sexta-feira, agosto 14, 2009

259 - Cidade melhor: o peão – parte I - Infohabitar 259

Infohabitar, Ano V, n.º 259



Cidade melhor, desígnios fundamentais numa cidade positivamente renovada: o habitante peão – parte I

artigo de António Baptista Coelho

Label: Urbanismo de pormenor, cidade, peões


Espaços, cenários e ambientes citadinos adequados e motivadores para o peão
A cidade habitada, das vizinhanças e dos bairros, a cidade viva das pracetas e das avenidas e a cidade atraente, seja pelas mais diversas actividades económicas e culturais, seja pelas suas paisagens urbanas estimulantes e caracterizadas, constituem, na prática, como é evidente, uma única realidade física e ambiental.

Uma tal realidade tem como base essencial o serviço funcional e a qualificação do dia-a-dia dos habitantes da cidade, e, portanto, tudo o que se faça ou que se privilegie deve confluir nesse sentido: tornar a vida na cidade mais funcional, mais agradável, mais positivamente caracterizada e mais enriquecedora, em termos das mais diversas experiências e com natural destaque para as socioculturais.

Neste sentido a cidade, os seus bairros e as suas vizinhanças devem ser (re)concebidas visando-se uma “cidade melhor” para os seus habitantes – “próprios e visitantes –, e neste objectivo é possível identificar um desígnio essencial que é facultar espaços, cenários e condições citadinas que sejam realmente adequados e motivadores para a pessoa e designadamente para a pessoa independentemente do seu “invólucro” ou meio mecânico de deslocação.

Este desígnio favorecedor da pessoa a pé tem várias justificações, destacando-se a razão básica de sermos peões, naturalmente, e não haver qualquer obrigatoriedade de uso dos veículos privados, mas também a razão fundamental de uma boa parte da população, os mais novos e os mais idosos, não ser tendencialmente uma população “automobilizada” e precisar, mesmo, de condições claramente positivas para uso pedonal da cidade, para poder ter um adequado desenvolvimento pessoal – no caso dos mais jovens – e adequadas condições de conforto, de animação urbana e de saúde – no caso dos mais idosos.



Fig. 01: um pormenor da cidade oferecida aos habitantes peões em Hamburgo.


Ainda uma outra razão para uma cidade que privilegie o peão é que a cidade feita para o automóvel é um cenário sem escala, sem humanização e sem capacidade de estímulo para a interacção social, havendo que se escolher entre funcionalidade veicular e agradabilidade e coesão humana, e a esta reflexão é fundamental juntar a ideia da cidade vivida a 50 km/h – ou mesmo a mais –, que nunca poderá ser uma cidade do convívio e do estar nos seus espaços públicos, uma cidade que, mais do que vivida é um sítio onde sobrevivemos refugiados nas células domésticas e com “breves” incursões aos centros comerciais, onde cada vez mais tudo se passa num “regime” de grande autonomização, isolamento e padronização de acções.

E a esta questão da velocidade e do isolamento no interior dos veículos privados, num prolongamento do referido isolamento doméstico, está ligada a perspectiva de uma cidade vivida ou consumida com pressa, onde parte do tempo se some nas deslocações, onde em casa a televisão bombardeia com uma programação sem-sentido e que faz dormir, e onde acaba, sempre, por não haver, realmente, tempo para se poder percorrer e, verdadeiramente, viver as vizinhanças e os espaços urbanos.

Mas a cidade pode e deve ser feita de espaços urbanos estrategicamente animados, que suportem uma cidade do vagar, que possa trazer o habitar, verdadeiramente, para o espaço exterior comum e público, transvasando, agradável e complementarmente das células privadas, estimulando, naturalmente, a observação, o passear, o lazer urbano “sem destino”, e, naturalmente, o convívio, numa outra fundamental dimensão do habitar com inúmeras e estimulantes nuances, que vão marcando as essenciais e dinâmicas sequências desde as vizinhanças aos centros urbanos.

Um pequeno ponto de situação: a convivência entre peão e automóvel
Neste momento em Portugal temos já algumas das nossas zonas predominantemente pedonais a serem utilizadas em continuidade há algumas décadas e seria a altura de se fazer um estudo técnico aprofundado sobre os aspectos identificados como mais negativos e mais positivos nessas intervenções, considerando-se a eventual desvitalização do tecido urbano próprio e envolvente, ou, pelo contrário, a sua dinamização e a melhoria da qualidade vivencial própria e indirecta induzida nas respectivas cidades e partes de cidades.

Um tal estudo seria estratégico para a eventual replicação de tais experiências de uma forma mais afinada e eficaz, seja em aspectos funcionais seja na criação de verdadeiras ambiências de vivência da rua com intensidade e continuidade. E um tal estudo ganha, hoje em dia, uma importância acrescida com a actualidade da implementação de meios de acessibilidade mais amigos do ambiente e mais compatíveis com a fruição do espaço urbano pelo habitante a pé e com vagar.

Finalmente, a oportunidade de um tal estudo também decorre de se estarem, provavelmente, a desenvolver operações de pedonalização e de introdução de novos meios de deslocação potencialmente mais amigáveis, mas com problemas de concepção por vezes críticos e que acabam por poder colocar em risco, a prazo (até por vezes curto), a opção pela predominância pedonal; um risco que é sem dúvida extremamente crítico, pois há, naturalmente, muito a ganhar em termos de uma cidade mais agradável, humanizada e viva com aquelas intenções de pedonalização.

Nesta perspectiva de ponto de situação cabe fazer, aqui, uma brevíssima referência à história das zonas pedonais no mundo, e nesta linha de actuação técnico-política, tal como refere Spiro Kostof, em “The City Assembled” (1), em cerca de dez anos, na Alemanha, entre 1966 e 1977, passou-se de cerca de 60 áreas centrais urbanas pedonais para 370, e a grande rua Sröget em Copenhaga, que se desenvolve entre a Câmara Municipal e a principal praça da cidade, foi um grande êxito, tendo sido gradual e continuamente acrescentada no apoio a um uso que ele próprio foi também mudando, desde um início mais “circulatório”, até um presente claramente de efectivo estar no exterior público – e estas são informações retiradas de vários recentes artigos do urbanista Jan Gehl sobre o assunto.

E lembremos, por exemplo, o que parecem ter sido as boas experiências de muitas ruas centrais de cidades portuguesas, assim como o extraordinário uso que têm os espaços pedonais dos “calçadões” de cidades brasileiras.



