Com as renovadas Boas-festas para os leitores deste Infohabitar, que constitui a 375.ª edição da nossa revista e a última do seu sétimo ano editorial, publica-se um conto de Natal de Adriano Rosa.
Fig. 01: tratamento de imagem sobre pormenor de uma tapeçaria/pano da colecção do Museu do Quai Branly
A mulher-que-caminha-pelos-desertos
(Um conto de Natal)
Durante largos meses perseguiram uma estrela, misteriosa e bela por sobre o grande reino da Pérsia. Nove meses, dizem os antigos testamentos, que é o tempo humano da gestação e tudo isto, convenhamos, não podia ser mais humano ou menos divino. Os Reis Magos perseguiram, de facto, aquela estrela vencendo o calor dos desertos e iludindo os salteadores, por entre as dunas e as sombras da noite. Melchior, o mais velho, austero nas suas longas barbas brancas, segurava com tenacidade um pequeno pote de oiro, receando os assaltos. A seu lado, Baltazar seguia altivo, no rigor negro do seu rosto sob cerradas barbas. Sem nunca esgotar a voz, Baltazar contava histórias da Índia tão longe como adorada. Levava consigo mirra e uma enorme curiosidade. À frente, marcando o destino e decifrando os sinais dos tempos e de todos os perigos, Gaspar era o mais jovem dos três Reis Magos. Levava incenso e aromas perfumados para o menino Jesus.
Mas nem o Evangelho Siro-Árabe da Infância refere uma quarta personagem. Atrás dos Reis Magos uma outra figura assomava e seguia amargurada por entre os rastos e a poeira do deserto. Não sei que nome dar a esta personagem. Seguia silenciosa atrás dos Reis Magos. A mulher-que-caminha-pelos-desertos pode ser o seu nome, à falta de outro. Maria, ou apenas a mulher grávida que seguia atrás dos Reis Magos.
No final da jornada, como rezam as escrituras, o menino Jesus era nascido e os Reis Magos depositaram as suas oferendas. Jesus chorava. José recolheu os presentes. Oiro, incenso e mirra! A mãe de Jesus agradeceu com uma vénia, ao lado de José, enternecida.
Do fundo do estábulo levantou-se, então, uma outra mulher, sem no entanto causar surpresa: a mulher que tinha perseguido os Reis Magos ao longo do deserto. O sangue sobre o linho fazia adivinhar que esta mulher tinha acabado de dar à luz uma criança, ou estava gravemente ferida. ' Por que te demoras ainda aqui? ', ripostou José. ' Não foste tu a escolhida ', concluiu José. Mas um anjo a protegia.
A mulher-que-caminha-pelos-desertos pegou o menino Jesus ao colo, e começou a amamenta-lo do seu peito.
«Meu menino, meu menino», sussurrava.
Conto de Adriano Rosa
Adriano Rosa nasceu em 1948, em Alcoutim, filho de pais-guerrilheiros que se haviam conhecido nas Brigadas Internacionais, durante a Guerra Civil em Espanha. O pai era um comerciante falido oriundo do Sul de Inglaterra, que se estabeleceu em Alcoutim depois da Guerra Civil espanhola (1936-1939). A mãe foi professora primária na sua terra-natal, na parte ocidental de Skiathos (Grécia). Adriano Rosa estudou literatura em Coimbra, tendo concluído estudos de doutoramento, tardiamente, em Salamanca (1999) com a tese intitulada Dom Quixote, Modernidade e Alteridade em Cervantes. Tem colaborado de forma regular, nos últimos anos, com jornais regionais do Sul de Portugal e Espanha: os jornais do Baixo Guadiana (Mértola) e na edição andaluz El Andevalo Sur-Occidental.
Anteriormente participou em 2 colectâneas de pequenos contos (1983 e 1986, respectivamente), editados pela Atlântida (Coimbra). Recebeu um Prémio Literário, atribuído pela Câmara Municipal de Espinho, no ano de 1993. Vive actualmente em Alvalade, Lisboa.
