segunda-feira, abril 14, 2008

192 - A CIDADE HABITÁVEL (I) - António Manuel Reis Cabrita - Infohabitar 192

 - Infohabitar 192

É com uma especial satisfação que o Infohabitar tem, novamente, a oportunidade e o privilégio de poder editar um texto do Arq. António Reis Cabrita, um colega que não precisa de apresentação, um fundador do Grupo Habitar, desde os seus primeiros momentos, um especialista do LNEC nas amplas áreas do habitar e Chefe do seu Núcleo de Arquitectura durante um alargado e excelente período temporal e, actualmente, Professor Catedrático Convidado e Coordenador da Licenciatura em Arquitectura do Pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.
O tema que Reis Cabrita aqui nos trará num extenso artigo subdividido em duas partes , que serão editadas em semanas consecutivas, refere-se à “cidade habitável”, um tema que, como se verá tem muito a ver com as matérias de uma cidade mais humana, mais adequada aos seus habitantes e mais vitalizada, portanto um tema que é hoje em dia crucial neste nosso ainda novo século das cidades.
Fiquemos então, sem mais palavras, com a “cidade habitável” de Reis Cabrita, numa primeira semana numa perspectiva amplamente introdutória e estruturante da temática e, na semana seguinte, num avançar claro nos vários aspectos que o autor considera fundamentais na mesma temática.
Para uma melhor estruturação da leitura em qualquer das semanas é apresentado, em seguida, o índice geral, marcando-se a bold a parte do texto que é, em seguida, editada.


ABC

NOTA EDITORIAL: PROBLEMAS INULTRAPASSÁVEIS PREJUDICARAM A EDIÇÃO DA ILUSTRAÇÃO DESTE ARTIGO, PELO QUE SE APRESENTAM AS DEVIDAS DESCULPAS AO AUTOR E AMIGO E AOS LEITORES.

A CIDADE HABITÁVEL

António Manuel Reis Cabrita
Índice geral

1. INTRODUÇÃO
O âmbito físico
A inabitabilidade
A habitabilidade
A qualidade habitacional a nível urbano
A formulação exigencial da qualidade da habitação
A formulação da qualidade do espaço público
Avaliação da satisfação dos moradores
A Qualidade Arquitectónica Residencial (QUAR)
Aplicação dos factores de QUAR á escala urbana
Outros estudos habitacionais á escala urbana
Em resumo e concluindo esta Introdução

2. A CIDADE HABITÁVEL
Conjugar Habitabilidade e Urbanidade
A Qualidade Arquitectónica Residencial (QUAR) a nível urbano e citadino
A Habitabilidade Citadina
A Urbanidade Residencial
A Cidade Habitável – Objectivos e estratégia
Sistema conceptual para a Cidade Habitável
A - Enquadramento contextual
B – Enquadramento em aspectos conceptuais e de conteúdo
C - Enquadramento técnico político como suporte ao projecto de Intervenção Urbanística.
CONCLUSÃO



(fig.1)

1. INTRODUÇÃO
O tema da habitabilidade da cidade que me foi proposto e que aceitei com entusiasmo é hoje muito importante embora não seja dramático. É importante porque vivemos maioritariamente em cidades e desejamos a melhor qualidade de vida para o ambiente urbano citadino. Retiramos-lhe contudo o dramatismo: porque hoje o quadro de vida urbano já não é apenas a cidade tradicional, é também a sua periferia e o território regional urbanizado; também porque não é urgente nem é possível encontrar ideias e soluções óptimas e definitivas para a qualidade de vida urbana face às múltiplas contradições e limitações (ecológicas, sociais, económicas) que estão a surgir na cidade.

Entendemos que as cidades necessitam tanto de nova dinâmica como de melhor qualidade de vida e que esta deve ser feita muito no sentido de uma maior habitabilidade generalizada.

O âmbito físico

Para ser útil e mais bem entendido nesta exposição importa clarificar, logo de início, o quadro em que ela se irá desenvolver. Em primeiro lugar iremos considerar apenas a cidade tradicional e suas extensões homogéneas. Falaremos portanto apenas de uma escala urbana significativamente densa e concentrada, excluindo os núcleos urbanos, novos ou antigos, de menor escala, e excluindo os territórios urbanizados de baixa e muito baixa densidade ou de urbanização difusa.


(fig.2)

A cidade actual, considerada nos limites do seu perímetro urbano, pode ser avaliada, em termos da habitabilidade, como um todo ser avaliando a habitabilidade da generalidade das suas grandes áreas urbanas, compostas, cada uma, pelas suas zonas mais ou menos residenciais e por zonas funcionalmente mistas por incluírem, além de residências de vária natureza, muitas outras funções centrais, terciárias e culturais. No LNEC já foi experimentada a análise à qualidade habitacional de áreas residenciais, ou bairros, com base em instrumentos analíticos e critérios de qualidade previamente definidos e suportados por um corpo teórico como veremos adiante (1). Passar desta escala física para as grandes áreas urbanas é o desafio que iremos tentar. Por outro lado, a abordagem da habitabilidade de toda uma cidade, especialmente se for grande, envolve uma excessiva dimensão e complexidade para o espaço/tempo desta análise e poderia reduzir os resultados a abstracções pouco úteis.

Por isso nos remetemos, por ora, a abordar apenas a escala citadina intermédia, a das grandes áreas urbanas. Esta escala é a mais interessante e realista porque permite avançar, com alguma prudência, da escala de conjunto ou bairro residencial para o nível físico superior, para o das grandes áreas urbanas onde se podem verificar, em plenitude, todas as dimensões físicas, sociais, ambientais, económicas e culturais do fenómeno citadino. Ao mesmo tempo esta escala evita envolver os problemas da grande escala urbana, que em geral se verificam nas grandes cidades, ou em certas zonas das grandes cidades, sejam eles de ordem funcional (centros de serviços, áreas portuárias ou industriais, etc.), ou de ordem social (marginalidade grave, desemprego, imigração menos controlada, etc.).

A nossa análise vai portanto incidir sobre a habitabilidade citadina inquirindo a capacidade de identificar as condições de habitabilidade das grandes áreas urbanas que
constituem as grandes cidades, excluindo portanto as suas zonas mais específicas, ou críticas. Estas grandes áreas são também interessantes porque podem equivaler ás cidades pequenas e médias, geralmente tidas como mais habitáveis.


(fig.3)

A inabitabilidade


É porventura mais fácil entender o que se pretende com a habitabilidade através da expressão do que se entende, na linguagem comum, por um ambiente urbano, no seu sentido mais amplo, como inabitável.

As referências que habitualmente se utilizam para designar negativamente um ambiente urbano são geralmente de natureza ambiental, em sentido restrito, ou social, ou urbanística:

- Ambiental: poluição do ar e do solo, e seus aquíferos; escassez de água potável; ausências de espaços e elementos naturais; ruídos injustificáveis; etc..

- Social: exclusão social; insegurança pública (impunidade; marginalidade social, etc.); perda de referências (culturais, societárias, etc.); falta de empregos e de trabalho; envelhecimento sócio demográfico; apatia social; etc..

- Urbanística: casas vazias; falta de pequeno comércio e do de proximidade; equipamentos e serviços colectivos deficientes (município arruinado); espaço público abandonado; espaço público desorientador e desconfortável; desconfiança na gestão da cidade; etc..



(fig.4)

A habitabilidade


Outra reflexão a fazer a priori tem a ver com o conceito de habitabilidade justificando a sua escolha face a outros conceitos, ou objectivos, definidores de uma qualidade abrangente e que circulam no discurso técnico recente, como são o de humanização e de sustentabilidade. A estes conceitos podem-se adicionar outros oriundos das ciências sociais, como o de qualidade de vida urbana, permitindo a plena e positiva realização pessoal e comunitária, ou oriundos da política como o de cidadania plena, ou da filosofia como o de felicidade. A opção pelo conceito de habitabilidade resulta de se privilegiar uma abordagem mais disciplinar da arquitectura e urbanismo e por este ser um conceito amplo e rico na linha dos estudos sobre habitação desenvolvida pelo LNEC.


