domingo, junho 08, 2008

200 - Novas formas de habitar (II): Unidades residenciais - António Baptista Coelho - Infohabitar 200

 - Infohabitar 200


Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (II) – desenvolvimento dos aspectos urbanos e arquitectónicos de enquadramento para pequenas unidades residenciais


Artigo de António Baptista Coelho


Continua-se neste artigo uma proposta informal de apresentação e de desejável discussão útil sobre o as características urbanas e arquitectónicas de enquadramento para pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados, que se defende posam ser integradas em zonas urbanas vitalizadas e “centrais”. Sublinha-se que esses grupos sociais têm, cada vez mais, uma presença significativa na nossa sociedade e continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais, seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente às suas condições de integração na cidade e de potencialidades para a respectiva animação local. Aborda-se, assim, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos ou estúdios e por um conjunto diversificado de serviços comuns, privativos dos respectivos residentes e/ou abertos para o serviço a toda a comunidade local, considerando-o nas suas urgências e potencialidades, cada vez mais evidentes, seja do ponto de vista dos seus principais utentes, seja na perspectiva do seu evidente e importante papel como elementos de vitalização da cidade.


Volta a salientar-se que a ordem de abordagem desta matéria, neste artigo tem e terá alguma flexibilidade, podendo voltar-se em textos futuros a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, desde já, com algumas considerações mais objectivas.






Fig. 01: Alvalade, Lisboa

Fig. 02: Alvalade, Lisboa

Grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes está num tecido urbano com continuidades afirmadas, atraentemente diferenciado, mas não especializado e que leve a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona remansos “domésticos” bem dentro das zonas citadinas mais animadas; e esta é uma matéria muito importante para a criação de pequenas unidades residenciais urbanisticamente bem integradas, pois, desta forma, a cidade irá ao encontro delas em termos de acessibilidade e imagens e a cidade oferecerá, no seu seio, condições complementares de estadia, de convívio e mesmo de relativa privacidade, no meio da animação urbana, relativamente às condições afins que as próprias unidades residenciais possam disponibilizar.

E somos cada vez mais idosos com preparação e gostos diversificados, capazes de uma assinalável dinamização de múltiplas actividades urbanas e culturais e, por outro lado, mas confluindo numa perspectiva de dinamização citadina, cada vez mais é maior o número de pessoas ligadas a uma grande diversidade de nichos e sub-niclos de actividades que encontram num meio urbano física e socialmente denso o melhor conjunto de locais para a respectiva implantação; e neste segundo grupo de citadinos há, naturalmente, uma assinalável fatia de jovens que vivem a cidade com autonomia.




Fig. 03: Alfama


De certa forma poderemos voltar a pensar na “cidade central” como ela foi, uma espécie de grande casa, que associava as casas de habitar e as casas de trabalho dos cidadãos; embora esta recorrência tenha, naturalmente, muito a ver com um conjunto de actividades diversificadas, sim, mas razoavelmente unificadas em termos de uma cultura urbana que está com a cidade específica em que se situa e mesmo com um dado bairro específico dessa cidade, mas que está, também, naturalmente, com a nossa cultura global que hoje está bem presente um pouco por todo o lado e, designadamente, bem ao nosso lado, bem próxima, no sítio de trabalho e no sítio de residir.


Há, assim, que sublinhar que a animação e a vitalidade urbanas estrategicamente dinamizadas, reguladas e disseminadas constituem um elemento fundamental para o melhor habitar de todos nós e são aspectos determinantes para uma vivência estimulante da cidade por parte de pessoas sós e pequenos agregados familiares, constituindo estes grupos de habitantes, reciprocamente, uma faixa de utentes privilegiadamente protagonista de muitas das actividades animadas e desejavelmente criativas daquelas cidades que, hoje em dia, se desejam criativas.




Fig. 04: Cooperativa Coobital, Alto de Santo António, Faro, 1991, Arq. José Lopes da Costa, Arq. Pais. José Brito


De certa forma o que podemos aqui ir concretizando é o interesse que terá um reconformar de partes da nossa cidade num sentido de uma maior humanização, uma humanização que não desfaça o sentido urbano e, até, eventual e pontualmente, cosmopolita da cidade, mas que a aproxime de um sentido de “casa comum”, onde cada pessoa, cada peão, use a rua e praça num natural e relativo prolongamento das suas condições domésticas. Uma condição que terá, sempre, excelentes consequências em termos da hoje tão necessária reconviviliazação entre quem habita a cidade e uma condição que hoje encontra naturais alianças em múltiplos aspectos que vão até ao privilegiar de meios de deslocação amigos do ambiente e ao apoio coerente a um turismo com qualidade e verdadeiramente amigo dos locais e da sua caracterização e vivência.


E tenhamos presente que tudo isto tem tudo a ver com os grupos socioculturais que, como aqueles de que acima se falou, têm mais tempo para a cidade e/ou mais fazem da cidade o seu sítio de habitar integrado (trabalho e residência); e a esta matéria do habitar integrado voltaremos mais à frente e em outros artigos da série, pois ela muito tem a ver com o motivo prático que aqui nos concentra, que é a integração de pequenas unidades residenciais em meios urbanos vitalizados.

Um outro aspecto que merece uma atenção específica nesta matéria, que no primeiro artigo foi apenas abordada de forma ligeira e cujo adequado desenvolvimento terá ainda de ficar para futuros textos, é a questão das essenciais acessibilidades urbanas diversificadas e bem qualificadas, que devem caracterizar qualquer zona residencial, mas que devem ser altamente eficazes e desejavelmente melhoradas em termos de conforto no uso em zonas que sirvam unidades residenciais e especificamente quando estas unidades residenciais tenham uma vocação especial para estudantes e especificamente para idosos; é que se tal não acontecer estão a criar-se verdadeiros guetos, ainda que, eventualmente, luxuosos em termos de condições residenciais específicas.

Um outro aspecto importa ter em conta, de forma específica, quando nos dedicamos a estas matérias das unidades residenciais, é que para habitar a cidade com relativa intensidade é evidente que temos de facilitar, ao máximo, e mesmo de nos “libertar”, um pouco, de muitas tarefas domésticas mais “mecânicas” ou repetitivas e, ao fazê-lo, acabamos por estar a disponibilizar actividades para outras pessoas encontrarem os seus nichos de actividade e de trabalho, o que é também uma consequência positiva em termos sociais, até porque tais actividades podem, assim, adquirir uma perspectiva cada vez mais profissional e dignificada – pensa-se em todas as actividades de apoio ao funcionamento de uma habitação e que possam ser prestadas, num regime de “menu” de oferta e em opção de total liberdade de escolha, nas unidades residenciais. E é evidente o interesse que tais ofertas poderão ter quando dirigidas para jovens e idosos vivendo sós.




Fig. 05: Residência de estudantes, Universidade de Aveiro, Arq. Adalberto Dias.


Ainda um outro aspecto que nunca será excessivo salientar é a oportunidade, que não pode ser perdida, por parte destas “novas” estruturas de residencialidade, que agregam um número significativo de pequenos fogos e estúdios mínimos, e que, portanto, congregam um número significativo de moradores, de associarem ao habitar – considerado numa perspectiva limitada de abrigo em condições funcionais positivas, quer domésticas, quer urbanas, como atrás se defendeu – outras valências que realmente qualifiquem o habitar como algo que possa enriquecer os seus habitantes, designadamente, em termos conviviais e culturais.


