quarta-feira, março 09, 2022

Qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional “I” (versão de trabalho) – Infohabitar # 807

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Qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional I” (versão de trabalho) – Infohabitar # 807 

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 807  

Edição: quarta-feira, 09 de março de 2022

Nova série editorial sobre Habitação Intergeracional Adaptável – iii 

 

Caros leitores da Infohabitar,

A nossa revista está a editar uma nova série de artigos, que avançam, exploratoriamente, na matéria da Habitação Intergeracional Adaptável e Cooperativa, na sequência de alguns artigos introdutórios à temática de investigação intitulada Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C), já aqui editados há algum tempo; mas agora tratando de avançar no tema, numa perspetiva de trabalho de investigação em desenvolvimento – e daí o título do artigo “versão de trabalho” – , mas que dará, espera-se, para poder divulgar e discutir matérias tão interessantes como urgentes.

Lembra-se, agora especialmente a propósito, que serão muito bem-vindos os comentários e novas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de muita força e saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

Lisboa, em 09 de março de 2022

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional I” (versão de trabalho) – Infohabitar # 807

texto geral de António Baptista Coelho, a propósito das ideias, textos e opiniões dos numerosos autores que são registados ao longo do texto

 

Notas introdutórias ao novo conjunto de artigos sobre habitação integeracional

O presente artigo inclui-se numa série editorial dedicada a uma reflexão temática exploratória, que integra a fase preliminar e “de trabalho”, dedicada à preparação e estruturação de um amplo processo de investigação teórico-prático, intitulado Programa de Habitação Aadaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); programa/estudo este que está a ser desenvolvido, pelo autor destes artigos, no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e que integra o Programa de Investigação e Inovação (P2I) do LNEC, sublinhando-se que as opiniões expressas nestes artigos são, apenas, dos seus autores – o autor dos artigos e promotor do PHAI3C e os numerosos autores citados no texto.

Neste sentido salienta-se o papel visado para o presente artigo e para os que lhe darão continuidade, no sentido de se proporcionar uma divulgação que possa resultar numa desejável e construtiva discussão alargada sobre estas muito urgentes e exigentes matérias da habitação mais adequada para idosos e pessoas fragilizadas.

Nesta perspetiva e tendo-se em conta a fase preliminar e de trabalho da referida investigação, salienta-se que a forma e a extensão do texto que é apresentado no artigo reflete uma assumida apresentação comentada, minimamente estruturada, de opiniões e resultados de múltiplas pesquisas, de muitos autores, escolhidos pela sua perspetiva temática focada e por corresponderem a estudos razoavelmente recentes; forma esta que fica patente no significativo número de citações – salientadas em itálico –, algumas delas longas e incluídas na língua original.

Julga-se que não se poderia atuar de forma diversa quando se pretende, como é o caso, chegar, cuidadosamente, a resultados teórico-práticos funcionais e aplicáveis na prática, e não apenas a uma reflexão pessoal sobre uma matéria bem complexa como é a habitação intergeracional adaptável desenvolvida por uma cooperativa a custos controlados e em parte dedicada a pessoas fragilizadas.

 

Nota introdutória à temática do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C)

Considerando-se o atual quadro demográfico e habitacional muito crítico, no que se refere ao crescimento do número das pessoas idosas e muito idosas, a viverem sozinhas e com frequentes necessidades de apoio, a actual diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais, e a quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos, foi ponderada o que se julga ser a oportunidade do estudo e da caracterização de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais necessidades e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C).

O PHAI3C visa o estudo e a proposta de soluções urbanas e residenciais vocacionadas para a convivência intergeracional, adaptáveis a diversos modos de vida, adequadas para pessoas com eventuais fragilidade físicas e mentais, mas sem qualquer tipo de estigma institucional e de idadismo, funcionalmente mistas e com presença urbana estimulante. O PHAI3C irá procurar identificar e caracterizar tipos de soluções adequadas e sensíveis a uma integração habitacional e intergeracional dos mais frágeis num quadro urbano claramente positivo e em soluções edificadas que possam dar resposta, também, a outras novas e urgentes necessidades habitacionais (ex., jovens e pessoas sós), num quadro residencial marcado por uma gestão participada e eficaz, pela convivialidade espontânea e social e financeiramente sustentável.

Trata-se, tal como se aponta no título do artigo, de uma “versão de trabalho” e, portanto, a um artigo cujos conteúdos poderão ainda ser substancialmente revistos até se atingir uma versão estabilizada da temática referida no título; no entanto, em virtude da metodologia usada, que se considera bastante sólida, marcada pelo recurso a abundantes referências de fontes, devidamente apontadas e sistematicamente comentadas no sentido da respetiva aplicação ao PHAI3C, e tendo-se em conta a utilidade de se poder colocar à discussão os muitos aspetos registados no sentido da sua possível aplicação prática no PHAI3C, considerou-se ser interessante a divulgação desta temática/problemática nesta fase de “versão de trabalho”, que, no entanto, foi já razoavelmente clarificada – como exemplo do posterior tratamento para passagem a uma versão mais estável teremos, provavelmente, referências bibliográficas mais reduzidas e boa parte delas em português, assim como comentários mais desenvolvidos; mas mesmo este desenvolvimento irá sendo influenciado pelo(s) caminho(s) concreto(s) tomado(s) pelos diversos temas e artigos que integram, desde já, a estrutura pensada para o designado documento-base do PHAI3C, que surgirá, em boa parte, da ligação razoavelmente sequencial entre os diversos temas abordados em variados artigos.

Ainda um outro aspeto que se sublinha marcar, desde o início, o teor do referido documento-base do PHAI3C (a partir do qual serão gerados vários documentos específicos: mais de enquadramento e mais práticos) é o sentido teórico-prático que privilegia uma abordagem mais integrada e exemplificada da temática global da habitação intergeracional adaptável e cooperativa, apontando-se exemplos e ideias concretas logo desde as partes mais de enquadramento da abordagem da temática como as que se desenvolvem neste artigo.

Finalmente, solicita-se a compreensão dos leitores para lapsos e problemas de edição que, sem dúvida, acontecem no texto que se segue, mas a opção era prolongar, excessivamente, o período de elaboração de um texto que, afinal, se pretende seja essencialmente prático; as próximas edições serão complementarmente revistas e melhoradas.

 

Qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional I” (versão de trabalho) – Infohabitar # 807 

Considerando a significativa extensão do artigo, ele será editado em duas partes, regista-se, em seguida, o seu índice temático total e com os itens editados esta semana salientados a negrito:

 

Estrutura do tema/artigo

Introdução (onde se apresenta e comenta, brevemente, a estrutura e conteúdo do artigo)

1. Reflexão sobre a importância de uma afirmada habitabilidade e domesticidade em soluções habitacionais estrategicamente adequadas a pessoas fragilizadas

2. Notas sobre o desenvolvimento de um desenho de arquitetura que influencie positivamente na satisfação e na qualidade de vida diária e pessoal

(i) Aspetos que caraterizam o influenciar do comportamento através do design/projeto

(ii) O exemplo do recente desenvolvimento de ambientes « hospitalares » humanizados e amigáveis

3. Sobre a importância da conceção de ambientes residenciais com qualidade arquitetónica, positivamente simplificados e mesmo naturalmente terapêuticos e humanizados

(i) Simples e melhor: bases de pormenorização adequadas e com qualidade arquitetónica

(ii) Sobre a urgente e clara humanização de ambientes que integrem a vertente do apoio à saúde

4 Aspetos globais e sistemáticos de afetivividade caraterizando uma habitação adequada para idosos

(i) Sobre a importância da afetividade no projeto de habitação adequada a idosos e algumas definições recomendáveis

(ii) Notas sobre as características físicas e de saúde do idoso e sobre a sua necessidade de afetividade

(iii) Qualidade de vida, afetividade, identidade e apropriação residencia

(iv) Considerações sobre espaços habitacionais adequados e afetivos para os idosos

(v) Aspetos de afetividade espacial e de suporte de memórias numa habitação adequada para idosos

(vi) Síntese relativa a espaços e pormenores habitacionais considerados adequados para idosos

(na próxima semana serão editados os seguintes itens) …

5. Notas sobre a sequência que deve ir do projeto à pós-ocupação de ambientes para pessoas fragilizadas

(i) Sobre a aplicação de técnicas de abordagem qualitativa nos processos de projeto de Arquitetura mais complexos

(ii) Notas sobre processos de apoio a projetos de Arquitetura mais complexos

6. Aproximação a alguns aspetos particularizados mas estruturantes na conceção de ambientes residenciais para pessoas fragilizadas

(i) Notas a propósito da aplicação de uma estratégia psicológica no design hospitalar

(ii) Notas a propósito de uma reflexão sobre a importância dos espaços intermediários na conceção residencial

(iii) Notas a propósito da importância de soluções residenciais e urbanas que promovam ativamente as atividades físicas dos habitantes

(iv) Notas a propósito de um guia de desenho para residências com cuidados

(v) Reflexão a propósito de uma conceção “doméstica” pormenorizada de “equipamentos de saúde”, (tipo de espaço a tipo de espaço)

Breves notas de remate

Resumo

Depois de uma reflexão introdutória sobre o papel e a natureza das condições específicas de habitabilidade e domesticidade numa habitação adequada para pessoas fragilizadas e que privilegie os residentes mais vulneráveis, avança-se para uma abordagem dedicada ao desenvolvimento de soluções residenciais cujo desenho de arquitetura seja capaz de influenciar expressiva e positivamente a satisfação e a qualidade de vida diária e pessoal dos residentes.

Desenvolve-se, depois, um pouco mais nesta última matéria desenvolvendo-se aspetos associados a ambientes residenciais que se considerem como positivamente simplificados, e mesmo naturalmente terapêuticos e fortemente humanizados, concluindo-se esta sequência de reflexões com a abordagem de alguns aspetos globais e sistemáticos de uma verdadeira afetivividade, que poderão caraterizar soluções habitacionais intergeracionais e onde, portanto, vive uma significativa parcela de idosos e pessoas fragilizadas.

Numa última parte do artigo apontam-se, primeiro, aspetos importantes na conceção de ambientes para pessoas fragilizadas, considerando-se desde projeto à respetiva avaliação pós-ocupação e conclui-se o artigo com uma aproximação a alguns aspetos particularizados, mas estruturantes, na conceção de ambientes residenciais para pessoas fragilizadas e com algumas notas sobre sobre caminhos mais correntes e mais atuais da conceção de ambientes residenciais para essas pessoas.

