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quinta-feira, janeiro 17, 2008

179 - ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE - O MISTÉRIO DE ALVALADE - III - Infohabitar 179

 - Infohabitar 179


ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE 

António Baptista Coelho
com a cooperação de Nuno Teotónio Pereira

Edita-se esta semana, no Infohabitar, a terceira e última parte de um pequeno trabalho sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, originalmente realizado com o objectivo da sua apresentação numa palestra que decorreu ainda na Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), integrada nos ENCONTROS AAP – HABITAÇÃO: “CONSTRUIR CIDADE COM HABITAÇÃO”, na Sede da então AAP, hoje Ordem dos Arquitectos, em 8 de Maio de 1998.
Sublinha-se, no entanto, ser esta uma versão reformulada do texto então distribuído.
Sublinha-se, ainda, que a ilustração foi realizada apenas numa perspectiva de acompanhamento livre do texto; as imagens são de Alvalade, mas não há uma relação directa com o conteúdo da exposição.
Índice geral (e plano de edição):
1. O mistério de Alvalade (1.ª semana)
2. Um caso e a sua utilidade (1.ª semana)
3. Cronologia (2.ª semana)
4. Alvalade, um bairro integrado e integrador (2.ª semana)
5. Alvalade, como foi (3.ª semana)
6. Integração física, estrutura e imagem (3.ª semana)
7. Comentários finais (3.ª semana)
Bibliografia




5. Alvalade, como foi

A Av. Alferes Malheiro/Av. do Brasil constituía o final “afastado” da cidade, estrada de ligação entre a a velha frente urbana do Campo Grande e a Estrada de Sacavém (uma das saídas da cidade); e a Estrada de Sacavém ligava-se, por sua vez e por outro lado, ao Areeiro. Entre estas saídas de Lisboa e sobre zonas rurais nasceu Alvalade.
É muito interessante considerar que em Alvalade se conciliou uma inovação urbanística forte, ao nível do desenho e ao nível da gestão, com uma clara aposta do município na exemplificação em larga escala de novos métodos construtivos, implicando redução de custos de construção sem prejuízo assinalável da respectiva qualidade arquitectónica.
A grande extensão do plano de Alvalade levou a uma diversificação da sua morfologia evitando-se monotonia pela associação de uma forte escala humana, caracterizando 8 “células” de reforçada vizinhança próxima. A tipologia “colectiva”/multifamiliar tinha vindo a ser tecnicamente validada e foi extensamente aplicada no bairro. A construção é financiada pelas Caixas de Previdência ou desenvolvida pela indústria privada – mas com projectos-tipo e controlos municipais – e destinando-se a renda económica ou condicionada. Ainda uma outra opção aplicada foi a venda de lotes com projecto livre, essencialmente na Avª de Roma, o novo grande eixo urbano proposto, e que fez também parte essencial de uma verdadeira estratégia de mistura e integração social e física numa continuidade urbana agradavelmente mitigada pelas referidas vizinhanças das células “sociais”, onde, ainda hoje em dia, se respira um fundamental sossego e uma caracterizada envolvência residencial – mas “logo ali” ficava a avenida.
O resultado parece ter sido convincente, pois datando os primeiros estudos de princípios de 1945, pouco mais de 3 anos depois, das cerca de 2.000 habitações a fazer, em 2 das 8 Células de Alvalade, pela CML com fundos da Federação das Caixas de Previdência, estavam concluídas 500, estando as restantes em andamento.(31) Simultaneamente, o n.º de imóveis particulares em construção era de cerca de 600 fogos de rendas preestabelecidas e 200 estabelecimentos comerciais; número este que é apenas considerado limitado pela velocidade de produção, pelo município, de terreno urbanizado nas diversas células.(32) E considerando os restantes equipamentos o desenvolvimento era também significativo, tendo sido iniciadas, pela CML, as Escolas Primárias que constituem os elementos centrais das células.
De 1945/6 a 1960, em cerca de 15 anos, foi concluído o essencial ou mesmo quase tudo o que integra a “nova pequena cidade” de Alvalade, o que parece um bom prazo para a dimensão da obra, constituindo, provavelmente, mais um dos mistérios do Bairro. Lembremos que em Lisboa há “bairros” iniciados bem antes do 25 de Abril e bem longe de serem concluídos.
Outro dos mistérios dos Alvalades foi a opção clara pelo desenvolvimento de verdadeiros eixos comerciais vitalizados, diversificados e articulados entre si; e é assim que podemos percorrer, hoje em dia, diferentes sequências comerciais desde uma ponta da Rio de Janeiro, passando por zonas próximas da Av. da Igreja, por esta mesma artéria, pela Av. de Roma e, depois, pelos respectivos prolongamentos que ligam a zonas mais velhas da cidade; e naturalmente vice-versa.
O comércio concentrado na Av. da Igreja e numa das ruas paralelas demorou, no entanto, anos a ser absorvido, assistindo-se a muitas lojas fechadas. Depois vingou a viabilidade e vitalidade do comércio, alastrando, de forma natural, pela Av. de Roma muito frequentemente através da reconversão de pisos térreos habitacionais, à medida da pressão das necessidades e dos fluxos de movimentação.
Em retaguarda estruturadora, a Praça do Areeiro estava já significativamente desenvolvida, enquanto o IST e a sua envolvente urbana começavam a consolidar-se. A Av. de Roma foi apontada ao Hospital Júlio de Matos, preexistente, enquanto a Rio de Janeiro articulou o seu eixo com o eixo de simetria do LNEC. Na Av. de Roma assistiu-se, provavelmente a uma aproximação de frentes de construção, relativamente simultâneas e idênticas, marcando-se uma forte escala de desenvolvimento citadino, embora bem acoitada numa relação de contiguidade com a cidade-mãe.
A continuidade da Av. de Roma, assegurada pelo viaduto da Linha de Cintura e bem marcada no Plano, foi vital para a ligação entre os dois irmãos (Areeiro e Alvalade), e foi um elemento básico logo na fase inicial de desenvolvimento dos Alvalades, tendo sido provisoriamente assegurada com uma estrutura de madeira, depois, convenientemente, substituída por uma intervenção cuidada ao nível arquitectónico. Estas preocupações afirmadas de continuidade urbana configuram, naturalmente, mais um dos mistérios dos Alvalades, seja no seu interior, seja nas suas relações, quer com a cidade-mãe, quer com a cidade futura; mais um mistério que parece ter-se perdido, em parte, nas décadas que se seguiram.
Acompanhando e dando alguma coesão “lateral” ao desenvolvimento do fundamental eixo que da Praça de Londres ligava á actual Av. do Brasil, havia penetrações, a W, de diversas pequenas avenidas preexistentes que partiam do Campo Pequeno; estas Avenidas já então habitadas pela pequena burguesia parecem ter sido elementos estratégicos de reforço dos novos Bairros “irmãos”, exactamente na zona, sempre sensível, em que Alvalade e Areeiro se encontravam. Esta é, provavelmente, outra das partes do mistério/segredo, considerando-se a força com que se faz a conjugação entre a Av. de Roma e aquelas Avenidas preexistentes, em eixos que trespassam a massa dos novos quarteirões.
E outra parte desta parte do segredo parece ser uma certa gradação da densificação urbana, que é muito intensa e rica no “irmão” Areeiro, marcado por quarteirões densos e contíguos a ruas/alamedas assinaladamente contínuas, criando um exterior urbano praticamente tão definido como a própria edificação; mas que no “irmão” Alvalade reduz escala e dá maior amplitude ao exterior, num sinal de fim de cidade, sem dúvida, mas também de outras ideias. E provavelmente, também, numa composição urbana que se pretendeu ser, no conjunto dos dois irmãos, variada no aspecto e socialmente adequada.
As primeiras Células de Alvalade que foram concluídas (Células I e II), limitadas pelo Campo Grande, situavam-se na zona norte do bairro, o que foi uma tomada de posição táctica. Desta forma, “o crescimento para Norte era contrariado e passava-se a fazer de Norte para Sul, no controlo do crescimento da cidade; por outro lado, o terreno ainda virgem nos limites da área do plano assumia mais rapidamente o estatuto de espaço urbano da cidade de Lisboa”. (33)
Alguns núcleos de quintas e edifícios preexistentes foram pontualmente demolidos, ou mantidos (ex. Palácio dos Coruchéus e Rua Gama Barros) e articulados no Plano, quer como pequenos pólos de actividade, quer como estruturadores de pequenas ruas; designadamente na zona Sul, contígua à Linha de Cintura, onde havia incursões do “subúrbio” pobre.