Fig. 02: uma imagem do “calçadão” de Fortaleza

Mas também não podemos esquecer que a pedonalização teve grandes fracassos em todo o mundo: na parte referida da obra de Kostof este autor refere que nos USA o Mall pedonal suburbano foi um semi-fracasso, mas muitos de nós já tiveram a oportunidade de viver o problema existente, por exemplo, nos espaços pedonais do centro de São Paulo; eu diria, os problemas, ou pelo menos a ausência de qualidade de uso pedonal, e mesmo em Portugal há intervenções pedonais que não resultaram ou resultaram apenas de forma muito deficiente. E, portanto é necessário aprender com todas estas experiências, tendo todo o cuidado na sua apreciação, designadamente, quando se trata de escalas e envolvências urbanas e sociais extremamente distintas.

Kostof, no referido estudo, oferece-nos uma excelente síntese, com sentido positivo/construtivo, da evolução das zonas mistas de peões e veículos que servem conjuntos residenciais, e aqui se localizará provavelmente outra linha de estudo com grande oportunidade, em termos da desejada aliança entre humanização do tráfego e humanização do habitar (2).
De certa forma podemos considerar que a pedonalização deve poder ter fortes raízes numa vivência próxima entre “casa” e espaço público amigável para o peão, numa condição que não nega, nem pode negar, a sua aplicação em espaços urbanos mais comerciais e animados, mas que exigirá, provavelmente, que nesses espaços haja influência directa de alguma habitação, que tenderá, sempre, a apropriar-se com intensidade e afectividade dos “seus” exteriores contíguos. E, complementarmente, talvez que o bom hábito da predominância pedonal ao “começar” na proximidade de grande número de espaços de residência possa predispor o habitante para encarar de forma mais natural e positiva o prolongar dessa predominância nas zonas centrais urbanas.

O grave erro de considerar o automóvel como "inimigo público"
Já há bastantes anos numa interessante acção técnica de discussão destas questões e depois de um responsável político ter aberto os trabalhos referindo qualquer coisa como “o automóvel é um inimigo público”, saindo, depois, como é habitual, por ter outro compromisso, um técnico estrangeiro, começou por comentar que tinha pena de não poder referir, directamente, àquela individualidade que ela estava errada, porque não faz qualquer sentido atribuir as culpas dos múltiplos problemas de congestionamento e deficiente qualidade ambiental aos veículos privados, actuando numa perspectiva “repressiva” sobre o mesmo, sem, antes e concertadamente se desenvolverem condições melhoradas e mesmo estimulantes de uso da cidade em bons transportes públicos e a pé, visando-se soluções coerentes e articuladas desde a escala “micro” das vizinhanças à macro das regiões.

A primeira acção a desenvolver é cativar o habitante para usar a sua vizinhança, o seu bairro, a sua cidade e mesmo a sua região, preferencialmente, a pé e em transportes públicos ou colectivos e só depois, então, actuar do lado das sanções e estimular, por diversas formas, a redução do uso dos veículos privados e designadamente dos automóveis e mesmo, quem sabe de determinados tipos de tráfego automóvel (exemplo, mais poluidor, menos útil, de atravessamento, etc.).

Naturalmente que esta sequência “de antes e depois” será sempre um pouco relativa e tem mais a ver com uma coordenação de acções do que com um ordem específica, mas lembro que o referido técnico sublinhava mesmo ser necessário cativar o habitante para usar a cidade em transporte público através de um serviço de elevada qualidade, designadamente, em termos de conforto e de segurança e só então, posteriormente e tendo-se ganho novos hábitos, então passar para acções específicas de redução do tráfegos de automóveis privados.

E pode-se juntar a esta matéria a ideia que será também só depois de se tornarem várias partes da cidade mais humanizadas, mais agradáveis para se circular a pé e se estar, mais “verdes”, mais mutuamente conjugadas, mais sossegadas e estrategicamente mais animadas e úteis, que se deverá passar para a referida fase da acção directa sobre a redução da circulação dos automóveis privados; e atenção que essa fase de “pedonalização preparatória” nunca poderá ser nem fundamentalista nem “cega”, por exemplo, às fundamentais funcionalidades de quem ainda habita a cidade mais central.



Fig. 03: numa vizinhança em Lubeck, mesmo um clima relativamente agreste não reduz a importância do desenvolvimento de uma afirmada vizinhança pedonal.

Sublinha-se, finalmente, que tudo isto só poderá ser viável numa perspectiva de cuidadoso faseamento e encadeamento das intervenções, numa retroacção de acções e avaliações e numa estratégia activa de constante desenvolvimento do espaço assim intervencionado, sem estagnações desmotivadoras; só assim os habitantes poderão ter a necessária paciência para esperar “pela sua vez”, vendo que o processo está realmente em curso.

Problemas de uma cidade automobilizada e virtualidades de uma cidade mais amiga do peão
Lançou-se já o que se julga ser um conjunto razoável de reflexões para este primeiro artigo, no Infohabitar, sobre o que tem de ser, urgentemente, uma cidade melhorada com base num conjunto de desígnios marcados pela ideia da predominância do “habitante peão” e conclui-se esta reflexão com uma citação do referido estudo de Spiro Kostof, na qual este autor cita alguns dos mentores do “novo urbanismo” sobre esta temática.

“O tráfego automóvel tornou-se a experiência central e incontornável do reino do espaço público ... e a regulamentação ao enfatizar o tráfego rápido e a abundância de zonas de estacionamento ... nas palavras de Duany e Plater-Zyberk «cria receitas virtuais de desintegração urbana». ... Duany e Plater-Zyberk propõem uma arma contra mais avanços do automóvel em território do peão: a TND a Traditional Neighborhood Development ordinance (código de Desenvolvimento Tradicional das Vizinhanças, DTV), um código genérico de urbanidade, consolidador da sabedoria vernacular de determinadas zonas urbanas preexistentes, desenvolvendo novos standards e dimensões para ruas. A habitação animadora da rua é reinventada no DTV como tipologia habitacional standard, o andar a pé é encorajado pela localização de lojas a distância flanante de casa, os passeios têm um mínimo de 3,7m quando há lojas e as árvores de arruamento são obrigatórias”. (3)

Afinal, como se entende, até parece que muito de tudo isto terá a ver com o aprofundar de um habitar mais adequado, cuidado e agradável, um aprofundar onde há aspectos dimensionais e outros, sendo que os dimensionais estão directamente ao serviço dos desígnios da conformação de uma cidade do habitar e do vagar.

Notas:([1]) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, Londres, Thames & Hudson, 2004 (1992), p. 240-242.
(2) Idem. Ibid.
(3) Idem. Ibid.

