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terça-feira, outubro 23, 2018

661 - HABITAR CIDADES AMIGAS - Infohabitar 661

INFOHABITAR N.º 661

HABITAR CIDADES AMIGAS - CONVIVIAIS, ACESSÍVEIS, PARA TODOS, E SEGURAS


Conjunto de 29 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 29 artigos, editados entre 2005 e 2012, desenvolvidos por 9 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática do HABITAR CIDADES AMIGAS.

Lembra-se que esta matéria do HABITAR CIDADES AMIGAS constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria do HABITAR CIDADES AMIGAS corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


A cidade ... é o espaço público.
“A grande diferença da cidade para o edifício é que a cidade é uma obra que gera espaços compartilhados onde as pessoas estão condenadas a encontrar-se; é o espaço público. O facto de ser compartilhada justifica a gestão democrática, ou seja, a gestão que não exclui.”
Gonçalo Byrne (2004) - Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51.

É fundamental passar a considerar as cidades como sistemas obrigatoriamente amigos dos humanos e designadamente daqueles mais sensíveis e desprotegidos. Temos de fazer tudo para que as nossas cidades sejam amigas dos seus habitantes. Amigas no sentido da protecção e do apoio a quem nelas habita, e entre estes, privilegiando-se, naturalmente, os grupos sociais mais sensíveis e mais significativos.
Há assim que privilegiar uma aproximação estratégica à satisfação residencial e urbana num quadro amplo de consideração do habitar a casa, o bairro e a cidade, considerando  a presença e a importância dos grupos de habitantes mais sensíveis. Deste modo chegamos ao objectivo operacional de fazer cidades e bairros amigos das crianças e dos idosos e para isso é importante conhecer o melhor possível as soluções urbanas que têm sido usadas com algum êxito nesse sentido, designadamente, nos anos, que nem foram muitos, das grandes cidades modernas, por exemplo, tal como é abordado num trabalho relativamente recente de Francis Tibbalds - Francis Tibbalds, “Making People-Friendly Towns, Londres”, 2000 (1992).
Junta-se, em seguida, uma citação longa do pediatra Mário Cordeiro e do arquitecto Tiago Queiroz , que integra um excelente texto integrado no n.º 4 dos Cadernos Edifícios do LNEC [i] (editado em Março de 2006), e que sintetiza bem os riscos e os benefícios da cidade, numa perspectiva que visa exactamente uma cidade humanizada e vitalizada, e uma cidade amiga dos habitantes mais sensíveis.
(Mário Cordeiro e Tiago Queiroz, “A cidade, a criança e a saúde, contributos para uma mudança de paradigmas”, Lisboa e LNEC, Cadernos Edifícios n.º4, “Humanização e vitalização dos espaços público”, Março de 2006)
“O aparecimento e desenvolvimento das cidades representou um salto qualitativo na história da Humanidade, proporcionando, pela primeira vez ao ser humano, um espaço de tempo, tranquilidade, calma e «folga», associado à possibilidade de conservação de alimentos e de água, bem como de melhor defesa contra inimigos, predadores e catástrofes naturais.
O melhor ambiente vivido nas cidades teve um impacto muito positivo na saúde das populações, e a passagem de uma sociedade de «sobrevivência diária» para uma sociedade de relativa abundância trouxe com ela as profissões especializadas, as trocas comerciais, o intercâmbio de géneros, culturas e pessoas, a escolarização, as artes e ofícios e os pensadores, filósofos e políticos. As crianças, que anteriormente passavam imediatamente da infância à adultícia, ganharam, entre muitas outras coisas, o direito à adolescência.