Já no passado artigo se falou, um pouco destas matérias, que se julgam muito importantes, e que têm, simplesmente, a ver: quer com uma oferta de condições disponibilizadoras de oportunidades de convívio comum, entre os moradores de cada unidade, e alargado, considerando a já defendida e afirmada integração da unidade na sua parte de cidade respectiva; quer com o aproveitamento da gestão comum da unidade para, além da disponibilização de um menu de serviços funcionais e de apoio doméstico, poder-se disponibilizar um menu de actividades de cariz cultural, actividades estas naturalmente alargadas a muitas outras pessoas que não apenas os residentes, mas que poderão nestes encontrar um interessante núcleo-base de dinamização.


Já se referiu e volta a indicar-se que nada disto tem a ver com qualquer tipo de tendência para qualquer tipo de indicações relativas a participações com carácter “obrigatório”, mas apenas a disponibilização de condições e de serviços que podem vir a estimular relações de convívio entre residentes e entre residentes e outras pessoas (ex., um ginásio com gestão autonomizada, uma biblioteca municipal com uma zona de estar/”café”e , mesmo, um simples “café de esquina” que poderá ter uma esplanada) e oportunidades de vivência cultural, que, por vezes, não sucedem por falta de informação e/ou de estímulo humano (ex., oferta regular de guias/agendas culturais e de actividades e eventuais serviços que periodicamente disponibilizem visitas diversificadas e minimamente organizadas, serviços estes que poderão aproveitar e mesmo ajudar a rentabilizar a respectiva estrutura de gestão local).


Naturalmente, se entre os habitantes de uma dada unidade residencial houver interesse no desenvolvimento de outros serviços comuns, mais activos, deverá haver alguma flexibilidade espacial e funcional para o respectivo apoio, e não deverá acontecer que não se possam aprofundar tais possibilidades, apenas, por manifesta impossibilidade física.



Fig. 06: uma intervenção da C. M do Funchal, no Caminho da Penteada, 2001, com projecto coordenado pela Arq.ª Susana Fernandes, em que uma antiga moradia com reconvertida e equipada, em termos de acessibilidades, para uma unidade residencial com oito pequenos fogos/estúdios T0, cada um deles com um único grande compartimento para estar, dormir e cozinhar, e, naturalmente, com casa de banho privativa, tendo havido ainda cuidados específicos com a mobilidade/funcionalidade no interior de cada fogo.


Em outros artigos desta série se falará, um pouco mais, sobre a articulação destas “novas” formas de habitar com as formas de habitar mais correntes e com a cidade, que desejamos, equilibradamente densificada e atraente em termos de imagens e de actividades; e se falará, também, do eventual protagonismo que estas “novas” formas de habitar poderão começar a ter nas nossas mega-cidades e, também, mesmo, sobre a “novidade” destas formas de habitar, mas, para já, e tal como prometido, vamos apenas avançar, um pouco mais, nos aspectos arquitectónicos que as caracterizam conjuntos integrados de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, e que, de algum modo, são responsáveis por boa parte dessa “novidade” (a ordem de apresentação é, ainda, um pouco arbitrária):

. No que se refere à caracterização dos respectivos habitantes, já se referiu julgar-se que estes poderão ser juniores e seniores, nos mesmos conjuntos ou em conjuntos distintos ou em zonas distintas dos mesmos conjuntos; há, nesta matéria, uma tendência para uma relativa especialização, no entanto tudo o que faça estas unidades distintas de uma normal mistura social citadina tem riscos, embora também haja riscos nesta integração. Portanto, talvez uma opção por uma integração “graduada” e muito bem gerida seja a opção, e, naturalmente, quanto menor for cada unidade, quanto mais simples será a sua normal integração urbana “ao longo da rua”.


. A importância de uma positiva integração que contribua para a continuidade e caracterização urbana da vizinhança em que se situa; integração esta que se deverá articular, sempre que possível, com a associação de equipamentos colectivos que sirvam toda a comunidade local/vizinhança urbana, sendo importante que estes se abram, claramente, à cidade/vizinhança, articulando-se com os respectivos espaços públicos.
. O interesse de se poderem associar em cada programa, e de acordo com as características de cada local, valências de uso de espaços exteriores contíguos ao edificado; de certa forma esta é uma condição que vale por si, naturalmente, pois podermos habitar o exterior residencial é algo de positivo (ex., pequeno jardim, esplanada, etc.), mas vale também numa perspectiva de maior animação urbana local e de maior visibilidade dessa mesma animação, associada seja à entrada da unidade, seja aos seus eventuais equipamentos associados.

. No que se refere à imagem urbana que caracterize a unidade, ela tem de se caracterizar por total integração, dignidade, alguma representatividade e sentido residencial/doméstico. E havendo equipamentos que interessem à “cidade” eles têm de ser devidamente mostrados à “cidade” e não parecerem como que escondidos e com uma caracterização ambígua em termos do seu uso. Nestas matérias a questão da aparência da escala da nova intervenção poderá mesmo levar a uma sua partição aparente de modo a conjugar-se melhor com a envolvente.


. No que se refere a uma opção por mínimos de habitabilidade na concepção das células residenciais, a ideia é que essa deve ser uma preocupação, desde que confluente com outras e designadamente ligadas a funcionalidade, conforto ambiental (ex., luz natural, ausência de ruído, ausência de humidade) e capacidade de apropriação. A ideia é que uma célula de unidade residencial poderá ser espacialmente mínima se for funcional, agradável e apropriável; e, por vezes, até em espaços desafogados não há essas outras qualidades.



Fig. 07: espaços comuns com agradável luz natural num conjunto habitacional cooperativo da Caselcoop, Caselas, Lisboa, Arq. Justino Morais.



Fig. 08: apropriação nas entradas dos fogos do mesmo conjunto em Caselas.

. No que tem a ver com o desenvolvimento dos espaços comuns, chama-se a atenção para a importância da agradabilidade ambiental e de redução, ao máximo, de quaisquer aspectos de constrangimento entre vizinhos. Nestas matérias a disponibilização de luz natural e de adequada ventilação, a equilibrada espaciosidade e a possibilidade de uma relativa apropriação ou marcação das zonas contíguas às portas privadas, são aspectos a salientar.


. Ainda no que se refere aos espaços comuns importa sublinhar o interesse e a sensibilidade que deverão revestir o seu tratamento, designadamente, em termos de carácter residencial, dignidade e consenso relativamente aos diversos gostos dos habitantes.

. Nestas matérias de caracterização dos espaços comuns há que tratar muito bem a zona de recepção e entrada, conciliando o interesse de uma centralização de serviços e de uma eventual presença de serviços de recepção e gestão com um máximo de privatização e autonomia das entradas/saídas na unidade residencial, com excelentes condições de dignidade e agradabilidade e com a disponibilidade de opções conviviais expressivamente facultativas.


. Globalmente, salienta-se o que se poderá referir como uma equilibrada capacidade de naturalização, seja por relação com espaços e elementos “verdes” (vegetação), previstos em termos globais, seja com a capacidade de integração de elementos “verdes” (vegetação), pelos habitantes, constitui um importante factor de identidade, apropriação e mesmo de atractividade e satisfação.


. Interesse na disponibilização e disseminação estratégica de alguns espaços comuns minimamente equipados, capazes de apoiarem o convívio informal, mas não intrusivos da circulação corrente no edifício e da privacidade no acesso aos fogos/estúdios. Está a pensar-se, não em salas de convívio, mas em recantos de paragem e estadia eventual, por exemplo, num alargamento de um patim de escada.. Consideração de equipamentos comuns exclusivos dos residentes numa base que privilegie os mais desejados pela maioria e os menos intrusivos da vivência privada de cada célula habitacional; esta previsão poderá ser realizada, seja com recurso a espaços e equipamentos próprios da unidade residencial, seja por centralização, na unidade, de serviços exteriores à unidade (ex., lavandaria e engomadoria).. Desenvolvimento de condições que apoiem uma máxima flexibilidade na afectação de um amplo leque de potenciais serviços comuns à sua utilização privada.. Deve visar-se um sentido de apropriação e de identidade de cada célula/habitação no conjunto da intervenção.

