domingo, junho 22, 2008

202 - OS JARDINS E O HABITAR (II) – artigo de António Baptista Coelho e textos da da London Tree Officers Association - Infohabitar 202

 - Infohabitar 202
Este constitui o segundo de uma série de artigos sobre jardins urbanos, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.

Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.


Salienta-se, ainda, o grande interesse do documento da London Tree Officers Association, que se traduziu e comentou, sintética e informalmente neste artigo, e, desde já, se chama a atenção dos leitores para a consulta do excelente site desta organização, onde será possível ler o documento na sua versão original, assim como consultar outros documentos com muito interesse e oportunidade nestas temáticas.






Fig.01



OS JARDINS E O HABITAR (II)

– sobre as árvores protagonistas do jardim e da cidade; inclui uma tradução comentada de um documento da London Tree Officers Association, ltoa.org.uk


António Baptista Coelho



Este segundo artigo sobre os jardins urbanos tinha, “obrigatoriamente”, de ser desenvolvido em torno do tema da árvore, da árvore urbana, protagonista, quer no seu papel urbano específico, em que ombreia, praticamente, em sentido específico, com o edificado, em termos de escala e de imagem urbana, quer no seu múltiplo papel ambiental, paisagístico e económico. Mas esta especificação da matéria dos jardins urbanos não significa que, em futuros artigos desta série, este mesmo autor, ou outros autores, aqui no Infohabitar, não volte ao fundamental tema do enquadramento da importância e do papel do jardim urbano de hoje, na cidade de hoje.


Já no primeiro artigo desta série se citou Franco Purini, num texto (Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151) em que este autor refere que "uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo".





Fig. 02


Ora, imagine-se que em vez de “casa” se escreve “cidade”, e então teríamos, uma ideia como esta: uma cidade não é uma verdadeira cidade sem jardins, verdadeiros ou imaginários, que a rodeiam e a penetrem, sempre a cidade habitada também como terra, porque “na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira”, porque “os mesmos elementos formam o pó e a pedra”, e, assim o jardim urbano poderá ser paisagem de qualquer cidade, uma paisagem mais interior, “no miolo cerrado dos tecidos urbanos”, como disse Purini, e/ou “paisagem verdadeira na vastidão do campo", como também ele referiu.


E visualizemos onde toda esta força do jardim urbano tem o seu principal núcleo, o seu principal protagonista, e ninguém terá qualquer dúvida que a resposta é a árvore (urbana), a “floresta” que se tornou urbana, e uma força serena que se sente mesmo, por ausência premeditada, naquelas zonas de jardins sem árvores e naqueles espaços urbanos, quase sem árvores, onde a natureza se resume em pequenas floreiras em janelas e em algumas laranjeiras, que como pequenos oásis, sempre inesperados e sempre bem-vindos.


A árvore é, não só, um verdadeiro jardim vertical e concentrado, o que corresponde a um elemento estratégico no ordenamento das cidades sempre “sem espaço” para aquilo que, realmente, é preciso, um verdadeiro jardim vertical sempre sede de biodiversidade e de amenização ambiental, mas a árvore é sempre, também, um efectivo elemento formal de “desenho” da paisagem urbana, veículo de escala humana e de suavização e de agradável contraponto com a escala e a expressão do edificado.


Mas para se jogar em duas dimensões citadinas tão importantes, como são a ambiental/microclimática e do “bom desenho” da paisagem urbana, é preciso saber-se trabalhar, realmente, com tais dimensões, não são, realmente, “coisas”, para curiosos, e entende-se isto quando vivemos, por exemplo, boas ruas arborizadas e cidades marcadas, humanizadas e ambientalmente suavizadas por excelentes parque urbanos intensa e agradavelmente arborizados, como acontece no excelente exemplo das Caldas da Rainha.






Fig. 03


E não é demais interiorizar a importância que têm e terão essas duas dimensões no actual e futuro movimento das megacidades, movimento este ao qual se terá, urgentemente, de associar um importante movimento de recriação dos ambientes naturais, de forma intensificada e concentrada, pontuando essas mega-malhas urbanas e proporcionando que nelas continuemos a ter um vital contacto com a nossa origem natural.


Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.


Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.






Fig. 04


E em Lisboa, por exemplo, entre outros, infelizmente, poucos casos a referir positivamente, temos o excepcional exemplo dos Jardins da Gulbenkian, na sua perspectiva de oferta de pequenas viagens por bosques variados e densos, para nos dar a saborear o interesse que hoje tem, e que sempre teve, o contacto íntimo com a natureza bem dentro da cidade densa; e neste efeito de “bosque” cerrado e misterioso é, naturalmente, fundamental o papel das árvores e arbustos.


De certa forma é muito importante que as cidades de hoje ofereçam uma espécie de pequenos oásis de reconciliação ambiental, paisagística e formal com a natureza e, designadamente, com a floresta primordial, e nesta oferta os jardins urbanos, caracterizados por expressivas árvores “urbanas” são fundamentais elementos protagonistas.


Faz-se, em seguida, uma ampla citação e uma tradução informal e muito pouco comentada (cada tema é seguido de um breve comentário) sobre a multifacetada e fundamental importância das árvores, em textos retirados de um excelente folheto de divulgação disponibilizado pela London Tree Officers Association, ltoa.org.uk , cujo site vivamente se recomenda e onde é possível fazer o download de outros elementos com grande interesse como é o caso de um utilíssimo método de avaliação das árvores (Capital Asset Value for Amenity Trees, CAVAT), que integra os seguintes tipos de factores: valor básico (unitário e relativo ao tamanho); valor de localização e de usufruto (localização, população utente e acessibilidade); valor funcional; valor ajustado (factores ambientais positivos e negativos); e valor total associado a esperança de vida.

