segunda-feira, maio 18, 2009

247 - "Maus" bairros, "bons" bairros: aprofundar as boas práticas de habitação social - Infohabitar 247

Infohabitar, Ano V, n.º 247

"Maus" bairros, "bons" bairros: aprofundar as boas práticas de habitação social
António Baptista Coelho


Nota prévia geral: o artigo da colega Marilice Costi, programado para a presente semana, e que tratará alguns aspectos da arquitectura dos espaços pedagógicos será editado na semana que vem, aqui, no Infohabitar.
Nota prévia ao artigo: entende-se, e é sugerido ao longo e no final do artigo, que, naturalmente, não será de um excelente desenho urbano e habitacional que decorrerá a solução dos mais variados problemas sociais; acredita-se, no entanto, que o “desenho” da cidade e do habitar, ou da habitação, pode ajudar, e muito, na melhoria desses problemas; o texto que se segue é desenvolvido nesta perspectiva.


Fig. 01

Introdução

A propósito do que aconteceu, há poucos dias, na Bela Vista, em Setúbal, e do que aconteceu, muito recentemente e novamente, em Chelas, Lisboa, lembram-se alguns aspectos que caracterizaram o que de melhor se fez, em Portugal, nos últimos decénios, em “habitação de interesse social”, comentando-se que poucos desses aspectos estarão presentes na Bela Vista, em Chelas e em outros dos nossos bairros e agrupamentos hoje considerados críticos.

Termina-se com alguns comentários, muito breves, sobre o futuro destas matérias; comentários estes em que se incluem alguns parágrafos de um artigo editado no Infohabitar em 9 de Março de 2005, também a propósito de um problema desta natureza; o que dará para reflectir sobre a possibilidade de podermos vir ainda aqui a “repetir” esta temática daqui a mais alguns anos – espera-se que assim não aconteça.

Para “contrastar” e porque se acredita, inteiramente, numa via de se aprender com os bons exemplos que, entre nós, já existem, em quantidade e qualidade, a ilustração é toda ela referida, a título de exemplo, a um excelente agrupamento de habitação de realojamento na Guarda, Bairro do Pinheiro, promovido pelo município da Guarda em 1995, portanto já há quase 15 anos, com projecto do Arq. Aires Gomes de Almeida e GAT da Guarda, para 53 famílias e alguns equipamentos de proximidade, e que foi visitado e fotografado há poucos dias; e a ideia é, naturalmente, apontar que neste caso, praticamente, tudo o que se irá referir como aspectos de qualidade a implementar em habitação de interesse social se cumpriu, e o resultado está à vista, numa intervenção que cooperou no fazer de mais um pouco de cidade humanizada – e sublinha-se que este é apenas um exemplo de muitos que é possível visitar e estudar, no local, em Portugal, e de replicar nos seus aspectos de estruturais de processo de projecto, obra e gestão local continuada.


Fig. 02

Linhas de concepção e acção que marcam os nossos melhores exemplos de habitação de interesse social

São as seguintes as linhas de concepção e acção que marcam os nossos melhores exemplos de habitação de interesse social

Integração social e adequação aos habitantes
É essencial a integração social no habitar e a sua adequação aos habitantes, através de uma crucial mistura social, pela introdução de pequenos grupos de realojamento, e desenvolvendo-se uma cuidada diversificação de soluções habitacionais.
Depois há que garantir a relação com a intervenção social e a gestão de proximidade e avaliar, sistematicamente, na prática muito o que se fez, tirando daí ensinamentos que vão das tipologias aos processos de gestão utilizados; acabando, de vez, com as repetições de concentrações sociais, com a discriminação e o isolamento na localização dos conjuntos, e com o desenvolvimento de misturas sociais que nada têm a ver com a diversificada composição social da cidade.

Relação mútua, efectiva e afectiva, entre interior e exterior residencial

Um dos aspectos é a relação mútua, efectiva e afectiva, entre interior e exterior residencial, um tema que fica bem evidenciado nos aspectos de crítico inacabamento dos espaços exteriores, que ainda se verificam em alguns “bairros sociais”.

O espaço exterior também é para ser vivido e para isso tem de estar condignamente acabado e equipado, e ser bem relacionado com os espaços públicos de uma cidade viva e coesa que lhes assegure uma estimulante continuidade.

Diversidade tipológica e a pequena escala urbana das intervenções residenciais
Outro aspecto sublinha a importância da diversidade tipológica e da pequena escala urbana das intervenções residenciais de interesse social; e se a esta característica juntarmos o privilegiar de pequenas intervenções residenciais bem integradas, temos provavelmente o maior contributo deste quarto de século para a história da habitação de interesse social portuguesa, pois diversidade e pequena escala favorecem: a participação dos habitantes, a identidade local, o desenvolvimento comunitário, e a gestão local; o equilíbrio ecológico de cada conjunto e a introdução do verde urbano; a introdução de espaços para os peões e promotores do convívio natural; a diversidade de soluções de edifícios habitacionais e mistos (habitação e equipamentos); o desenvolvimento de pequenos conjuntos urbanos de requalificação local; e o desenvolvimento de conjuntos residenciais sem qualquer estigma de pobreza e de falta de atractividade.

Diversidade de promoções e adequada gestão local de proximidade
Um outro aspecto sublinha a relação entre a diversidade de soluções e tipologias e diversidade dos respectivos promotores, uma condição que é muito positiva nas misturas sociais disponibilizadas; uma diversidade que encontra na promoção cooperativa um aliado capaz de assegurar excelentes condições iniciais de enquadramento participativo das intervenções, depois prolongadas por muito eficazes acções de gestão de proximidade.

Apoio a “novas” formas de habitar a casa e a cidade
Outro aspecto evidencia o interesse e a oportunidade de substituir a “velha” oferta de soluções habitacionais únicas, pela oferta de um leque de novas formas de habitar, uma oferta tão importante para uma fundamental adequação aos diversos modos de vida e às necessidades habitacionais específicas, como para a criação de uma estimulante diversidade de relações entre habitações e vizinhanças, em vez de monótonas e repetidas soluções de proximidade, com as quais ninguém terá vontade de se identificar.

