domingo, maio 18, 2014

484 - Algumas reflexões gerais sobre a adaptabilidade doméstica - Infohabitar 484

Infohabitar, Ano X, n.º 484

(Nota prévia: lembram-se os leitores que a Infohabitar ultrapassou, há poucas semanas, a barreira do meio milhão de consultas/Page views)

Algumas reflexões gerais sobre a adaptabilidade doméstica (1)

Artigo LI da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

O desejo de possuir uma habitação que possa ir evoluindo consoante as necessidades, os desejos e os recursos familiares, tanto no interior como no exterior privado leva à opção por uma moradia, ou por um piso térreo espaçoso e com quintal privado; desde que nesse quintal seja permitido o desenvolvimento de anexos e outras melhorias (exº, vedações), mas, sempre, segundo projectos-tipo, de modo a que se garanta a qualidade local da imagem urbana e paisagística.

A adaptabilidade da habitação, ao longo dos anos

A adaptabilidade da habitação, ao longo dos anos, ao crescimento e decrescimento de uma família corrente está, habitualmente, associada à respectiva sequência de zonas funcionais domésticas predominantes:
·         primeiro mais zonas de estar e menos quartos;
·         depois mais quartos;
·         e em seguida, novamente, mais zonas de estar e trabalho.
Esta "predisposição" da habitação para a adaptabilidade doméstica depende, geralmente, da existência de condições iniciais de espaciosidade geral e de compartimentos suplementares (no mínimo, mais um compartimento "de reserva"); e, por outro lado, tais condições proporcionam uma grande liberdade na ocupação e no variado uso dos mesmos espaços domésticos.
Mas a adaptabilidade no fogo também "se joga" de um modo "estático", nomeadamente, através de uma organização geral bastante uniforme que estruture a circulação doméstica em idênticas condições de acesso a  compartimentos idênticos (sem grandes diferenças de áreas, tipos de aberturas interiores e exteriores e relacionamentos com as restantes partes da casa).

Fig. 01: Fonte, RABENECK,  A.; SHEPPARD, D..; TOWN, P. - Housing, flexibility-adaptability. Architectural Design, n.º 2, Londres, 1974.

Diversos tipos de quartos

A opção entre o desenvolvimento exclusivo de quartos tradicionais e de uma única e também tradicional sala-comum ou, pelo contrário, a criação de compartimentos multifuncionais para fins especiais (a serem definidos pelos habitantes) e de uma segunda zona de estar (saleta), é uma decisão que tem a ver com os dois seguintes aspectos:
·         A solução de habitação caracterizada por quartos tradicionais e uma única e também tradicional sala-comum implica que a zona de estar seja espaçosa, agradável e bem separada de uma zona de quartos (zona íntima), onde se concentram todos os quartos da casa e onde pontifica um quarto principal (bem servido por uma casa de banho).
·         A solução de habitação caracterizada pela existência de quartos para fins especiais pode aceitar uma sala de estar que não seja especialmente espaçosa, desde que se caracterize por compartimentos com dimensões, ambientes (tipos de janelas e acabamentos) e posições na casa (fora ou dentro da zona de quartos e mais ou menos acessíveis a partir da porta de entrada) verdadeiramente adequados para o fim ou fins em vista: "casa de jantar"; "sala de família"; escritório ou biblioteca; saleta para recreio e trabalho de crianças e jovens; saleta de visitas; saleta para passa-tempos; quarto de serviço; quarto de visitas (o dormir eventual de visitas pode ser considerado num dos quartos atrás referidos).
A existência de uma "sala de família" multifuncional e espaçosa, integrando a preparação de refeições, as refeições correntes e os trabalhos e lazeres domésticos e familiares é uma opção fundamental para esta última solução de fogo, tanto por razões práticas de atribuição de uma zona com área significativa e bem situada para esta função, como porque é condição básica de libertação do espaço de estar, mais formal, para actividades mais especializadas e, consequentemente, mais exigentes em termos de conforto ambiental, embora contentando-se, frequentemente, com condições de espaciosidade relativamente "económicas" (exº, leitura, audição de música, convívio restrito, etc.).
Sobre a importância, hoje em dia crucial, da adaptabilidade das soluções domésticas (uma qualidade bem distinta de situações funcionalmente "rígidas") e, portanto, expressiva e facilmente adaptáveis, anotam-se aqui apenas alguns aspectos essenciais tendo em vista, por um lado, o objectivo de uma respectiva e aproximada tipificação e, por outro, salientar a importância real de se desenvolverem habitações adequadas a diversos tipos de agregados familiares, modos de vida e uso e apropriação domésticos, combatendo-se "layouts" e configurações pormenorizadas com características funcionais e ambientais "rígidas" (pouco adaptáveis e versáteis).