Desde já se sublinha que este Capital Asset Value for Amenity Trees é, realmente, um instrumento de trabalho de enorme valor pois equaciona numa perspectiva integrada de valor económico, social e cultural a presença das árvores, que, tantas vezes, são ainda tratadas, entre nós, como se fossem elementos que surgem instantaneamente num dado local, e como elementos que se tiram e põem com a simplicidade e a eventual leviandade que poderá caracterizar a instalação e a remoção de um painel publicitário ou de um terminal de Multibanco, e, realmente, para além de se tratar de algo vivo e único, é algo com história/tempo, que nunca se poderá, verdadeiramente, reconstituir e que para compensar exigirá, quase sempre, um muito complexo e pesado investimento.




Fig. 05


Quase-citando, assim, o excelente folheto da London Tree Officers Association as árvores têm os seguintes três grandes grupos de vantagens: relativas à saúde e ao de bem-estar; sociais e ambientais; e económicas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos de saúde e de bem-estar:


“As árvores reduzem risco de cancro na pele através do sombreamento em relação à radiação ultravioleta”; e hoje em dia esta problemática está bem na ordem do dia e se queremos estimular a circulação pedonal devemos proteger os peões.


“Os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores, porque estas proporcionam descontracção psicológica e um sentido de bem-estar, suavizando o ambiente urbano”; este é um sentimento que sentimos, frequentemente, nos locais urbanos agradavelmente arborizados e que temos, por vezes, dificuldade em descrever e atenção para o grande interesse deste efeito, por exemplo, em zonas residenciais e onde se pretenda o desenvolvimento do lazer urbano.


“As árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; ora é conhecida, por um lado, a importância que tem o sossego acústico na satisfação com o uso do espaço urbano e habitacional, assim como é também conhecida a má influência das poeiras no nosso bem-estar e saúde.


“À medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”; temos aqui, fortemente, a matéria de que se faz boa parte dos bons projectos de arquitectura urbana e residencial, portanto, fica evidenciada a importância das árvores numa concepção arquitectónica com um amplo e verdadeiro sentido exigencial.


Vantagens das árvores em termos de influência no clima (“mudança climática) e microclima (clima local):


“As árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores, incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; sendo assim, a conclusão que se impõe é que a plantação de novas árvores e o cuidar bem das que existem, globalmente, mas também especialmente nas grandes zonas urbanas, deveria ser uma das principais medidas na batalha pela melhoria ambiental do nosso planeta, até porque se a nossa sociedade é cada vez mais urbana há que reforçar urgentemente um equilíbrio global com mais elementos naturais, como são as árvores, e matizando, muito mais, as próprias zonas urbanas com verde urbano, no qual as árvores têm um papel protagonista.


“As árvores trabalham todo o ano e continuamente para nós, suavizando, localmente, picos extremos de temperaturas – refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; trata-se, então, de um sinal de inteligência e de estratégia o utilizarmos, intensamente, um meio com tão grande capacidade de eficácia ambiental.


“Árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”; trata-se, novamente, de uma vantagem com evidentes e múltiplas consequências positivas em grandes meios urbanos, associando o referido papel de moderação ambiental com um directo papel em termos de melhoria da infraestruturação.




Vantagens das árvores em termos aspectos sociais e ambientais:


“Pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; as palavras falam por si, e todos sabemos que falam verdade, só que por vezes até parece que a história pouco vale nas nossas paisagens citadinas e rurais.


“As árvores proporcionam, nas suas zonas de integração, um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; sempre assim foi, a floresta sempre foi geradora de variados meios e sempre o homem se fixou nas suas margens, gozando-a como riqueza intrínseca e como riqueza de paisagem.


“As árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração”; e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas, que por vezes tão longe estão dos ciclos naturais, e o próprio passar do tempo é também fundamental como percepção individual e social, e além de tudo isto há o espectáculo sensorial das estações e do tempo ameno ou das intempéries que tão directamente é sentido na companhia das árvores.


“As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia – pequenas e grandes – ao longo de todo o ano”; cada árvore, para além de ser uma pequena “fábrica” química positiva, produtora de oxigénio, como acima se lembrou, é também um pequeno mundo que alberga um amplo leque de elementos da flora e da fauna, as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos económicos:


“A presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%”; são números que fazem pensar, e talvez que nestes números esteja, espera-se, o princípio do fim de tantos crimes contra tantas velhas e excelentes árvores, e vale a pena pensarmos que estes números apenas concretizam aspectos de verdadeira valia paisagística local.


“Quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; sem comentários, mas é provavelmente uma das medidas ambientais mais fácil de implementar, desde que o seja com eficácia técnica ampla, pois também há sempre o risco de só se ver uma parte da verdade e começarmos a plantar árvores sem as enquadrar num adequado equilíbrio ambiental e paisagístico, que está ligado a cada região, a cada local e a cada microclima.


“As árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; trata-se de uma constatação evidente, mas podemos juntar que na jardinagem, por exemplo, é possível conciliar meios humanos muito qualificados com outros menos qualificados o que é também um excelente recurso social em termos de emprego e de ocupação.


“As árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”; é também uma afirmação que não precisa de comentários, mas tal como vãos as coisas, até parece muito racional que nenhuma via de racionalidade energética e de poupança de recursos deva ser esquecida, e esta é uma via que tem também uma importante visibilidade local em termos didácticos e de boas-práticas.