. Deve ser privilegiada a diversidade de células habitacionais, seja em termos dimensionais, seja em termos de funcionalidade, seja em termos de capacidade de apropriação interior e de disposição de mobiliário.


. A entrada de cada fogo/estúdio deve caracterizar-se, quer por condições de identificação, no uso dos espaços comuns, quer por condições de privacidade interior na relação com esses espaços comuns.


. Cada célula/habitação deve caracterizar-se, interiormente, por uma máxima capacidade funcional, propiciando diversidade e facilidade de tarefas domésticas, bem como a disponibilidade de algum espaço expressivamente livre.


. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de conforto ambiental e designadamente: condições especiais de isolamento acústico entre células habitacionais e no interior de cada célula habitacional; condições de luz natural, insolação e sombreamento; condições higrotérmicas e de ventilação contínua.


. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de uso e designadamente: a máxima capacidade de apropriação de cada célula/habitação por cada habitante ou agregado familiar; o equilíbrio entre a referida capacidade de apropriação e existência de um número significativo de equipamentos e elementos fixos de mobiliário pré-instalados; a consideração objectiva de boas condições para o trabalho em casa (não doméstico); e a existência de condições adequadas de arrumação (diversificada e estratégica), no interior do fogo (que poderá ser articulada com condições de arrumação fora do fogo).


Fig. 9: o “arrumar” de uma zona de trabalho “aos pés” da cama.

Fig. 10: o “arrumar” de uma zona de quarto.


. Importa dirigir uma atenção específica a um desenho arquitectónico da célula residencial de tal forma cuidado que harmonize áreas reduzidas, com adequada disponibilidade de áreas livres, capacidade/flexibilidade de mobilar/decorar e diversidade de usos dos espaços criados. A ideia é que a solução ofereça, simultaneamente, três capacidades: uma apropriação adequada com um mínimo de “móveis” introduzidos pelos habitantes; a possibilidade da introdução de alguns elementos de mobiliário e outros elementos de decoração fortemente apropriadores e em locais estratégicos do fogo; e uma boa possibilidade de mutação de tipos de arranjos de mobiliário. Com este tipo de objectivos será conseguida uma maior adequação e apropriação de cada arranjo doméstico.


Fig. 11: uma pequena mas cuidada cozinha.

. Um outro aspecto que é de grande importância é a capacidade da solução em termos da oferta ou do acolhimento de opções de arranjo interior muito cuidadas e atraentes, que, de certa forma, amenizem ou compensem a “falta de espaço” com o desenvolvimento de um muito agradável, “envolvente” e caracterizado ambiente doméstico; e aqui há um problema potencial a considerar que é a eventual falta de capacidade económica dos moradores para contribuírem para uma solução deste tipo, e aqui haverá caminhos a fazer em termos de pré-equipamento e de enquadramento de formas simples de arrano pelos moradores (ex., algum equipamento fixo e paredes onde seja simples realizar uma composição “dinâmica” com cartazes que se vão colocando e periodicamente substituindo).

. Pode ser ainda considerado o interesse no desenvolvimento de uma estrutura de projecto que possibilite a associação ou separação de células habitacionais, conforme a evolução das necessidades habitacionais; proporcionando-se a maior fragmentação com unidades mais pequenas ou a sua associação em unidades maiores.


. Quanto aos espaços com uso alargado eles deverão cumprir as respectivas exigências de programa, embora possa desenvolver-se uma atenção específica na sua relação com a unidade residencial.


. Quanto aos espaços comuns da unidade residencial que sejam desenvolvidos com valências específicas (ex., estar, reunir, jogar, trabalho não doméstico, apoio a trabalhos domésticos, gestão local, etc.), eles dependerão muito do programa que se adopte em cada solução, no entanto há aspectos fundamentais a considerar que têm a ver com a existência de condições dimensionais, visuais, de equipamento e de acesso adequadas a essas actividades:
- seja na relação autonomizada, mas bem articulada, com a estrutura dos acessos aos fogos/estúdios;
- seja na compatibilização das actividades previstas entre si; seja na possibilidade, que se julga positiva, de tais actividades poderem acolher pessoas exteriores à unidade;
- seja, finalmente, na possibilidade desse leque de actividades poder ser escolhido em interacção com os próprios habitantes, uma condição que implicará flexibilidade e adaptabilidade espacial.

Poderemos ter, assim, portanto, um amplo leque de possibilidades, mas há três aspectos que, desde já, se salientam nesta matéria, sendo um deles a certeza que terá de haver grande realismo financeiro e de gestão nestas previsões, sendo o outro que não haverá qualquer actividade comum se não existirem espaços e equipamentos adequados, e o último aspecto tem muito a ver com isto e refere-se à certeza de que os habitantes só tenderão a frequentar espaços comuns muito bem posicionados, dimensionados e equipados, caso contrário irão sempre preferir a privacidade da sua célula, mais ou menos, à frente do seu televisor ou monitor.


Muitas outras matérias decorrerão do programa específico de cada intervenção (ex., maior ou menor desenvolvimento dos serviços comuns e dos serviços abertos à comunidade), ou serão tratadas de forma idêntica a qualquer intervenção residencial (ex., garagem colectiva).Para concluir este artigo sublinha-se, novamente, o verdadeiro potencial que as cooperativas de habitação proporcionam na programação e na gestão corrente de unidades deste tipo, associando, suplementarmente, aos serviços do habitar, mais específicos, todo um outro conjunto de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas culturais.
8 de Junho de 2008, Encarnação – Olivais Norte, LisboaEditado no Infohabitar, em 8 de Junho de 2008, por José Baptista Coelho

segunda-feira, junho 02, 2008

199 - Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (I) - António Baptista Coelho - Infohabitar 199

 - Infohabitar 199

Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (I) – uma introdução à oferta de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais

um artigo de António Baptista Coelho

O que se pretende com esta nova série de textos é apoiar o desenvolvimento e abrir alguma discussão útil sobre o enquadramento de pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados – grupos sociais que cada vez mais têm uma presença significativa e que continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais – , seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente ao papel que tais unidades poderão ter na urgente vitalização de zonas urbanas centrais.

Aborda-se, portanto, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos, considerando-o nas suas urgências e potencialidades, cada vez mais evidentes, seja do ponto de vista dos seus principais utentes, seja na perspectiva do seu evidente e importante papel como elementos de vitalização da cidade.



Fig. 01

Anota-se, também, desde já, que a ordem de abordagem desta matéria terá alguma flexibilidade, podendo voltar-se em textos futuros a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, desde já, com algumas considerações mais objectivas.

Já aqui se falou, e está disponível em artigos do Infohabitar, de uma sociedade cada vez mais envelhecida e designadamente de uma sociedade urbana cada vez mais idosa e constituída por muitas pessoas que vivem sós. Já aqui se abordou, várias vezes, ainda que não de uma forma suficientemente objectiva e clara a tendência, que hoje em dia existe, de cada um de nós cada vez mais se fechar entre as paredes do seu quarto, da sua casa e entre os contornos, mais ou menos vastos e estimulantes, do seu mundo informatizado. E se nos lembrarmos de todo um enquadramento sócio-mediático que estimula o nosso individualismo, então devermos juntar a esses aspectos uma tónica de urgente reequilíbrio do actual modo de vida padrão super-individualista, com uma renovada vivência urbana convivial que bastante longe nos levaria – mas nem precisamos de ir por aí, para já, para apresentar o que se pode designar como as vantagens, pessoais, familiares e urbanas de algumas novas formas de habitar.

