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terça-feira, junho 23, 2020

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 735

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Notas prévias:

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Esperando que estejam todos de saúde,

continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.

Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.

Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 22 de junho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

 

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

António Baptista Coelho

 

 

 

Ainda sobre a grande e insuspeitada importância da opção de se viver em afirma relação com o exterior

A opção de se “viver ao nível térreo” ou próximo dele, ou ainda em relação privilegiada com o exterior (privado, comum, público ou de uso público) é um passo importante, como já foi aqui referido, para se habitar privilegiando o exterior e, consequentemente, marcando-se bem a existência, sempre bem próxima, de um “interior” que poderá e deverá ser expressivamente acolhedor e identificador.

É, assim, interessante considerar que uma tal possibilidade de habitar de modos afirmadamente ligados ao “exterior”, ao “ar-livre”, “à rua” e, portanto, à natureza, e/ou à cidade e/ou mesmo à paisagem de proximidade, é uma possibilidade que, um pouco ao contrário do que poderia parecer, acaba por proporcionar, para além de toda essa potencial diversidade de usos e sentimentos ligados ao “exterior” (bastante apontados no artigo anterior) e, consequentemente, aos tais ricos espaços de relação exterior/interior/exterior, um verdadeiro sentido de interioridade e de verdadeira opção por essa interioridade.

E mais podemos, ainda, avançar quando consideramos que um tal verdadeiro sentido de interioridade, mais ou menos matizada em termos ambientais e de privacidade/convívio, será muito mais efetiva, porque verdadeiramente opcional e “desejada”, do que aquela interioridade quase “obrigatória” que sentimos e “sofremos”, quando estamos “alojados” em condições nas quais a única opção é entrarmos nos “nossos” edifícios e, em seguida, passarmos de imediato (pois não existem outras opções e mesmo estes espaços ditos comuns acabam por ser meros espaços mínimos de circulação) aos “nossos” espaços domésticos, que, muitas vezes, eles próprios são, também, tristemente unívocos (suscetíveis de interpretações únicas, quando não mesmo única) e “obrigatórios” nas suas formas de uso e de (muito reduzida ou mesmo ausente) capacidade e apropriação.

E realmente toda esta reflexão pode e deve corresponder a um verdadeiro “filão” em termos de reflexão projetual (sobre o “viver ao nível térreo” ou em grande relação com o exterior), numa perspetiva que deverá ser conjugada e que, por sua vez, ganhará importantes influências, designadamente dos seguintes aspetos:

·        diversificação e adequação tipológica habitacional, numa opção cada vez mais afastada das velhas e “únicas” soluções ditas funcionalistas e que corresponda a uma verdadeira aproximação a diversos modos e desejos de habitar a casa, a vizinhança e a cidade e a diversos gostos de contacto diário com o exterior;

·        consideração estratégica e igualmente diversificada, dos importantes aspetos de harmonização a necessidades específicas de acessibilidade e à sua natural mistura e conjugação em soluções urbanas;

·        compatibilização com as “novas” ou renovadas preocupações de densificação urbana, pois não tenhamos quaisquer dúvidas que será, em boa parte, da natural organicidade de misturas de soluções de habitar diversificadas no seu relacionamento com o exterior que decorrerá boa parte da respetiva capacidade de combinação mútua e, consequentemente, de agregação e densificação;

·        incorporação na arquitetura urbana assim relativamente reinventada de múltiplos aspetos de sustentabilidade ambiental e social urbanas, designadamente, através da multiplicidade de relacionamento com e de usos dos espaços exteriores, seja em aspetos ligados com a sua componente natural, seja na sua potencialidade social;

·        opção evidenciada por um urbanismo renovado e mais humano, tendo-se em conta aspetos de relação mais direta, diversificada e múltipla com a escala e os usos humanos; e uma opção que, consequentemente, irá pedir sempre mais “humanidade” e mais relacionamentos nos outros níveis físicos da cidade e sua envolvente;

·        compatibilização com soluções de arquitectura urbana potencialmente muito sensíveis a situações de baixa e muito baixa densidades, numa opção em que, finalmente, se dará a tais situações a sua importância real e urgente;

·        e conjugação com uma oferta habitacional potencial e expressivamente caraterizada como claramente apropriável pelos seus habitantes (fisicamente e em termos de identidade); isto porque não se trata só de intervir diretamente na potencialmente enorme presença física de múltiplos pequenos jardins, pequenos pátios, caminhos ajardinados, balcões e varandas todos marcados por elementos naturais e de mobiliário exterior, mas trata-se, também, de suscitar uma arquitetura urbana global e intensamente marcada pelas contiguidades com espaços domésticos e também com os tais pequenos espaços de equipamento coletivo (ex., pequenos cafés e esplanadas), que acabem por também se caracterizarem por um forte sentido doméstico e apropriado/apropriável .

