domingo, junho 08, 2014

487 - UBI - Mestrado Integrado em Arquitetura 2014-2015 - Universidade da Beira Interior (UBI) Covilhã - Infohabitar 487

Infohabitar, Ano X, n.º 487

UBI - Arquitetura

Mestrado Integrado em Arquitetura 2014-2015 - Universidade da Beira Interior (UBI) Covilhã


Caros leitores da Infohabitar,


É com natural emoção que edito este primeiro artigo sobre a formação em Arquitetura na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, uma escola de Arquitetura que ajudei a criar, há cerca de 10 anos, e à qual estou atualmente ligado, na sequência do convite que me foi dirigido pelo Reitor daquela universidade pública, o Senhor Professor António Fidalgo, para aí coordenar a formação em Arquitetura, no âmbito do respetivo Mestrado Integrado, ajudar a estruturar um novo Centro de Investigação, que abranja as áreas da Arquitetura e do Urbanismo, e apoiar no desenvolvimento de um renovado Doutoramento em Arquitetura.

Foi um convite irrecusável, pois refere-se a um conjunto de tarefas que, baseadas numa já existente e muito bem qualificada formação em arquitetura, devida a excelentes corpos docente e discente, poderão levar-nos ao desenvolvimento de um motivador conjunto de ações e eventos formativos, informativos, técnicos e científicos, que tirem todo o partido das excelentes condições humanas e de instalações existentes na UBI, na Covilhã, bem como do óptimo ambiente académico, urbano e social que ali se vive.

Quero, assim, marcar com este artigo uma passagem que me levará, a partir de setembro de 2014, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a minha "casa" desde há mais de 30 anos, para a Arquitetura da Universidade da Beira Interior (UBI), que espero poder também chamar de "casa" durante bastantes anos, uma nova "casa", onde espero possa até encontrar condições para uma sempre bem-vinda dinamização de diversas atividades técnicas e científicas e designadamente das atividades editoriais, das quais a Infohabitar é exemplo semanal.

Podem, assim, continuar a contar com esta revista semanal, talvez agora com uma redação eventualmente renovada e mais focada nas amplas áreas de uma Arquitetura que se deseja cada vez mais ligada aos seus "habitantes" e territórios.

E, desta forma, se inicia uma série de artigos sobre a formação em Arquitetura na UBI e sobre as excelentes instalações da Universidade da Beira Interior, que na presente semana procura sintetizar o âmbito do respetivo Mestrado Integrado em Arquitetura.


O Editor da Infohabitar, António Baptista Coelho

Professor catedrático convidado (UBI), investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitectura (FAUP), arquitecto (ESBAL)


PS: por razões editoriais a Infohabitar não será publicada na próxima semana 

 

Preparando-se o próximo ano letivo de 2014-2015, o Mestrado Integrado em Arquitetura da UBI:

(i)  está a ser reforçado em termos de corpo docente e de apoios ao ensino/aprendizagem,
(ii) enquanto se iniciou, já, a criação de um novo Centro de Investigação com valências nas áreas da Arquitetura e do Urbanismo, que irá apoiar e estruturar nas dissertações finais a realizar pelos alunos e candidatos a Arquitetos;
e (iii) se está a iniciar a preparação de um novo programa de doutoramento em Arquitetura na UBI.

Fig. 01: a Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã


Objetivos Gerais da formação em Arquitetura na UBI (Caracterização):

§  metodologia de ensino/aprendizagem dinâmica, com seminários de investigação e acompanhamento de docentes-tutores;
§  informação sobre técnicas e materiais de materiais de construção inovadores e tradicionais;
§  componente prática experimental da arquitectura, desde o esquiço até ao projecto final, articulando as diversas disciplinas com o projeto;
§  formação abrangente, com todas as áreas cientificas e técnicas que integram o trabalho do arquiteto;
§  valorização do património e da memória de cada local;
§  abertura ao exterior, serviço à sociedade e humanização das intervenções.

Competências dos Mestres em Arquitetura


Os Mestres em Arquitectura da UBI serão responsáveis pela integração harmoniosa das atividades humanas no território, valorizando o património construído e o ambiente e estarão aptos a trabalhar em empresas de Arquitectura, construção e reabilitação, instituições ligadas ao património, centros de investigação e de ensino, autarquias locais, e em regime profissão liberal, nos seguintes domínios:
§  Edificação, urbanismo, concepção e desenho do quadro espacial da vida da população.
  • Estudos, projectos, planos e actividades de consultoria.
  • Gestão e direcção de obras.
  • Planificação, coordenação e avaliação de projectos de arquitectura.
  • Participação em concursos de arquitectura.