(fig.5)

Para esta análise faremos convergir nomeadamente:

- os conceitos e instrumentos analíticos para a micro escala urbana, com os quais temos trabalhado no LNEC e que incidem no que se designou de Qualidade Arquitectónica Residencial (QUAR), do alojamento ao bairro (1);

- os estudos de socioecologia urbana residencial visando a satisfação dos habitantes;

- os temas de política sócio urbanística como a coesão, a solidariedade, a governância.


(fig.6)

Iremos portanto abordar o tema da Cidade Habitável na perspectiva em que estamos mais aptos a contribuir. Trata-se de procurar extrapolar os objectivos de qualidade habitacional que temos estudado e aplicado no LNEC à escala de uma pequena zona urbana, ou bairro, caracterizadamente residencial, (2) para que, através de novos estudos e algumas transformações, possam ser úteis para identificar a qualidade urbana e, mais concretamente, a habitabilidade de uma grande área citadina que reúna nela zonas com diferente grau de residencialidade e zonas mistas que incluam equipamentos de maior escala e actividades típicas de centralidade urbana.

A qualidade habitacional a nível urbano



(fig.7)

No LNEC temos desenvolvido uma perspectiva multidimensional e multidisciplinar de análise e avaliação da qualidade habitacional entendendo-a, portanto, no seu sentido amplo, condicente com a complexidade do objecto analisado, do alojamento ao bairro.

Entendemos que a qualidade da vida residencial urbana só pode ser entendida analisando e integrando as dimensões físicas, socioculturais, ambientais e económicas envolvendo essencialmente as seguintes perspectivas:

- Nas dimensões físicas, as perspectivas arquitectónico-urbanísticas;

- Nas sociais, numa perspectiva integradora das ciências humanas, as envolvendo as sócio espaciais reunidas na ecologia social e as da sustentabilidade social;

- Nas ambientais, as da segurança e as da ecologia e conforto ambientais;

- Nas económicas, as da sustentabilidade económica e socioeconómica.

Há portanto um vasto conjunto de estudos sobre a qualidade residencial que, pela sua metodologia e capital de conhecimentos codificados, pode contribuir com alguma eficiência para a definição de conceitos e factores de qualidade urbana orientados para o cidadão, ou seja, para a definição de um conceito amplo de qualidade que se definirá por habitabilidade citadina ou Cidade Habitável. A adaptação dos vários conceitos e factores não pode, naturalmente, ser ensaiada nesta exposição por falta de espaço/tempo e também porque muitas das dimensões são periféricas ao nosso domínio disciplinar que é a arquitectura e o urbanismo. Contudo os conceitos e factores não deixarão de ser utilizados porque são indispensáveis e porque o seu conteúdo é evidente e porque ele será aflorado, sempre que necessário, ao longo da exposição.


(fig.8)

A formulação exigencial da qualidade da habitação


Temos estudado e aplicado no LNEC conceitos e factores qualificando, com elevada objectividade, a habitabilidade de âmbito restrito, aplicada aos edifícios e conjuntos habitacionais e utilizando especificações que os qualificam e quantificam, seja a segurança, o conforto, o uso, o aspecto e a economia. Esta metodologia vem na linha da formulação exigencial, internacional e europeia, de apoio á regulamentação e á normativa da construção ao micro desenho urbano, através de exigências humanas e ambientais espaciais e de especificações para os elementos constituintes dos espaços habitacionais e de apoio à uniformização exigencial para os produtos da construção no espaço europeu.


(fig.9)

Apresenta-se no Quadro 1 a lista resumida de tipos de exigências para a habitação elaborada e aplicada pelo LNEC desde os anos 80 (3) em sintonia com outras listas de especificações similares contemporâneas da ISO, do CIB e da ECE/HBP- Europe.


A formulação da qualidade do espaço público


Esta formulação exigencial foi desenvolvida essencialmente para os espaços interiores e portanto para os edifícios habitacionais, depois foi sendo pontualmente alargada para os espaços exteriores construídos dos conjuntos habitacionais, com as necessárias adaptações porque:

Em determinadas dimensões surgem novos objectivos a qualificar, como é o caso, por ex.º , de algumas exigências de Segurança em que quase desaparece a preocupação estrutural e a da intrusão e ganha relevo a da agressão pessoal e a relativa ao atropelamento;

Mesmo numa dimensão em que se mantenham muitos dos seus factores eles expressam-se de modo diferente, como acontece nas exigências de conforto, por ex.º nas de Conforto Térmico.

Quadro 1

EXIGÊNCIAS DE SEGURANÇA
Estrutural
Incêndio
Intrusão
Uso normal

EXIGÊNCIAS DE HABITABILIDADE (estrito senso)
Estanquidade
Salubridade/higiene
Conforto térmico
Conforto acústico
Conforto visual
Conforto táctil e mecânico

EXIGÊNCIAS DE USO

EXIGÊNCIAS DE ECONOMIA/DURABILIDADE

EXIGÊNCIAS DE ASPECTO


(fig.10)

Seguidamente foi definida a qualidade habitacional em sentido amplo e, concretamente, a extensão dos respectivos conceitos e factores aos espaços exteriores urbanos, desde a vizinhança próxima até aos conjuntos residenciais e aos bairros. Este trabalho foi desenvolvido por estudos do LNEC e beneficiou de contribuições essencialmente europeias no mesmo sentido (4). Foram ampliados os conceitos e os factores qualificadores terminando em recomendações técnicas (5), (6) e foram empreendidos estudos de campo, por ex.º para análise da relação entre forma urbana e conforto térmico no espaço público (7).


(fig.11)


(fig.12)


(fig.13)

Avaliação da satisfação dos moradores


Apesar da utilidade destes trabalhos para a qualificação habitacional à escala urbana, sempre considerámos que esta definição, embora técnica e socialmente importante, não era suficiente para captar globalmente a satisfação do morador relativamente á qualidade habitacional no sentido amplo e, portanto, mais insuficiente era ainda para captar a satisfação do utilizador quanto á qualidade de vida urbana ao nível dos conjuntos residenciais, dos bairros e das áreas urbanas caracterizadamente residenciais.

A medida que se impunha, em primeiro lugar, era a de trazer para este objectivo toda a informação conceptual e metodológica que, ao longo de mais de 20 anos, se foi
consolidando no LNEC em investigação e trabalhos de campo em sociologia e sócio ecologia da habitação em sentido amplo. Os estudos teóricos e práticos de avaliação e explicação da satisfação dos utilizadores dos bairros de habitação apoiada, permitiram
entender melhor as atitudes e motivações desses utilizadores e aperfeiçoar os conceitos e factores de natureza arquitectónica e urbanística com que se vinha a trabalhar. Estudos e trabalhos de campo interdisciplinares de Avaliação Pós Ocupação (APO) consolidaram esta visão mais integrada, nomeadamente na perspectiva urbana que é a aqui nos interessa (2).


(fig.14)

A Qualidade Arquitectónica Residencial (QUAR)


Ao mesmo tempo havia que introduzir na abordagem arquitectónica e urbanística um alargamento da óptica analítica, introduzindo novos conceitos e factores identificadores do que se designou de Qualidade Arquitectónica Residencial (QUAR) e tal foi o objecto de uma tese de doutoramento no LNEC/FAUP (1). Tratava-se de factores mais qualitativos e com um leque de objectivos muito mais alargado e, portanto, eram complementares dos indicadores exigenciais e das especificações técnicas mais objectivas, acima referidos. Estes conceitos e factores QUAR foram, contudo, desde logo orientados para terem uma formulação muito clara e objectiva e para abarcarem não só os edifícios mas também a pequena escala urbana residencial (1). Os QUAR
apresentam os 15 factores agrupados em seis grandes objectivos naturalmente mais abrangentes e que são a seguir listados no Quadro 2.