Lembremos, ainda, que tudo isto tem a ver, directa e indirectamente, seja com condições de habitar que proporcionem determinadas condições de conforto e de funcionalidade, seja com as outras condições de habitar, mais amplas, mas igualmente objectivas, ligadas ao desenvolvimento de oportunidades de vizinhança activa ou de acompanhamento e, naturalmente, de prolongamentos mais urbanos dessas mesmas condições de vizinhança. E lembremos, também, que nada nestas condições tem a ver com soluções especialmente caras e exigentes em determinados serviços, tem sim a ver com qualidade e exigência no projecto e na promoção.



Fig. 02

Nesta altura do raciocínio podemos lembrar que uma tal oferta de condições de habitar, que devem ir do nosso sítio doméstico mais privado aos sítios, por nós, relativamente “apropriados” nas cidades que habitamos, são idênticas quer estejamos integrados numa grande família alargada, quer vivamos sós na grande cidade; e esta é uma afirmação em boa parte verdadeira, e tem de o ser para que a cidade seja por nós vivenciada com agradável naturalidade, mas há aspectos de diferenciação, entre as duas situações, sobre as quais importa reflectir e sobre os quais poderemos intervir em termos de condições alargadas de habitar, vejamos então:

Uma família alargada é um grupo social coeso que pode actuar em entreajuda para além de garantir a fundamental companhia diária, uma companhia que é tão efectiva e, potencialmente, afectiva, seja quando há convívio real, seja quando as pessoas estão sós, nos seus quartos, nos seus recantos mais pessoais, ou ausentes de casa no trabalho ou no lazer; pois, afinal, a família está sempre “ali” potencialmente presente e o seu convívio renova-se numa base diária. E se as condições de habitar forem minimamente adequadas em termos funcionais e de caracterização residencial e urbana tenderá a haver, naturalmente, uma satisfação em termos de equilíbrio entre privacidade e convívio, identidade pessoal e sentido – e mesmo alguma identidade – de grupo, expressão da vontade própria e vantagens funcionais e afectivas do grupo em que se vive. Trata-se de ideias que são, um pouco lugares-comuns, bem o sei, mas julgo serem ideias que convém lembrar antes de passar a uma segunda fase da reflexão.

Pensemos agora numa pessoa só, num jovem que vive só, por exemplo, e vejamos como não se aplicam essas possibilidades e imaginemos que, cumulativamente, ele para conseguir viver só, mas com autonomia, vai ter, actualmente e frequentemente, de ir habitar periferias afastadas do sítio onde trabalha e do centro da cidade onde se situam muitos dos equipamentos que gostaria de utilizar, e se os utilizar vai ter de gastar muito tempo e dinheiro em deslocações, e se mudar de trabalho e de sítio de trabalho vai ter, provavelmente, de cumprir uma nova via-sacra de complicações até conseguir resolver uma nova forma de habitar minimamente equilibrada, e julgo que a verdadeira qualidade de habitar, aquela que lhe iria permitir uma vida activa muito mais motivada, será sempre uma qualidade que ficará apenas como sonho, pois a resolução razoável desse “problema” é que será o objectivo – um objectivo quase sempre concretizado em mais uma outra periferia dormitório, mal servida de transportes públicos e, por exemplo, sem condições de animação local e sem qualquer vida cultural.



Fig.03

Se fizermos um exercício idêntico para os idosos que vivem sós, ou mesmo para casais de idosos que vivam sós, a situação tem muitos pontos comuns em termos de faltas dos mais diversos tipos de apoios a um habitar mínimo – por exemplo um habitar marcado pelas idas normais às compras necessárias à vida doméstica –, pois lembremos os tantos sítios tão afastados de transportes públicos minimamente eficazes e tão distantes de locais urbanos com os equipamentos diários mínimos. Mas como o habitar não é apenas o “vegetar”, diariamente, entre as refeições e a televisão, então se imaginarmos a dificuldade de acesso que muitos idosos vivendo sós têm a outras condições de vida em termos de acesso ao lazer diário e eventual (do ir ao “café”, ao ir ao cinema) e no que se refere ao acesso às diversas formas de cultura (desde a compra de um simples jornal diário, à ida a uma livraria e à participação numa conferência e numa visita guiada), então teremos um retrato de uma situação existente muito negativa e infelizmente muito generalizada no nosso país; e basta um simples exercício de memória em zonas que cada um conhece para perceber a realidade desta situação.

E não vale a pena dizer que certas pessoas têm outros hábitos de vida, isso é sem dúvida verdade, mas também é verdade que não têm acesso a muito daquilo que o nosso mundo hoje nos oferece, e neste caso porque são idosos, são menos capazes de se deslocarem, têm reduzidos meios financeiros e vivem isolados. Sei que fiz aqui uma generalização muito incompleta, mas julgo que retratei uma realidade que hoje em dia marca o país.

Os jovens que vivem sós nas tais periferias dormitório têm como principal diferença a sua maior vitalidade e capacidade de deslocação autónoma, mas atenção que as deslocações em veículo privado podem qualquer dia ter de ser programadas com grande parcimónia.



Fig.04

Um retrato foi feito de jovens e idosos, basicamente sós, vivendo em periferias pouco equipadas, mas lembremos que, por outro lado, assistimos hoje em dia a muitos centros urbanos sem vida e construtivamente degradados, e, aliás, onde há muitos casos de idosos a viverem sós e, frequentemente, em más condições de habitabilidade.

Antes de passar à segunda e última parte deste artigo lembremos uma outra dimensão da vivência urbana, que é o seu potencial de criação de laços vizinhança, em termos de vizinhança próxima e de vizinhança “de bairro”e em termos de disponibilização de um verdadeiro manancial de ofertas citadinas, que vão desde a simples disponibilidade de modos de transporte, à rica diversidade de serviços dos mais básicos aos mais especializados (do café de esquina que é a nossa segunda sala de estar à livraria que marca, diariamente, um dado percurso, mesmo sem nada se comprar); uma diversidade que encontra na espiral de mundos citadinos uma ementa extremamente motivadora pelo leque de ofertas e pelo dinamismo das ofertas. E lembremos que as pessoas sós estão muito disponíveis para tais ofertas, e lembremos que tanto os juniores como os seniores são os principais actores dessa especialização urbana, seja nos primeiros passos da especialização, seja no aprofundar cuidadoso e exigente dessa mesma especialização.

E lembremos, por fim, nesta matéria, que é de um tal movimento, marcado pela diversidade de acções e de protagonistas, que se faz boa parte da riqueza e do interesse da cidade. Mas, para que assim aconteça, mais naturalmente, a cidade tem de estar habitada e esses protagonistas dessa vida citadina devem integrar-se na cidade de forma activa e, portanto, devem habitar a cidade, a cidade “central”, e não apenas a devem usar, por exemplo, em noites de fins de semana.

Podemos fazer um enquadramento amplo desta questão através de um texto de Luis Fernández-Galiano (1):

“O problema da habitação tornou-se o problema da cidade. Durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»...No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anorécticas… A habitação no é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”

Fernández-Galiano refere que “o chamado «problema da habitação»” terá passado da sua dimensão quantitativa para a qualitativa, uma afirmação que em Portugal não será para levar à letra, mas no entanto o que aqui se sublinha é exactamente, a habitação como uma questão de cidadania, a habitação que tem de fazer cidade viva, e a cidade que tem de ser uma cidade viva, sem centros e periferias mortas ou criticamente adormecidas; e para o ser a cidade tem de ser estratégica e naturalmente vitalizada por habitação.