Introdução

Em primeiro lugar vai abordar-se a temática de uma “renovada” reflexão, de certa forma, introdutória sobre o papel e a natureza das condições específicas de habitabilidade e domesticidade em soluções habitacionais com espaços comuns e privados especialmente humanizados e estrategicamente adequados a pessoas fragilizadas

Talvez que o principal objetivo desta reflexão seja lançar a ideia da necessidade e oportunidade de uma espaciosidade muito cuidada, marcada por uma interioridade caraterizadamente doméstica, apropriável e muito digna e por um conforto ambiental amplo e expressivo, tudo isto quando se concebem espaços habitacionais intergeracionais, portanto, potencialmente dirigidos a uma grande diversidade etária e sociocultural e estrategicamente adequados a pessoas fragilizadas.

Passa-se, em seguida para uma reflexão sobre a importância que tem o desenvolvimento de um desenho de arquitetura que seja, global e pormenorizadamente, influenciador, de modo bem positivo, na satisfação e na qualidade de vida diária e pessoal dos habitantes, lembrando-se, aqui, a importância específica que terá essa boa habilitação arquitetónica e residencial quando exista um número potencialmente significativo de habitantes fragilizados; e já agora lembrando-se o quão nefasto será uma situação de sinal contrário, onde o ambiente arquitetónico possa prejudicar o bem-estar e a alegria de viver dessas pessoas. 

Nesta reflexão registam-se, especificamente, alguns aspetos do design/projeto que, provadamente, parecem influenciar o comportamento dos habitantes e, sequencialmente, e a título de exemplo julgado bem significativo e em parte aplicável às soluções habitacionais integreacionais registam-se alguns aspetos importantes norecente desenvolvimento de ambientes « hospitalares » humanizados e amigáveis.

Avança-se, depois, na mesma linha temática e numa perspetiva muito arquitetónica, abordando-se, primeiro, a importância da conceção de ambientes residenciais que sejam positivamente simplificados, isto no sentido de reforço da sua maior dignidade, sobriedade e amplitude de resposta a um amplo leque de gostos e necessidades habitacionais e mesmo naturalmente terapêuticos e humanizados (matéria esta que se sintetizou com o título « simples e melhor: bases de pormenorização adequadas e com qualidade arquitetónica ») e, depois, uma perspetiva de conceção que vise já muito direcionadamente uma expressiva humanização de ambientes predominantemente residenciais, mas que integrem, de modo estratégico e natural uma vertente de apoio ao bem-estar e à saúde dos respetivos residentes e utentes

Em seguida abordam-se alguns aspetos globais e sistemáticos de afetivividade que se julga poderem caraterizar uma habitação adequada para idosos. Inciando-se esta matéria com algumas definições julgadas oportunas, seguindo-se, depois, uma reflexão sobre a relação entre caraterísticas comportamentais dos idosos e um ambiente residencial que seja verdadeiramente sensível, sensorial, apropriável, envolvente e afetuoso e terminando-se esta matéria com uma pequena viagem pelos espaços e pormenores habitacionais considerados especialmente adequados para idosos.

Nesta parte do artigo apontam-se algumas notas sobre a sequência que deve ir do projeto à pós-ocupação de ambientes para pessoas fragilizadas, uma preocupação que se deve existir em qualquer tipo de promoção habitacional e, designadamente, que mereça apoios oficiais, então o que dizer dos casos referidos a soluções residenciais e mistas mais complexas, como se julga será o caso das intervenções residenciais intergeracionais e participadas que integrarão o PHAI3C. E é assim que no artigo se aborda a aplicação de técnicas de enquadramento qualitativo dos processos de projeto de Arquitetura mais complexos e sobre os respetivos processos de apoio.

Em seguida e constituindo-se como abertura da última parte do artigo desenvolve-se uma cuidadosa aproximação a alguns aspetos talvez mais particularizados mas julgados estruturantes na conceção de ambientes residenciais para pessoas fragilizadas.

Com este objetivo introduzem-se, primeiro, algumas notas a propósito da aplicação de uma estratégia psicológica na conceção e design hospitalar, passando-se em seguida para uma reflexão sobre o que se considera ser a importância dos espaços intermediários na conceção dos espaços bem habitados e, finalmente, acrescentam-se algumas notas a propósito da importância de soluções residenciais e urbanas que promovam ativamente as atividades físicas dos habitantes e que na prática poderão ser quase determinantes nas respetivas escolhas tipológicas (ex., edifícios baixos, acessos que estimulem a deslocação, etc.). Avançando-se, naturalmente, numa aproximação a casos e apontamentos mais concretos, o artigo é concluído com uma reflexão sobre os caminhos mais correntes e mais atuais da conceção de ambientes residenciais para pessoas fragilizadas, utilizando-se, para apoiar esta reflexão,  algumas notas a propósito de um guia de desenho para residências associadas a cuidados pessoais específicos e, depois, um conjunto de notas referidas a uma conceção caraterizadamente “doméstica” e pormenorizada de “equipamentos de saúde”, sendo estas notas referidas a diversos tipos de espaços.

1. Sobre um sentido aprofundado de conforto doméstico muito adequado a pessoas fragilizadas

Subtemáticas do presente item :

 (i) Sobre a espaciosidade

(ii) Sobre o “coração/centro” da casa

(iii) Sobre a importância múltipla da janela

(iv) Sobre o conforto ambiental global

(v) Sobre as cores e tonalidades

Avança-se, em seguida, neste item para uma reflexão exploratória e introdutória sobre a natureza e a importância das condições específicas de habitabilidade e conforto num espaço arquitetónico habitacional que privilegie ambientes expressivamente « calorososos », naturalmente « cuidadores » e, consequentemente, que favoreça os residentes mais vulneráveis.

O nosso espaço doméstico pode e deve ser um mundo pessoal e familiar expressivamente confortável, protetor, apropriado e bem caraterizado, onde nos possamos « retirar » para nos sentirmos sossegados e em excelentes condições de bem-estar, refazendo-nos da pressão do dia-a-dia, estrategicamente afastados do mundo público urbano e do ambiente natural, mas sobre estes agradavelmente debruçados (ex., através em vistas sobre a cidade e de janelas que nos tragam a natureza até ao interior doméstico) ; e se tais condições são muito importantes para qualquer pessoa no pleno uso das suas capacidades fícicas, mentais e de perceção, então o que dizer da importância que têm para habitantes fragilizados e para idosos que tendem a passar mais tempo no interior doméstico e que, muito provavelmente, sentem estas condições de uma forma mais intensa e ligada a necessidades e desejos pessoais específicos.

Por isso se estruturou o título e o conteúdo deste item, referido à temática de «sentido aprofundado de conforto doméstico muito adequado a pessoas fragilizadas » e, por isso, as considerações que se seguem são, em primeira linha, referidas a todos os habitantes – incluindo as respetivas citações ao estudo que é abaixo referido – e só, « suplementarmente » são aproximadas à sua importância no que se refere à vivência doméstica das pessoas fragilizadas, acabando, aqui, por se sublinhar, mais uma vez, que muito ou mesmo tudo aquilo que se faça para estas pessoas favorece igulamente uma melhor habilitação vivencial doméstica para todos os habitantes.

Quando referimos, acima, que os ambientes residenciais deverão ser, também, naturalmente « cuidadores », para além do sentido caloroso, digno e apropriável, que acabou de se defender, quer-se apontar que os ambientes residenciais potencialmente usados por um número significativo de pessoas fragilizadas deverão « embeber » um máximo de preocupações de segurança no uso normal, de funcionalidade na facilitação do uso da habitaçãoe de verdadeira habilitação deste espaço doméstico não só para o referido bem-estar « geral », mas também para a eventual incorporação de meios de apoio à movimentação e a cuidados especializados, que venham a ser recomendados ou necessários ; mas fazendo-se esta previsão de modo « passivo » ou camuflado para não se afetar o essencial ambiente doméstico e formal da habitação.

Não tenhamos ilusões de que esta matéria abordada neste item, que não é por acaso o primeiro apresentado neste artigo sobre o tema da «qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional », constitui assunto de extrema importância na conceção e essencial e especial qualificação de espaços domésticos tendencialmente « concentrados » e dedicados a pessoas que estão a mudar, criticamente, de casa numa fase avançada da sua vida – o que é matéria muito sensível e complexa –, e, portanto, constitui assunto e problemática cujo êxito vai depender de um excelente projeto de arquitetura global e de arquitetura de interiores em particular.

Neste sentido e usando-se os comentários de um único autor, mas que são naturalmente extensíveis a um muito amplo grupo de autores arquitetos – entre os quais e de memória recordo, evidentemente, Távora, Norberg-Schulz, Charles Moore e Witold Rybczinsky (com o seu incontornável Domesticty) – abordam-se, em seguida, alguns dos subtemas e aspetos que fazem uma « casa parecer ser mais casa » e « ser mais a nossa casa », e que se consideram ainda mais importantes quando estamos a lidar com pessoas fragilizadas.

E, portanto, e a título de contribuições gerais com importância para a estruturação doméstica do PHAI3C juntam-se e comentam-se, nos seguintes itens (i) a (v), longos excertos das páginas 3 a 6 do excelente artigo de Aloísio Leoni Schmid, intitulado Bollnow e a crítica ao conforto ambiental, que é abaixo referido e que se recomenda. (1)

Numa super-síntese do que, em seguida, se aponta podemos antecipar que talvez o principal objetivo desta reflexão sobre o espaço habitacional privado seja lançar a ideia da necessidade e oportunidade de uma espaciosidade muito cuidada, marcada por uma interioridade caraterizadamente doméstica, apropriável e muito digna e por um conforto ambiental amplo e expressivo, e tudo isto terá, sem dúvida, maior relevo quando se concebem espaços habitacionais intergeracionais, portanto, potencialmente dirigidos a uma grande diversidade etária e sociocultural e estrategicamente adequados a pessoas fragilizadas.