Quadro 2

FACTORES DE QUALIDADE ARQUITECTÓNICA RESIDENCIAL (QUAR)

A - Objectivos de RELAÇÃO e de CONTACTO
Factores: Acessibilidade; Comunicabilidade; Espaciosidade

B – Objectivos de CARACTERIZAÇÃO e de ADEQUAÇÃO
Factores: Espaciosidade; Capacidade; Funcionalidade

C – Objectivo de CONFORTO
Factores: Agradabilidade (inclui o conforto ambiental); Durabilidade; Segurança

D – Objectivos de INTERACÇÃO SOCIAL e de EXPRESSÃO INDIVIDUAL
Factores: Convivialidade; Privacidade

E – Objectivos de PARTICIPAÇÃO, IDENTIFICAÇÃO e REGULAÇÃO
Factores: Adaptabilidade; Apropriação

F – Objectivos de ASPECTO e de COERÊNCIA ESPACIAL E AMBIENTAL
Factores de: Atractividade; Domesticidade; Integração

Cada um destes factores acabou por ter um âmbito e uma definição conceptual bem clara e pormenorizada que não pode aqui ser apresentada, no entanto o termo que em cada caso representa um factor é razoavelmente elucidativo desse conteúdo para que possamos prosseguir mesmo assim.


(fig.15)

Aplicação dos factores de QUAR á escala urbana


Estes factores foram estudados e aplicados na perspectiva da habitação, ainda que em sentido amplo. Por isso foram testados em várias escalas físicas, desde os alojamentos aos conjunto residenciais, considerando as zonas urbanas, ou bairros, envolventes a esses conjuntos. Portanto estes factores foram ensaiados até à escala micro urbana e sempre em ambientes essencialmente residenciais como o denotam os termos que os definem, como é o caso, por ex.º da Domesticidade ou da Privacidade.

A proposta desta exposição é a de indagar se estes factores, mesmo que alargados e renovados nos seus conteúdos, aceitam uma mudança de escala no objecto de aplicação, ou seja , se podem ser aplicados a uma escala urbana mais ampla cujo objecto seriam os bairros , as zonas urbanas caracterizadamente habitacionais e mistas, ou mesmo as zonas de centralidade urbana onde predominam outras actividades e onde existe muita residencialidade não habitacional (hotelaria, lares, residências estudantis, segundas residências, etc.).


(fig.16)


(fig.17)

Outros estudos habitacionais á escala urbana


Mais recentemente estas preocupações de análise e qualificação da habitabilidade em sentido amplo e á escala urbana foram complementadas com outros estudos de índole mais geral por terem um carácter mais técnico político e processual. Trata-se de estudos teóricos e práticos sobre:

- a gestão dos conjuntos residenciais com metodologias de cidadania participativa (8);
a sustentabilidade ambiental e social da habitação em sentido amplo e á escala urbana (9);

- os novos e múltiplos perfis sociológicos dos agregados familiares;

- a humanização do espaço habitacional em várias escalas físicas.


Todas estas novas perspectivas correspondem a um novo olhar e a uma doutrina de nova modernidade que estavam muito pouco contempladas nos anteriores conceitos e factores de qualificação da qualidade residencial e micro urbanística.


(fig.18)

Em resumo e concluindo esta Introdução
Para estudar e promover a habitabilidade da cidade deve-se: (i) explorar e aplicar as qualidades físicas, ambientais e sociais, estudadas para a qualidade habitacional no sentido amplo e à escala micro urbanística; (ii) e aproveitar ao mesmo tempo os estudos sobre a qualidade macro urbana (morfologias, actividades, tráfego e transportes, grandes equipamentos, etc.), que contudo devem ser revistos face às exigências (sociais, ambientais, de trabalho, etc.) da nova/futura modernidade.

Trata-se , portanto de reunir, agrupar, compatibilizar e ligar conceitos e factores qualitativos, ou simples recomendações de diversa natureza, nomeadamente:

- Indicadores e standards quantitativos (áreas, dimensões, índices, etc.);

- Especificações de habitabilidade funcional e técnica (segurança, conforto, uso, etc.);

- Factores definidores da Qualidade Arquitectónica Residencial como os dos factores de QUAR referidos (Acessibilidade, Espaciosidade, Convivialidade, Apropriação, Domesticidade, etc.);

- Factores definidores da qualidade arquitectónica e urbanística do espaço público;

- Recomendações resultantes das análises á satisfação dos moradores e de estudos sociodemográficos;

- Recomendações e especificações sobre sustentabilidade ambiental e económica na construção dos edifícios e do espaço público;

- Recomendações ligadas á gestão dos bairros e á sustentabilidade social;

- Finalmente, conceitos e recomendações sobre a humanização e/ou habitabilidade citadinas.


(fig.19)

Nesta perspectiva a cidade é habitável, não no sentido de que nela se consegue, apesar de tudo, viver, mas no sentido de que nela se usufrui de qualidade de vida urbana para satisfação plena, física, mental, social e económica dos seus moradores, utilizadores e visitantes, enfim uma cidade como uma grande casa acolhedora.

António Manuel Reis Cabrita
Lisboa, Dezembro de 2007


(fig. 20)

Notas:
(1) COELHO, António Baptista - “Qualidade Arquitectónica Residencial – Rumos e factores de análise”, Lisboa, LNEC, 2000.

(2) COELHO, António Baptista, COELHO, A. Leça; Menezes Marluci; CARVALHO, Fernanda; Plácido, Isabel – “3ª Análise retrospectiva do parque habitacional financiado pelo INH, anos de 1995 a 1998”, Lisboa, LNEC, 2004. Trabalho precedido de mais duas avaliações ao longo das quais os conceitos, indicadores e métodos se foram aperfeiçoando.

(3) Documento elaborado no LNEC para o FFH/INH “Instruções para projectos de habitação promovida pelo Estado”, Lisboa, FFH, 1978.

(4) COELHO, António Baptista; CABRITA, António, Reis – “Espaços Exteriores em Novas Áreas Residenciais”, Lisboa, LNEC e INH, 1992.

(5) CAMPOS, Vítor – “Normas Técnicas para Projectos de Urbanização”, Lisboa, LNEC, 1993.

(6) PEDRO, João Branco – “Programa Habitacional – Vizinhança Próxima”, Lisboa, LNEC, 1999.

(7) Pinho, Ana – “bairro de Telheiras. Aplicação de princípios climáticos à arquitectura”, Lisboa, LNEC, 2003.

(8) LNEC – “Gestão Integrada de Parque Habitacionais de Arrendamento Público – Guião Recomendativo”, Lisboa, IORU, 2000.

(9) MOURÃO, Joana; PEDRO, João – “Sustentabilidade Ambiental da Habitação e Áreas Residenciais”, Lisboa, LNEC, 2005.


“A CIDADE HABITÁVEL” de Reis Cabrita continua e conclui na próxima semana, aqui no Infohabitar, com edição a partir da noite de 20 de Abril.

Este texto sobre a “cidade habitável” foi realizado por Reis Cabrita, primeiro, para enquadramento de uma conferência em Sevilha, no âmbito de um conjunto de conferências, sob o título “Cidade Viva” promovido pela escola de Arquitectura dessa cidade em Janeiro de 2008.

Mais tarde Reis Cabrita reinterpretou o mesmo texto para apoio a uma outra conferência, que teve lugar no Centro de Congressos do LNEC, em 4 de Março de 2008, no âmbito da apresentação do livro “Habitação Humanizada”.

O texto foi articulado em duas partes sequenciais e formatado para ser editado no Infohabitar no início de Abril de 2008; as figuras que ilustram o texto referem-se à apresentação de Power Point que foi feita por Reis Cabrita para apresentação nas referidas conferências (manteve-se o mais possível o formato de Power Point para se conseguir uma certa estruturação do próprio artigo).