5.2 Estrutura geral de Alvalade

“A localização no quadro urbano e as características topográficas desta zona da Cidade, as suas reconhecidas condições de salubridade, a circunstância de estar praticamente envolvida por áreas já urbanizadas ou a caminho de definitiva urbanização (e por amplos espaços livres), conferem ao Sítio de Alvalade qualidades eminentemente favoráveis para a sua utilização imediata como zona de expansão da Cidade”. (34)
“4 Arruamentos principais subdividem a área total abrangida pelo plano em oito células, formando unidades de urbanização distintas, separadas entre si pelas vias de trânsito circundantes. Os elementos de interesse geral da zona (grandes espaços livres, mercados, zonas comerciais, instalações públicas) foram distribuídos de forma a poderem ser alcançados pelos habitantes de cada célula mediante percursos cómodos e pouco extensos, cruzando os arruamentos principais de trânsito apenas na medida indispensável. Dentro de cada uma das células os arruamentos constituem simples vias de acesso às habitações, pelo que apresentam sistematicamente perfis transversais económicos à custa da redução da largura das faixas de rodagem, sem prejuízo da largura total entre as fachadas das edificações marginais”.(35)
A unidade de urbanização/célula (são no total 8) agrega uma população média de cerca de 5.000 pessoas e tem quase sempre como elemento central a escola primária, caracterizando-se ainda por dimensões médias à escala da movimentação pedonal (máx. 500m à escola), facilitada pelo desenvolvimento de vias/”veredas” exclusivamente pedonais, que cruzam o interior dos quarteirões abertos, integrando partes privativas e partes comuns a todas as habitações de cada quarteirão, onde se previa um arranjo simplesmente arborizado e informal, económico na manutenção. Apoia-se, assim, a movimentação pedonal, mas não se anulando a funcionalidade rodoviária, através de quarteirões permeáveis, interiormente irrigados por veredas pedonais marcadas pelo verde urbano e pela escala humana; a “escala citadina” aguarda o habitante “nas avenidas”.
É muito interessante registar a aliança entre preocupações de integração social, “rejeitando uma orientação da expansão da Cidade baseada na atribuição de zonas distintas para as habitações destinadas a famílias de diferentes proventos e objectivos de viabilização económica, através de uma compensação da disponibilização de habitações de rendas económicas”, distribuídas harmónica e estrategicamente no interior das células, com a “valorização dos terrenos destinados às habitações de maior categoria, localizados “nos terrenos marginais das artérias principais".(37)
Como uma verdadeira pequena cidade e embora o carácter geral da zona fosse basicamente residencial, Alvalade integrou, em zonas mais ou menos diferenciadas, outras funções distintas da habitação: duas zonas de pequena indústria local e não poluente; zonas comerciais localizadas em condições de fácil acesso das residências e ao longo das ruas; campos de jogos e locais de recreio público.
Relativamente a equipamentos colectivos a “grelha” prevista era bastante completa, realista e urbana, correspondendo à satisfação das “complexas necessidades da vida de um agrupamento populacional tão importante como virá a ser a nova zona de expansão da Cidade” (38) – um exemplo interessante é o importante conjunto de ateliers de artistas desenvolvido em anexo à preexistência dos Coruchéus.
Os transportes colectivos terão sido bem estudados na organização do plano, sendo o bairro servido por carros eléctricos, auto­carros e caminho de ferro (plano previa duas novas estações), enquanto se visava, já, o metropolitano (39); que lá chegou, não muito depois, em 1972, ao contrário do que depois aconteceu com outras zonas da cidade.



5.3 Realização de Alvalade

A construção desenvolveu-se em três modalidades: por promoção pública directa nos conjuntos financiados pela FCP; por pequenos construtores com base em projectos fornecidos pela CML e visando renda limitada (na parte nascente da Av. da Igreja e transversais, no B.º de São Miguel e na proximidade dos cruzamentos Igreja/Roma e Roma/EUA); e também por construtores com base em projectos feitos pelos próprios (na Avª Roma).
O tratamento dos interiores de quarteirão era bastante livre (espaços verdes com veredas para peões) e tiveram uma natural evolução da sua ocupação na sequência da visita à obra do Ministro Arantes e Oliveira, onde tendo-se discutido a necessidade de arranjo e equipamento de amplos espaços pedonais, então praticamente abandonados e contíguos a edifícios já habitados (que dispunham de um pequeno logradouro posterior na contiguidade rectangular dos edifícios) e tendo-se concluído, na perspectiva dos Serviços da CML, da dificuldade financeira para esse arranjo, assistiu-se, passado pouco tempo, em algumas zonas, a uma invasão e demarcação desordenada de quintais privativos.
Este tipo de ocupação, pouco regrado, ainda se mantém, caracterizando ruralmente partes importantes de Alvalade. No entanto muitos interiores de quarteirão têm ocupações perfeitamente estruturadas e estimulantes com quintais privativos e comuns razoavelmente regularizados e tratados, por vezes, acompanhados por agradáveis percursos pedonais; e as avenidas cheias de vida estão, logo ali, por trás dos edifícios e tão perto daquele ambiente tão sossegado. E esta dualidade natureza/cidade tão distinta e tão geminada é, sem dúvida, outro dos mistérios do excelente Alvalade de Faria da Costa.
As ruas têm um carácter de ruas/corredor, com distância mínima entre fachadas, provavelmente até não se invocando e aplicando a regra dos 45º, pretendia-se essencialmente a defesa da privacidade (conseguida com R/C alto); Faria da Costa estabeleceu larguras e perfis relativamente pormenorizados, mas, na obra, houve dúvidas sobre como preencher os perfis/espaço de rua; o que foi feito através do dimensionamento mínimo da faixa de rodagem e depois com a integração de passeios, por vezes duplicados, e de canteiros e jardinetas, favorecendo-se sempre o peão.
Um pouco numa perspectiva oposta, na Av. de Roma, quando da obra do metro em vala, alterou-se o respectivo perfil rodoviário, dando-se mais espaço ao automóvel; era já, no entanto, outra época.
Em Alvalade há uma diversidade controlada de projectos, mais um dos mistérios, diversificar, mas mantendo a força caracterizadora do conjunto. Julgamos que esta diversidade controlada é muito positiva e foi relativamente mantida em Olivais Norte, embora se tenha perdido, em boa parte, na escala excessiva de Olivais Sul; e está aqui, novamente, mais um dos mistérios de Alvalade e também, neste caso, de Olivais Norte, com influência determinante na respectiva e fundamental caracterização urbana e ambiental.
A questão do aspecto dos alçados foi complexa, porque era difícil distingui-los arquitectonicamente, tendo-se optado, em alguns casos, pelo recurso a “coisas postiças”, tais como cromatismo, tímpanos sobre portas, grelhagens de escadas e elaboradas serralharias nas varandas. Salienta-se, no entanto, como indica Callado, o interesse da evidente influência, no desenho dos edifícios, por parte do racionalismo germânico moderno. Uma influência patente na concentração da composição nos elementos funcionalmente activos (ex. varandas e vãos), e pelo desenvolvimento de volumes compactos e de uma composição centrada nas formas essenciais e elementos funcionais, numa “consideração cuidadosa da economia e da optimização da planta”, aspectos que se referem aos trabalhos de Alexander Klein, mas também aos anteriores trabalhos das Habitações Económicas, embora, agora, com um acentuado perfil urbano. (40)
Julga-se muito interessante esta referência a Klein, que é aliás citado, com destaque, por Miguel Jacobetty na sua comunicação ao Congresso de 1948. E salienta-se que esta lógicade optimização e projecto-tipo foi levada ao extremo absoluto, provocando cantos vazios; para os quais houve posteriormente ideias de aproveitamentos, pontualmente concretizadas.
Outro aspecto interessante é que as nove Séries habitacionais de Alvalade traduziam mais agregações variadas de grande diversidade de compartimentos (desde o roupeiro ao escritório), do que um jogo dimensional “estrangulando” Séries mais económicas, e neste aspecto há realmente uma grande diferença relativamente às Categorias aplicadas depois em Olivais; uma matéria que merece sem dúvida um cuidadoso aprofundamento, pois provavelmente foi uma opção responsável por uma grande capacidade de adaptabilidade das habitações a uma grande diversidade de modos de habitar.