(i) Sobre a espaciosidade e a espacialidade domésticas

Tal como os outros subtemas domésticos em seguida sumariamente abordados as questões da espaciosidade levar-nos-iam muito longe e serão recorrentemente consideradas ao longo destes artigos sobre intergeracionalidade residencial, importando, desde já, apontar que se queremos proporcionar mais habitação adequada para um maior número de idosos não podemos propor áreas domésticas « excessivas », mas que se queremos que essa habitação seja realmente adequada para idosos e pessoas fragilizadas, no sentido de ser verdeiramente desejada e positivamente influenciadora do seu bem-estar, não podemos aplicar níveis de áreas « acanhados », não só porque os mais idosos e fragilizados precisam, comparativamente, de mais espaço de movimentação e de uso doméstico do que os mais jovens e ágeis, mas também porque o uso de certos apoios à movimentação e à prestação de cuidados exige espaços estratégicos e ainda porque se queremos proporcionar um habitar mais completo e globalmente integrado para essas pessoas fragilizadas, então terá de haver uma adequada dimensão de espaços comuns residenciais, que irão, naturalmente, fazer subir a fasquia dos m2/habitação aplicável nos conjuntos do PHAI3C.

O que se sublinha especificamente abaixo, extraído do referido artigo de Aloísio Leoni Schmidr (1), e para além da importante referência a ser necessário um espaço doméstico «…suficiente para ser preenchido pelas pessoas que o habitam com suas vidas », é que essa espaciosidade seja verdadeiramente qualificada em termos de arquitetura de interiores e habilitadora de apropriações pessoais e familiares, e sempre numa perspetiva de defesa de uma expressiva dignidade nos arranjos interiores privados e comuns.

[...] não seja por receio de um falso aconchego “burguês” que destruiremos a verdadeira tarefa da habitação, de ser um espaço da tranqüilidade e da paz. Também as cortinas nas janelas, que fecham o espaço à noite, têm aqui sua função plena de significado”.

O espaço não deveria ser nem muito grande, nem muito pequeno, mas o suficiente para ser preenchido pelas pessoas que o habitam com suas vidas.

Os móveis devem preencher o espaço de modo a não deixar surgir nem a impressão de vazio, nem de apinhamento… A cor das paredes também faz parte de uma atmosfera cálida. Claridade e, ao mesmo tempo, cores quentes dão ao espaço um aspecto de sereno bem-estar”.

Mais que a expressão de alguém, a habitação deve “refletir um longo passado se quiser transmitir às pessoas o sentimento de constância segura da vida”. Daí a importância aos bibelots, mas também às marcas de uso.



Fig. 01: em habitações "concentradas/compactas" é muito  importante desenvolver um agradável ambiente residencial, servido por uma excelente espacialidade, marcada por bons pólos de uso e de caraterização (desenho com tratamento final feito com o programa Prisma).


(ii) Sobre o desenvolvimento de um “coração/centro” da casa

Esta matéria da existência e do eventual protagonismo de um “coração” formal e funcional doméstico, um pólo de centralidade formal e funcional e de reforço do próprio caráter de cada unidade residencial privada, é também assunto recorrente nas reflexões teórico-práticas sobre arquitetura residencial; de tal forma que até a conhecida designação de “fogo”, atribuída habitual e oficialmente à habitação prova a importância dessa ideia de “coração/centro” doméstico ocupado pelo fogão e, antes deste, pelo próprio “fogo no chão”, onde se cozinhava e onde os habitantes se aqueciam.

Naturalmente em soluções domésticas espacial e caraterizadamente “concentradas”, ou maximizadas, através, designadamente, da criação de microzonas formais e funcionais, como as que se perfilam no âmbito do PHAI3C, esta ideia de “coração/centro da casa” poderá ser muito útil seja no sentido da criação de um único “centro”, seja através do desenvolvimento de vários pequenos “centros”, diversificadamente usáveis e apropriáveis, desmultiplicando-se, assim, de forma mais qualitativa o desenvolvimento da habitação, quando não é possível uma maior desmultiplicação quantitativa (em termos de espaciosidade “líquida”).

E neste sentido volta-se à citação do referido artigo de Aloísio Leoni Schmidr. (1)

Onde estaria, dentro da casa, o centro do espaço vital ? No meio rural, ou no mundo antigo, teria sido “o fogão…” Mas … na medida que a cozinha “foi oprimida até se tornar um espaço secundário, como nas habitações modernas, o fogão perdeu esta posição de centro da casa, até que finalmente, até que tenha perdido seu caráter simbólico como sua expressividade exterior, ao abrir mão até de sua chama diante do moderno fogão elétrico”.

Para Bollnow, de certo modo, então, a mesa de comer poderia ter ocupado o seu lugar. Pois é agora onde a família se reúne em tempos regulares. Mas tanto o fogão quanto a mesa “perdem sua função de centro na medida que a vida comum da família se divide e os membros individuais ganham autonomia”.

 (iii) Sobre a importância múltipla da janela

Importa salientar que as condições de caraterização doméstica acima defendidas, para as intervenções do PHAI3C, como de certa forma compensatórias de uma espaciosidade razoavelmente condicionada, e associadas, frequentemente, à criação de microzonas habitacionais, mutuamente conjugadas e marcadas pelos referidos centros/pólos domésticos, também se justificam, frequentemente, pela sua íntima associação com os vãos domésticos interiores e exteriores, tendo estes últimos – as janelas – uma importância vital, pela sua existência bem pormenorizada e exteriormente focada, pela sua apropriação interior e pela influência que têm no conforto ambiental ; e considerando-se que elas próprias podem configuar verdadeiros « lugares-janela ».

E sobre estas matérias volta-se a referir o excelente artigo de Aloísio Leoni Schmidr. (1)

Um item de especial importância para o Conforto Ambiental é trabalhado por Bollnow com originalidade : a janela. Ela é elemento chave na explicação da polaridade casa-mundo. Bollnow logo se exime de falar de suas tarefas mais simples, como servir à iluminação do espaço interior (função desempenhada pela instalação elétrica). Vai logo à essência : “É tarefa das mais simples da janela possibilitar que se observe, de dentro, o mundo externo…”

 (iv) Sobre o conforto ambiental global

Sublinha-se, desde já, que se as condições de conforto ambiental global são de grande importância na configuração residencial dedicada a pessoas no pleno uso das suas capacidade motoras, mentais e de perceção, elas poderão ser, provavelmente, vitais quando se desenvolvem soluções residenciais previstas para um número significativo de pessoas mais vulneráveis.

A citação que se segue é curta, mas a temática da importância do conforto ambiental doméstico é extremamente crucial, seja em aspetos diretos de saúde – por exemplo ligados à higro-térmica e ao sossego acústico – seja nas diversas facetas do conforto ambiental e respetivos aspetos de isolamento: térmica adequada (Inverno e Verão) ; insolação bem programada ; ausência de humidade ; ventilação natural adequada ; conforto sonoro. E é evidente que se todas estas condições são essenciais no bem-habitar de todos, então adquirem uma enorme relevância no habitar de pessoas fragilizadas e frequentemente com problemas de saúde.

Nesta matéria importa registar, ainda, em primeiro lugar que os cuidados que acabaram de ser apontados deverão aplicar-se aos espaços privados e comuns dos conjuntos do PHAI3C (ex., ninguém usará espaços comuns escuros e sem vistas) e que as soluções intergeracionais obrigarão, ainda, a cuidados acrescidos de conforto ambiental, designadamente, em termos de ventilação e de isolamento sonoro dos espaços privados e comuns – de cada um deles e de ausência de más influência mútuas ; considerando-se que estes cuidados poderão ser determinantes para o êxito das intervenções (ex., imagine-se o que poderá resultar do pior isolamento sonoro entre espaços privados de um conjunto habitacional intensamente ocupado durante todo o dia).

E sobre estas estimulantes diversidades no conforto ambiental volta-se à citação do referido artigo de Aloísio Leoni Schmidr. (1)

.... As coisas se distinguem umas das outras, no espaço ótico, com fronteiras nítidas, e direções precisas e ainda distâncias fáceis de estimar em relação ao observador . Já o som é diferente... nos penetra, abrange, atinge, envolve. O acústico nos persegue, não podemos fugir dele, nós lhe estamos entregues”.

 (v) Sobre as cores e tonalidades

Nestas matérias como em qualquer intervenção de arquitetura os cuidados deverão ser programados desde os aspetos mais globais aos mais particulares e pormenorizados e neste e um pouco a título de exemplo sublinham-se os aspetos cromáticos, provadamente influenciadores da disposição dos habitantes e basicamente dependentes, eles próprios, das respetivas condições de iluminação.

E sobre estas matérias-chave de uma afirmada e adequada caraterização ambiental e espacial do mundo doméstico refere-se, novamente, o artigo de Aloísio Leoni Schmidr. (1)

Assim, explica, por exemplo, Bachelard na análise das funções da habitação: “Ambas as realidades externas da cabana e do castelo circunscrevem...nossas necessidades de reserva e expansão...Para poder dormir bem, não podemos dormir num grande recinto. Para trabalhar bem, não podemos trabalhar num esconderijo apertado”. E o “oposto também é verdadeiro: o caráter do espaço que cerca o homem age sobre seu estado psíquico. .. Esta interação passa certamente pelas dimensões, formas e proporções dos espaços, assuntos tão imediatos na Teoria da Arquitetura, mas também por sua iluminação e suas cores. Bollnow evoca o “efeito sensorial e moral das cores” sobre o qual ninguém menos que Johann Wolfgang Von Goethe discorre em sua doutrina da cor. Lá menciona a calidez do amarelo, o caráter estimulante do vermelho, que toma efeito “sério e esplendoroso” no tom púrpura, o caráter frio, vazio e estático do azul, o equilíbrio do verde qualidades …

2. Notas sobre o desenvolvimento de um desenho de arquitetura que influencie positivamente na satisfação e na qualidade de vida diária e pessoal

Subtemáticas do presente item :

(i) Aspetos que caraterizam o influenciar do comportamento através do design/projeto

(ii) O exemplo do recente desenvolvimento de ambientes « hospitalares » humanizados e amigáveis

Passa-se, em seguida para uma reflexão sobre a importância que tem o desenvolvimento de um desenho de arquitetura que seja, global e pormenorizadamente, influenciador, de modo bem positivo, na satisfação e na qualidade de vida diária e pessoal dos habitantes, lembrando-se, aqui, a importância específica que terá essa boa habilitação arquitetónica e residencial quando exista um número potencialmente significativo de habitantes fragilizados; e já agora lembrando-se o quão nefasta será uma situação de sinal contrário, onde o ambiente arquitetónico possa influenciar negativamente e prejudicar o bem-estar e a alegria de viver dessas pessoas. 

