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segunda-feira, dezembro 23, 2013

465 - Do edifício comum aos mundos domésticos - Infohabitar 465


Infohabitar, Ano IX, n.º 465
Notas prévias da edição da Infohabitar:
Na proximidade da Festa do Natal, do final do ano e do início de um novo ano, que será o 10.º ano de edições da Infohabitar, o que é para nós motivo de grande alegria, referimos aos caros leitores que as nossas edições de Natal e Ano Novo serão especificamente caraterizadas por esses períodos do ano, que aliás são por muitos aproveitados para alguns dias de merecidas férias.
A Infohabitar continuará a marcar a sua presença semanal nas semanas do Natal e do Ano Novo, mas com intervenções mais ligadas a essa datas.
Anuncia-se, desde já, que a primeira edição com conteúdos tecnicos e científicos de 2014 acontecerá no dia 6 de JANEIRO de 2014, com um artigo do economista e sociólogo catalão Jordi Estivill Pascual intitulado "Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação", para o qual chamamos desde já a vossa atenção, pelo grande interesse de que se reveste considerando as urgentes e sensíveis ações de reabilitação social e física dos nosos centros históricos.
A edição da Infohabitar deseja um Santo Natal a todos os colaboradores e leitores desta revista,
António Baptista Coelho
editor da Infohabitar

Sobre o edifício comum, quase a entrar nos mundos domésticos

Artigo XLII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Este é um artigo atípico, por vezes assim acaba por acontecer, designadamente, quando estamos a seguir uma dada disciplina editorial e não queremos “queimar etapas” temáticas.
A Série “Habitar e Viver Melhor” está prestes a atravessar a porta dos mundos domésticos (a discutir e aprofundar ao longo de 2014), mas ainda havia alguns temas a considerar no que se refere ao edifício multifamiliar.
Sendo assim optou-se por editar, já de seguida, um pequeno comentário de referência à renovada importância do habitar nos nossos novos (ou renovados) quadros urbanos, marcando-se assim a referida passagem de nível físico habitacional – dos espaços comuns do edifício habitacional para os espaços privados dos mundos domésticos –, seguindo-se, depois as últimas abordagens a espaços e elementos desse edifício e tratando-se neste caso, sinteticamente, duas matérias bem distintas: as garagens dos moradores e a integração da natureza no edifício multifamiliar.
Não queríamos, no entanto, “afastarmo-nos” do edifício e das suas diversificadas e viáveis soluções multifamiliares, mais ou menos "coletivas", mais ou menos multifuncionais, mais ou menos urbanisticamente “embebidas” na continuidade das funcionalidades e das imagens urbanas locais, mais ou menos “familiares” nas suas escalas e serviços disponibilizados, etc., etc., sem esta pequena, mas dinâmica, referência às potencialidades do edifício multifamiliar em termos de um verdadeiro programa habitacional, que não se limite às funções, mas que integre a outra parte da moeda do habitar, que  vai da humanização à apropriação, levando de certa forma o sentido doméstico, mais ou menos filtrado, à própria vivência do edifício; e que pode avançar e já avançou em soluções edificadas multifamiliares estimulantemente inovadoras, designadamente, nas relações que evidenciam seja com o meio em que se integram, seja com a "dimensão" e a importância do rspetivo espaço comum/coletivo, seja com o evidenciar da contiguidade dos mundos domésticos privativos e familiares.
Aproveita-se assim esta “passagem de nível físico” do edifício à habitação para sublinhar que iremos tratar esta matéria também desta forma menos funcional, mas talvez “mais livre e verdadeira” em artigos individualizados e autonomizados desta série editorial e que a continuidade desta mesma série não pretende, de forma alguma, e naturalmente, esgotar a abordagem dos elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade, o que evidentemente não é verdade.

Parte 1 – Algumas reflexões sobre “Habitar e Viver Melhor”, num artigo de charneira e de passagem entre as matérias comuns do edifício habitacional e as dos mundos domésticos privados.


O mundo doméstico retoma, hoje em dia, uma importância que talvez só tenha tido no mundo antigo, quando habitar e trabalhar profissionalmente se conjugavam, com frequência, nos mesmos espaços de habitar, condição que, entre outros aspetos, tinha exigências específicas de integração urbana.