Fig. 06


Para concluir regista-se que não é, com certeza, por acaso, que algumas das maiores cidades do mundo, como Tóquio e Nova Iorque, se têm privilegiado a plantação e o cuidado no tratamento das grandes árvores urbanas, com um enfoque especial nas Ginkgo biloba, consideradas das mais velhas árvores que existem, daquelas que podem atingir maior longevidade e parece que daquelas que melhor se adaptam ao meio urbano poluído e melhor podem contribuir para a sua melhoria ambiental. Não é, com certeza, caso único, e nesta matéria é naturalmente fundamental estarmos com as “nossas” árvores, aquelas mais adaptadas aos nossos climas e microclimas e aquelas que, tradicionalmente, têm contribuído para a caracterização das nossas cidades, vilas e aldeias, mas é, sem dúvida, muito importante e urgente o desenvolvimento, aprofundamento e/ou divulgação de estudos desse género sobre as nossas árvores urbanas, assim como terminar, de vez, com o desrespeito para com a árvore, que ainda caracteriza muitas situações correntes na nossa sociedade.


E já há, felizmente, alguns bons sinais nestas matérias, aqui bem ilustrados com o muito recente transplante de algumas grandes árvores, na sequência das obras, em desenvolvimento, para a construção da nova estação de Metro da Encarnação, em Lisboa, de que se juntam, em seguida, duas imagens.






Fig. 07






Fig. 08


Editado por José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
22 de Junho de 2008

domingo, junho 15, 2008

201 - ESPÍRITO DO LUGAR – O DIREITO DE ESTAR, artigo de António Pedro Dores - Infohabitar 201

 - Infohabitar 201
Hoje é mais um daqueles dias muito especiais em que temos uma satisfação acrescida, seja com o acolhimento de mais um redactor nesta nossa pequena aventura do Infohabitar, pequena, mas que está já no limiar das 100.000 consultas de artigos, seja por se tratar de um investigador com créditos firmados e que nos traz aqui uma aproximação, por parte das áreas da Sociologia, aos temas ligados ao “espírito do lugar”, temas estes, como se sabe, muito ligados às matérias da Arquitectura do Habitar, e, por isso, já várias vezes seguidos nesta nossa revista on line.

O nosso novo companheiro editorial é o doutor António Pedro Dores, que abordou estas temáticas numa Conferência, participada pelo Grupo Habitar, que teve lugar no “Salão Nobre” do LNEC no passado dia 19 de Maio de 2008, tal como se ilustra em algumas imagens iniciais.






Fig. i: imagem da Conferência de António Pedro Dores no LNEC.


Aproveita-se a oportunidade para, mais uma vez, agradecer ao António Pedro Dores, quer a excelente conferência, quer este excelente artigo, para deixar aqui expresso que é com este espírito prático, multidisciplinar e teoricamente aberto e disciplinarmente bem baseado, que podemos avançar em muitas áreas bem marcadas pela prática de muitas disciplinas no serviço aos cidadãos e à sociedade, como é o caso do Habitar, e para afirmar que, da nossa parte, tudo faremos para proporcionar outras possibilidades mais extensas e mais aprofundadas de cooperação, aqui no Infohabitar, no âmbito do Grupo Habitar e, naturalmente, no âmbito do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC.




Fig. ii: imagem da Conferência de António Pedro Dores no LNEC.


Fiquemos então com o texto de António Pedro Dores, acompanhado por algumas imagens, da responsabilidade da edição do Infohabitar, e que se querem, apenas, associadas ao tema geral do “espírito do lugar – o direito de estar”, embora, como se verá, apresentem uma sequência alternada de situações bem distintas.

E o leitor que esteja ligado a uma qualquer das ciências sociais e humanas, incluindo aí, naturalmente, a Arquitectura/urbanismo, ou que seja “apenas” um cidadão habitante urbano informado, encontrará no texto que se segue bons motivos para reflectir sobre os caminhos da qualidade no habitar; e fica já aqui prometida, não uma réplica arquitectónica a este texto, pois este é um texto de verdadeira aproximação sociológica à Arquitectura do Habitar, mas um comentário nesta temática da concepção arquitectónica que deveria ela ser, realmente, muito mais do que a repetição de soluções urbanas e domésticas, soluções estas que, como se sabe, muitas vezes nem são, sequer, minimamente consistentes em termos funcionais e de imagem, quanto mais verdadeiramente efectivas e afectivas em termos da criação de um espírito/sentido do lugar que apoio o direito de estar e, verdadeiramente, de habitar e marcar, com bom senso, o sítio que se habita.

E fica aqui, naturalmente, um repto amigável, seja de podermos voltar a contar com António Pedro Dores no Infohabitar, seja sobre o envio de contribuições dos leitores nesta fundamental temática de um espírito/sentido do lugar, amigo de um direito de estar, que possa ser ele próprio um tema de encontro entre arquitectos, engenheiros, cientistas sociais, médicos, filósofos e habitantes; e acredito que este pode ser um tema estratégico para uma tal confluência.

António Baptista Coelho






Fig. iii: imagem da Conferência de António Pedro Dores no LNEC.




Espírito do lugar – o direito de estar (1)


António Pedro Dores (2)


Apresenta-se aqui uma proposta sociológica de abertura ao trabalho multidisciplinar centrada, para fins da apresentação, sobre o objecto de estudo que interessa à organização anfitriã. Não é um trabalho de sociologia urbana, de que existem excelentes especialistas em Portugal, nem é uma resposta a necessidades práticas de urbanistas ou paisagistas na concretização dos seus projectos. É uma demonstração de como a preparação teórica para a abertura interdisciplinar exige aprofundamento e especificidade disciplinar, no caso vertente do lado da sociologia, com vista a criar as condições de comunicação com o senso-comum, através do qual será eventualmente possível comunicar com especialistas e profissionais da engenharia, arquitectura, política, etc.