 

Espaço urbano vitalizado pelas habitações térreas

A existência de residências térreas, dispondo de espaços exteriores privativos, liga-se a uma oferta, directa, de condições de vida diária potencialmente muito semelhantes ao viver em edifícios unifamiliares e pode, até, ser conveniente para potenciar a continuidade da presença humana e a animação urbana, acima referidas, e por outro lado para as garantir, de modo mais generalizado, "a toda a volta dos edifícios" e, até, de um modo mais alargado, a toda a volta de zonas exteriores privadas dos fogos do rés-do-chão, enquanto também se potencia a qualificação basicamente residencial da zona em causa (caracterizando-a como uma verdadeira "área residencial").

E nunca é excessivo valorizar este sentido de “residencialidade”, que acaba por ser a “urbanidade” mais ligada à proximidade/contiguidade da habitação.

 

Fig. 01: o exterior considerado e tratado como efetivo espaço de habitar.


Adequação da habitação a modos de vida e gostos habitacionais

Por outro lado, sabendo-se , ainda, que os fogos térreos podem ter problemas de segurança (relativamente a intrusões) e de reduzido desafogo de vistas (de modo a proteger-se a intimidade doméstica), para não falar já das suas potencialmente mais fracas/sensíveis condições de conforto ambiental (mais sombra, mais ruído), também parece justo que lhes sejam atribuídas, de certa forma em compensação, algumas (muitas) vantagens quanto à autonomia no contacto com o solo e respetiva diversidade de usos correlacionados.

Com uma tal opção projetual e para além desta compensação com múltiplos usos “térreos” a habitações próximas do nível térreo, conseguem-se, ainda:

·        substanciais poupanças na manutenção pública do exterior residencial, que acaba por ser garantido, em boa parte, pelos seus próprios habitantes;

·        enquanto se proporciona a um significativo grupo social, o das famílias com filhos pequenos e de tantas outras pessoas com hábitos e gostos de relacionamento com o exterior, um meio residencial que é o ideal para o crescimento saudável destas crianças (jogos no exterior em segurança, contacto directo com a terra, etc.) e para a saudável e gratificante continuidade de usos e desejos de habitar e de usar o exterior; usos e desejos estes que poderão e deverão marcar uma renovada oferta de tipologias habitacionais adequadas, seja a uma ampla diversidade de modos de vida (ex., mais ligados a prática rurais), seja a uma ampla variedade de gostos/desejos de habitar (ex., ligação mais forte ao exterior e ao solo, contato com animais domésticos, etc.).

 

Cuidados com as habitações térreas

Convém, no entanto, considerar alguns cuidados básicos no desenvolvimento de fogos e equipamentos térreos, tal como, em seguida, se refere (de modo não exaustivo):

·        Cotas de soleira e de peitoril a alturas adequadas, relativamente aos espaços exteriores públicos, comuns e privados contíguos.

·        Vistas a partir dos espaços pedonais envolventes do edifício, por um lado não devassando os espaços térreos privados e por outro aproveitando, pelo menos em parte, visual e ambientalmente, os "verdes" privados.

·        Relações estimulantes com os espaços exteriores privados e bem aproveitadas em todas as suas potencialidades, com relevo para a forte caracterização da imagem urbana do local (área ou conjunto residencial).

·        Adequadas (máximas) condições de segurança, tanto por recurso a muros, gradeamentos e vedações previamente projectados e uniformizados, "cobrindo"/protegendo todos os vãos exteriores térreos e quintais privados, como pelo desenvolvimento cuidadoso (não ferindo privacidades domésticas) de uma estratégia generalizada de visibilidades de segurança e de contiguidades de observações naturais e contínuas (ex., contiguidade ou grande proximidade entre as traseiras de certos edifícios e as entradas de outros). 