Adaptabilidade passiva ou activa

De uma forma geral pode-se tipificar uma adaptabilidade doméstica passiva e uma outra adaptabilidade activa, caracterizando-se cada uma delas, respectivamente, pelos aspectos referidos em seguida:
·         Adaptabilidade "passiva" por organização geral da habitação e do dimensionamento físico dos respectivos compartimentos proporcionando-lhes, por um lado, (i) variadas atribuições funcionais e, por outro, (ii) clara versatilidade de ocupação por diversos tipos e disposições específicas de elementos de mobiliário; naturalmente os aspectos referidos em (i) e (ii) terão uma maior eficácia quando bem conjugados, mas podem ser considerados isoladamente.
·         Adaptabilidade "activa" por compartimentação da habitação potencial e fisicamente adaptável, por potenciais fusões e subdivisões de compartimentos em grande parte do fogo ou em algumas das suas zonas específicas (ex., sala + quarto polivalente ou "salão"); esta possibilidade poderá ter "versões" relativamente correntes (possibilitadas por uma estrutura resistente relativamente "independente" dos habituais elementos de alvenaria de tijolo que garantem a compartimentação do fogo), relativamente inovadoras (uso de tabiques "ligeiros" préfabricados e relativamente fáceis de montar/desmontar) e mesmo participadas (ex., habitantes colaborando no "desenho" da organização e no dimensionamento interior do seu fogo).

Fig. 02: Adaptabilidade passiva numa grande sala multifuncional.

Habitações ligadas ou desligadas do solo exterior

A relação com o solo exterior público e ou privado é essencial nesta tipificação, porque se refere a importantes aspectos de acessibilidade funcional e representativa, adequação à família e ao modo de vida familiar, relacionados com o estímulo de uma forte identificação com o fogo de cada um e com a sua equilibrada mas assinalável apropriação.
Dentro do objectivo da tipificação da relação com o solo exterior poderemos considerar diversas situações domésticas:
·         sem ligações directas ao espaço público e a um quintal/pátio privativo;
·         com ligação directa ao espaço público;
·         com ligação directa a um quintal/pátio privativo;
·         com ligações directas ao espaço público e a um quintal/pátio privativo.
Refere-se que as ligações directas poderão realizar-se através de escada, condição que, embora problemática para os condicionados na mobilidade, terá a importante virtualidade da "duplicação" genérica do número de fogos com esta interessante possibilidade ("porta para a rua" e/ou acesso a quintal/pátio privativo).

Notas:
(1) O texto que integra este artigo foi inicialmente realizado, pelo autor, para o estudo “Guia do comprador de habitação”, editado pelo Instituto Nacional de Defesa do Consumidor em 1991; naturalmente, na sequência da respectiva edição foram introduzidas diversas alterações à versão inicial.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


INFOHABITAR Ano X, nº 484
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Universidade da Beira Interior (UBI), Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) 
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Algumas reflexões gerais sobre a adaptabilidade doméstica
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 11, 2014

Em memória e com saudade da Arquitecta Isabel Plácido

Por vezes não é possível manter a rotina, porque somos apanhados desprevenidos por algo que, embora soubéssemos que poderia acontecer, nos marca com uma grande tristeza.

E é sempre assim na morte de um amigo verdadeiro, neste caso uma amiga de há muito, a Isabel Plácido, que sabíamos estava doente, mas que desejávamos pudesse ultrapassar esta fase mais difícil, transformando-a numa memória que se fosse esquecendo.

Assim não aconteceu e o que ficou foi aquela vontade, que é sempre a mesma na morte de um amigo, de não se querer acreditar, de não se querer comprovar o que se deseja que seja um engano terrível; mas não: aconteceu mesmo.

A Arquitecta Isabel Plácido faleceu na Quinta-feira passada, dia 8 de Maio de 2014, e à família enlutada aqui se registam os devidos e mais respeitosos sentimentos.