Uma diversidade e variabilidade que vai dos multifamiliares aos unifamiliares, passando pelas soluções de transição tipológica e pelas afirmadas soluções colectivas, todas elas soluções extremamente úteis e dúcteis na construção de uma cidade que, de certa forma, cresça numa densidade convivial e decresça naquela densidade que nos faz mal, a do ruído, da confusão, do excesso de veículos, e da ausência de identidade, apropriação e espaços de acalmia.

Adequação à cidade e à paisagem e estimulante preenchimento urbano
Outro aspecto refere-se ao privilegiar de intervenções residenciais bem desenhadas, bem integradas na cidade e caracterizadas pela escala humana, que cooperam, activamente, na (re)estruturação da sua zona de intervenção e que dialogam bem com a fundamental continuidade urbana e com a paisagem.

Procura-se uma densificação estratégica, com uma arquitectura amigável e cívica, através de um desenho bem integrado com as paisagens urbanas e naturais preexistentes, que favoreça a criação de vizinhanças conviviais e bem embebidas nas respectivas envolventes, proporcionando aos novos habitantes boas condições para uma rápida integração física e social e numa opção que joga forte na ampliação do habitar para o espaço exterior circunvizinho; de certa forma esquecendo-se tudo aquilo que se liga a espaços menos apropriados ou apropriáveis.

Desenho pormenorizado da habitação
Ainda outro aspecto tem a ver com o desenvolvimento de excelentes soluções-base de fogos, em termos de zonas funcionais e de adaptabilidade a diversos modos de habitar, onde se equilibram espaciosidades conviviais, por exemplo entre sala e cozinha, e onde, por vezes, se criam espaços domésticos bem caracterizados. Sobre a questão das áreas há caminhos a fazer no sentido de se favorecerem melhores condições, mais funcionais, mais humanizadas, mais integradas e mais versáteis; e melhores espaços não são, necessariamente, maiores espaços, pois podem enriquecer-se com condições especiais de caracterização ambiental, escala humana e atractividade.

Qualidade e pormenorização do desenho de arquitectura – do interior doméstico ao exterior público
Nesta matéria tem de ficar claro que viver numa obra de boa arquitectura residencial é realmente uma experiência muito positiva, pois, tal como disse há poucos anos o presidente do Royal Institute of British Architects (na altura o Arq. George Ferguson): “uma escola melhor desenhada leva a um melhor ensino, e uma casa e um escritório melhor desenhados resultam em pessoas mais felizes” (Rita Jordão SILVA, «Inauguração da nova galeria do Victoria and Albert Museum» in Público, 29.11.2004).

Todos estaremos, porventura, de acordo que, se assim for, e considerando, especificamente, conjuntos habitacionais dedicados a pessoas socialmente desfavorecidas, fica claro que a promoção de habitação de interesse social, apoiada pelo Estado, pode e deve assumir um papel de relevo como ferramenta de apoio ao desenvolvimento pessoal, familiar e social dos habitantes e das respectivas vizinhanças e comunidades locais numa cidade redimida da falta de desenho e de outras qualidades que se vivem realmente, mas que tanto andaram esquecidas.


Fig. 03

Dos bairros do crime ao verdadeiro problema da habitação (título de um "velho" artigo no Infohabitar)
Relativamente aos nossos “maus” bairros sociais eles continuam a existir (escreveu-se aqui sobre eles há mais de quatro anos, num artigo sobre “os bairros do crime”), e volta aqui a apontar-se, com as mesmas palavras então usadas, que seria muito acertado realizar um estudo prático deste universo da nossa vergonha urbana e para ele tentar e aplicar, de forma expedita, as melhores receitas para lhes aumentar urgentemente a qualidade de vida e naturalmente lhes reduzir a insegurança e a intolerância. Tal estudo também ajudaria a não repetir os erros; e fica ainda uma reflexão urgente sobre quantos desses conjuntos têm dimensão excessiva, tipos de edifícios pouco adequados aos seus moradores, espaços públicos pouco acabados ou mesmo quase inexistentes, e deficientes condições de ligação à cidade, seja por reduzida continuidade urbana, seja por reduzido serviço de transportes públicos.

Sublinha-se, finalmente, e na sequência do que foi aqui apontado, que os caminhos do presente e do futuro na habitação de interesse social portuguesa se ligam a uma arquitectura das vizinhanças e das continuidades urbanas, centrada nos agrupamentos e quarteirões, em soluções que não têm condicionantes significativas em termos de custos, mas que têm, sim, claras exigências de qualidade arquitectónica, que dependem de um amplo aprofundamento tipológico que tem de garantir uma cidade coesa, variada e estimulante.


Fig. 04

Há que privilegiar, assim, soluções residenciais e urbanas que possam contribuir, quer para uma cidade melhor habitada, mais misturada e integrada de diferentes pessoas e actividades, e mais amigável, quer para uma habitação que sendo adequada e multifacetada seja também um pouco de cidade e uma habitação viva, que se estenda pelos exteriores e pelos outros espaços de uma cidade viva.

Talvez que o tema comum numa cidade mais viva e numa habitação com verdadeiro interesse social, e, portanto mais urbana e coesa, mas que não perca o sentido básico do abrigo, do sossego e da apropriação, e da convivialidade entre vários grupos socioculturais, seja uma caracterização humanizada do habitar, um habitar à pequena escala, um habitar das vizinhanças bem conjugadas, um habitar que tanto embebe a escala humana e bem amigável desse sossego, dessa protecção e dessa apropriação, como está disponível, mercê de simples e diversificadas associações, para participar activamente na construção das escalas maiores das vizinhanças mais alargadas, dos bairros e das partes de cidade.

E conclui-se com duas frases bem oportunas do arq. Luís Fernandez-Galiano: “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade”; e “a habitação... é um problema urbano, da civitas ou da polis, isto quer dizer, de cidadania e político.”