·        Total controlo do desenvolvimento de anexos nos quintais privados, segundo projectos-tipo e apenas para usos, previamente, bem definidos.

·        Articulação de todos estes aspetos numa adequada solução de gestão local dos espaços públicos, de uso público, comuns visíveis e privados visíveis; solução esta também direcionada para a manutenção de adequadas condições ordenamento e qualidade visual e de segurança pública nestes espaços.

 

Semelhança entre habitações térreas e moradias

John Noble e Barbara Adams consideram que algumas características das moradias podem ser conseguidas nos pisos térreos de edifícios multifamiliares, tais como acessibilidade a diversos tipos de espaços exteriores, terraços e jardins privados económicos, zonas de serviço exteriores e vistas agradáveis de espaços verdes ou de zonas animadas; no entanto, há que cuidar, atentamente, das relações visuais e acústicas que determinam a privacidade doméstica (essencialmente interior, mas também em parte do exterior privado). (1)

É ainda de considerar a extensão parcial deste tipo de solução às habitações em 1º andar, através de terraços e escadas exteriores funcionais e, por vezes, aproveitando a topografia do terreno.

E é, ainda, interessante considerar que tais qualidades evidenciadas de bom relacionamento com o exterior podem também ser reforçadas pelo desenvolvimento, mais em altura, de soluções habitacionais marcadas por adequados terraços, balcões, varandas e mesmo vãos de janela expressivamente ligados ao exterior.



  Fig. 02: a importância que tem a relação interior/exterior num uso estimulante dos espaços domésticos.

 

 Pátios e quintais privados

Uma previsão de pátios ou pequenos quintais privados é um aspecto fundamental neste nível físico da Vizinhança Próxima, que parece não ter sido, ainda, convenientemente considerado na arquitectura urbana residencial mais recente.

Afinal os espaços exteriores privativos e térreos constituem zonas de transição interior doméstico/exterior público ou semi-público com enorme capacidade de apropriação, são elementos de forte compensação face a uma situação habitacional térrea ou pouco elevada (menos privatizada, segura e visualmente desafogada), asseguram boa capacidade de adequação a determinados modos de vida, desejos habitacionais e composições familiares (famílias com crianças) e podem também assegurar um verde privado com forte fruição pública mas sem gastos públicos de manutenção (ao longo de caminhos e passeios pedonais) contíguas, mas assegurando forte demarcação e relativa ou total privacidade. 

E não tenhamos dúvidas de que mesmo pequenos pátios e/ou quintais privados, ou mesmo varandas fundas/profunda, desde que bem projetados e equipados, proporcionam às suas habitações uma extraordinária dimensão natural e de relacionamento com o exterior, verdadeiramente enriquecedora em si própria (pelos usos e ambientes proporcionados) e de enriquecimento diversificado dos respetivos espaços interiores contíguos.

Variedade de espaços exteriores privativos

De certo modo a integração de quintais/pátios e de balcões/varandas com expressiva profundidade tem grande versatilidade de aplicação, podendo variar, por exemplo, entre um grande pátio/terraço comum envolvendo uma torre habitacional e um interior de quarteirão associando zonas de recreio semi-públicas centralizadas e uma margem quase contínua de quintais/pátios contíguos a fogos térreos, ligados a fogos em 1º andar (com acesso por escadas), dispondo de balcões ajardinados e profundos e, eventualmente, contíguos a salas de condomínio.

Relativamente a todas estas matérias lembra-se um interessante livro de Dieter Prinz, com uma já “antiga” edição portuguesa (1994) designado Urbanismo II ( e julgo que “Configuração Urbana”, pelos menos assim é na edição no Brasil) e em que se abordam estes assuntos de forma muito estimulante.

           

Outras vantagens dos exteriores privativos e bem relacionados com o nível térreo

Ainda outras importantes vantagens do desenvolvimento de quintais/pátios e de varandas profundas ao nível térreo e na sua proximidade, referem-se à sua muito provável influência decisiva na obtenção de condições de intensa utilização e apropriação de grande parte do exterior de proximidade e os consequentes ganhos em boas condições de vigilância natural, bastante contínua e bem disseminada, de todo o território da Vizinhança Próxima.

