Mostrar mensagens com a etiqueta arquitectura habitacional. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta arquitectura habitacional. Mostrar todas as mensagens

domingo, outubro 18, 2009

268 - Vivências e vivendas III - Notas sobre casas e quem as sonha - Infohabitar 268

artigo de António Baptista Coelho
Infohabitar, Ano V, n.º 268

Como foi referido no primeiro artigo desta série a ideia de escrever sobre "a vivenda", em termos gerais, mas essencialmente sobre os aspectos de humanização do habitar suscitados pela ideia de "vivenda", decorreu, directamente, de um óptimo artigo de Miguel Esteves Cardoso, intitulado “Vivenda Boa Esperança” e que foi editado no jornal Público. (1)

Lembrei-me, depois, de associar às palavras a editar sobre este assunto, algumas ideias com as quais abri, há poucos anos, um estudo realizado, publicado e disponível no LNEC sobre o título “habitação humanizada” (2), para o qual se poderão dirigir aqueles que queiram aprofundar estas temáticas.
E foi assim que, ao longo de três artigos, se apontaram algumas notas numa primeira aproximação um pouco mais "solta" sobre estas matérias do que aquela que se apresenta no referido estudo.

Estamos, hoje em dia, confrontados com uma serena, mas profunda, revolução das formas de habitar e dos conteúdos vivenciáveis, que estão a marcar e irão estruturar este novo século das cidades; e isto enquanto ainda nos debatemos com problemas críticos em termos de falta de qualidade de vida e especificamente de uma vida urbana que ligue, como tem de ser, uma habitação e uma cidade que sejam positiva e intensamente habitadas.

E assim, enquanto confrontados com a impossibilidade de habitarmos a ficção ou a realidade virtual, aqueles que continuam a insistir em viver a cidade e as diversas cidades que nela se integram, têm a responsabilidade de resgatar, "reabilitar" e aprofundar, estrategicamente, a importância dos sonhos do habitar - e a referência à estratégia liga-se ao habitar a cidade; isto embora tais sonhos sejam bem difíceis, face à destruição que continua a desenvolver-se das paisagens urbanas e rurais.

Mas atenção que tais sonhos habitáveis têm, obrigatoriamente, de transbordar dos nossos mundos domésticos e chegarem e marcarem, positivamente, a cidade habitada das vizinhanças e dos eixos urbanos, só assim tais sonhos serão viáveis.


Fig. 01

E, tal como fica bem expresso no seguinte texto de Manuel Blanco, mesmo o novo reino tecnológico continua, felizmente, a conviver com testemunhos fortes de um habitar expressivamente humanizado.

“Uma construção simples numa aldeia francesa permitiu a Herzog & de Meuron destilar a essência da arquitectura doméstica (Casa Rudin, Leymen), … E uma prenda em forma de casa pequena do norteamericano Robert Venturi para a sua mãe converteu-se na imagem mais reproduzida das últimas décadas no mundo da arquitectura (Casa Vanna Venturi, Philadelphia)…

No mundo doméstico apreciamos mais a intimidade e voltamos, uma e outra vez, à imagem da casa dos nossos sonhos. Nos anos sessenta, Robert Venturi ... um telhado de duas águas, uma grande chaminé e uma entrada como se tivera sido desenhada por uma criança marcava um dos ícones culturais mais significativos da segunda metade deste século...

Nas águas convulsas do final do milénio, Herzog & de Meuron voltam a destilá-la simples e completa, e o arquétipo reaparece na Casa Rudin, de Leymen. Parece que procuramos a segurança do conhecido...

Mas em paralelo voltamos a ter o excesso, de novo, herdeiro de S. Simeon de Hearst, magistralmente retratado por Orson Wells em Citizen Kane. O poderio da Microsoft reflecte-se na nova casa (ou palácio?) do seu dono, que responde à nossa voz e aos nossos mais pequenos desejos como se fora a gruta de Ali Babá e o génio da lâmpada de qualquer conto encantado... reconhece os convidados, recorda as suas preferências, temperaturas favoritas e as suas vidas ou transporta-os navegando nos seus grandes écrans aos limites do hiperespaço. É uma casa que se ocupa das nossas necessidades, levando ao limite o conceito de edifício inteligente, onde o importante não é a sua arquitectura...

A possibilidade de um isolamento conectado pode modificar de forma importante a ocupação do território na nossa sociedade. O teletrabalho, o teleshopping, os acessos rápidos a produtos culturais ou de diversão e escapa e a necessidade de espaço – cada vez mais caro e restrito nas nossas cidades – podem produzir uma retorno a meios naturais e a uma arquitectura dispersa. Et in Arcadia ego (e eu na Arcádia) ... Uma versão idílica de um mundo feliz onde a arquitectura e o espectáculo se misturaram com os nossos sonhos, onde o poder dos meios de comunicação criou novas estrelas que vão transformando, com outros monumentos, a nossa paisagem quotidiana.” (3)

Temos, assim, múltiplas ferramentas e embora elas estejam por todo o lado, e tenham inegável utilidade, voltamos, julgo que, felizmente, "uma e outra vez, à imagem da casa dos nossos sonhos"; haverá, assim, ainda, esperança para esse sonho e para tudo aquilo que ele nos proporciona de uma qualidade de habitar muito para lá da simples satisfação funcional.



Fig. 02
E sobre este vital caminho do aprofundar doméstico e urbano dos desejáveis sonhos de habitar, é oportuno reflectir sobre duas frases de Josep Muntañola, a seguir transcritas de um excelente livro deste autor (4), e onde se apontam a potencialidade da poesia e o ponto focal estratégico do habitar como meio privilegiado de pensar a Arquitectura:

Diz Muntañola que, “tal como indica e muito bem Ch. Norberg-Schulz citando Heidegger, é justamente através da interelação entre o construir, o habitar e o pensar que a arquitectura pode ser poética... «A poesia é aquilo que primeiro liga o homem à terra e assim o introduz no habitar», assinala Heidegger a partir de uma poesia de Hölderlin.”

E Muntañola sublinha, ainda, que, segundo Heidegger, “a poesia estrutura a natureza do habitar... Poeticamente o homem habita... Mas a capacidade poética só é possível se o homem se apropria enquanto homem afável, com «coração» (afectivamente), e reconciliado com o seu próprio habitar (kindness em inglês, charis em grego).”

Teremos assim um objectivo de criação de um melhor habitar, mais humanizado, através de caminhos específicos de poesia/afectividade, apropriação e provavelmente empatia de quem habita relativamente a um espaço habitado e desejavelmente sonhado, seja directamente, seja através dos especialistas desse sonho e da procura e identificação dessas empatias. E este processo tem de ser muito especialmente positivo, "dialogante", mas relativamente "passivo", quer nos aspectos de adequação a cada habitante e família habitante, o que nos leva naturalmente para fundamentais características de adaptabilidade, seja nos aspectos ligados à atractividade e ao sentido urbano e cívico, também necessárias nas estruturas do habitar.

Sobre esta matéria que trata de harmonias muito difíceis, mas essenciais, entre um habitar doméstico e urbano positivamente humanizado e sonhado, por cada um, mas igualmente bem marcado pelo sentido cívico apontam-se mais algumas palavras de Norberg-Schulz, que nos ajudarão a encontrar os melhores caminhos nesta essencial plataforma entre qualidade arquitectónica e satisfação profunda de quem habita casa e cidade, uma plataforma em que é necessário encontrarmos uma Arquitectura que sonhe alto, mas com os pés bem na terra, que marque bons desenhos para as gerações futuras terem testemunhos efectivos do seu passado, mas que, nas casas que faz e nas cidades que compõe, seja, também, verdadeiramente amável, compreensiva e amiga dos sonhos dos habitantes, pois só assim a habitação e a cidade habitada cumprirão o seu fundamental interesse social.