Nesta reflexão registam-se, especificamente, alguns aspetos do design/projeto que, provadamente, parecem influenciar o comportamento dos habitantes e, sequencialmente, e a título de exemplo julgado bem significativo e em parte aplicável às soluções habitacionais integreacionais registam-se alguns aspetos importantes norecente desenvolvimento de ambientes « hospitalares » humanizados e amigáveis.

Em termos gerais e na sequência de múltiplos estudos que foram sendo realizados ao longo de décadas e em muitos países – e neste sentido salienta-se que os estudos do CABE, aqui amplamente citados e comentados,  correspondem « apenas » a uma última embora importante fase dos mesmos –, parece que, finalmente, começa a estar bem provado e interiorizado que uma conceção arquitetónica de qualidade influencia no bem-estar/saúde e na valorização dos espaços que usamos/habitamos e especificamente nos nossos espaços habitacionais, que são aqueles onde passamos a maior parte do nosso tempo e, especificamente, a quase totalidade do nosso « tempo privado », em que estamos razoavelmente livres e à-vontade em termos de comportamento e apropriação dos espaços que habitamos ; uma situação que é, naturalmente, ainda bastante mais significativa no caso dos isodos aposentados e de pessoas fragilizadas.

Estas matérias deverão ser, portanto, determinantes na conceção global arquitetónica global e pormenorizada de conjuntos residenciais e mistos associados ao PHAI3C.

Tendo ainda em conta que uma expressiva qualidade arquitetónica « aplicada » aos conjuntos do PHAI3C não só poderá e deverá influenciar na adesão de novos habitantes, como tem influência direta na valorização imobiliária das respetivas habitações, podemos concluir que uma nova opção residencial numa fase adiantada da vida será muito mais possível e apetecível se marcada, em simultâneo, por esses dois aspetos : excelente qualidade de vida proporcionada; e, simultaneamente, uma excelente aplicação das poupanças existentes.

(i) Aspetos que caraterizam o influenciar do comportamento através do design/projeto

No sentido específico do PHAI3C e considerando-se estarmos a abordar uma itipologia residencial inovadora é muito oportuna e importante esta temática do influenciar ou, pelo menos, sugerir e apoiar comportamentos e atividades a partir de um excelente projeto e sua adequada concretização; e voltamos a estar em presença da evidente importância de um bom projeto, devidamente verificado e que responda muito positivamente aos objetivos dos interessados a viverem numa intervenção do Programa.

A título de comentários gerais com importância para a estruturação do PHAI3C juntam-se, em seguida, excertos do documento do Behavioural Design Lab (The) significantemente intitulado  « Changing behaviour by design » e editado pelos Design Council e pela Warwick Business School, que é abaixo referido. (2)

Health and wellbeing - Each year, 5.3 million deaths from diseases such as cancer and diabetes are caused by a lack of physical activity,.. (pg. 3)

By focusing on people’s real needs – whether they are fully aware of them or not – we can create positive and sustained impact on a diverse range of issues. Design is capable of physically changing the way people think, feel and behave for the better. (pg. 6)

(ii) O exemplo do recente desenvolvimento de ambientes « hospitalares » humanizados e amigáveis

A título de comentários gerais aplicáveis a esta matéria, referida ao desejável desenvolvimento de ambientes « assistenciais » expressivamente amigáveis, uma matéria que tem grande importância para a estruturação formal e funcional do PHAI3C, e neste caso, abordando-se, especificamente, a temática dos designados « ambientes hospitalares », que tal como bem sabemos tanto têm marcado, muitas vezes de forma estigmatizada, a caraterização de equipamentos dedicados aos seniores, juntam-se, em seguida, resultados de mais um incontornável documento do CABE e da Bartlett School of Planning. (3)

. A King’s Fund document published in 2002 highlighted the example of Newham Hospital in south east London, where levels of staff morale increased by 56% following the redesign of the hospital…

. Research by the National Institute for Health and the National Institute on Ageing in the US showed that certain design features in Special Care Units and Assisted Living Treatment Residences for people with Alzheimer’s disease and related dementias made people calmer whilst certain others generated more agitated behaviour.

For example, unobtrusive and secure exits reduced paranoid delusions, and increased bedroom privacy and better through routes in common areas reduced both verbal and physical agitation and aggression

. A study in a suburban Pennsylvania hospital examined the records of patients recovering from cholecystectomy. It compared patients whose rooms had windows overlooking natural landscapes with patients who looked out onto a brick wall, and found that the patients with open views: had shorter post-operative stays – 7.9 days compared with 8.7 days ; had fewer negative evaluation comments from nurses ; took fewer strong and moderate analgesic doses ; had lower rates of minor postsurgical complications.

. A study carried out by the University of Nottingham which compared three healthcare environments before and after theywere redesigned found clear benefits to patient health and associated improvements in the efficiency ofmedical resourcing due to good design.

The schemes included a cardiology ward with improved lighting, better external views and clustering of beds in smaller groups; a waiting area with enhanced artificial lighting, better seating and interior design; and acoronary day-care unit with better beds and patient facilities, larger windows and a visitors area. The new ward was perceived by patients and staff as more pleasant, relaxing and welcoming. It resulted in lower pulse rates and blood pressure readings amongst patients, shorter post-operative stays – 8 days down from 11 days – and lower prescribed drug intakes. (pp. 2-3)

E registando agora algumas referências à influência da qualidade arquitetónica na valorização das habitações, apontam-se  alguns aspetos constantes do último estudo referido.

. Extensive international researchby the University of California in the1970s and 1980s using post occupancy surveys discovered that not only did the overall impression of the exterior of a house and its surrounding dwellings have an impact on how people felt about their homes but also in many cases those residents’ personal sense of worth. (pp. 3-4)

Julga-se que, tal como foi acima apontado, este tipo de perspetiva de exigente qualidade arquitetónica e de « humanização » e capacidade de apropriação real dos ambientes residenciais criados no âmbito do PHAI3C é vital para o êxito e utilidade social deste programa, considerando-se, também, desde já, que as opções financeiras específicas aplicadas, sejam elas quais forem (ex., compra, arrendamento, e outras) serão sempre favorecidas por essa tónica de ampla atratividade do Programa.

3. Sobre a importância da conceção de ambientes residenciais com qualidade arquitetónica, positivamente simplificados e mesmo naturalmente terapêuticos e humanizados

Subtemáticas do presente item :

 (i) Simples e/é melhor, bases gerais e de pormenorização adequadas e dirigidas para o aprofundamento da qualidade arquitetónica residencial

(ii) Criação de ambientes sem tresse, psicossocialmente apoiantes e naturalmente terapêuticos em intervenções com perfis de apoio à saúde

(iii) Sobre a urgente e clara humanização de ambientes que integrem a vertente do apoio à saúde

Avança-se, agota, na mesma linha temática da boa influência das soluções físicas residenciais na satisfação dos seus habitantes, e numa perspetiva muito arquitetónica, abordando-se, primeiro, a importância da conceção de ambientes residenciais que sejam positivamente simplificados, isto no sentido de reforço da sua maior dignidade, sobriedade e amplitude de resposta a um amplo leque de gostos e necessidades habitacionais e mesmo naturalmente terapêuticos e humanizados (matéria esta que se sintetizou com o título « simples e melhor: bases de pormenorização adequadas e com qualidade arquitetónica ») e, depois, uma perspetiva de conceção que vise, já muito direcionadamente, uma expressiva humanização de ambientes predominantemente residenciais, mas que integrem, de modo estratégico e natural uma vertente de apoio ao bem-estar e à saúde dos respetivos residentes e utentes

(i) Simples e/é melhor, bases gerais e de pormenorização adequadas e dirigidas para o aprofundamento da qualidade arquitetónica residencial

Considera-se que os ambientes do PHAI3C deverão ser, bem marcados por uma estratégica neutralidade formal em termos de partidos de pormenorização nos seus espaços comuns, neutralidade essa capaz de se adequar a um amplo leque de gostos pessoais e de aceitar/incorporar um nível maximizado e adequado de apropriação em cada uma das respetivas unidades residenciais, devendo ser, também globalmente, marcados por um excelente nível de qualidade e dignidade arquitetónicas residenciais, numa perspetiva, sempre sensível, que importa aprofundar.

Neste sentido juntam-se, em seguida, muito a título de comentários gerais e introdutórios, com importância para a estruturação prática do PHAI3C no respeito da referida qualidade e dignidade arquitetónicas residenciais, alguns aspetos salientados no documento do CABE sobre estas matérias, que é abaixo referido. (4)

. The aim must be not simply to stop design quality falling below a minimum standard but demonstrate how to go beyond. (pg. 25)

. Finally, the obvious point was made that using good architects and landscape architects on a project invariably drives up standards. A number of firms of architects come up repeatedly as designers of the best schemes. They routinely produce well laid out, attractive, locally distinctive and commercially viable housing designs. It has been suggested that we should mandate the use of architects on projects but you cannot, unfortunately, require the mandatory use of good architects. But it is perfectly feasible for publicly funded projects to require the selection of architects by competition or through interview against a brief requiring high-quality design.

... CABE does not accept that using good architects would cost much more, or lead to costlier housing. Experience shows otherwise. (pg. 35)

(ii) Criação de ambientes sem tresse, psicossocialmente apoiantes e naturalmente terapêuticos em intervenções com perfis de apoio à saúde (e a propósito de uma reformulação espacial/ambiental)

No sentido específico do PHAI3C a influência dos estudos dedicados à identificação de como desenvolver ambientes que reduzam o tresse no seu respetivo uso, que sejam psicossocialmente apoiantes e até naturalmente terapêuticos é, naturalmente, muito interessante, pois se nos equipamentos de apoio à saúde se procura esse suavizar e essa humanização ambientais, então em habitações que podem ser ocupadas por seniores e pessoas fragilizadas não deve haver sequer vestígios de uma caraterização mais « friamente » funcional, “higiénica” e “hospitalar” (no sentido mais habitual do termo).