Não é excessivo reafirmar que estas condições só terão viabilidade se o sistema de quintais/pátios e de janelas e varandas baixas estiver perfeitamente conjugado com o sistema de acessibilidade local e de respetivas visibilidades mútuas (ex., percursos de uso frequente ao logo de bandas de quintais), caso contrário, tratando-se de uma má solução de projeto de Arquitetura, o resultado final até poderá, eventualmente, agravar situações de insegurança e de incomodidade na vivência local.

 

Notas:

(1) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 525.

 

 

 

Uma primeira versão, muito menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 476 da Infohabitar, em 17 de março de 2014.

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 735

 

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


terça-feira, dezembro 10, 2019

Continuar uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 712

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XV, n.º 712

Continuar uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 712

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias atualmente “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em 2020, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho

Continuar uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 712

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia
O presente artigo procura assegurar a continuidade da reflexão sobre o que podemos considerar como os “velhos/novos espaços urbanos”, desenvolvida no artigo Infohabitar n.º 711, neste caso através de alguns comentários informais a propósito de alguns desenhos realizados tendo por base enquadramentos de bairros históricos lisboetas e outros esboços mais livres (5 desenhos coloridos).
Os comentários abordam essencialmente as matérias da Arquitetura do habitar, numa perspetiva de arquitetura urbana de vizinhanças e paisagens de proximidade; não se descurando, em alguns casos, alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Salienta-se, ainda, a título de nota prévia e justificativa, que as ideias que são seguidamente apontadas correspondem a uma reflexão estritamente pessoal sobre a matéria e que, por vezes, os esboços não contemplam necessidades hoje em dia estruturantes de novos conjuntos urbanos, como é, designadamente, a matéria das acessibilidades; mas sublinha-se que estes esboços não foram realizados para ilustrar as ideias que os acompanham, mas sim, pelo contrário, as ideias escritas que os acompanham decorrem da leitura de alguns aspetos neles ilustrados (ex., escala geral, perspetiva, humanização, etc.).
Introdução explicativa
Como referência prática de apoio à leitura, lembra-se que no referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, se procurou desenvolver, esquematicamente, a ideia de que, nos tempos de hoje, quando se pretende imprimir ao espaço urbano uma renovada marca pedonal e de meios “suaves” de deslocação, facilitados, designadamente, pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelo crescimento do uso dos veículos pouco poluentes, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
No referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, desenvolveu-se uma abordagem de Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos, seguindo-se o apontamento de  alguns desenvolvimentos recentes e de referência, que apoiam estas ideias, desenvolvendo-se, em seguida a matéria do que se considera poder ser uma estratégica variabilidade urbana, que se julga poder ser até facilitada pelas novas ferramentas de projeto.
Alguns desenhos comentados
Em seguida e tendo-se por base a apresentação de alguns desenhos à mão livre ( 5 desenhos coloridos), comentam-se as matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas que acabaram de ser referidas, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Fig. 01: um enquadramento "sintetizado/inventado", com base em múltiplas memórias de passeios em zonas históricas, acentua os aspetos de perspetiva e de graduada surpresa, que dinamizam a deslocação e a antecipam, mas apenas em parte.; há aqui aspetos de segurança a considerar, embora a grande proximidade de vãos de porta e de janela seja importante elemento inibidor de atentados à segurança e elemento de acompanhamento natural do passeio. Criticável, naturalmente, a ausência de rampas, mas o esboço foi feito com grande liberdade de expressão; e falando-se do esboço uma breve nota para se ter procurado alguma simplificação no apontamento formal dos volumes edificados, fazendo-se sobressair o conjunto edificado e cromático de paredes e janelas, que, de certa forma, quase se sobrepõem atenuando até um pouco a perspetiva numa dualidade entre a referida indicação de perspetiva e a criação de um quadro/imagem daquele local específico.


Fig. 02: tal como no desenho anterior há neste e de forma mais acentuada, um certo sentido de "cena" urbana, sendo que aqui as mesmas ferramentas de perspetiva, de alguma controlada (em parte antecipável) surpresa (lá mais para o fundo da rua) e de uma evidenciada expressão da topografia, contribuem todas (ferramentas) para a criação de uma cenografia de cidade, ou de pequena cidade, mas que integra muitos dos seus elementos simbólicos (ex., a torre da Igreja); numa outra leitura é evidenciada essa cidade como feita por inúmeras pequenas células (edifícios/casas), cada um deles relativamente pequeno, mas no seu conjunto criando uma clara unidade, neste caso em ligação com a acentuada topografia; uma nota, novamente, para ser uma imagem em que não há uma atenção completa e adequada relativamente à movimentação pedonal e de modos "suaves" de deslocação, que, naturalmente, exigiriam rampas. Apenas como referência, aponta-se que se trata, também, de um enquadramento "sintetizado/inventado", com base em múltiplas memórias de passeios em zonas históricas; isto num desenho/esboço também marcado pela simplificação no apontamento formal dos volumes edificados, fazendo-se sobressair a "colina edificada". 