Label: Urbanismo de pormenor, cidade, peões
Infohabitar, Ano V, n.º 259
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 14 de Agosto de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, agosto 10, 2009

258 - Revista Ambiente Construído - Vol. 9, N.º 2: artigos - Infohabitar 258

Infohabitar, Ano V, n.º 258

Porque se considera ser assunto de grande interesse, faz-se, em seguida, a divulgação pormenorizada de uma recente e importante edição na WWW de um novo número de uma excelente revista técnica em língua portuguesa:
o Ambiente Construído, Vol. 9, N.º 2 (2009)
A revista online Ambiente Construído editada sob responsabilidade da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído cujo último número (especial, Vol. 9 N.º 2) trata a temática da "Qualidade do Projeto".

Os editores deste número do Ambiente Construído são a Prof.ª Arq.ª Sheila Walbe Ornstein da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – que, como é sabido, foi um dos primeiros autores a editar no nosso Infohabitar – e o Prof Dr. Carlos Torres Formoso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Como fica bem evidente no tema "Qualidade do Projeto", trata-se de uma matéria de grande actualidade e que é abordada, nesta revista, num amplo e estimulante leque de interessantes artigos, cujas quase 200 páginas de pdf (s) estão disponíveis, facilmente, já aqui, no link. da revista Ambiente Construído:
http://www.seer.ufrgs.br/index.php/ambienteconstruido/index

Sublinha-se, ainda, uma vez mais a estimulante relação entre esta edição do Ambiente Construído dedicada à Qualidade do Projeto e o próximo I Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído [SBQP 2009], que será realizado em São Carlos, São Paulo, de 18 a 20 de Novembro de 2009, em conjunto com o IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios.



E informa-se que o Site deste evento está disponível em:
http://www.arquitetura.eesc.usp.br/ocs/index.php/SBQP2009/SBQP2009

Em seguida e com a devida autorização, que muito se agradece, dos editores deste número do Ambiente Construído, editam-se no Infohabitar os resumos de todos os artigos que integram a revista, sublinhando-se, uma vez mais o interesse bem evidente destes artigos para um ambiente construído que tudo tem a ganhar com uma qualidade de projecto devidamente enquadrada, informada, aprofundada e verificada, designadamente em termos de avaliações pós-ocupação e estudos de caso que identifiquem situações globalmente exemplares e significativamente replicáveis.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

Ambiente Construído, Vol. 9, No 2 (2009)
. (excerto do) Editorial
“Este número especial da Revista Ambiente Construído tem como tema a Qualidade do Projeto. Pretende celebrar o início das atividades do Grupo de Trabalho em Qualidade do Projeto (GTQP) da ANTAC, constituído em outubro de 2008.

Na chamada de trabalhos para este número foram destacados os seguintes temas: briefing e gestão de requisitos; natureza do processo de projeto; criatividade no processo de projeto; definição do escopo de projeto; avaliação de projetos; desenvolvimento do produto na construção civil; práticas profissionais de projeto; coordenação e compatibilização de projetos; modelagem do processo do projeto; processos colaborativos e engenharia simultânea; gestão da qualidade e certificação na atividade de projeto; tecnologia da informação para apoiar o processo de projeto; avaliação pós-ocupação e indicadores de qualidade do projeto.
...”
Sheila Walbe Ornstein, Co-editora convidada, FAUUSP
Carlos Torres Formoso, Editor-chefe, NORIE - UFGRS

Artigos e respectivos resumos:
. Flexibility as a design aspiration: the facilities management perspectiveautor: Edward Finch

O conceito de flexibilidade como aspiração de projeto é discutido com freqüência na literatura sobre Arquitetura. No entanto, é invariavelmente os profissionais de gestão de facilities que herdam a solução da edificação: estes são os que acabam sofrendo as conseqüências das soluções flexíveis ou insolúveis. Neste sentido, os edifícios não são soluções acabadas, mas em desenvolvimento.

Um projeto de edificação flexível é aquele que pode se adaptar a situações que se alteram. No entanto, o dilema do projetista é antecipar-se às prováveis mudanças. Como tal, o projetista assume o papel de futurólogo”, ”vidente tecnológico” ou analista de mega-tendências.
O objetivo deste artigo é apresentar a perspectiva de flexibilidade da gestão de facilities. Sugere-se como os projetistas podem ajudar a produzir uma solução de projeto mais “maleável” e que o conceito de flexibilidade universal é técnica e economicamente inatingível. Projetar para a flexibilidade requer o conhecimento de múltiplos estados futuros, tanto os possíveis, como os prováveis.

. Quality of design and usability: a vetruvian twin
autor: Theo J. M. van Voordt
Este artigo explora diferentes indicadores de qualidade do projeto arquitetônico usados em debates e avaliações de projetos na Holanda. Além da antiga tríade vitruviana da utilitas, firmitas e venustas, é defendida uma visão mais ampla quanto à qualidade do projeto arquitetônico.

Como as construções vão muito além da “arte livre”, a usabilidade e a opinião do usuário, em especial, devem ser incluídas entre os indicadores de qualidade do projeto. O marco teórico dos indicadores de qualidade foi utilizado para refletir sobre os critérios que foram aplicados para selecionar o projeto da nova prefeitura e biblioteca de Deventer.

Uma comparação entre a teoria e a prática mostra que há divergências entre uma avaliação integral da qualidade usando múltiplos critérios, preferências e interesses pessoais e restrições, como limitação de tempo, dinheiro e informação. Ao mesmo tempo, avaliações integradas de projetos (ex ante) ou de construções em uso (ex post) são essenciais para acumular um corpo de conhecimento sobre como sintetizar forma, função e construção dentro dos limites das restrições do projeto.

. Discussão sobre a importância do programa de necessidades no processo de projeto em arquitetura
autores: Daniel de Carvalho Moreira, Doris Catherine Cornelie Knatz Kowaltowski


O programa de necessidades cumpre um importante papel no projeto de
arquitetura e contribui para que o projetista considere a complexidade envolvida na concepção de espaços urbanos e de edifícios.

Durante a década de 1950, arquitetos e engenheiros, atentos ao panorama procuravam aplicar novas técnicas ao desenvolvimento do projeto em arquitetura. Organizaram-se, a partir de várias conferências, grupos de estudo sobre métodos de projeto e o assunto tomou rumos diversos nos quarenta anos seguintes, inclusive uma vertente dedicada ao programa arquitetônico.
No Brasil, tais métodos de projeto não tiveram repercussão direta na atividade profissional dos escritórios de projeto, tampouco sobre programas de ensino ou pesquisa das escolas de engenharia e arquitetura. Este trabalho discute o programa de necessidades e sua contribuição no processo de projeto em arquitetura, através da discussão de métodos para seu desenvolvimento, das normas que definem seus conteúdos e da sua forma de apresentação, visando a efetiva aplicação dos seus conceitos.