A construção de um lugar habitável é feita no concreto. A sociologia, sobre isso, nada sabe, (3) mas alguma coisa poderá dizer. Poderá referir-se à diversidade, instabilidade e imprevisibilidade dos modos de apropriação (ou abandono) dos lugares edificados. É, sobretudo, na interacção entre edificado e seus potenciais e efectivos ocupantes e manipuladores que se forja o espírito do lugar, também ele instável.


A divisão de trabalho disciplinar e social têm remetido construtores e sociólogos (ou serviços sociais) para fases temporais diferentes da apropriação do espaço edificado. Uns vêem primeiro e agradecem que não os incomodem no seu exercício de rentabilizar meios e de garantir o fim das empreitadas a tempo. Desresponsabilizam-se quanto podem pelo que possa acontecer de seguida. Tempo quando chegam os habitantes e os serviços sociais para ocuparem e usarem as construções, tal e qual existem.


Sabe-se, por experiência, ser este divórcio causa de efeitos perversos, tanto para a rentabilização dos empreendimentos como para a qualidade do habitar. Será possível encontrar formas de relacionamento entre as diferentes disciplinas científicas, desde as escolas até à vida profissional, de modo a proporcionar uma base suficientemente eficaz para ultrapassar – nomeadamente através de cumplicidades teóricas e pessoais ao nível dos técnicos – as limitações da divisão social do trabalho e dos saberes? É preciso mudar de vida: não apenas os potenciais moradores depois de construído o espaço a habitar, mas também quando os profissionais planeiam e organizam a construção.




Fig. iv

Estados de espírito


Espírito do lugar remete para uma especialidade de análise própria da sociologia, a consciência colectiva independente dos indivíduos, segundo Durkheim, um dos seus fundadores. A partilha de modos de estar e de pensar adoptados por um grupo social, por sua vez modo adaptado à vivência mais geral desse grupo com o ambiente social, numa procura instável de harmonia e coesão avaliáveis pela funcionalidade dos resultados e pela felicidade das pessoas. Numa palavra: a solidariedade social é o nosso objecto de estudo privilegiado. O espírito do lugar é, portanto, a resultante, melhor ou pior conseguida, dos processos de apropriação realmente produzidos pelos diferentes agentes sociais, desde a assumpção da soberania do território por parte de um Estado-Nação, até à execução de obras e a sua ocupação por populações eventualmente já anteriormente relativamente homogéneas, passando pelo ordenamento do território e os modelos de negócio afectos à construção imobiliária, próprios de cada época histórica. O espírito do lugar depende, pois, do direito de estar, isto é, não apenas dos usos que lhe quiser dar a população residente, mas também dos usos públicos e privados, que lhe dão outras entidades, desde o Estado e empresas de infra-estruturas aos empreiteiros, as autarquias aos utilizadores das ruas, equipamentos sociais (públicos ou privados) e estradas, as autoridades formais ou informais do lugar.


A sociologia está preparada para identificar o espírito dos diversos lugares nas diversas ocasiões históricas, seja quando ainda não há mais do que um projecto (e se antecipam os modos de habitar que poderão, à semelhança ou dissemelhança de outros, conhecidos ou desejados, vir a ser concretizados posteriormente), seja quando ocorre a ocupação do território habitável, seja quando se desenvolvem inovações no modo de habitar, eventualmente tornadas urgentes por acidentes naturais ou transformações sociais. A sociologia está menos preparada para estudar as formas do espaço a construir em função das condições políticas e organizativas, dos financiamentos e das tecnologias, dos materiais e da estética.





Fig. v



O direito de estar


O espírito do lugar depende não apenas do que se passa entre os habitantes e as construções habitacionais, claro. Depende também do direito de estar em certos lugares num mundo em acelerada transformação. Por exemplo: algumas cidades, as que mais se transformam nos dias de hoje, são moldadas pelas metrópoles geradas à sua volta pela globalização. A imagem tradicional de um centro comercial urbano com bairros à volta foi desfigurada pelo esvaziamento populacional dos bairros e dos centros urbanos, transformados em gigantescos call centres para as principais actividades imateriais, desde a banca e seguros até ao entretenimento, onde as pessoas trabalham e se divertem mas não vivem. Nos arredores das maiores cidades, a perder de vista e ocupando os solos aráveis que as alimentavam, ainda há poucos anos, construíram-se novos modos de estar, lá onde se tenha adquirido o direito. A separação entre as vidas na cidade e as vidas no campo desapareceu, diluídas pelas vias de comunicação rápidas e pela banalização do transporte individual. Vias de comunicação que deixaram de ser sobretudo em estrela, em direcção ao centro da cidade, para ser sobretudo em circulares, formando uma rede.


As transformações das cidades em metrópoles, ocorrem ao mesmo tempo que outras transformações menos físicas. Por exemplo: a censura, que anteriormente significava o impedimento de publicação e difusão de certas mensagens, funciona hoje, pode dizer-se, ao contrário. O excesso de informação, a contra-informação, torna-se a principal tarefa da censura pós-moderna. Assim se evita que as mensagens que não interessam possam chegar em condições de terem sentido aos media mais poderosos. A opinião regulada tornou-se o principal produto de “informação” e os sound bits uma especialidade das agências de comunicação contra as ideologias, contra as expressões compreensíveis, construtivas e propositivas da razão. Prolifera a cacofonia da informação alternativa. Incluindo a dos activistas da multidisciplinaridade.


De um trabalho policial, a censura, tornou-se numa tarefa estética. Parece mal discordar: é preferível acreditar nos especialistas, ultima rácio, nos cientistas, de quem se espera um discurso único, hélas! O próprio trabalho policial tende a tornar-se uma tarefa estética.