Fig. 05


Edição Infohabitar
Editado por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 17 de Maio de 2009

segunda-feira, maio 11, 2009

246 - AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO (APO): MONITORANDO A ARQUITETURA! - Infohabitar 246

Infohabitar, Ano V, n.º 246

AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO (APO): MONITORANDO A ARQUITETURA!
Marilice Costi

Nota prévia e informativa:
Antes de apresentar o artigo da semana no Infohabitar, anuncia-se a abertura das candidaturas para inscrição no Mestrado Interdisciplinar sobre Risco, Trauma e Sociedade, um Mestrado que oferece também um Diploma de Pós-Graduação para quem optar por fazer apenas o primeiro ano do Curso.
Os elementos informativos sobre esta acção, que é apoiada pelo Infohabitar, pois aborda matérias essenciais para um bom habitar e tem uma estrutura/conteúdo curricular de alto nível, encontram-se nesta edição da nossa revista, após o seu artigo semanal.

Edição da semana do Infohabitar

Novamente, depois de um intervalo de alguns meses, temos o gosto de publicar e de ler um artigo da Arq.ª Marilice Costi, um dos colaboradores iniciais do Infohabitar.

Neste artigo Marilice Costi fala-nos das raízes e da natureza da “avaliação pós-ocupação”, a APO, como processo de monitorização e, diria mesmo, de acompanhamento e retroacção do e com o projecto e a obra de arquitectura, tratando-se, assim, de um tema extremamente actual e importante, designadamente, numa perspectiva de aproximação entre o que se projecta, no habitar, e a própria satisfação com o habitar, matéria esta abordada no último artigo editado, na semana passada, nesta nossa revista e uma matéria que foi também já intensamente desenvolvida no LNEC, pelo seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, através de uma metodologia de análise retrospectiva habitacional multidisciplinar, aplicada, já, em três grandes “campanhas” e a um amplo leque de bairros e conjuntos de habitação de interesse social.


Marilice Costi vive e trabalha em Porto Alegre/RS – Brasil, é Arquitecta e Urbanista, Mestre em Arquitectura, Arteterapeuta e pesquisadora, dá cursos, é escritora e é directora de SANA ARTE LTDA, cujas amplas actividades são visíveis no portal http://www.sanaarquitetura.arq.br/ , tem diversos livros publicados e éditora-chefe da revista dos cuidadores: O CUIDADOR (http://www.ocuidador.com.br/).
Mantém, ainda o blog http://www.marilicecosti.blogspot.com/
A seguir à edição do artigo juntam-se as referências e o conteúdo do último número da revista O CUIDADOR.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

Desde já se refere que, na próxima semana o Infohabitar editará um outro excelente artigo de Marilice Costi, intitulado SALA DE AULA, ARQUITETURA, CORPO E APRENDIZAGEM

AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO (APO):
MONITORANDO A ARQUITETURA!
Marilice Costi (1)

Os arquitetos são muito criticados por não darem importância para pesquisas, não se interessarem muito por números, análises de gráficos e tabelas. Mas, muitos deles vêm fazendo pesquisas e, cada vez mais, um olhar mais amplo vem sendo difundido nas escolas de Arquitetura e Engenharia. Naquela para desenvolver mais a visão técnica e nesta para sensibilizar mais para o humanismo.

A disciplina Avaliação Pós-Ocupação vem sendo parte do currículo em várias universidades devido à sua importância e às exigências do mercado em relação à qualidade dos produtos criados por arquitetos e engenheiros. No Brasil, o Código de Direitos do Consumidor e a NBR 9050 demonstram que a sociedade está atenta e cônscia de seus direitos: os espaços têm que servir às necessidades humanas de conforto, economia, acessibilidade, segurança, funcionalidade, durabilidade, resistência, estética e outras mais. Todo ambiente criado seja aberto ou fechado, público ou privado, grande ou pequeno, tem que satisfazer a seus usuários.




Fig. 01: uma acção de divulgação da APO, com Marilice Costi

Uma APO é um tipo de avaliação retrospectiva feita em ambientes construídos após certo tempo de ocupação. Surgiu no período de 1940-50 nos EUA, quando, pela primeira vez, a opinião dos usuários passou a fazer parte de pesquisas exploratórias executadas por geógrafos e psicólogos. A partir daí, os antropólogos e os arquitetos passaram a estudar as relações ambiente-comportamento apropriando-se de métodos das áreas da Psicologia, da Geografia, da Antropologia, da Sociologia e da Engenharia.

Tal avaliação é adotada para diagnosticar e recomendar novos projetos. Feita de forma sistêmica e realimentadora, pode propor modificações e reformas no ambiente, pois aprofunda conhecimentos sobre ele. Sua aplicabilidade encontra campo tanto em edificações de porte quanto em pequenos prédios, tanto em interiores quanto em pequenos objetos. Feita por especialistas-avaliadores, ela é o estudo da performance do ambiente considerando-se a opinião de seus ocupantes. É o que a diferencia de Avaliações de Desempenho.

Uma APO serve para aferir erros e acer­tos para que se possa monitorar a qualidade. Utiliza-se métodos ou multimétodos, avaliações rigorosas e siste­máticas, tanto em ambientes internos quanto em externos. Para faze-la, é necessário conhecer o ser humano e suas fases de vida, seu comportamento ambiental, como ele se apropria dos espaços, como marca território, como faz interferências, como adapta os locais às suas necessidades.

As etapas de uma APO podem ser análogas às do trabalho médico: a anamnese, para que se compreenda o problema; a investigação, para ampliar o conhecimento para dar diagnóstico seguro; o tratamento, que resulta em recomendações para projeto e para a obra; o prognóstico, para futuro acompanhamento e as orientações para administração ou manutenção.

E cada caso é um caso. Os espaços criados são como os seres vivos: têm vida útil. Nascem em determinado período histórico, vivem e, se não forem cuidados e revitalizados, degradam e morrem. O que dá maior vida útil a um prédio é a sua importância para as pessoas: se existiu vivência, história, vínculos de afeto com o lugar; quando a memória é viva; quando ainda existe o espírito do lugar (genius loci), mais possibilidade dele ser preservado. Estão aí os prédios históricos, os conjuntos urbanos, onde se encontra o imaginário dos cidadãos.

O valor dado aos espaços, é fundamental para que a vida da edificação se expanda.

Em área urbana degradada, uma APO possibilita que se compreenda os motivos de sua degradação. Para revitalizar, é preciso entender melhor como e quem a ocupará. Se o projeto não for feito de acordo com as necessidades da comunidade e com as técnicas adequadas ao tipo de usuário, nascerá morto.