5.4 Casas de rendas económicas para a Federação das Caixas de Previdência: Características globais das edificações

No que respeita à concepção arquitectónica geral o objectivo terá sido conseguir um elevado/razoável aspecto com soluções “singelas e sóbrias”, sem materiais dispen­diosos e inviáveis na construção de casas de rendas económicas. A partir da “combinação dos vários tipos - todos de composições arquitectónicas diferentes”, tentou-se, e pensamos que se terá conseguido, “evitar a monotonia e formalismo que são em geral uma característica inconveniente dos grandes agrupamentos de edificações executadas em conjunto”. (41)
“As habitações são de planta rectangular de modo a assegurar ampla iluminação e ventilação naturais dos seus compartimentos, sem recantos sombrios e húmidos” (42). Foram quebradas algumas “tradições” consideradas negativas, como o uso de saguões e o não tratamento das fachadas posteriores.
Por visão do Engº Guimarães Lobato, Director dos Serviços de Obras Municipais, desenvolveram-se economias de escala, através de empreitadas parcelares e realizadas por células: caixilharias, louças sanitárias, prefabricação de soleiras e peitoris, guarnecimento de vãos e escadas, tubagens de grês. Retomam-se, assim, também na estandardização e pré-fabricação de elementos da construção, os conceitos da Baixa de Lisboa (ex. as carpintarias foram realizadas em muitas oficinas quase domésticas da zona de Paços de Ferreira).
Numa 1ª fase as paredes exteriores foram desenvolvidas em alvenaria de pedra, tendo-se optado depois por blocos de betão sem finos (gravilha, cimento e água/com vazios), isolantes térmica e hidricamente. Aperfeiçoaram-se assim os processos tradicionais de construção, reforçando-se a respectiva industrialização, tendo sido, para o efeito adquiridos pelo município, em Inglaterra, equipamentos industriais para a produção de britas e para o fabrico dos blocos de betão. (43).
Interessante é considerar que o LNEC foi, já naquela altura, chamado a apoiar e enquadrar tecnicamente as inovações construtivas, designadamente, através da intervenção do Eng.º Ruy Gomes. A intervenção do LNEC desenvolveu-se, designadamente, nas áreas do estudo do custo de paredes de betão sem areia (1948), da análise das características a exigir aos blocos de betão (1956) e do apoio ao fabrico de blocos de betão para paredes (1959). O estudo de soluções habitacionais, aqui numa área especializada, remonta, assim, a uma fase inicial de trabalho do LNEC, ainda designado (em 1948) “Laboratório de Engenharia Civil”, sendo interessante referir que outros dos primeiros “bairros sociais”, tais como o Caramão da Ajuda (de 1938), da Encarnação e de Caselas tiveram também acompanhamento técnico especializado.
Seria este outro estudo, e portanto não avançaremos mais neste caminho, mas há que anotar a evolução posterior desta linha temática no LNEC, abordando-se edifícios habitacionais já numa perspectiva mais completa, de que é exemplo a excelente apreciação crítica do “Bloco das Águas Livres”, ainda por Ruy Gomes, mas já em 1960, e dinamizando a criação no LNEC da Divisão de Construção e Habitação e, sequencialmente, do Núcleo de Arquitectura, hoje Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, que foi fundado em 1969 e que foi, desde então, responsável pelo desenvolvimento e pela edição no LNEC, de cerca de 400 estudos na área da arquitectura e do urbanismo, concluídos entre 1969 e 2007, numa pequena história de investigação nestas áreas, cujo caminho de quase 40 anos é provavelmente muito pouco frequente em todo o mundo; uma pequena história a fazer e que cruza as intervenções de técnicos como Nuno Portas e Reis Cabrita, entre muitos outros, e que se fez numa excelente aliança com todas as entidades técnicas que em Portugal foram estudando e promovendo a habitação de interesse social: HE/FCP, FFH e INH.
Voltando a Alvalade, refere-se que nas suas primeiras células os edifícios não tinham estrutura de betão armado; apenas cintas de travamento; em betão só as varandas, lintéis e pavimentos de zonas húmidas (cozinhas e instalações sanitárias).
O principal problema aconteceu com as anomalias quase generalizadas nos pavimentos em soalho e no vigamento de madeira, pois o preço do aço era então ainda muito elevado; e esses elementos de madeira tiveram de ser, depois, substituídos num enorme esforço com as pessoas a habitarem.
Ainda com o objectivo de se obter a máxima eficácia na construção, foi desenvolvido, antecipadamente, em princípios de 1946, um grupo experimental constituído por três prédios de diferentes tipos (entre os nove encarados no programa geral).(44)
Os diferentes grupos foram objecto de empreitadas sucessivamente adjudicadas, por forma a obter uma uniformidade no consumo de materiais de construção e nas necessidades de pessoal, no decurso dos dois anos de trabalho previstos.
Julgamos interessante registar aqui o escalonamento dos custos dos terrenos, pagos pela FCP à CML, conforme Séries de habitações: “pagamento à Câmara Municipal do custo dos terrenos de construção, à razão de 45$00, 60$00 e 75$00 por metro quadrado, para as habitações da I, II e III séries”.(45)
Fogos
Relativamente aos edifícios e espaços domésticos, refere-se ser este um assunto que será objecto de um próximo e específico artigo aqui no Infohabitar, onde se abordarão as já referidas diferenças de conteúdos nas Séries de fogos, bem os importantes estudos funcionais e espaciais dos respectivos fogos.



5.5 O projecto da arquitectura urbana de Alvalade

À integração social juntou-se, em Alvalade, a integração urbana, tanto pela multiplicidade de actividades citadinas, como por uma “sensível” (funcional, mas resguardada) integração no tecido viário de Lisboa, servindo também acessibilidades mais amplas (acessos à cidade) de um modo que, ainda assim, foi durante muito tempo compatível com a habitação da grande burguesia (Av. Gago Coutinho”).
A estrutura da rede viária delimitada por Faria da Costa, tem por base uma larga malha reticulada e preenchida por uma sucessão de impasses, pracetas, espaços livres e equipamentos a resultar numa malha final relativamente compacta e bastante equilibrada, até pela diversidade controlada que é proposta em cada Célula. Modelo este que integra, continuamente, uma estrutura verde assumidamente urbana e que reforça, com interessante naturalidade e diversidade, a integração de equipamentos em trechos estratégicos.
Cada célula assume, assim, um desenho controlado mas sensivelmente orgânico, ricamente desvinculado da ordem urbana citadina que marca o perímetro que a circunda. Outro aspecto relevante é a proposta de altimetrias mais acentuadas ao longo dos eixos principais e marcando até eixos topograficamente marcantes, numa opção também muito urbana de fazer troços de cidade caracterizados por sítios, declives, vistas e também, naturalmente, arquitecturas.
Nos anos cinquenta, o Bairro de Alvalade marca também pela introdução, muito qualificada, dos novos conceitos defendidos na Carta de Atenas (ex. Bairro das Estacas, com zonas pedonais assumidas e ligadas sob os edifícios, tipologia de duplex e edifícios sobre pilotis), vindo a tornar-se a Avenida dos Estados Unidos da América um sítio de modernidade. Nestas introduções de um novo desenho da arquitectura urbana residencial não pensamos haver qualquer subversão da imagem do Bairro, nem qualquer ruptura com a anterior morfologia. Pensamos, sim, que há introdução de novos conceitos residenciais e “repertórios formais”, num fazer cidade contemporânea que é outro factor positivo e outro elemento do mistério de Alvalade.
Há diversidade naturalmente controlada, há marcação de referências e não há qualquer desvio crítico relativamente ao ordenamento global e até de pormenor; a disposição edificada é relativamente livre mas não ultrapassa o território da vizinhança próxima e não colide com a organização dos eixos viários.


5.6 Alvalade, actualidade e inovação

Como sintetiza Callado, Alvalade não apresenta uma significativa continuidade relativamente ao tecido pré-existente, articula-se pelos eixos que o dividem em oito zonas/Células, afirmando-se como pequena cidade modelo claramente planeada na sua forma/função, “dentro” da Lisboa do velho plano director.(46)
No Bairro apenas algumas vias têm continuidade com a cidade (eixos mais importantes), enquanto as outras têm um padrão independente, equilibradamente orgânico e assumidamente residencial, incorporando até, em antecipação, os “recentes” aspectos de redução física da velocidade rodoviária.
Alvalade com as suas oito zonas com diferentes características espaciais e de actividade, numa riqueza de mistura de funções urbanas servindo a vivência diária (expressa na própria legenda do seu plano), acolhe mudanças de uso que ocorrem essencialmente nos seus eixos principais, numa perspectiva dinâmica de cidade, continuamente apoiada por uma “quilha” residencial protegida (interior das células) e que mantém, hoje em dia, uma muito significativa estabilidade.
E importa salientar que esse conteúdo residencial, designadamente aquele com carácter social, foi realizado com base em edifícios concebidos como blocos parcialmente independentes, implantados de acordo com a estrutura pretendida (rua, quarteirão, impasse). Uma tal opção, naturalmente “racional” e com forte justificação económica, foi levada à prática sem que, hoje, ao olharmos esses troços urbanos haja qualquer sentido de monotonia ou excesso de repetição; a escala edificada, a pormenorização cuidada e o verde urbano têm o seu papel neste resultado: mais alguns pequenos segredos do grande “mistério” de Alvalade; neste caso usando-se “mistério” no sentido de dúvida pela não replicação das soluções de Alvalade.
Alvalade é também um modelo de “Plano” de promoção residencial socialmente diversificada, que regula com igual pormenorização usos e formas e que estendeu a sua regulação ao controlo económico da promoção privada (cálculo cuidadoso das rendas limitadas), que integrou e rentabilizou na viabilização do projecto (venda de lotes e rendas livres nos principais eixos), bem como ao próprio controlo sobre a construção e o desenvolvimento das infraestruturas (feitas pela CML e concretizadas a 50% 3 anos depois do início do projecto).(47)
Um outro aspecto a considerar é o apertado controlo da extensão do espaço exterior, conseguido em Alvalade, embora com as excepções referidas aos logradouros livremente apropriados pela população; uma solução que no sequencial Olivais Norte foi substituída em favor do lazer no “espaço livre”. Esse controlo terá permitido em Alvalade a obtenção de densidades (200/237 hab/Ha) pouco inferiores às das Avenidas Novas (253 hab/Ha) e idênticas às de Olivais Norte (220/230 hab/Ha), embora com grandes manchas de edifícios baixos (aliás também muito significativos em Olivais Norte).
Sintetizando, assiste-se em Alvalade à aplicação de algumas regras inovadoras, designadamente, (i) em novas formas de execução e gestão do edificado e (ii) na diversificação controlada de tipos de empreendimentos uni e multifamiliares (também é importante esta continuidade da presença da “moradia”) em áreas, mutuamente conjugadas, para: habitação económica municipal; e diversas modalidades, razoavelmente controladas, de construção “particular” (exº controlo de rendas, promoção livre, cooperativas e mutualidades).
Também ao nível da desejável integração social importa considerar a experiência de Alvalade.
A tendência social integradora só é possível de forma disseminada e não estigmatizando as novas zonas habitacionais, a integrar na continuidade urbana. A "habitação social" deve acabar por se diluir, positivamente, na malha urbana, vitalizando-a, vitalizando-se e subindo de estatuto social, tal como acontece nas zonas do interior do Bairro de Alvalade.
Para se perceber essa integração é preciso estudar a configuração geral e pormenorizada do habitat, a composição geral da mistura social e a sua composição pormenorizada, tanto ao nível da rua e do quarteirão, como dos tipos de grupos sociais em presença mútua. Em Alvalade parece ter havido este tipo de cuidados, designadamente, pela integração de várias “Séries” habitacionais em cada impasse residencial; e esta é com certeza outra das partes do grande mistério de Alvalade. Note-se, no entanto, sobre este aspecto, que a população de Alvalade estava já, em boa parte, há muito relacionada com a cidade, não tendo havido realojamentos provenientes de “bairros de lata”.