A Arquitecta Isabel Plácido era Investigadora do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), praticamente desde que se terminou a sua licenciatura, até há cerca de um ano, altura em que se aposentou.

A Arquitecta Isabel Plácido doutorou-se em Arquitectura, com todo o mérito, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e foi, desde sempre, um elemento essencial do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU, antes NA-Núcleo de Arquitectura) do LNEC, mas também do Departamento de Edifícios do Laboratório, onde assegurou, com elevação e humanidade, variados cargos ligados ao respectivo Conselho Científico; associando ainda toda esta actividade ao desenvolvimento da actividade de projecto de arquitectura e uma carreira de formação especializada e de docente universitária na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT).


As suas excepcionais qualidades de trabalho e de capacidade de coordenação de equipas de investigação eram, apenas, suplantadas pelas suas qualidades humanas, e ficam editados no LNEC muitos trabalhos em variadas temáticas que atestam esta sua bem reconhecida capacidade - desde o processo de projecto, às pioneiras aplicações da informática no projecto de Arquitectura, ao desenvolvimento de pareceres técnicos especializados e, mais recentemente, a coordenação de um muito extenso, assinalável e útil conjunto de trabalhos que enquadram a concepção de um amplo e diversificado leque de equipamentos sociais.

Mas para além de tudo isto a Isabel Plácido estava sempre plenamente disponível para integrar outras temáticas de trabalho, ajudar nas mais diversas matérias e tarefas e dar a sua bem ponderada e humana opinião nos mais variados assuntos, sendo sempre um elemento muito positivo e vital na dinâmica de trabalho do NAU do LNEC e no sentido de estimulante convivência que muito ajudou a criar e a manter neste Núcleo.

Mas para além de tudo isto a Isabel Plácido era e é, para sempre, uma grande amiga; uma amiga que irá fazer falta a muita gente e de quem irei sentir muita falta, na convivência, na conversa, no estarmos juntos falando de tudo e de nada, desde os cães e os gatos, aos mais variados e importantes aspectos da profissão, partilhando almoços, memórias, ideias e projectos.

Costuma dizer-se que certas pessoas não acabam, porque ficam a viver nas nossas memórias: para mim e, tenho a certeza, para muitos dos bons amigos da Isabel, este costume não é apenas uma palavra, é uma realidade: Ela está e estará para sempre bem viva nas nossas memórias, e na forma como vamos continuar a viver, lembrando-nos, realmente, dela ... até ao "dia" em que nos iremos voltar a encontrar, e aí teremos tanto, tanto, de que falar.

António Baptista Coelho

e, tenho a certeza, em nome de muitos dos bons amigos da Isabel Plácido




A saudosa amiga Isabel Plácido na 2.ª fila e à esquerda (com casaco vermelho) quando da comemoração dos 40 anos do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, na conclusão da Conferência Comemorativa "Bairros Vivos, Cidades Vivas", em 24 de novembro de 2009.

sábado, maio 03, 2014

483 - Imagens e cores urbanas e naturais I - Olivais-Norte/Encarnação, Lisboa - Infohabitar 483

Infohabitar, Ano X, n.º 483

Imagens e cores urbanas e naturais I - Olivais-Norte/Encarnação, Lisboa

António Baptista Coelho

(Nota prévia: lembra-se que a Infohabitar ultrapassou, há poucos dias, a barreira do meio milhão de consultas/Page views)

Continuando a nova série de artigos da Infohabitar inteiramente integrados pela edição de imagens - desenhos e fotografias -, apresentam-se nesta edição algumas imagens associadas à, atualmente, bem importante redescoberta da matéria da Imagem urbana, neste caso, numa perspectiva de associação entre imagens urbanas e naturais/paisagísticas, proporcionadas pelos excelentes exemplos urbanos e residenciais evidentes no modelar bairro modernista dos Olivais-Norte/Encarnação, em Lisboa.



Imagem 01:

Relação entre imagem urbana e paisagem.

É muito interessante e estimulante a relação que se estabelece entre imagem urbana/edificada e envolvente natural/paisagística, resultando dessa relação uma valorização mutua em termos de imagem local e urbana; pois os edifícios, ainda assim, definem continuidades gerais em termos de ruas e vizinhanças.