Este tipo de pesquisa ambiental é elaborada através de métodos quantitativos e qualitativos para investigar, tanto os processos projetual e construtivo, quanto o uso e a ocupação do bem. A questão social e o comportamento dos usuários são estudados, pois satisfazer o cliente é a meta de todo profissional. Mas para realimentar o processo projetual e qualificar a arquitetura, é preciso saber até que ponto a empresa pode, quer ou deve investir. Mas como saber se o resultado foi adequado? Como descobrir? O que e como fazer? Há algo para acrescentar em projetos similares, um diferencial para auxiliar nas vendas? Ganhar da concorrência? Qual o índice de satisfação dos usuários?

Tanto em interiores como em áreas urbanas, além de entrevistas, questionários e visita exploratória, pode-se utilizar mapas mentais ou cognitivos. Também o uso de instrumentos de medição podem facilitar a análise dos espaços em relação aos confortos lumínico, térmico e acústico. Pode-se verificar se existe sustentabilidade, se há conservação de energia, se o manejo do sistema de ventilação, das esquadrias e do condicionamento do ar é adequado.

Desempenho dos materiais, segurança, funcionalidade, ergometria, acessibilidade, estética e imageabilidade, estrutura organizacional e economia são outros itens que podem ser estudados.

Todo dado coletado é precioso: a história da edificação, a legislação, os materiais e as técnicas construtivas empregadas (se existem patologias), a forma de ocupação, o tipo de uso e de usuário, a proposta do arquiteto e o existente. A organização dos dados coletados possibilitará a interpretação e a análise. Pode acontecer que, havendo resultados fundamentados, até se possa propor alterações na legislação.

Conhecer o envolvimento do usuário com os espaços democratiza as decisões de projeto, pois o homem é a parte dinâmica nos ambiente: é quem interfere destruindo ou qualificando. E é para ele que se faz arquitetura, não para servir ao ego dos profissionais. Habitabilidade e estética são desafios para o arquiteto que precisa sempre estar se atualizando e reconhecendo as mudanças sociais e culturais.

Se existe problema, com a Avaliação Pós-Ocupação, saber-se-á qual é e onde ele está, suas causas. Trazê-lo à tona, é iniciar o caminho para a solução. E se existe satisfação, é importante valorizar os profissionais ou a empresa envolvidos, dando material ao marketing.

Pesquisas são investimentos que podem gerar credibilidade. Nesse processo globalizante e competitivo, uma Avaliação Pós-Ocupação só tem a acrescentar, pois pode apontar novos caminhos, direcionar metas, reavaliar investimentos, reduzir custos.

Para fazer uma Avaliação Pós-Ocupação é preciso aprender a técnica de pesquisa científica (conhecimento teórico e experiência em métodos de investigação), desenvolver a crítica e a autocrítica da arquitetura, ser ético, saber das necessidades humanas espaciais, desenvolver a percepção em relação ao usuário e ao ambiente, conhecer o desempenho dos ambientes em função do envelope, obter maior compreensão dos espaços no detalhe e no todo – um olhar holístico. E trabalhar com múltiplas variáveis e em equipe. O resultado final será a possibilidade de compreender e projetar um espaço mais qualitativo, aquele que o ser humano pode usufruir adaptando-o minimamente durante toda a vida.

(1) Marilice Costi é professora universitária, mestre em Arquitetura na área de Economia e Habitabilidade, pesquisadora autônoma, pós-graduada em Arteterapia, escritora, oficineira, poetisa, criadora da Oficina de Poesia: A linguagem do poeta e a síntese interior. Diversos prêmios em literatura, livros publicados, membro da Academia Literária Feminina do RS, colaboradora (Info-IAB-RS e CONSUMIDOR-RS).



Em seguida, faz-se a apresentação sumária da revista "O Cuidador"






Fig. 02: capa do último número da revista O CUIDADOR

O CUIDADOR
a revista dos cuidadores
Ano I - nº3



EDITORIAL

Em toda situação de cuidado, é o cuidador que carrega a responsabilidade sobre o outro. O que é um cuidador?

Há os familiares cuidadores – que colam suas dores ao ato de cuidar dos seus
e junto podem carregar sentimentos negativos que também os fazem adoecer – e os cuidadores institucionais, profissionais do cuidar, que atuam nas relações de ajuda geralmente por talento ou escolha.

Além disto, amigos ou outras pessoas também cuidam.

Todos precisam se esvaziar do sofrimento que acolhem dos outros. Dores que são um mundo.

Olhar para o outro não significa que, por compaixão, tomemos aquela dor para nós. Para os mais sensíveis, é difícil não se sentirem parte da humanidade que sofre.

Perdas no dia-a-dia e em todo lugar, em todos os noticiários, que poderiam ser menores.

A verdade das coisas se completa com vários olhares.

Muitas pessoas não acolhem, não partilham, não são solidárias, não têm empatia, não se importam com a dor do outro. Algumas até usam os que dela precisam em benefício próprio.

Afirmam alguns cientistas, que isso vem carimbado nas mentes. Talvez.
Mas é sabido que viver em ambientes solidários estimula o aprendizado do cuidado.(...)

Informar o cuidador é fundamental. Nosso objetivo na escolha dos temas da revista.E sempre trazer a arte para que a mente descanse e descubra a beleza do criar.
Não foi para isto que fomos feitos?
Marilice Costieditora-chefe

SUMÁRIO de O CUIDADOR - Ano I - nº3
A FALA dos CUIDADORESGUERREIRAS EM UTI NEONATAL - Gabriela Nunes Cordeiro Gomes MouraUM CUIDADOR NO ABSURDO - Varda Dascal (de Israel)ARTETERAPIA PARA MILITARES - Eliane BarretoINTERDIÇÃO: UM CUIDADO IMPORTANTE - Cibele Gralha Mateus/Vanessa SchutzDEVERIA SER PROIBIDO - Diza GonzagaA CORAGEM E O MEDO DE UMA CUIDADORA - Inácia Regina BairrosQUANDO O AJUDAR É ANULAR-SE - Codependentes AnônimosA FUNÇÃO DO SILÊNCIO - Roseli Margareta Kühnrich de OliveiraCOLUNA - Luis Veiga Leitão (Portugal)

editora@ocuidador.com.br
PEDIDOS DE ASSINATURA - assinatura@ocuidador.com.br
51 30287667 - Porto Alegre/RS, Assinatura anual R$ 120,00 - (edição bimestral)