Editado no Infohabitar em 13 de Abril de 2008 por José Baptista Coelho.

domingo, abril 06, 2008

191 - “A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”, um novo livro de Alberto José de Sousa - Infohabitar 191

 - Infohabitar 191
Edita-se esta semana no Infohabitar a apresentação de um novo livro que acabou de sair no Brasil e que trata matérias de grande interesse no cruzamento das correntes e influências na área da Arquitectura desenvolvidas entre Portugal e Brasil.

O livro intitula-se “A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro” e o seu autor, o Arquitecto Alberto José de Sousa é professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba (Brasil) desde 1983, é doutorado na Universidade de Paris I, fez pós-doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em 2003 e é autor de divesos estudos e livros.

Desejamos ao colega Prof. Arquitecto Alberto Sousa as maiores felicidades com este seu novo livro e esperamos que, proximamente, ele possa voltar aqui ao Infohabitar com outras colaborações.

Para melhor apresentação deste excelente estudo e por iniciativa do autor, anexa-se, em seguida, a sua sinopse, a sua introdução e uma parte do seu capítulo 3.

A edição do Infohabitar
António Baptista Coelho


“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”

Alberto José de Sousa

Sinopse

O livro tem por objeto um segmento da arquitetura portuguesa, produzido na segunda metade do século XIX e afiliado ao classicismo. Tal segmento não foi estudado ainda, como uma corrente arquitetônica individualizada, pela historiografia portuguesa e destaca-se pela particularidade de ter derivado de uma arquitetura desenvolvida no Brasil a partir de 1826. Dele fazem parte marcantes edificações lisboetas, como o Teatro da Trindade.

Perto de 70 exemplares desse segmento – divididos em habitações e prédios públicos – são examinados no livro, que, além de fazer uma análise arquitetônica do exterior de cada um deles (que é retratado em pelo menos uma imagem), classifica-os, compara-os, avalia-os e relaciona-os com a referida arquitetura brasileira. Ademais, o livro aporta um contributo à divulgação da iconografia arquitetônica lisboeta, pois reproduz 26 projetos de fachada que foram submetidos à Câmara Municipal de Lisboa entre 1850 e 1880 (que estão guardados no Arquivo do Arco do Cego, em Lisboa).


Ficha técnica


Título: A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro
Autor: Alberto Sousa
Editor: Editora Universitária/UFPB (Brasil)
ISBN: 978-85-7745-127-5
Data: 2007
Nº de páginas: 200 (incluem 116 ilustrações e bibliografia)
Dimensões: 14,5 x 21,5 cm
Acabamento: brochura, capa plastificada e com orelhas
Cores: texto e maioria das ilustrações em preto e branco; 26 ilustrações e capa em policromia
Impressão: Imprima Gráfica e Editora




Capa do livro

“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”


Introdução


Na segunda metade do século XIX, construíram-se, em Lisboa e outras localidades portuguesas, numerosas edificações (como o lisboeta Teatro da Trindade) que se assemelhavam bastante com a arquitetura classicista produzida no Brasil imperial a partir da segunda metade dos anos 1820, por nós denominada classicismo imperial brasileiro – a qual tem sido, em geral, rotulada, erroneamente, como neoclássica.(1)

A constatação deste fato levou-nos a investigar um bom número dessas edificações, a compará-las com prédios brasileiros assemelhados e a procurar conhecer contextos relevantes existentes na época do aparecimento delas. E o conhecimento daí resultante fez-nos concluir que elas constituíram um eco ou desdobramento da citada arquitetura brasileira – conclusão lógica, fundamentada na expressiva anterioridade de boa parte desta em relação a elas e na intensa comunicação existente entre o Brasil e Portugal no terceiro quartel do Oitocentos.

Se nossa dedução está correta, como evidências indicam, estaremos diante de uma situação inovadora, marcada por uma inversão do fluxo das influências arquitetônicas entre os dois países, que tradicionalmente tinha tido, durante três séculos, Portugal como origem. Pela primeira vez, apenas três décadas após sua independência, o Brasil conseguia exportar para sua ex-Metrópole um tipo de arquitetura nele desenvolvido, o que era um feito notável tendo em vista que o mais natural é que Portugal procurasse modelos nas arquiteturas européias mais avançadas, como as da França e da Itália – terras de onde provinham, inclusive, profissionais nele atuantes.

Esses fatos fazem com que o estudo do acervo formado pelos edifícios portugueses em questão interesse à historiografia arquitetônica brasileira. Por isso e porque tal estudo não havia sido feito ainda, nós, que já tínhamos pesquisamos a fundo o classicismo imperial brasileiro (estilo pelo qual temos grande admiração), vimo-nos no dever de realizá-lo, e o realizamos.

Foi para expor aos leitores os resultados desse estudo que este livro foi elaborado.
Como o acervo atrás referido não foi ainda batizado,(2) é preciso que adotemos um nome para identificá-lo, visto que estaremos constantemente referindo-nos a ele ao longo deste trabalho. Pareceu-nos apropriado designá-lo pela expressão classicismo à brasileira, formada pelo nome da linguagem maior que o caracteriza e um qualificativo que faz alusão à arquitetura que lhe deu origem. Com ela, o acervo fica identificado de forma suficientemente clara, porquanto não houve em Portugal nenhum outro segmento arquitetônico classicista inspirado no Brasil.

As edificações do classicismo à brasileira eram habitações, tanto unifamiliares quanto coletivas, e prédios públicos de diferentes funções, como teatros, escolas, edifícios da administração pública e estações ferroviárias – estas e os teatros aparecendo em maior número no levantamento que efetuamos. As habitações antecederam um pouco os prédios públicos.

Foi em Lisboa e arredores que as moradias no estilo em foco brotaram com mais intensidade – num nível tal que lá conseguiram deixar uma marca significativa na paisagem edificada de áreas que prosperaram na segunda metade do Oitocentos. Por isso, e por motivos logísticos, foi na Grande Lisboa (onde residimos em 2000-2001, época em que catalogamos o acervo objeto deste trabalho) que concentramos o nosso levantamento de imóveis residenciais, que identificou dezenas de unidades, donde retiramos aquelas que formam a grande maioria das habitações comentadas neste livro. Mas encontramos também exemplares interessantes de casas classicistas à brasileira em cidades menores que visitamos, como Santarém, Coimbra e Aveiro. E soubemos, por livros e pela Internet, da existência de outros exemplares em cidades nortenhas, como Fafe e Braga.

Já em relação aos prédios públicos, a concentração em Lisboa mostrou-se bem menor, de acordo com nosso levantamento, exemplares deles tendo sido detectados em muitas localidades, duas das quais situadas fora do Portugal continental (uma nos Açores e a outra numa ex-colônia portuguesa, a Angola).

Para encontrar a maior parte do acervo do classicismo à brasileira por nós catalogado, recorremos a dois procedimentos principais: a busca no terreno de exemplares dele e uma ampla pesquisa iconográfica.

Esta última foi feita em fontes variadas, como: guias arquitetônicos recentes e antigos (dentre os quais deve ser ressaltado o Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, editado em 1987 pela Associação dos Arquitectos Portugueses); revistas da segunda metade do Oitocentos (como Archivo Pittoresco); livros que reúnem fotografias antigas, a exemplo dos vários volumes da coleção Lisboa Desaparecida, de Marina Tavares Dias; e, mais recentemente, a Internet. A mais rica de tais fontes foi sem dúvida a notável coleção de alçados do Arquivo do Arco do Cego, da Câmara Municipal de Lisboa, na qual incluem-se os projetos de fachada submetidos à aprovação da administração lisboeta durante os anos de florescimento do classicismo à brasileira (nessa época já se exigia em Lisboa a submissão de projetos arquitetônicos ao poder municipal). Foi consultando mais de uma centena desses alçados, empreitada extenuante mas frutífera, que achamos uma grande parte do acervo por nós catalogado – operação que nos proporcionou a recompensa adicional de entender e visualizar a evolução da arquitetura da capital portuguesa no decorrer do período 1850-1880.