Tendo-se em conta que o estudo usado, em seguida, como fonte de ideias aplicadas a essa criação de ambientes amigáveis e naturalmente « cuidadores », se refere a uma intervenção de reformulação espacial/ambiental, considera-se que as respetivas conclusões poderão ser bastante práticas e globalmente aplicáveis de forma corrente.

No sentido que acabou de ser registado e a título de comentários práticos com importância para a criação, no PHAI3C, de ambientes amigáveis e naturalmente « cuidadores », juntam-se, em seguida, excertos do documento de Fischl e Gärling  que é abaixo referido, e cuja consulta se recomenda, tanto pelo seu conteúdo técnico como pela sua muito útil ilustração (nota-se que o sublinhado é do autor deste artigo). (5)

. In proposing redoing in the ward environment to better support its’ users, psychologically and socially, the corridor and the dining room were targeted as well as elements easily altered by interior architectural means. In each location floor quality and texture was changed to more nature like (e.g. wooden floor) and soft (e.g. carpet), windowsill heights were lowered to get easier access to daylight and outside view, more colors were applied, moving, sitting, and waiting areas were enlarged, and chair materials were changed to be more natural in appearance. Additional changes were picture sizes, themes, and locations although the existing pictures, themes, and locations did not cause any negative effects in this study instead they were in accordance with current architectural practice. (pg. 15)

. The results obtained long-term discussion within the design group about how to redesign to enhance the psychological and social supportiveness of the facility. The waiting area seemed to be a location less accepted by the subjects. However, major changes were not possible to implement because of economical and practical reasons. Therefore minor changes took place such as adding natural elements such as plants, trees, and water to reduce the subdued feeling of the area. Moreover, the proposal builds on a central block concept with the reception encircled by corridors and a waiting area and separated by a light orange color. The ceiling pattern has also been modified into less checkered, which reduces its complexness and compositeness. The furniture has been relocated to facilitate social interaction and picture themes and its locations have been changed. (pg. 16)

E não se resiste a um comentário que salienta o que se julga serem as indicações preciosas de Fischl e Gärling no sentido da humanização e da melhoria do bem-estar em de espaços de apoio à saúde, com a mobilização de meios financeiros limitados e sendo evidente a sua aplicabilidade em soluções do PHAI3C.

 (iii) Sobre a urgente e clara humanização de ambientes que integrem a vertente do apoio à saúde

Não faz qualquer sentido que se se tenha ultimamente avançado na humanização dos espaços hospitalares, e que talvez tal não tenha acontecido, pelo menos, de uma forma sistemática e bem evidenciada, nos equipamentos sociais de apoio a idosos e fragilizados , em que, muitas vezes continua a ser evidenciado um carismático caráter institucional e pouco ou nada integrado na respetiva vizinhança.

Neste mesmo sentido parece ser, consequentemente, evidente que as intervenções do PHAI3C deverão ser expressiva e profundamente integradas nas suas envolventes e intrinsecamente “humanizadas”, pois são basicamente habitação e têm de compensar a eventual compressão e apurada funcionalidade dos seus espaços privados, designadamente, com a adequada caracterização funcional e ambiental humanizada, calorosa, amigável e doméstica nos espaços privados e mesmo nos espaços comuns, embora aqui sejam também de reforçar os aspetos de sobriedade e dignidade.

Nesta perspetiva e com o recurso a algumas longas citações comentadas de um importante documento específico, elaborado por Victoria Bates (6), que vivamente se recomenda, faz-se, nas páginas seguintes, uma síntese do estado da arte do conceito de «humanização» que tem sido aplicado em ambientes hospitalares.

. In recent decades, hospital design literature has paid increasing attention to an apparent need to ‘humanize’ hospital environments. Despite the prevalence of this design goal, the concept of ‘humanizing’ a space has rarely been defined or interrogated in depth. … many features of humanistic design were not revolutionary, but that they were thought to serve a new purpose in counterbalancing high-technology, scientific and institutional medical practice. (pg. 2)

Destas considerações pode/deve resultar o objetivo de que devem ser os próprios residentes os verdadeiros « focos » no desenvolvimento de cada conjunto do PHAI3C – que integrará de forma o mais possível natural um dado potencial de apoios específicos de bem-estar e saúde –, não a respetiva gestão, não o respetivo pessoal, e até não a respetiva Arquitetura, etc., etc.; embora isto não diminua a importância de todos estes últimos aspetos, mas tem de existir uma hiererarquia de objetivos de projeto.

. In 2005, the South Tees Acute Hospitals NHS Trust published a study of the ‘art and science of creating environments that prevent illness, speed healing and promote well-being’ (Macnaughton et al. 2005). Designing for Health, this publication argued, necessitated ‘humanis[ing] the “inhospitable” hospital’ in a range of ways, including providing a sense of control, external views, positive acoustics, natural light, pleasant fragrances, bodily comfort, varied colour and private space. (pg. 3)

… Ideas about the importance of holistic models of health care, including healthcare environments, of the value of spaces for reflection when unwell, of cheerful spaces and distraction for the ill, and of the healing powers of nature can be traced back for centuries (Hickman 2009). The Lancet commented in 1866 on the ‘humanising influence’ of ‘neatness and beauty of arrangement in the wards’ of one typhus hospital (Anon. 1866). A number of the features later identified as ‘humanistic’ ideals were also evident in famous examples of Victorian design, such as Florence Nightingale’s emphasis on visual stimulation, nature and colour in wards. (pg. 4)

. In the hospital context, the health benefits of technology were rarely in doubt, but the implications of high-technology environments for experience and care – as opposed to cure – became increasingly central themes of discussions about hospital operations and design. … patient’s body was reconceptualized in modernity as a system, with its faulty parts to be identified and repaired in the hospital (now a ‘machine for healing’). (pg. 5)

Salienta-se, nas últimas citações, ser muito interessante a ideia do hospital como « máquina de sarar » em paralelo com a conhecida invenção da « máquina de habitar » racionalista; era uma época de « máquinas » que foram muito bem aceites pela « produção » hospitalar, residencial e urbana – neste caso a cidade como máquina urbana, plena e ao serviço de máquinas automóveis e de meios para este circularem com fluidez.

. Scale and the soul: the human in hospital design - This section will explore three of the different aspects of humanistic design principles, ... First, it considers the human as not-institutional; this type of humanistic space took form through the idea of human scale and modelling hospital spaces on the village or the home. Second, it considers the human as not-technology; this humanization operated through hiding technologies and prioritizing natural sensescapes in the hospital. Finally, the article considers the human as not-biomedical; this form of humanistic design necessitated environments that addressed patients’ emotional and holistic needs. (pg. 6)

São aqui apontados, nesta última citação, muitos elementos vitais no que se refere a uma adequada conceção de iniciativas onde se integram naturalmente os conjuntos do PHAI3C, desde a questão da escala humana de uma dada intervenção, que não pode realmente depender apenas da relação de eficácia com o pessoal de saúde especializado (que está contabilizado por exemplo em equipamentos com fins semelhantes) e que não pode de nenhum modo basear-se de forma expressiva nas novas tecnologias, pelo menos, de forma evidenciada, até ao muito oportuno sublinhar da importância das paisagens/imagens sensoriais com destaque para as naturais.

. After a mid-century trip to Scandinavia, architect D. J. Petty and senior medical officer Robert Macdonald Shaw – who later played an important role in developing the Ministry of Health Hospital Building Notes – wrote: There were a large number of interesting points we noticed which are only possible to touch upon. Perhaps one of the most striking was the very pleasant sense of scale achieved inside the hospitals. There was an air of quiet welcoming efficiency without any trace of the institutional feeling. We concluded that two of the reasons for this effect were the comparatively low ceiling heights … and the widespread use of naturally occurring timbers. (Shaw and Petty 1955) (pg. 7)

Paralelamente a este aprofundamento do PHAI3C, que aqui se está a fazer, seria talvez interessante e oportuno – tendo em conta a próxima construção do grande « Hospital de Todos os Santos » -, fazer uma pequena viagem comparativa com as caraterísticas de alguns dos novos hospitais portugueses e lembrando outros ambientes hospitalares lusófonos e designadamente brasileiros, onde parece que alguns destes ensinamentos foram tomados em conta mas talvez outros não (ex. entrada sóbria e directa desde a rua, o sentido de conforto na receção, o sossego, a proteção e mesmo a intimidade sentidas no percurso que vai até ao quarto e o apurado conforto ambiental, designadamente, acústico, e o estratégico afastamento acústico e vidsual/ambiental entre as atividades de enfermagem e a vivência no quarto).

. In the UK, there were two preferred reference points for the human scale – as opposed to institutional scale – hospital: the home, or ‘domestic scale’, and the village.

. Building a hospital community and focusing on healthy environments to prevent – rather than just cure – disease, he argued, required architectural as well as functional change: ‘This should be domestic rather than institutional. This change can be made by reducing the scale of buildings, by introducing variety of structure and design, and by separating hospital buildings by other amenities – shops, restaurants, amusements, etc.’ McKeown suggested building a complex of smaller buildings in line with this vision. (pg. 8)

. Weeks (1985) supported the nucleus hospital as a route to the humanistic village model: The departments that make up a hospital community are separate parts of the organisation, yet they depend on each other … [A] hospital can have the human scale and easily remembered shape of a village if the designers try, consciously, to learn from the physical characteristics of a village.

… in the final decades of the twentieth century. As part of this move, architects advocated ‘human scale’ and homely spaces to support wayfinding within units for people with dementia. Dalke, Littlefair, and Loe (2004) observe that ‘scale and perspective are crucial to understanding the design of environments for children. (pg. 9)

No caso do PHAI3C pode haver todo o interesse em “repartir” unidades residenciais e mesmo espaços comuns, não os fazendo muito grandes, e dando-lhes sentidos sequenciais e orgânicos, o que é até arquitetónica e economicamente positivo; o PHAI3C não tem de « compensar » qualquer tipo de tecnologias, mas não deve evidenciar tecnologias e também não deve evidenciar a diferença relativamente a um edifício habitacional; e isto parece ser extremamente importante ; mas para além de tudo isto os espaços privados e comuns associados ao PHAI3C devem embeber, mas de forma totalmente camuflada, previsões espaciais e funcionais que visem um apoio eficaz a pessoas fragilizadas.