A organização da anomia metropolitana é induzida pela aceleração das transformações dos modos de vida, isto é pelo isolamento social decorrente da especulação e as consequências demográficas de tais políticas: a separação entre os dormitórios e os lugares de trabalho e lazer, em particular o envelhecimento da população, a expansão do número de casais sem filhos e de pessoas a viver sozinhas, a pauperização de uma parte relevante da população, empurrada para guetos e para bairros de velhos. A infusão do medo social é fabricada como actividade económica lucrativa, aumentada pela moda dos condomínios fechados e pelo desenvolvimento do sector privado da segurança, pela desorientação política sem horizontes de progresso e de coesão social, pela concentração da indústria dos media (em fase de fortes investimentos tecnológicos e de forte concorrência, como aconteceu no fim do século XIX com a jornalismo popular, proletariza os jornalistas e torna-os incapazes de resistir às manipulações políticas e sociais que tornaram o jornalismo de escândalos vedeta bem paga. O espectáculo tem de continuar, mesmo sem jornalistas e sem investigação própria. Tudo é oferecido por fontes organizadas em agências de informações com objectivos particulares instaladas globalmente para mostrar a realidade do ângulo em que ela seja … imperceptível. Nos anúncios como nos noticiários.)


Um dos trabalhos mais rentáveis é, no século XIX como hoje, o jornalismo policial: a investigação fica a cargo dos polícias, a cobertura é das maiores que se podem imaginar, a defesa do Estado está praticamente assegurada pelo tipo de perspectiva “pedagógica” automaticamente adoptada pelos media, se quiserem continuar a contar com este tipo de fontes. Há, porém, um problema. Pode acontecer, e acontece, que a exploração mediática das informações a torne tão credíveis como monstruosas e anormais. A credulidade popular perante a apresentação de monstros é de tal maneira infantil que, acontece com alguma frequência, se cria alarme público, isto é atingem-se – como se deseja, para fins comerciais – as emoções das pessoas e em massa. Gera-se um fenómeno que os especialistas chamam sentimento de insegurança (frequentemente apenas imaginado pelos media e pelos políticos – media dependentes – em função das medidas de audiências) e que reclama, por parte da autoridade do Estado, uma reacção imediata, isto é fora do quadro jurídico apropriado de apreciação do facto de existirem ou não provas de crime.


Descobriram, polícias e media, um modo de reagir aos disfuncionamentos da imprensa de escândalos ou jornalismo de polícia, de maneira a evitar a tomada de consciência das populações sobre o mecanismo em causa: quando as informações passivas da polícia passadas aos media parecem impossíveis, reforçam-nas através de intervenções mediáticas em “bairros problemáticos”. Perante os factos, resta ao espectador optar por se colocar contra a polícia (o que acontece frequentemente aos moradores dos bairros alvo) ou colocar-se contra os criminosos escondidos e que raramente aparecem (porque a polícia está obrigada a preservar a sua privacidade…).


A defender o seu ponto de vista indefensável O efeito é garantido, os lucros assegurados, a imagem da polícia sai reforçada, o político da tutela pode mostrar-se um duro. Enfim, é só vantagens. E os lucros.


Excepto a contribuição que tais práticas oferecem às tendências económicas e sociais para cavar a exclusão social, e as animosidades que estimulam nas populações, umas contra as outras. A cortina de fumo que representa o pequeno crime arrancado nas vizinhanças mais socialmente indefesas relativamente aos crimes financeiros, de corrupção e de colarinho branco, praticamente impunes, interessa a alguns mas é injusta para todos.


A grande cidade globalizou-se, em fluxos imateriais. A sua actividade desenraizou-a da vida das metrópoles que a substituíram. O território tornou-se literalmente um alvo de especulação global e as gentes vivem virtualmente dela, como ficou claramente demonstrado pela crise dos sub-prime nos EUA. Os estigmas territoriais produzidos pela polícia e pelos media são, eventualmente, utilizados pelas imobiliárias para comprar em baixa e vender em alta, como frequentemente acontece também com as iniciativas locais de renovação urbanística.


O direito de estar num espaço classificado (pela polícia e pelas imobiliárias, em função das relações políticas que mantêm com as autoridades locais e nacionais) num território metropolitano é estruturalmente definido. Será que não resta outro modo de apropriação do lugar do que aceitar recriar o espírito programado para aquele lugar? Será o acesso à habitação, em si mesmo, um valor de promoção social para os habitantes submetidos à lógica capitalista (ou social) de construir espaços de habitação?









Fig. vi



No início era o verbo!

É uma questão sociológica tratar as relações existentes entre as vidas quotidianas e as vidas institucionais, a vida das pessoas simples e a vida cultural e ideológica. O mesmo problema, vimos, afasta as ciências de construção – concentradas nos funcionamentos técnico-institucionais – e as ciências sociais – concentradas nos controlos institucionalizados dos quotidianos pós-construção. Isso torna improvável a organização bem sucedida de intervenções proactivas por parte dos interessados (os habitantes) sobre o espaço construído que lhes seja destinado ou que queiram (e possam) escolher para viver. Trata-se de um problema para ser resolvido, também, pelos sociólogos. Tanto a nível teórico como a nível práticos, através da abertura ao trabalho multidisciplinar, indispensável para planear aumentar a capacidade de habitar melhor.

A proposta em que temos trabalhado pode ser representada pela figura que se segue:

Parte-se de um princípio simples: a vida humana (ser) ganha dimensões próprias e especiais pela capacidade potencial da espécie, socialmente desenvolvida, de dizer, de falar, de criar linguagens susceptíveis de, por sua vez, organizarem os processos produtivos das sociedades, em função do que estas são capazes de criar, imaginando de certas maneiras comunicáveis as suas vidas pessoais e em conjunto. Como dizia o poeta, é com o sonho (a revelação do que é pessoal e socialmente dito) que o mundo pula e avança (as emergências produzidas pelo que é pessoal ou socialmente dito e feito). Aquilo que cada um é e todos somos é a potencialidade (biológica) capaz de realizar o dito e o feito, nas suas contradições, e, ao mesmo tempo, o resultado do que se diz e faz, numa espiral de tempo, que actualmente já não se acredita que seja de progresso (por descrença na capacidade de ponderação dos seus actos por parte dos humanos).