O outro procedimento apontado consistiu em percorrermos bairros lisboetas que tinham conhecido uma expressiva expansão imobiliária em tal período, a maioria dos quais situam-se na parte ocidental da cidade compreendida entre o eixo Av. da Liberdade–Rua do Ouro e a Av. de Ceuta. Essa exploração de campo foi essencial porque permitiu-nos não apenas identificar edifícios, mas também examiná-los in loco e fotografá-los.

Digamos agora algumas palavras sobre a estrutura que decidimos dar a este livro. O formato que pareceu-nos mais conveniente foi dividir o seu texto em quatro segmentos: esta introdução e três capítulos. O primeiro mostrará como surgiu o classicismo imperial brasileiro e como ele desenvolveu-se até o fim da década em que ecos seus começaram a aparecer em Portugal: os anos 1850; entre os edifícios que nele serão mencionados ou comentados estão aqueles que foram os modelos principais para o classicismo à brasileira. No segundo, este estilo será submetido a um estudo global, onde serão analisados os mais importantes tipos de edificação residencial e 17 exemplares da arquitetura pública por nós selecionados – e onde se apontarão os prováveis laços de descendência entre ele e a linguagem brasileira que lhe deu origem. O terceiro também terá o classicismo à brasileira por objeto, mas enfocará apenas a arquitetura residencial (que merece um tratamento especial, por corresponder a três quartos do acervo enfocado neste livro), fazendo um exame do exterior de 40 casas que escolhemos.

O que dava identidade à grande maioria dos exemplares do classicismo à brasileira era principalmente a combinação de dois traços que não eram característicos da arquitetura portuguesa (uso predominante, nas frontarias, de vãos encimados por verga semicircular e o emprego de platibandas cheias ou vazadas) (3) com algumas das características mais tradicionais desta, que tinham sido assimiladas pelo classicismo imperial brasileiro – como a decomposição das fachadas em retângulos delimitados por cunhais, pilastras, cimalhas e balcões, e o uso da bicromia, gerada geralmente pela utilização de dois materiais diferentes, para acentuar a distinção entre os elementos salientes e o plano básico das paredes externas.

A fenestração dominada por vãos com verga semicircular fora um traço bem típico da arquitetura palaciana da Florença renascentista. No início do Oitocentos, houve uma revalorização dessa arquitetura pelos franceses, no contexto dos revivalismos românticos, o que levou a que tal gênero de fenestração fosse reutilizado por eles.

Um arquiteto francês que emigrou para o Brasil após a derrocada napoleônica – Grandjean de Montigny, que estudara detalhadamente vários edifícios renascentistas florentinos e publicara um livro sobre eles (4) – introduziu essa característica no Rio de Janeiro em dois projetos seus elaborados na segunda metade dos anos 1810: a Praça do Comércio e a Academia de Belas Artes, concepções de inspiração neoclássica. E na metade final da década seguinte, um outro arquiteto francês, Pezerat, fez um uso particularmente enfático da característica na ala de três pavimentos que projetou para a residência real de São Cristóvão, também no Rio de Janeiro (que estava concluída em 1831), na qual utilizou exclusivamente vãos com verga semicircular nas quatro elevações da edificação – que já exibiam a linguagem do classicismo imperial brasileiro. Depois disso, a fenestração à florentina foi amplamente empregada neste, tornando-se um dos traços principais do estilo.

Como foram principalmente edifícios dotados de tal fenestração que serviram de modelo para o classicismo à brasileira, ela passou a caracterizar a maioria dos exemplares deste. Porém, em alguns destes que possuíam dois pisos, a fenestração da frontaria foi dividida – meio a meio – em vãos com verga semicircular, concentrados num pavimento, e vãos com outros formatos de verga, colocados no outro (o que também ocorreu no classicismo imperial brasileiro).

Note-se que a presença da verga em arco pleno na maioria ou metade dos vãos da frontaria não é uma exigência para que um edifício faça parte do classicismo à brasileira. Estão incluídos neste alguns prédios que não atendiam a essa condição, mas eram muito parecidos com exemplares do classicismo imperial brasileiro, inclusive um cuja elevação frontal só apresentava aberturas com verga reta (solução adotada em várias edificações nessa última linguagem).

As platibandas vazadas, com balaústres, já tinham sido empregadas em Portugal, principalmente depois do meado do Setecentos, em alguns edifícios barrocos ou rococós e em vários prédios afiliados ao neoclassicismo internacional, de gosto inglês, francês ou italiano. Mas como elas conflitavam com a tradicional preferência portuguesa pelos beirais aparentes, elas foram, em certas obras, adotadas apenas nas elevações frontais (os beirais sendo mantidos nas demais), parecendo, nelas, um mero acréscimo decorativo, que não contribuía para a definição da volumetria. Um notável edifício em que isso aconteceu é o Palácio dos Carrancas, no Porto, de fins do século XVIII.

Já as platibandas cheias foram raras em Portugal antes do surgimento do classicismo imperial brasileiro (seu uso só começou a se ampliar, na certa por influência deste, nos anos 1850). Os países importantes onde seu emprego tinha sido mais freqüente eram a França e a Inglaterra. E foi por influência deles que esse tipo de coroamento foi introduzido no Brasil, na segunda metade dos anos 1810 (portanto, quando o classicismo imperial brasileiro ainda não existia), em dois prédios: a já referida Praça do Comércio, do francês Grandjean de Montigny, encimada por uma platibanda alta, e a Associação Comercial, em Salvador, edifício que, embora traçado por um engenheiro português, tinha nítidas afinidades com o palladianismo inglês.

Em meados da década seguinte, Pezerat utilizou uma platibanda cheia baixa no prédio da Academia Militar do Rio de Janeiro, o primeiro exemplar do classicismo imperial brasileiro, e depois disso esse tipo de coroamento tornou-se uma das características definidoras dessa nova linguagem. Na verdade, um requisito para que um edifício seja considerado um exemplar desta é estar encimado por uma platibanda cheia ou vazada (especialmente uma com balaústres, no último caso).

Se as platibandas distinguiam o classicismo à brasileira dos estilos tradicionais da arquitetura civil portuguesa (nos quais desempenhavam um forte papel os telhados e seus beirais), elas (sobretudo as com balaústres) o aproximavam dos prédios neoclássicos erguidos no país. Mas outras características se encarregavam de garantir a distinção entre ele e tais edifícios.

Uma delas, talvez a mais importante, era a ausência, no classicismo à brasileira, do pavimento térreo rusticado (contrastando com os andares sem rusticação), um componente habitual da arquitetura neoclássica produzida em Portugal. Tal ausência era mais uma tradição da arquitetura civil portuguesa do período 1600-1750 que se fazia presente no classicismo à brasileira – o qual, contrariando uma tendência do neoclassicismo internacional, preferiu dar aos alçados do térreo e dos andares tratamentos semelhantes, como fizera o estilo chão.

Outra diferença era o fato de o classicismo à brasileira não usar nas fachadas colunas colossais, elementos que tinham presença quase obrigatória nas frontarias dos prédios neoclássicos. Assim, quando estas não exibiam rusticação no térreo (Palácio Real da Ajuda), suas colunas colossais bastavam para distingui-las das elevações do classicismo à brasileira.

Os vãos com verga semicircular destas elevações constituíram outro traço diferenciador dos dois estilos, pois só em casos excepcionais, como o Teatro de D. Maria II, é que vãos desse tipo tiveram uma participação importante nas frontarias neoclássicas portuguesas (esse teatro é, contudo, inconfundivelmente neoclássico, em razão do seu térreo rusticado e das oito colunas colossais do seu pórtico). Portanto, edifícios civis portugueses do Oitocentos com platibanda e com vãos de verga em arco pleno exercendo um papel destacado na fenestração são, na sua maioria, exemplares do classicismo à brasileira.