Actualmente, o conceito de cidade e a sua prática sofreram algumas disrupções, distorções e desvios, criando novos e intensos problemas, no cerne do qual estão os sistemas de transportes, a poluição, a perda de identidades e de sentimentos de pertença, e a descaracterização do espaço público, designadamente a «perda da rua» enquanto espaço lúdico, relacional e estético. As crianças e jovens são os primeiros, a par dos idosos, a sofrer com isso. Não se creia, contudo, que a culpa está nas cidades, mas sim na forma como por vezes estão a ser planeadas e geridas. As cidades são, para a população pediátrica, uma janela de oportunidade, e têm largos benefícios em termos culturais, sociais e de saúde.
Assim, o que há a fazer é rever criteriosamente, de uma forma transdisciplinar, quais são as necessidades do ser humano e de que modo as estruturas existentes lhes podem responder, sem recorrer a soluções tão demagógicas como ineficazes, do tipo «implodir para refazer de novo.»
Redimensionar os espaços de habitação, a sua articulação e a multiculturalidade e carácter transgeracional, redimensionar os espaço comercial, lúdico e laboral, e fazer cada vez mais da cidade um aglomerado de «pequenas aldeias» (bairros), como ainda existem em tantas delas, em que as grandes deslocações sejam muito mais limitadas e os percursos a pé sejam privilegiados, em que as hipóteses de encontro de pessoas da família, amigos, vizinhos seja maior, em que os serviços de educação, saúde, sociais, etc, possam articular-se mais facilmente, poderá ser um desafio à nossa capacidade, mas ao mesmo tempo um desafio intelectualmente estimulante, com efeitos práticos de grande mais-valia, e que beneficiará as crianças e adolescentes de uma forma indelével. Há que reconhecer, evidentemente, o que está mal, mas condenar as cidades sem entender onde está o cerne da questão, poderá ser destruir uma das mais maravilhosas construções sociais que a Humanidade alguma vez produziu.”
É de grande importância considerar e dar relevo, nesta perspectiva de trabalho que privilegia a humanização do habitar, às condições específicas que as cidades ofereçam como espaços amigáveis relativamente aos seus habitantes. Por um lado é essencial que cada um, na sua vizinhança e no seu bairro se sinta rodeado por um espaço globalmente seguro, amigável e afectuoso, que se desenvolva em continuidade. Por outro lado é essencial que o critério de amigabilidade do espaço citadino habitável seja respeitador daqueles mais sensíveis a meios urbanos agrestes e perigosos. Logo, fica bem claro que os espaços urbanos e residenciais têm de ser desenvolvidos considerando-se os grupos sociais que mais carecem de protecção e de enquadramento, e nestes as crianças e os idosos sobressaem claramente.
Finalmente não pode haver dúvidas sobre a oportunidade de se pensar aqui na questão da cidade como universo de base do espaço habitável que se deseja humanizado e especialmente atraente e motivador. É a cidade/povoação, num sentido amplo e consistente, que nos interessa como quadro da humanização do habitar, pois só a cidade, e de certa forma no seu todo, pode e deve oferecer quadros globais que harmonizem o sossego, a segurança e a apropriação nos bairros e nas vizinhanças com a animação, a gradabilidade e a riqueza de um verdadeiro tecido urbano; e sublinha-se que se usa e usará aqui a designação de “cidade” com o significado de espaço urbano coeso e vivo; a cidade de que aqui se fala pode ser uma pequena mas equilibrada povoação.



Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial  HABITAR CIDADES AMIGAS cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

Cuidados e cuidadores

Um país em envelhecimento

Prevenção do crime através da concepção do espaço

Cidade amiga do peão

A Rua

Cidade amigável e habitada

Segurança urbana

Cidades amigas, cidades seguras

Cidade melhor harmonizada e humanizada

O peão

Espaços pedonais

Densidades vitalizadoras

(in)Segurança em zonas de residências

Uma cidade naturalmente segura

Cidades verdadeiramente habitadas e seguras

Cidades desejadas e seguras

Os velhos na cidade velha

A cidade e o recreio

Os idosos e a cidade envelhecida

As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar - textos de Adrian M. Joyce comentados