6. Integração física, estrutura e imagem de Alvalade

No uso e marcação do exterior tem grande importância o ritmo dos percursos, por troços funcionais/formais, tais como: (48)
- a sequência viário-edificada da Avª Igreja (2 troços diversos) e transversais;
- a sequência viário-edificada da Avª EUA (2 troços relativamente idênticos) e conjuntos contíguos;
- a sequência viário-edificada da Avª Roma (diversos troços) e transversais.
Relativamente ao preenchimento do interior dos quarteirões dos edifícios do interior das células, refere-se a opção bastante generalizada do uso de quintais privados, tenham sido eles adequadamente previstos e vitalizados/controlados por “veredas” pedonais, criando-se um “contínuo” ajardinado, mas sem manutenção pública, ou tenham sido esses quintais apropriados e marcados pelos habitantes, numa recriação de paisagem rural, que até nem tem imagem pública assinalável.
Sobre a integração topográfica pormenorizada já referimos o assinalar de eixos urbanos, num destacar natural da inclinação, favorecido pela implantação dos tipos morfológicos mais modernistas (exº edifícios sobre pilotis), que se adaptam bem ao relevo. Há, no entanto, que referir que a solução de preenchimento pedonalizado do interior de quarteirões, eficaz em zonas relativamente planas, é dificultada quando se encontram variações de cota.
O “verde” público de Alvalade é em grande parte garantido pelo verde pouco ordenado dos quintais e espaços comuns dos quarteirões, mas também pelo verde privado e representativo dos quintais e jardinetas frontais, bem como pelo simples mas eficaz e muito urbano verde das árvores de arruamento. O parque público previsto lá está, como sempre, praticamente abandonado na extremidade NE do bairro.
Não há grandes espaços de uso público, mas há muitos pequenos espaços de lazer e “intervalo”, equipados e bem protegidos das zonas de burburinho, quer pela própria estrutura de quarteirões, quer pelo desenho de pormenor (“perfis” de passeios) e pelo equipamento público. E neste desenho de pormenor salientam-se os passeios largos e muito frequentemente arborizados, sítios apropriados aos mais diversos usos mais correntes (diversas faixas), mais periódicos e mais definitivos (como “gaiolas” de extensão dos “cafés”).
Não poderíamos deixar de fazer uma referência destacada ao papel deste complexo, mas unificado, mundo de espaços exteriores públicos, sempre muito acompanhados pelas janelas domésticas, no estímulo do recreio livre de crianças e jovens, naturalmente convidados a uma exploração gradual dos seus quarteirões e, depois, dos outros passeios, “mais largos”, do seu Bairro.





6.2 Os limites e as imagens de Alvalade

Globalmente Alvalade articulou-se num espaço vago entre 3 fronteiras relativamente fortes e preexistentes, enquanto se colou fortemente à cidade na última fronteira, afinal em contiguidade total com a malha de Lisboa.
No interior do bairro criam-se espaços canais bem marcados; introversão e dificuldade de penetração em cada zona são aspectos menos importantes, face às vantagens na estruturação global e à relativa uniformidade de linguagem aplicada em todas elas; não há limites interiores no bairro, embora existam verdadeiros “muros” de fachadas, pois tais muros têm funções frontais de protagonismo urbano e posteriores de residencialidade/intimidade. Em bastantes zonas a escola primária assume força de referência devido à sua centralidade/acessibilidade e ao seu tratamento harmonizado com um ambiente residencial.
Num outro nível de “marcação”, à escala do bairro, temos equipamentos de lazer, ensino e comerciais concentrados, centralizados e até especializados, de forma a servirem todo o bairro,conjugando sempre actividades e percursos (exº rua comercial “especializada” paralela à Av. da Igreja). E ainda a um outro nível, à escala da cidade, embora cuidadosamente servindo também a do bairro, temos Avenidas vitalizadas e expressivamente inter-conjugadas, por praças representativas e por grandes e “únicos” edifícios públicos.
Os cruzamentos, que se transformam por vezes em praças, não são apenas acontecimentos rodoviários, são “figuras” urbanas assumidas e claramente caracterizadas pelos edifícios circundantes (49), por elementos centrais e pelos enfiamentos de orientação, enquanto os os entroncamentos e os cruzamentos menos importantes são ortogonais e frequentes, sendo, assim, basicamente seguros para o peão. É, também, importante considerar, aqui, a positiva colagem entre acessos ao Metro e praças.
Nas avenidas os projectos variam por vezes de edifício para edifício, embora dentro de um conjunto vocabular não muito alargado; e há as significativas fugas modernistas “à regra”, algumas delas em pontos/trechos focais. Os perfis urbanos traduzem soluções funcionais e de pormenor muito bem conseguidas e eficazes ainda hoje, embora raramente repetidas.
Hoje em dia o que é que marca mais, unifica mais e caracteriza mais Alvalade? Pensamos que (i) a estrutura e a intensa vida dos seus principais eixos viário-comerciais, ainda directa e indirectamente animados pela habitação das avenidas e do interior protegido das diversas zonas, bem como (ii) a viabilidade comercial do bairro, a sua estrutura urbana adequadamente ancorada em pólos e eixos marcantes e a coexistência de espaços residenciais muito protegidos, mas muito convidativos; elementos-base que mutuamente se estimulam e dão saúde ao bairro.




Sobre alguma falta de perceptibilidade global de Alvalade para “o estranho” (50), pensamos que é suavizada e limitada a zonas residenciais, quase com estatuto de espaços exteriores “comuns”; sendo opção de intimidade bem compensada pelas avenidas, fortemente públicas; e “à medida que o vamos conhecendo quotidianamente sobressai toda uma lógica organizadora ao nível da distribuição de equipamentos e ao nível da estruturação viária”. (51)
A “confusão” de não se perceberem muito claramente os pontos focais ou de referência, por interposição de árvores e/ou por movimento de pessoas e veículos parece ser um atributo citadino coerente em zonas à escala do bairro; há um equilíbrio de representatividade/intimidade que é agradável e incitativo, designadamente na Avª da Igreja, mas é mais difícil na longa Avª de Roma, que serve, e bem, uma outra escala urbana.

6.4 O bairro como vizinhança alargada

Dentro das células o relativo “repouso” formal é um sinal de habitação/abrigo, enquanto nas avenidas há uma “escala de cidade habitada”, unificadora do carácter e da identidade de Alvalade, e que é muito pouco frequente noutros bairros de Lisboa. Pensamos ser difícil falar de desorientação em Alvalade, há mesmo alternativas para as pessoas; quem não conhece segue um determinado eixo bem estruturado e polarizado, e quem conhece pode atalhar caminhos.
Os equipamentos edificados e exteriores foram distribuídos cumprindo exigências de acessibilidade e/ou privilegiando os percursos vincadamente urbanos, mas sempre acompanhados pela habitação; até as vias limítrofes são tratadas também como espaços urbanos essencialmente residenciais.




6.5 A configuração das vizinhanças próximas e a integração social

Segundo Callado identificam-se, em Alvalade, as seguintes unidades morfológicas (que associamos a Vizinhanças Próximas): (52)
- Ruas e impasses de unifamiliares;
- Impasses residenciais (3 grupos de edifícios);
- Quarteirão fechado (mais peqº do que o quarteirão “clássico”), ao longo de eixos e designadamente eixos secundários com continuidade.
- Praça fechada (forma irregular com edifícios em disposição concêntrica), com variadas formas/situações.
- Praça aberta (agregação bissimétrica e regular de edifícios num cruzamento), cruzamrntos principais.
- Blocos lineares ao longo de rua e ordenados por eixos.
Como exemplo do estímulo físico à integração social refere-se que nos impasses há edifícios Séries I e II; mas rematando-os, já em contiguidade com a “rua” e marcando, bilateralmente, o acesso ao impasse há 2 edifícios de Série III, que também asseguram a continuidade da rua.(53)
Em cada zona as ruas têm extremidades bem definidas e são visíveis em toda, ou quase toda, a sua extensão; terminando em pracetas ou largos; e não pensamos que uma tal repetição prejudique identidade local, porque cada zona tem os seus pontos de referência próprios.
Ao nível da pormenorização as rodovias, os estacionamentos e os passeios acompanham-se e têm variados e funcionais perfis, bem largos nas avenidas (aceitaram já múltiplas adaptações), bem residenciais nos impasses e nas pracetas, extremamente funcionais em algumas soluções de vias/estacionamentos.
E são realmente Vizinhanças Próximas, até nos nomes: Av. da Igreja qualifica uma zona de influência, não uma rua; e tal também acontece com: Rio de Janeiro; Rodrigo da Cunha; Av. de Roma; Pote de Água; Bº de São Miguel....