Essas três características garantiram a distinção entre este e o neoclassicismo português, apesar das platibandas e de outro traço que era comum aos dois estilos (embora tenha tido uso moderado no primeiro): o coroamento da fachada com um frontão triangular.

Duas outras características do classicismo à brasileira que não podem ser esquecidas provieram de tradições portuguesas que tinham sido assimiladas pelo classicismo imperial brasileiro.

Uma, proveniente do estilo chão, era o fato de as fachadas serem rasas. Em regra geral, elas apresentavam um plano básico amplamente dominante (o paramento da parede externa), de onde se projetavam minimamente pilastras, cimalhas, cercaduras e outras molduras, que não chegavam a configurar um outro plano; quando saliências mais pronunciadas existiam, geralmente se limitavam a balcões, que mesmo gerando, em pequenos trechos, um plano visivelmente avançado em relação ao básico, não conseguiam, com isso, alterar significativamente a forte preponderância deste. Essa característica esteve pressente em edificações civis luso-brasileiras das últimas décadas do Setecentos e das primeiras do Oitocentos e foi absorvida pelo classicismo imperial brasileiro, quando este se formou.

A outra característica foi o uso do azulejo para revestir as fachadas. Ela constituiu um desdobramento da tradição portuguesa de cobrir paredes internas com tal material e teve sua origem em igrejas do Brasil setecentista. O classicismo imperial brasileiro redescobriu-a e incorporou-a aos seus recursos estéticos depois de 1850, enriquecendo-se com isso em termos de funcionalidade, beleza e originalidade. Em Portugal, ela encontrou largo emprego, tendo sido utilizada não apenas no classicismo à brasileira, mas também noutras linguagens da segunda metade do século XIX.

Concluiremos a caracterização estilística do classicismo à brasileira acrescentando que de um modo geral a geometria manifestava-se com força nas suas elevações. Eram responsáveis por isto as linhas simplificadas e geométricas de saliências marcantes, como cercaduras, pilastras e cimalhas, e a presença, nas fachadas, de uma trama ortogonal saliente decompondo-as em painéis retangulares.

Feitas estas considerações necessárias, é hora de dirigir o nosso foco para o classicismo imperial brasileiro, a fim de explicar sua origem e apontar momentos marcantes de sua evolução até o desabrochar de sua variante portuguesa, passo indispensável para a construção do nosso discurso a respeito desta.

NOTAS
(1) Para conhecer essa arquitetura ver as seguintes obras minhas: Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame, São Paulo, Pini, 1994; O classicismo arquitetônico no Recife imperial, João Pessoa-Salvador, Editora Universitária/UFPB-Fundação João Fernandes da Cunha, 2000; O ensino da arquitetura no Brasil imperial, João Pessoa, Editora Uni-versitária/UFPB, 2001; “Origens da arquitetura classicista do Império”, in Ivan Mizoguchi & Nara Machado (orgs.), Palladio e o Neoclassicis-mo, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2006, p. 151-170.

(2) Em regra geral, as análises portuguesas não têm individualizado esse acervo: elas simplesmente têm visto os componentes dele como exemplares tardios da arquitetura neoclássica. Só temos conhecimento de uma única exceção a esta regra: a tese de doutoramento da Profª. Raquel Henriques da Silva, Lisboa Romântica - Urbanismo e Arquitectura, 1777-1874, defendida em 1977 na Universidade Nova de Lisboa (FCSH). Nesta está escrito (p. 493): “Lisboa da Regeneração [a Regeneração foi um período histórico de Portugal iniciado em 1851], pelo menos até 1874, elegeu na arquitectura doméstica como gosto dominante uma espécie de ‘revivalismo classicista’, que não é correto chamar neoclassicismo tardio”. Todavia, nela não está dito que esse classicismo diferente foi adotado também em prédios públicos e não apenas em Lisboa – sendo, portanto, um estilo de difusão bem maior que a sugerida pela tese.

(3) No classicismo à brasileira, as platibandas vazadas assumiram variadas feições, mas as mais comuns foram aquelas recortadas por panos retangulares preenchidos com balaústres pouco espaçados – que tinham sido muito utilizadas na arquitetura neoclássica.

(4) L’Architecture toscane, publicado em 1815.

“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”

parte do Cap. 3, intitulado “O classicismo à brasileira: uma visão global”

De acordo com os achados da pesquisa que efetuamos, o primeiro edifício do classicismo à brasileira foi construído em Lisboa, em 1857-58, para abrigar lojas no térreo e moradias nos andares.

Sua linguagem equilibrada e agradável era uma bem-vinda forma de expressão que se incorporava ao heterogêneo e con- fuso panorama estilístico da arquitetura residencial, sem brilho, que Lisboa tinha produzido na década.

Deram-nos uma boa visão da heterogeneidade estética de tal arquitetura os numerosos projetos de fachada submetidos à apreciação da Câmara Municipal de Lisboa, que esta cuidado-samente guarda no Arquivo do Arco do Cego.

Apesar de sua diversidade, foi-nos possível repartir a maior parte desses projetos em três grandes categorias.

A primeira reúne as fachadas cujo esquema compositivo se afiliava à estética do estilo chão. Elas podem ser exemplifica-das pelo alçado, de 1851, mostrado na Fig. 12. As característi-cas principais delas eram: (a) os beirais dos telhados ficavam aparentes, (b) havia cunhais, mas não pilastras intermediárias, (c) os cunhais terminavam, no alto, numa espécie de estranho capitel que em vez de apoiar a cornija, fazia parte dela, (d) os pavimentos ficavam separados por uma estreita cimalha lisa, e (f) as aberturas tinham verga reta e/ou em arco abatido.




12. Projeto para a casa nº 122, à Rua Direita da Junqueira (Alçado nº 263 do Arquivo do Arco do Cego)

A segunda categoria é formada por frontarias que seguiam esquemas pombalinos. Altas, elas compunham-se de três ou mais pavimentos, alguns dos quais ficavam separados por uma estreita cimalha lisa (existente geralmente entre o térreo e o primeiro andar, e entre o segundo e o terceiro andares). Elas exi-biam também os traços apontados nos itens (a), (b) e (c) do parágrafo anterior. Ademais, em geral elas apresentavam nos andares aberturas encimadas por verga reta, enquanto no tér-reo estas apareciam freqüentemente misturadas com vãos de verga em arco abatido. Um formato peculiar de cercadura foi muito empregado nelas: aquele no qual os membros verticais ultrapassam um pouco o horizontal inferior.1 Esta categoria fica bem representada pelo alçado exibido na Fig. 13, traçado em 1851 pelo arquiteto Malaquias F. Leal – funcionário da Câmara Municipal de Lisboa que durante anos emitiu pareceres sobre os projetos arquitetônicos a ela submetidos.2


13. Projeto para prédio à Rua de São Francisco
(Alçado nº 238 do Arquivo do Arco do Cego)

Relativamente homogêneas, essas duas categorias são um testemunho da persistência de tradições.

Heterogênea e complexa, a terceira categoria tem um es-pírito bem diferente. O que lhe dá identidade é o fato de seus projetos tentarem criar novas expressões estilísticas através da combinação de elementos compositivos pertencentes a lingua-gens distintas.

Quase sempre tais elementos eram (a) aqueles característi-cos das duas precedentes categorias de edifícios, (b) traços classicistas, como o frontão triangular e a platibanda, e (c) aber-turas de formato ogival. Da mistura deles resultaram fachadas com aparências muito variadas.

Algumas tinham estruturação básica à maneira pombalina, mas apresentavam-se vazadas por vãos ogivais e/ou estavam coroadas por uma platibanda. O alçado que se vê na Fig. 13 foi rejeitado porque se deu preferência a uma versão modificada dele na qual as janelas tinham forma ogival.