Imagem 02:


Edifícios protagonistas.

Alguns dos edifícios têm um protagonismo acrescido na definição das referidas continuidades gerais em termos de ruas e vizinhanças; continuidades estas que resultam  tanto de uma grande clareza da estruturação geral do bairro, como de uma afirmada definição de "correntezas" edificadas bem distribuídas .



Imagem 03:

Presença da natureza.

Há verdadeiro lugar para a presença da natureza e da paisagem natural, numa primeira aliança entre arquitectura "civil" e paisagística (cerca de 1960) ; um exemplo que, infelizmente, teve pouca continuidade, entre nós.




Imagem 04:

Percursos pedonais e natureza.

Por vezes, natureza e edifícios "lutam" amigavelmente, caracterizando os diversos percursos pedonais que rodeiam todo o bairro e permitem, assim, uma sua leitura "dupla": seja mais urbana, ao longo das ruas; seja mais natural, ao longo destes caminhos. E esta foi também uma prática urbanística que não teve continuidade assinalável.


Imagem 05:

Relação entre edifícios e natureza.

Na zona central deste pequeno, mas bem agradável, bairro a relação directa e afirmada entre edificação e natureza tem excelente exemplos.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


INFOHABITAR Ano X, nº 483
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Universidade da Beira Interior (UBI), Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura (DECA) 
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Imagens e cores urbanas e naturais I - Olivais-Norte/Encarnação, Lisboa
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, abril 27, 2014

482 - Espaço público e identidade urbana - Infohabitar 482

Infohabitar, Ano X, n.º 482

A Infohabitar ultrapassou as 500.000 consultas (page-views)


Nota introdutória: este artigo corresponde à contribuição do autor para uma das intervenções do LNEC, realizadas no âmbito da recente "Semana da Reabilitação Urbana Lisboa 2014", na tarde de 24 de março de 2014, no MUDE - Museu do Design e da Moda - em Lisboa.

Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

 António Baptista Coelho


Construir no construído

Requalificamos o espaço público para que este seja mais e melhor habitado e pensamos num re-habitar da cidade no sentido de a podermos ter mais viva e estimulante.
Há que privilegiar “o construir no construído”, na excelente e ampla perspectiva defendida por Francisco de Gracia (1), que se baseia numa reconstrução da coesão urbana marcada pela escala e uso humanos, pelo desenvolvimento de adequados estímulos visuais e funcionais e por uma cuidadosa e vitalizada densificação; estando todos estes aspetos integrados num objetivo de verdadeira reabilitação da paisagem urbana local, que há que preservar e reconstruir, designadamente, nos seus aspetos orgânicos e ligados ao respetivo caráter do lugar.
Isto obriga a um projecto arquitectonicamente bem fundamentado em cada lugar, e bem qualificado, numa metodologia que foi já praticada, entre nós, em ações de referência que é essencial divulgar e visitar/viver local e demoradamente.

Fig. 01

Sobre a cidade do pormenor e do vagar

Nesta matéria o arqº Yves Lyon, faz uma síntese, quando refere que “depois do período dos grandes projectos há que assumir a arquitectura como abertura ao mundo ... numa clara abertura à vida, bem distinta de clausuras disciplinares”; defendendo “uma nova actividade de arquitecto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objectos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades.”
Uma recriação marcada pela escala e uso humanos, seja na requalificação do próprio espaço exterior público, seja na relação que nele se deverá desenvolver com os vãos dos edifícios contíguos, refazendo-se um exterior público religado à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim (2), e um exterior público renovado, libertado da opressão do veículo motorizado, e que, assim sendo, pode e deve ser estratégica e agradavelmente pontuado por verdadeiros recantos domésticos, como por exemplo acontece em centros históricos e em novos bairros bem desenhados como, por exemplo, Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.
Assim se melhora a imagem urbana para promover o uso intenso do exterior, condição que proporciona melhor fruição dessa imagem urbana, num círculo virtuoso de melhor imagem e mais e melhor uso, e numa atenção às suas sequências, pormenores e recantos de estar, que, por sua vez é dinamizadora de melhores relações de identificação com cada local e de melhores condições de segurança pública no seu uso.
Mas evidentemente que nas ações de requalificação o espaço público não podemos desenvolver uma segregação simplista do automóvel privado, pois como escreveu Spiro Kostof (3), “o mais importante aspecto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio.
E este caminho, bem marcado numa importante exposição aqui neste museu ... e que parece estar a ser ... seguido pela CML ... é essencial numa urgente recuperação da cidade para o cidadão, passo essencial de uma requalificação do espaço público, que o reabilite como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens.
Escreveu António Pinto Ribeiro (4), sobre esta matéria, que “seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade”; .... acabei de citar.