Por outro lado e lembrando-nos que a cidade surgiu por necessidade civilizacional e humana, porque os homens precisaram dos outros homens para melhor viverem e prosperarem, também em termos culturais amplos, e que esta função da cidade se perdeu, em boa parte, nos desvarios dos zonamentos e da (mono)funcionalidades, geradores de periferias, pseudo-vizinhanças e também de edifícios e habitações sem vida e sem caráter/”alma”; talvez que por um amplo e diverso leque de razões, até económicas, nos seja dada, hoje em dia, uma nova oportunidade de re-habitar a cidade com vitalidade, diversidade e natural multifuncionalidade.

E é interessante ter em conta que, por outro lado, um cada vez mais amplo grupo de habitantes que vivem autonomamente, sem ser num quadro de família corrente ou alargada – até eventualmente por vontade própria -, e estamos a referir situações de pessoas que vivem sozinhas ou em casais, poderão encontrar neste renovado quadro urbano e habitacional o sentido gregário e de companhia, ou o sentido de vida urbana de vizinhança e/ou central que desejam como elemento complementar da sua autonomia doméstica.

Tudo isto implica renovados quadros de vizinhança e integração urbana, de equipamentos coletivos, de tipologias edificadas e de soluções domésticas e de serviços, que urge aprofundar e propor num quadro de essencial diversidade de ofertas e importa ter em conta que estes caminhos estão já aí a serem seguidos em casos concretos que podemos experimentar e discutir.

A Série “Habitar e Viver Melhor”, que tem vindo a ser editada na Infohabitar, desde há mais de uma ano, intercalada por outros artigos, pretende contribuir para essa discussão, ainda que seguindo uma perspetiva que está ainda muito alinhada com uma abordagem técnica e científica das áreas do habitar que, autocriticamente, pode ser considerada talvez excessivamente funcionalista e sistemática, avançando-se desde as vizinhanças urbanas, aos espaços comuns dos edifícios e, em breve, pelos espaços domésticos.

No entanto procurou-se desenvolver uma abordagem orgânica e diversificada desta matérias de como se pode habitar melhor, e pretende-se que noutros artigos se possa aprofundar um sentido de “programa habitacional mais livre e multifuncional”, que se julga ter hoje em dia grande interesse nas cidades que temos de re-habitar e re-vitalizar com as pessoas e as atividades de hoje.

Fig01: imagem da diversidade tipológica residencial e do verde urbano do bairro realizado em Malmö, quando da exposição BO01 em 2001.

Parte 2 - Das garagens habitacionais à integração da natureza no edifício multifamiliar

São, realmente, assuntos diversos e que exigem tratamento específico e a desenvolver em futuras oportunidades, mas quis-se aqui fachar o ciclo do edifício multifamiliar a que dedicámos numerosos artigos em 2013, de modo a iniciar 2014 e o 10.º ano de edições da Infohabitar com abordagem aos mundos domésticos.
E chama-se a atenção para o sentido muito sintético, “de comentário” e apenas exploratório dos dois textos temáticos que se seguem.