. The gaps between healthcare service and building design: a state of the art review
autores: Patrícia Tzortzopoulos, Ricardo Codinhoto, Mike Kagioglou, John Rooke, Lauri Koskela

Os edifícios hospitalares tem diversos objetivos, dentre os quais a provisão de um ambiente apropriado à realização dos serviços de saúde, que contribua para o aumento da eficiência destes serviços e para a melhoria do fluxo de pacientes e da experiência dos mesmos.
A melhoria na eficiência dos serviços está relacionada a edifícios modernos, com melhor layout e adjacências entre departamentos, bem como a processos clínicos eficientes e sistemas de informação adequados. No entanto, muitas vezes esses objetivos não são atingidos devido à complexidade dos requisitos de projeto e da gestão dos intervenientes.

O presente artigo tem como objetivo buscar entender, através da literatura existente, como os processos de projeto dos serviços de saúde e da edificação para saúde podem ser melhor integrados, e como a melhoria do desempenho dos serviços está relacionada à flexibilidade de adaptação da edificação em relação a futuras alterações ou mudanças.
Os resultados indicam que barreiras funcionais no processo de projeto restringem tal integração, assim como a adoção de soluções inovadoras. Além disto, existe a necessidade de uma abordagem que apoie o desenvolvimento integrado dos projetos dos serviços e da edificação com foco nas questões operacionais (e.g. flexibilidade e durabilidade) que satisfaçam diversas necessidades ao longo do tempo.

. Desenvolvimento integrado de projeto, gerenciamento de obra e manutenção de edifícios hospitalaresautores: Michele Caroline Bueno Ferrari Caixeta, Alexandra Figueiredo, Márcio Minto Fabrício
As edificações hospitalares são complexas e possuem uma grande importância social e econômica. Além disto, o rápido avanço da tecnologia e dos procedimentos médicos fazem com que a produção destas edificações demandem novas formas de gerenciamento e desenvolvimento.
Esta pesquisa busca investigar e caracterizar novos modelos de estruturação e integração das atividades de desenvolvimento do produto para esse tipo de edificação, considerando a sua inerente complexidade. Assim, o objetivo do presente trabalho é analisar o processo de desenvolvimento de edifícios hospitalares de médio porte, considerando-se as macrofases de projeto, gerenciamento da obra e gerenciamento de manutenção, através de um estudo de caso descritivo realizado numa empresa especializada em projetos hospitalares. Desta forma, pode-se obter uma visão integrada do processo de desenvolvimento desse tipo de produto.

Como resultado, são apresentados os modelos de cada uma das macrofases do processo de desenvolvimento dos empreendimentos estudados de forma a constituir uma referencia genérica para o desenvolvimento integrado de novos empreendimentos hospitalares. Assim, o trabalho contribui para discussão sobre a gestão do processo de projeto em geral e, particularmente, das práticas de desenvolvimento de projetos hospitalares.

. Indicadores de qualidade ambiental para hospitais-diaautores: Patrícia Biasi Cavalcanti, Giselle Arteiro Nielsen Azevedo, Vera Helena Moro Bins Ely
O presente artigo apresenta os resultados de visitas exploratórias realizadas em 31 unidades de hospital-dia e de quimioterapia do Rio e Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Esta pesquisa teve como objetivo definir aspectos determinantes da qualidade ambiental e da apropriação na percepção de seus usuários. Foram realizadas observações diretas e entrevistas semi-estruturadas, focando em aspectos organizacionais, perceptivos, comportamentais e ambientais.

O trabalho fundamenta-se no conceito de distrações positivas, interpretando-o como a possibilidade de proporcionar uma postura mais ativa ao paciente de forma que ele possa desviar seu pensamento do processo de tratamento e da própria dor. As visitas confirmaram que os ambientes de hospital-dia não costumam estar capacitados para atividades de interesse dos pacientes.
Além disto, os resultados permitiram identificar atributos ambientais de grande relevância para os usuários, tais como: privacidade, controle das condições ambientais, polivalência e variabilidade da organização e arranjos espaciais. Estes resultados podem assim contribuir para a humanização destes ambientes . Discute-se sobre a possibilidade de que o hospital-dia torne-se uma extensão dos locais que o indivíduo vivencia em seu cotidiano, permitindo usos que são parte de sua rotina.

. A natureza do valor desejado na habitação socialautores: Ariovaldo Denis Granja, Doris Catharine Cornelie Knatz Kowaltowski, Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina, Patricia Stella Pucharelli Fontanini, Lia Barros, Dina de Paoli, Ana Mitsuko Jacomit, Rafaela Massei Rodrigues Maçans
Aumentar a qualidade e a entrega de valor no ambiente construído pressupõe um processo contínuo de aperfeiçoamento para a presença efetiva de benefícios aos ocupantes.
Este artigo apresenta um estudo obre a natureza do valor desejado de usuários de conjuntos de interesse social, que adota como referencia sua natureza subjetiva e multidimensional na percepção do morador.

O objetivo da pesquisa é verificar a potencialidade do conceito de valor desejado para a introdução de melhorias nos projetos habitacionais. No método de pesquisa foram utilizadas a técnica de pesquisa declarada com cartões ilustrados e entrevistas semi-estruturadas sobre questões socioeconômicas como instrumentos de coleta de dados. A amostra consistiu de 195 respondentes em quatro conjuntos habitacionais na região de Campinas, SP. Seguiram-se inferências estatísticas com base em intervalos de confiança para a determinação da importância dos itens de valor e análise de conglomerados para se determinarem as associações entre os itens em grupos maiores.
O resultado do estudo evidenciou a prioridade do item segurança para agregação de valor, seguido da convivência com a natureza, gastos operacionais menores e diminuição de nível de ruído.

. O processo projetual e a percepção dos usuários: o uso de modelos tridimensionais físicos na elaboração de projetos de habitação socialautor: César Imai
O presente artigo examina as relações existentes entre o projetista e o futuro morador residencial dentro de um processo projetual que tem como proposta facilitar a comunicação por meio de sistemas de representação que utilizam modelos físicos tridimensionais flexíveis (maquetes).

Busca-se uma melhor compreensão sobre a percepção espacial do usuário leigo e investigar como a representação pode contribuir ou dificultar um processo projetual participativo. O método de pesquisa utilizado baseia-se em análises comportamentais registradas durante o processo projetual, por meio de gravações em vídeo, pelo estudo dos esboços dos projetos desenhados previamente pelos futuros moradores (com seus aspectos de compreensão espacial), da presença (ou ausência) de domínio técnico nessa representação e, finalmente, pela comparação entre esses esboços e os projetos finais.

Os resultados alcançados indicam uma busca da idealização do espaço da moradia, fruto dos modelos pré-concebidos por esses usuários, que foram baseados no seu conhecimento prévio e nas suas experiências de vida em relação à habitação. Esses exemplos indicam mais uma busca em prol do alcance de um sonho concretizado pela edificação, indicando muitas vezes ser uma conseqüência de um modelo de consumo divulgado pelos meios de comunicação ou uma busca de ascensão social representada pelas características da habitação.