Fig. 02

Cidade passeada, cidade habitada

E o peão precisa de verdadeiras cenas habitadas, precisa de emoção e de conteúdos, não apenas funcionais e o peão gosta de sentir que passeia em zonas vivas e nestas matérias provavelmente o habitar do dia-a-dia ganhará com algumas técnicas ligadas ao turismo, enquanto o turismo pode ganhar muito com alguma da qualidade espontânea e com o sentir e participar (d)a vida de comunidades residenciais positivamente caraterizadas e activas, e exemplo disto encontra-se já em vários “centros históricos” vivos como o de Guimarães.
Precisamos de passear fisicamente e mentalmente, viajando, pausada e agradavelmente, por uma cidade desaparecida, mas que esteja viva, é esse o objectivo que devemos ter em mente, e para isso é fundamental associar, sistematicamente, a resolução dos problemas de carências habitacionais aos da falta de qualidade e vitalidade urbanas,
Afinal não basta ordenar o espaço para se criar um ambiente interessante e motivador; o habitante também necessita de emoção na relação afectiva com o espaço urbano e o uso a pé do espaço público é ação de grande proximidade e, portanto, muito diretamente estimulada pela qualidade do desenho urbano.

Vizinhanças amigáveis, vizinhanças amáveis

Importa salientar que, hoje em dia, não parece haver ainda um conhecimento devidamente sedimentado, publicitado e, essencialmente, consensualizado (no que for possível) sobre a qualidade urbana que é possível ter, por exemplo, numa praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável, apropriável, digna a atraente.
Os conhecimentos e as preocupações continuam a estar, aqui, dirigidos para os aspectos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar a medo uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens;
E não é possível deixar de referir que este caminho de projeto deve ser compatibilizado com a disponibilização de novas tipologias residenciais adequadas para pessoas sós e pequenas famílias, numa ação que contribui, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.

Cultura e urbanidade

Neste processo de reflexão e de projeto importa aplicar ferramentas facilitadoras das intervenções e nesta matéria devemos ter presente que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam.

Fig. 03

Aliança entre intervenções no exterior urbano e nos edifícios

Em tudo isto importa salientar que grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes, está num tecido urbano com continuidades afirmadas, que acolham bem e atraentemente uma diferenciação formal e funcional equilibrada, em continuidades urbanísticas não especializadas e que levem a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona recantos “domésticos” em zonas citadinas mais animadas.
E esta grande unidade dos espaços urbanos e residenciais constitui-se num fundamental ligante de apropriação, sendo que nesta unidade formal e funcional fica evidente o protagonismo do espaço público.
Um protagonismo que é essencial veículo de diversas qualidades da urbanidade, entre as quais é hoje em dia bem oportuno evidenciar a criação de espaços com usos mistos; sejam exteriores, sejam edifícios, sejam unidades com partes interiores e exteriores.

Do estímulo e da surpresa na cidade

Mas todo este caminho não é possível sem intervenções marcadas pela qualidade arquitectónica e que tenham em devida conta adequadas condições estímulo, surpresa, considerando mesmo um certo sentido lúdico (...) , pois o espaço urbano para além de nos acolher e proteger, também nos deve estimular e surpreender, pela positiva naturalmente, e nesta perspetiva o adequado manejar da imagem urbana é essencial e nele a intervenção no espaço público é sempre determinante.
E, tal como referiu a colega Marilice Costi, num dos primeiros artigos do Infohabitar em Junho de 2005: “Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.”

Notas:
(1) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.
(2) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(3) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242
(4) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 482
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, abril 20, 2014

481 - Imagens e cores urbanas I - de Lisboa a Braga - Infohabitar 481

Infohabitar, Ano X, n.º 481

Imagens e cores urbanas I - de Lisboa a Braga

António Baptista Coelho


Continuando uma nova série de artigos da Infohabitar inteiramente integrados pela edição de imagens - desenhos e fotografias -, apresentam-se nesta edição algumas imagens associadas à, atualmente, bem importante redescoberta da matéria da Imagem urbana, neste caso com algumas vistas da Lisboa mais velha e de uma última vista de Braga.