Ora se associarmos esta fundamental necessidade às recentes reflexões sobre a possibilidade de se aceitarem, pontualmente, maiores densidades urbanas, desde que muito bem configuradas em termos de soluções de arquitectura urbana, poderemos visar um retorno do habitar à cidade “central”, retorno este que deverá servir todos os grupos socioculturais e etários, para que a cidade seja cidade verdadeira, mas um retorno que poderá e deverá apoiar, objectivamente, o habitar das pessoas sós e dos pequenos agregados familiares que, por um lado, podem encontrar na cidade viva uma parte significativa de um seu modo de viver verdadeiramente mais humano, funcional, enriquecedor, convivial e equilibrado, e que, por outro lado, são dos grupos sociais que mais podem fazer viver as vizinhanças, os bairros e os equipamentos da cidade, no seu dia-a-dia e na sua hora-a-hora.



Fig. 05


Escusado será dizer que serão as pessoas sós e os pequenos agregados familiares, mais jovens e mais idosos, aqueles que estarão mais disponíveis para uma tal vivência e que aí, na cidade viva, poderão encontrar as melhores condições para uma vida que valha a pena. Mas para tal há que disponibilizar condições em termos de associações de pequenos fogos, ou pequenas unidades habitacionais, integradas em conjuntos perfeitamente associados às respectivas vizinhanças urbanas, e que contribuam, objectivamente, para a melhoria da qualidade funcional, ambiental e de caracterização dessas mesmas vizinhanças.

Julga-se ser este o principal objectivo: vitalizar a cidade com novos habitantes e, especialmente, com habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização; e proporcionar o habitar a cidade viva a pessoas e pequenos agregados familiares para os quais tal possibilidade será um elemento fundamental na manutenção ou na redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária; no caso dos seniores o resultado será a contribuição para a manutenção da vitalidade individual, em termos físicos e mentais – e mesmo com excelentes efeitos na sua saúde –, enquanto no caso dos jovens o resultado centra-se na disponibilização de uma plataforma de apresentação do mundo urbano, e de apoio à sua introdução e início de vivência autónoma nesse mundo.

Os protagonistas e habitantes destes pequenos fogos poderão ser juniores e seniores, nos mesmos conjuntos ou em conjuntos distintos ou em zonas distintas dos mesmos conjuntos, tudo será possível e tudo deve ser possível numa perspectiva de máxima simulação de um meio urbano feito de naturais misturas sociais e etárias, mas, sempre, no respeito de regras claras e rigorosas que garantam que a liberdade de uns não afecte a de outros; e lembramo-nos, especificamente, de aspectos associados ao conforto ambiental e designadamente ao ruído, mas também haverá que cuidar de regras de vivência comum e de uso dos espaços comuns.

As formas de acesso a este tipo de unidades residenciais urbanas poderá ser diversificada, mas trata-se de uma solução muito adequada ao arrendamento, seja porque está muito ligada ao servir pessoas em períodos delimitados da sua vida, seja porque é uma solução em que o habitar pode caracterizar-se, muito claramente, como um serviço que é prestado em diversas valências que poderão ser contratadas nas mais diversas opções mais ou menos completas; por exemplo, desde apenas um quarto com recanto de cozinha e casa de banho, sem qualquer serviço associado, até o apartamento médio perfeitamente autónomo, mas em que os moradores contrataram um leque muito completo de serviços domiciliários e até associativos.

Uma reflexão e um aprofundamento sobre este tipo de soluções ficarão para próximos textos, no entanto, desde já, se aponta que, se quisermos pôr de pé esboços de soluções de habitar que sejam individual e socialmente válidas, todo e qualquer indício de “solução de alojamento institucional/izado” tem de ser totalmente abolido. Isto quer dizer que a solução a desenvolver tem de ser, básica e evidenciadamente, uma solução residencial com grande dignidade/sobriedade de imagem geral e uma solução de habitar marcada pela habitação de cada um e pelos serviços comuns; e nesta integração há que separar funções totalmente, porque se tem de admitir que haverá pessoas que não utilizarão os serviços comuns, devem ter essa liberdade; e porque os serviços comuns devem ser serviços úteis também à cidade e aos outros cidadãos, que deverão poder usá-los porque esses serviços terão funções e qualidades próprias que deverão justificar, plenamente, esse uso; e, assim, teremos uma nova peça urbana que servirá os seus habitantes específicos e o bairro/cidade onde se integrou e que veio valorizar em termos de diversificação de habitantes e de serviços oferecidos.



Fig.06, uma célula residencial mínima (i)



Fig.07, uma célula residencial mínima (ii)


Tudo isto que aqui se referiu tem muito de matéria de arquitectura, e nesta primeira reflexão sobre a oferta de conjuntos de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, e ainda na matéria de arquitectura importa, desde já, sublinhar, ainda que sumariamente, mais alguns aspectos que, muito provavelmente, voltaremos a tratar, com pormenor, em outros textos:

. a importância de uma positiva integração que contribua para a continuidade e caracterização urbana da vizinhança em que se situa;

. o interesse de se poderem associar em cada programa, e de acordo com as características de cada local, valências de uso de espaços exteriores contíguos ao edificado;

. a importância de se abrirem, claramente, à cidade os equipamentos integrados;

. o interesse e a sensibilidade que deverão revestir o tratamento dos espaços comuns, designadamente, em termos de carácter residencial, dignidade e consenso relativamente aos diversos gostos dos habitantes;

. a diversidade de células habitacionais, seja em termos dimensionais, seja em termos de funcionalidade, seja em termos de capacidade de apropriação/mobiliário;

. o máximo sentido de apropriação e de identidade de cada célula/habitação no conjunto da intervenção;

. a máxima capacidade funcional interna de cada célula/habitação, propiciando diversidade e facilidade de tarefas domésticas;

. a consideração objectiva de boas condições para o trabalho em casa (não doméstico);

. a máxima capacidade de apropriação de cada célula/habitação por cada habitante ou agregado familiar;

. o equilíbrio entre a referida capacidade de apropriação e existência de um número significativo de equipamentos e elementos fixos de mobiliário pré-instalados;

. a existência de condições especiais de conforto ambiental, designadamente, em termos de conforto térmico e de ventilação contínua;

. a existência de condições especiais de isolamento acústico entre células habitacionais e no interior de cada célula habitacional;

. a disponibilização de espaços equipados capazes de apoiarem o convívio informal, mas não intrusivos da circulação corrente no edifício;

. a consideração de equipamentos comuns exclusivos dos residentes numa base que privilegie os mais desejados pela maioria e os menos intrusivos da vivência privada de cada célula habitacional;

. a flexibilidade na afectação de serviços comuns;

. a ponderação do interesse na flexibilidade na associação ou separação de células habitacionais;

. a atenção específica a um desenho arquitectónico da célula residencial de tal forma cuidado que harmonize áreas reduzidas, com adequada disponibilidade de áreas livres, capacidade/flexibilidade de mobilar/decorar e diversidade de usos dos espaços criados;

. e a atenção específica e especial à entrada principal comum, associando representatividade, sobriedade formal e harmonização entre acessibilidade privada às células residenciais e potencial de convivialidade natural.

Outras matérias decorrerão do programa específico de cada intervenção (ex., maior ou menor desenvolvimento dos serviços comuns e dos serviços abertos à comunidade), ou serão tratadas de forma idêntica a qualquer intervenção residencial (ex., garagem colectiva).

Termina-se, aqui, este primeiro exercício de reflexão sobre a grande oportunidade da oferta de conjuntos de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, chamando-se a atenção para o interesse humano e urbano de que se revestirão estas iniciativas, que poderão constituir uma verdadeira opção habitacional e de vida para muitas pessoas sós, casais e pequenos agregados em diversas fases, mais ou menos prolongadas, das suas vidas. E para concluir este texto importa lembrar o evidente potencial de adequação na promoção e na gestão corrente de unidades deste tipo por cooperativas de habitação e, designadamente, por cooperativas habitacionais habituadas a associar o serviço habitar, mais específico, a todo um outro conjunto de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas culturais; aspectos estes, que, constituem, afinal, boa parte de uma opção de habitar verdadeiramente mais rica e mais completa e, hoje em dia, claramente mais rica e mais completa do que tantas das opções periféricas, isoladas e desvitalizadas onde tantos “vivem”.