Fig. 03

Escreveu, então, Norberg-Schulz:

“Tentei demonstrar que a existência do homem depende do estabelecimento de uma imagem ambiental significativa e coerente do “espaço existencial”. Também assinalei que tais imagens pressupõem a existência de certas estruturas ambientais(ou arquitectónicas) concretas, recusando admitir que esses princípios perdem significado por causa da televisão e demais meios de comunicação rápida.

Que devemos então pedir ao espaço arquitectónico para que o homem possa continuar a designar-se como humano? Em primeiro lugar devemos pedir uma estrutura representável que ofereça abundantes possibilidades de identificação.

A tarefa do arquitecto é ajudar o homem a encontrar um sítio existencial onde firmar-se, concretizando as suas imaginações e fantasias sonhadas. Os conceitos de casa, cidade e país são ainda válidos. Dão um estrutura ao novo entorno «aberto» e tornam possível que possamos ser cidadãos do mundo.” (5)

E afinal parece que tudo isto tem muito a ver com "o arquitecto", que deve "ajudar o homem a encontrar um sítio existencial onde firmar-se, concretizando as suas imaginações e fantasias sonhadas!"

E ficamos com uma magistral definição de arquitecto:

"O arquitecto é um ser que caminha sobre a espuma das paisagens
e vive encantado pelas sombras que sobrevivem à flor da relva exactamente
no lugar onde as outras pessoas nunca passam
perguntam os mestres no cruzamento das traves onde
descansa o arquitecto curiosamente maravilhados pelo silêncio
que se desprende das paredes
consumindo a casa toda a partir do traço exacto
que descai do tecto
em direcção ao corpo
da terra
...
eis o arquitecto debruçado sobre a mesa com a aflição
dos guerreiros
...
o arquitecto é o abismo que atormenta o sonho"

Foram palavras do poeta José António Gonçalves.
Notas:

(1) Miguel Esteves Cardoso, “Vivenda Boa Esperança”, Jornal Público, 16 de Setembro, 2009.
(2) António Baptista Coelho, Habitação Humanizada – TPI 46, LNEC, Lisboa, Julho de 2006, 577 p., 121 fig; e Habitação Humanizada: Uma apresentação geral – Memória 836, LNEC, Lisboa, 2007, 40 p., 19 fig.
(3) Manuel Blanco, “Arquitectura fin de siglo – El mayor espectáculo del mundo”, GEO, Esp. , n.º 162, 2000.
(4) Josep Muntañola, Poética y arquitectura, Barcelona, Editorial Anagrama, 1981, pp. 59 e 60.
(5) Christian Norberg-Schulz, Existencia, Espacio y Arquitectura, Barcelona, Editorial Blume, trad. Adrian Margarit, 1975, p. 135.


Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar Ano V, n.º 268
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
18 de Outubro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

Label: habitação, habitação humanizada, arquitectura e satisfação habitacional

domingo, julho 06, 2008

204 - Novas soluções habitacionais (III) – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 204

 - Infohabitar 204

Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (II) – desenvolvimento dos aspectos urbanos e arquitectónicos de enquadramento para pequenas unidades residenciais

Continua-se neste artigo uma proposta informal de apresentação e de desejável discussão útil sobre o as características urbanas e arquitectónicas de enquadramento para pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados, que se defende posam ser integradas em zonas urbanas vitalizadas e “centrais”. Volta a sublinhar-se que esses grupos sociais têm, cada vez mais, uma presença significativa na nossa sociedade e continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais, seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente às suas condições de integração na cidade e de potencialidades para a respectiva animação local.

Aborda-se, assim, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos ou estúdios e por um conjunto diversificado de serviços comuns, privativos dos respectivos residentes e/ou abertos para o serviço a toda a comunidade local.


Volta a salientar-se que a ordem de abordagem desta matéria, nesta série de artigos tem e terá grande flexibilidade, podendo voltar-se, em artigos futuros, a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, neste artigo, com uma reflexão sobre os tipos de pequenos fogos que se podem considerar, com destaque para as opiniões de diversos autores, pois não faz qualquer sentido estar, ciclicamente, a reinventar soluções idênticas.


E julga-se ser bem a propósito, desta inútil reinvenção de soluções, a ilustração deste artigo com algumas imagens dos pequeníssimos fogos que foram promovidos (provavelmente em meados do século XIX), em Hamburgo, por uma antiga associação de beneficência ou de ajuda mútua para dar habitação condigna a viúvas de trabalhadores – nesta matéria o autor apresenta as devidas desculpas por não poder incluir, aqui, os respectivos elementos de identificação, que não foram recolhidos na altura da visita.






Fig. 01


Vitalizar a cidade com novas formas de habitar (III): Unidades residenciais -

António Baptista Coelho

Artigo de António Baptista Coelho

Já, acima, se referiu e aqui se sublinha que o objectivo do desenvolvimento de agregados de pequenos fogos, muito limitados em termos funcionais e espaciais privativos, e compensados em termos de espaços e serviços comuns, deve ser, sempre, um objectivo duplo, que tem a ver, quer com a referida disponibilização de condições habitacionais o mais possível adequadas para pessoas sós e pequenas famílias, quer com a perspectiva de se contribuir, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e, especialmente, com habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.

Como também já se referiu, num artigo desta série, no caso dos seniores o resultado será a contribuição para a manutenção da vitalidade individual, em termos físicos e mentais – e mesmo com excelentes efeitos na sua saúde (está provado a relação directa entre ausência de interacção social, no caso das pessoas idosas, e aumento significativo de problemas de saúde graves), enquanto no caso dos jovens o resultado centra-se na disponibilização de uma plataforma facilitada de dinamização do tão desejado convívio e de apoio à sua introdução e início de vivência autónoma nesse mundo, com excelentes facilidades em termos dos cuidados de manutenção doméstica.


Misturar, ou não, estes grupos sociais é uma decisão que se julga dever ser tomada caso a caso, consoante a dimensão, a localização e o carácter de cada intervenção, no entanto julga-se que uma mistura desse tipo é sempre socialmente positiva, desde que muito cuidada em termos de organização espacial e funcional, de isolamento acústico entre unidades residenciais e entre estas e os espaços comuns, e em termos de uma gestão local não intrusiva, mas muito rigorosa e transparente.

Vamos então passar em revista o que alguns autores nos têm a dizer sobre estas matérias do desenvolvimento de pequenas habitações ou “unidades residenciais”, quer em termos mais amplos e teóricos, quer em termos mais práticos, associados a aspectos estruturantes dessas soluções.

Claude Lamure sublinha alguns aspectos, que considera caracterizadores daquilo que ele define como uma tipologia família-habitação (1):


- Pequenos fogos, essencialmente, adequados para casais jovens, com espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, e um relacionamento geral entre espaços, que assegure a vigilância das crianças pequenas.


- Pequenos fogos para pessoas sós ou casais sem filhos em coabitação, com equipamentos domésticos menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial, e dispondo de um quarto de dormir bem isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela); o fogo deve ser globalmente espaçoso e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos).


- Grandes fogos para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa.





Fig. 02


John Noble e Barbara Adams referem diversos tipos de fogos, que podem ter interessados muito específicos (2):


- jovens longe de casa, em pequenos estúdios mobilados;


- casais jovens em pequenos fogos;


- famílias com crianças em fogos espaçosos com espaços exteriores privados;


- casais idosos e activos continuando nas habitações grandes onde criaram os filhos e onde, agora, têm espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa;


- idosos pouco activos em pequenos fogos "super-funcionais" e espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores.