Fig. 02
O infohabitar volta na próxima semana para iniciar o seu oitavo ano de edições semanais. Boas Festas e o melhor ano de 2012, com saúde, força e alegria de viver,
são os nossos desejos,
o editor do Infohabitar e Pres. da Direcção do Grupo Habitar,
António Baptista Coelho
revista semanal – E-zine magazine – sobre o habitat humano ed. quarta feira ligada à GHabitar - Associação Portuguesa Promoção Qualidade Habitacional
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domingo, dezembro 25, 2011
domingo, dezembro 26, 2010
326 - Boas Festas do Grupo Habitar e um excelente 2011 - Infohabitar 326
Infohabitar, Ano VI, n.º 326
Nesta época festiva o Grupo Habitar e o Infohabitar desejam, a todos os leitores e amigos, que o Natal tenha sido passado em Família e entre amigos, em paz, com saúde e com amor.
Reforça-se a ideia, que se julga ser de todos, que o Novo Ano de 2011 não será fácil, mas que será, também, aquilo que possamos QUERER que ele seja, desde que para isso trabalhemos com vontade e com esperança; juntando-se os desejos sinceros de um Novo 2011 com saúde, força de viver e alegria.
O Grupo Habitar e o Infohabitar irão continuar os seus caminhos de divulgação, diálogo e discussão técnica, humana e socialmente empenhada, nas muito vastas áreas de um habitar que é essencial para essa alegria e força de viver quotidianas. E neste sentido, mais uma vez, se lança o desafio de uma cooperação dos leitores e amigos, seja na edição de textos, seja na participação nas mais diversas actividades, sempre desejáveis e estimulantes.
Este último texto do velho ano de 2010, é também um artigo de calma e de uma relativa paragem e por isso apenas se junta a imagem de uma planície do norte do Alentejo, tão natural como habitada; uma natureza que temos de urgentemente resgatar e gradual e continuamente valorizar, pois a reabilitação, tal como referiu há poucos dias o Arq.º Ribeiro Teles, por ocasião da entrega dos Prémios IHRU 2010, é um desígnio urgente, nacional e que não se pode circunscrever ao espaço urbano, tem de se alargar à paisagem, seja urbana, seja natural; e não tenhamos quaisquer dúvidas que deste desígnio/objectivo de reabilitação e regeneração depende boa parte do nosso futuro.
António Baptista Coelho
Prsidente da Direcção do Grupo Habitar
Editor do Infohabitar
E juntam-se algumas palavras do grande Padre António Vieira do Sermão do nascimento do Menino Deus – Salvador, 1628 (?).
"De todo este discurso se segue que o ser infante e mudo o nosso divino Orador de Belém, não lhe é impedimento para poder ensinar. Ensina e fala agora, enquanto homem, como exercitava e falava enquanto Deus:
Deus ensina, deleita-se e triunfa quando nos fala
interiormente, sem estrépito de palavras, “diz Santo Agostinho, falando da Retórica de Deus.
Assim como Deus, antes de ser homem, ensinava sem estrépito de palavras, porque falava interiormente aos corações, assim, tanto que nasceu Menino, ensina também sem estrépito de palavras, porque fala exteriormente aos olhos:
Vejamos esta palavra que foi feita
– Demóstenes, o sumo orador da Grécia, perguntado qual era a primeira parte do perfeito orador, respondeu: Actio: Ação
– E perguntado qual era a segunda, tornou a responder: Actio: Ação,
– E perguntado qual era a terceira, respondeu do mesmo modo: Actio: Ação.
– Não declarou as perfeições do orador pelas palavras que se ouvem, senão pelas ações que se vêem.
O mesmo responderei eu a quem me perguntar que ensina o nosso Orador infante, e como ensina? Não ensina com vozes, mas ensina com ações; não ensina o que diz, mas prega o que faz; não diz palavras, mas fala obras.
Este mesmo Orador infante, que agora ensina sem abrir a boca, virá tempo em que a abrirá para ensinar:
Abrindo a sua boca os ensinava (Mt. 5, 2).
O mesmo que então falando há de ensinar, com a palavra, é o que, agora, mudo, brada com as obras:
“Brada com obras o que, depois ensinará por palavras”.