Algumas das disciplinas do Curso

(para a listagem completa, consultar o site da UBI)

§  Desenho
§  História da Arte
§  Projeto de Arquitectura e de Urbanismo (I a V)
§  Teoria da Arquitectura
§  História da Arquitectura
§  Materiais
§  Antropologia
§  Construção
§  Estática e Resistência de Materiais
§  Geotecnia
§  Geografia Humana
§  Redes e Instalações
§  Desenho Urbano
§  Sistemas de Informação Geográfica
§  Planeamento Urbano
§  Domótica
§  Habitat Rural
§  Construção Sustentável
§  Ordenamento e Ambiente



Contatos do Mestrado Integrado em Arquitetura

Mestrado Integrado em Arquitetura
Edifício II das Engenharias, Calçada Fonte do Lameiro
6200-001 Covilhã
Tel. 275 329 722

Coordenador: António Baptista Coelho
Diretora de Curso: Ana Maria Tavares Martins

Provas de Ingresso:
Uma das seguintes provas: 03 Desenho; 10 Geometria Descritiva; 16 Matemática.
Vagas: 65

Candidaturas:
1.ª fase - 17 de julho a 8 de agosto
2.ª fase - de 8 a 19 de setembro


Nota:
As fotografias que ilustram este artigo são de Ana Maria Tavares Martins
Design postal: Isabel Romana

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 487
UBI Arquitetura - Mestrado Integrado em Arquitetura 2014-2015 Universidade da Beira Interior (UBI) Covilhã
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

domingo, junho 01, 2014

486 - O Silêncio e a Arquitetura : da socialização às ruínas - Infohabitar 486

Infohabitar, Ano X, n.º 486
Nota inicial:
O artigo que se edita esta semana corresponde a parte da intervenção do autor no Ciclo de Conferências :  “Silêncio”, realizado em conjugação com a exposição de fotografia e de pintura de Alves Tê e Caterina Ponti, patente no Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, sobre a temática "O Silêncio das Máquinas", de 8 de maio a 29 de junho.
Este Ciclo de Conferências foi organizado pelo Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) da  Universidade da Beira Interior, nos dias 13 e 20 de maio de 2014, na sala de conferências do Museu de Lanifícios da UBI.
Organização: Prof. Ana Martins, Prof.Moreira Pinto, Prof.Susana Santos
Rua Marquês d'Ávila e Bolama, 6201-001 Covilhã, PORTUGAL
Dia 13 maio
14h30 | Arqto. Bernardo Carvalho
15h00 | Arqta. Inês Campos
15h30 | Prof. Graça Esgalhado
16h00 | Arqto. Carlos Ganhão
16h30 | Prof. Ana Paula Rainha
17h00 | Prof. Jaceck Krenz
Dia 20 maio 
14h30 | Prof. António Baptista Coelho
15h15 | Prof. Ana Martins e Prof. Antónia Conde
16h00 | Prof. Moreira Pinto
16h45 | Prof. Susana Santos

O silêncio e a Arquitetura : o silêncio como quadro de de intimidade e socialização, matéria da arquitetura, "assunto" das ruínas  

António Baptista Coelho

(nota: no artigo 485 da Infohabitar está editada a primeira parte desta palestra)            


O silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade

            Falou-se, um pouco, do enquadramento do silêncio como matéria da própria conceção arquitetónica básica e, em seguida, do mesmo silêncio como qualidade natural, ou da natureza, associada a múltiplos aspetos do conforto, e por sua vez matéria da referida conceção arquitetónica; e assim até parece que não nos conseguimos dele libertar; mas há ainda e naturalmente outras perspetivas a considerar no silêncio como quadro base de arquiteturas e pano de fundo do habitat humano, e nestas uma há cuja importância é basilar e que se refere ao silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade.
            Nesta matéria é extremamente interessante, por um lado, encarar a possibilidade de viver o espaço doméstico com relativa autonomia em termos de vivência acústica, não prejudicando vizinhos e familiares com os nossos ruídos e músicas e não sendo muito prejudicados por eles pelas mesma razões, e diz-se relativamente, mas poderia dizer-se absolutamente, em termos de determinados espaços onde possa ser realmente possível ouvir música alto ou trabalhar sem limitações de ruído pela noite fora; e engana-se quem acha ser de pouca importância o fator do silêncio no quadro mais amplo da essencial privacidade doméstica e entre vizinhos do mesmo edifício ou de edifícios próximos; e está, por exemplo, provado que a falta de silêncio, que também se pode dizer falta de isolamento e conforto acústico, é aspeto que produz problemas graves e/ou frequentes entre vizinhos e habitantes das mesmas unidades de uso (por exeplo, habitações e escritórios) e dos mesmos edifícios, podendo chegar a más influências na respetiva saúde física e psíquica, e indiretamente no bem-estar social dos respetivos edifícios e vizinhanças.
            Ainda nesta matéria da associação entre silêncio, intimidade e urbanidade, é, por outro lado, necessário referir que ao nível do espaço urbano também a quietude e o sossego são sinónimos de bem-estar, de protecção, de uma certa intimidade e apropriação positiva das vizinhanças que habitamos, e se referem ao desenvolvimento de espaços urbanos que articulam zonas animadas e relativamente ruidos, com recintos urbanos estrategicamente localizados e marcados pelo sossego e pela acalmia do tráfego, recintos estes frequentemente caraterizados por uma expressiva componente verde e natural, ainda que muito urbana, e que entre outros aspetos nos proporciona viver mais intensa e prolongadamente o exterior à porta de casa, de certa forma prolongando usos domésticos sobre partes desse exterior e permitindo que esse exterior calmo e envolvente, e mesmo esse silêncio que, de certa forma, "se ouve",  preencha as janelas das nossas habitações e nos entre agradavelmente casa dentro.
            Falou-se, assim, um pouco do silêncio como fator de projeto de arquitectura, algo óbvio mas raramente lembrado; depois do silêncio natural ou da natureza como elemento com importância própria e associada ao projeto de arquitetura; e, finalmente, do silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade




Fig. 01

Sobre o silêncio como verdadeira matéria ou motivo da Arquitectura           

            Falta falar de muita coisa, nesta temática do silêncio como base de preparação e de vital experimentação do espaço que se projecta e que, depois, se quer vivo, falta sempre falar de muita coisa, quando começamos a aprofundar estas matérias da conceção arquitectónica, e, designadamente, falta falar do silêncio como verdadeira matéria ou motivo da Arquitectura, sem derivações, sem relações indirectas, pois parece haver obras que capturam um positivo silêncio local, ou que criam um positivo quadro local de acalmia e de sossego, quadro que propicia a contemplação e a reflexão sobre essas obras e as suas paisagens pormenorizadas ou amplas de integração e enquadramento.
            Ou será que tal condição, de certa forma, geradora de um sossego local, de uma certa acalmia local, grande aliada da boa caraterização de cada obra e de cada local é caraterística própria de toda a boa arquitectura?
            Questões bem estimulantes, que talvez tenham sido, ou venham a ser, aqui tratadas e que espero poder aprofundar  em outras oportunidades.


Fig. 02: Casa Pacheco de Melo, Arq.º Pedro Maurício Borges, Canada dos Barões, S. Miguel.

Sobre o silêncio das ruínas

            No entanto não poderia terminar esta reflexão sobre arquitetura e silêncio, sem falar, ainda que apenas um pouco, e mais como apontamento final, do silêncio das ruínas, um silêncio palpável, que todos sentimos; e de certa forma será como falar do silêncio libertado pelas ruínas de edifícios e construções quando estes iniciam o seu retorno ao caos natural originário.
            Lembrando a sequência de reflexão aqui feita será como imaginarmos que o silêncio, que usámos como meio integrador e caracterizador de uma da obra, e um pouco como ponte de ligação à sua envolvente natural e urbana, é devolvido ao quadro prévio local e natural.  
            Sobre esta matéria, parece que as ruínas cabam por resgatar o silêncio, de que tínhamos, nós, embebido algumas construções e espaços, devolvendo-o à natureza, associando o silêncio das construções abandonadas ao silêncio do meio natural.
            Evidentemente que a nostalgia e até a cenografia são também importantes aspetos nesta sensibilidade que todos temos para com as ruínas, por vezes até simuladas estrategicamente em jardins, mas por alguma razão até assim acontece e realmente as ruínas são verdadeiramente silenciosas; uma matéria interessante e estimulante, mas que tem contornos bem negativos quando as ruínas se referem a espaços urbanos abandonados e sem vida.
Fig. 03
           