Physically, Weeks [John Weeks (1985)] noted, ‘a human hospital is small, architecturally familiar, nicely decorated, and made of brick with a lot of flowers and wood inside and lawns and trees outside. It has a pitched roof and ordinary sized windows’. He did not delve into his reasons for labelling these physical features as ‘human’, but implicitly aligned nature with the ‘human’ and situated both in opposition to ‘high technology’ environments. Artistic representations of nature were similarly deemed ‘humanistic’ and constructed as a counterbalance to high-technology hospital environments. (pg. 10)

O papel da introdução da arte e da relação com a natureza (em muitas formas possíveis) no sentido da humanização de espaços ligados ao bem-estar e à saúde de residentes fragilizados, é muito valiosa e oportuna, sendo que a concepção arquitectónica por vezes deixa muito pouco espaço para quaisquer desses dois tipos de elementos; devido, por vezes, às velhas influências « funcionalistas ».

Ainda na perspetiva da importância da arte na expressiva humanização de espaços ligados ao bem-estar e à saúde de residentes fragilizados, e usando-se o exemplo dos excelentes  Maggie’s Cancer Caring Centers, poderemos ter edifícios onde além dos elementos de arte neles integrados são os próprios edifícios e suas vizinhanças diretas que se constituem como peças de arte arquitetónica e paiagística, o que é também de extrema e estratégica importância ; lembrando-se, no entanto, que esta ideias não deverá sobrepor-se, nas intervenções residenciais e mistas do PHAI3C, a uma qualidade arquitetónica residencial urbanisticamente bem integrada e marcada por digna sobriedade, isto porque para além de outros aspetos mais teóricos, trata-se aqui de tentar agradar a muitos gostos e necessidades, e a uma grande diversidade de pessoas muitas delas fragilizadas e provavelmente pouco disponíveis para aderir a partidos formais mais discutíveis.

. Maggie’s Centres, UK drop-in centres for people with cancer that first opened in Edinburgh in 1996, physically embody all the features of ‘humanistic’ design outlined above: the buildings are non-institutional, non-biomedical and non-technological. It is perhaps no surprise that these centres are so often cited in literature on ‘therapeutic landscapes’ (for example, Butterfield and Martin 2016). Jencks himself writes that they were intended as part of a move ‘towards more humane and varied building types’ (Jencks and Heathcote 2010). The buildings emphasize light, nature and comfort.

. The designs are all individual, and deliberately situated in opposition to the ‘machine for healing’ model of impersonal health care. To quote Jencks further: ‘[i]nformal, like a home, a Maggie’s Centre is meant to be welcoming, domestic, warm, skittish, personal, small-scaled’. Maggie’s Centres also draw further attention to the materiality of ‘humanistic’ design, including surfaces that are pleasant to touch. (pg. 11)

Com o devido cuidado acrescenta-se, aqui, julga-se a propósito, que nestas temáticas da desejável humanização de espaços onde se integram cuidados de bem-estar e saúde, importa também ter em conta que certos aspetos formais de uma dada arquitetura contemporânea podem levantar algumas questões, designadamente, de « frieza », despersonalização, dificuldade de apropriação, falta de referências espaciais, etc.

. Important questions also remain about what humanistic design meant to patients, staff and visitors, and the extent to which they were truly involved in human-centred design processes. The human in the hospital has never been a homogeneous one; some feel soothed by high technology environments, while others have specific sensory or emotional needs (pg. 13)

Salienta-se, ainda, que os importantes aspetos participativos e de interação mútua dos diversos grupos/categorias de « habitantes » (etários, socioculturais, estado de saúde, residentes, pessoal de apoio, visitantes), poderão estar garantidos pela própria natureza cooperativa e participada, que se defende para o PHAI3C.

4. Aspetos de afetivividade global caraterizadores de uma habitação adequada para idosos

Subtemáticas do presente item :

 (i) Sobre a importância da afetividade no projeto de habitação adequada a idosos e algumas definições recomendáveis

(ii) Notas sobre as características físicas e de saúde do idoso e sobre a sua necessidade de afetividade

(iii) Qualidade de vida, afetividade, identidade e apropriação residencial

(iv) Considerações sobre espaços habitacionais adequados e afetivos para os idosos

(v) Aspetos de afetividade espacial e de suporte de memórias numa habitação bem adequada a idosos

(vi) Síntese relativa a espaços e pormenores habitacionais considerados especialmente adequados para idosos

Em seguida e aprofundando-se, um pouco mais, a reflexão que foi feita no último ítem, sobre a desejável humanização dos ambientes residenciais para pessoas fragilizadas, abordam-se alguns aspetos globais e sistemáticos de afetivividade que se julga poderem caraterizar uma habitação adequada para idosos e pessoas fragilizadas.

Inicia-se esta matéria com algumas definições julgadas oportunas, seguindo-se, depois, uma reflexão sobre a relação entre caraterísticas comportamentais dos idosos e um ambiente residencial que seja verdadeiramente sensível, sensorial, apropriável, envolvente e afetuoso e terminando-se esta matéria com uma pequena viagem pelos espaços e pormenores habitacionais considerados especialmente adequados para idosos.

Numa conceção residencial dirigida para soluções intergeracionais especialmente habilitadoras da qualidade de vida diária de idosos e pessoas fragilizadas, considera-se importante ter em conta as frequentes relações afetivas dos idosos em relação aos objetos das suas vidas e aos espaços das suas habitações; condições estas que, ao serem aplicadas a soluções multifamirares, exigem uma significativa faceta de adaptabilidade e apropriação na conceção das unidades residenciais privadas e dos espaços comuns.

No sentido específico do PHAI3C este enfoque na afetividade e capacidade de apropriação dos espaços e dos equipamentos e serviços disponibilizados é considerado essencial.

(i) Sobre a importância da afetividade no projeto de habitação adequada a idosos e algumas definições recomendáveis

Nestas matérias associadas à importância global da afetividade no desenvolvimento de soluções habitacionais adequadas a idosos – na conceção física das soluções e nos seus modelos de gestão diária e de serviços prestados – e a título de comentários gerais com importância para a estruturação do PHAI3C, juntam-se e comentam-se, em seguida, excertos do trabalho de mestrado de Angela Rossane Flores, intitulado « Interferência da afetividade no projeto de habitação da terceira idade » (com referências aos respetivos números de páginas). (7)

. envelhecimento é um processo que se desenvolve ao longo da vida das pessoas, mas com manifestações diferentes para cada caso. Por isso é importante dissociar seus conceitos da visão cronológica. Há jovens com 20, 40 ou 90 anos de idade. Tudo dependerá da postura e do interesse de cada um. Veras (1994, p. 37) (pg. 34)

. A terceira idade pode ser ainda um vislumbre das novas possibilidades de um período da vida frequentemente desqualificado e visto como desprovido de vantagens. Entretanto, é uma fase durante a qual o indivíduo pode permitir-se fazer concessões a si mesmo, sem culpas e livre das imposições sociais e das obrigações cotidianas, que acabam tolhendo suas ações na idade adulta e ativa.

. O processo de envelhecimento possui duas correntes fortes e opostas: uma que o reconhece como a etapa final da vida, a fase do declínio que culmina na morte; a outra que o concebe como a fase da sabedoria, da maturidade e da serenidade (OLIVEIRA et al., 2001). (pg. 35)

Estas considerações são bem interessantes e na prática muito ligadas a uma adequada fundamentação da relação entre afetividade e desenvolvimento de soluções residenciais multigeracionais e ligadas ao quadro específico aplicado no PHAI3C, designadamente, no que se refere à terceira idade poder ser “uma fase durante a qual o indivíduo pode permitir-se fazer concessões a si mesmo, sem culpas e livre das imposições sociais e das obrigações cotidianas” ; e podendo as condições de arquitetura urbana e pormenorizada do Programa habilitarem os seus residentes para tais « liberdades ». Neste sentido salienta-se, desde já, que é necessário que, no âmbito do PHAI3C, os espaços privados, comuns e públicos próximos proporcionem, duplamente, excelentes condições de privacidade (também matizada) e de sociabilidade (também matizada); e naturalmente tais condições apenas serão possíveis com base num excelente e sensível projeto e numa excelente e sensível gestão diária.

E continuamos com algumas notas históricas, integradas na última obra referida, e que baseiam esta defesa de uma especial afetividade nas soluções arquitetónicas e de gestão ligadas ao PHAI3C.

. Na Grécia antiga, a velhice estava relacionada à ideia de honra, de tal maneira que as palavras que designavam a idade avançada – “gera, geron”, também significavam “o privilégio da idade, o direito da ancianidade, ou reputação” (VARGAS, 1994, p. 39). (pg. 37)

. O poder dos idosos decaiu a partir do século I a.C. e durante todo o Império Romano. Eles reduziram o poder familiar e político, passando a ficar cada vez mais sós (BEAUVOIR, 1990). (pg. 38)

. Na Idade Média, segundo Beauvoir (1990), o idoso foi desprezado e julgado dispensável. O renascimento prolongou as tradições da Idade Media que exaltava a beleza do corpo e a feiúra dos idosos, utilizando-se de todos os meios para prolongar a juventude. No teatro, nos romances e na pintura, os idosos eram motivos de escárnio. Nunca a feiura do idoso foi tão cruelmente denunciada.

. No século XX, continuou a urbanização da sociedade, tendo como consequência o desaparecimento da família patriarcal

. Neste século XXI muito pouco mudou em relação aos idosos. O tipo de respeito imposto a essa população nos séculos passados ainda é mantido, mas os adultos em sua maioria pouca importância dão aos idosos. Atualmente o significado do envelhecimento assumiu uma visão cientifica e individualista. “A velhice não é mais considerada como etapa de jornada espiritual da vida, mas sim como problema a ser enfrentado pela ciência e, em particular, pela medicina e a tecnologia”. (FRUTUOSO, 1999, p. 38). (pg. 40)

(ii) Notas sobre as características físicas e de saúde do idoso e sobre a sua necessidade de afetividade

E nestas matérias desenvolve-se, um pouco mais, ainda com base em citações constantes do estudo « Interferência da afetividade no projeto de habitação da terceira idade » de Angela Rossane Flores, intitulado, a caraterização das condições físicas, funcionais, mentais, comportamentais e sociais do idoso e suas consequentes necessidades de uma expressiva afetividade nos seus respetivos quadros residenciais.