. Avaliando a habitação: relações entre qualidade, projeto e avaliação pós-ocupação em apartamentosautor: Simone Barbosa Villa

Este artigo trata da elaboração de metodologia para Avaliação Pós-cupação (APO) em edifícios de apartamentos destinados à classe média edificados em Ribeirão Preto – SP, a partir de 2000, visando contribuir para a criação de ferramentas eficazes para retroalimentação destes projetos.

O objetivo principal da aplicação da APO foi avaliar a qualidade dos espaços internos e coletivos dos apartamentos, buscando estabelecer uma relação entre o comportamento do usuário e o projeto idealizado pelos vários agentes do mercado imobiliário.

A metodologia proposta foi elaborada a partir de ampla revisão bibliográfica sobre avaliação pós-ocupação e processo de projeto, assim como na análise crítica da produção de edifícios de apartamentos nas cidades de São Paulo e Ribeirão Preto no período proposto. A aplicação desta metodologia permitiu concluir que o projeto arquitetônico idealizado para os edifícios de apartamentos atuais não tem atendido de maneira satisfatória às reais necessidades dos usuários, destacando assim a premência de uma ampla revisão no processo de criação e de gestão do processo de projeto, ensejando que se desenvolvam procedimentos que incluam bancos de dados alimentados por APOs e também uma participação mais efetiva do arquiteto a frente deste processo.

. Apartamentos paulistanos: um olhar sobre a produção privada recenteautores: Fábio Queiroz, Marcelo Tramontano
Este artigo focaliza a produção de apartamentos pela iniciativa privada da cidade de São Paulo, entre os anos de 2000 e 2008, procurando entender aspectos do mercado imobiliário que interfiram ou determinem o desenho e as características das unidades.

É realizada uma leitura sobre estratégias para o planejamento e a comercialização de novos produtos, partindo de estudos de diversos autores, de dados de relatórios da EMBRAESP - Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio, da análise de material publicitário de lançamentos e de uma base de dados sobre exemplares paulistanos de apartamentos, além de trabalhos acadêmicos, em especial as pesquisas sobre o tema desenvolvidas no Nomads.usp - Núcleo de Estudos de Habitares Interativos.

Conclui-se que , são priorizadas no mercado estratégias que visam a garantir e agilizar a comercialização das unidades e o retorno financeiro de investidores, em detrimento da observação de características relacionadas à qualidade espacial e arquitetônica e que se relacionem ao uso das unidades por seus futuros moradores.

. Arquitetura e desempenho luminoso: CENPES II, o novo centro de pesquisas da Petrobras, no Rio de Janeiro, Brasil.autores: Norberto Corrêa da Silva Moura, Anna Christina Miana, Joana Soares Goncalves, Denise Silva Duarte
Este artigo apresenta os resultados da avaliação de desempenho de iluminação natural do projeto do novo centro de pesquisas da Petrobras, CENPES II, no clima tropical do Rio de Janeiro, sob as condições de céu típico parcialmente nublado e com grande luminosidade.

O projeto arquitetônico tinha mais de 100.000 m2 de área construída, distribuída entre dez novos edifícios. De acordo com o programa de necessidades, o acesso da iluminação natural deveria ser maximizado em todos os espaços interiores, sempre que permitido pelas exigências da função, oferecendo conforto visual e eficiência energética. Nesse caso, os desafios do projeto no que tange ao desempenho ambiental estão relacionados à necessidade de proteção solar e à não-ocorrência de ofuscamento, devido às condições climáticas e ao céu com grande luminosidade.

Este artigo está focado no desempenho dos dois edifícios principais do complexo. As avaliações de iluminação foram realizadas com o suporte de técnicas de simulação computacional, sendo realizadas comparações com critérios de desempenho nacionais e internacionais. Ao final, os estudos mostraram os efeitos positivos da adoção de algumas estratégias de projeto clássicas, que são pouco comuns na prática da arquitetura comercial brasileira.


Infohabitar, Ano V, n.º 258Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 10 de Agosto de 2009Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, agosto 03, 2009

257 - Revista Ambiente Construído e artigo AS CORRENTES E O CUIDADO por Marilice Costi - Infohabitar 257

Infohabitar, Ano V, n.º 257

NOTÍCIAS INFOHABITAR seguidas do artigo
AS CORRENTES E O CUIDADO, por Marilice Costi

Antes de passar à edição do artigo da semana, faz-se a divulgação de uma recente e importante edição na WWW de um novo número de uma excelente revista técnica em língua portuguesa.
Trata-se da revista online Ambiente Construído sob responsabilidade da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído cujo último número (especial) sob o tema "Qualidade do Projeto" foi editado pela Prof.ª Arq.ª Sheila Walbe Ornstein – como é sabido um dos primeiros autores a editar no nosso Infohabitar – e pelo Prof Dr. Carlos Torres Formoso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Como fica bem evidente no tema "Qualidade do Projeto", trata-se de uma matéria de grande actualidade e que é abordada, nesta revista, num amplo e estimulante leque de interessantes artigos, cujos títulos e autores se apresentam em seguida e cujas quase 200 páginas de pdf (s) estão disponíveis, facilmente, já aqui, no link. da revista Ambiente Construído:http://www.seer.ufrgs.br/index.php/ambienteconstruido/index

Apresentação da revista Ambiente Construído, Vol. 9, No 2 (2009)
"Qualidade do Projeto"


. Sumário

. (Parágrafo extraído do Editorial da revista)

“Este número especial da Revista Ambiente Construído tem como tema a Qualidade do Projeto. Pretende celebrar o início das atividades do Grupo de Trabalho em Qualidade do Projeto (GTQP) da ANTAC, constituído em outubro de 2008. Na chamada de trabalhos para este número foram destacados os seguintes temas: briefing e gestão de requisitos; natureza do processo de projeto; criatividade no processo de projeto; definição do escopo de projeto; avaliação de projetos; desenvolvimento do produto na construção civil; práticas profissionais de projeto; coordenação e compatibilização de projetos; modelagem do processo do projeto; processos colaborativos e engenharia simultânea; gestão da qualidade e certificação na atividade de projeto; tecnologia da informação para apoiar o processo de projeto; avaliação pós-ocupação e indicadores de qualidade do projeto.
...”