Em seguida, apresenta-se a definição de um leque de tipos de espaços habitacionais considerados adequados para pessoas sós, conforme um estudo realizado pela Taylor University of York (3):


- "Alojamento auto-suficiente" ou unidade de alojamento, provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa; uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo.


- "Alojamento compartilhado", unidade habitacional onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa.


- "Espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais. E junta-se, a título de comentário, que pode haver uma evolução deste "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho


- "Quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho.


- "Espaço comum ou colectivo, compartilhado"; pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações, etc.


Nestas matérias é importante considerar que a habitação para um casal (quarto comum) é muito semelhante à habitação para uma pessoa só; conquanto se trate de um casal de adultos, nem jovens, nem idosos, porque nestes casos exigiriam, em princípio, zonas mais amplas e diferenciadas (4); e é interessante atentar, assim, nesta semelhança de condições funcionais que parece caracterizar jovens e idosos.





Fig. 03


Comenta-se, ainda, e terá de ficar para posteriores desenvolvimentos, que há dois tipos de unidade habitacional mínima, aquelas que têm um quarto e uma sala "clássicas", e as que são constituídas por dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") (5). Mas desde já se regista que uma solução deste tipo poderá ser muito vantajosa em variadas situações, uma vantagem que tanto é económica, pois este tipo de habitações poderão ser facilmente convertíveis a partir de fogos correntes, como é uma vantahem social e convivial pois poderá proporcionar um adequado “meio termo” entre a vida individualizada e a vida “impessoal”, servindo também a situações de ajuda mútua quer na lide da casa, quer no próprio apoio pessoal mútuo. É, assim, um tema a que voltaremos em próximos artigos até porque se considera que a agregação de, apenas, dois quartos talvez não seja a mais adequada.


A modos de conclusão parcial, que avança já em aspectos de configuração, e segundo Christopher Alexander, a habitação, em princípio, destinada a uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou sub-espaços com diversas atribuições funcionais (6).


E tendo em conta diversas fontes considera-se que entre 30 e 40m² (específicos da unidade residencial) permitirão dimensões e configurações adequadas, designadamente, para uma pessoa só e em condições associadas, por exemplo, a estadias temporárias; embora este intervalo de 10m2 proporcione alguma flexibilidade para a instalação de um casal.





Fig. 04


Considerando-se, agora, especificamente as pessoas idosas e as suas condições físicas e psicológicas específicas e visando-se o conjunto dos espaços que integram a vizinhança de proximidade e o edifício residencial, estes espaços, segundo Claude Lamure, deverão responder positivamente no que se refere à previsão dos seguintes tipos de cuidados:


- o conforto nas deslocações e no uso dos espaços.


- e o relacionamento social e a comunicação com o meio exterior envolvente, próximo e distante, nomeadamente, por: proximidade a transportes colectivos;

proximidade a equipamentos comerciais; proximidade relativamente a amigos, familiares e conhecidos; conhecimento da envolvente urbana; existência, no edifício, de espaços de condomínio equipados e vivos.

De notar, ainda, que a Vizinhança Próxima é o espaço ideal, em termos de potencial de acessibilidade física e de segurança nas deslocações e nas estadias, para o uso diário e intenso por idosos, propiciando e motivando saídas frequentes das respectivas habitações, com evidentes vantagens, tanto ao nível da saúde física e psíquica destes habitantes (andar a pé, “flanar”, estar ao ar livre, conviver), como ao nível do aumento da animação e da convivialidade diária global das respectivas Vizinhanças Próximas e Alargadas, até porque, sendo pessoas que, frequentemente, não cumprem horários de trabalho, são elementos sempre disponíveis para essa “vivência de rua e de café”.


Muito do que se referiu para os idosos é também aplicável na Vizinhança Próxima para os restantes grupos etários, sendo verdade que boas condições de agradabilidade e segurança na vizinhança de proximidade são factores de intensificação do uso global dos exteriores e designadamente da permanência no exterior de idosos e de jovens. E uma continuidade de gerações, numa mesma vizinhança de proximidade, assegura todo um amplo leque de vantagens sociais e práticas.





Fig. 05


“Entrando” agora no que poderá ser um conjunto edificado que agregue algumas dezenas de unidades residenciais do tipo estudio e/ou T0 (com capacidade para 1 ou 2 individuos), apontam-se alguns aspectos que se consideram importantes no respectivo projecto:


- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um ambiente apropriado, quer para as actividades residenciais, quer para o estudo e o trabalho profissional.


- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um leque, o mais possível, amplo de possibilidades de arranjos interiores pormenorizados, quer mais estruturantes – tais como ligação e separação de espaços –, quer mais complementares – tais como disposição de mobiliário, integração de outros elementos de arquitectura de interiores (ex., sítios para quadros/cartazes, pequenos espaços apropriáveis) – de forma a privilegiar-se a capacidade de identificação e de apropriação de cada unidade, mas com uma expressiva economia de meios.


- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um ambiente interior que associe a privacidade – isolamento visual e acústico – e a máxima apropriação e identificação de cada unidade residencial com condições comuns estimulantes, ambientalmente agradáveis – bem acompanhadas pela luz natural – e caracterizadamente dignas e asssociáveis a um amplo espaço residencial.


- O conjunto edificado deverá proporcionar as melhores condições de conforto ambiental, com destaque para a iluminação natural e para o conforto acústico, e de ambiente dignificado e apropriado nos respectivos espaços comuns.


- O conjunto edificado deverá proporcionar oportunidades espaciais e ambientais para a interacção social, quer no interior do edifício, quer nos espaços exteriores contíguos.


- O conjunto edificado deverá proporcionar condições maximizadas de privacidade e sossego nos espaços em que se habita em grande proximidade e nas condições de partilha de equipamentos.


- O conjunto edificado deverá proporcionar condições espaciais e de equipamento adequadas a estadias curtas.


- O conjunto edificado deverá proporcionar condições de gestão local que facilitem as funções domésticas e o uso dos equipamentos disponíveis.


- No conjunto edificado deverão ser totalmente anuladas imagens massificadas e anónimas e deverão ser privilegiados os aspectos de apropriação, identidade e partilha de objectivos residenciais e sociais comuns.


- O conjunto da intervenção deverá privilegiar os aspectos de integração local, serviço à comunidade envolvente, relação optimizada entre espaços interiores e exteriores e integração de elemento naturais com destaque para as múliplas soluções de verde urbano.


- O conjunto da intervenção deverá associar à implementação desta nova forma de habitar a experiência de uma arquitectura muito qualificada, designadamente, em termos ambientais, funcionais e formais.


Finalmente, há que destacar a eficácia a convergência de objectivos proporcionadas pelas cooperativas de habitação na programação e na gestão corrente de unidades deste tipo, associando ao apoio dos serviços do habitar, mais específicos, todo um outro conjunto facultativo de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas socioculturais.


(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.

(2) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(3) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.
(4) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.
(5) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.
(6) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 151 a 153 e 215.
5 de Julho de 2008, Casais de Baixo – Azambuja.Editado no Infohabitar, Encarnação – Olivais Norte, Lisboa
em 6 de Julho de 2008, por José Baptista Coelho

domingo, junho 08, 2008

200 - Novas formas de habitar (II): Unidades residenciais - António Baptista Coelho - Infohabitar 200

 - Infohabitar 200


Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (II) – desenvolvimento dos aspectos urbanos e arquitectónicos de enquadramento para pequenas unidades residenciais


Artigo de António Baptista Coelho


Continua-se neste artigo uma proposta informal de apresentação e de desejável discussão útil sobre o as características urbanas e arquitectónicas de enquadramento para pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados, que se defende posam ser integradas em zonas urbanas vitalizadas e “centrais”. Sublinha-se que esses grupos sociais têm, cada vez mais, uma presença significativa na nossa sociedade e continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais, seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente às suas condições de integração na cidade e de potencialidades para a respectiva animação local. Aborda-se, assim, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos ou estúdios e por um conjunto diversificado de serviços comuns, privativos dos respectivos residentes e/ou abertos para o serviço a toda a comunidade local, considerando-o nas suas urgências e potencialidades, cada vez mais evidentes, seja do ponto de vista dos seus principais utentes, seja na perspectiva do seu evidente e importante papel como elementos de vitalização da cidade.