Garagens comuns

Sobre as garagens comuns pode muito a dizer, considerando-se, essencialmente, quatro perspectivas que devem estar na mente de quem concebe uma garagem comum que se deseje verdadeiramente satisfatória numa sua utilização frequente.
(i) Um primeiro aspeto está evidentemente ligado às condições de segurança diversificadas que têm de existir numa garagem habitacional e que aqui não serão desenvolvidas, apontando-se apenas as críticas temáticas associadas à segurança contra risco de incêndio, à adequada ventilação e qualidade do ar - com natural destaque para os aspetos associados à saúde e bem-estar dos habitantes utentes -, e a condições de boa segurança no “convívio” entre veículos e peões; e em tudo isto não devemos esquecer que estamos num quadro habitacional de contiguidade com espaços comuns e indiretamente com habitações.
(ii) O segundo aspeto tem a ver com a existência de verdadeiras condições de funcionalidade e manobralidade no arrumar dos veículos e nas suas manobras de entrada e saída e no interior da garagem.
Não se tem na mente qualquer objectivo de elevada velocidade e de espaciosidade tão desafogada que até motive a arrumação desordenada dos mais diversos “trastes” pertença dos habitantes, mas apenas que se possa entrar, arrumar e sair com verdadeira facilidade; e esta solução casa bem com aspectos pontuais de intervenção cuidada em termos de integração de equipamentos de segurança, pintura de faixas de acessibilidade e restante lettering e outros elementos relativos ao design de comunicação – que são matérias que não têm de ser “obrigatoriamente” enfadonhas, ou friamente funcionais, transformando-se a garagem comum residencial numa espécie de espaço que sobrou, quase inacabado e para o qual se encontrou uma utilidade residual – o que, evidentemente, não deveria ser o caso.
(iii) O terceiro aspeto é um pouco mais ambicioso, talvez só aparentemente, e refere-se a uma caraterização da garagem comum como espaço de uso humano e residencial, pelo menos, minimamente agradável e atraente; condições estas que muito têm a ver com a possibilidade de existir alguma penetração de luz natural, de poder existir, eventualmente, alguma presença de vegetação, e com um arranjo formal cuidado, baseado numa lógica funcional, naturalmente, mas que não “esqueça” que se está a criar uma garagem residencial e não um simples depósito de veículos.
Neste caso há soluções razoavelmente correntes de luz natural rasante, de portões gradeados (ou em rede) e que portanto deixam entrar a luz e, naturalmente, haverá uma escolha ponderada dos acabamentos, aliando funcionalidade a um eventual sentido super-racionalizado ou caraterizadamente vernáculo, isto só para apontar soluções mais frequentes. Naturalmente que, aqui, se manterão os cuidados de segurança, de funcionalidade e de uma expressiva qualidade do design de comunicação.
(iv) O quarto aspeto é, claramente, mais ambicioso e tem a ver com a criação de um espaço de garagem dos veículos dos residentes que seja caraterizado por formas e por um ambiente específico, constituindo-se num elemento funcional e formal complementar aos espaços residenciais, propriamente ditos, mas gozando de uma presença própria e marcada por aspetos específico e positivamente caraterizadores da solução urbana e residencial global, nos quais se destacarão, muito provavelmente, as ligações entre interior e exterior, os espaços de transição, a vegetação, os muros, as passagens bem marcadas, as transparências e os filtros, num jogo de formas, volumes que dê presença a uma parte edificada e construída que funcione, na prática, como um espaço ou mesmo um volume aliado do edifício principal, melhorando-lhe a escala geral, a relação com a escala humana e a transição e eventualmente a fusão com os edifícios e os espaços livres envolventes.
Como se entende nesta pequena descrição de uma das inúmeras soluções possíveis, tem-se em mente, neste caso, um espaço edificado realizado em parte, ou totalmente, à superfície (não subterrâneo portanto), e um espaço que poderá ocupar, por exemplo, zonas pouco favoráveis para usos habitacionais, desníveis de terreno, espaços cuja utilização obrigue a edifícios térreos ou muito baixos. A ideia fundamental que aqui fica é, neste caso, dar uma forma especial e bem caraterizada a uma espécie de remate de percursos urbanos, que seja simultaneamente, uma “frente avançada” dos espaços especificamente habitacionais e é possível jogar com estes espaços criando, por exemplo, outros espaços de transição (ex., pátios alongados), entremeados entre a habitação e estas soluções de estacionamento em boa parte à superfície.
Naturalmente que também aqui se manterão os cuidados funcionais e uma expressiva qualidade do design de comunicação, imaginando-se que esta opção poderá, ainda, fundir outras atividades neste corpo edificado com alguma presença própria, e pensa-se, por exemplo, em outros espaços do condomínio, mas também em pequenos equipamentos que sirvam a vizinhança.

Fig02: imagem do verde urbano "protagonista" no bairro realizado em Malmö, quando da exposição BO01 em 2001.