Sheila Walbe Ornstein, Co-editora convidada, FAUUSP
Carlos Torres Formoso, Editor-chefe, NORIE - UFGRS

Títulos dos artigos editados e respectivos autores:

. Flexibility as a design aspiration: the facilities management perspective
Edward Finch

. Quality of design and usability: a vetruvian twinTheo J. M. van Voordt

. Discussão sobre a importância do programa de necessidades no processo de projeto em arquiteturaDaniel de Carvalho Moreira, Doris Catherine Cornelie Knatz Kowaltowski

. The gaps between healthcare service and building design: a state of the art reviewPatrícia Tzortzopoulos, Ricardo Codinhoto, Mike Kagioglou, John Rooke, Lauri Koskela

. Desenvolvimento integrado de projeto, gerenciamento de obra e manutenção de edifícios hospitalaresMichele Caroline Bueno Ferrari Caixeta, Alexandra Figueiredo, Márcio Minto Fabrício

. Indicadores de qualidade ambiental para hospitais-dia

Patrícia Biasi Cavalcanti, Giselle Arteiro Nielsen Azevedo, Vera Helena Moro Bins Ely

. A natureza do valor desejado na habitação social
Ariovaldo Denis Granja, Doris Catharine Cornelie Knatz Kowaltowski, Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina, Patricia Stella Pucharelli Fontanini, Lia Barros, Dina de Paoli, Ana Mitsuko Jacomit, Rafaela Massei Rodrigues Maçans

. O processo projetual e a percepção dos usuários: o uso de modelos tridimensionais físicos na elaboração de projetos de habitação socialCésar Imai

. Avaliando a habitação: relações entre qualidade, projeto e avaliação pós-ocupação em apartamentosSimone Barbosa Villa

. Apartamentos paulistanos: um olhar sobre a produção privada recente
Fábio Queiroz, Marcelo Tramontano

. Arquitetura e desempenho luminoso: CENPES II, o novo centro de pesquisas da Petrobras, no Rio de Janeiro, Brasil.
Norberto Corrêa da Silva Moura, Anna Christina Miana, Joana Soares Goncalves, Denise Silva Duarte

Sublinha-se, finalmente, a grande relação entre esta edição e o próximo I Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído [SBQP 2009], que será realizado em São Carlos, São Paulo, de 18 a 20 de Novembro de 2009, em conjunto com o IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios.




O Site deste evento está disponível em:
http://www.arquitetura.eesc.usp.br/ocs/index.php/SBQP2009/SBQP2009

O editor do InfohabitarAntónio Baptista Coelho


Segue-se o artigo da semana no Infohabitar
AS CORRENTES E O CUIDADO
por Marilice Costi, Arquitecta e Investigadora

A primeira pesquisa urbana desenvolvida pelos meus alunos da disciplina Avaliação Pós-Ocupação (Faculdade de Arquitetura da PUCRS) foi com o intuito de descobrir o grau de satisfação dos pedestres em sete das vias de alto tráfego de Porto Alegre, entre elas, a avenida José de Alencar.

Moradora da região no entorno do Parque Farroupilha, eu vivia inconformada com aquelas correntes nos canteiros – sem sinalização – barreiras sem relação alguma com o desenho urbano. Pintadas de verde, à noite especialmente, tornavam-se invisíveis devido à grama nos canteiros. Sua altura também permitia que os transeuntes saltassem por elas, o que era arriscado, devido ao trânsito intenso. Muitas pessoas corriam risco de se machucarem e isso era visto frequentemente pelos comerciantes das regiões. Soubemos que uma pessoa havia sido atropelada por um ônibus ao saltar em uma daquelas correntes e que teria morrido.

O trabalho discente consistiu em formular questões em linguagem coloquial, que foram pré-testadas, e definiram um questionário a ser aplicado em no mínimo trinta usuários em cada ponto de pesquisa. Mais três técnicas escolhidas pelos grupos para ratificar ou não os resultados. Os alunos foram a campo acompanhados por mim para aprenderem a abordar os transeuntes, e observar o entorno e compreenderem a relação entre os pedestres e os canteiros centrais, lugar que se deve ter segurança, com tais correntes.

O resultado da pesquisa não me surpreendeu. O grau de rejeição era alto (muito mais de 45%) o que justificaria a sua remoção. Minha opinião sempre foi esta: basta uma pessoa a correr riscos e eu as removeria. Naquela data, tal pesquisa, por ser de alunos, não poderia ser aproveitada! Só poderia ser aprendizado dos futuros profissionais.

Alguns semestres depois, as correntes ainda me perturbavam. Eu também me perguntava quem era o responsável pelo desenho urbano do canteiro central entre o Centro Comercial Azenha e a Escola Ildefonso Gomes. Sem critério algum de segurança, desconsiderando totalmente o fluxo natural dos moradores do bairro, as correntes ali também impedem o fluxo comum dos moradores. Ao limitarem áreas com arbustos, que bloqueiam também a visibilidade reduzindo a segurança, criam lugares onde podem se esconder assaltantes. Os alunos descobriram que a sua colocação fora definida por algum funcionário do centro comercial, um “jardineiro” contratado para “embelezar” o canteiro central, de onde se tem uma das mais belas perspectivas das palmeiras imperiais em Porto Alegre.





Figura 01 e 02: finalmente, as correntes foram removidas - na imagem restavam apenas as barras de apoio, entre as quais havia correntes verdes.
É na Arquitetura que, compartilhada com a Sociologia, a Geografia, a Antropologia, a Engenharia e outras áreas do conhecimento, que se aprende a construir ambientes adequados ao uso humano. Portanto, projetos desse tipo devem ser projetados pelo arquiteto devido à sua formação e consequente competência para projetar conforme as necessidades espaciais e de circulação dos cidadãos. E ainda, devido à complexidade urbana, coordenar equipe multidisciplinar composta de profissionais de várias áreas. Neste caso, urbana, portanto de responsabilidade de secretarias municipais. Os alunos se deram conta que tais órgãos públicos decidiam cada um por si: SMAM, SMOV, EPTC e outras eram como feudos.

Retomamos a pesquisa urbana das correntes em canteiros centrais no início do novo século pois a dúvida permanecia. Que arquiteto criara aquelas barreiras metálicas “verdes”? A resposta veio da própria projetista: foi para proteger a grama! Infelizmente, não lembro o nome do aluno, foram tantos, que penetrara no âmago do espírito do pesquisador. Acabara o mistério: a projetista fora uma bióloga!

Abrindo o CP de dois de julho próximo, fiz a conta. Mais de dez anos passaram.

Finalmente, a percepção pública que faltava. Ou a decisão. Vinda de um professor, cujo olhar sensível, espero que também siga até o grande canteiro citado acima.
Fundamental é o trabalho do arquiteto ao projetar ambientes com segurança e conforto para as pessoas. O arquiteto, assim como a Prefeitura devem exercer também o cuidado.