Divulgação do Mestrado Interdisciplinar sobre Risco, Trauma e Sociedade

Exmos. Senhores,Venho informar que se encontram agora abertas as candidaturas para inscrição no Mestrado Interdisciplinar sobre Risco, Trauma e Sociedade, um Mestrado que oferece também um Diploma de Pós-Graduação para quem optar por fazer apenas o primeiro ano do Curso,
Prof. Manuel João Ramos
Departamento de Antropologia, ISCTE, Av. Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal, tel: +351 217 903 011


Fig. 03: Mestrado Interdisciplinar sobre Risco, Trauma e Sociedade

Mestrado Interdisciplinar em Risco,Trauma e Sociedade

O Curso de Mestrado Interdisciplinar em Risco, Trauma e Sociedade oferece conhecimentos especializados sobre diversos riscos e suas consequências traumáticas nas sociedades humanas, e possibilita o estudo aprofundado em novos dominios de investigação transdisciplinar universitária.

Reúne docentes e estudantes de diversas formações, com o objectivo de desenvolver o cruzamento dos saberes promovidos pelas ciências sociais e pelas ciências de saúde, e potenciar respostas eficazes aos riscos e traumas que afectam as sociedades actuais.

O curso promove não apenas o estudo de problemas teóricos em várias especialidades, e a problematização das fronteiras entre áreas disciplinares, mas também o fortalecimento de laços entre a investigação fundamental e os imperativos da resposta profissionalizada nos domínios do risco e do trauma.

Coordenação Científica
Professor Doutor António Pedro Dores
Professor Doutor Manuel João Ramos

Comissão de Mestrado
Professor Doutor António Pedro Dores
Professor Doutor Manuel João Ramos
Dra. Filomena Araújo
Dr. Pedro Moniz Pereira

Condições de acesso

As condições de acesso ao curso exigem a titularidade de uma licenciatura ou equivalente legal, ou a titularidade de um grau académico superior estrangeiro reconhecido e satisfazendo os objectivos do grau de licenciado pelo Conselho Cientifico do ISCTE. Será dada preferencia aos titulares de licenciaturas em ciências sociais e em ciências da saúde, sendo recomendável um conhecimento adequado de inglês e francês.

Corpo Docente

Reúne docentes e estudantes de diversas formações, com o objectivo de desenvolver o cruzamento dos saberes promovidos pelas ciências sociais e pelas ciências de saúde, e potenciar respostas eficazes aos riscos e traumas que afectam as sociedades actuais.

As candidaturas serão apresentadas no Secretariado do Departamento de Antropologia do ISCTE, através de processo constando de: boletim de candidatura preenchido e assinado pelo próprio, certidão de licenciatura, incluindo a média final, curriculum vitae, incluindo cópias de dois trabalhos da licenciatura ou, alternativamente, cópia de dissertação de licenciatura ou de trabalhos publicados, uma carta de intenção ate 3 páginas explicitando as motivações para frequentar
o curso, e uma fotografia.

Calendário

Candidaturas:
1ª fase - de 4 de Maio a 14 de Julho de 2009
2ª fase - de 17 de Agosto a 4 de Setembro de 2009.

Matriculas: 14 a 18 de Setembro de 2009 (na secção de Mestrados)
Inicio das aulas: 21 de Setembro de 2009

1º Ano

1º Semestre
Antropologia da vlolêncla
Trauma e comportamento social: stress, memória e identidade
Métodos e técnlcas em ciênclas sociais

2.° Semestre
Antropologia da saúde
Gestão social do risco e do trauma
Risco e trauma: vertentes epidemiológicas e médicas

2º Ano

1º Semestre
Seminário de investigação
Produção de dissertação em Risco, Trauma e Sociedade - fase 1
1ª Optativa
2ª Optativa

2º Semestre
Produção de dissertação em Risco, Trauma e Sociedade - fase 2

O Boletim de candidatura pode ser descarregado a partir do site do Mestrado.
Para mais informações, consultar: http://mrts.da.iscte.pt/ ou contactar o secretariado do Departamento de Antropologia do ISCTE: ISCTE, Av. Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, tel: (+351)217903011, fax: (+351)217903012, email: secreatariado.da@iscte.pt , manuel.ramos@iscte.pthttp://iscte.pt/~mjsr/

segunda-feira, maio 04, 2009

245 - Qualidade arquitectónica e satisfação residencial II - Infohabitar 245

Infohabitar, Ano V, n.º 245

Qualidade arquitectónica e satisfação residencial II
António Baptista Coelho

Índice:Parte I
. Entre qualidade arquitectónica e satisfação
. Rumos de estudo da qualidade arquitectónica residencial
. As avaliações pós-ocupação habitacionais
Parte II
. O objectivo é a vida e o sítio estratégico é a cidade
. Um espaço urbano e habitacional convidativo
. Notas finais

. Notas bibliográficas


Nota: na semana anterior foi editada e está disponível a parte I deste artigo
O objectivo é a vida e o sítio estratégico é a cidade

Como se viu há que profundar a matéria disciplinar da arquitectura – o tal leque qualitativo -, enquanto, através da pós-ocupação se vai melhorando o conhecimento sobre o que mais satisfaz em termos residenciais. Mas vamos fazer tudo isto com que objectivo básico?

O que se pretende é proporcionar a gradual constituição de arquitecturas habitacionais simultaneamente bem qualificadas na sua arquitectura e bem vivas e amadas pelos seus habitantes. Como diz Oscar Niemeyer: “não é a arquitectura que vai mudar a vida, a vida é que pode mudar a arquitectura” (das “Conversas de Amigos” entre e José Carlos Süssekind).

E tudo se liga à necessidade de não repetir mais, os mesmos erros, já os repetimos vezes sem conta. E para isso é essencial estabelecer consensos básicos e redefinir um conceito de arquitectura claramente aberto e sensível à vida e ao mundo.




Fig. 11

Yves Lyon, arqº ligado à escola de arquitectura de Marne-la-Vallee, designada, bem a propósito, “da cidade e dos territórios”, refere que “depois do período dos grandes projectos há que assumir a arquitectura como abertura ao mundo, desenvolvendo-se as valências do saber ver o real e do adequado conhecimento do concreto numa clara abertura à vida, bem distinta de clausuras disciplinares.”