7. Comentários finais sobre Alvalade

Como refere José M. Fernandes, Pacheco, mediante um Plano de Urbanização gradualmente aperfeiçoado entre 1938 e 1948, deu à cidade a escala, estrutura e funcionalidade necessárias, dentro de uma lógica de conjunto que ainda hoje subsiste em parte. (54) O planeamento e edificação do Areeiro e de Alvalade modificou portanto por completo o modo de “produzir cidade”. (55)
A importância de AlvaIade reside sobretudo na imagem significante da modernidade e da urbanidade definitiva da capital, que acabou por construir.(56) A produção urbanística actual, … tem centrado a sua atenção em torno das questões da FORMA URBANA, recuperando para a cidade espaços tão simples quanto tradicionais: a rua ou a praça, e elementos morfológicos de desenho como a árvore alinhada ou a continuidade dos volumes construídos e das suas fachadas.(57) O Bairro de Alvaiade, área actualmente muito bem integrada no resto da cidade, assumindo, até, estatuto de novo centro de Lisboa, foi e é uma área urbana/citadina de “resistência” contra a degradação e a dissolução da cidade, “ talvez por tudo o que tem de progressista e inédito e simultaneamente de culturalista na valorização do passado”.(58)
Alvalade, zona relativamente limitada, contém uma grande variedade de espaços exteriores, mas muito integrados na cidade; faz muito sentido, aqui, o conceito de Vizinhança Alargada, suportada duplamente, no território e numa caracterização ambiental bem afirmada; o bairro de Alvalade, talvez para além de 1º Plano Integrado, é talvez o único verdadeiro bairro da Lisboa moderna.

O apuramento objectivo, dimensional e quantificado das soluções globais e pormenorizadas de habitat aplicadas, com êxito, em Alvalade, terá grande utilidade no apoio aos projectos residenciais. Complementando esse apuramento será também muito útil desenvolver uma análise especializada e comentada das condições de habitabilidade do Bairro de Alvalade (ouvidas as suas duas gerações de moradores), de modo a que se possa dispor de um conjunto de elementos concretos com variada natureza e que possam servir de referência para:
- o projecto e programação de novos conjuntos residenciais;
- a melhoria das condições negativas, encontradas em outras zonas urbanas essencialmente residenciais.
“As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam, com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características”.(59)
“Ao projectar novos bairros para Lisboa, não se esqueçam de prever locais aprazíveis de reunião livre, tanto quanto possível ligados aos núcleos comerciais - pólos forçados de atracção. E deixem nesses locais lugar para certas actividades espontâneas. Excelente seria que os enobrecessem com algumas obras de arte. A intervenção dos artistas plásticos, bem compreendida, valorizaria esses locais e a sua função. Quanto aos problemas do trânsito, convirá que não pensem quase exclusivamente - como é prática habitual - nas soluções que o facilitam aos veículos. Os peões são muito mais nu­merosos e não basta destinar-lhes passeios estreitos ao longo das casas; nem é legítimo contar excessivamente com a sua inteligência e os seus reflexos para se defenderem e tirarem algum partido das circunstâncias. Gastam os nervos nessas manobras. Além dos parques, das grandes massas florestais, são de extrema utilidade as pequenas jardinetas refúgios de tranquilidade e de convívio espalhados pela Cidade; mas melhor será ainda, nos novos bairros, instalar os próprios edifícios de habitação entre árvores e arbustos, no terreno livre de muros e divisórias - com caminhos sombreados e tranquilos para os peões, distintos dos que se destinarem ao trânsito acelerado dos automóveis".(60)
“Para mim, Alvalade estava limitado a norte e sul por automóveis, a oeste por um Santo António de perna curta em estátua mal alinhavada e a leste por uma igreja românico-futurista que dava as horas com avé-marias de campanário como se não houvesse ninguém com relógio nesta área”. (61)
É importante e de grande actualidade desenvolver trabalhos metódicos de estudo dos Alvalades, incluindo assim a belíssima experiência urbana e habitacional do Areeiro. Há muitas lições a registar nos seus grandes e pequenos mistérios de como fazer realmente boa cidade com boa habitação, desde a fusão entre bairros à dimensão dos passeios.
E afinal julgamos que nestes Alvalades há apenas um conjunto de mistérios simples, e entre eles é provável que um dos mais relevantes seja o tal “consenso sobre o espaço comum em vez de uma grande preocupação sobre o consenso sobre o edificado”, defendido há já alguns anos por Nuno Portas num colóquio no LNEC, sugestivamente centrado no título “Viver (n)a Cidade”; e talvez que sobre o edificado habitacional o grande mistério seja uma certa calma, associada a “conjugações significativas de edifícios edifícios correntes com boa qualidade arquitectónica e bem agregados ao longo das ruas, ou envolvendo praças ou enquadrando monumentos ou valorizando parques jardins”, nas sábias palavras de Keil do Amaral.
Notas:
(31) CML, p. 7
(32) CML, p. 8
(33) Patrícia Miguel; Jorge Leal
(34) CML, p.9
(35) CML, p. 10
(36) CML, p. 10
(37) CML, p. 10
(38) CML, p. 15
(39) CML, p. 15
(40) José Callado, pp. 205/4
(41) CML, p. 17
(42) CML, p. 17
(43) CML, p. 18
(44) CML, p. 18
(45) CML, p. 20
(46) José Callado, p. 62
(47) José Callado, p. 86
(48) Isabel Valverde
(49) Isabel Valverde
(50) Isabel Valverde
(51) Isabel Valverde
(52) José Callado, p. 190
(53) José Callado, p. 193
(54) José M. Fernandes p. 501
(55) José M. Fernandes p. 505
(56) Ana Tostões p. 522
(57) José Lamas p. 293
(58) Patrícia Miguel; Jorge Leal
(59) Keil do Amaral, p. 31
(60) Keil do Amaral, p. 48
(61) Cardoso Pires p. 101
ASSOCIAÇÃO DOS ARQUITECTOS PORTUGUESES - “Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa (GUAL)”, AAP, Lisboa, 1987.
COELHO, António J. M. B. - “Análise e Avaliação da Qualidade Arquitectónica Residencial”, Tese, LNEC e FAUP, Lisboa, 1995.
CALLADO, José Carlos Pereira Lucas -“Interactivity in Housing Design - an Approach for a Model, a comparative analysis of the «Avenidas Novas», «Alvalade» and «Olivais Norte» Districts, Lisbon”, PhD Thesis, University of Newcastle upon Tyne.
CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - “A Urbanização do Sítio de Alvalade”, CML, Lisboa, 1948.
PIRES, José C. - “A Cavalo no Diabo”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994.
FERNANDES, José Manuel - “Lisboa no Século XX”, O Livro de Lisboa, Coord. Irisalva Moita, Livros Horizonte, Lisboa, 1994.
FRANÇA, José-Augusto - “A Arte em Portugal no Século XX”, Livraria Bertrand, Lisboa, 1974.
FRANÇA, José-Augusto - “Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, Arte Portuguesa, Anos Quarenta, , Fundação Calouste Gulbenkian, Catálogo, Lisboa, 1982.
GONÇALVES, Fernando - “A Mitologia da Habitação «Social», o Caso Português”, Cidade/Campo, Cadernos da Habitação ao Território Nº 1, 1978.
JACOBETTY, Miguel - “Estudo de Casas de Renda Económica”, Comunicação 1º Congresso Nacional de Arquitectura, Lisboa, 1948.
AMARAL, Francisco K. - “Lisboa, uma cidade em transformação”, Estudos e Documentos, Publicações Europa-América, Lisboa, 1969.
LAMAS, José M. Ressano Garcia - “Morfologia Urbana e Desenho da Cidade”, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Fundação Calouste Gulbenkian e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Lisboa, 1993.
MIGUEL, Patrícia; LEAL, Jorge -“O Bairro de Alvalade”, trabalho realizado na Licenciatura em Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
PORTAS, Nuno - “A Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal: uma interpretação”, História da Arquitectura Moderna de Bruno Zevi, 2º Volume, Editora Arcádia, Lisboa, 1973.
DIAS, Francisco da S. ; DIAS, Tiago da S. - “Lisboa, freguesia dos Olivais”, Guias Contexto, Contexto Editora, Lisboa, 1993.
PEREIRA, Nuno T. - “Esccritos (1947-1996, selecção)”, FAUP, Publicações, Série 2 - Argumentos, Nº 7, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, 1996.
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VALVERDE, Isabel - “Metodologias de Análise Espacial de Desenho Urbano”, trabalho de Prova Final da Licenciatura em Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, LNEC, Lisboa, 1997.
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Editado por José Baptista Coelho, em 17 de Janeiro de 2008

quinta-feira, janeiro 10, 2008

178 - ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE - O MISTÉRIO DE ALVALADE - II - Infohabitar 178

 - Infohabitar 178




ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE


António Baptista Coelho com a cooperação de Nuno Teotónio Pereira


Após uma bem justificada e excelente interrupção da edição deste artigo sobre “o(s) mistério(s) de Alvalade”, que aconteceu na passada semana para a edição de um novo artigo de Celeste Ramos, retoma-se a referida edição, esta semana e na próxima semana.
Trata-se de um pequeno trabalho sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, originalmente realizado com o objectivo da sua apresentação numa palestra que decorreu ainda na Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), integrada nos ENCONTROS AAP – HABITAÇÃO: “CONSTRUIR CIDADE COM HABITAÇÃO”, na Sede da então AAP, hoje Ordem dos Arquitectos, em 8 de Maio de 1998.
Índice geral (e plano de edição):
1. O mistério de Alvalade (1.ª semana)
2. Um caso e a sua utilidade (1.ª semana)
3. Cronologia (2.ª semana)
4. Alvalade, um bairro integrado e integrador (2.ª semana)
5. Alvalade, como foi (3.ª semana)
6. Integração física, estrutura e imagem (3.ª semana)
7. Comentários finais (3.ª semana)
Bibliografia









Breve nota introdutória:
O mistério de fazer cidade passa por habitar, realmente trechos de vida colectiva – sendo marcados por eles e marcando-os – e obriga a uma arquitectura residencial urbana bem qualificada, dinamizadora do uso de espaços exteriores sem zonas residuais, geradora de vizinhanças de proximidade com condições naturais de convívio e segurança, que garantam transições agradáveis entre os espaços domésticos e os vastos espaços públicos urbanos, e integrando tipologias edificadas directamente relacionadas com o exterior, com dimensões sociais e físicas equilibradas e com imagens públicas que suscitem a apropriação e a identidade. E numa altura em que uma verdadeira durabilidade e vitalidade urbanas estão, finalmente, na ordem do dia é tempo de aprender com as melhores práticas, que mais se aproximaram de tais condições; e nestas, entre nós, Alvalade e os seus “mistérios” têm um lugar muito especial.