. As características principais da velhice são: a redução da capacidade de adaptação ambiental, diminuição da velocidade de desempenho e aumento da suscetibilidade a doenças. Para Néri (2003, p. 20), as possibilidades das pessoas com mais de 60 anos terem alguma deficiência é de quase 50%, ao passo que esse percentual cai para menos de 3% entre as crianças de zero a quatro anos.

Mudanças físicas graduais e progressivas – Ocorre o aparecimento de rugas e perda da elasticidade e viço da pele; diminuição da força muscular, da agilidade e da mobilidade das articulações; aparição de cabelos brancos e perda dos cabelos entre os indivíduos do sexo masculino; redução da acuidade sensorial, da capacidade auditiva e visual; distúrbios do sistema respiratório, circulatório; alteração da memória e outras. Além disso, há a redução da altura corporal, extremidades ficam mais finas e o tronco mais grosso, (pg. 40)

Mudanças Psicossociais – Esse grupo de mudanças inclui as modificações afetivas e cognitivas, os efeitos fisiológicos do envelhecimento, consciência da aproximação do fim da vida, suspensão da atividade profissional por aposentadoria, sensação de inutilidade; solidão, afastamento de pessoas de outras faixas etárias e segregação familiar. Em relação às mudanças cognitivas entre os 65 e 75 anos são sutis ou até inexistentes (BEE, 1997).

Mudanças funcionais – Os idosos apresentam, em escala crescente à medida que vão envelhecendo, mudanças funcionais relativas à necessidade cotidiana. Dentre essas necessidades, destacam-se: a capacidade de realizar atividades da vida diária, como tomar banho, fazer a toalete, vestir-se, como também as atividades da vida prática, como fazer compras, pagar contas, usar meios de transportes, cuidar da própria saúde e manter a própria integridade e segurança. Portanto essas mudanças refletem-se na capacidade de os idosos cuidarem de si (NÉRI, 2001). Daí decorre a necessidade de adaptação de seu espaço de moradia, pois as mudanças funcionais podem interferir na capacidade de os idosos interagirem e responderem aos estímulos do ambiente. Diferentes mecanismos de compensação devem ser utilizados com o maior uso de um dos sentidos em detrimento de outro. (MENDES, 2007). (pg. 41)

 (iii) Qualidade de vida, afetividade, identidade e apropriação residencial

E agora, nestas matérias ligadas ao desenvolvimento de condições de uma evidenciada afetividade física e de gestão na disponibilização de soluções residenciais integeracionais, e continuando a usar o referido estudo de Angela Rossane Flores, centra-se a atenção no privilegiar de uma qualidade de vida diária com um perfil muito amplo, individualmente bem marcada e muito estimulante, através dos aspetos que são, em seguida, salientados.

. “Acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida” (Lema da Gerontological Society of América nos anos 50).

. A busca pela qualidade de vida é uma preocupação constante do ser humano desde o início de sua existência.(pg. 42)

. Para alcançar um envelhecimento saudável e, consequentemente, uma boa qualidade de vida, segundo a Organização Mundial da Saúde (2005), é necessário, além de se cuidar desde a juventude, obter bons resultados na promoção da saúde, serviços de saúde mental, adoção de estilos de vida e alimentação saudáveis, atividade física, proteção social e moradia segura.

. Portanto, embora haja uma variabilidade no conceito de qualidade de vida, os diversos autores citados demonstram que a qualidade de vida está diretamente relacionada ao nível de satisfação de vida e depende da inter-relação de vários fatores, como a percepção do bem-estar e da saúde, das condições físicas e ambientais, da renda, do relacionamento familiar e social. A essência do conceito de autonomia é a capacidade para autodeterminação, mas contém, em seu conceito, os elementos: liberdade individual, privacidade, livre-escolha, autorregulação e independência moral. (pg. 44)

. As atividades da vida diária (AVD) dos idosos são tarefas pessoais, referentes ao cuidado consigo mesmo e são fundamentais para a sobrevivência, como o ato de comer e dos cuidados com a higiene pessoal (FINGER, 1986). Novas abordagens vêm ampliando o conceito das AVD‟s envolvendo outras habilidades pertinentes ao dia a dia das pessoas, como atividades da vida prática e de comunicação. (pg. 45)

… o espaço da habitação é muito importante para a vivência humana. É considerado fonte da identidade espacial e temporal da família e do ser humano, independente de sua tipologia como espaço construído, pois envolve caracteristicas subjetivas estabelecidas entre a pessoa e o ambiente.

… Corroboram essa ideia Certeau, Giard e Mayol (1996, p. 203-204) ao afirmarem que os espaços e objetos são os espelhos de seus moradores e refletem o que eles são :

… a ordem e a desordem, o visível e o invisível, a harmonia e as discordâncias, a austeridade ou a elegância, o cuidado ou a negligência, o reino da convenção, toques de exotismo e mais ainda a maneira de organizar o espaço disponível, por exíguo que seja, e de distribuir nele as diferentes funções diárias [...] tudo já compõe um “relato de vida”, mesmo antes que o dono da casa pronuncie a mínima palavra. (pg. 46)

Em todas estas matérias importa ter sempre presente, na caraterização física e de gestão das soluções residenciais e urbanas do PHAI3C, o vital objetivo de “acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida”, um objetivo que bem poderia/poderá ser o lema do Programa.

(iv) Considerações sobre espaços habitacionais adequados e afetivos para os idosos

Os caminhos da fusão entre a adequação e a afetividade residencial em soluções intergeracionais passam pelo desenvolvimento de espaços urbanos e habitacionais mais amigáveis e habilitados para pessoas fragilizadas – em termos físicos, mentais e de perceção – e pela consideração deste objetivo, de um modo sistemático, em todos os níveis físicos das respetivas intervenções, matérias estas que são, em seguida, apontadas, continuando a utilizar-se o excelente estudo de Angela Rossane Flores, já anterior e extensamente citado, intitulado « Interferência da afetividade no projeto de habitação da terceira idade ». (7)  

 (i) Considerações gerais sobre uma habitação mais amigável para as pessoas fragilizadas

As necessidades funcionais e ergonómicas dos usos domésticos referidos aos idosos e, globalmente, a pessoas fragilizadas, sublinham a importância da existência de um mobiliário bem integrado/embebido e « inter-associado » nos espaços da habitação, deixando-se, no entanto, lugares de apropriação para móveis “familiares”, quadros e fotos.

. Para Flores e Ulbricht (2007), o arquiteto, ao projetar adequadamente a moradia, contemplando a segurança, a funcionalidade, o conforto e, principalmente, considerando as limitações físicas, possibilita que o idoso permaneça em sua residência com garantia de qualidade de vida, pois a moradia pode promover uma autonomia para as atividades de vida diária e reduzir os riscos de acidentes. Nessa linha, Hunt (1991, p. 130), afirma que os projetos de espaços arquitetônicos devem satisfazer as necessidades dos idosos, as quais estão “classificadas em três grandes grupos: necessidades físicas, informativas e sociais”.

. Vários fatores característicos do avanço da idade, como a perda da força e da massa muscular, a diminuição da estatura e da elasticidade, podem gerar dificuldades para o idoso alcançar objetos. Isso exige reflexões sobre uma série de pequenas mudanças, a exemplo do mobiliário, que deve ser dimensionado de forma estável e firme, porque o idoso pode apoiar-se para sentar ou levantar. Este não deve ser pesado nem volumoso, para permitir seu deslocamento pelo idoso. Deve ter as quinas arredondadas para não ferir a pele, visto que no idoso o poder de cicatrização fica reduzido (HUNT, 1991).

(pp. 47-48)

 (ii) Considerações sobre diversos espaços de uma habitação mais amigável para as pessoas fragilizadas

Tal como já se apontou, a fusão entre a adequação e a afetividade residencial em soluções intergeracionais exige espaços e recheios espaciais expressivamente amigáveis e habilitados para pessoas fragilizadas, mas cuidando-se de uma igualmente expressiva dignidade e atratividade residencial e urbana dessas soluções, marcadas pela total ausência dos múltiplos estigmas habitualmente associados a soluções para idosos e condicionados na mobilidade e na perceção, e pormenorizadas e metodicamente desenvolvidas  em todos os níveis físicos das respetivas intervenções, mas com um cuidado gradualmente acrescido nos espaços de uso mais intenso e próximo. E neste sentido e usando-se, ainda, a obra que tem sido extensamente citada, apontam-se, desde já, alguns aspetos a salientar.

Quartos/dormitórios - dormitório é um local destinado ao descanso, mas pode prestar-se também a outras atividades e agregar outras funções. A cama, incluindo o colchão, deve ter uma altura de 45 cm a 50 cm para que, ao sentar, a pessoa possa apoiar os pés no chão, e essas medidas devem ser determinadas pelo perfil antropométrico do idoso. As mesas de cabeceira devem ser 10 cm mais altas que a cama, estar fixa à parede ou ao chão, não ter quinas e ter as bordas arredondadas, além de ter tamanho suficiente para acomodar um abajur e um telefone. Os armários, guarda-roupas, devem ter as portas leves e de fácil manejo. O cabideiro…, deve estar posicionado na altura do ombro do idoso, as prateleiras devem estar a uma altura entre 50 cm e 160 cm do chão, e as gavetas devem possuir sistema de corrediças autodeslizante (RIBAS, 2001). (pg. 48)

Cozinha - Na cozinha destacam-se as tarefas relativas à elaboração e transformações de alimentos. As bancadas e pias devem ter altura entre 85 cm e 90 cm do chão, (pg. 49) … mas o perfil antopométrico do idoso é que irá determinar a altura. Não devem ser muito profundas, e as torneiras devem ser do tipo meia volta para facilitar o manuseio. Deve-se dimensionar a altura das prateleiras e armários conforme a limitação do usuário, evitando-se o uso de escadas e banquinhos. Objetos como eletrodomésticos devem ficar em locais baixos para permitir fácil retirada e manuseio. A mesa deve ter bom equilíbrio, ser firme e jamais ter tampo de vidro, pois a transparência pode atrapalhar a noção de profundidade. As cadeiras devem ter rodízios para melhor deslizarem e braços para apoio. O refrigerador deve ter as prateleiras com alturas de fácil acesso e evitar itens pesados na porta. No fogão aconselha-se marcar com fita autocolante de cor contrastante a posição de “desligado” (RIBAS, 2001). (pg. 50)

É muito interessante ter em conta esta perspetiva volumétrica que considera, designadamente, os « espaços mortos »: acima e abaixo de certa altura.