Fig. 03: um enquadramento da margem ribeirinha de Lisboa vista das suas colinas, evidenciando-se a relativa amálgama de telhados, uns maiores e outros menores, uns mais evidenciados e em planos próximos, outros muitos visualmente mais pequenos, porque afastados, mas todos criando uma expressiva unidade de paisagem urbana, em que parte desses mesmos telhados estão/são habitados por trapeiras, chaminés e lanternins de escadas. E é interessante atentar nesta duplicidade da paisagem urbana que se vive, quando se sobe ou quando se desce a cidade velha a pé, e com vagar: vistas relativamente curtas sincopadas e sequenciais, e vistas talvez menos sincopadas, mas igualmente sequenciais e entremeadas por pontos de vista e eixos/enfiamentos paisagísticos, por vezes, muito amplos e longos.


Fig. 04: novamente um enquadramento "inventado", com base em múltiplas memórias de passeios em zonas históricas, neste caso uma vista descendente em que se evidenciam variadas tipologias urbanas e habitacionais, desde o que poderão ser agregados de unifamiliares em bandas densas e orgânicas a soluções mistas de pequenos multifamiliares em que alguns dos fogos (os que podem) têm acesso direto e privado à rua; a escala geral é toda ela fortemente aproximada à escala humana; outro aspeto que se salienta é a forte expressão que se consegue das continuidades superiores dos edifícios - as linhas de limite entre as paredes e o céu, cujos recortes dinâmicos acentuam tais limites, desenvolvendo-se mais uma expressiva marca urbana.


Fig. 05: um enquadramento que teve por base uma imagem de um "recanto" de um bairro histórico lisboeta, marcado pelos usos pedonais e, expressivamente, pelos vãos habitacionais que envolvem e povoam a continuidade de um espaço público no qual e quase em primeiro plano se evidencia uma árvore urbana bem protagonista e que ajuda, ainda mais, a tornar o espaço público exterior abrigado, conformado, confinado e variadamente caraterizado; afinal com um sentido que terá sido quase natural de funcionar como verdadeira extensão dos espaços domésticos com o qual confina.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XV, n.º 712

Continuar uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 712

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa




Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

segunda-feira, maio 21, 2018

642 - Uma rua bem habitada - A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º I


Uma rua bem habitada 


A propósito do livro de Xavier Monteys (*) “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo inicia-se uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.


Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; havendo, sempre, as bibliotecas...


Como os leitores sabem tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.


Julga-se que numa actualidade marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito que lemos na WWW e do muito que descobrimos na mesma WWW, mas uma actualidade também marcada por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente sobre uma dada temática, velocidade essa que é incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas que, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” no pensar sobre um dado tema, dificultando pensamentos bem desenvolvidos sobre o mesmo, e aliás numa actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas,


será altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; nesta caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui inventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar sobre o actual quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.


A partir de agora a Infohabitar irá procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.


O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys intitulado “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Notas explicativas

No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Xavier Monteys (*) intitulado “La calle y la casa. Urbanismo deinteriores”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2017 (**).
Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos objectivos referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas.
Nas referidas reflexões procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Xavier Monteys.