            O silêncio na Arquitetura

            E assim se conclui uma pequena viagem iniciada pela reflexão sobre o silêncio como base de preparação da obra de arquitectura, continuada por apontamentos das relações entre silêncio e meio natural e entre sossego, intimidade e urbanidade; considerou-se, depois, o papel do silêncio como matéria ou motivo da Arquitectura e, finalmente, apontaram-se as ruínas como quadros privilegiados de um silêncio arquitectónico fortemente caraterizado.
            Tentou-se, assim abordar, tal como era sugerido, o mundo emotivo do silêncio, em alguns dos seus aspetos, salientando-se a importância da interiorização e da reflexão sobre estas verdadeiras bases de reflexão sobre uma arquitectura que está muito para além das simples cascas visuais mudas e sem carácter.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


INFOHABITAR Ano X, nº 486
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Universidade da Beira Interior (UBI), Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) 
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
O silêncio como quadro de socialização e matéria da arquitetura
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

domingo, maio 25, 2014

485 - O silêncio como base de projeto e quadro natural - Infohabitar 485


Infohabitar, Ano X, n.º 485

Nota inicial:

O artigo que se edita esta semana corresponde a parte da intervenção do autor no Ciclo de Conferências :  “Silêncio”, realizado em conjugação com a exposição de fotografia e de pintura de Alves Tê e Caterina Ponti, patente no Museu de Lanificios da Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, sobre a temática "O Silêncio das Máquinas", de 8 de maio a 29 de junho.


Este Ciclo de Conferências foi organizado pelo Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) da  Universidade da Beira Interior, nos dias 13 e 20 de maio de 2014, na sala de conferências do Museu de Lanifícios da UBI.

Organização: Ana Martins, Moreira Pinto e Susana Santos


Programa do Ciclo de Conferências Silêncio: 
Dia 13 maio

14h30 | Arqto. Bernardo Carvalho
15h00 | Arqta. Inês Campos
15h30 | Prof. Graça Esgalhado
16h00 | Arqto. Carlos Ganhão
16h30 | Prof. Ana Paula Rainha
17h00 | Prof. Jaceck Krenz

Dia 20 maio 

14h30 | Prof. Baptista Coelho
15h15 | Prof. Ana Martins e Prof. Antónia Conde
16h00 | Prof. Moreira Pinto
16h45 | Prof Susana Santos
           

O silêncio como base de projeto e quadro natural

António Baptista Coelho

O silêncio como base de preparação e de vital experimentação do espaço que se projecta e que, depois, se quer vivo

            Falar um pouco sobre o silêncio na arquitectura, considerando esta, naturalmente, como conjunto articulado de espaços interiores, exteriores e de transição, com presença doméstica e urbana e importantes ligações com o bem-estar que deve caraterizar os nossos cenários de vivência, será, talvez, falar de uma qualidade arquitectónica que acompanha e valoriza, seja, numa primeira linha, os respetivos atos de conceção desses espaços e ambientes, que têm de se fazer sempre num relativo silêncio, de concentração e de diálogo íntimo com os diversos aspetos em que se fundamenta essa concepção, esse projeto, seja, um silêncio que, numa segunda linha, embebe e caracteriza as primeiras vivências directas desses espaços logo que recém-concluídos, e atraentemente vazios e expectantes, produzindo-se, assim, imagens quase que estranha e eloquentemente silenciosas.
            Produzem-se, assim, imagens que acabam por ser projetos feitos realidade, e daí ainda tão calmas, numa primeira apresentação real da obra, que é sempre única e estimulante, em termos de uma fruição íntima do resultado real desse projeto de arquitectura; e talvez daqui resulte boa parte da importância que se dá à ilustração fotográfica dessa primeira fase de obra concluída e de certo modo vazia dos seus posteriores e essenciais conteúdos vivenciais, sociais e conviviais.
Fig. 01: Centro das Artes Casa das Mudas, na Calheta, Madeira., Arq.º Paulo David; à direita ...
            Temos, assim, o silêncio como base de preparação do espaço que se quer vivo e como uma espécie de condição de prova de fogo, individualmente sentida, de como resulta esse espaço, quando construído, uma prova caraterizada por uma certa disponibidade desse espaço ser entendido, globalmente, como algo que apresenta um certo potencial de acolhimento, que depois será, ou não, comprovado, quando habitarmos esse espaço; e sendo que tudo isto, da fase de projeto à fase final de vivência preliminar da obra acabada, obriga a um quadro básico de silêncio, ou de siêncio preenchido pela boa música, por exemplo, e será sempre impossível num quadro marcado pelo ruído e pela desordem que está frequentemente associada ao ruído.
            Talvez que por isso tantos amadores de fotografia, e tantos arquitectos, privilegiem os espaços vazios, desabitados e de certa forma silenciosos, não numa negação da sua essencial utilidade como quadros da vida humana nos seus mais variados aspetos, mas sim muma facilitação da leitura global e, depois, mais detalhada desses espaços, quase uma sua apresentação prévia, quase um cenário mesmo cenário ainda que provisoriamente cenário, e afinal quase um verdadeiro desenho em escala natural e volume, um desenho que sempre nos traz novidades relativamente ao desenho em papel que o antecedeu; mas um desenho real que, tal como o desenho-desenho, obriga a uma sua leitura silenciosa, e cuidadosamente vagarosa, num vagar que também se liga ao silêncio e que provavelmente tem clara expressão nas calmas e sóbrias imagens a preto, branco e cinzentos.