Volta a salientar-se que a ordem de abordagem desta matéria, neste artigo tem e terá alguma flexibilidade, podendo voltar-se em textos futuros a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, desde já, com algumas considerações mais objectivas.






Fig. 01: Alvalade, Lisboa

Fig. 02: Alvalade, Lisboa

Grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes está num tecido urbano com continuidades afirmadas, atraentemente diferenciado, mas não especializado e que leve a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona remansos “domésticos” bem dentro das zonas citadinas mais animadas; e esta é uma matéria muito importante para a criação de pequenas unidades residenciais urbanisticamente bem integradas, pois, desta forma, a cidade irá ao encontro delas em termos de acessibilidade e imagens e a cidade oferecerá, no seu seio, condições complementares de estadia, de convívio e mesmo de relativa privacidade, no meio da animação urbana, relativamente às condições afins que as próprias unidades residenciais possam disponibilizar.

E somos cada vez mais idosos com preparação e gostos diversificados, capazes de uma assinalável dinamização de múltiplas actividades urbanas e culturais e, por outro lado, mas confluindo numa perspectiva de dinamização citadina, cada vez mais é maior o número de pessoas ligadas a uma grande diversidade de nichos e sub-niclos de actividades que encontram num meio urbano física e socialmente denso o melhor conjunto de locais para a respectiva implantação; e neste segundo grupo de citadinos há, naturalmente, uma assinalável fatia de jovens que vivem a cidade com autonomia.




Fig. 03: Alfama


De certa forma poderemos voltar a pensar na “cidade central” como ela foi, uma espécie de grande casa, que associava as casas de habitar e as casas de trabalho dos cidadãos; embora esta recorrência tenha, naturalmente, muito a ver com um conjunto de actividades diversificadas, sim, mas razoavelmente unificadas em termos de uma cultura urbana que está com a cidade específica em que se situa e mesmo com um dado bairro específico dessa cidade, mas que está, também, naturalmente, com a nossa cultura global que hoje está bem presente um pouco por todo o lado e, designadamente, bem ao nosso lado, bem próxima, no sítio de trabalho e no sítio de residir.


Há, assim, que sublinhar que a animação e a vitalidade urbanas estrategicamente dinamizadas, reguladas e disseminadas constituem um elemento fundamental para o melhor habitar de todos nós e são aspectos determinantes para uma vivência estimulante da cidade por parte de pessoas sós e pequenos agregados familiares, constituindo estes grupos de habitantes, reciprocamente, uma faixa de utentes privilegiadamente protagonista de muitas das actividades animadas e desejavelmente criativas daquelas cidades que, hoje em dia, se desejam criativas.




Fig. 04: Cooperativa Coobital, Alto de Santo António, Faro, 1991, Arq. José Lopes da Costa, Arq. Pais. José Brito


De certa forma o que podemos aqui ir concretizando é o interesse que terá um reconformar de partes da nossa cidade num sentido de uma maior humanização, uma humanização que não desfaça o sentido urbano e, até, eventual e pontualmente, cosmopolita da cidade, mas que a aproxime de um sentido de “casa comum”, onde cada pessoa, cada peão, use a rua e praça num natural e relativo prolongamento das suas condições domésticas. Uma condição que terá, sempre, excelentes consequências em termos da hoje tão necessária reconviviliazação entre quem habita a cidade e uma condição que hoje encontra naturais alianças em múltiplos aspectos que vão até ao privilegiar de meios de deslocação amigos do ambiente e ao apoio coerente a um turismo com qualidade e verdadeiramente amigo dos locais e da sua caracterização e vivência.


E tenhamos presente que tudo isto tem tudo a ver com os grupos socioculturais que, como aqueles de que acima se falou, têm mais tempo para a cidade e/ou mais fazem da cidade o seu sítio de habitar integrado (trabalho e residência); e a esta matéria do habitar integrado voltaremos mais à frente e em outros artigos da série, pois ela muito tem a ver com o motivo prático que aqui nos concentra, que é a integração de pequenas unidades residenciais em meios urbanos vitalizados.

Um outro aspecto que merece uma atenção específica nesta matéria, que no primeiro artigo foi apenas abordada de forma ligeira e cujo adequado desenvolvimento terá ainda de ficar para futuros textos, é a questão das essenciais acessibilidades urbanas diversificadas e bem qualificadas, que devem caracterizar qualquer zona residencial, mas que devem ser altamente eficazes e desejavelmente melhoradas em termos de conforto no uso em zonas que sirvam unidades residenciais e especificamente quando estas unidades residenciais tenham uma vocação especial para estudantes e especificamente para idosos; é que se tal não acontecer estão a criar-se verdadeiros guetos, ainda que, eventualmente, luxuosos em termos de condições residenciais específicas.

Um outro aspecto importa ter em conta, de forma específica, quando nos dedicamos a estas matérias das unidades residenciais, é que para habitar a cidade com relativa intensidade é evidente que temos de facilitar, ao máximo, e mesmo de nos “libertar”, um pouco, de muitas tarefas domésticas mais “mecânicas” ou repetitivas e, ao fazê-lo, acabamos por estar a disponibilizar actividades para outras pessoas encontrarem os seus nichos de actividade e de trabalho, o que é também uma consequência positiva em termos sociais, até porque tais actividades podem, assim, adquirir uma perspectiva cada vez mais profissional e dignificada – pensa-se em todas as actividades de apoio ao funcionamento de uma habitação e que possam ser prestadas, num regime de “menu” de oferta e em opção de total liberdade de escolha, nas unidades residenciais. E é evidente o interesse que tais ofertas poderão ter quando dirigidas para jovens e idosos vivendo sós.




Fig. 05: Residência de estudantes, Universidade de Aveiro, Arq. Adalberto Dias.


Ainda um outro aspecto que nunca será excessivo salientar é a oportunidade, que não pode ser perdida, por parte destas “novas” estruturas de residencialidade, que agregam um número significativo de pequenos fogos e estúdios mínimos, e que, portanto, congregam um número significativo de moradores, de associarem ao habitar – considerado numa perspectiva limitada de abrigo em condições funcionais positivas, quer domésticas, quer urbanas, como atrás se defendeu – outras valências que realmente qualifiquem o habitar como algo que possa enriquecer os seus habitantes, designadamente, em termos conviviais e culturais.


Já no passado artigo se falou, um pouco destas matérias, que se julgam muito importantes, e que têm, simplesmente, a ver: quer com uma oferta de condições disponibilizadoras de oportunidades de convívio comum, entre os moradores de cada unidade, e alargado, considerando a já defendida e afirmada integração da unidade na sua parte de cidade respectiva; quer com o aproveitamento da gestão comum da unidade para, além da disponibilização de um menu de serviços funcionais e de apoio doméstico, poder-se disponibilizar um menu de actividades de cariz cultural, actividades estas naturalmente alargadas a muitas outras pessoas que não apenas os residentes, mas que poderão nestes encontrar um interessante núcleo-base de dinamização.