Lyon defende “uma nova actividade de arquitecto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objectos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades frequentemente antagonistas entre si.”

Afinal, e como também diz o Arqº Manuel Salgado, parece que “já não faz sentido continuar a olhar para a cidade à luz dos mesmos padrões com que nós os arquitectos fomos formados”; hoje em dia “desenhar a cidade é antes de mais saber lê-la”.

E é neste processo empenhado e consistente, que há lugar cativo para o sensível “diálogo” com o nível mais profundo dos aspectos que baseiam a concepção arquitectónica.

Aqui, como refere Klas Tham, têm lugar próprio as ricas temáticas do exótico e do desconhecido, da complexidade, do cromatismo, da luz, dos ritmos, das grandes proporções, dos signos e símbolos, da geometria e do contacto com a natureza. Aqui acontece o mergulho disciplinar profundo naquilo que move a concepção arquitectónica.

Mas atenção, não são estas últimas as qualidades que integram a desejada plataforma de acordo entre projectistas e habitantes; há, sem dúvida grandes zonas de sobreposição, mas, e só para dar um exemplo, a capacidade de atracção pode ou não existir num dado edifício residencial, não se estando a entrar na apreciação formal desse edifício. Ficamos aquém de tal apreciação, construindo plataformas de qualidade arquitectónica residencial que visem uma habitação bem qualificada e viva, mas que proporcionem sempre ao arquitecto uma ampla margem para a interpretação e o moldar da realidade.




Fig. 12

Recordemos agora a ideia-base: “a vida pode mudar a arquitectura”. Tal exige que a arquitectura seja sensível à vida, aberta ao mundo, e que seja construtora da “casa dos homens”, defendida pelo Arquitecto e Prémio Valmor Duarte Nuno Simões. Uma arquitectura que garanta uma aproximação qualitativa, disciplinar e global, arquitectónica no sentido estrito do termo, mas também percebida e aceite pelos habitantes.

Lança-se, agora, neste artigo um último tema estruturante na procura de uma qualidade arquitectónica residencial, fundamentada e percebida. Saliento, assim, que uma excelente solução de edifício residencial se anula, quando não se integra numa excelente solução urbana. Até aqui todos de acordo, julga-se. No entanto será que projectistas e habitantes têm em mente as mesmas boas soluções urbanas?

O Centre Scientifique et Technique du Bâtiment mostrou a habitantes muitas dezenas de imagens claramente associáveis a diversos ambientes urbanizados, e a imagem paradigma que os habitantes associaram, mais frequentemente, a um ambiente urbano foi uma pequena rua orgânica, ladeada de pequenas casas e muros e fortemente pontuada pela vegetação. Será que é esse o meio urbano super-humanizado onde muitos desejam viver?

Não se defende, naturalmente, a via única da “cidade verde”, mas sim a da cidade humana. Defende-se, sim, que, se queremos ter soluções residenciais vitalizadas e bem qualificadas, é urgente estabelecer plataformas de acordo entre projectistas e habitantes, pelo menos, ao nível urbano, e, assim, temos de procurar perceber e assegurar as linhas de força de um tal espaço urbano, que poderá ser designado como super-humanizado.

Uma dessas linhas de força refere-se ao desenvolvimento de uma caracterização residencial marcada: ambientalmente, pela escala humana, pelo verde suavizador e apropriável e por discretos elementos de identificação; marcada funcionalmente, pela expressiva presença do peão e pela dominância do carácter residencial; e marcada afectivamente, pelo sossego e por uma envolvência protectora, ligada à proximidade das portas das casas juntas em pequenos grupos.

Outra das linhas de força de um tal espaço urbano super-humanizado passa pela garantia de uma vizinhança exterior muito positivamente qualificada, que proporcione um ambiente de expansão protegida do ambiente doméstico, de identificação com o “sítio” e de ligação estratégica com a cidade, porto seguro no combate contra o anonimato e a massificação e ligado à cuidada gestão de cada metro quadrado de exterior.

Como diz John Ruble, “o mais importante valor de uma casa reflecte-se no uso pleno do sítio e das suas adjacências para criar um ambiente de vida; cada aspecto do planeamento de pormenor do local - vistas, jardins, a localização do jogo e do recreio, a sequência de chegada - acrescenta uma dimensão vital à vivência e contribui para o sucesso ou fracasso da criação de um sítio de comunidade”.




Fig. 13

Outra das linhas de força de um espaço urbano residencial super-humanizado é um urbanismo baseado em ricas sequências urbanas motivadoras do “deambular sem destino definido ao longo das avenidas e das ruas até ao coração dos quarteirões, redescobrindo-se o prazer tipicamente urbano do passeante que erra, que encontra um sítio desconhecido, que se deixa surpreender por pracetas intimistas, pela diversidade da pormenorização e, de repente, pela animação de uma grande avenida”.

Outra linha de estudos a desenvolver refere-se à melhoria das ferramentas de avaliação pós-ocupação e designadamente as ligadas à capacidade de observação.

Aqui salienta-se que tudo começa pelo olhar, por uma observação sistemática e exaustiva, ao serviço de objectivos e integrando um processo de análise completo. Olhar e registar: situações físicas problemáticas ou inseguras, elementos incoerentes, más influências mútuas, ausências, excessiva complexidade, sinais de vandalismo, situações de negligência e de abandono, locais não usados, etc., etc – mas, também, todos aqueles aspectos que possam ser positivamente potenciados; tudo há que registar.

Nesta matéria é essencial o aprofundamento da multidisciplinaridade. Dos engenheiros com diversas especializações aos filósofos, dos pediatras aos juristas, muitas profissões e novas especializações tratam, cada vez, mais estes temas, sendo urgente propor plataformas de conciliação e participação entre todas as disciplinas ligadas ao habitar.

Outra tendência de trabalho refere-se ao privilegiar um aprofundamento disciplinar na área do habitar, que sirva quem habita e que valorize o património urbano, prestando-se um duplo serviço à comunidade. E nesta matéria há que ter a humildade de o fazer como acto de gradual contribuição para o bem-estar e para a riqueza patrimonial da comunidade, mas considerando-se o importante papel que tem um tal aprofundamento nos domínios da ecologia humana e urbana.