3. Cronologia nacional e internacional de Alvalade

1901: avenidas ligam recém-construída rotunda do M Pombal aos jardins do C. Grande; transportes urbanos tornam acessíveis Saldanha e mesmo Entrecampos (eixo Fontes Pereira de Melo e Ressano Garcia/República); introdução dos eléctricos.
1903: 1ª Cidade-Jardim, Letchworth (Unwin e Parker)
1912: Hospital Júlio de Matos, de Leonel Gaia (alt. De Carlos Ramos, 1933)
1917: extinção total dos transportes de tracção - “os Americanos”
1918: legislação sobre habitação económica e início de primeiros “bairros sociais” portugueses no Arco do Cego, Lisboa e na Arrábida, Porto.
1919: 2ª Cidade-Jardim, Welwyn; fundação da Bauhaus e início de actividade de Le-Corbusier
1923: “Vers une Architecture”, Le-Corbusier
1927 a 1935: Instituto Superior Técnico, de Porfirio Pardal Monteiro (fulcro urbano na origem física do Plano de Alvalade)
1929: fundam-se os Congressos Internacionais para a Arquitectura Moderna (CIAM)
1930: constrói-se em Viena o Bairro Karl Marx
1932: Engº Duarte Pacheco, MOP
1933: os CIAM lançam a Carta de Atenas
1933: Duarte Pacheco chama Agache para estudo da zona de Lisboa ao Estoril e Cascais
1934: Lei das expropriações, na sua sequência cerca de um terço da área da área do Concelho é expropriada
1935 a 1961: Cidade Universitária, de Porfírio e António Pardal Monteiro
1937: Bairro do Alvito ou Bairro Salazar (“linguagem” modernista)
1938 a 1940: Bairro da Encarnação, de Paulino Montez
1938 a 1948: Duarte Pacheco Presidente da Câmara e MOP manda executar plano de urbanização a De Groer; expropriação de 1/3 da área do concelho; 1º Congresso dos Arquitectos Portugueses; Praça do Areeiro, de Cristino da Silva
1938: Duarte Pacheco Presidente da CML; desenho urbano do Bº do Areeiro (Avª Paris e João xxi), de Faria da Costa; Faria da Costa integra os quadros da CML, chamado por Duarte Pacheco; processo de urbanização de Lisboa começa a ser controlado pela CML
1940: Fonte Monumental na Alª Afonso Henriques, de Rebelo de Andrade; início do projecto da Cidade Universitária, de Porfírio e António Pardal Monteiro (obra muito posterior).
1943: Avª Sidónio Pais e António Augusto de Aguiar, de Cristino da Silva; morte de Duarte Pacheco
1944 e 1945: Avª Gago Coutinho, conjunto urbano/moradias de A. Soeiro e Carlos Ramos
1945: Plano de Alvalade, de Faria da Costa
1945 a 1961: Avª da Igreja, conjunto urbano, de Jacobetty Rosa
1945: Plano de Alvalade, de Faria da Costa
1946 a 1950: Avª João XXI, conjunto urbano, de Filipe Figueiredo, José Segurado, Joaquim Ferreira e Guilherme Gomes
1947: Praça Pasteur e Avª Paris, conjunto urbano, de José Bastos, Licínio Cruz, Alberto Pessoa e Chorão Ramalho
1946: Alvar Aalto, ensaio sobre o fim da “máquina de habitar”
1947: Lewis Mumford denuncia o final da etapa racionalista e do estilo internacional
1947: figura legal do prédio de rendimento com renda limitada/condicionada (Dec lei 36 212/36 213/36 214 de 1947), através da cedência em hasta pública dos terrenos municipais, destacando-se conjuntos do Bairro de S. Miguel e da Avª da Igreja e transversais
1948: 1º Congresso Nacional de Arquitectura com apresentação do Bairro de Alvalade
1948: Plano de Urbanização, Plano de Groer (Plano Director de Urbanização de Lisboa)

1948: Alvalade cresce: Avª da Igreja/Poente e ruas contíguas, Agosto, inauguração das duas primeiras células de casas de renda económica, conjuntos urbanos de Miguel Jacobetty (500 fogos); primeiras Escolas Primárias em Alvalade de Peres Fernandes; Avª da Igreja/Nascente e transversais, conjuntos urbanos de Fernando Silva; Rua José Duro (transversal à Av. da Igreja), Miguel Jacobetty e Faria da Costa.
1948: Edital de Março de 1948 consagra Plano do Sitio de Alvalade; exposição que celebra 15 anos de obras públicas (1932-47)
1948 a 1950: Bº de S. Miguel, conjunto urbano de Miguel Jacobetty e Sérgio Gomes
1949: edifício na Praça de Londres (projecto), de Cassiano Branco
1949 a 1951: Av. D. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira
1949 a 1952: LNEC, de Porfírio Pardal Monteiro
1950 a 1960: reestruturação viária e das redes de transporte público
1951 e 1952 : solução inovadora não aceite para o lado nascente da Av. dos EUA por J. Simões, Castro Rodrigues, J. Huertas Lobo, Celestino de Castro e H. Gandra (1914-1988), inspirada na Unidade de Habitação em Marselha
1951: Conjunto no início Nascente da Avª EUA e ao longo da Linha de Cintura, de Joaquim Ferreira e Orlando Avelino, com colaboração de Faria da Costa
1952 a 1957: blocos do cruzamento da Av. dos EU-A e Av. de Roma, as mais importantes do bairro, de Filipe Figueiredo e José Segurado
1953 a 1955: conjunto das Estacas (premiado na Bienal de S. Paulo e Prémio Valmor), de Formozinho Sanches e Ruy J. d´Athouguia
1955: Escola Primária no Bº de S. Miguel, de Ruy J. d´Athouguia
1955 a 1958: série de blocos perpendiculares á via do lado E da Avª dos EUA de M. Laginha, Pedro Cid e Vasconcelos Esteves
1955 a 1960: Inquérito à Arquitectura Popular
1956: Chombart de Lauwe, CNRS, “Vie quotidienne des familles ouvrières”
1956 a 1958: blocos do lado Oeste da Avª dos EUA de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes
1958: Plano de Olivais Norte, do GEU da CML
1958: conjunto da Av. do Brasil de Jorge Segurado
1958: conjunto residencial de blocos transversais na Av. do Brasil (limite N de Alvalade), de Jorge Segurado
1959 a 1961: Liceu Padre António Vieira de R Jervis d.'Athouguia, no Pote d’ Água, limite N de Alvalade.
1960 a 1961: Plano de Olivais Sul, do GTH da CML
1967: Prémio Valmor para edifício de habitação de interesse social em Olivais Norte, de Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas
1969: Praça de Stº Antonio, local previsto como Centro Cívico
1969: Praça de Stº Antonio, em Alvalade local, previsto como Centro Cívico, ocupada por habitação e escritórios
1972: Metropolitano chega a Alvalade