Cidade habitada

As cidades e os idosos 

Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

HABITAR CIDADES AMIGAS
Infohabitar, Ano X, n.º 477 - Uma atratividade made in Portugal – por Paulo Machado (2 pp., 1 fig.) - http://infohabitar.blogspot.pt/2014/03/uma-atratividade-made-in-portugal.html
Eu amo, eu cuido! Marilice Costi (n.º 420, 16 Dez. 12, 2 págs., 3 figs.).
Um país em envelhecimento - artigo de Paulo Machado e divulgação: de Sessão Técnica LNEC; Visita Técnica e 12.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar - (artigo) Paulo Machado (n.º 384, 11 Mar. 12, 4 págs., 2 figs.).
CONSTRUIR SEGURANÇA: Prevenção do crime através da concepção do espaço – Daniela Fernandes (n.º 334, 20 Fev. 11, 7 págs., 11 figs.).
Sobre uma cidade amiga do peão (i): espaços pedonais estruturados e estruturadores da cidade - António Baptista Coelho (n.º 354, 9 Jul. 11, 7 págs., 4 figs.).
A Rua — será que a podemos perder? – Wilson Zacarias (n.º 335, 27 Fev. 11, 18 págs., 10 figs.).
Uma cidade amigável e habitada, feita de fachadas permeáveis e de vida urbana - António Baptista Coelho (n.º 299, 23 Mai. 10, 6 págs., 6 figs.).
Sobre a segurança urbana - alguns aspectos gerais de reflexão - António Baptista Coelho (n.º 298, 16 Mai. 10, 3 págs., 2 figs.).
Cidades amigas, cidades seguras - Parte I - António Baptista Coelho (Infohabitar, Ano VI, n.º 281, Janeiro 17, 2010, 10 p., 8 fig.)
Cidades amigas, cidades seguras - Parte II - António Baptista Coelho (Infohabitar, Ano VI, n.º 282, Janeiro 24, 2010, 10 p., 15 fig.)
Cidade melhor harmonizada e humanizada: parte II - António Baptista Coelho (Infohabitar, Ano V, n.º 260, Agosto 24, 2009, 8 p., 4 fig.)
Cidade melhor: o peão – parte I, António Baptista Coelho (Infohabitar, Ano V, n.º 259, Agosto 14, 2009, 6 p., 3 fig.).
Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras - António Baptista Coelho (n.º 234, 16 Fev., 09, 6 p., 3 fig.).
(IN)SEGURANÇA EM ZONAS DE RESIDÊNCIAS. O ESPAÇO DA OPORTUNIDADE – artigo de Teresa V. Heitor (n.º 181, 31 Janeiro 2008, 11 págs., 4 figs.)
Sobre uma cidade naturalmente segura - António Baptista Coelho (n.º 158, 20 Set., 07, 23 p., 10 fig.).
À volta da cidade: sobre cidades verdadeiramente habitadas e amigáveis - António Baptista Coelho (n.º 148, 12 Jul. 07, 12 p., 8 fig.).
Cidades desejadas e seguras (I): o problema da habitação tornou-se o problema da cidade – António Baptista Coelho (n.º 134, 13 Abr., 2007, 8 p., 10 fig.) .
Os velhos na cidade velha – Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (n.º 104, 21 Set. 06, 12p., 7 fig.).
A cidade e o recreio, o espaço e o tempo – espaço de alegria e de formação do cidadão – Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (n.º 99, 17 Ago. 06, 6p., 5 fig.).
5.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar - Évora: Os idosos e a cidade envelhecida, com o Grupo Habitar e a Câmara de Évora, relato de António Baptista Coelho (n.º 74, 14 Mar. 06, 4p. 9fig.).
Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar – António Baptista Coelho,(n.º 55, 28 Nov. 05, 7 p., 7 fig.).
Os Velhos – a Cidade e a Sociedade – Maria Celeste Ramos (n.º 49, 2 Nov. 05, 4 p., 3 fig.).
As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar II – objectivos/desafios e alguns comentários - textos de Adrian M. Joyce, comentados por António Baptista Coelho, (n.º 22, 17 Mai. 05, 6 p., 1 fig.).
As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar I - textos de Adrian M. Joyce comentados por António Baptista Coelho(n.º 21, 29 Abr. 05, 3 p.).
Por uma cidade habitada - António Baptista Coelho (n.º 15, 16 Mar. 05, 2 p., 1 fig.).
Habitação sem cidade algumas notas de António Baptista Coelho sobre um texto do Arq. Luis Fernández-Galiano (n.º 14, 13 Mar. 05,1p.).
Dos bairros do crime ao verdadeiro problema da habitação - António Baptista Coelho (n.º 12, 09 Mar. 05, 2 p., 1 com.).
Sobre as cidades e os idosos - comentário de António Baptista Coelho (n.º 9, 28 Fev. 05, 1 p.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 661
HABITAR CIDADES AMIGAS
Conjunto de 29 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