Casa de banho/banheiro - um banheiro completo é configurado por vaso sanitário, bidê (ou ducha higiênica), lavatório, espelho, armário, chuveiro ou banheira. Os pisos devem ser antiderrapantes e os tapetes devem ser de borracha antiderrapante. No box deve ter barras de apoio tipo alça, banco, suporte para sabonete, xampu e toalhas. O chuveiro deve possuir ducha manual, e o registro deve ser de fácil manejo tipo meia volta. O declive do box deve ser em rampa e não ultrapassar a 1,5 cm. O vaso sanitário deve ter uma altura média de 50 cm do chão, devendo estar posicionado ao lado da área de banho e com barras de apoio na lateral e na parede ao fundo do vaso …).

A bancada do lavatório, …, deve possuir altura entre 0,80 m a 0,85 m do chão, possuir protetor de ralo e torneira de fácil manuseio tipo meia-volta. O espelho deve estar posicionado na área central da bancada e bem iluminado. As gavetas devem possuir o sistema de fechamento autodeslizante. As tomadas elétricas devem estar afastadas da área molhada e recomenda-se que estejam posicionadas à altura entre 1,10 m a 1,30 m do chão. O porta-toalhas deve estar posicionado na mesma altura das tomadas (RIBAS, 2001). (pg. 51)

Estar - As poltronas e sofás devem ter a altura do assento de 0,50 m e profundidade entre 0,70 m e 0,80 m, com braços para apoio e os assentos, que não devem ser muito macios ... As cadeiras devem ser de espaldar alto e braços de apoio. As mesas de apoio devem estar posicionadas junto ao sofá, e as poltronas e mesas devem ter altura de 0,60m com bordas arredondadas. A mesa deve ter uma superfície que permita no mínimo um abajur e um telefone e não deve ser de vidro ou outro material transparente ou cortante. As estantes devem estar fixas nas paredes ou no chão, e deve ser evitada a colocação de objetos pesados ou de vidro. Para os pisos é aconselhável o uso de madeira e tapetes antiderrapantes (RIBAS, 2001)

Jantar - Em geral, a sala de jantar é um ambiente composto por mesa e cadeiras. A mesa de jantar … deve ter uma altura média de 0,75 m, as quinas arredondadas e não ter tampo de vidro. (pg. 53)

As cadeiras não devem possuir braços, pois o apoio é a mesa. Os tapetes devem ser evitados nesse ambiente. As bandejas de mão devem ser substituídas por bandejas de rodízios (tipo carrinho de chá), evitando-se assim o uso das duas mãos carregando objetos (RIBAS, 2001).

Iluminação de ambientes para os seniores

. Os idosos, para realizarem uma tarefa visual com a mesma precisão, necessitam de quantidade de luz que chega a ser duas vezes maior do que necessita um jovem aos vinte anos no mesmo tempo. (pg. 54)

. Os usuários da 3.ª idade também são mais sensíveis aos níveis de ofuscamento que os mais jovens (STEFFY, GARY, 2002). Os olhos dos idosos têm períodos de adaptação visual mais longo do que os olhos dos jovens, assim uma trajetória de um exterior muito brilhante a um interior muito sombreado, ou vice-versa, pode levar a desorientação ou tropeços. Essa adaptação pode ser minimizada mediante uma série de espaços de transição com a redução de iluminação progressiva.

. Outro fator importante é a acomodação visual, pois essa capacidade diminui com a idade pelo endurecimento do cristalino. As distâncias focais para as os itens ou tarefas visuais mais importantes devem ser as mesmas. Por exemplo, o projetista deve desenvolver uma sala de estar para os usuários da 3.ª idade com sofás e cadeiras em distâncias constantes uns dos outros (FLORES et al., 2009).

. As atividades diárias básicas de higiene pessoal que utilizam o espelho têm requisitos de iluminação mais restritos, como níveis de iluminação mais elevados e propagação mais difusa no plano da face. Atividades sociais como a leitura e jogos de mesa também requerem níveis mais elevados, pois são críticas em relação ao foco visual. (pg. 56)

 (v) Aspetos de afetividade espacial e de suporte de memórias numa habitação bem adequada a idosos

As matérias associadas a uma habitação marcada por aspetos afetivos é de extrema importância, pois não podemos tratar o habitar dos idosos apenas como um novelo de necessidadea específicas, mas também e essencialmente como algo com um conteúdo único e de extrema importância, em termos de memória, conforto, identidade, apropriação e potencialidades de apoio à vida diária e ao convívio, etc.

As importantes questões de um habitar habilitador de condições de afetividade espacial global e de testemunho de histórias de vida constituem mais uma razão para as habitações do PHAI3C serem especialmente desafogadas, funcionais, capacitadas e apropriáveis, para além de outros aspectos mais funcionais.

Sobre estas matérias e recorrendo, novamente, ao estudo de Angela Rossane Flores (7), salientam-se mais alguns aspetos considerados estruturantes das soluções pormenorizadas a desenvolv er no âmbito do PHAI3C.

… O bem-estar psicológico dos idosos está estreitamente associado à satisfação em relação à moradia. Para cada idoso, a casa adquire um significado psicológico único, visto que há laços afetivos que o ligam a esse espaço através da memória do passado (PAUL, 1996). (pg. 57)

. A casa é o lugar ao qual estão associados sentimentos que fazem com que as pessoas idosas estejam emocionalmente ligadas ao seu espaço. Esse conjunto de sentimentos, segundo Daré (2006), diz respeito a: … recordações do curso de vida, as quais ajudam o idoso a organizar os pensamentos para que lhe seja possível manter presente o sentido de continuidade e de identidade com o seu passado… [e a] autoestima positiva, pois para os idosos manter-se em sua casa demonstra para os outros que ainda mantém a sua independência e autonomia.

. Estudos feitos por Mendes (2007) comprovam a importância do espaço de moradia para os idosos. Na sua pesquisa Ambiente domiciliar x Longevidade, ao perguntar para os idosos o que a casa significava, as respostas foram relacionadas a aconchego, autonomia, sua particular história, e segurança.

. De acordo com Paul (1996, p31/32), os idosos estão fortemente ligados ao recheio da sua casa, as quais são depósito de seus bens pessoais de grande valor sentimental, que lhes trazem lembranças de pessoas, locais, épocas e acontecimentos que fizeram parte de suas trajetórias de vida. (pg. 58)

 (vi) Síntese relativa a espaços e pormenores habitacionais considerados especialmente adequados para idosos

E concluindo-se a longa série de referências ao estude de Angela Rossane Flores, fazem-se, em seguida, algumas notas de síntese de conceção arquitetónica consideradas importantes na estruturação básica de soluções residenciais intergeracionais participadas.

. O projetista deve levar em conta o período de maior permanência dos idosos em suas residências e as suas preferências pelos espaços… o período da manhã é o mais importante para ambos os sexos, e os espaços a serem privilegiados são a cozinha e o estar.

. Os projetos devem prever espaços para as ferramentas, os livros, as fotos, os objetos decorativos (quadros, bibelôs, tapetes), as roupa de cama, mesa e banho, ou as mobílias para preservar a identidade, sentimentos e memórias dos idosos. Como os objetos diferem de idoso para idoso, a realização de uma entrevista poderá identificar as características físicas e afetivas de cada peça com a qual o idoso demonstra ter ligação afetiva. Para atender a essa recomendação, sugerem-se as seguintes questões, adaptadas do questionário que foi aplicado ao público-alvo da amostra: (pg. 77)

.Em uma nova residência você gostaria de ter algum ambiente que fosse ou que lembrasse a atual ou antiga residência?

. Qual seria este ambiente?

. Por que esse ambiente é importante?

. Como é utilizado esse ambiente?

. Descreva esse ambiente (na descrição poder-se-á perceber os sentimentos relacionados ao ambiente).

. Quais os objetos ou elementos da sua casa que você considera importantes e não gostaria de se desfazer?

… [sobre os] principais ambientes e objetos domésticos que estabelecem vínculos afetivos com os idosos, a pesquisa mostrou que o ambiente predileto dos idosos é o estar, e que os objetos de maior apego são fotos, livros, equipamentos, objetos de decoração (quadros, bibelôs e tapetes), roupas (cama, mesa e banho) e ferramentas. (pg. 77)

Considera-se, finalmente, que muitos destes aspetos poderão servir de base de um inquérito a fazer, por exemplo a famílias que habitem em fogos cooperativos ou geridos por entidades cooperativas.

Notas e bibliografia

([1]) Schmid, Aloísio Leoni – Bollnow e a crítica ao conforto ambiental. São Paulo: Portal Vitruvius (vitruvius.com.br), arquitextos, 088.03, ano 08, set. 2007.

(2) Behavioural Design Lab (The) - Changing behaviour by design. Londres: Design Council e Warwick Business School, 2012.

(3) Bartlett School of Planning; CABE – The value of good design: public perception. Londres: Bartlett School of Planning, University College London; CABE, 2001.

(4) Commission for Architecture and the Built Environment (CABE) – Simpler and better- Housing design in everyone’s interest. Londres, CABE, 2010.

(5) Fischl, G.; Gärling, A. - Triple-E: A Tool to Improve Design in the Health Care Facilities?. In Fischl, Géza (ed.) - A Psychosocial Approach to Architectural Design: A Methodological Study. Luleå:  Luleå University of Technology, Department of Human Work Sciences, Division of Engineering Psychology , 2004

(6) Bates, Victoria – ‘Humanizing’ healthcare environments: architecture, art and design in modern hospitals. Bristol, University of Bristol, Department of History, Explore Bristol Research, Design for Health, DOI: 10.1080/24735132.2018.1436304, Routledge, publicado online, 15 fev. 2018

 (7) Flores, Angela Rossane Benedetto (mestrado) – Interferência da afetividade no projeto de habitação da terceira idade. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, 2010. Dissertação de mestrado em Arquitetura e Urbanismo incidindo sobre os aspetos de afetivividade na habitação para idosos. Orientador: Prof. Dr. Tarcisio Vanzin.


Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

Qualidade de vida e qualidade pormenorizada na habitação para idosos e intergeracional “I” (versão de trabalho) – Infohabitar # 807

Edição: quarta-feira, 09 de março de 2022

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 807

 

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

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