Efectivamente a miríade de instituições a que se entregou a concretização dos valores modernos potenciou socialmente as capacidades desorganizadas das sociedades, mas, ao mesmo tempo, não foi capaz de evitar riscos, como a conservação da natureza ou as crises de fome ou as guerras ou a desorientação política. Os inquéritos sociológicos mostram como as famílias, apesar de estarem em crise e de serem cada vez mais informais, ganham em prestígio e afecto às instituições e, inclusivamente, à auto-confiança individual, abalada com a competição a que as sociedades se têm sujeitado nas últimas décadas. O que não quer dizer que não haja uma crise de fertilidade na Europa, que provoca o envelhecimento da população.







Figura/quadro 1. Espaço analítico de estados de espírito


Da dialéctica entre as dimensões normativa (ditos) sócio-económica (feitos) e bio-ética (ser) emergem dinâmicas sociais como as que sustentam a reprodução da espécie, as que fazem emergir e manter as instituições e as que dão sentido à vida dos indivíduos.





Fig. vii

Fenómenos emergentes


A natureza social da humanidade significa duas coisas principais: a) partilhamos com as outras formas de vida o potencial de inverter a lei da entropia, enquanto estamos vivos; b) somos iguais entre nós na capacidade de criar, através da dialéctica entre linguagens e cooperação em larga escala, formas de viver arbitrárias adequadas à relação que estabelecemos com os eco-sistemas. Usamos as nossas vidas como objectos de arte, ainda que a maioria escolha ser apenas figurante. E fazemo-lo porque partilhamos entre todos a necessidade de incorporar a sociedade, seja através das aprendizagens de linguagens, seja através de formas específicas de agir em sintonia, por amor à família e aos amigos, por auto-estima relativamente à identidade própria, por vontade de partilhar funções sociais institucionalizadas.


Nesta perspectiva a transformação social explica-se pela necessidade de lutar pela vida, com a vida que nos é oferecida pela evolução e herdada pelos genes. Transformações precárias, das quais procurarmos libertarmos, para poupar energia, mas das quais jamais seremos capazes de fugir, da mesma forma que somos incapazes de parar o tempo, seja o tempo de crescer, seja o tempo de envelhecer, seja o tempo de nascer, seja o tempo de morrer.


Algumas transformações, porém, são mais relevantes que outras, dependendo do valor que lhes seja atribuído. O valor das transformações está intimamente ligado à revelação cognitiva que as pode inibir ou estimular, por si só (pelo investimento intencional de que se torna alvo, em função da difusão social da atenção de várias instâncias sociais) ou através das reacções proactivas (espontâneas) fisiologicamente causadas por essa revelação.


A vida é o principal fenómeno negentrópico, o principal fenómeno emergente. As ciências da saúde tratam disso mesmo. A sociologia perspectiva a noção de fenómeno emergente a outro nível.

Exemplo de fenómeno social emergente é um desastre natural: perante o qual há que re-organizar todo o modo de estar na vida anteriormente imaginado como habitual, dali para a frente, pelo menos durante um certo período de tempo, obrigatoriamente pensado, recriado e avaliado como inovação. A vida social durante e após um acidente natural depende do estado da vida social antes do acontecimento e das competências de imaginação anteriormente socialmente desenvolvidas. Nessas ocasiões a importância da liderança política torna-se mais premente para a sobrevivência das pessoas e para a coesão social futura, o que não significa necessariamente o reforço das posições dominantes antes do desastre.

Há muitos outros exemplos de fenómenos sociais emergentes, como as guerras, as ondas de crimes, as epidemias, as crises económicas, as ideologias. Todos provocam sentimentos de urgência, reclamam reorganização de mentalidades, reformulação de modos de ver o mundo, diferenciação da maneira como cada pessoa e grupo social encara as situações, concertação social de modo a melhorar as condições de coexistência entre humanos e destes com o meio ambiente. Há épocas de maior instabilidade social, quando a ocorrência de fenómenos emergentes intensifica essa instabilidade, e há épocas de maior estabilidade social, quando os fenómenos emergentes são incorporados mais facilmente pelo status quo.


Outro exemplo é o sucesso nacional no cinema de “Zona J”, sobre a população guetizada desse espaço metropolitano de Lisboa. A denúncia artística do estigma, dadas as circunstâncias mais gerais, reforçou o estigma e levou a população a retirar e substituir a toponímia que poderia identificar o lugar do filme/crime. O facto da zona J ter deixado de existir toponimicamente foi um contra acto de arte urbana, uma camuflagem capaz de apagar a inscrição perversa da sétima arte. De outras maneiras, a publicidade imobiliária cria uma identidade a certos territórios urbanos que, dessa forma, começam a ser apropriados (e avaliados) em função dos símbolos aí impostos mediaticamente, através da publicidade, sobrepondo-se às referências espaciais tradicionais anteriormente válidas para identificar socialmente os mesmos territórios. Noutros casos, a classificação policial/mediática de “bairro problemático” ou outra equivalente tem efeitos negativos no prestígio e valor do território, para os habitantes e para o exterior, provavelmente mais profundos e difíceis de transformar.