(1) Luis Fernández-Galiano, em “Vivienda sin ciudad”, n.º 97 da revista “Arquitectura Viva”, p. 20.

31 de Maio de 2008, Casais de Baixo, Azambuja
Editado no Infohabitar, em 1 de Junho de 2008, por José Baptista Coelho

domingo, maio 25, 2008

198 - O PRIMEIRO EMPREENDIMENTO COOPERATIVO DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL EM PORTUGAL – artigo de José Coimbra - Infohabitar 198

 - Infohabitar 198
Nota explicativa e de introdução

O artigo que se segue, da autoria do Eng. José Coimbra, um nosso colaborador a quem o Infohabitar já deve alguns excelentes textos, corresponde ao conteúdo técnico de uma palestra que o Eng. José Coimbra desenvolveu, em 8 de Abril de 2008, no “Curso Construção Sustentável e Promoção Imobiliária, realizado no Instituto Superior Técnico em Lisboa.

Agradecemos ao colega José Coimbra mais esta contribuição num tema que é, actualmente, crucial e que corresponde já a uma muito rica ponderação, da sua parte, relativamente à obra residencial cooperativa que coordenou tecnicamente na Ponte da Pedra, e que está aí para ser visitada e apreciada em tudo aquilo que pode ajudar a trazer de novo para um habitar mais amigo dos habitantes, mais amigo da cidade e da cultura urbana e mais amigo do ambiente.

É, naturalmente, com reflexões como esta que podemos ir avançando e informando novas realizações, porque se trata de análises feitas pelos agentes fundamentais na execução das obras sobre as quais se faz essa reflexão e, simultaneamente, técnicos e investigadores esclarecidos relativamente ao que podem ser as novas tecnologias residenciais mais sustentáveis urbanística e ambientalmente.

De imediato se “passa a palavra” a José Coimbra, mas faz-se, naturalmente a referência para ter sido a Ponte da Pedra uma obra urbana e residencial promovida pela Cooperativa Norbiceta, uma união das Cooperativas Nortecoop, Sete Bicas e Ceta, com projecto global coordenado pelo Arq. Carlos Coelho, uma obra realzada no âmbito do Prgrama Europeu Sustainable Housing in Europe (SHE), referida a habitação realizada com controlo de custos, portanto habitação de interesse social apoiada pelo Estado, e uma promoção que mereceu, aliás, diversos prémios, com destaque para o Prémio INH-IHRU de 2007.

Refere-se, ainda, que o leitor poderá encontrar aqui no Infohabitar outros artigos de apresentação e de análise deste excelente conjunto da Ponte da Pedra, bastará para tal aceder ao catálogo interactivo disponível logo aqui na margem esquerda do Infohabitar.

Salienta-se, finalmente, que estas preocupações práticas de sustentabilidade urbana e ambiental no projecto, na promoção e na cosntrução de habitação de interesse soacial estão tambéma a ser levadas à prática, igualmente no sector cooperativo habitacional, mas na zona da Grande Lisboa, pela Nova Habitação Cooperativa (NHC) nos seus últimos conjuntos residenciais, actualmente, em projecto avançado e em desenvolvimento.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho








Fig. 01: vista geral da Ponte da Pedra

O PRIMEIRO EMPREENDIMENTO COOPERATIVO DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL EM PORTUGALJosé Paulo Tavares Coimbra
Coimbra@setebicas.com


Resumo

Pretende-se dar a conhecer, não apenas as características de construção sustentável do Empreendimento Cooperativo que constituiu um ponto de viragem na actividade das Cooperativas promotoras e da sociedade em geral, mas também explanar as possibilidades de inovação em cada uma das temáticas nas quais assenta a sustentabilidade do Empreendimento da Ponte da Pedra e dos que lhe sucederam, tendo em conta que a Sustentabilidade é sempre um modelo inacabado.
Esta abordagem do tema “Construção Sustentável” é desenvolvida de acordo com a experiência que as Cooperativas de Habitação Portuguesas têm vindo a adquirir na promoção de empreendimentos cooperativos e, portanto, deve ser lida tendo sempre por base este fio condutor.






Fig. 02: a introdução da arte urbana na Ponte da Pedra


1. Critérios de Construção Sustentável
1.1. Âmbitos de Intervenção
A sustentabilidade de um Edifício deriva do adequado desempenho da construção e do processo que a promove a vários níveis, resultante de uma abordagem integrada de todos eles. Propomo-nos, de seguida, abordar cada um dos temas da construção sustentável e analisar quais as medidas implementadas no Empreendimento da Ponte da Pedra e quais aquelas que, não tendo sido implementadas neste Edifício, podem vir a sê-lo, melhorando, ainda mais, o desempenho global do Edifício.

1.1.1. Processo de Participação

A vertente social da sustentabilidade não pode ser descurada, dada a importância que o envolvimento das pessoas e dos moradores do Edifício tem para optimizar o desempenho do próprio Edifício e maximizar as poupanças nas despesas mensais de água, electricidade e gás. As características da habitação podem ser efectivamente melhoradas com um adequado comportamento por parte dos utilizadores.

O facto de estarmos perante uma organização promotora cooperativa é já um grande avanço a este nível, dada a vocação social das Cooperativas de Habitação que pressupõe, por inerência, a participação dos Cooperadores ao longo do processo de promoção habitacional, sendo o seu nível de satisfação periodicamente aferido ao longo do mesmo.

Mas esta vertente social da construção sustentável abrange também a Empresa Construtora, o Gabinete de Projectos e o Município Local com o objectivo de sensibilizar e envolver todos os agentes que podem influenciar o desenvolvimento do Programa.

Cumprindo o objectivo de coesão social, através da participação activa de todos os intervenientes numa Estratégia Integrada de Desenvolvimento Sustentável, têm lugar:

. Reuniões semanais com representantes do Projecto, da empresa construtora e da Cooperativa de Habitação (a Cooperativa desenvolve, neste contexto, um trabalho imprescindível de coordenação de projectos para a concretização dos princípios de construção sustentável, adoptando sempre a postura de defesa e melhoria desses princípios quando eles não estão devidamente acautelados no projecto ou quando existem modificações no mercado);

. Sessões abertas de apresentação e discussão do Projecto do Empreendimento;

. Dossiers de Apoio aos principais momentos de disseminação e acompanhamento do Empreendimento;

. Manual do Cooperador Proprietário de Uso e Manutenção do Imóvel;

. Edição de um Boletim trimestral que actualiza os desenvolvimentos da actividade da Cooperativa promotora;

. Actualização periódica das informações constantes no site da Cooperativa.

No caso da Segunda Fase do Empreendimento da Ponte da Pedra, temos ainda de considerar a activa e intensa prática de divulgação e de disseminação do Projecto, impulsionada pelo vanguardismo das características do mesmo. Esta prática inclui a participação em Seminários, Workshops, Conferências, Entrevistas e Visitas de Estudo. Quase todas estas acções tiveram lugar por solicitação da sociedade, que reclamou a nossa participação no debate do tema da Construção Sustentável, vista como um todo ou a análise específica de um determinado capítulo.

A este nível, crê-se que a Cooperativa já dispõe de suficientes instrumentos e práticas promotoras do processo de participação.