vitalização dos espaços público”, Março de 2006.

domingo, outubro 18, 2015

554 - Espaços públicos e cidades amigas – II , Infohabitar 554


Infohabitar, Ano XI, n.º 554

O presente artigo – que foi editado em duas semanas consecutivas aqui na Infohabitar – regista a Palestra realizada por António Baptista Coelho, na Cidade da Praia, Cabo Verde, no âmbito do Workshop que assinalou o Dia Mundial do Habitat em, em 5 de outubro de 2015. O Workshop visou a temática “Reabilitar com Inovação e Sustentabilidade”, e foi promovida pelo Ministério do Ambiente Habitação e Ordenamento do Território (MAHOT) e pelo Instituto Nacional de Gestão do Território (INGT) da República de Cabo Verde, destacando-se, aqui, a iniciativa e o trabalho dos altos responsáveis do INGT Arq.º João Vieira (Presidente do INGT), da Dr.ª Jeiza Tavares e do Arq.º Francisco Livramento na respetiva preparação.

Ainda como nota preliminar regista-se que é, sempre, na primeira segunda-feira de outubro, que se comemora o Dia Mundial do Habitat, data escolhida pela ONU para refletir sobre a situação das cidades; sendo que o tema deste ano tem a ver com a importância das ruas e dos espaços públicos das cidades para o bem-estar e a qualidade de vida de seus moradores; e salienta-se que o evento se desenvolve durante todo o mês de outubro e culmina em 31 de outubro (Dia Mundial das Cidades)  com o tema “Cidades: Desenhadas para Conviver”.
E, julga-se que bem a propósito, lembra-se o amplo conjunto de estudos teórico-práticos sobre “Espaços exteriores em novas áreas residenciais”, desenvolvidos e editados pelo Núcleo de Arquitectura (NA) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), há cerca de 30 anos, e cujas matérias se encontram totalmente atuais, estando alguns deles ainda disponíveis ne Livraria do LNEC;  e em breve aqui na Infohabitar nos dedicaremos a estes estudos.


A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – II

António Baptista Coelho (*)

Resumo
Regista-se a importância e a necessidade de uma adequada caraterização dos espaços urbanos de uso público, integrados e integradores de áreas residenciais, como elementos protagonistas do desenvolvimento de partes de cidade mais amigáveis e humanizadas.
Neste sentido, defende-se a necessidade do desenvolvimento de projetos urbanos com qualidade arquitetónica e bem pormenorizados, que visem a criação e a recriação (requalificação urbana) de vizinhanças habitacionais e urbanas viáveis e estimulantes, servidas por uma adequada conceção do exterior residencial.
Sequencialmente, aprofunda-se esta temática, e aborda-se a importância do exterior residencial como meio privilegiado de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas, num processo de revisitação, reinterpretação e invenção tipológica, que é urgente assegurar e que se deseja possa proporcionar a devolução do sentido de urbanidade ao exterior residencial.