Outras eram composições organizadas, no geral, à maneira da arquitetura chã, mas que estavam encimadas por um fron-tão triangular (colocado geralmente no alto de um último andar, mais estreito e centralizado) e/ou por uma platibanda – mais ou menos como se vê no projeto, de 1861, exibido na Fig. 30 – e/ou tinham aberturas em arco ogival.3


14. Projeto para a casa nº 83-85, à Calçada da Estrela
(Alçado nº 748 do Arquivo do Arco do Cego)


Por vezes, no lugar deste usavam-se nas vergas dos vãos outros tipos de arco herdados dos tempos medievais – como o trilobado.

Note-se que ainda nos anos 1860 – ou seja, em pleno flo-rescimento do classicismo à brasileira – projetos de elevações enquadradas nas três categorias apontadas foram submetidos à Câmara Municipal de Lisboa. Um deles (de 1860), com jane-las ogivais, aparece na Fig. 14.

Além das fachadas incluídas nessas três categorias, algumas frontarias de fisionomia peculiar foram erguidas em Lisboa e seus arredores na década de 1850.

Na arquitetura de uso público, o estilo dominante nessa dé-cada era o neoclássico, que em Lisboa chegara ao apogeu nos anos 1840, com a construção do Teatro de D. Maria II. Afiliava-se a ele o principal edifício público então em execução na capital portuguesa: a Escola Politécnica. O mesmo acontecia na cidade do Porto com o prédio correspondente: o Palácio da Bolsa. Convém assinalar que a linguagem manter-se-ia em uso no decênio seguinte e mesmo posteriormente, competindo com o classicismo à brasileira.

Foi na certa a insatisfação com esse contexto arquitetônico que levou Francisco José Gonçalves de Oliveira a decidir que a arquitetura exterior do prédio que ele pretendia construir à Rua da Patriarcal Queimada (que é o hoje o imóvel nº 53-71 da Rua da Escola Politécnica) tivesse por modelo um novo estilo que florescia no Brasil: o classicismo imperial. Dessa decisão nasceu o edifício que marcaria o início do classicista à brasileira. Ele tornar-se-ia conhecido como a Casa das 11 Portas.

Seu projeto (Figs. 15 e 16) foi submetido à Câmara de Lisboa em 1857 e sua construção foi concluída no ano seguinte.

Sua elevação frontal (Fig. 17) exibia algumas das principais características do classicismo imperial brasileiro, como a plati-banda cheia, a fenestração uniforme com vãos de verga semi-circular e a presença de pilastras e cimalhas dividindo a facha- da em vários painéis.


15. Projeto de elevação frontal para a Casa das 11 Portas
(Alçado nº 563 do Arquivo do Arco do Cego)


16. Projeto de elevação lateral para a Casa das 11 Portas
(Alçado nº 563 do Arquivo do Arco do Cego)

Uma notícia de jornal considerou-a “exótica”, na época da inauguração do prédio,4 julgamento que permite deduzir que o seu estilo era então inédito em Lisboa – conclusão idêntica à emanada de nossa pesquisa.

Para nós, o exterior do edifício foi modelado a partir de dois exemplares do classicismo imperial recifense (lembremos que nos anos 1850 o Recife era habitado e visitado por muitos por-tugueses e mantinha estreitos contactos com Portugal).

Um era o bonito e admirado Teatro Santa Isabel, concluído em 1850 – então sem rivais na nova arquitetura brasileira.

Sua elevação posterior (Fig. 18) foi a que inspirou a frontal da Casa das 11 Portas, no que concerne à fenestração, à de-composição em painéis (que nos dois edifícios contêm um ou três vãos) e ao coroamento (platibanda cheia sem frontão triangular). Note-se que a última elevação não foi construída exata-mente como determinava o seu projeto (Fig. 15): revestiu-se integralmente o térreo com cantaria e suprimiram-se as moldu-ras das enxutas, as situadas entre as ombreiras das cercadu-ras e algumas previstas na platibanda.

Já o alçado lateral do corpo principal do teatro (Fig. 20) serviu de modelo para o projeto da elevação lateral do prédio lis-boeta: neles repetem-se o tipo de fenestração, as cimalhas (entre pavimentos e na altura dos peitoris) e as molduras horizontais ligando as bases das vergas arqueadas dos vãos. Observe-se que na fachada que foi construída (Fig. 19) não foram executadas as cimalhas entre os pavimentos projetadas no traçado aprovado pela Câmara.

O outro modelo deve ter sido o Palácio da Soledade (Fig. 21), que já havia servido de inspiração para o Teatro Santa Isabel. Além de ser outra origem de algumas das lições por este propiciadas, ele sugeriu o uso, na elevação frontal, de moldura nas ombreiras dos vãos, de janelas de sacada nos andares e de um balcão corrido num desses – e na certa o emprego de molduras nas enxutas. Ademais, ele deu uma mostra da aplicação de suas fórmulas compositivas num prédio de três pisos.


Currículo do autor

Nascido em João Pessoa, Brasil (1951), Alberto José de Sousa é arquiteto graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (Recife, 1973). Fez mestrado (M Phil) na Universidade de Edimburgo (1979), doutorado na Universidade de Paris I (1990) e pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa (2001). Escreveu os livros Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame (1994), O classicismo arquitetônico no Recife imperial (2000), O ensino da arquitetura no Brasil imperial (2001), Do mocambo à favela: Recife, 1920-1990 (2003) e A invenção do barroco brasileiro: a igreja franciscana de Cairu (2005). É co-autor do livro Guia do Recife: arquitetura e paisagismo (2004). É professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba (Brasil) desde 1983.

A aquisição do livro poderá ser feita na livraria da respectiva editora, a Casa do Livro (tel. 55-83-32167327 e e-mail livrariacasadolivro@gmail.com
Para se adquirir o livro em Portugal uma maneira prática será pela Internet, no site da Livraria Cultura (http://www.livcultura.com.br/).

Notas finais:

- Os elementos de conteúdo do livro foram enviados ao Infohabitar pelo respectivo autor, Alberto José de Sousa.

- A preparação da edição no Infohabitar foi realizada por ABCoelho em 5 de Abril de 2008.

- A edição no Infohabitar foi realizada por José Baptista Coelho em 6 de Abril de 2008.

domingo, março 30, 2008

190 - IDENTIDADE ESCOCESA - artigo de João Ferreira Bento - Infohabitar 190

 - Infohabitar 190

É sempre com um gosto muito especial que o Infohabitar edita um novo amigo e companheiro nesta pequena, mas estimulante, aventura editorial.
É o caso do Arq. João Ferreira Bento, que tem colaborado em vários estudos do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, como é actualmente o caso de um grande trabalho no âmbito da análise das condições de habitabilidade do edificado do Bairro do Alto da Cova da Moura e que será, espera-se, muito brevemente, doutorando em áreas que muito têm a ver quer com o artigo que hoje nos traz, sobre as políticas de arquitectura europeias, quer com os aspectos fundamentais da qualificação arquitectónica residencial e urbana.

O João Ferreira Bento tem editado vários artigos sobre as políticas de arquitectura europeias no Boletim da Ordem dos Arquitectos; é o caso deste (atenção há novidades na política de arquitectura escocesa desde final de 2007 que não estão incluídas neste artigo), e será, espera-se, o caso de outros artigos que já nos prometeu sobre semelhante temas, mas sobre casos de estudo na Finlândia, Itália e Bélgica.
E já agora fica a indicação ampla para muitos sites que tratam esta matéria, hoje cada vez mais crucial num amplo cenário urbano e paisagístico que tem de passar a ser marcado por uma “obrigatória” qualidade, ou, que, pelo menos, tem de passar a estar garantidamente livre daqueles elementos que são autênticos intrusos sem qualquer qualidade ou mesmo elementos destruidores de uma boa paisagem urbana.

A edição do Infohabitar não tem qualquer dúvida sobre a urgente importância e a falta de divulgação desta temática em Portugal, condição que justifica bem a publicação destes artigos e a sua maior divulgação.