Apresentação geral

Nas palavras de Xavier Monteys: “este livro aspira a integrar uma trilogia sobre o espaço que habitamos – com os meus livros anteriores Casa collage (2001, com Pere Fuertes) e La habitación (2014)”; livros estes também já disponíveis na mesma coleção da Editorial Gustavo Gili.
Embora não seja este o objectivo deste texto apetece referir a cuidada e atraente edição deste livro, agradavelmente quadrangular e bem manuseável, com uma capa a duas cores, bem ilustrada com um desenho esboçado de Louis Khan, que, tal como aponta o autor do livro procura “ajudar a tornar visível uma dimensão poliédrica da rua, mas com a atenção centrada em tudo aquilo que a relaciona mais intensamente com a casa”; objectivo este que, segundo o autor, é o objectivo deste seu livro.
Um objectivo que, cruzado com a excelente e desenvolvida “Introdução” de reflexão teórico-prática com cerca de 15 pp, e uma estratégia de apresentação agradavelmente comentada, bem fundamentada (ver as úteis e quase constantes, mas bem legíveis, notas de pé de página) e muito bem ilustrada (todo o livro é extensamente ilustrado a preto/branco), nos leva a uma sua leitura estimulante; pois quando se termina a introdução estamos, praticamente, dentro do “miolo” temático da obra e está bem ganha a embalagem para se ir, com gosto, até ao fim.
O livro tem 168 pp. e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir da referida introdução de apresentação teórica e prática, seguindo-se os 24 subtemas de reflexão; (ii) seja uma leitura subtema a subtema, que se recomenda que seja feita após a leitura da introdução; (iii) seja uma leitura inicial mais global e que proporciona um prático guia de (re)leitura posterior.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, naturalmente, bem marcado por arquitectos interessados no urbanismo de pormenor e no habitat humano, mas igualmente apetecível por todos aqueles profissionais e cidadãos que se interessem por essas matérias; a agradabilidade formal da escrita de Xavier Monteys, o seu encadear de ideias bem claras e ricas, a referida extensa ilustração, que acompanha a par e passo o texto, e o tema geral referido a como podemos ter uma cidade feita de ruas e habitações mutuamente vitalizadas, assim o proporciona.

Estrutura

Depois de uma introdução com grande interesse e expressiva autonomia como texto, o autor abre para 24 subtemas ilustrados, que em seguida se exemplificam na sua diversidade e oportunidade e que podem ser lidos, sequencialmente ou, isoladamente, um a um.
Exemplos dos subtemas abordados: entrar!; as ruas de Piranesi; ruas cobertas; ruas como palácios, janelas singulares, o que fazemos na rua, as extensões da rua, ruas de celulóide, a rua de Corbusier, a rua como escola, ruas no espaço, a pintura as ruas e a chuva, a casa praça e a casa rua, etc.