Índice (a negrito/bold e sublinhado marcam-se os temas que integram o presente artigo, os restantes temas integraram o artigo que foi editado na Infohabitar na semana anterior):
- Importância e caraterização geral do espaço de uso público
-  Projeto urbano
-  Sobre as vizinhanças habitacionais
-  Desenvolver uma adequada conceção do exterior residencial
-  Exterior residencial, como meio de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas
-  Exterior residencial e urbanidade
-  Síntese conclusiva
(Nota: a primeira parte do artigo está editada, aqui na Infohabitar, no n.º xxxx desta revista)

Fig. 05: Travessa Sg. Abílio, Lisboa, Arq. Paulo Tormenta Pinto

Exterior residencial como meio de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas

Importa agora salientar que o trabalho de conceção de variadas tipologias residenciais encontra no relacionamento com o espaço urbano uma excelente base de geração de velhas e novas soluções de agregação entre habitações, equipamentos, espaços de circulação e outros espaços do habitar, com destaque para os espaços de convívio.

Afinal é aqui, no mundo das transições, entre espaços exteriores, entre estes e espaços interiores e entre limiares semi-interiores e semi-exteriores, que se joga a máxima importância do exterior residencial.

Um exterior residencial e urbano que deve ser assumido como um “verdadeiro” interior urbano, e que, por isso, deve ser positivamente configurado, acompanhando e apoiando o habitante desde a entrada no bairro até à proximidade da porta do seu edifício, dando-se pleno uso a um extenso e rico vocabulário arquitectónico e urbanístico que vai desde a rua habitacional e comercial à travessa e ao pátio de vizinhança, passando pelas praças e pracetas residenciais, pelos estacionamentos ajardinados, pelas zonas verdes de enquadramento e de lazer, pelos jardins de convívio e de passeio, e pelos espaços mistos de circulação e de animação urbana.

E aqui no desenvolvimento desta estimulante rede de relações e configurações urbanas específicas estamos a trabalhar exatamente, e tal como refere Siza Vieira, na matéria-base da Arquitectura, que muito mais do que a objetos isolados se refere a uma dimensão de relações e de percursos, e não tenhamos dúvida que os melhores projectos de habitar e de urbanidade são aqueles que sabem e conseguem trabalhar positivamente esta matéria da relação, da transição, do acompanhamento, da integração, da demarcação e do limiar, ao serviço da criação de variadas sequências de vistas estimulantes e que ficam na memória e no coração dos seus habitantes, servindo-se diversos gostos de habitar e enriquecendo-se a imagem urbana.

E assim podemos imaginar passarmos de espaços ainda estrategicamente conviviais e fortemente públicos, para, depois, irmos penetrando, gradualmente, em ambientes onde há já reflexos expressivos da proximidade das nossas casas e da sua identidade específica. E é nestas sequências orgânicas e atraentemente diversificadas que conseguimos encontrar soluções históricas e inventar novas soluções tipológicas residenciais com um excelente potencial de apropriação individual e familiar e de adequação a variados modos de vida, num processo que é verdadeiro urbanismo residencial e não produção maquinal de alojamentos-tipo.

E nestas matérias da caracterização e da criação de uma paisagem urbana pormenorizada e humanizada é obrigatório citar Gordon Cullen (1), quando escreve que: “o conformismo mata, ...; a diferenciação, pelo contrário, é fonte de vida ... (p.13); e que “a composição de um conjunto urbano é potencialmente uma das mais emotivas e variadas fontes de prazer” (p.15).

Fig. 06: C. M. Matosinhos, Telheiro,  2002, f.44, Arq.º Manuel Correia Fernandes.

Exterior residencial e urbanidade


Naturalmente que o tema central nesta reflexão é a coerência e a amigabilidade e mesmo uma expressiva amabilidade dos meios urbanos, uma matéria que tudo tem a ver com uma cidade sensivelmente arquitectada e bem marcada pela urbanidade.