O silêncio e o meio natural

            Dito isto, que pretendia fazer, apenas, um enquadramento esquemático e global da matéria que aqui me proponho, mas que, tal como sempre acontece, foi tema que avançou por si próprio e que deixou outros caminhos de desenvolvimento, devo agora voltar atràs, ao meio natural, que é aquele onde fundamentamos os projectos de Arquitectura.
            Salienta-se que nos sítios naturais ou expressivamente naturalizados, o silêncio é base de quase tudo e nem é silêncio, pensa-se no silêncio natural e no silêncio na natureza, marcado por sons naturais e que acabamos por considerar como integrando o silêncio; e esta é matéria interessante pois, entre muitos outros aspetos, um dos objetivos de uma boa arquitetura é proteger e servir o homem em termos de um seu conforto amplo, em termos de um adequado equilíbrio com as condições naturais e não será por acaso que está provado que o meio natural, o seu quadro ambiental e o sossego que o marca são aspetos essenciais no bem-estar humano, sendo por exemplo usados, objetivamente, no tratamento de determinados problemas de saúde e na suavização do tão conhecido stress urbano.
            Temos então, assim, o silêncio como virtude natural que, conjuntamente com outras condições de conforto ambiental, procuramos proporcionar estrategicamente nas nossas casas, nas nossas vizinhanças urbanas e mesmo até, pontualmente, em determinados espaços urbanos mais intensos, onde é sempre possível e desejável que existam oportunidades de gozar um pouco de silêncio ou de significativa redução do ruído; e estas pequenas ilhas de calma, rodeadas de ruído e bulício urbano, serão tanto mais estimulantes, quanto mais associadas estiverem a condições naturais de estabelecimento dessa acalmia do ruído envolvente, sendo o contrário exemplificado por soluções muito condicionadas e associadas a instalações com essa finalidade específica.

          
Fig. 02: os meios naturais ou expressivamente naturalizados são como que "geradores de silêncio"
            E é interessante lembrar que os meios naturais ou expressivamente naturalizados são como que "geradores de silêncio", porque captam e amortecem os ruídos envolventes e próprios, porque produzem ruídos naturais de camuflagem, e porque associam condições de silêncio e conforto a vistas e quadros naturais, marcados pelo verde, pelas árvores e até pela água naturalizada.
            De certa forma tais quadros naturais diretamente indutores de condições mais silenciosas e indiretamente associados a memórias de ambientes silenciosos, são, depois, ferramentas que o projetista deve usar quando projeta ou reprojeta arquitetura; naturalmente não de uma forma solta e por vezes cega, mas sim integrada nos diversos aspetos de conforto ambiental que tantas pontes comuns apresentam – aspetos acústicos, higro-témicos e de conforto visual – uma integração que precisa, urgentemente, de avanços e de sínteses facilmente aplicáveis por não especialistas – e perdoem esta espécie de divagar técnico não muito adequado ao perfil da temática, ou será que é adequado e então estaremos numa reflexão extremamente sensível onde se tentam abordar, integradamente, aspetos mais objetivos e outros ainda considerados menos objetivos.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


INFOHABITAR Ano X, nº 485
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Universidade da Beira Interior (UBI), Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) 
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
O silêncio como base de projeto e quadro natural
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.