A edição do Infohabitar


Fig. 01

ESCÓCIA
Área: 78,782 Km2
População: 5,062,379 (9,6 % do Reino Unido)
Densidade: 64 ha/Km2
Capital: Edimburgo

Políticas de Arquitectura na União Europeia:

IDENTIDADE ESCOCESA

João Ferreira Bento


No panorama europeu, a Escócia tem-se salientado como um dos países mais inovadores no campo das políticas de arquitectura, não só através das intenções expressas na sua política nacional mas também através das conquistas que tem conseguido alcançar.

- Passado
Enquadramento
A Escócia nos últimos anos tem vivido mudanças governamentais muito importantes, devido principalmente à devolução de poderes parlamentares, por parte do Reino Unido para a Escócia.

Devido a problemas financeiros, o seu parlamento original foi dissolvido com o Tratado de União, em 1707, em detrimento de um único parlamento para a Grã-Bretanha, resultando numa união política e económica entre os dois países.

No entanto, após quase trezentos anos, o Reino Unido devolveu à Escócia os poderes legislativos que antigamente possuía, aproximando o debate político dos cidadãos escoceses, criando-se assim um governo regional e um parlamento.

Este processo iniciou-se após um referendo (em Setembro de 1997) no qual os escoceses, numa percentagem de três para um, votaram sim à criação de um parlamento regional separado do Reino Unido. Deste modo, em 1999, a Escócia volta a criar um governo e a eleger deputados.

Para a elaboração do projecto do parlamento foi lançado um concurso de ideias internacional e, paralelamente, iniciou-se o processo de elaboração da primeira política nacional de arquitectura escocesa.

Desenvolvimento de uma Política Nacional de Arquitectura


O início do processo de criação desta política deu-se com o compromisso do governo escocês em desenvolver uma Política Nacional de Arquitectura. Deste modo, em Setembro de 1999, após 4 meses do novo governo ter tomado posse, foi publicado o primeiro esquema da política, “The Development of a Policy on Architecture for Scotland”.

Este primeiro esquema estabelecia o contexto do desenvolvimento da política e salientava o porquê do interesse do governo na qualidade dos edifícios e espaços públicos, definindo também a importância dos edifícios em termos sociais, culturais e económicos. O documento foi submetido a consulta pública realizando-se discussões sobre áreas de intervenção “chave”.

Em Outubro de 2001, foi finalmente aprovado no parlamento Escocês o documento final da Política Nacional de Arquitectura.
Objectivos

Os objectivos da Política são os seguintes:

-Promover o valor e os benefícios da arquitectura de qualidade, encorajando o debate sobre o desenrolar da arquitectura na vida local e nacional, e levar a um maior entendimento dos produtos e processos no design dos edifícios.

-Premiar e reconhecer a excelência do design, celebrando conquistas no campo da arquitectura e do espaço urbano e promovendo a arquitectura escocesa ao nível nacional e internacional.

-Encorajar um maior interesse e envolvimento das comunidades em assuntos que afectem espaços urbanos locais.

-Promover uma cultura de qualidade na construção de edifícios públicos que englobem bom design como uma maneira de atingir um desenvolvimento sustentável.

-Assegurar que, tanto o projecto dos edifícios como os seus componentes construtivos e os processos associados, ambos promovam e facilitem o desenvolvimento uma arquitectura de qualidade.


Fig. 02: Parlamento Escocês, projecto de Enric Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.

-Presente

Parlamento

Uma conquista importante para a política de arquitectura, foi a construção do novo parlamento, o qual, devido à sua função de lugar de debate, concertação e decisão, deveria ser um edifício que reflectisse o país que representa.

Deste modo, o desenho do edifício foi entendido como elemento fundamental a ter em conta, quer a nível nacional, quer ao nível internacional. O vencedor do concurso de ideias acabaria por ser o arquitecto espanhol Enric Miralles.

Este complexo edifício é uma mistura de aço, madeira e pedra, localizando-se em Edimburgo, perto de Holyrood Park. Recentemente, foi considerado como um dos edifícios mais inovadores da actualidade, existentes no Reino Unido.

Embora tenha havido vários problemas na sua construção, sobretudo devido ao adiamento sucessivo do prazo de execução da obra e ao grande aumento do orçamento previsto inicialmente para a sua construção, abriu as suas portas ao público em Outubro de 2004, tendo já recebido mais de 300.000 visitantes.


Fig. 03: Parlamento Escocês, projecto de Enric Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.

The Lighthouse
Outra grande conquista da política de arquitectura escocesa foi a criação do Instituto de Arquitectura e Design, “The Lighthouse”, em Glasgow. O instituto situa-se num edifício de autoria do famoso arquitecto escocês Charles Mackintosh e abriu pela primeira vez ao público, em 1999.

O instituto provou ser um grande sucesso e uma aposta ganha para a divulgação da arquitectura, como forma de arte e cultura, sendo considerado o Instituto de Arquitectura mais visitado da Europa, tendo recebido mais de um milhão de visitantes, nos últimos 5 anos.

O desenvolvimento cultural que o Instituto de Arquitectura e Design provocou tem tido um papel regenerador na afirmação da identidade Escocesa.

Centro virtual de arquitectura escocesa

Desenvolvido pelo Instituto de Arquitectura e Design, o centro virtual de arquitectura é um site dedicado a mostrar a melhor arquitectura Escocesa, através de exposições virtuais, artigos, elementos interactivos, etc.

É também capa e meio de lançamento de notícias importantes, sendo actualizado quase diariamente, permitindo aceder a um fórum de discussão e de opinião, debatendo-se assuntos polémicos do mundo da arquitectura.

Desde o seu lançamento, em 2002, tornou-se num recurso nacional de acesso a informação e de comunicação dentro do campo da arquitectura e do urbanismo.

-Futuro
No início de 2005, o governo escocês colocou na Internet um relatório sobre o progresso da implementação da política nacional de arquitectura, desde o seu início até à actualidade. São apontados os esforços e metas alcançadas de modo a conseguir atingir os objectivos propostos.

Os resultados apresentados são surpreendentes. A definição de uma política de arquitectura complementada pela criação de um Instituto de Arquitectura é fundamental para dar uma maior visibilidade à nossa profissão de arquitectos e à valorização da arquitectura e do urbanismo, dos edifícios e dos espaços públicos das nossas cidades.

Quanto tempo, ainda, teremos que esperar para podermos dispor destas ferramentas em Portugal?


Para saber mais ver os sites:

- Desenvolvimento de uma Política de Arquitectura Escocesa (1999)
http://www.scotland.gov.uk/architecture/archpolicy.pdf

- Política Nacional de Arquitectura Escocesa (2001)
http://www.scotland.gov.uk/library3/construction/apoa.pdf

- Relatório sobre a implementação da Política de Arquitectura (2005)
http://www.scotland.gov.uk/library5/culture/pasar05.pdf

- Centro virtual de Arquitectura Escocesa
http://www.scottisharchitecture.com/

- Instituto de Arquitectura e Design Escocesa
http://www.thelighthouse.co.uk/

- Ordem dos Arquitectos da Escócia
http://www.rias.org.uk/

- Parlamento Escocês
http://www.scottish.parliament.uk/

- Ordem dos Arquitectos do Reino Unido
http://www.riba.org/

- Charles Rennie Mackintosh
http://www.crmsociety.com/

- Arquitectura de Edinburgo
http://www.edinburgharchitecture.co.uk/

Este artigo sobre a Política Nacional de Arquitectura da Escócia, publicado no Boletim da Ordem dos Arquitectos, n.º 150 de Julho de 2005.
Informam-se os interessados que, desde final de 2007, já há novidades na Escócia sobre esta matéria.


Edição no Infohabitar em 30 de Março de 2008
Editor: José Baptista Coelho


Créditos das figuras:
Parlamento Escocês, projecto de António Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.