Marilice Costi é mestre em Arquitetura, editora da revista O CUIDADOR, membro da ANTARQ e da ALF-RS - Rua Santana, 666/504 - Porto Alegrehttp://www.sanaarquitetura.arq.br/
CREA 41328
Brevíssimas notas do editor:Por sistema preferimos editar os textos o mais possível como me foram enviados o que também aconteceu em mais esta excelente reflexão de Marilice Costi sobre as razões que estruturam partes significativas dos nossos ambientes urbanos e de vida.
Na próxima semana tentaremos voltar a esta matéria, que é afinal a da urgência de termos cidades verdadeiramente amigáveis e estimulantes.

O editor do InfohabitarAntónio Baptista Coelho


Infohabitar, Ano V, n.º 257
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 3 de Agosto de 2009
Edição de José Baptista Coelho


segunda-feira, julho 27, 2009

256 - Habitação social, esforços, disciplinas e soluções (artigo) e 1.º anúncio ao 1.º SBQP 2009 em São Carlos SP - Infohabitar 256

Infohabitar, Ano V, n.º 256





NOTÍCIAS INFOHABITAR seguidas do artigo
Habitação de Interesse Social – Reunir esforços, Reunir Disciplinas e Soluções
por Samuel Gonçalves

Antes de passar à edição do artigo da semana, faz-se uma primeira divulgação de uma importante reunião técnica em língua portuguesa que terá lugar em Novembro de 2009 em São Carlos, Brasil.
Trata-se do I Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído [SBQP 2009]


Que será realizado em conjunto com o IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios

Em São Carlos, São Paulo, de 18 a 20 de Novembro de 2009.

O evento tem como objetivos fomentar as pesquisas sobre qualidade do projeto no ambiente construído e estabelecer um fórum para publicação, apresentação e discussão de trabalhos de pesquisa inovadores nas áreas de gestão, avaliação e qualidade do projeto.

A promoção deste interessante evento é da responsabilidade da ANTAC (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído)
http://www.antac.org.br/

E a organização é da responsabilidade do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da EESC – USPhttp://www.arquitetura.eesc.usp.br/

Salientando-se a já longa tradição de cooperação que existe entre o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e o seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (LNEC/NAU), e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP); cooperação esta que, nos últimos anos, tem também contado com a intervenção de membros do Grupo Habitar (GH) de um e outro lado do Atlântico – e nesta perspectiva está já prevista a participação de um membro do NAU e do GH no SBQP 2009.

O I Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído terá lugar no Anfi-teatro Jorge Caron, da Escola de Engenharia
de São Carlos - USP
O Site do evento está disponível em:
http://www.arquitetura.eesc.usp.br/ocs/index.php/SBQP2009/SBQP2009

E o programa e temas do evento em:
http://www.arquitetura.eesc.usp.br/ocs/index.php/SBQP2009/SBQP2009/schedConf/cfp

Segue-se o artigo da semana no Infohabitar
Habitação de Interesse Social – Reunir esforços, Reunir Disciplinas e Soluçõespor Samuel Gonçalves
Estudante da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP)


O presente texto não é um registo mais ou menos científico nem sequer de um estudo sobre o tema da habitação de interesse social. Apenas reúne um conjunto de ideias baseadas em observações pontuais motivadas por um interesse pelo tema.

Farei referência a dois casos particulares como forma de exemplificar modos de intervir conjugando medidas sociais e arquitectónicas na procura da melhor solução. Cito, para já, o Bairro das Alagoas na Régua. Actuou-se neste bairro, até então degradado e problemático, de um ponto de vista muito abrangente: recuperação arquitectónica e reinserção urbana e social. Assim, diminuíram-se as barreiras arquitectónicas entre o bairro e a cidade envolvente, houve uma preocupação com a manutenção do património físico e promoveu-se o dinamismo social (através de actividades recreativas, formações profissionais, …) envolvendo habitantes do bairro e a vizinhança do resto da cidade. Saliento o facto de o objectivo passar sempre pela tentativa de aproximar o bairro da cidade envolvente, tanto ao nível do tratamento do espaço público como do acompanhamento social.

De um ponto de vista disciplinar, para os técnicos do urbanismo e da arquitectura, esta intervenção aponta uma falha que muitos tendem a ignorar: a guetização subjacente à má produção de habitação de interesse social. Para tal contribuiu essencialmente a excessiva concentração de habitantes provenientes de locais e culturas muito diversas, uma resolução pontual para um problema político que leva à não identificação das pessoas com a sua nova morada, com os locais e eventualmente com as soluções arquitectónicas encontradas.

Agravando esta situação, muitas vezes as estratégias de inserção urbana são, frequentemente, deficientes ou, pelo menos, questionáveis: localizam-se estes pólos de habitação em massa em zonas periféricas da cidade, onde os terrenos representam um menor prejuízo para os municípios e afastam-se os bairros dos centros urbanos da cidade. Este afastamento geográfico rapidamente construirá o estigma do afastamento social, cultural e económico.

Quando, por outro lado, estes bairros se constroem numa maior proximidade do centro das cidades, é frequente verificar-se um conjunto de soluções urbanas que estão muito distantes daquilo que deveria ser a consciência mínima de princípios que regem as estratégias de produção da cidade contemporânea. Assim, surgem blocos, muitas vezes coloridos e negativamente iconográficos, deslocados do desenho urbano, com ruas que não se inserem condignamente na estrutura viária da cidade e com espaços de lazer interiorizados em relação à vizinhança.

Essas infra-estruturas que poderiam representar uma mais valia para a própria cidade acabam por se tornar de uso quase exclusivo dos habitantes do bairro, transformando-se em espaços pouco habitados, degradados, repulsivos e veículos de exclusão.

(imagem retirada por problemas editoriais)


A meu ver, o que importa salientar é que o planeamento e a produção de habitação de interesse social devem ser feitos a partir dos mesmos pressupostos que a habitação corrente, isto é, os bairros sociais têm de fazer parte da cidade e não podem ser encarados como excepções do tecido urbano.

Uma das aparentes resoluções para este problema poderá estar num maior esforço em realojar famílias necessitadas em casas desocupadas nos centros históricos. A título exemplificativo, posso citar o caso da Guarda, onde se realojaram 13 famílias através desta solução. No seu boletim municipal podia ler-se: "A cidade da Guarda, tal como outras no nosso país, necessita de intervir na recuperação dos edifícios e também de lhes atribuir uma nova funcionalidade, por forma a dar vida ao centro histórico." Esta intervenção representa, sem dúvida, uma medida política aliciante.

Contudo, a esta aparente solução imediata juntam-se alguns problemas como o recente inflacionamento dos preços da habitação nessas zonas - o que torna difícil a intervenção pública em propriedades privadas que mesmo degradas têm um valor de mercado elevado - e a inflexibilidade regulamentar que obriga a alterações arquitectónicas dispendiosas e demoradas, o que amortece as perspectivas de desenvolvimento deste tipo de iniciativas.