Já se referiu e volta a indicar-se que nada disto tem a ver com qualquer tipo de tendência para qualquer tipo de indicações relativas a participações com carácter “obrigatório”, mas apenas a disponibilização de condições e de serviços que podem vir a estimular relações de convívio entre residentes e entre residentes e outras pessoas (ex., um ginásio com gestão autonomizada, uma biblioteca municipal com uma zona de estar/”café”e , mesmo, um simples “café de esquina” que poderá ter uma esplanada) e oportunidades de vivência cultural, que, por vezes, não sucedem por falta de informação e/ou de estímulo humano (ex., oferta regular de guias/agendas culturais e de actividades e eventuais serviços que periodicamente disponibilizem visitas diversificadas e minimamente organizadas, serviços estes que poderão aproveitar e mesmo ajudar a rentabilizar a respectiva estrutura de gestão local).


Naturalmente, se entre os habitantes de uma dada unidade residencial houver interesse no desenvolvimento de outros serviços comuns, mais activos, deverá haver alguma flexibilidade espacial e funcional para o respectivo apoio, e não deverá acontecer que não se possam aprofundar tais possibilidades, apenas, por manifesta impossibilidade física.



Fig. 06: uma intervenção da C. M do Funchal, no Caminho da Penteada, 2001, com projecto coordenado pela Arq.ª Susana Fernandes, em que uma antiga moradia com reconvertida e equipada, em termos de acessibilidades, para uma unidade residencial com oito pequenos fogos/estúdios T0, cada um deles com um único grande compartimento para estar, dormir e cozinhar, e, naturalmente, com casa de banho privativa, tendo havido ainda cuidados específicos com a mobilidade/funcionalidade no interior de cada fogo.


Em outros artigos desta série se falará, um pouco mais, sobre a articulação destas “novas” formas de habitar com as formas de habitar mais correntes e com a cidade, que desejamos, equilibradamente densificada e atraente em termos de imagens e de actividades; e se falará, também, do eventual protagonismo que estas “novas” formas de habitar poderão começar a ter nas nossas mega-cidades e, também, mesmo, sobre a “novidade” destas formas de habitar, mas, para já, e tal como prometido, vamos apenas avançar, um pouco mais, nos aspectos arquitectónicos que as caracterizam conjuntos integrados de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, e que, de algum modo, são responsáveis por boa parte dessa “novidade” (a ordem de apresentação é, ainda, um pouco arbitrária):

. No que se refere à caracterização dos respectivos habitantes, já se referiu julgar-se que estes poderão ser juniores e seniores, nos mesmos conjuntos ou em conjuntos distintos ou em zonas distintas dos mesmos conjuntos; há, nesta matéria, uma tendência para uma relativa especialização, no entanto tudo o que faça estas unidades distintas de uma normal mistura social citadina tem riscos, embora também haja riscos nesta integração. Portanto, talvez uma opção por uma integração “graduada” e muito bem gerida seja a opção, e, naturalmente, quanto menor for cada unidade, quanto mais simples será a sua normal integração urbana “ao longo da rua”.


. A importância de uma positiva integração que contribua para a continuidade e caracterização urbana da vizinhança em que se situa; integração esta que se deverá articular, sempre que possível, com a associação de equipamentos colectivos que sirvam toda a comunidade local/vizinhança urbana, sendo importante que estes se abram, claramente, à cidade/vizinhança, articulando-se com os respectivos espaços públicos.
. O interesse de se poderem associar em cada programa, e de acordo com as características de cada local, valências de uso de espaços exteriores contíguos ao edificado; de certa forma esta é uma condição que vale por si, naturalmente, pois podermos habitar o exterior residencial é algo de positivo (ex., pequeno jardim, esplanada, etc.), mas vale também numa perspectiva de maior animação urbana local e de maior visibilidade dessa mesma animação, associada seja à entrada da unidade, seja aos seus eventuais equipamentos associados.

. No que se refere à imagem urbana que caracterize a unidade, ela tem de se caracterizar por total integração, dignidade, alguma representatividade e sentido residencial/doméstico. E havendo equipamentos que interessem à “cidade” eles têm de ser devidamente mostrados à “cidade” e não parecerem como que escondidos e com uma caracterização ambígua em termos do seu uso. Nestas matérias a questão da aparência da escala da nova intervenção poderá mesmo levar a uma sua partição aparente de modo a conjugar-se melhor com a envolvente.


. No que se refere a uma opção por mínimos de habitabilidade na concepção das células residenciais, a ideia é que essa deve ser uma preocupação, desde que confluente com outras e designadamente ligadas a funcionalidade, conforto ambiental (ex., luz natural, ausência de ruído, ausência de humidade) e capacidade de apropriação. A ideia é que uma célula de unidade residencial poderá ser espacialmente mínima se for funcional, agradável e apropriável; e, por vezes, até em espaços desafogados não há essas outras qualidades.



Fig. 07: espaços comuns com agradável luz natural num conjunto habitacional cooperativo da Caselcoop, Caselas, Lisboa, Arq. Justino Morais.



Fig. 08: apropriação nas entradas dos fogos do mesmo conjunto em Caselas.

. No que tem a ver com o desenvolvimento dos espaços comuns, chama-se a atenção para a importância da agradabilidade ambiental e de redução, ao máximo, de quaisquer aspectos de constrangimento entre vizinhos. Nestas matérias a disponibilização de luz natural e de adequada ventilação, a equilibrada espaciosidade e a possibilidade de uma relativa apropriação ou marcação das zonas contíguas às portas privadas, são aspectos a salientar.


. Ainda no que se refere aos espaços comuns importa sublinhar o interesse e a sensibilidade que deverão revestir o seu tratamento, designadamente, em termos de carácter residencial, dignidade e consenso relativamente aos diversos gostos dos habitantes.

. Nestas matérias de caracterização dos espaços comuns há que tratar muito bem a zona de recepção e entrada, conciliando o interesse de uma centralização de serviços e de uma eventual presença de serviços de recepção e gestão com um máximo de privatização e autonomia das entradas/saídas na unidade residencial, com excelentes condições de dignidade e agradabilidade e com a disponibilidade de opções conviviais expressivamente facultativas.


. Globalmente, salienta-se o que se poderá referir como uma equilibrada capacidade de naturalização, seja por relação com espaços e elementos “verdes” (vegetação), previstos em termos globais, seja com a capacidade de integração de elementos “verdes” (vegetação), pelos habitantes, constitui um importante factor de identidade, apropriação e mesmo de atractividade e satisfação.


. Interesse na disponibilização e disseminação estratégica de alguns espaços comuns minimamente equipados, capazes de apoiarem o convívio informal, mas não intrusivos da circulação corrente no edifício e da privacidade no acesso aos fogos/estúdios. Está a pensar-se, não em salas de convívio, mas em recantos de paragem e estadia eventual, por exemplo, num alargamento de um patim de escada.. Consideração de equipamentos comuns exclusivos dos residentes numa base que privilegie os mais desejados pela maioria e os menos intrusivos da vivência privada de cada célula habitacional; esta previsão poderá ser realizada, seja com recurso a espaços e equipamentos próprios da unidade residencial, seja por centralização, na unidade, de serviços exteriores à unidade (ex., lavandaria e engomadoria).. Desenvolvimento de condições que apoiem uma máxima flexibilidade na afectação de um amplo leque de potenciais serviços comuns à sua utilização privada.. Deve visar-se um sentido de apropriação e de identidade de cada célula/habitação no conjunto da intervenção.

. Deve ser privilegiada a diversidade de células habitacionais, seja em termos dimensionais, seja em termos de funcionalidade, seja em termos de capacidade de apropriação interior e de disposição de mobiliário.


. A entrada de cada fogo/estúdio deve caracterizar-se, quer por condições de identificação, no uso dos espaços comuns, quer por condições de privacidade interior na relação com esses espaços comuns.


. Cada célula/habitação deve caracterizar-se, interiormente, por uma máxima capacidade funcional, propiciando diversidade e facilidade de tarefas domésticas, bem como a disponibilidade de algum espaço expressivamente livre.


. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de conforto ambiental e designadamente: condições especiais de isolamento acústico entre células habitacionais e no interior de cada célula habitacional; condições de luz natural, insolação e sombreamento; condições higrotérmicas e de ventilação contínua.


. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de uso e designadamente: a máxima capacidade de apropriação de cada célula/habitação por cada habitante ou agregado familiar; o equilíbrio entre a referida capacidade de apropriação e existência de um número significativo de equipamentos e elementos fixos de mobiliário pré-instalados; a consideração objectiva de boas condições para o trabalho em casa (não doméstico); e a existência de condições adequadas de arrumação (diversificada e estratégica), no interior do fogo (que poderá ser articulada com condições de arrumação fora do fogo).


Fig. 9: o “arrumar” de uma zona de trabalho “aos pés” da cama.

Fig. 10: o “arrumar” de uma zona de quarto.


. Importa dirigir uma atenção específica a um desenho arquitectónico da célula residencial de tal forma cuidado que harmonize áreas reduzidas, com adequada disponibilidade de áreas livres, capacidade/flexibilidade de mobilar/decorar e diversidade de usos dos espaços criados. A ideia é que a solução ofereça, simultaneamente, três capacidades: uma apropriação adequada com um mínimo de “móveis” introduzidos pelos habitantes; a possibilidade da introdução de alguns elementos de mobiliário e outros elementos de decoração fortemente apropriadores e em locais estratégicos do fogo; e uma boa possibilidade de mutação de tipos de arranjos de mobiliário. Com este tipo de objectivos será conseguida uma maior adequação e apropriação de cada arranjo doméstico.


Fig. 11: uma pequena mas cuidada cozinha.

. Um outro aspecto que é de grande importância é a capacidade da solução em termos da oferta ou do acolhimento de opções de arranjo interior muito cuidadas e atraentes, que, de certa forma, amenizem ou compensem a “falta de espaço” com o desenvolvimento de um muito agradável, “envolvente” e caracterizado ambiente doméstico; e aqui há um problema potencial a considerar que é a eventual falta de capacidade económica dos moradores para contribuírem para uma solução deste tipo, e aqui haverá caminhos a fazer em termos de pré-equipamento e de enquadramento de formas simples de arrano pelos moradores (ex., algum equipamento fixo e paredes onde seja simples realizar uma composição “dinâmica” com cartazes que se vão colocando e periodicamente substituindo).

. Pode ser ainda considerado o interesse no desenvolvimento de uma estrutura de projecto que possibilite a associação ou separação de células habitacionais, conforme a evolução das necessidades habitacionais; proporcionando-se a maior fragmentação com unidades mais pequenas ou a sua associação em unidades maiores.


. Quanto aos espaços com uso alargado eles deverão cumprir as respectivas exigências de programa, embora possa desenvolver-se uma atenção específica na sua relação com a unidade residencial.


. Quanto aos espaços comuns da unidade residencial que sejam desenvolvidos com valências específicas (ex., estar, reunir, jogar, trabalho não doméstico, apoio a trabalhos domésticos, gestão local, etc.), eles dependerão muito do programa que se adopte em cada solução, no entanto há aspectos fundamentais a considerar que têm a ver com a existência de condições dimensionais, visuais, de equipamento e de acesso adequadas a essas actividades:
- seja na relação autonomizada, mas bem articulada, com a estrutura dos acessos aos fogos/estúdios;
- seja na compatibilização das actividades previstas entre si; seja na possibilidade, que se julga positiva, de tais actividades poderem acolher pessoas exteriores à unidade;
- seja, finalmente, na possibilidade desse leque de actividades poder ser escolhido em interacção com os próprios habitantes, uma condição que implicará flexibilidade e adaptabilidade espacial.

Poderemos ter, assim, portanto, um amplo leque de possibilidades, mas há três aspectos que, desde já, se salientam nesta matéria, sendo um deles a certeza que terá de haver grande realismo financeiro e de gestão nestas previsões, sendo o outro que não haverá qualquer actividade comum se não existirem espaços e equipamentos adequados, e o último aspecto tem muito a ver com isto e refere-se à certeza de que os habitantes só tenderão a frequentar espaços comuns muito bem posicionados, dimensionados e equipados, caso contrário irão sempre preferir a privacidade da sua célula, mais ou menos, à frente do seu televisor ou monitor.


Muitas outras matérias decorrerão do programa específico de cada intervenção (ex., maior ou menor desenvolvimento dos serviços comuns e dos serviços abertos à comunidade), ou serão tratadas de forma idêntica a qualquer intervenção residencial (ex., garagem colectiva).Para concluir este artigo sublinha-se, novamente, o verdadeiro potencial que as cooperativas de habitação proporcionam na programação e na gestão corrente de unidades deste tipo, associando, suplementarmente, aos serviços do habitar, mais específicos, todo um outro conjunto de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas culturais.
8 de Junho de 2008, Encarnação – Olivais Norte, LisboaEditado no Infohabitar, em 8 de Junho de 2008, por José Baptista Coelho

segunda-feira, junho 02, 2008

199 - Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (I) - António Baptista Coelho - Infohabitar 199

 - Infohabitar 199

Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (I) – uma introdução à oferta de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais

um artigo de António Baptista Coelho

O que se pretende com esta nova série de textos é apoiar o desenvolvimento e abrir alguma discussão útil sobre o enquadramento de pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados – grupos sociais que cada vez mais têm uma presença significativa e que continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais – , seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente ao papel que tais unidades poderão ter na urgente vitalização de zonas urbanas centrais.

Aborda-se, portanto, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos, considerando-o nas suas urgências e potencialidades, cada vez mais evidentes, seja do ponto de vista dos seus principais utentes, seja na perspectiva do seu evidente e importante papel como elementos de vitalização da cidade.



Fig. 01

Anota-se, também, desde já, que a ordem de abordagem desta matéria terá alguma flexibilidade, podendo voltar-se em textos futuros a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, desde já, com algumas considerações mais objectivas.

Já aqui se falou, e está disponível em artigos do Infohabitar, de uma sociedade cada vez mais envelhecida e designadamente de uma sociedade urbana cada vez mais idosa e constituída por muitas pessoas que vivem sós. Já aqui se abordou, várias vezes, ainda que não de uma forma suficientemente objectiva e clara a tendência, que hoje em dia existe, de cada um de nós cada vez mais se fechar entre as paredes do seu quarto, da sua casa e entre os contornos, mais ou menos vastos e estimulantes, do seu mundo informatizado. E se nos lembrarmos de todo um enquadramento sócio-mediático que estimula o nosso individualismo, então devermos juntar a esses aspectos uma tónica de urgente reequilíbrio do actual modo de vida padrão super-individualista, com uma renovada vivência urbana convivial que bastante longe nos levaria – mas nem precisamos de ir por aí, para já, para apresentar o que se pode designar como as vantagens, pessoais, familiares e urbanas de algumas novas formas de habitar.

Lembremos, ainda, que tudo isto tem a ver, directa e indirectamente, seja com condições de habitar que proporcionem determinadas condições de conforto e de funcionalidade, seja com as outras condições de habitar, mais amplas, mas igualmente objectivas, ligadas ao desenvolvimento de oportunidades de vizinhança activa ou de acompanhamento e, naturalmente, de prolongamentos mais urbanos dessas mesmas condições de vizinhança. E lembremos, também, que nada nestas condições tem a ver com soluções especialmente caras e exigentes em determinados serviços, tem sim a ver com qualidade e exigência no projecto e na promoção.