Imagem 01:

Imagem urbana como apoio à leitura e explicação do funcionamento do espaço público (Lisboa, Baixa).


Imagem 02:

Imagem urbana como leitura da forma e da dinâmica de uso do espaço público (Lisboa, Baixa).


Imagem 03:

A imagem urbana como base de leitura e de uso de um espaço público lúdico (Lisboa, junto ao Tejo).


Imagem 04:

Esboços de imagem urbana como elementos de apoio à caraterização do espaço público (Lisboa, Camões) .


Imagem 05:

Esboços de imagem urbana como elementos de caraterização dos diversos cenários de uso do espaço público (Lisboa, Baixa). 


Imagem 06:

Esboços de imagem urbana como identificação de fundos e elementos simbólicos de estruturação dos principais espaços de uso público (Braga, o eixo urbano do Arco da Porta Nova).


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores..
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 481
Imagens e cores urbanas I - de Lisboa a Braga
Uma sequência de imagens de António Baptista Coelho
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, abril 13, 2014

480 - Imagem urbana a preto e branco - Lisboa nova I: Olivais Norte-Encarnação - Infohabitar 480

Infohabitar, Ano X, n.º 480

Imagem urbana a preto e branco: Lisboa nova I, Olivais Norte-Encarnação

António Baptista Coelho


Continuando uma nova série de artigos da Infohabitar inteiramente dedicados à edição de imagens - desenhos e fotografias -, apresentam-se nesta edição algumas imagens associadas à, atualmente, bem importante redescoberta da matéria da Imagem urbana, neste caso a "preto e branco" e especificamente, neste artigo, à temática da "Lisboa mais nova", e neste caso ao exemplar Bairro de Olivais-Norte, realizado nos anos 60 do século passado, e que se integra no Bairro  da Encarnação.







Imagem 01:

Imagem urbana como apoio à leitura e explicação do funcionamento do espaço de uso público 


Imagem 02:

Diálogo positivo entre edifícios e natureza


Imagem 03:

Olivais Norte: ligação entre arquitetura e natureza 


Imagem 04:

Ambiente natural e amenização urbana


Imagem 05:

A natureza como elemento recuperador e integrador da arquitectura


Imagem 06:

Integração entre formas naturais e formas construídas


Imagem 07:

Aliança entre imagem urbana e imagem natural 


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores..
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 480
Imagem urbana a preto e branco: Lisboa nova I, Olivais Norte-Encarnação
Um artigo, ou uma sequência de imagens de António Baptista Coelho
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, abril 06, 2014

479 - Imagem urbana a preto e branco: Lisboa antiga I - Infohabitar 479

Imagem urbana a preto e branco: Lisboa antiga I

Infohabitar, Ano X, n.º 479

Imagens urbanas a preto e branco: Lisboa antiga I

António Baptista Coelho


Iniciando uma nova série de artigos da Infohabitar inteiramente integrados pela edição de imagens - desenhos e fotografias -, apresentam-se nesta edição algumas imagens associadas à, atualmente, bem importante redescoberta da matéria da Imagem urbana, neste caso a "preto e branco" (e cinzentos) e especificamente à temática da "Lisboa mais antiga", a dos velhos bairros. E lembra-se que o último artigo aqui editado tratava exatamente da vital matéria da imagem urbana, assunto ao qual voltaremos em breve..



Imagem 01:

imagem urbana como apoio à leitura e explicação do funcionamento do espaço de uso público .


Imagem 02:

Imagem urbana estruturadora de partes da cidade.


Imagem 03:

Imagem urbana e pormenorização das vizinhanças.



Imagem 04:

As imagens como suporte da curiosidade e do sentido lúdico no espaço urbano.


Imagem 05:

Imagem urbana como veículo de dinamismo e caráter.


Imagem 06:

Imagem urbana como meio de desenvolvimento da atratividade do espaço público.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores..
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 479
Imagens urbanas a preto e branco: Lisboa antiga I
Um artigo, ou uma sequência de imagens de António Baptista Coelho
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.