Elementos “verdes”

Apontarem-se, aqui, os elementos “verdes”, além da reflexão que foi sendo feita em diversos artigos desta série editorial, a propósito da sua importância no âmbito dos aspectos qualitativos a privilegiar nos espaços comuns residenciais, corresponde a uma contínua reafirmação da importância da integração da natureza nos espaços habitacionais pormenorizados.
Pode ser uma árvore preexistente que marque uma dada ocupação, pode ser um espaço exterior permeável onde as plantas entremeiam a calçada, pode ser um pátio ajardinado que funcione como rótula ou como presença suavizadora entre volumes edificados, pode ser uma opção por coberturas ajardinadas ou soluções com terraços ajardinados, pode ser, até apenas, o privilegiar de simples soluções com pequenos quintais térreos naturalizados ou, ainda, simples varandas adequadamente desenhadas para receberem bem grandes e fundas floreiras, ou até apenas grandes vasos com plantas.
Pode ser tudo isto e outras soluções imaginadas por quem projeta, mas não pode haver mais ausência de consideração de uma integração, verdadeiramente protagonista, dos elementos naturais nos edifícios residenciais; um protagonismo marcado, seja em soluções mais estruturantes, seja em pormenores naturalmente evidenciados. Não se trata apenas de ajudar a uma renaturalização do mundo, trata-se de agir em termos didáticos nesse sentido e trata-se, acima de tudo, de dar aos espaços residenciais mais naturalidade, mais afetividade, mas “suavidade”, e mais apropriação.
E é importante assumirmos a grande relação que existe entre habitar e natureza, seja numa perspetiva histórica de complementaridade e de equilíbrio que tem, provavelmente, a ver, por exemplo, com a relação entre orlas de bosques e povoados, mas também, por exemplo, com a própria noção simbólica da árvore protectora e da árvore geradora de vida.
        
         Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº465
Artigo XLII da Série habitar e viver melhor

Sobre o edifício comum, quase a entrar nos mundos domésticos

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, outubro 21, 2013

457 - Sobre as entradas comuns habitacionais - parte I - Infohabitar 457

Infohabitar, Ano IX, n.º 457

Artigo XXXVIII da Série habitar e viver melhor

Sobre as entradas comuns habitacionais - parte I

António Baptista Coelho

Devido à sua extensão o presente artigo foi dividido em duas partes, que respeitam o seguinte índice (a negrito os itens editados na presente semana); salienta-se que a respetiva segunda parte será editada na próxima segunda-feira dia 28 de outubro de 2013.

Índice

  •       I.        Notas introdutórias
  •     II.        Sobre as entradas comuns habitacionais: aspetos gerais
  •    III.        Sobre as entradas comuns habitacionais: sobre a interioridade e domesticidade
  •   IV.        Sobre as entradas comuns habitacionais: relação interior/exterior e pormenorização
  •    V.        Sobre as entradas comuns habitacionais: a positiva marcação da agregação de habitações
  •   VI.        Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço dos, e salientando os, serviços comuns
  •  VII.        Sobre as entradas comuns habitacionais: para além dos asptos funcionais está quase tudo o que há que considerar na conceção
  • VIII.        Sobre as entradas comuns habitacionais: ao serviço de um escala urbana e habitacional mais humana

I. Notas introdutórias
Tal como se referiu em um anterior artigo da presente série editorial - "Série habitar e viver melhor" -  serão considerados e abordados em próximos textos a editar na Infohabitar, desejavelmente intercalados com outros artigos tematicamente diversos, os seguintes os espaços comuns ou semi-privados mais correntes:
  • Entradas comuns e sua pormenorização.
  • Átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos.
  • Elevadores.
  • Escadas comuns.
  • Patins de distribuição para habitações.
  • Galerias interiores (corredores).
  • Galerias exteriores.
  • Garagens.
  • Aspectos qualitativos gerais nos espaços comuns e respectiva pormenorização.
  • Elementos “verdes”.
Não se deu uma importãncia específica à ordem de apresentação, embora se tenha considerado , sempre que adequado, a habitual sequência de uso , quando entramos num edifício habitacional.
E antes de passarmos ao artigo, propriamente dito, importa sublinhar que a inovação fundamentada com que pretendemos abordar, em futurod artigos, os espaços domésticos deveria marcar, também aqui, a reflexão sobre os espaços comuns habitacionais, ficando registada esta intenção, que iremos procurar respeitar em cada tipo de espaço abordado e, se possível, em um artigo final sobre os espaços comuns habitacionais com que se pretende concluir esta matéria geral, havendo tempo e capacidade para  este desafio.