4. Alvalade, um bairro integrado e integrador

O projecto do Instituto Superior Técnico (1927/35), articula dois eixos de crescimento de Lisboa, o eixo as Avenidas Novas, “amplas e burguesas”, e o eixo “pobre na extensão da avenida Dª Amélia, depois chamada Almirante Reis (exº Bº das Colônias e Rua Morais Soares), com bairros para os menos favorecidos”(3), constituindo um fulcro urbano importante para o desenvolvimento dos Bairros do Areeiro e de Alvalade. (4)
Como também refere José Augusto França, o IST (terminado em meados dos anos 30) é um ponto de referência na “primeira etapa de progressão de Lisboa para nordeste”.(5)
Também até 1935, são desenvolvidos, por promotores privados, os Bairros do Campo Pequeno e dos Actores, na envolvente da actual zona de Alvalade/Areeiro e destinados à pequena burguesia.
Duarte Pacheco, MOP desde 1932, e depois de 1938 também Presidente da CML, organiza o Plano de Urbanização de Lisboa (de 1935 a 38, mas já com o esquema fundamental definido em 35). Os urbanistas da escola francesa Agache e De Groer começam a trabalhar em Portugal, orientando De Groer os Serviços de Urbanização da capital montados por Duarte Pacheco.(6)
O Plano contemplava uma rede básica de radiais partindo do centro da cidade para a periferia e uma série de quatro circulares concêntricas. Entre as primeiras as que nos interessam para o enquadramento da zona de Areeiro/Alvalade são o prolongamento até à Encarnação da Avenida Almirante Reis e o prosseguimento da linha Avenida da República-Campo Grande até ao Lumiar-Paço do Lumiar; enquanto entre as segundas e com idêntico interesse se destacam, especialmente, a de Moscavide a Algés, contornando externamente o Parque Florestal, e a do Beato a S. Domingos de Benfica, pelo Areeiro, Entrecampos e Sete Rios.(7)
São previstos grandes equipamentos, alguns deles com influência na demarcação do sítio de Alvalade (exº, Aeroporto e Cidade Universitária) e rodovias estruturadoras da Cidade e com fortes influências no futuro Bairro de Alvalade, antecipando-se, ainda, as necessidades de expansão residencial da cidade através do projecto de bairros sociais periféricos e do início da expropriação das futuras áreas de Olivais, Chelas e Telheiras.(8)
Considerando o sítio do futuro Alvalade temos, assim, na altura, uma zona ampla e rural limitada, a W, pelas traseiras do enfiamento urbano do Campo Grande, “aproximada”, a também a W, pelas ruas que partem do Campo Pequeno, limitada, a N e a E, por rodovias de saída de Lisboa (Alferes Malheiro/Avª do Brasil e Avª Gago Coutinho) e, finalmente, pontuada, a Sul, pelo desenvolvimento do IST e, a Norte, pela presença/remate do Hospital Júlio de Matos.
Cerca de 1940 são iniciadas “concepções monumentalistas (eixos de simetria e composições académicas de volumes e espaços) na avenida António Augusto de Aguiar (1942) e na Praça do Areeiro (1938-48)”(9), mas “simultaneamente, acontecem evoluções positivas no desenho urbano: equipamentos para os Parques Eduardo VII e de Monsanto (anos 40-50), com projectos de Keil do Amaral e as urbanizações do Restelo e de Alvalade, de Faria da Costa”. (10)
O bairro de Alvalade e o seu pequeno quase-gémeo bairro do Areeiro, serão desenvolvidos praticamente em simultaneidade com aquelas “concepções monumentalistas”, mas dão corpo a uma outra ideia de cidade, que irá assimilar essa monumentalidade, assim como, mais tarde, as primeiras concepções modernas, numa conjugação de opostos, que é ainda qualificada por um expressivo carácter de bairro na cidade, e que constitui, provavelmente, um dos principais mistérios de Alvalade, ou dos Alvalades – uma afirmada tolerância formal não descaracterizadora.
Após 1940 o desenho tipo-Areeiro marcou toda a cidade. No entanto a divulgação da “Carta de Atenas” e o apelo ao estudo sistemático da arquitectura popular, realizado depois entre 1955 e 60, constituíram influências crescentes entre os arquitectos.(11)
Finalmente, em 1948, o 1º Congresso Nacional de Arquitectura, “foi marco e motor de uma viragem” (12); tendo sido feita, neste Congresso, a apresentação das soluções edificadas do bairro de Alvalade.
E de entre as conclusões saídas do Congresso há bastantes de enorme actualidade, e que tiveram aplicação em Alvalade, salientando-se, aqui, apenas: (I) “...que não se confundam «casas baratas» com «habitações económicas»”, combatendo-se a redução excessiva de áreas e a utilização de materiais menos qualificados e defendendo-se “as maiores condições de habitabilidade com o menor dispêndio”; (ii) “impedimento de toda e qualquer especulação com terrenos... quando destinados à...habitação; (iii) “que não se construam bairros exclusivamente destinados a uma determinada classe, ou isolados ...”; (iv) e “que no estudo da habitação se considere o desenvolvimento moral e físico da criança”.

4.2 Enquadramento próximo de Alvalade

Não perdendo de vista a conclusão do IST, em meados dos anos 30, convém focar, igualmente, a importância que terá, para o futuro Alvalade, o desenvolvimento da Praça do Areeiro, “nova ágora simbólica, projectada em 1938,…e motor de uma cidade nova (na década de 40)”.(13).
Como já referimos, Duarte Pacheco fez estudar, desde 1935, um plano conjunto da cidade, contando com a colaboração técnica do urbanista De Groer. Faria da Costa, recém-diplomado em 1935 no Institut d'Urbanisme de Paris, tendo trabalhado com Agache e De Groer, passou a pertencer ao novo grupo de técnicos da Câmara de Lisboa, onde também se integrou Keil do Amaral.
“Faria da Costa e Keil do Amaral vão então desenvolver projectos fundamentais ao crescimento e ordenamento da capital. Keil no plano Para o Parque Florestal de Monsanto, nos projectos para o parque Eduardo VII e equipamentos para o Campo Grande, enquanto Faria da Costa fará os planos para os bairros do Restelo, Encosta da Ajuda, Areeiro e Sítio de Alvalade”.(14)
Os novos bairros de Areeiro e Alvalade contaram, assim, com os planos de pormenor de Faria da Costa. Ter sido o mesmo urbanista a realizar dois planos em total contiguidade e que iriam ser resolvidos em grande continuidade é provavelmente outro dos mistérios “dos Alvalades”.
Areeiro foi provavelmente concretizado numa acção que hoje se designaria de “urbanismo operacional”, através de cuidadosas operações de arquitectura urbana bem relacionadas com os elementos preexistentes e abrindo caminhos reais ao gémeo maior, Alvalade. E assim se desenvolveu uma nova cidade: “trata-se, com efeito, de uma nova cidade, bastando-se a si própria, mais que um novo bairro, com ruas, avenidas e praças traçadas e elevadas «ex nihilo», num programa coerente que impunha um gosto e mesmo um estilo”.(15) Álvaro Salvação Barreto, Presidente da CML em 1948, designou o Bº de Alvalade como “uma nova cidade em pleno desenvolvimento na zona a sul da Avenida Alferes Malheiro".
“Lisboa conheceu assim, pela primeira vez desde a reconstrução pombalina, um projecto global e qualificado que inseria e corrigia muito da urbanização ocasionalmente realizada nos anos 30”. (16) Conjugavam-se duas zonas urbanas preexistentes, socialmente distintas, enquanto, na nova zona urbana se integravam, equilibradamente, habitações para diversos grupos sociais e variadas funções urbanas, reconstituindo-se e prolongando-se a cidade. Ter sido uma nova grande parcela de cidade, feita como tal, é outro dos mistérios que explicam o êxito dos Alvalades. E ter sido um projecto realmente qualificado é mais outro desses mistérios, pois, na opinião de J. Lamas, Faria da Costa “foi um dos pioneiros e talvez um dos maiores urbanistas em Portugal”. (17)
“Uma nova cidade”: dimensão, caracterização/qualificação e integração na cidade-mãe, diversidade de funções e associação de diversas classes sociais, distinguem totalmente o Bairro de Alvalade dos bairros sociais até então desenvolvidos em Lisboa, em zonas isoladas da cidade, e distinguem ainda Alvalade de qualquer um dos bairros com que se fez posteriormente a expansão de Lisboa.