Ainda outra tendência de trabalho refere-se à dinamização e ao enquadramento da concepção arquitectónica através de um diálogo técnico com o projectista; diálogo exigente e que abranja desde a fase inicial da concepção até ao acompanhamento da casa habitada. Os regulamentos e as normas não chegam, é necessário criar mecanismos afinados e flexíveis para enquadramento e análise dos projectos, tais como: políticas locais específicas visando a qualidade da arquitectura, Programas de Qualidade pormenorizados, processos de grande rigor e exigência na escolha dos projectistas, e acções encadeadas de projecto, análise e diálogo técnico.




Fig. 14

Ainda outra tendência de trabalho refere-se à desejável pequena dimensão das intervenções habitacionais. Como diz Charles Moore “temos que desenvolver a energia e o conhecimento necessários para aplicar em grandes conjuntos urbanos a qualidade que conseguimos assegurar isoladamente, ou em pequenos grupos; o que é naturalmente muito difícil”. Julgo mesmo que será quase impossível ultrapassar certos limites quantitativos e de concentração e continuar a ter um mínimo que seja de qualidade residencial.

Uma última tendência de trabalho para o aprofundamento da qualidade arquitectónica e da satisfação de quem habita decorre exactamente dessa estratégica afirmação de Moore sobre a necessidade de se aprender a fazer numa escala maior aquilo que já se sabe fazer no edifício residencial. Talvez baste, como diz o Arqº Manuel Salgado, “cozer e cerzir malhas diferentes, procurar ligar partes dando-lhes um sentido e tornando-as mais visíveis”. Trata-se, afinal, de fazer, quando estritamente necessário, uma escala maior, com base num urbanismo de pormenor bem humanizado, com elementos unificados por um espaço público culturalmente enriquecedor, atraente, funcional, bem equipado e vivo.

Cada vez mais julgo que nem é só na passagem da pequena escala urbana para a maior escala urbana que se detectam frequentemente muitos problemas, mas é também, por exemplo, na simples passagem da escala da moradia para a do edifício multifamiliar que surgem, frequentemente, falhas ou deficiências de concepção, na abrangência de consideração, de interpretação e de pormenorização dos vários aspectos de desenho e de serviço a quem habita.

Mas esta crítica mas fundamental passagem de escala, é fulcral no salto entre edifício e espaço urbano, e fulcral quer pela dificuldade que caracteriza este passo, em termos de vectores de projecto, quer porque é na pequena escala bem pormenorizada da sempre grande escala urbana que se tem de actuar, hoje em dia, em termos de tipologias de habitar que possam responder a muitos dos desafios actuais.

Afinal, tal como diz Jörg Kirschenmann (na introdução ao seu livro “Habitação e espaço público”): “habitar sem espaço exterior, viver sem espaço público é uma visão ameaçadora e infelizmente muito actual ... existe o perigo de que a cidade seja, cada vez mais, constituída por espaços interiores que cubram todas as necessidades e exigências designadamente através de meios de comunicação”. E termina referindo que há que privilegiar “projectos residenciais em que o carácter arquitectónico e social do exterior esteja em primeiro plano”.




Fig. 15

Para respeitar tal perspectiva há que encarar o espaço exterior residencial com tanta atenção como aquela que dedicamos aos seus edifícios, embora considerando características específicas de escala e de uso. E importa salientar, tal como diz Yves Lyon, “que quando se destaca o tema do espaço público encontramos virtudes, energias e motivos fundadores, ideias de civilização, ideias de colectivo. É tempo do colectivo voltar. O combate para reencontrar uma consciência colectiva parece ser mais importante que o da ortodoxia urbana e do respeito pelas grandes tradições”.

E chegamos, assim, à última parte desta intervenção que, quer fazer sublinhar a importância que tem para a satisfação dos habitantes e para a qualidade arquitectónica o desenvolvimento de um espaço habitacional diversificado, que seja também um espaço urbano convidativo.

Um espaço urbano e habitacional convidativo

Lembremos que estudar a habitação é estudar a cidade e o modo como fazer cidade viva pois, como diz Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e a “cidade sem habitação não faz sentido...” (5)

Os modos de vida mudaram e diversificaram-se, é portanto necessário flexibilizar a oferta de soluções urbanas e residenciais e assumir cada vez mais a habitação como vários espaços de habitar: dos interiores apropriados às ruas e pracetas citadinas agradavelmente animadas.

E nas ruas e pracetas citadinas, que bordejam os nossos diversificados edifícios de habitação é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, como defende Jan Gehl, enquanto antigamente uma casa cheia de gente era uma pequena cidade, hoje em dia os que vivem sós, ou em pequenos grupos, precisam da vida urbana para viverem com diversidade e estímulo.

E quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.

São, por exemplo, os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que se tornam verdadeiros prolongamentos das nossas casas, e também todo um leque de outros equipamentos de proximidade e de acessibilidade que tornam a cidade circunvizinha mais habitável e amigável. Uma cidade de vizinhanças caracterizadas por imagens enriquecidas por uma estimulante diversidade de soluções habitacionais, que correspondam a necessidades e gostos específicos, bem como a diversos objectivos urbanos.

E para podermos gozar espaços urbanos motivadores importa não esquecer o sentido lúdico que deve marcar as conjugações de acessos a habitações, equipamentos e espaços urbanos, sendo o predomínio estratégico do peão em espaços mais segmentados e variados a condição para uma cidade mais viva e amiga do habitante. A introdução ou a reintrodução de habitação deve ser, assim, aliada à vitalização e qualificação urbana pormenorizadas, ganhando-se, simultaneamente, melhores espaços de habitar e de cidade – um habitar mais vivo e uma cidade mais habitada.

Actuar desta forma exige, como se referiu, uma arquitectura urbana pormenorizada, caracterizada por uma pequena escala civicamente enriquecedora e muito humana, sem repetições de soluções e com intervenções feitas para cada sítio e marcadas pela qualidade arquitectónica.