II. Sobre as entradas comuns habitacionais: aspetos gerais
Uma entrada comum habitacional que nos dê as boas vindas, através de um arranjo agradável e envolvente, que nos abrigue da chuva e do sol excessivo, que se caracterize por aspectos que não se encontram em outras entradas comuns, é a entrada que todos desejamos.
E tal entrada não implica um gasto especial de espaço e uma despesa fora do vulgar, implica, sim, um projecto muito cuidado, e tanto mais cuidado quanto maior for a exigência de economia.
Uma entrada comum muito cuidada deve reflectir, para além da dimensão do respetivo agregado habitacional, o seu carácter em termos de escala geral, de principais formas de associação entre espaços interiores e exteriores e mesmo de tipos de acabamentos.
Uma entrada comum pode ter ainda outras “utilidades”, especialmente, quer na atribuição de um sentido de identidade específico a um dado edifício, quer até em alguma compensação (essencialmente imaterial) por eventuais áreas reduzidas no interior dos fogos, ou por acompanhamento de eventuais caraterísticas específicas das respetivas habitações.
Há, ainda, alguns aspectos formais particularizados, que são de grande importância na concepção de uma entrada comum e que têm a ver, de forma geral, com a relação entre o espaço edificado, essencialmente interior, com o espaço exterior e a natureza que envolve esse espaço edificado. Referimo-nos a todo o estimulante jogo de relações entre interior e exterior, seja através de uma  vivência específica, seja através de transparências e de afirmadas marcações de separação, e também nos referimos à presença dos elementos naturais – plantas, água, rocha, texturas naturais – quer numa situação de relação e aproximação à entrada do edifício, seja, já no seu interior, como prolongamentos naturais, desenvolvidas já em espaço basicamente interior e feito pelo homem.


Fig. 01


III. Sobre as entradas comuns habitacionais: sobre a interioridade e domesticidade
Depois há matérias que parecem ser, só aparentemente, pouco importantes e que têm a ver com uma Arquitectura de interiores extremamente bem desenhada e pormenorizada, considerando que aqui, nestes espaços em que se pára, se mexe em chaves, se passam os olhos pelo correio, estamos fortemente sensibilizados para uma tal pormenorização e equipamento cuidados. E há ainda que referir que um tal cuidado pode ter em conta, especificamente, matérias de afectividade, de reforço de uma escala marcada pela dimensão e pelo uso humanos e pelas artes.
Realmente, num sentido mais amplo, mas bem verdadeiro, podemos considerar que a entrada comum do nosso edifício é também uma extensão das entradas privadas das nossas casas, e, portanto, não deverá ser um lugar de frieza, impessoalidade e “aridez”.
E há, ainda, aspectos pormenorizados, mas com grande importância funcional e em termos de apropriação, destacando-se a desejável personalização dos botões de ligação com as diversas habitações e a sua adequada visualização nocturna e a disponibilização de uma representação esquemática do conjunto das habitações e dos respectivos acessos comuns, sempre que tal se justifique, quer devido ao número de habitações agregadas, quer por se tratar, eventualmente, de uma distribuição geral de habitações menos evidente.
Como se tem comentado ciclicamente nesta série de artigos, nada disto tem a ver, directamente, com soluções habitacionais mais caras. Por vezes, até más soluções, mal arquitectadas, vão procurar a mais espaço e acabamentos caros as qualidades de identidade, apropriação e atractividade que não quiseram ou souberam desenvolver de outras maneiras; o que não quer dizer, naturalmente, que o espaço não seja um elemento de grande importância a manejar para a obtenção de tais resultados, mas o que aqui se defende é que não é o único elemento para tais finalidades e, muito provavelmente, nem será o mais importante.
Devemos ainda reflectir sobre uma outra matéria, de cariz mais pessoal, mas igualmente importante para o objectivo de um habitar amplamente mais satisfatório e mesmo gerador de sentimentos específicos de felicidade. Tal matéria refere-se a que a entrada do edifício constitui, provavelmente, para muitos de nós, uma etapa fundamental na sequência de espaços urbanos e domésticos que habitamos todos os dias; e, sobre este aspecto, lembramos Rob Krier quando este escreve que: “No caminho da rua para o interior do edifício passamos por gradações do que podemos designar como «o público». Imediatamente, a posição da entrada e a importância arquitectónica que lhe é atribuída exprimem o papel e a função do Edifício..." (1).
E na ausência de estudos que fundamentem a afirmação da importância da entrada comum, cabe aqui chamar a atenção para a necessidade de se dar muito mais atenção a este elemento de composição do espaço do habitar, havendo muito a aprender com tantos excelentes exemplos que aí estão para serem vistos, facilmente, ao longo das ruas da nossa cidade.
Nestas matérias Alexander defende (2) a criação de uma transição gradual entre a rua e a porta de entrada, transição esta que deve ser servida por aspectos específicos de iluminação natural e artificial, protecção acústica, sequências de níveis, limiares bem marcados e vistas sequenciais de penetração e saída, vistas estas que disponibilizem diversos tipos de visões fugazes, estratégicas, gerais, etc. E o mesmo autor sublinha, depois, a importância que tem a criação de uma entrada acolhedora, preenchida por elementos que propiciem sentimentos de "boas vindas", como assentos confortáveis, pontos de vista interessantes e úteis, tons de cor domésticos e até outros elementos habitualmente associados ao interior das nossas casas. (3)