Fig. 02

Nesta altura do raciocínio podemos lembrar que uma tal oferta de condições de habitar, que devem ir do nosso sítio doméstico mais privado aos sítios, por nós, relativamente “apropriados” nas cidades que habitamos, são idênticas quer estejamos integrados numa grande família alargada, quer vivamos sós na grande cidade; e esta é uma afirmação em boa parte verdadeira, e tem de o ser para que a cidade seja por nós vivenciada com agradável naturalidade, mas há aspectos de diferenciação, entre as duas situações, sobre as quais importa reflectir e sobre os quais poderemos intervir em termos de condições alargadas de habitar, vejamos então:

Uma família alargada é um grupo social coeso que pode actuar em entreajuda para além de garantir a fundamental companhia diária, uma companhia que é tão efectiva e, potencialmente, afectiva, seja quando há convívio real, seja quando as pessoas estão sós, nos seus quartos, nos seus recantos mais pessoais, ou ausentes de casa no trabalho ou no lazer; pois, afinal, a família está sempre “ali” potencialmente presente e o seu convívio renova-se numa base diária. E se as condições de habitar forem minimamente adequadas em termos funcionais e de caracterização residencial e urbana tenderá a haver, naturalmente, uma satisfação em termos de equilíbrio entre privacidade e convívio, identidade pessoal e sentido – e mesmo alguma identidade – de grupo, expressão da vontade própria e vantagens funcionais e afectivas do grupo em que se vive. Trata-se de ideias que são, um pouco lugares-comuns, bem o sei, mas julgo serem ideias que convém lembrar antes de passar a uma segunda fase da reflexão.

Pensemos agora numa pessoa só, num jovem que vive só, por exemplo, e vejamos como não se aplicam essas possibilidades e imaginemos que, cumulativamente, ele para conseguir viver só, mas com autonomia, vai ter, actualmente e frequentemente, de ir habitar periferias afastadas do sítio onde trabalha e do centro da cidade onde se situam muitos dos equipamentos que gostaria de utilizar, e se os utilizar vai ter de gastar muito tempo e dinheiro em deslocações, e se mudar de trabalho e de sítio de trabalho vai ter, provavelmente, de cumprir uma nova via-sacra de complicações até conseguir resolver uma nova forma de habitar minimamente equilibrada, e julgo que a verdadeira qualidade de habitar, aquela que lhe iria permitir uma vida activa muito mais motivada, será sempre uma qualidade que ficará apenas como sonho, pois a resolução razoável desse “problema” é que será o objectivo – um objectivo quase sempre concretizado em mais uma outra periferia dormitório, mal servida de transportes públicos e, por exemplo, sem condições de animação local e sem qualquer vida cultural.



Fig.03

Se fizermos um exercício idêntico para os idosos que vivem sós, ou mesmo para casais de idosos que vivam sós, a situação tem muitos pontos comuns em termos de faltas dos mais diversos tipos de apoios a um habitar mínimo – por exemplo um habitar marcado pelas idas normais às compras necessárias à vida doméstica –, pois lembremos os tantos sítios tão afastados de transportes públicos minimamente eficazes e tão distantes de locais urbanos com os equipamentos diários mínimos. Mas como o habitar não é apenas o “vegetar”, diariamente, entre as refeições e a televisão, então se imaginarmos a dificuldade de acesso que muitos idosos vivendo sós têm a outras condições de vida em termos de acesso ao lazer diário e eventual (do ir ao “café”, ao ir ao cinema) e no que se refere ao acesso às diversas formas de cultura (desde a compra de um simples jornal diário, à ida a uma livraria e à participação numa conferência e numa visita guiada), então teremos um retrato de uma situação existente muito negativa e infelizmente muito generalizada no nosso país; e basta um simples exercício de memória em zonas que cada um conhece para perceber a realidade desta situação.

E não vale a pena dizer que certas pessoas têm outros hábitos de vida, isso é sem dúvida verdade, mas também é verdade que não têm acesso a muito daquilo que o nosso mundo hoje nos oferece, e neste caso porque são idosos, são menos capazes de se deslocarem, têm reduzidos meios financeiros e vivem isolados. Sei que fiz aqui uma generalização muito incompleta, mas julgo que retratei uma realidade que hoje em dia marca o país.

Os jovens que vivem sós nas tais periferias dormitório têm como principal diferença a sua maior vitalidade e capacidade de deslocação autónoma, mas atenção que as deslocações em veículo privado podem qualquer dia ter de ser programadas com grande parcimónia.



Fig.04

Um retrato foi feito de jovens e idosos, basicamente sós, vivendo em periferias pouco equipadas, mas lembremos que, por outro lado, assistimos hoje em dia a muitos centros urbanos sem vida e construtivamente degradados, e, aliás, onde há muitos casos de idosos a viverem sós e, frequentemente, em más condições de habitabilidade.

Antes de passar à segunda e última parte deste artigo lembremos uma outra dimensão da vivência urbana, que é o seu potencial de criação de laços vizinhança, em termos de vizinhança próxima e de vizinhança “de bairro”e em termos de disponibilização de um verdadeiro manancial de ofertas citadinas, que vão desde a simples disponibilidade de modos de transporte, à rica diversidade de serviços dos mais básicos aos mais especializados (do café de esquina que é a nossa segunda sala de estar à livraria que marca, diariamente, um dado percurso, mesmo sem nada se comprar); uma diversidade que encontra na espiral de mundos citadinos uma ementa extremamente motivadora pelo leque de ofertas e pelo dinamismo das ofertas. E lembremos que as pessoas sós estão muito disponíveis para tais ofertas, e lembremos que tanto os juniores como os seniores são os principais actores dessa especialização urbana, seja nos primeiros passos da especialização, seja no aprofundar cuidadoso e exigente dessa mesma especialização.

E lembremos, por fim, nesta matéria, que é de um tal movimento, marcado pela diversidade de acções e de protagonistas, que se faz boa parte da riqueza e do interesse da cidade. Mas, para que assim aconteça, mais naturalmente, a cidade tem de estar habitada e esses protagonistas dessa vida citadina devem integrar-se na cidade de forma activa e, portanto, devem habitar a cidade, a cidade “central”, e não apenas a devem usar, por exemplo, em noites de fins de semana.

Podemos fazer um enquadramento amplo desta questão através de um texto de Luis Fernández-Galiano (1):

“O problema da habitação tornou-se o problema da cidade. Durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»...No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anorécticas… A habitação no é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”

Fernández-Galiano refere que “o chamado «problema da habitação»” terá passado da sua dimensão quantitativa para a qualitativa, uma afirmação que em Portugal não será para levar à letra, mas no entanto o que aqui se sublinha é exactamente, a habitação como uma questão de cidadania, a habitação que tem de fazer cidade viva, e a cidade que tem de ser uma cidade viva, sem centros e periferias mortas ou criticamente adormecidas; e para o ser a cidade tem de ser estratégica e naturalmente vitalizada por habitação.

Ora se associarmos esta fundamental necessidade às recentes reflexões sobre a possibilidade de se aceitarem, pontualmente, maiores densidades urbanas, desde que muito bem configuradas em termos de soluções de arquitectura urbana, poderemos visar um retorno do habitar à cidade “central”, retorno este que deverá servir todos os grupos socioculturais e etários, para que a cidade seja cidade verdadeira, mas um retorno que poderá e deverá apoiar, objectivamente, o habitar das pessoas sós e dos pequenos agregados familiares que, por um lado, podem encontrar na cidade viva uma parte significativa de um seu modo de viver verdadeiramente mais humano, funcional, enriquecedor, convivial e equilibrado, e que, por outro lado, são dos grupos sociais que mais podem fazer viver as vizinhanças, os bairros e os equipamentos da cidade, no seu dia-a-dia e na sua hora-a-hora.



