisfação que se pode viver no habitar.
E guardaremos, sempre, espaço de reserva para podermos ir debatendo o (re)aplicar e a (re)conceção de tipologias do habitar estimulantemente inovadoras, relativamente ao “árido” menu tipológico que nos foi legado por um modernismo corrente e “de mercado”, que não soube ou não quis inspirar-se no grande modernismo que tanto inovou de forma adequada e ao serviço de novas formas de viver a casa e a cidade.
(1) Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui.  Paris : Éditions de l’Épure, 1997 (Col. Recherche d’Architecture), p. 85.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº455
A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (I)
Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 01, 2013

433 - SÍTIOS DE PASSAGEM, LIMIAR, TRANSIÇÃO E VIVÊNCIA - I - Infohabitar 433

Infohabitar, Ano IX, n.º 433
Artigo XXIX da Série habitar e viver melhor

Considerar espaços de vizinhança amigáveis e bem relacionados com as habitações e com a cidade, leva-nos, obrigatoriamente, a considerar o tecido urbano tradicional e assim se faz, em seguida, uma citação relativamente longa de um excelente livro de Jean-Charles Depaule, onde o autor descreve um pouco de uma cidade norte-africana.


"A partir de uma artéria principal, de rua em ruela e de ruela em impasse, a circulação reduz-se, as lojas e as oficinas rarefazem-se, tornam-se mais directas ou, pelo contrário, apropriam-se do exterior. A via, ou as suas ramificações, penetra num mundo reservado, à margem do movimento geral, para eventualmente acabar em impasse. Mas há surpresas! Uma rua que parece servir um bairro dá também para se chegar a outra parte da cidade. Outras mais largas e abertas levam a que tenhamos de justificar a nossa entrada e outras há que embora largas e não parecendo vicinais, terminam abruptamente em impasse ou portão...as portas de bairro que à noite garantiam a segurança durante períodos turbulentos estão definitivamente abertas...Entra-se em certos pátios de imóveis tão facilmente como em ruas, mas as ruas são pouco menos fechadas que as habitações...". (1)


Depaule inspirou-se muito na cidade moura ou berbere, mas entre nós, podemos evocar muitas ruas, ruelas e outros espaços intestinos de cidades e de povoações portuguesas, entre a Sé e a Ribeira, no Porto, Alfama e o Bairro Alto em Lisboa, Castelo de Vide e Monsaraz, Lagos e Loulé, só para dar alguns exemplos.



 



Fig. 01: sequência de imagens de Castelo de Vide

Naturalmente estamos a pensar em zonas velhas dessas povoações, mas também nos podemos lembrar da pequena Bouça portuense de Siza Vieira e dos misteriosos interiores de quarteirão do grande Alvalade lisboeta, só para citar conjuntos relativamente recentes e bem conhecidos, e aqui, como mais algumas outras excelentes intervenções mais recentes, encontraremos essas sequências, essas surpresas, essas “cores”, essa vitalidade e esse sossego, quase lado a lado. E, portanto, o que fica provado é a, muito provável, boa capacidade de réplica de tais condições
É interessante considerar que o referido autor, Jean-Charles Depaule, tem trabalhado em conjunto com um dos autores que mais têm aprofundado as matérias da estruturação urbana, mas numa perspectiva, que bem nos interessa, já muito próxima da geração de diversas formas de edifícios habitacionais; um tema que merece ser explorado.





Fig. 02: sequência de imagens de Castelo de Vide

Quando pensamos sobres estas matérias várias vezes chegamos a esta espécie de fronteira entre os espaços públicos e privados que se dilui, seja em tipos de soluções urbanas diversificadas, seja em diversas soluções ou tipos de edifícios, mas por esta vez iremos ficar pelos aspectos específicos que num e noutro lado dessa fronteira são responsáveis por uma afirmada satisfação habitacional, sem dar nomes específicos a tipos de soluções.

Num já citado livro de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, as autoras referiram, objectivamente, como já se referiu, que o grande interesse dos quarteirões tem muito a ver com “esse prodigioso concatenar de actividades e de construções estabelecidas longe das vistas, ao abrigo dos panos de fachadas dos edifícios da rua” e ao longo do referido livro as autoras vão conseguindo, da parte de diversos projectistas, contribuições objectivas para uma boa definição desse “prodigioso concatenar de actividades e de construções”.






Fig. 03: sequência de imagens de Castelo de Vide

E assim e tal como referem as citadas autoras:


- Alain Sarfati “explicita o prazer que espera oferecer aos habitantes propondo percursos embebidos no habitat: «o convite à descoberta, à exploração exprime-se no atravessar de diferentes passagens, ligações, escadas, galerias, áleas e caminhos»”; (2)

- “F. Soler e J Bernard propõem ... um pátio central muito amplo em torno do qual se organizam os apartamentos” … para “prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários, escavados no coração dos edifícios, verdadeiros locais de convivialidade, interstícios indispensáveis entre a cidade e a família”; (3)


- e Roland Simounet, falando sobre o projecto de Saint-Denis Basilique, refere que “os pátios, as mudanças de nível, a pormenorização das galerias e a chicana na entrada dos fogos são limites sucessivos relativamente fechados ao exterior e abertos ao interior”. (4)


Voltaremos a estes temas quando falarmos dos espaços comuns dos edifícios, pois há, felizmente, uma ténue separação entre espaço comum ou público de um quarteirão e espaço comum de um edifício muito estruturado pelo espaço exterior; e é esta ténue diferença responsável por excelentes e motivadoras soluções residenciais e urbanas …


A ideia que fica é que se falarmos com muitos projectistas eles irão enriquecendo este fazer dos miolos de quarteirões, praticamente, sem limites, pelo menos de vocabulário e de conceitos de qualificação arquitectónica. E se nos colocarmos como habitantes e visitantes – e é sempre boa uma perspectiva de visitante que se imagine habitante – então a dúvida será qual a razão que justifica a reduzida aplicação de soluções de miolo de quarteirão tão variadas e tão excelentes em termos urbanos e residenciais; pois é, afinal, aqui que se faz uma boa parte das melhores relações, mais estimulantes e mais úteis, quer com os espaços domésticos, quer com os citadinos.


E se considerarmos as actuais tendências no sentido de uma maior densificação então esta matéria surge ainda como mais oportuna e estruturante, mas atenção que estamos aqui num nível arquitectónico que exige muito do projecto, pois temos de fazer realmente pequenos pedaços de cidade, atraentes, qualificados e estimulantes, integrando diversos tipos de espaços interiores, exteriores e de transição; e julgo mesmo ser um nível de projecto que deverá obrigar a um apurado controlo público da sua respectiva qualidade.


(Estas matérias terão continuidade na segunda parte desta artigo, a editar no próximo domingo.)


Notas:

(1) Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", p. 107 e 108.
(2) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p. 239.
(3) Id. ibid.
(4) Id. p. 81.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho

INFOHABITAR Ano IX, nº433
ARTIGO XXIX DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte