terça-feira, junho 11, 2019

690 - Pormenorização habitacional e qualidade arquitectónica - Infohabitar 690

Infohabitar, Ano XV, n.º 690                      

Reflexão geral sobre a relação entre a pormenorização habitacional e a qualidade arquitectónica do interior doméstico – Infohabitar 690

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Em seguida, serão brevemente abordados alguns aspectos particularizados de relação entre a qualidade arquitectónica, incluindo naturalmente a satisfação habitacional e o desenvolvimento de determinadas soluções de pormenorização dos espaços domésticos, considerando-se, com especial enfoque, as matérias ligadas à apropriação desses espaços. 


Algumas notas gerais sobre a pormenorização habitacional

A pormenorização exterior e interior tem escalas físicas próprias e características específicas, relacionadas com a distância a que os aspectos de pormenor são mais frequentemente vistos e com os períodos de tempo, mais ou menos longos, em que decorre habitualmente a sua visualização.

Destaca-se ainda que o desenvolvimento de certos elementos de grande pormenor, basicamente funcionais, como é o caso dos "rodapés", sancas a meia altura (muito úteis para a protecção das paredes em que se apliquem), lambris e sancas altas pode privilegiar diversas características tais como: formalidade, informalidade, tradicionalismo, modernidade, funcionalidade extrema, representatividade, etc.
Robert Stern, nos seus projectos habitacionais, oferece-nos um amplo conjunto de motivos e aspectos a desenvolver em termos de pormenorização, salientando-se, os seguintes (apurados em diversos documentos e livros sobre a obra desse Arquitecto):

- Elementos de "design gráfico", traçados nas fachadas através de perfis, cujos dimensionamentos devem considerar a escala própria de cada edifício.

- Contrastes de cor para salientar certos planos de parede, que podem ser usados quase como moldura geral integradora dos diversos elementos que aí existam ou que aí sejam colocados.

- Aproveitamento formal/funcional de certos equipamentos domésticos, como é o caso das bancadas e armários de cozinha, privilegiando-se diversas características tais como: formalidade, informalidade, tradicionalismo, modernidade, funcionalidade extrema, representatividade.

E o Arquitecto Charles Moore em um dos seus principais trabalhos teóricos (“The Place of Houses”, com Gerald Allen e Donlyn Lyndon), faz mesmo depender boa parte do “partido” projectual do interior doméstico de um conjunto de relações entre os respectivos espaços da habitação e os “seus” elementos de equipamento e de instalações, numa opção muito interessante, em que, de certa forma, a pormenorização doméstica “sobe de escala” e se torna elemento estruturador da organização e caracterização domésticas.


Fig. 01: uma biblioteca doméstica caracterizadora.


Pormenorização bem integrada no projecto global

Naturalmente que defender uma pormenorização bem integrada no projecto global não deixa de ser um “lugar comum” ou uma situação que, desejavelmente, existe e está bem sucedida, ou, não existe ou está mal conseguida. No entanto faz-se aqui esta referência essencialmente por se considerar que a caracterização de uma dada solução interior doméstica depende, significativamente, da adequação e harmonização da respectiva pormenorização em relação com o respectivo projecto global e tudo o que se faça para defender, manter e reforçar tal harmonização é essencial numa consolidada caracterização da respectiva solução global, caracterização esta que tem e terá, cada vez mais, expressivas dimensões financeiras, associadas ao valor específico de uma solução doméstica globalmente cuidada, mantida, e valorizada, a partir de uma solução “histórica” que terá, naturalmente, de ter sido marcada pela qualidade projectual.

Estamos, felizmente e finalmente, aqui, em Portugal, a chegar a uma altura em que a defesa, adequada manutenção e mesmo recuperação cuidadosa de um conjunto de espaços domésticos pormenorizados e caracterizados por uma adequada e positiva solução arquitectónica original, começa a “pagar”, não só pela genuinidade dos espaços e ambientes de pormenor assim proporcionados, mas também pela valorização financeira desta opção.     


Pormenorização funcional que não esqueça o ambiente doméstico

Defender uma pormenorização funcional que não esqueça o ambiente doméstico, ou, por outras palavras, a construção/proposta “básica” de um conjunto de “cenários” estimulantemente marcados por variadas qualidades, entre as quais poderemos destacar, por exemplo, a expressão da escala humana, o sentido de  envolvência, o enquadramento paisagístico, a afectividade e mesmo o “calor” certos tipos de acabamentos, a  estimulante mas regrada fluidez entre os diversos tipos de espaços, etc., etc., é uma opção, ou “um partido”, que fará, sem dúvida, opor opiniões muito calorosas/marcadas.

Mas, no entanto, se nos lembrarmos de ambientes muito marcados por uma funcionalidade “rígida”, “fria” e minimalista, sendo estes ambientes de habitação – e dá vontade de dizer que isto vai bem para lá da habitação –, não parece ser excessivo criticar o aplicar deste tipo de soluções, a não ser quando a apropriação por parte de quem aí habite/more não seja expectável/desejável; e mesmo assim não tenho qualquer dúvida de qual é a minha opinião pessoal sobre tais tipos de ambientes, talvez montados mais para serem fotografados do que para serem vividos, mas esta é uma opinião pessoal.


Fig. 02: um "excesso" de apropriação ?...


Pormenorização doméstica que não esqueça a dimensão da apropriação

E aqui estamos numa temática ligada a uma pormenorização doméstica que não esqueça a dimensão da apropriação, essencialmente, no que se refere à capacidade de se poder mobilar adequada, extensa e diversificadamente os diversos espaços da habitação, mas também no que se refere à disponibilização de panos de parede amplos e bem iluminados, que sejam excelentes para se “povoarem” com variados tipos de arte (gravuras, quadros, pratos de cerâmica, pequenas esculturas) e que estejam mesmo a pedir a sua cuidada renovação através de novas cores escolhidas pelos moradores.

E não tenhamos dúvida de que há muitas habitações em que praticamente não há panos de parede adequados em quantidade e em dimensão para este tipo de intervenção e apropriação pelos moradores.

E a apropriação, baseada na pormenorização doméstica, pode ainda basear-se em outros tipos de soluções, como, por exemplo, varandas fundas e variadamente mobiláveis, espaços próprios para a instalação de vasos e de floreiras e “simples” paredes espessas, cujos peitoris e soleiras acolham os mais variados elementos de apropriação e identidade pessoal e doméstica.


Pormenorização que não esqueça a facilidade de manutenção e o apoio à durabilidade

Naturalmente que uma adequada e sustentada pormenorização doméstica não deve esquecer  a facilidade de manutenção corrente desses espaços, equipamentos e instalações, bem como o facilitar das operações que influenciam, positivamente, a sua respectiva durabilidade.

E nesta perspectiva é perfeitamente válida a proposta de soluções que podem “arriscar” a consensualidade da respectiva vista e apropriação por diversas “famílias” de moradores, em favor da expressiva facilitação de tais operações de manutenção e de intervenção ocasional, como será o caso da aplicação de canalizações visíveis e/ou de espaços “de serviço” onde passam partes significativas das instalações.

Mas também, aqui, é essencial ponderar bem as opções escolhidas em termos de manutenção corrente ao longo de um significativo período temporal, não se sacrificando, por exemplo, esse prolongamento de um estado adequado de utilização com manutenção simples, em favor de uma aparência inicial extremamente apelativa, mas que, a médio prazo, se revela problemática, designadamente, pela dificuldade de intervenção para reposição num estado adequado.


Soluções pormenorizadas formalmente neutrais 

Um aspecto importante a considerar na pormenorização do interior doméstico é que as soluções tenham uma caracterização depurada e formalmente neutral, harmonizável com um amplo leque de soluções/”partidos” de mobiliário e de decoração.

Esta é mais uma daquelas afirmações “óbvias”, mas que, frequentemente, se vê posta em causas através de opções de pormenor (ex., rodapés, pavimentos e portas interiores) que “jogam” apenas com famílias de mobiliário e mesmo até com cromatismos interiores específicos.


Cores e texturas “naturais”

Uma velha solução que, quase sempre, permite a harmonização entre a pormenorização do interior doméstico associada ao respectivo projecto de arquitectura e a intervenção dos moradores é a utilização extensa e razoavelmente expressiva de cores de texturas “naturais”, associadas a uma pormenorização formalmente racionalizada e depurada, designadamente, nos seus aspectos de menor escala, não existindo “forma a mais” e estando boa parte da forma existente bem justiçada em termos funcionais ligados ao uso directo e/ou a aspectos de facilidade de manutenção.


“Mobília” encastrada

As  soluções de mobiliário ou "imobiliário" encastrado ou embebido sempre foram muito estimadas pela Arquitectura de interiores pois estão ligadas a uma opção de desenho inicial muito completo do respectivo espaço doméstico, estando frequentemente associadas, seja ao estudo de soluções habitacionais ditas mínimas, seja a uma forte adequação entre espaços domésticos dimensionalmente controlados e um seu conteúdo de mobiliário cuja escala, bem contida, não ponha em risco uma ocupação doméstica com algum desafogo.

Acontece, no entanto, que um uso mais extenso deste tipo de mobiliário encastrado, pode fazer arriscar a capacidade de apropriação dos respectivos espaços domésticos e exige muito da respectiva capacidade de projecto de pormenor, tal como foi acima apontado e de forma a não “brigar” com a referida apropriação pelos moradores;  uma capacidade que, frequentemente, se joga em termos do respectivo potencial de “camuflagem” e/ou de profunda integração na estrutura global dos respectivos espaços arquitectónicos, , designadamente, em termos de introdução de mobiliário. 


Floreiras

As floreiras foram sempre parentes-pobres da concepção residencial, seja porque não cabiam num excessivamente depurado vocabulário modernista, seja porque ocupavam espaço precioso nas promoções privadas e de interesse social, seja porque sempre estiveram associadas a problemas de impermeabilização.

Na realidade, no entanto, as floreiras e/ou o espaço para a introdução de floreiras e vasos para plantas constituem interessantes elementos que tinham lugar cativo na arquitectura tradicional e que têm até lugar protagonista em algumas das melhores soluções domésticas modernistas.

E naturalmente, e tal como foi já aqui repetido, floreiras e espaços para vasos são elementos muito importantes do vocabulário de uma habitação e de um edifício habitacional positivamente apropriado pelos seus habitantes.

Inovação na introdução de instalações

A introdução de elementos associados a instalações domésticas, como por exemplo, pequenos lavatórios, banheiras, pequenas bancadas de apoio à preparação de bebidas e pequenas refeições e grelhadores com chaminés de evacuação de fumos, fora dos espaços domésticos onde habitualmente tais elementos são instalados, é uma opção adequada à inovação que se defende para os espaços domésticos.

No entanto uma tal opção tem de estar devidamente acautelada em termos das condições de segurança, conforto ambiental, sanidade, manutenção, durabilidade e privacidade aplicáveis.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 690

Reflexão geral sobre a relação entre a pormenorização habitacional e a qualidade arquitectónica do interior doméstico – Infohabitar 690


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, junho 04, 2019

689 - Equipamentos e instalações domésticas e qualidade arquitectónica – Infohabitar 689

Infohabitar, Ano XV, n.º 689                      

Equipamentos e instalações domésticas e qualidade arquitectónica – Infohabitar 689

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagem)


Em seguida, serão brevemente abordados alguns aspectos da relação entre a satisfação habitacional nos espaços domésticos e o desenvolvimento de determinadas soluções gerais de equipamentos e instalações, considerando-se, essencialmente, as matérias ligadas, por um lado à apropriação desses espaços, por outro a aspectos de atractividade/aceitação das mesmas soluções e, naturalmente, a aspectos essenciais de funcionalidade e adequação global das mesmas soluções.

Introdução a uma reflexão geral sobre equipamentos e instalações domésticas

Chama-se a atenção para o carácter informal, embora naturalmente cuidadoso, destes comentários/reflexões e para o sentido prospectivo dos mesmos, pois tem-se bem a noção de que se está a entrar em matérias tão interessantes como sensíveis, designadamente, porque marcadas por muitas dezenas de anos de carga regulamentar e d que podemos designar, embora de modo redutor e apenas aproximado, de uma “ideologia doméstica funcionalista”; e salienta-se, ainda, serem estas reflexões apenas generalistas e introdutórias à temática.

Importa, desde já, clarificar que designamos, aqui, como equipamentos domésticos todos os tipos de elementos “embebidos” na habitação – tipo mobiliário fixo – que proporcionam à vida doméstica o que podemos considerar como condições básicas de funcionalidade; tal como será o caso de um conjunto de armários e bancadas de cozinha e de uma série de elementos de arrumação fixos, como armários e roupeiros embutidos.

Como instalações referimo-nos a elementos ligados a redes de electricidade, água, esgotos, telecomunicações, etc., elementos estes que também têm parcelas muito assimiláveis aos equipamentos domésticos fixos e aos seus aspectos de apropriação e atractividade, sob a forma das variadas “louças” sanitárias (banheiras, lavatórios, bidés, sanitas) – elementos estes que acabam por ter uma dupla caracterização funcional e formal.

Regista-se, ainda, que a previsão de um dado conjunto de elementos de equipamento fixo e de instalações está, habitualmente, associada espaços onde há disponibilização de água (“espaços húmidos”) e, consequentemente à introdução de revestimentos impermeáveis em paredes e pisos, bastante mais dispendiosos do que os acabamentos correntes.
  
E desde já podemos considerar que a indicação de um dado equipamento mínimo, em termos de armários e bancadas, está, habitualmente, associado à previsão de um funcionamento, pelo menos, mínimo do espaço de cozinha, tendo em conta aspectos de higiene e de funcionalidade; uma previsão que, interessantemente, tem similaridades em soluções mínimas associadas a operações de auto-acabamento dos espaços domésticos e em soluções bastante elaboradas onde existe a possibilidade de escolha entre diversos “pacotes” de equipamentos, instalações e acabamentos finais.


Fig. 01: naturalmente, certas soluções de equipamentos domésticos - neste caso uma habitação "forrada" a prateleiras e lambris de madeira - caracterizam profundamente a sua identidade e imagem.


Equipamentos e instalações, aspectos relativamente “inovadores”

Um tipo interessante de reflexão a considerar é a necessidade de uma revisão urgente dos aspectos para-regulamentares e regulamentares que marcam a previsão de equipamentos e instalações domésticas, actualizando-a no que se liga à existência de novos tipos de instalações e de acabamentos de “zonas húmidas” e tendo em conta, designadamente, os aspectos de apropriação e a diversidade de modos de habitar que marcam e marcarão a actualidade e o futuro próximo.

Outro aspecto importante a ter em conta refere-se à temática da apropriação doméstica, um assunto que podemos exemplificar com a situação, muito corrente, de global “destruição” das louças e revestimentos sanitários e também, frequentemente, dos equipamentos e revestimentos das cozinhas, para sua substituição por outros elementos escolhidos pelos próprios habitantes no sentido de uma forte apropriação desses espaços/elementos – uma situação que, muitas vezes, afecta elementos a estrear.

E esta situação leva-nos a pensar sobre o interesse estratégico: (i) de se preverem elementos de equipamentos e de instalações com expressiva neutralidade de imagens e, portanto, harmonizáveis com um amplo leque de arranjos domésticos; e/ou (ii) de se disponibilizarem, numa determinada fase da obra e conhecidos os respectivos moradores, “pacotes” específicos de equipamentos e de determinados elementos de instalações. 
 
Estas reflexões podem, ainda, ser expressivamente ampliadas e flexibilizadas se avançarmos num caminho de exploração e experimentação de novos modos de habitar e de, associadas, novas caracterizações de determinados espaços domésticos, com relevo, por exemplo, para: cozinhas integradas em salas de família multifuncionais e multiambientais, onde os aspectos de funcionalidade devem ser bem harmonizados com um essencial sentido doméstico, acolhedor e atraente; “instalações sanitárias” domésticas que o deixem de ser, no que se refere a uma expressão excessiva de funcionalidade, convertendo-se em estimulantes “salas de banho”, que evidenciem a importância da relação entre a água, a higiene, a saúde e o lazer, relegando, frequentemente, as sanitas para zonas específicas e bem demarcadas; “salas de banho” onde estejam integrados equipamentos de lavagem e secagem de roupas; e mesmo quartos onde se integrem espaços de banho protagonistas e atraentes.

E não tenhamos dúvidas de que a inovação nos modos de habitar vai mais longe do que estas “simples” considerações sobre novos modos de encarar cozinhas/salas, casas de banho e quartos multifuncionais.

Como aspectos práticos que importa, de certa forma, “ressalvar” ou reservar quando se desenvolvem estes tipo de reflexões práticas, ou mesmo no caso geral do desenvolvimento de equipamentos e, especificamente, de instalações domésticas, salientam-se os cuidados de: higiene geral no uso e na facilidade de manutenção corrente, ventilação e evacuação do vapor de água e facilitação de intervenções eventuais, designadamente, no acesso a canalizações – uma situação que pode fazer pensar e, eventualmente, recomendar o uso de canalizações aparentes ou facilmente visitáveis (ex., através de tectos ou pisos “falsos”); pois não tenhamos dúvidas que os problemas com canalizações são dos mais complexos e frequentes na “vida” de uma habitação.

Como última nota de remate neste conjunto de reflexões, refere-se que a sua aplicação terá de ser harmonizada com os aspectos regulamentares específicos e aplicáveis e/ou vice-versa ...

Equipamentos e instalações, alguns aspectos específicos

Os equipamentos domésticos fixos não são, habitualmente, elementos protagonistas num espaço doméstico, mas sim elementos que apoiam, funcionalmente, a sua adequada vivência.

No entanto e porque não há regra sem excepção, os equipamentos domésticos fixos ganham expressivo protagonismo – ainda que numa frequente perspectiva de “camuflagem” da sua presença e desse protagonismo – em determinadas soluções habitacionais inovadoras, designadamente, quando marcadas por extensas soluções de equipamentos, habitualmente, destinados à camuflagem de grandes espaços de arrumação doméstica (ex., sequências alongadas de grandes armários embutidos) e/ou ao assegurar de uma expressiva versatilidade por transformação rápida e profunda de determinados ambientes domésticos (ex., extensa parede, aparentemente, “vazia”, e que quase instantaneamente se reconfigura numa série de estantes cheias de livros, “transformando” um dado espaço doméstico anteriormente dedicado ao estar, numa zona de trabalho e/ou de biblioteca).

Todos os elementos de equipamento e de instalações domésticas devem ser programados no sentido de se facilitar a sua limpeza corrente e naturalmente o seu uso; e neste sentido importa sublinhar que as peças sanitárias devem ser posicionadas de modo a permitirem, tanto a limpeza fácil e "em profundidade" das casas de banho, como a existência de boas áreas de utilização.

Todos os elementos de manobra de vãos, elementos de protecção de vãos e armários devem caracterizar-se por uma durabilidade e ergonomia maximizadas, sublinhando-se, neste sentido que, hoje em dia, é essencial aplicar uma estratégis de capacidade de uso “universal”, que privilegie o uso adequado, seguro e estimulante por parte de pessoas idosas.

Em termos particulares, embora ainda a título de exemplos, fazem-se, em seguida, algumas considerações sobre alguns equipamentos e instalações específicos.

Os estendais exteriores devem ter boa capacidade de roupa estendida, não devem exigir cuidados de manutenção especiais, devem proporcionar total segurança no seu uso e especificamente por pessoas com dificuldades de movimentação e devem ter boa aparência exterior.

A instalação de chaminés de "fogo aberto" e de "salamandras" (fogões de sala) deve obrigar a uma estratégia de ventilação constante dos respectivos compartimentos e de toda a habitação de modo a anular-se o risco de intoxicação.
Na cozinha importa existirem adequadas capacidades de tiragem de vapores e fumos, designadamente, através de chaminé tradicional com tiragem contínua, que se considera mais adequada e segura, do que a solução através de exaustor mecânico.

A solução de ventilação forçada em casas de banho interiores (sem janelas), através da existência de uma entrada (inferior) e de uma saída (superior) de ar, é considerada como uma solução apenas de recurso, que carece de verificação no que se refere ao seu funcionamento (facilmente fica aparente a entrada de ar quando aproximamos a mão das grelhas de entrada).

No entanto e tendo em conta as actuais exigências regulamentares de áreas folgadas em casas de banho, considerando o seu uso por pessoas em cadeiras de rodas, recomenda-se que estas novas espaçosas casas de banho tenham janelas exteriores, dispondo de elementos de ventilação específicos; faz realmente muito pouco sentido que um espaço com cerca de 5m2 e tão usado nas mais diversas funções seja interior, e o que se ganha na habitabilidade doméstica é muito significativo em termos ambientais específicos e de verdadeiro ambiente doméstico.

Instalações, alguns aspectos específicos

Tal como acontece com boa parte dos equipamentos, as instalações domésticas não são elementos protagonistas num espaço doméstico, mas sim elementos que apoiam, funcionalmente, a sua adequada vivência.

Sobre as instalações a tendência tem sido a sua total integração da própria massa da construção, numa acção de verdadeira destruição de alvenarias para integrar roços para os mais diversos tipos de canalizações onde passam água e fios, julgando-se que o presente e o próximo futuro deveria trazer à construção uma racionalidade de integração de instalações que acabasse com este desperdício de mão-de-obra e com a redução da qualidade da própria obra feita, o que só será conseguido com soluções "positivas" de incorporação de tubagens.

E este caminho é ainda favorecido quando as opções de adaptação da habitação a variados tipos de ocupação obrigam a reconversões, por vezes, radicais nessas instalações, com toda uma nova destruição de material e desperdício de mão-de-obra, para se reposicionarem as tomadas, se aumentar o número e deslocar os controlos de luz, e mesmo para se aumentar o número e mudar o sítio das peças sanitárias e equipamentos de cozinha.

Há, ainda, outros tipos de instalações mais "pesadas" como determinados tipos de soluções de evacuação de lixo e novos tipos de instalações de duplicação de instalações de água, por exemplo, aproveitando-se a água da chuva para autoclismos, que obrigam a cuidados muito específicos em termos de projecto.

Sobre a introdução de instalações de ar condicionado, que está bem na ordem do dia por diversas razões, apenas se refere, aqui, que elas apenas devem surgir nos espaços domésticos como uma opção de “segunda linha”, sendo essencial privilegiar o adequado isolamento e a adequada ventilação natural do conjunto dos espaços de cada habitação e tendo, evidentemente, em conta a sua envolvente directa.

Havendo introdução de instalações de ar condicionado não faz, evidentemente, qualquer sentido que a aplicação dos respectivos elementos exteriores não seja feita, exclusivamente, em espaços devidamente previstos para essa finalidade; pois se assim não acontecer os respectivos edifícios terão as suas imagens expressivamente degradadas.

Retira-se daqui que, por um lado, a concepção habitacional tem de considerar a integração de núcleos estruturantes de instalações que, estrategicamente, possam servir variados tipos de soluções domésticas, sendo que, depois, a fase final das diversas redes de instalações só ganhará com soluções de desenvolvimento muito flexíveis e alteráveis com um mínimo de complexidade construtiva.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 689

Equipamentos e instalações domésticas e qualidade arquitectónica – Infohabitar 689


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, maio 28, 2019

688 - Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

Infohabitar, Ano XV, n.º 688                      
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas gerais sobre a relação entre os isolamentos e outros cuidados ambientais e a qualidade de uso e arquitectónica do interior doméstico.


Integrar arquitectonicamente isolamentos e outros cuidados ambientais

Não iremos aqui tratar dos diversos aspectos técnicos do conforto ambiental associados ao isolamento higrotérmico e acústico, à adequação relativamente à ventilação natural, e à adequação/protecção relativamente à insolação e à luz natural dos espaços domésticos, pois tais aspectos estão bem desenvolvidos noutros trabalhos de índole técnica específica e, cada uma dessas temáticas, levar-nos-ia muito longe e bem fora do perfil de reflexão informal, que foi adoptado neste texto.
Dedicamos, sim, alguma atenção à ideia de que o espaço doméstico, a habitação privada: (i) deve ser um espaço bem protegido e que exprima e evidencie tal protecção; (ii) e que esteja estrategicamente aberto/condicionado relativamente às diversas condições naturais de conforto ambiental aplicáveis (higrotérmicas e sonoras, de ventilação e luz natural, e de insolação); e atenção que, tal como sabemos, todas estas matérias interagem umas com as outras quando se projecta um espaço doméstico.
Tais objectivos de protecção e adequada integração no ambiente natural devem marcar, sistemática e cuidadosamente, os espaços domésticos, tornando-os ambientalmente agradáveis e sustentáveis, mas numa perspectiva formal/funcional muito integrada no respectivo partido arquitectónico interior e exterior (as vistas exteriores respectivas), poderíamos até dizer, muito “natural”, nada “imposta”, perfeitamente harmonizada em termos de solução geral e de pormenorização e muito amigável e racional em termos das respectivas condições de controlo funcional corrente e de manutenção.
Julga-se que não se trata de um “lugar comum” ou de uma afirmação óbvia e desnecessária, pois são muito frequentes os casos de “esquecimento” destes aspectos no projecto geral e de pormenorização, um esquecimento que pode ser, infelizmente, muito global e crítico, ou parcial e “infeliz”, caracterizando “soluções” em que os cuidados de conforto ambiental são considerados e aplicados como algo separado da concepção arquitectónica, um pouco como quem aplica um remédio para curar uma doença que poderia ser evitada com um leque natural de cuidados prévios.
Poderíamos ainda referir que, de forma global, os isolamentos e os outros cuidados ambientais naturais que devem integrar as soluções domésticas, nos devem proporcionar a possibilidade de gozar os espaços da nossa habitação em condições, quer de forte separação/isolamento, quer de expressivo aproveitamento relativamente às condições ambientais naturais existentes no exterior – higrotérmicas, sonoras, de ventilação (e qualidade do ar) e de luz naturais, e de insolação.
E poderíamos ainda dizer um pouco mais, defendendo que tais soluções de adequada integração e aproveitamento doméstico das condições de conforto ambiental existentes no sítio da intervenção, podem marcar positivamente a respectiva solução arquitectónica global e pormenorizada.