(imagem retirada por problemas editoriais)


Acredito que esta fórmula – Realojamento+Reabilitação – e as diferentes estratégias para conseguir a sua aplicação efectiva deverão ser temas incontornáveis no debate e na reflexão sobre o tema intemporal da habitação de interesse social.

Nota editorial:É com um gosto muito especial que o Infohabitar publica este artigo de um futuro arquitecto, que demonstra o interesse que as matérias da Arquitectura residencial de interesse social e os seus reflexos urbanos e sociais específicos continuam a despertar em alguns dos nossos jovens.

Eu próprio testemunhei este interesse ao participar, há poucos meses, em algumas palestras e sessões na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, realizadas por iniciativa de um dinâmico grupo de alunos, entre os quais estava o Samuel Gonçalves, que têm conseguido harmonizar as sempre bem presentes temáticas do desenho com as fundamentais matérias do desenhar para quê, para quem, em que contextos práticos e ao serviço de quais desígnios.

Deixam-se, assim, aqui os votos de que tais iniciativas possam continuar e desenvolver-se, seja na FAUP, seja noutras Escolas de Arquitectura que queiram redescobrir a importância de um habitar humanizado e sensível à sociedade, e salienta-se que o Infohabitar e o Grupo Habitar estarão sempre disponíveis para participar e apoiar (n)estas iniciativas,

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho


Infohabitar, Ano V, n.º 256
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 25 de Julho de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, julho 20, 2009

255 - Reportagem sobre a sessão e visita “regenerar integrando, Viseu, 2 de Julho de 2009 - Infohabitar 255

Infohabitar, Ano V, n.º 255
Reportagem sobre a sessão e visita “regenerar integrando, Viseu, 2 de Julho de 2009 – Grupo Habitar e Viseu Novo, SRU

António Baptista Coelho


O Grupo Habitar (GH) e a Viseu Novo, SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana de Viseu realizaram no passado dia 2 de Julho, em Viseu, as 16ª Sessão Técnica e 12ª Visita Técnica do GH.


Fig. 00

Tal como tinha sido anunciado na última edição do Infohabitar, publica-se, em seguida, uma reportagem fotográfica, praticamente não comentada, sobre a 16ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, que decorreu sobre o tema “Regenerar Integrando”, uma sessão que teve lugar na manhã do passado dia 2 de Julho de 2009, no Solar dos Peixotos em Viseu, seguindo-se, pela parte da tarde, uma longa e rica visita ao Centro Histórico de Viseu e às obras da respectiva Viseu Novo SRU.

Mais uma vez se salienta que estas acções – sessão e visita – tiveram a participação fundamental das Sociedades de Reabilitação Urbana (SRU) de Coimbra, Porto e Vila Nova de Gaia e de Viseu, agradecendo-se, novamente, esta participação assim como o trabalho fundamental da Viseu Novo SRU e da Câmara Municipal de Viseu, que asseguraram, na prática, esta excelente jornada técnica.

Relembram-se as temáticas debatidas na Sessão da manhã:. Sessão de Abertura, pelo Dr. Joaquim Américo Correia Nunes, Vice-presidente da C. M. de Viseu e Presidente da Viseu Novo SRU e pelo Arq. António Baptista Coelho chefe do NAU do LNEC, Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e Presidente da Direcção do Grupo Habitar.

. Introdução ao tema “O Habitar em Zonas Antigas” pelo Arq. António Baptista Coelho – intervenção editada no n.º 254 do Infohabitar.

. Introdução ao tema “as temáticas de gestão e financeiras implicadas na acção das SRU” pelo Dr. Jorge Quintela, Técnico Superior do IHRU, Administrador da Viseu Novo SRU e elemento da Direcção do Grupo Habitar.

. Apresentação do “Estudo de Enquadramento Estratégico para a ACCRU de Viseu”, Obras em curso de responsabilidade da Viseu Novo: pela Arq.ª Margarida Henriques, da Viseu Novo SRU.

. A estratégia de reabilitação na Zona Histórica do Porto: dificuldades de um percurso; pelo Arq. Rui Loza, da Porto Vivo SRU.

. Expectativas e formas de actuação na Zona Histórica de Gaia: pelo Eng. Defensor de Castro, da Cidade Gaia SRU e Vice-presidente do Grupo Habitar.

. Formas de veicular potenciais investidores: pelo Eng. João Craveiro, da Coimbra Viva SRU.

. Debate.


E apresentam-se, em seguida, imagens da sessão e da visita técnicas:


Fig. 01: Sessão de Abertura, por representantes da Câmara Municipal de Viseu, Viseu Novo SRU e Grupo Habitar – na primeira fila, após, a sua intervenção o Dr. Joaquim Américo Correia Nunes, Vice-presidente da C. M. de Viseu e Presidente da Viseu Novo SRU.



Fig. 02: após a sua intervenção, o Dr. Jorge Quintela, das Direcções do GH e da Viseu Novo SRU; um elemento fundamental na organização deste dia.




Fig. 03: pormenor da assistência.



Fig. 04: pormenor da assistência na fase de debate, intervinha Guilherme Vilaverde, Presidente da Direcção da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE)



Fig. 05: na altura do debate a mesa constituída pelos palestrantes e representantes das quatro SRU (da esquerda para a direita): Arq.ª Margarida Henriques, da Viseu Novo SRU; Arq. Rui Loza, da Porto Vivo SRU; Eng. Defensor de Castro, da Cidade Gaia SRU; e Eng. João Craveiro, da Coimbra Viva SRU.



Fig. 06: a visita iniciou-se num 1º Momento pela zona de intervenção junto ao novo Funicular …



Fig. 07: continuou através do Centro Histórico de Viseu e, pormenorizadamente, nas obras da Viseu Novo SRU ...

E teve os seguintes “momentos”:
2º Momento: Largo Mouzinho de Albuquerque
3º Momento: Largo António José Pereira
4º Momento: Largo de Santa Cristina
5º Momento: Praça D. Duarte
6º Momento: Largo Pintor Gata
7º Momento: Praça 2 de Maio
8º Momento: Praça da Republica
e 9º Momento: Largo da Misericórdia


Fig. 08



Fig. 09



Fig. 10



Fig. 11



Fig. 12



Fig. 13



Fig. 14



Fig. 15



Fig. 16



Fig. 17



Fig. 18


O Grupo Habitar pretende continuar a desenvolver acções nesta área temática em cooperação activa com outras entidades, estando desde já numa fase prévia de preparação uma acção conjunta com a Cidade Gaia SRU, em Vila Nova de Gaia.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

Infohabitar, Ano V, n.º 255
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 18 de Julho de 2009
Edição de José Baptista Coelho