Fig. 03: vista da fábrica, antes da intervenção cooperativa no local

1.1.2. Valorização do local de implantação
Tendo em conta que a implantação do Empreendimento deve considerar as características do local e da envolvente, deve ser feito um levantamento do clima local, identificação de infraestruturas existentes, identificação de fontes de poluição, possibilidade de inclusão de fontes de energia renovável, existência de campos electromagnéticos, condições de iluminação natural e condições acústicas.
Para que a integração seja feita de forma harmoniosa, valorizando o espaço, no caso da Ponte da Pedra, dispomos de importantes indicadores a este nível:

. O Conjunto Habitacional de Ponte da Pedra substitui uma área degradada ocupada por uma fábrica de curtumes insolvente;

. Foi considerada a optimização do potencial solar passivo, através de uma adequada orientação solar;

. A localização do Empreendimento tira partido da linha de água existente no local, armazenando-a e utilizando-a para abastecimento dos depósitos das sanitas das habitações e para a rega da totalidade dos jardins da urbanização;

.A proximidade do Edifício a transportes públicos desincentiva a utilização de transporte próprio, diminuindo assim, potencialmente, o impacte da mobilidade dos moradores.

Identificamos como oportunidade de melhoria o estudo, com mais pormenor, da orientação solar do Edifício, não ignorando as exigências regulamentares e o disposto nos PDM’s locais que, muitas vezes, condicionam a escolha de uma orientação do Edifício mais favorável do ponto de vista energético.


1.1.3. Selecção de Materiais
Este será, talvez, o capítulo em que a Ponte da Pedra e os Empreendimentos posteriores têm uma performance mais baixa.

Ditam as regras da sustentabilidade que a escolha dos materiais para a construção civil deve procurar maximizar a aplicação de materiais duráveis, recicláveis e / ou reciclados, com um baixo nível de energia incorporado, provenientes de fontes locais e / ou regionais e com análise de ciclo de vida e etiqueta ecológica.

No entanto, o nosso país ainda não tem estes conceitos implementados no mercado, pelo que a aposta feita na 2ª Fase da Ponte da Pedra foi a de tentar encontrar fornecedores quase locais, reduzindo, assim, o impacte ambiental do transporte da “fonte” até ao local da construção. Houve ainda alguma preocupação ao nível da escolha de materiais duráveis e com reduzidas necessidades de manutenção, como se comprova pelo material utilizado na fachada do Edifício.

Portanto, há ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito à escolha de materiais amigos do ambiente, mas o trilho desse caminho depende grandemente dos desenvolvimentos que o país conseguir registar a este nível.




Fig. 04: vista da cisterna

1.1.4. Gestão do Ciclo de Água
Uma gestão eficiente do Ciclo de Água deverá limitar, o mais possível, a interferência no ciclo natural de água, reduzindo o consumo em 25%. A introdução de novas tecnologias permitirá, por um lado, poupar o consumo de água potável e, por outro lado, armazenar água

A redução do consumo de água pode ser propiciada pela instalação de equipamentos no Edifício que permitam reduzir o consumo, optando por diferentes fluxos. Temos como exemplo a dupla descarga nos depósitos sanitários, permitindo ao utilizador escolher qual a opção mais adequada, em cada utilização.

Existem ainda as torneiras de válvulas termostáticas, instaladas em banheiras e bases de chuveiro, que permitem poupar a água que normalmente se desperdiça entre o momento de abertura da torneira e o aquecimento da água à temperatura desejada. A possibilidade de regular a temperatura e de a manter fixa para futuras utilizações faz com que a água saia, assim que a torneira for aberta, à temperatura que o utilizador pretende.

Para além destas duas medidas, não podemos ignorar a construção de uma cisterna subterrânea destinada a recolher água das chuvas, a água proveniente do veio freático e a água residual que se forma ao nível dos pisos das garagens da 1ª Fase da Urbanização. A água aqui recuperada destina-se ao abastecimento dos depósitos das sanitas das habitações da 2ª Fase e à rega da totalidade dos jardins da Urbanização.

Neste âmbito, identificamos como oportunidade de melhoria a instalação de mecanismos de fitodepuração que permitam reutilizar as águas cinzentas geradas pelo Edifício. Esta tecnologia está, no presente, condicionada pelo elevado custo de investimento.
Foi também instalado nos jardins um sensor de humidade que evitará a rega desnecessária dos jardins, especialmente quando estes se encontrem com adequados níveis de humidade.

No caso da existência de jardins, é necessário considerar uma escolha adequada de plantas com reduzidas ou quase nulas necessidades de rega.

Não obstante todas estas medidas, é imprescindível a colaboração dos moradores para um adequado desempenho do Edifício a este nível. Daí a importância do envolvimento dos moradores em todo o processo e da sensibilização directa dos utilizadores, através de conselhos práticos, de fácil implementação no dia-a-dia. Estas dicas, a par do fornecimento de alguns dados estatísticos integram o Manual de Uso e Manutenção do Imóvel distribuído a todos os moradores.





Fig. 05: recipientes de separação de resíduos dentro da habitação

1.1.5. Gestão de Resíduos

Podemos afirmar, a respeito deste Capítulo, que o desempenho do Edifício depende grandemente do comportamento de entidades externas à promoção habitacional, seja durante a construção, seja durante a fase de utilização do edifício.

Se, por um lado, foi propiciada, no Empreendimento da Ponte da Pedra 2ª Fase, uma adequada separação de resíduos da construção para posterior reciclagem, designadamente madeiras e óleos, temos consciência, por outro lado, que muito se pode ainda fazer, estendendo a separação a outros componentes da Construção.

Esta atitude depende, ainda assim, largamente, do apoio dado pelo Município na recolha e encaminhamento dos contentores de resíduos. Por esta e outras razões, se justifica o envolvimento do Município no tema e na promoção da sustentabilidade construtiva.

Por outro lado, na fase de operação, quando o Edifício já se encontra em funcionamento, o volume de resíduos que é encaminhado para a reciclagem depende da triagem que os moradores fazem, logo no interior das suas habitações (colocando as diferentes categorias de resíduos nos respectivos baldes de lixo diferenciado) e posterior depósito nos Ecopontos colocados no exterior das Urbanizações.

Portanto, as infraestruturas são instaladas no Edifício e cabe posteriormente aos utilizadores a rentabilização desses equipamentos. Sublinha-se aqui uma vez mais a importância da sensibilização dos utilizadores.




Fig. 06: painéis solares




Fig. 07: grelhas de ventilação

1.1.6. Gestão Energética

Este capítulo exige a adopção de várias medidas para atingir um elevado nível de desempenho energético, nomeadamente:

. Aumento na exigência dos ISOLAMENTOS TÉRMICOS (respeitando os recém aprovados Regulamentos sobre Eficiência Energética);

. Introdução de ENERGIAS RENOVÁVEIS;

. POUPANÇA ENERGÉTICA em iluminação artificial, aquecimento de águas sanitárias e aquecimento do ambiente.

Este é o capítulo onde a 2ª Fase da Ponte da Pedra atingiu um melhor desempenho, comprovado com a Classe A do Certificado Energético, classificação esta calculada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (parceiro do Projecto SHE).

Concorreram para uma adequada eficiência energética:

. Reforço dos isolamentos térmicos e a eliminação de pontes térmicas, incluindo o isolamento das caixilharias e a aplicação de vidros duplos (o vidro duplo isola o ar frio exterior e reflecte o ar quente para o interior da habitação, para além de ser um bom isolante sonoro);

. Aproveitamento da energia solar para o aquecimento de águas sanitárias, através da instalação de colectores solares, eventualmente apoiados por equipamentos de queima individuais, como esquentadores solares que trabalham em consonância com os painéis, compensando a diferença de temperatura, se necessário;

. Adequada ventilação dos espaços interiores, através da instalação de grelhas de ventilação nas caixilharias de quartos e salas. Há aqui ainda a referir a importância da ventilação cruzada nas habitações, facto que pode ser conseguido por uma adequada disposição das plantas das tipologias no Edifício, de forma a assegurar que elas terão duas frentes;

. Soluções de arrefecimento passivo, com a existência de palas solares ou de sombreamento situadas acima das caixilharias dos apartamentos;

. Aplicação de soluções de iluminação de baixo consumo, tanto em zonas comuns, como no interior das próprias habitações. Em articulação com estas armaduras, temos os sensores de movimento que propiciam poupanças de energia significativas, eliminando os desperdícios.