– Que é o que há de ensinar este Menino, que agora é de um dia, ou de uma noite, quando depois for de trinta anos? Há de dizer com palavras:
Bem-aventurados os pobres.
Isto é o que já está ensinando, com o desabrigado do portal, com o presépio, com as palhas, e com a falta de todo o necessário:
Não havia lugar para ele na estalagem (Lc. 2, 7).
– Há de dizer com as palavras:
Bem-aventurados os mansos;
Isto é o que já está ensinando o que dantes era leão, feito agora cordeirinho, e com as mãos atadas, sem se queixar da ingratidão e crueldade com que o receberam os seus no mundo, que também é seu:
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (Jo. 1, 11).
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu (ibid. 10).
– Há de dizer com as palavras:
Bem-aventurados os que choram
Isto é o que já está ensinando com as lágrimas e gemidos de recém-nascido, própria condição da natureza, e não impróprias da miséria e estreiteza do presente estado:
Geme o recém-nascido entre as condições da presente realidade”( Hino: Pange Língua).
Sem outro socorro, contra o rigor de uma noite tão fria, como a de vinte e cinco de dezembro, mais que a quentura das mesmas lágrimas, estiladas da fornalha do coração, como devotamente cantou Sanasário:
Derramando lágrimas quentes na noite úmida
Oh! que exclamações!
Oh! que invectivas!
Oh! que brados estão dando contra o mundo os silêncios deste Orador mudo!
Mas, assim como as suas vozes, depois, não hão de ser admitidas de muitos surdos com ouvidos, assim agora as suas ações são mal vistas, e pior imitadas, de muitos cegos com olhos. Ditosos os olhos dos nossos pastores, que, de tudo o que viram no presépio, souberam tirar proveito para si e glória para Deus:
Glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto (Lc. 2, 20).
Diz o Evangelho não só que viram, senão que ouviram:
“As coisas que ouviram e viram”.
Sendo que no presépio não ouviram palavra alguma, porque as palavras que são feitas, e não ditas, então se ouvem quando se vêem:Vejamos a mensagem que o Senhor nos revelou nos acontecimentos.(Lc. 2,15) "Texto retirado do blog:
http://tribunalusofona.blogspot.com/2009/12/textos-sobre-o-natal.html
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar n.º 326, 26 de Dezembro de 2010
Nesta época festiva o Grupo Habitar e o Infohabitar desejam, a todos os leitores e amigos, que o Natal tenha sido passado em Família e entre amigos, em paz, com saúde e com amor.
Reforça-se a ideia, que se julga ser de todos, que o Novo Ano de 2011 não será fácil, mas que será, também, aquilo que possamos QUERER que ele seja, desde que para isso trabalhemos com vontade e com esperança; juntando-se os desejos sinceros de um Novo 2011 com saúde, força de viver e alegria.
O Grupo Habitar e o Infohabitar irão continuar os seus caminhos de divulgação, diálogo e discussão técnica, humana e socialmente empenhada, nas muito vastas áreas de um habitar que é essencial para essa alegria e força de viver quotidianas. E neste sentido, mais uma vez, se lança o desafio de uma cooperação dos leitores e amigos, seja na edição de textos, seja na participação nas mais diversas actividades, sempre desejáveis e estimulantes.
Este último texto do velho ano de 2010, é também um artigo de calma e de uma relativa paragem e por isso apenas se junta a imagem de uma planície do norte do Alentejo, tão natural como habitada; uma natureza que temos de urgentemente resgatar e gradual e continuamente valorizar, pois a reabilitação, tal como referiu há poucos dias o Arq.º Ribeiro Teles, por ocasião da entrega dos Prémios IHRU 2010, é um desígnio urgente, nacional e que não se pode circunscrever ao espaço urbano, tem de se alargar à paisagem, seja urbana, seja natural; e não tenhamos quaisquer dúvidas que deste desígnio/objectivo de reabilitação e regeneração depende boa parte do nosso futuro.