Conteúdos

Apontam-se, agora, algumas ideias que vão sendo revisitadas ao longo do livro de Xavier Monteys, seja mais directamente, na introdução, seja, bem a propósito, à medida que se dedica aos diversos subtemas, alguns dos quais acima apontados; e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo citadas, entre aspas, algumas das suas frases; lembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.
Este livro aborda a rua e o habitar a rua numa perspectiva ampla, considerando-a e comentando-a como “um espaço mental, mas também um espaço mental, um estado de ânimo.”
Refere-se que terá havido um certo privilegiar da praça urbana, designadamente, em termos do seu papel na promoção do convívio, enquanto que “a rua não teve a mesma sorte”.
E salienta-se algo que ficou muito presente depois da leitura do livro: a ideia de se dever assumir a rua como verdadeiro lugar e para além da rua com infraestrutura; uma ideia que se considera ser de grande oportunidade, pois “a rua não é o resto [...], é o que mantém juntos os edifícios.” E decorrendo destes aspectos a bem útil ideia de “rua como espaço servido e não apenas espaço servidor.”
Há, depois, um privilegiar, bem oportuno, em diversas das subtemáticas (itens que estruturam o livro) de uma reflexão sobre a actual e futura diversidade, inovação e “matização” dos usos associados à rua e à habitação (à “casa”), em “contaminações mútuas”, que podem e poderão gerar desenvolvimentos da convivialidade e mesmo de um uso público dos espaços domésticos e, inversamente, de usos mais privados e/ou domésticos do espaço público, enquanto e simultaneamente podem também ser gerados interessantes e diversificados “espaços ambíguos que assumem inegável interesse na actualidade”.
E aqui, com certeza, poderão ser feitas interessantes pontes temáticas com as matérias que o autor desenvolveu nas suas obras anteriores –Casa collage, com Pere Fuertes e La habitación.
Conjugadamente com estas ideias o autor lança a noção, que se partilha, de que a função de circulação não é elemento determinante de uma habitação e, sequencialmente, pensa-se, de um espaço de habitar que integre edifícios e espaços públicos (vizinhança urbana); e simultaneamente lança-se a noção da importância que numa rua bem habitada/habitável tem o “espacio compartido” e “negociável” [entre peões e condutores], que o próprio autor refere ter sido proposta pelo Eng.º de tráfego Hans Mondermann; e aqui há que comentar que se trata de mais uma interessante noção proposta pela engenharia de tráfego e lembro que nas minhas reflexões sobre o tema foi também na engenharia de tráfego que encontrei, há bastantes anos, as primeiras referências destacadas à importante noção de vizinhança próxima.
Importa, agora, salientar a fluidez e a riqueza da leitura deste livro, que nunca fica “aprisionado” (aspas minhas) nas matérias arquitectónicas, mas que aborda e exemplifica ideias e conceitos com noções, imagens e textos, bem a propósito e bem claros, não só de arquitectos, mas, frequentemente, de outros artistas e escritores, como é o caso Orhan Pamuk e George Perec; e o resultado ganha muito na clareza discursiva e exemplificativa, fica, afinal, tal como acima referi, um livro para todos sobre um assunto que a todos nos interessa, o de uma rua mais viva e, muitas vezes, até agradavelmente doméstica.
Um aspecto cumulativo do interesse deste livro é basear-se, em parte, na vivência urbana de duas cidades: Barcelona e Lisboa. Lisboa relativamente à qual o autor aponta: a luz, a variedade, o dramatismo, etc. Muitos aspectos a ter em conta no (re)fazer da rua, num “olhar por cima da racionalidade ou funcionalidade”, que o autor considera determinante.
Ao longo do livro e sempre tendo em contas estas perspectivas, abordam-se e desenvolvem-se 24 subtemas de reflexão; iniciados com o tema “entrar” – entrar no edifício e sair da rua e vice-versa –, abordando-se aspectos físicos de “acompanhamento” e marcação das diversas acções desempenhadas na rua e dando-se o devido relevo à própria experiência humana do viver a rua e as suas margens edificadas de uma forma rica e o mais possível completa; o que, portanto, nos leva muito para além dos aspectos funcionais aplicáveis.
Desenvolvem-se e ilustram-se, assim, reflexões: (i) tanto sobre aspectos mais ligados à paisagem urbana, como as perpectivas; (ii) como sobre elementos concretos urbanos como são, por exemplo,  as pequenas ruas/ruelas e as ruas verdes/arborizadas, (iii) e como sobre as ligações destas temáticas às interpretações amplas e sintéticas que delas são feitas por quadros artísticos diversificados, designadamente, ligados ao cinema e à pintura; mas sempre interpretações centradas na rua, e no seu sentido de paisagem urbana humanizada e estrategicamente confinada.
Trabalham-se, depois, neste livro, as margens das ruas, na sua ligação/fusão com os edifícios e as habitações e, ainda, os espaços ambíguos, que não se sabe se serão ruas, tal como aponta e comenta o autor.
Sobre as margens da rua aborda-se uma “primeira coroa” dos edifícios e suas habitações que deve ser influenciada por esse seu papel dialogante com a rua e com as respectivas habitações – pois, tal como aponta o autor, a cidade molda a envolvente mais pública dos quarteirões e, designadamente, os compartimentos e outros elementos edificados que integram essa primeira coroa mais pública, na qual surgem vãos com diversas funções, de protecção, de ligação, de estadia e de relação.
E, em seguida, o autor oferece-nos outras reflexões bem a propósito, entre as quais e a título de exemplo se apontam as seguintes:
E as catedrais e as grandes galerias comerciais o que são?
E as muito discutidas galerias habitacionais, suas origens e desenvolvimentos; como se ligam à natureza das ruas?
E a evolução actual da rua, gradualmente a esvaziar-se dos serviços que a basearam?
Abordam-se, ainda, aspectos particulares mas muito estimulantes do uso da rua e da sua caracterização, desde as montras, aos espaços em que a rua, praticamente, entra no seu edificado marginal, àqueles espaços que se estendem sobre a rua a partir dos edifícios marginais e a outras tipologias fisicamente marginais.
Desenvolve-se, ainda, no livro uma pausada reflexão sobre a rua pensada como um cenário e não só como sítio de trânsito e de actividades, tendo-se em conta a rua de hoje, que propicia e acolhe actividades e comportamentos de hoje e não se esquecendo que a rua e a casa  “intercambiam coisas” e têm fronteiras entre ambas que “parecem por vezes diluir-se e outras afirmar-se com clareza.”
Matérias estas que constroem a riqueza e a humanização da rua.
Lembra-se a rua citadina sem horários, que serve bem a cidade das muitas pessoas sozinhas e dos casais, pois “cada vez mais a rua parece ser um serviço doméstico [...]”.
Avança-se, depois, no livro, na rua das “anomalias” (elementos de arquitectura urbana) positivas, que transformam algumas ruas em lugares mais habitáveis do que outras, pois “há algo nos acidentes/circunstâncias físicas de uma rua, nas suas irregularidades, que concede a esses espaços uma qualidade quase doméstica.”
E, sequencialmente, lembram-se as ruas que convidam a sentar, que estimulam relações de proximidade e que favorecem o lazer e o passeio; e as ruas que se prolongam por outras ruas, mais pequenas, por becos (sem saída) e que de certo modo pertencem já em boa parte, também, aos edifícios envolventes, criando-se uma unidade urbana muito estimulante e localmente caracterizada, onde as esquinas têm uma importância bem real.
Paralelamente a estas reflexões sobre espaços urbanos reais o autor regista e ilustra outras matérias, entre as quais as ligadas à presença da rua na arte e especificamente no cinema, sublinhando que esta arte procura sempre “transmitir a ideia de uma cidade habitada e real” e marcada pelo peso/presença da habitação/da casa e da rua como cidade habitada.; e que a pintura procura representar a rua “na sua totalidade e, portanto, e ainda que com os seus erros, recriar o seu espaço e a sua atmosfera. ”
E considera-se ser muito interessante e oportuna esta procura da representação e caracterização da rua na sua máxima totalidade; uma procura que nos pode ajudar a resgatar tantos fracassos urbanos.
Mais no final do livro e de certa forma abrindo a reflexão para outros níveis físicos, abordam-se interessantes e inovadoras novas formas de habitar a rua e a casa .
E termina-se lembrando, e desenvolvendo, extensamente, a noção, que “há ruas em que o mais importante são as árvores.” E considera-se muito significativo que, praticamente no remate deste livro, Xavier Monteys dedique a sua atenção à relação entre natureza e cidade, ou verde urbano e rua citadina. 