A cidade faz-se quando esta conquista esteticamente o campo. A urbanidade vive-se literalmente sobre a vida vernácula, dominando-a com valores considerados mais elevados, realmente construídos pela imaginação que dá forma a cada lugar. Segundo Norbert Elias, em O Processo Civilizacional, o que caracteriza a cultura dominante nas cidades é a repugnância incorporada contra a violência. Contra a natureza. É de facto a cidade que inventa a polícia e tipifica os crimes que, alegadamente, impedem a vida urbana de ser perfeita, como o poderia ser na nossa imaginação. Nas cidades as pessoas aprendem a viver fisicamente junto umas às outras mas, ao mesmo tempo, livres entre si. Controladas por estruturas e instituições sociais, manipuláveis mas também manipuladoras.




Fig. viii



A cidade como fenómeno emergente


Perspectivando o fenómeno social cidade do ponto de vista da sua sócio-génese e tomando o longo prazo de 500 anos, no Ocidente, podermos, por hipótese, reconhecer três fases da sua emergência. Cosmopolitismo, civilização e metropolitanização.


Na era cosmopolita, as cidades eram onde se organizavam as relações comerciais com povos desconhecidos, para além dos mares, onde se forjava paulatinamente o valor da igualdade, sem o qual não seria possível calcular as equivalências para produzir os preços. Onde se tomavam decisões sobre o que e quem assimilar, tomar para si como seu, e o que e quem distinguir e manter à distância, como estranho e exótico. Ainda hoje assimilação e multiculturalismo, nas suas virtudes e defeitos, são alternativas sociais e políticas para fazer pontes entre povos e produtos.


Na era da civilização, quando as cidades se sentiram livres para partir, em nome da sua Fé de amor, para fazer a universalidade, beneficiaram de facto o Império. Como beneficaram do Império. Tomaram todo o planeta. Em nome da paz fizeram a guerra. Até aos dias de hoje. Cobriram-se e enfeitaram-se de produtos exóticos, símbolos do seu poder e dos prazeres refinados e distintos, nuns casos tirados à força dos seus lugares próprios, como no caso das pedras e dos metais preciosos – ou dos tesouros culturais, como os obeliscos –, noutros casos importados para reprodução, no caso de plantas alimentares ou medicinais. Nas cortes como nos bairros, as identidades urbanas reinventaram-se através de culturas próprias de apropriação e expropriação, mas também de camuflagem das violências envolvidas nos saques, distantes e de proximidade, nas lutas de classes e nos despojos da estiva e do comércio em geral.


Na era actual, da metropolitanização, emergem as classes industriosas e o trabalho organizado em modelos de negócio. A cidade, para além da igualdade e da liberdade, passa a poder significar exploração especulativa do território, revelada – publicitada – como sede para actividades empresariais ou habitacionais segmentadas. Lutas simbólicas e policiais patrulham a cidade à procura de valor. E encontram-no, quantas vezes em cima de terras férteis ou ocupações tradicionais destruídas em função de valores (monetários) mais altos. A cultura urbana torna-se ainda mais artificial, virtual e imaginativa, na publicidade e na arquitectura, e a manipulação do meio e da própria natureza humana aprofunda-se e sistematiza-se. Museulizam-se as principais cidades, cercadas e praticamente sufocadas pelas metrópoles dominantes e opressivas, como modelos de negócio, oportunidades de emprego e modos de selecção social.







Fig. ix



Capacidade de previsão das ciências


As ciências aspiram a desenvolverem capacidades de previsão. Previsão sobre a capacidade de resistência das construções humanas. Mas também sobre a capacidade humana de resistência às suas próprias construções. Estabelecem-se parâmetros de controlo dos riscos (calculados pelas companhias de seguros) e parâmetros de segurança (politico-policial). O que se pode fazer para um edifício isolado, a pensar em sismos, ou para uma urbanização, a pensar em linhas de água, é mais difícil (e economicamente caro) de fazer a pensar em cidades, metrópoles ou civilizações.

A questão é saber se isso nos deve inibir de procurar caminhos, sempre imperfeitos, sabendo da impossibilidade de atingir a perfeição? Ou se podemos propor à ciência que almeje tais desideratos.

A ambição científica é, de facto, o máximo. E essa inspiração pode continuar a orientar-nos, também no trabalho interdisciplinar. Principalmente quando ele é útil para resistir à tendência da metropolitização de deitar fora o bebé com a água do banho: querendo manter a liberdade (em vez de a trocarmos por segurança, como muitos propõem) há que lutar por isso. Por exemplo, usando teorias científicas imaginativas e eficientes para se perceber e actuar de modo a não deixar morrer a cidade (ideal e prática).


A crítica sociológica (às teorias sociais dominantes) produzida para esse efeito deverá referenciar a ilusão – do senso comum, mas partilhada e até induzida pela sociologia divulgada – de a cidade estar isenta de violência. Uma coisa é a repugnância incorporada pelos urbanos (mais nos seus discursos do que na suas práticas) contra a violência, produzida pela civilização, outra coisa é a abolição prática da violência, tanto para o exterior como para o interior das cidades. O dito, por exemplo de afirmação solene da vigência universal dos direitos humanos, é relevante. Condiciona aquilo que é feito. Mas não retira responsabilidade científica de verificar a enorme autonomia do feito perante o que é dito, bem como de confrontar o que é dito daquilo que se faz com aquilo que é efectivamente feito.


A ciência social não deve, é essa a tese deste artigo, reforçar estratégias compreensíveis de encobrimento dos fenómenos de metropolitização. A valorização, a exploração dos lugares pelo capitalismo selvagem depende (mais do que dos planos directores) das revelações sociais sobre os modos de como se está a fazer cidade. As lutas sociais pelo território, as denúncias de corrupção, de tráfico de influências, de negócios especulativos, são o centro – camuflado – da vida urbana actual. A violência envolvida, em geral contra quem está ausente e é excluído das negociações e das decisões, está visível no território metropolitano, se for observado.