4.3 Areeiro e Alvalade, irmãos inovadores

O Areeiro serviu como ensaio/preparação de Alvalade e uma charneira de conjugação das diversas zonas urbanas envolventes. E como refere José Manuel Fernandes, “a uma escala mais reduzida, com a chamada experiência das Avenidas de Paris-João XXI-Praça Pasteur (também sobre um estudo de Farta da Costa), consegue-se pela primeira vez implementar na construção da cidade uma série de regras novas e modernizantes” (18), regras essas que se sintetizam em seguida:
- conceber e planear Lisboa com sistemas de arruamentos hierarquizados (circulações separadas de peões e carros) e edificações em quarteirão «aberto» (abolindo a oposição tradicional entre traseiras e fachadas), integradas num conjunto autónomo com equipamentos próprios e de boa acessibilidade (bases das “unidades de vizinhança” que constituem as várias células de Alvalade);
- propor novas formas de execução e gestão do edificado, bem com a diversificação controlada dos tipos de empreendimento: no conjunto da João XXI são cedidos pela Câmara aos construtores os projectos de cada edifício; em Alvalade ou no Restelo há áreas para promoção de habitação económica municipal, outras para a construção privada em andares, de base lucrativa; outras ainda para moradias unifamifiares;
- aceitar a polifuncionalidade das nova áreas urbanizadas, combatendo assim a excessiva “zonificação” da cidade que desde a expansão dos finais de oitocentos se acentuava (em Alvalade surgiu o primeiro “centro comercial” com dimensão concorrência com o comércio da Baixa; aí se continham ainda significativas áreas para indústria, armazéns, serviços e equipamentos);
- articular as novas áreas urbanizadas com os tecidos envolventes já existentes, em correcta continuidade do espaço urbano, de que o exemplo mais acabado será a ligação Alvalade-conjunto de João xxi-Avenidas, visto que sem interrupções ou desfasamento de escalas ­se «sintetizavam» numa só extensão planeada os eixos das avenidas da República e da Almirante Reis (através do Campo Grande e da Alameda-Areeiro), que anteriormente definiam dois sectores da cidade distintos e até com standards socioculturais antagónicos.”
De acordo com José Lamas “os bairros de Alvalade e do Areeiro resultam da política desenvolvimentista de Duarte Pacheco – de expansão planeada de Lisboa em terrenos expropriados, livres de restrições fundiárias e com forte controlo público e municipal. Simultaneamente, deveriam resolver problemas habitacionais, descentralizar serviços e população para a periferia e aproveitar o espaço compreendido entre eixos viá­rios importantes, criando novas estruturas de circulação”.(19)
Faria da Costa projecta o pequeno e experimental Areeiro e o grande Alvalade numa sequência natural:
- O Areeiro foi planeado em 1938, para 9.000 habitantes, com 2.680 fogos, em 32 hectares e foi construído em duas fases, anos de 1940 e 1948.
- Alvalade foi iniciado em 1945, para 45.000 habitantes em 12.000 fogos, ocupando 230 hectares e três anos depois, em 1948, estava já parcialmente concluído.
Como salienta Lamas, Areeiro e Alvalade são exemplos de equilíbrio entre cidade tradicional e princípios da urbanística moderna; funções e equipamentos bem distribuídos, hierarquização viária, interiores de quarteirão tratados por vezes como espaços comuns. (20)
E José Lamas faz uma síntese da arquitectura urbana dos Alvalades:
“Todo o bairro se organiza através de tipologias urbanas precisas: as vias, que se hierarquizam em avenidas, ruas, impasses e caminhos/veredas de peões; as praças e largos localizados no cruzamento de vias; os quarteirões, lugar de disposição dos edifícios, são utilizados no seu interior como zonas de jardim, estacionamento e equipamentos (há no entanto bastantes casos de interiores de quarteirão que, não tendo sido arranjados, foram «privatizados» pelos moradores); os passeios de dimensão hierarquizada; contínuos arborizados e verdes de canteiro e filas de árvores em caldeiras; edifícios repetitivos, de fachadas controladas em ordem e unidade arquitectónica, só enfatizados nos cruzamentos e gavetos, marcando as intersecções com praças e espaços mais significantes”. (21)
Outras são as inovações que se podem destacar: aplicação de princípios da unidade/célula de vizinhança, com raios de influência de equipamentos de uso diário máximos de 500 metros a partir da habitação e sem obrigar a cruzar grandes vias de tráfego; concentração nestas vias de sequências de comércio e serviço que delimitam as células; articulação da habitação com a pequena indústria não poluente, criando uma muito rica e eficaz amálgama de funções citadinas.
“Alvalade nunca seria um bairro-dormitório, já pela mistura e complementaridade de funções, já pela densidade habitacional e conjunto de equipamentos e serviços, já pelas formas urbanas adoptadas”. (22)
Os exemplos (os “mistérios”) dos Alvalades tiveram quase nula continuidade, e não se julga que a experimentação do funcionalismo chegue para explicar tal facto; até porque o próprio Alvalade integrou, e muito bem, as primeiras soluções dessa modernidade, caracterizadas por uma evidente qualidade: em vários troços da Avª EUA, no Bairro das Estacas, na Avª Rodrigo da Cunha e em parte da Avª do Brasil; blocos paralelos, alguma descontinuidade edificada, zonas térreas vazadas e amplos espaços pedonais.
Não podemos deixar de concordar com José Lamas, quando este autor afirma que os exemplos de Areeiro e Alvalade integram o que de melhor e mais qualificado permanece em Lisboa, designadamente, em termos de equilíbrio entre cidade tradicional e urbanismo moderno.





4.4 Objectivos e programa – Alvalade o 1º Plano Integrado

Alvalade foi “front runner” do plano director de 1949 e resultou da necessidade de se fazer habitação em quantidade, logo com modelos de fácil execução, baratos e suportando um certo grau de variação de tipos de fogos. (23)
A grande extensão do plano levou a uma diversificação da sua morfologia evitando-se ambiente monótono, pela associação de uma forte escala humana, caracterizando oito pequenas zonas de reforçada vizinhança próxima, com uma assinalável separação entre circulação estruturadora e acessos locais.
Situado entre 3 eixos rodoviários com importância citadina(N, Avª do Brasil; E, Avª Gago Coutinho; W, Campo Grande), Alvalade foi desde sempre considerada como área crucial de desenvolvimento de Lisboa, a desenvolver com objectivos de: (i) resolução genérica de falta de alojamento; (ii) realojamento de pessoas habitando zonas de renovação urbana (exº Martim Moniz); (iii) descentralização de serviços e (iv) resolução de problemas de circulação.
Limites: N, Alferes Malheiro/Avª do Brasil; E, Avª A. Gago Coutinho, prolongamento Avª Almirante Reis até à Rotunda do Aeroporto; S, linha férrea de cintura e conjugação por continuidade com o Plano do Areeiro; W, Avª da República (a Entrecampos) e Campo Grande.
Habitações/45.000: 31.000 “colectivas” económicas; 9.500 “colectivas” de renda não limitada; 2.000 unifamiliares de renda económica; 2.500 unifamiliares de renda não limitada. Numa mistura social que é, sem dúvida, outro dos “mistérios” dos Alvalades e que hoje está aí na ordem do dia como um dos principais factores da tão referida sustentabilidade.
A tipologia edificada “colectiva”/multifamiliar tinha vindo a ser tecnicamente validada, e assim, “em vez de casinhas mais ou menos unifamiliares, agrupadas em torno de uma pequena igreja protectora, em vez destas aldeias que espalhava pela periferia das cidades, o regime orienta-se, agora, para o projecto de grandes bairros, situados nas áreas de expansão imediata dos grandes centros urbanos” (24)
Alvalade é o primeiro plano de urbanização realizado na sequência do plano «De Groer», por iniciativa camarária, podendo ser considerado como o 1º Plano Integrado. (25)
O espaço é estruturado por uma rede de arruamentos principais, Av. E.U.A., Av. de Roma e Av. da Igreja, que o articulam com os importantes arruamentos limítrofes da Av. do Aeroporto e Campo Grande, e o dividem em oito células funcionais, onde, além da habitação, se integram, em total continuidade física e de imagens, todos o tipos de equipamentos urbanos (desde zonas industriais a grandes equipamentos sociais e desportivos, como é o caso do Parque do INATEL). (26)
A construção foi entregue às Caixas de Previdência ou à indústria privada, mas com projectos-tipo e controlo municipais e destinando-se a renda limitada. Outra opção possível foi a venda de lotes com projecto livre, essencialmente nas Avenidas.






4.5 A oportunidade de Alvalade; a dimensão em arquitectura urbana

Como indica Nuno Portas, nos nossos anos 30, é a reduzida intervenção dos arquitectos portugueses nos problemas urbanos e assinalável o convencionalismo com que o fazem. (27)
E, tal como aponta aquele autor, mesmo depois de Duarte Pacheco ter estendido a todas as principais zonas urbanas a exigência de elaboração de «planos de urbanização», carências técnicas de vária ordem continuam a afastar “os principais técnicos nacionais dos primeiros estudos urbanísticos, fosse porque os arquitectos estavam ocupados com os grandes edifícios públicos e os engenheiros com as infra-estruturas, fosse porque essa forma de intervenção, nova nos métodos e nos objectivos, estava longe das preocupações teóricas e práticas dos profissionais modernos”. (28)
Entre as excepções a esta regra contam-se, por um lado, alguns «bairros sociais» tradicionalistas (exº pseudocidade-jardim da Encarnação), e por outro os conjuntos citadinos do Areeiro e de Alvalade (“os Alvalades”), que, como indica Nuno Portas, seguem “um vector realista, afastado das teses do CIAM mas apegado aos meios operacionais e construtivos disponíveis”. (29)
Mas mesmo dentro deste vector realista e, como também reconhece Portas, “entre os primeiros projectos, discretos e correctos, para malhas de rua-quarteirão e pracetas de moderada altura e ambiente controlado e os já dos anos 50, com grandes blocos isolados, há no entanto um salto arriscado, pela transposição de modelos «de fora» do urbanismo do «bloco-parque» para as margens acanhadas de avenidas ...”. (30)


Há assim, também, uma fundamentada e estimulante inovação arquitectónica nos Alvalades, mais um dos seus “mistérios”.
Notas:
(3) José M. Fernandes p. 495
(4) Vista geral do conjunto do Instituto Superior Técnico, ainda em acabamento, nos inicios da década de leso (pro. de Pardal Monteiro, 1927-35): vêem-se os movimentos de terras para prolongamento das avenidas até a futura Alameda D. Afonso Henriques e, ao fundo. um troço da antiga rua do Arco do Cego, interrompido pela nova expansão planeada. Á direita, o Incompleto bairro social do Arco do Cego, esforço urbanizador, sem continuidade, da Iª República (1919) (in Cassiano Branco Uma Obra pera o Futuro, ed, CML. 1991) 499 jmf
(5) José-Augusto França (Arte em P.) p. 237
(6) José Lamas p. 281
(7) José-Augusto França (Arte em P.) pp. 238/9
(8) José M. Fernandes p. 500
(9) José M. Fernandes p. 501
(10) José M. Fernandes p. 502
(11) José-Augusto França (Arte em P.) p. 253
(12) José-Augusto França (Arte em P.) p. 254
(13) José-Augusto França (Anos Quarenta…) p. 27
(14) Patrícia Miguel; Jorge Leal
(15) José-Augusto França (Arte em P.) p. 241
(16) José-Augusto França (Anos Quarenta…) p. 128
(17) José Lamas p. 281
(18) José M. Fernandes p. 502
(19) José Lamas, p. 284
(20) José Lamas, p. 284
(21) José Lamas, p. 286
(22) José Lamas, p. 286
(23) José Callado, p. 39
(24) Fernando Gonçalves, p. 65
(25) GUAL, p. 36
(26) GUAL, p. 36
(27) Nuno Portas. P. 725
(28) Nuno Portas. P. 727
(29) Nuno Portas. P. 728
(30) Nuno Portas. P. 731
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Editado por José Baptista Coelho, em 10 de Janeiro de 2008