António Baptista Coelho
Prsidente da Direcção do Grupo Habitar
Editor do Infohabitar
E juntam-se algumas palavras do grande Padre António Vieira do Sermão do nascimento do Menino Deus – Salvador, 1628 (?).
"De todo este discurso se segue que o ser infante e mudo o nosso divino Orador de Belém, não lhe é impedimento para poder ensinar. Ensina e fala agora, enquanto homem, como exercitava e falava enquanto Deus:
Deus ensina, deleita-se e triunfa quando nos fala
interiormente, sem estrépito de palavras, “diz Santo Agostinho, falando da Retórica de Deus.
Assim como Deus, antes de ser homem, ensinava sem estrépito de palavras, porque falava interiormente aos corações, assim, tanto que nasceu Menino, ensina também sem estrépito de palavras, porque fala exteriormente aos olhos:
Vejamos esta palavra que foi feita
– Demóstenes, o sumo orador da Grécia, perguntado qual era a primeira parte do perfeito orador, respondeu: Actio: Ação
– E perguntado qual era a segunda, tornou a responder: Actio: Ação,
– E perguntado qual era a terceira, respondeu do mesmo modo: Actio: Ação.
– Não declarou as perfeições do orador pelas palavras que se ouvem, senão pelas ações que se vêem.
O mesmo responderei eu a quem me perguntar que ensina o nosso Orador infante, e como ensina? Não ensina com vozes, mas ensina com ações; não ensina o que diz, mas prega o que faz; não diz palavras, mas fala obras.
Este mesmo Orador infante, que agora ensina sem abrir a boca, virá tempo em que a abrirá para ensinar:
Abrindo a sua boca os ensinava (Mt. 5, 2).
O mesmo que então falando há de ensinar, com a palavra, é o que, agora, mudo, brada com as obras:
“Brada com obras o que, depois ensinará por palavras”.
– Que é o que há de ensinar este Menino, que agora é de um dia, ou de uma noite, quando depois for de trinta anos? Há de dizer com palavras:
Bem-aventurados os pobres.
Isto é o que já está ensinando, com o desabrigado do portal, com o presépio, com as palhas, e com a falta de todo o necessário:
Não havia lugar para ele na estalagem (Lc. 2, 7).
– Há de dizer com as palavras:
Bem-aventurados os mansos;
Isto é o que já está ensinando o que dantes era leão, feito agora cordeirinho, e com as mãos atadas, sem se queixar da ingratidão e crueldade com que o receberam os seus no mundo, que também é seu:
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (Jo. 1, 11).
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu (ibid. 10).
– Há de dizer com as palavras:
Bem-aventurados os que choram
Isto é o que já está ensinando com as lágrimas e gemidos de recém-nascido, própria condição da natureza, e não impróprias da miséria e estreiteza do presente estado:
Geme o recém-nascido entre as condições da presente realidade”( Hino: Pange Língua).
Sem outro socorro, contra o rigor de uma noite tão fria, como a de vinte e cinco de dezembro, mais que a quentura das mesmas lágrimas, estiladas da fornalha do coração, como devotamente cantou Sanasário:
Derramando lágrimas quentes na noite úmida
Oh! que exclamações!
Oh! que invectivas!
Oh! que brados estão dando contra o mundo os silêncios deste Orador mudo!
Mas, assim como as suas vozes, depois, não hão de ser admitidas de muitos surdos com ouvidos, assim agora as suas ações são mal vistas, e pior imitadas, de muitos cegos com olhos. Ditosos os olhos dos nossos pastores, que, de tudo o que viram no presépio, souberam tirar proveito para si e glória para Deus:
Glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto (Lc. 2, 20).
Diz o Evangelho não só que viram, senão que ouviram:
“As coisas que ouviram e viram”.
Sendo que no presépio não ouviram palavra alguma, porque as palavras que são feitas, e não ditas, então se ouvem quando se vêem:Vejamos a mensagem que o Senhor nos revelou nos acontecimentos.(Lc. 2,15) "Texto retirado do blog:
http://tribunalusofona.blogspot.com/2009/12/textos-sobre-o-natal.html
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