Não obstante todas estas medidas, há que ter em conta a optimização da orientação solar do Edifício, dados os enormes ganhos passivos daí derivados. O envolvimento do projectista na promoção habitacional é, por isso, determinante, de forma a sensibilizá-lo para a escolha da melhor orientação solar do Edifício.

Para além destas medidas, existem ainda francas possibilidades de desenvolvimento e de optimização do desempenho energético. Exemplo: o aproveitamento da temperatura do ar através da Geotermia; a aplicação de painéis fotovoltaicos, a instalação de ventoinhas, para produção de energia eólica, no caso de Empreendimentos com um elevado número de fogos e a gestão técnica da iluminação e do aquecimento. Esta é especialmente praticável no caso de Edifícios com Equipamentos como por exemplo Lar de Terceira Idade.




Fig. 08: isolamento acústico

1.1.7. Conforto Acústico
Para além da introdução de adequados isolamentos nos elementos construtivos horizontais e verticais do Edifício, entre fogos e entre estes e zonas comuns, é importante apostar também nas medidas que podem ser tomadas no exterior dos Edifícios, criando barreiras acústicas à propagação do ruído.

A plantação de uma cortina arbórea suficientemente densa poderá servir perfeitamente este propósito.

Identificamos como oportunidade de melhoria a elaboração de um estudo paisagístico que privilegie a plantação de cortinas arbóreas que sirvam a função de barreiras à propagação do som.


1.1.8. Simulação e Monitorização

A importância o desenvolvimento de estudos adequados e transversais antes e após a construção é determinante para a verificação da eficácia das soluções de construção sustentável implementadas, podendo ser um forte instrumento de detecção de falhas, mas também de planeamento de medidas alternativas de melhoria contínua. No entanto, os promotores, só por si, não dispõem de conhecimentos, capacidades, software e equipamentos para levar a cabo esta tarefa. Daí a importância de formar parcerias estratégicas com o mundo universitário, estabelecendo uma imprescindível ponte entre o académico e o profissional, geradora de mútuo benefício.






Fig. 09: avaliação e monitorização


2. Custo Real e Valor Acrescido

O acréscimo de custo na construção resultante da incorporação de todas as características explanadas aproxima-se dos 9%.

No entanto, é expectável que o período de payback (período do retorno do investimento) não seja superior a 5 anos. A partir deste tempo de vida do Empreendimento, todos os ganhos resultantes da diminuição do valor das facturas de gás, electricidade e água serão ganhos líquidos, o que significa que o utilizador desfrutará do benefício total da construção sustentável.


No que toca à ponderação de custos da construção sustentável, há que considerar que contrapõem os 5% de acréscimo no custo do Edifício, a redução do custo de manutenção e de operação do edifício, mas também a melhor qualidade de vida que um Empreendimento com estas características proporciona aos seus moradores.

Ainda a respeito de custo, sublinhe-se que a valorização de uma construção sustentável ao longo do tempo será muito mais significativa do que a valorização de uma construção convencional.




Fig. 10: Certificado Ambiental do Empreendimento


3. O Empreendimento âncora de novos projectos sustentáveis
As vantagens deste tipo de construção são óbvias a vários níveis, de tal forma que os futuros empreendimentos cooperativos levados a cabo pelas Cooperativas Promotoras continuarão a respeitar e a considerar todos os princípios aprendidos com a nossa participação no Projecto SHE e os resultados do desempenho do Empreendimento da 2ª fase certamente que serão motivadores e encorajadores para adoptar a nova postura construtiva.

A saber, existem já 6 Programas de Habitação Cooperativa que respeitam os mesmos princípios de sustentabilidade construtiva do projecto SHE e que contemplam, na totalidade, 531 habitações sustentáveis:



Fig. 11

Na actividade da FENACHE, o Empreendimento da Ponte da Pedra desencadeou também uma activa política de disseminação, quer ao nível de publicações, quer ao nível da participação em seminários e congressos nacionais e internacionais sobre o tema, quer ainda no acolhimento e orientação de visitas de estudo ao local. De realçar ainda que esta experiência piloto de construção sustentável no ambiente cooperativo foi assumida como orientação estratégica no documento aprovado, em sede de Assembleia-geral da FENACHE, a 26 de Novembro de 2005 – a Carta da Qualidade da Habitação Cooperativa.

O impacto desta iniciativa foi além das fronteiras do mundo cooperativo. O Município de Matosinhos que acompanhou, de perto, a promoção do Empreendimento Sustentável, declarou publicamente, no Seminário “Por um Território Sustentável”, que teve lugar no dia 28 de Novembro de 2006 (o dia da Inauguração da 2ª Fase do Empreendimento), que o Município estimulará a prática de construções sustentáveis, através da redução de taxas e da prioridade de tratamento camarário dada a estes projectos. A Empresa Municipal de Habitação de Matosinhos deverá também seguir os passos da prática Cooperativa.

Do ponto de vista da legislação no sector da Habitação, tiveram lugar importantes mudanças no PROHABITA (Programa de Financiamento para acesso à Habitação), sendo claramente incentivada a incorporação de soluções de construção sustentável, quer no processo construtivo, quer no da reabilitação, com especial incidência na prossecução de objectivos de eficiência energética, de diminuição do consumo de água e de reciclagem dos resíduos.

Consideramos que este impacto transversal, sentido nos vários níveis da sociedade, é o melhor resultado que uma experiência piloto deste género pode trazer, sendo perfeitamente praticável e de fácil incorporação nas práticas quotidianas.
Conclusões

O facto de uma União de Cooperativas de Habitação ter conseguido promover um Empreendimento com todos os “inputs” construtivos respeitando as condicionantes do Estatuto Fiscal Cooperativo é, só por si, uma grande vitória.

O impacto que esta experiência teve ao nível dos promotores, da empresa construtora, da Federação Nacional que, desde sempre, apoiou esta arrojada iniciativa, do Município e a da própria legislação nacional que também sofreu ajustamentos é também um grande passo e uma grande prova do envolvimento conjunto de várias entidades com vista ao desenvolvimento sustentável.

Mas, de todos os resultados, destacamos aquele que demonstra um empenho profundo das Cooperativas de Habitação em assumir a mudança e a inovação como orientação estratégica permanente. Todos os Empreendimento promovidos passam agora a incorporar, não apenas os requisitos de sustentabilidade implementados na 2ª Fase da Ponte da Pedra, respeitando igualmente o Estatuto Fiscal Cooperativo, mas procuram, sobretudo, inová-los e ousar incorporar técnicas mais avançadas que potenciem a sustentabilidade do Empreendimento. Num momento em que o apoio à inovação das empresas é uma das principais matrizes da nova edição dos Fundos Comunitários, congratulamo-nos por esta política de inovação ser já parte integrante da gestão quotidiana da promoção habitacional cooperativa.

Manifestamos, ainda neste capítulo de encerramento, o nosso empenho em conciliar os métodos de trabalho já adquiridos nas Cooperativas de Habitação com os parâmetros de avaliação e o Know How da equipa do LiderA, numa estratégia de colaboração de mútua aprendizagem e certamente geradora de mútuo benefício.

Preparado para ediçãoi po António Baptista Coelho em 22 de Maio de 2008
Editado em 25 de Maio de 2008 por José Baptista Coelho
Infohabitar, Lisboa, Encarnação – Olivais Norte