Reflexões a propósito

Seriam muitas, mas ficarão, essencialmente, para os leitores aos quais se recomenda a leitura deste livro; e que, caso o queiram poderão, até, depois dessa leitura, dialogar sobre ele nesta nossa revista, bastando para tal que nos enviem esses comentários, que poderão ficar ligados a este artigo, e aí disponíveis para quem os queira ler.
Julgou-se, no entanto, interessante lembrar, aqui, como minha reflexão pessoal e de síntese sobre este livro (portanto, salienta-se ser uma escolha muito pessoal), a ideia, lançada, pelo autor, e com contribuições de Alejo Carpentier e Alexander Humboldt, de que por vezes um “mau traçado” urbano nos oferece “uma impressão de paz e frescura, que dificilmente encontraríamos onde os urbanistas conscientes exerceram a sua ciência.”

Breves notas de remate e sobre uma importante característica suplementar deste livro

Já vai longa esta apresentação comentada, mas este livro merece-a bem; e apenas para concluir sublinha-se que, para aqueles que, como eu, procuram, por regra e naturalmente, em cada livro caminhos para outras reflexões, livros e fontes, associadas ao que trata cada livro, então não tenham dúvida porque este “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”, de Xavier Monteys, nos oferece esse importante suplemento de alma e interesse suplementar de abertura e aprofundamento temáticos, através de um rico e diversificado manancial de indicações relativamente a muitas outras leituras e referências sobre este excelente tema da relação entre rua e habitar.


Boa leitura é o que se deseja,

António Baptista Coelho



(*)Xavier Monteys é catedrático da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), na qual dirige o grupo de investigação Habitar e é professor na Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona (ETSAB).


(**) Xavier Monteys, "La calle y la casa. Urbanismo de interiores", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2018
Espanhol, ISBN/EAN: 9788425229756

Página do site da editora dedicado ao livro:


https://ggili.com/la-calle-y-la-casa-libro.html



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Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar
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