Fig. 05


Escusado será dizer que serão as pessoas sós e os pequenos agregados familiares, mais jovens e mais idosos, aqueles que estarão mais disponíveis para uma tal vivência e que aí, na cidade viva, poderão encontrar as melhores condições para uma vida que valha a pena. Mas para tal há que disponibilizar condições em termos de associações de pequenos fogos, ou pequenas unidades habitacionais, integradas em conjuntos perfeitamente associados às respectivas vizinhanças urbanas, e que contribuam, objectivamente, para a melhoria da qualidade funcional, ambiental e de caracterização dessas mesmas vizinhanças.

Julga-se ser este o principal objectivo: vitalizar a cidade com novos habitantes e, especialmente, com habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização; e proporcionar o habitar a cidade viva a pessoas e pequenos agregados familiares para os quais tal possibilidade será um elemento fundamental na manutenção ou na redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária; no caso dos seniores o resultado será a contribuição para a manutenção da vitalidade individual, em termos físicos e mentais – e mesmo com excelentes efeitos na sua saúde –, enquanto no caso dos jovens o resultado centra-se na disponibilização de uma plataforma de apresentação do mundo urbano, e de apoio à sua introdução e início de vivência autónoma nesse mundo.

Os protagonistas e habitantes destes pequenos fogos poderão ser juniores e seniores, nos mesmos conjuntos ou em conjuntos distintos ou em zonas distintas dos mesmos conjuntos, tudo será possível e tudo deve ser possível numa perspectiva de máxima simulação de um meio urbano feito de naturais misturas sociais e etárias, mas, sempre, no respeito de regras claras e rigorosas que garantam que a liberdade de uns não afecte a de outros; e lembramo-nos, especificamente, de aspectos associados ao conforto ambiental e designadamente ao ruído, mas também haverá que cuidar de regras de vivência comum e de uso dos espaços comuns.

As formas de acesso a este tipo de unidades residenciais urbanas poderá ser diversificada, mas trata-se de uma solução muito adequada ao arrendamento, seja porque está muito ligada ao servir pessoas em períodos delimitados da sua vida, seja porque é uma solução em que o habitar pode caracterizar-se, muito claramente, como um serviço que é prestado em diversas valências que poderão ser contratadas nas mais diversas opções mais ou menos completas; por exemplo, desde apenas um quarto com recanto de cozinha e casa de banho, sem qualquer serviço associado, até o apartamento médio perfeitamente autónomo, mas em que os moradores contrataram um leque muito completo de serviços domiciliários e até associativos.

Uma reflexão e um aprofundamento sobre este tipo de soluções ficarão para próximos textos, no entanto, desde já, se aponta que, se quisermos pôr de pé esboços de soluções de habitar que sejam individual e socialmente válidas, todo e qualquer indício de “solução de alojamento institucional/izado” tem de ser totalmente abolido. Isto quer dizer que a solução a desenvolver tem de ser, básica e evidenciadamente, uma solução residencial com grande dignidade/sobriedade de imagem geral e uma solução de habitar marcada pela habitação de cada um e pelos serviços comuns; e nesta integração há que separar funções totalmente, porque se tem de admitir que haverá pessoas que não utilizarão os serviços comuns, devem ter essa liberdade; e porque os serviços comuns devem ser serviços úteis também à cidade e aos outros cidadãos, que deverão poder usá-los porque esses serviços terão funções e qualidades próprias que deverão justificar, plenamente, esse uso; e, assim, teremos uma nova peça urbana que servirá os seus habitantes específicos e o bairro/cidade onde se integrou e que veio valorizar em termos de diversificação de habitantes e de serviços oferecidos.



Fig.06, uma célula residencial mínima (i)



Fig.07, uma célula residencial mínima (ii)


Tudo isto que aqui se referiu tem muito de matéria de arquitectura, e nesta primeira reflexão sobre a oferta de conjuntos de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, e ainda na matéria de arquitectura importa, desde já, sublinhar, ainda que sumariamente, mais alguns aspectos que, muito provavelmente, voltaremos a tratar, com pormenor, em outros textos:

. a importância de uma positiva integração que contribua para a continuidade e caracterização urbana da vizinhança em que se situa;

. o interesse de se poderem associar em cada programa, e de acordo com as características de cada local, valências de uso de espaços exteriores contíguos ao edificado;

. a importância de se abrirem, claramente, à cidade os equipamentos integrados;

. o interesse e a sensibilidade que deverão revestir o tratamento dos espaços comuns, designadamente, em termos de carácter residencial, dignidade e consenso relativamente aos diversos gostos dos habitantes;

. a diversidade de células habitacionais, seja em termos dimensionais, seja em termos de funcionalidade, seja em termos de capacidade de apropriação/mobiliário;

. o máximo sentido de apropriação e de identidade de cada célula/habitação no conjunto da intervenção;

. a máxima capacidade funcional interna de cada célula/habitação, propiciando diversidade e facilidade de tarefas domésticas;

. a consideração objectiva de boas condições para o trabalho em casa (não doméstico);

. a máxima capacidade de apropriação de cada célula/habitação por cada habitante ou agregado familiar;

. o equilíbrio entre a referida capacidade de apropriação e existência de um número significativo de equipamentos e elementos fixos de mobiliário pré-instalados;

. a existência de condições especiais de conforto ambiental, designadamente, em termos de conforto térmico e de ventilação contínua;

. a existência de condições especiais de isolamento acústico entre células habitacionais e no interior de cada célula habitacional;

. a disponibilização de espaços equipados capazes de apoiarem o convívio informal, mas não intrusivos da circulação corrente no edifício;

. a consideração de equipamentos comuns exclusivos dos residentes numa base que privilegie os mais desejados pela maioria e os menos intrusivos da vivência privada de cada célula habitacional;

. a flexibilidade na afectação de serviços comuns;

. a ponderação do interesse na flexibilidade na associação ou separação de células habitacionais;

. a atenção específica a um desenho arquitectónico da célula residencial de tal forma cuidado que harmonize áreas reduzidas, com adequada disponibilidade de áreas livres, capacidade/flexibilidade de mobilar/decorar e diversidade de usos dos espaços criados;

. e a atenção específica e especial à entrada principal comum, associando representatividade, sobriedade formal e harmonização entre acessibilidade privada às células residenciais e potencial de convivialidade natural.

Outras matérias decorrerão do programa específico de cada intervenção (ex., maior ou menor desenvolvimento dos serviços comuns e dos serviços abertos à comunidade), ou serão tratadas de forma idêntica a qualquer intervenção residencial (ex., garagem colectiva).

Termina-se, aqui, este primeiro exercício de reflexão sobre a grande oportunidade da oferta de conjuntos de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, chamando-se a atenção para o interesse humano e urbano de que se revestirão estas iniciativas, que poderão constituir uma verdadeira opção habitacional e de vida para muitas pessoas sós, casais e pequenos agregados em diversas fases, mais ou menos prolongadas, das suas vidas. E para concluir este texto importa lembrar o evidente potencial de adequação na promoção e na gestão corrente de unidades deste tipo por cooperativas de habitação e, designadamente, por cooperativas habitacionais habituadas a associar o serviço habitar, mais específico, a todo um outro conjunto de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas culturais; aspectos estes, que, constituem, afinal, boa parte de uma opção de habitar verdadeiramente mais rica e mais completa e, hoje em dia, claramente mais rica e mais completa do que tantas das opções periféricas, isoladas e desvitalizadas onde tantos “vivem”.

(1) Luis Fernández-Galiano, em “Vivienda sin ciudad”, n.º 97 da revista “Arquitectura Viva”, p. 20.

31 de Maio de 2008, Casais de Baixo, Azambuja
Editado no Infohabitar, em 1 de Junho de 2008, por José Baptista Coelho