Uma reflexão bem referida à afirmação de Fernandez Galiano sobre já não se fazer arquitectura no interior da habitação, mas essencialmente nas soluções de relação com o exterior, na formação de edifícios e no reflectir da aplicação de novas técnicas.

O objectivo urgente é fazer uma cidade bem desenhada, que seja também claramente amigável e, portanto, humanizada. Uma cidade de que nos orgulhemos pela sua valia cultural, mas também uma cidade onde aconteçam coisas e onde “de vez em quando” apeteça ir “por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios…”, tal como escreveu Daniel Filipe (6). Uma cidade culta e amigável depende de soluções integradas que maximizem as vantagens de dois mundos: o urbano e o doméstico; exterior e o interior; em vizinhanças que conjuguem as nossas casas com os cenários vivos da nossa cidade e com a paisagem; em soluções feitas especificamente para cada situação, adaptáveis a diversos hábitos e bem identificáveis e envolventes.




Fig. 16

Uma vida citadina densa e animada é triplamente importante: seja na oferta de ambientes socioculturais estimulantes e que não existem, infelizmente, em muitas famílias; seja para complementar a vida doméstica solitária de tantas pessoas, e somos cada vez mais aqueles que vivem sós; seja para se proporcionar um verdadeiro suplemento de alma, convivial e estimulante ao habitar urbano. Mas para criar uma verdadeira vida pública, tal como defende Jan Gehl (7), há que privilegiar o verdadeiro estar prolongado em ruas, pracetas e galerias.

E na sociedade actual, marcada pelo egoísmo e pelo isolamento individual, mais do que nunca precisamos de uma cidade amigável e generosa, que se oponha à banalização do espaço urbano e à monótona repetição de soluções sem carácter. E é grande a importância deste amplo sentido urbano e humanizado de habitar quando os habitantes são pessoas com deficientes condições socioculturais e económicas, que assim passam a ter a possibilidade de se integrarem numa intensa e contínua vida urbana. E num recente estudo espanhol sobre a habitação de interesse social (8) sublinha-se a importância das “propostas que melhor se adaptam à sua localização na cidade, às suas características de morfologia urbana e que introduzem melhorias nas respectivas envolventes”, num aprofundamento dos valores de proximidade, que tudo tem a ver com uma cidade mais amigável.

Uma cidade mais generosa e humanizada tem de ser também sítio de uma intensa mistura de actividades e ambientes, que nada tem a ver com o “velho” zonamento da cidade moderna, e servida por um urbanismo multisensorial, verdadeiramente lúdico, marcado pela diversidade de sequências e imagens urbanas pormenorizadas, condição essencial na vivência de uma cidade da proximidade, da surpresa, da identidade e da escala humana; usaram-se noções dos arquitectos François Ascher (9).

Em todas estas matérias nunca é demais salientar a importância de se aprofundar a diversidade, mas também a coesão e a coerência dos meios urbanos, pois, afinal e tal como refere o arq. Herman Hertzberger, nas suas Lições de Arquitectura (10), é fundamental fazer “de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme” – e esta ideia de criação de muitos lugares bem interligados é fundamental numa cidade coesa e humanizada.

Notas finais

Talvez que o tema comum numa cidade mais viva e numa habitação com verdadeiro interesse social, e, portanto mais urbana e coesa, mas que não perca o sentido básico do abrigo, do sossego e da apropriação, e da convivialidade entre vários grupos socioculturais, seja uma caracterização humanizada do habitar, um habitar à pequena escala, um habitar de vizinhanças bem conjugadas, um habitar que tanto embebe a escala humana e bem amigável desse sossego, dessa protecção e dessa apropriação, como está disponível, mercê de simples e diversificadas associações, para participar activamente na construção das escalas maiores das vizinhanças mais alargadas, dos bairros e das partes de cidade.

E em tudo isto não tenhamos qualquer dúvida que humanizar implica pensar bem para lá dos aspectos quantitativos, e pensar Arquitectura ao mesmo tempo que pensamos um habitar intenso e naturalmente adaptativo.

Disse Burle Marx (11), que existem “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída” e que “além das implicações decorrentes das exigências económicas”, não podemos esquecer de que “a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia a sua razão de ser.”

Está na nossa mão harmonizar estas duas paisagens, criando uma cidade bem habitada, amigável e culturalmente valiosa, e não tenhamos dúvida que uma tal cidade se tem de fazer por acrescentos parcelares e teimosos de novas vizinhanças convidativas e bem desenhadas.

Notas bibliográficas

(1) Leonardo BENEVOLO e Benno ALBRETCH, As Origens da Arquitectura, Lisboa, Edições 70,2004 (2002), pp.10-13.
(2) António Baptista COELHO, Qualidade arquitectónica residencial: rumos e factores de análise, Lisboa, LNEC, ITA 8, 2000.
(3) António Baptista COELHO, Habitação humanizada – uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória 836, 2007.
(4) António Baptista COELHO, Instituto Nacional de Habitação, 1984 – 2004: 20 anos a promover a construção de habitação social, Lisboa, INH, LNEC, 2006.
(5) Manuel Correia FERNANDES, «Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos» in Encontros AAP Habitação, 1.º Encontro: fazer cidade com habitação, Lisboa, Sede Nacional da AAP, 8 de Maio de 1998, p. 1.
(6) Daniel Filipe, Discurso sobre a cidade, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1956), p.51e p.70.
(7) Jan GEHL,«A Changing Street Life in a Changing Society» in http://repositories.cdlib.org/ced/places/vol6/iss1/JanGehl/, consultado em 13.02.2009.
(8) Josep Maria MONTANER e Zaida Muxí MARTÌNEZ (dir.), Habitar el presente, Vivienda en España: sociedad, ciudad, tecnologia y recursos, Madrid, Ministerio de Vivienda, 2006, p. 32.
(9) François ASCHER, Les nouveaux principes de l’urbanisme, La Tour d’Aigues, Éditions de l’Aube, 2004 (2001), pp. 94 e 95.
(10) Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, São Paulo, Martins Fontes, 1996 (1991),p.193.
(11) Jacques LEENHARDT (entrevistador), Nos Jardins de Burle Marx, São Paulo, Editora Perspectiva, 2000 (1994), pp. 62 e 47.

Edição Infohabitar, 3 de Maio de 2009
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Edição de José Baptista Coelho