Fig. 01


Um espaço doméstico que deve ser agradável, que nos deve fazer sentir bem e que nos faz bem à saúde, mas cujo desenvolvimento exige grandes cuidados

Tais exigências, que deveriam ser consideradas como básicas e naturais, proporcionam o desenvolvimento de um espaço doméstico extremamente adequado em termos de condições de luz natural e insolação bem controladas e direccionadas, conforto higrotérmico expressivo e bem controlado, ventilação constante e tão eficaz como pouco perceptível e bem controlável, eficaz e contínua ausência de cheiros e odores menos agradáveis ou intensos, e expressivo e global sossego acústico/sonoro.
E entenda-se que nada nestas condições se refere a um especial acréscimo de custos, mas somente depende de um projecto mais completo e adequado; e sendo que, a prazo, tais condições vão reflectir-se muito positivamente no bem-estar global e na saúde dos respectivos habitantes, com evidentes reflexos muito acrescidos em pessoas mais jovens, mais idosas e com problemas de saúde.
Salienta-se, no entanto, que o cumprimentos de tais exigências básicas de conforto ambiental doméstico obriga a uma formação específica e ao estudo cuidadoso das respectivas matérias, sendo que há problemas críticos a considerar: (i) seja no frequente e já referido pouco cuidado da concepção arquitectónica nestes assuntos; (ii) seja na frequente e deficiente formação que estas matérias, ainda, merecem ao nível universitário; (iii) seja na também, ainda, frequente ausência de documentação adequada e directamente dirigida para a relação entre estas matérias e a concepção arquitectónica, e , já agora, na reduzida divulgação das melhores obras existentes.
E o que dizer da própria capacidade projectual de integrar, muito positivamente, todas estas exigências de conforto ambiental num partido arquitectónico adequado e interessante: no mínimo, há que reconhecer que não é fácil, até porque esses aspectos devem ser harmonizados com outros importantes aspectos de projecto – tais como as vistas exteriores e interiores, a segurança no uso corrente, a espaciosidade funcional, a versatilidade doméstica, a privacidade e o convívio – mas trata-se de algo que tem de ser adequadamente desenvolvido e que, quando cumprido, é elemento muito valorizador e caracterizador da respectiva solução.


Fig. 02

Um interior doméstico, tipo "concha de caracol", mas equilibrado

Ainda um outro aspecto que importa ter em conta nesta ampla matéria da relação íntima entre o mundo do conforto ambiental doméstico e o mundo da respectiva apropriação espaço-funcional é que devemos poder gozar um interior doméstico, tipo "concha de caracol", portanto, extremamente adequado ao modo como o vivemos pessoalmente em grupo, nas mais diversas ocasiões, um mundo doméstico que nos protege e acompanha quase como uma segunda pele e que também até nos caracteriza, exactamente, como sendo uma segunda pele; mas, no entanto, esse mesmo mundo doméstico também deve ser algo que “vive por si”, com equilíbrios próprios e adequados, um pouco como um nosso grande aliado, mas que também, um outro dia será aliado de outro(s), ganhando, assim, uma espécie de interessante identidade urbana e doméstica própria e desejavelmente estimulante – e nestes sentidos o mundo doméstico também ganhará com um relativo distanciamento em termos da sua possível “personalização” e, nesta matéria, parece que o seu conteúdo “mais técnico” (embora bem domesticado) pode ser um bom aliado neste objectivo de concepção.

Sobre as diversas dimensões do conforto ambiental doméstico: algumas (poucas) notas complementares

O isolamento/condicionamento higrotérmico está minimamente garantido em termos regulamentares designadamente no que refere à nova construção, mas há, frequentemente, uma tendência para o condicionamento mecânico do ar, em detrimento de soluções mais naturais e positivamente passivas.
A questão da ventilação natural e da respectiva estratégia não é um dado adquirido, embora dependa de aspectos tão óbvios como fazer janelas estanques ao ar, mas integrando dispositivos de ventilação específicos e que tenham, depois, “seguimento”, em percursos de ar no interior da habitação (ex., bandeiras de iluminação e ventilação sobre portas).
Quanto ao isolamento sonoro ele depende tanto de cuidados construtivos específicos e nada especiais na constituição de determinadas paredes, das lajes e dos vãos exteriores, como de uma estratégia de distribuição das zonas funcionais do edifício que não faça vizinhos espaços ruidosos de outros onde o sossego seja fundamental (exemplo ascensores e quartos) e que tenha cuidado com os sítios onde passam as instalações de águas e esgotos, numa mesma lógica de os afastar e/ou isolar relativamente a espaços mais sossegados da habitação. E, naturalmente, que terá de haver, também, uma estratégia adequada de vizinhanças dos diversos espaços domésticos relativamente aos espaços exteriores contíguos, mais e menos ruidosos
Relativamente à recepção da radiação solar de forma equilibrada, ela depende, também, de uma adequada estratégia organizativa da habitação, que faça que os compartimentos a recebam, tendencialmente, mais nas horas e nas estações onde ela é bem-vinda, e aqui é possível orientar os diversos tipos de compartimentos consoante a sua utilização preferencial, por exemplo, com os quartos de dormir mais a nascente, salas mais a sul, cozinhas a norte e casas de banho a poente, sendo que há, também, a possibilidade de tratar o exterior do edifício com pequenas palas (ou outros elementos funcionais) que produzam sombra no Verão e não no Inverno, e nada disto é mais caro do que fazer mal, não ligando a estes aspectos; só que dá um pouco mais de trabalho em fase de projecto, e, naturalmente, numa cidade nunca será possível orientar as habitações todas da mesma maneira – até porque as próprias ruas urbanas também ganham com uma adequada estratégia de sombreamento.
Mas grandes a janelas a poente, impossíveis de serem protegidas no Verão, habitações apenas com janelas numa parede (sem ventilação cruzada entre duas paredes opostas), casas de banho interiores e janelas sem vãos específicos de ventilação, isso, por favor, nunca mais, quando se trata de nova habitação.
Destaca-se, ainda, a questão da fundamental abundância de luz natural, que deveria ser uma condição básica em qualquer habitação, mas infelizmente tal não acontece, parecendo que estamos ainda na altura em que quaisquer 5 centímetros a mais na largura das janelas era condição de fracasso financeiro da operação.
E finalmente há que referir que palas verdadeiramente úteis (bem salientes e desenhadas com cuidado, (por exemplo, no pormenor do lacrimal), são elementos fundamentais para a conjugação de aspectos de agradabilidade e, já agora, de alguma cuidadosa atractividade no respectivo projecto de arquitectura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 688

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, maio 21, 2019

687 - As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Infohabitar, Ano XV, n.º 687                      

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas sobre a relação entre o interior doméstico e os respectivos vãos de janela, considerados estes vãos como importantes elementos de construção, acabamento, e qualidade arquitectónica do interior doméstico.


Pensar as janelas como elementos de composição dos alçados/volumetrias, mas também como elementos multifuncionais e de composição do interior doméstico.

Quando abordamos as janelas domésticas, do ponto de vista da respectiva concepção, parece haver, frequentemente, uma tendência para as considerarmos, de forma privilegiada, essencialmente como elementos de composição dos respectivos alçados e volumetrias.

Naturalmente, que esta é uma perspectiva genérica, mas é interessante considerá-la no que se refere ao relativo “esquecimento” que ela pode induzir, seja, numa primeira linha, no que se refere aos diversos conteúdos funcionais que podem e devem ser assegurados por uma janela, seja no que se refere à própria integração e ao papel formal das janelas na estruturação e na composição dos interiores domésticos.

É, basicamente, este lembrete o que corresponde à matéria tratada nos textos que se seguem, que devem, no entanto, ser tomados, basicamente, como uma reflexão muito livre sobre o assunto; e que decorre de alguma prática profissional de projectista e de uma muito longa prática profissional como agente de análise pormenorizada de centenas de casos práticos de edifícios habitacionais.

Breves notas sobre as janelas domésticas como elementos de composição dos alçados/volumetrias

Não sendo, aqui, o sítio adequado para uma reflexão alongada sobre o papel das janelas domésticas como elementos de composição dos respectivos alçados/volumetrias, pois estamos, agora, no mundo do interior doméstico e não nos níveos da vizinhança residencial, importará, no entanto, considerar que a formalização pormenorizada das janelas de peito e de sacada, bem como as associadas pormenorizações de varandas e balcões, não respeita, frequentemente, um equilíbrio formal e funcional marcado por significativos aspectos de integração local, escala humana e caracterização residencial.

A opção faz-se, frequentemente, por soluções normalizadas e pouco harmonizadas com a escala e o carácter do respectivo edifício residencial, e o que dizer de uma ausência de uma pormenorização que, para além de servir tais preocupações de integração e de escala, pudesse realmente valorizar a solução global de alçados e de volumetria numa perspectiva de solução verdadeiramente global, integrada nos seus elementos e na envolvente e expressivamente caracterizadora daquele edifício ou conjunto edificado específicos: sendo esta última opção, naturalmente, aquela que é marcada por uma adequada qualidade arquitectónica.