Ao construir-se, portanto, deve ter-se em conta que os conflitos sociais potenciais ou já deflagrados são, também, formas de revelação e gestão de violências e violações de direitos naturais ao habitar condigno. As estruturas sociais de produção das construções urbanas devem ter em conta os impactos conflituais que geram. Não há cidade sem violência. A geração de conflitos é, por isso, necessária e estimulante para a organização e melhoria das construções urbanas. A violência contra as populações, por exemplo obrigadas a ocupar espaços estigmatizados, potencialmente produtores de caos, essa deve e pode ser evitada. E pode ser prevenida, assim as estruturas sociais tutelares estejam elas próprias prevenidas e disponíveis para esse trabalho social: a) evitar o caos urbano, quando aos conflitos apenas aparecem disponíveis saídas violentas; b) promover revoluções urbanas, proporcionando construções desenhadas em função de hipóteses de saídas organizadas, respeitadoras dos conflitos sociais; c) acolher e promover reformas estruturais susceptíveis de estimular revoluções urbanas contra a especulação, a insegurança e a alienação organizada por imagens publicitárias sem conteúdo conflitual.


Não há nenhuma maneira de controlar os fenómenos sociais emergentes. Mas estes podem ser reprimidos, estimulados, canalizados, acompanhados, na condição de poderem ser observados. Isso só pode acontecer depois de revelados os fenómenos, como diria o fotógrafo. A sociologia desenvolveu competências de revelação, que podem ser utilizadas na construção das cidades, nomeadamente oferecendo aos construtores e aos habitantes hipóteses estruturadas (e conflituais) de organizar as respectivas intervenções, de proporcionar a si próprios oportunidades de assistir à realização de acasos convergentes com as suas necessidades e desejos, à maneira das profecias que se auto-realizam.


A natureza intocada, como os ambientes artificialmente produzidos, merecem dos seres humanos uma atenção funcional. O processo adaptativo retém a atenção das pessoas em pontos particulares, com os quais se constroem os imaginários de referência, cegando, por assim dizer, quanto ao resto. Os hábitos constroem-se enfatizando certas partes do ambiente e escamoteando outras partes, consideradas desinteressantes. Por exemplo, perante uma construção, quem se pergunta pelo seu impacto no habitar? Apenas os especialistas treinados em revelações desse tipo. Nem os habitantes, nem as autoridades costumam estar atentas a sinais a que o construtor pode estar atento, seja para poupar despesas e aumentar lucros, seja para minimizar consumos de energia e maximizar as oportunidades de sociabilidade.







Figura/quadro 2. Lugares específicos das diferentes ciências e saberes no espaço de análise



Uma vez pronta a construção, quem se lembraria de a deitar abaixo por estar mal concebida? Há, de facto, uma tendência forte para a naturalização praticamente automática do edificado, e da tecnologia em geral. Estarão os tecnólogos e as empresas imobiliárias, públicas e privadas, interessadas e disponíveis em desconstruir tal tendência?


Protegida pela tradição disciplinar disciplinada das ciências e das escolas de formação de técnicos superiores – umas tratam dos feitos, formam os que vão para ciências, outras tratam dos ditos, formam os que vão para letras – estará a indústria de construção aberta à intervenção das ciências sociais (e até do direito e da saúde) nesse ramo de actividade?







Fig. x


Notas conclusivas


Não é extraordinário que a tecnologia habitacional, apesar do seu impacto directo na qualidade de vida de todos e de cada um, nos seja oferecida como um produto pré-fabricado, basicamente composto de paredes? Opaca na sua tecno-estrutura e design, resultado de sub-empreitadas e de regulamentos técnicos que frequentemente esquecem a nossa protecção contra catástrofes (como sismos, por exemplo), contra a usura da natureza (em termos de eficiência energética nomeadamente) e contra a especulação, serve de sorvedouro a privados e ao Estado, em partes negociadas frequentemente debaixo da mesa (ou por cima das nossas cabeças).


O nosso habitat metropolitano é, para além de um modelo de negócios, uma cultura e uma civilização. Ambas podem ser racionalizadas e melhoradas, na condição de ser possível às informações técnicas e sociais ultrapassarem os guetos profissionais e sociais em que estão actualmente confinadas. Esse é o projecto político da multidisciplinaridade: a transparência. Para o realizar eficazmente, as ciências e as tecnologias têm de reinventar formas (teóricas e práticas) de se encontrarem (em campo neutros) de modo a institucionalizar diálogos profícuos e perenes entre si e, também, como o comum dos mortais. Esses campos neutros serão, afinal, os problemas sociais concretos, face aos quais as ciências podem desenvolver políticas extra-partidárias, a pensar num futuro de longo prazo: afinal políticas onde elas faltam, políticas fora do mundo da política. Políticas cultural e civilizacionalmente informadas e orientadas.



(1) Conferência da iniciativa do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC, com o apoio, enquadramento e divulgação do Grupo Habitar (GH), constituindo a sua 14.ª Sessão Técnica; o evento contou, ainda, com a fundamental participação do doutor João Lutas Craveiro, do Núcleo de Ecologia Social (NESO) do LNEC, 19 de Maio de 2008.


(2) O autor é doutorado em Sociologia (1996) com agregação em Sociologia (2004) pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Coordenador dos Mestrados “Risco, Trauma e Sociedade” e ”Instituições e Justiça Social, Gestão e Desenvolvimento”, docente no ISCTE e investigador no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES, no ISCTE).


(3) Ver crítica a esta limitação da teoria social em Bruno Latour Changer de société, refaire de la sociologie, Paris, La Découverte, 2007.


Preparado para edição, por António Baptista Coelho, em 14 de Junho de 2008.
Editado no Infohabitar, por José Baptista Coelho, em 15 de Junho de 2008.
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.