Mas há ainda um outro aspecto a ter em conta nestas matérias, pois devemos ter bem presente que uma entrada de edifício bem concebida e atraente é também um elemento muito importante para a vizinhança urbana em que se integra.
Não sendo este, especificamente, o tema que aqui nos move, importa reflectir que uma entrada que nos influencie positivamente, pelos seus aspectos formais e funcionais, será, provavelmente, uma entrada que assumirá, também, uma excelente presença e função urbanas. Mas, no entanto, tais aspectos de presença e de função urbanas poderão eles próprios ter reflexos específicos na concepção de entradas de edifícios e, tendo-os, e se os tiverem através de soluções que resultem realmente bem, então, poderemos considerar que haverá motivos complementares para que os habitantes desse edifício fiquem mais agradados com o “seu” edifício e a “sua” entrada, que, assim, naturalmente, é também uma entrada da cidade, pois pertença da cidade e das suas continuidades e vizinhanças específicas.

No que se refere à relação entre a entrada de edifício e o espaço urbano de vizinhança salientam-se dois aspectos de concepção apontados por Alexander: (4)
·      A entrada deve ser visível quando nos aproximamos do edifício ou existir uma indicação clara e condigna da sua localização.
·      A entrada deve ser formalmente realçada, e considerando-se que a aproximação mais frequente é feita paralelamente ao edifício e, portanto, em ângulos de visão habitualmente muito apertados ( e de difícil visualização).
A entrada ou átrio comum deve ter, sempre, uma "contrapartida" exterior, pelo menos, parcialmente protegida das intempéries, zona esta que poderá, naturalmente, variar, entre um pequeno espaço coberto sob uma pala e um recinto específico e equipado.

Fig. 02


IV. Sobre as entradas comuns habitacionais: relação interior/exterior e pormenorização
Ainda nesta matéria da aproximação ao edifício e, naturalmente, das acções de partida do edifício, considera-se que os respectivos espaços exteriores deverão ser, sempre que possível, especificamente caracterizados e pormenorizados, apontando-se, em seguida, algumas opiniões de Dubuisson e La Salle nesta matéria: (5)
·      "As entradas consideradas como pontos fortes e partes privilegiadas de junção entre zonas habitacionais interiores e espaços exteriores, também cumprirão o princípio de continuidade. Serão concebidas como «crescimentos» facilitando os encontros entre os habitantes. Para esse efeito o espaço aberto exterior será definido por taludes ou muretes, dispondo-se bancos e vegetação."
·      "O tratamento do pavimento é um dos principais elementos da composição das entradas dos edifícios, afirmando a presença de um acontecimento ao mesmo tempo que define um local de encontro, ele materializa uma potencial penetração dos passeantes."
·      "A sinalética específica poderá exprimir-se de variados modos, através da denominação dos edifícios nos pavimentos exteriores que prolongam exteriormente as entradas e nas paredes verticais contíguas."


Notas:
(1) Rob Krier, "Elements of Architecture", p. 61.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 494 e 495.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 623 e 624.
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 485 a 487.
(5) S. Dubuisson, X. De La Salle, in "Espaces Exterieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme",  J. P. Muret (Coord.), p. 65.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº457
Sobre as entradas comuns habitacionais - parte I
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.