Sabemos, evidentemente, que uma tal opção tem importantes implicações económicas (ex., pormenorização específica para um dado edifício), mas por vezes até em soluções sem expressivas preocupações de economia ela não existe e, em outros casos, fica muito evidente não ter havido uma adequada pesquisa das múltiplas soluções-tipo disponíveis e não tenhamos dúvida que, hoje em dia (ao contrário do que acontecia há algumas dezenas de anos), há inúmeras soluções de catálogo disponíveis para se poderem “montar” soluções específicas de fenestração bem integradas e valorizadoras da respectiva solução arquitectónica global.

Fig. 01: janela com ampla luz natural, com enquadramento de vistas do exterior, com vão de correr manobrável, com vidro de segurança abaixo do parapeito ...

Notas sobre a multifuncionalidade das janelas domésticas

Um outro aspecto que importa, sempre, lembrar quando se aborda a temática da fenestração doméstica, refere-se à fundamental multifuncionalidade que deve marcar a respectiva concepção, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos formais/funcionais:

- adequadas condições de relação com o exterior, a partir do interior doméstico e também, um pouco, “vice-versa”, através de adequadas “transparências” e expressões funcionais dos espaços interiores domésticos sobre as respectivas vizinhanças de proximidade;

- adequadas condições de conforto ambiental interior – boa luz natural e adequadas condições de obscurecimento, bom isolamento térmico e sonoro e boa ventilação natural;

- adequadas condições de segurança: no uso, designadamente, por crianças e idosos, e visando-se, especificamente, riscos de queda no uso normal e quando em acções de manobra e manutenção; e por previsão do respectivo encerramento (segurança contra intrusões);

- e adequadas condições de possibilidade de uso de espaços exteriores e interiores contíguos; seja de forma independente (ex., só espaços exteriores, ou só espaços interiores); seja de forma integrada, através de estimulantes continuidades entre interiores e exteriores domésticos.


Fig. 02: uma janela dupla perfeitamente enquadrada com móvel aparador, estruturando a sala-comum.

Reflexões sobre as janelas como elementos de composição do interior doméstico

As janelas domésticas devem ser encaradas como elementos cujas características formais e funcionais estejam adequadamente harmonizadas com a caracterização global de um ambiente/quadro doméstico e com um muito amplo leque de opções em termos de arranjos domésticos, condição esta que obrigará a um sensível cuidado em termos de soluções formais de janelas que sejam, pelo menos, compatíveis com esse amplo leque de arranjos.

Há, no entanto, aspectos básicos a considerar na fenestração, de forma privilegiada ou estruturadora da organização doméstica e entre estes  sobressai a capacidade de mobilar os diversos compartimentos e espaços, associada, designadamente, à expressiva disponibilização de paredes para encostar mobiliário, mas também associada a questões de dimensionamentos versáteis, que proporcionem, por exemplo, mobilar e circular, e ainda associada a adequadas relações geométricas entre paredes e vãos de janela e de porta, proporcionando a sua respectiva manobra mas também a boa integração de mobiliário (ex., aproveitando bem os cantos dos compartimentos).
Um exemplo interessante deste tipo de preocupações encontra-se em tradicionais soluções de fenestração, cujas folhas envidraçadas e portadas de segurança ficam praticamente “embebidas” na espessura das paredes, em vãos tão funcionais como fortemente expressivos pela sua capacidade simbólica e marcante de uma relação interior/exterior bem enquadrada e enquadradora.

É essencial pensar, pelo menos, na materialidade das soluções de fenestração e na sua expressão formal mais marcante; uma preocupação que nos pode levar a escolher vãos de janela com perfis de caixilharia reduzidos, material e cromaticamente neutros (no que se refere ao seu potencial de harmonização com variados arranjos interiores) e com superfícies envidraçadas maximizadas; opções estas que, no entanto, não devem comprometer outras exigências a ter com os vãos exteriores, essencialmente no que se refere ao conforto ambiental interior, designadamente, no que se refere ao sombreamento e à ventilação natural.

Uma das soluções historicamente consolidadas em termos da harmonização interior de soluções de fenestração liga-se ao uso, nesta fenestração e nos seus elementos associados, de materiais, texturas e acabamentos naturais (ex., aço, madeira, tecidos naturais e “lisos”, etc.), sendo que, com sentido contrário, as soluções marcadas pela artificialidade (ex., plásticos) podem comprometer significativamente a referida harmonização interior doméstica entre fenestração e os mais diversos tipos e conteúdos de arranjos. 

Há, ainda, um aspecto essencial a considerar na previsão da fenestração doméstica, “pelo interior”, que é a fundamental adequação dos vãos relativamente à sua orientação solar, tendo-se em conta a necessidade de dispositivos específicos de controlo da insolação, da luz natural e da ventilação natural, muito ligados às características específicas de orientação de cada vão e que também devem cumprir as referidas condições de harmonização com um amplo leque de potencias arranjos interiores domésticos.

Também um importante aspecto a ter em conta na boa integração da fenestração nas diversas soluções de espaços domésticos interiores, refere-se às respectivas condições de “securização” dos vãos contra intrusões; matéria sensível e complexa, pois as soluções de portadas interiores deixaram de ter, actualmente, expressiva aplicabilidade e sendo que as soluções baseadas em alarmes acabam por ser diversas nas condições disponibilizadas, não proporcionando uma clara expressão de um sentido de segurança directa contra intrusões.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 687

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687


Infohabitar
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Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil




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