E usamos aqui a excelente definição de urbanidade do arquitecto Manuel de Solá-Morales (2) que nos diz que:
“Há configurações específicas, uma esquina, uma rampa de garagem, as margens de algumas vias..., elementos da cidade que são a sua matéria. Um bairro novo, um quarteirão, é uma matéria, um componente da cidade; mas podem ser elementos mais pequenos, um passeio, as cabinas telefónicas, a maneira como um edifício resolve um desnível... e resolvê-lo bem ou mal é um tema da cidade; são coisas que têm urbanidade, sentido de cidade, se são resolvidas de uma maneira positiva... O trabalho do arquitecto, do urbanista, do engenheiro é materializar essa condição urbana, e é importante pensar e acertar isto. Há que reclamar questões de qualidade, não só de grandes conceitos.”

E a urbanidade entende-se e conquista-se percorrendo a cidade caminhando, harmonizando a cidade caminhada com a dos veículos, e no caminhar lembramos sempre o “jogo” dos objectos urbanos, tão caro a Gordon Cullen, e que é fundamental na leitura e no fazer de uma cidade agradavelmente passeável e amigável, sempre renovada nas suas perspectivas, mas sempre clara na sua estruturação e plenamente arquitetada.

Fig. 07: 1990 - cooperativa As Sete Bicas, Azenhas de Cima, Matosinhos, arq.os Pedro Ramalho, Luís Ramalho

E esta plenitude projetual é essencial no exterior urbano, e aqui se lembra  Herman Hertzberger (3), que nos diz que “devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem utilidade” pois o “arquiteto não deve desperdiçar espaço… pelo contrário deve acrescentar espaço…” (p.186) e citando Aldo van Eyck (1962) o mesmo Hertzberger sublinha ser fundamental fazer “de cada coisa um lugar” fazer “de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme”(p.193)

Síntese conclusiva sobre espaços públicos amigáveis


E esta casa enorme leva-nos à síntese conclusiva desta reflexão em que sublinho que o que é, provavelmente, fundamental é estender, expressivamente, o sentido do habitar para além da porta de entrada de cada habitação, levando-nos a estar ali na rua, a dois passos de casa, como se estivéssemos numa espécie de outra nossa sala de estar, mais ampla, mais partilhada, mais próxima da cidade, mas ainda expressivamente amigável.
Afinal, habitar deve poder ser feito na casa de cada um e na vizinhança de cada conjunto de habitações, uma vizinhança que, por um lado, amplia a casa de cada um e que, por outro, traz a cidade até essa vizinhança.

Fig. 08: C. M. do Porto, 2007, Fontainhas 21 f., Arq.0s Helder Ribeiro e Amândio Cupido

Habita-se, assim, uma espiral contínua de níveis físicos residenciais, desde os limites de um bairro aos espaços domésticos, passando pelos agrupamentos residenciais que, desejavelmente, devem constituir sistemas de vizinhança de proximidade, coesos e atraentes em termos funcionais e visuais, através de sequências de cenários urbanos desejavelmente vivos, seguros e bem encadeados e caraterizados.

Uma caraterização do habitar baseada numa arquitetura urbana muito bem qualificada e culturalmente baseada, que não pode responder apenas a imperativos funcionais, mas também a objetivos culturais, tal como apontam tantos arquitetos como Jean Nouvel e Tadao Ando.

Afinal muitos de nós nunca acreditaram que a habitação e o habitar pudessem ser considerados  como bens de consumo funcionais; pois há muito mais no habitar para lá da funcionalidade, diria mesmo que o verdadeiro habitar começa bem para além da funcionalidade e estende-se bem para lá das portas das habitações.

E cito julgo que a propósito partes de um pequeno texto de Gaston Bachelard: "Em caixas sobrepostas vivem os habitantes da grande cidade...O número da rua e a designação do andar fixam a localização do nosso «buraco convencional», mas a nossa casa não tem nem espaço à volta dela, nem verticalidade... E o estar em casa não é mais do que uma simples horizontalidade".  (4)


Fig. 09: Bairro de Alvalade, Lisboa; urbanismo Arq.º Faria da Costa

E se queremos ultrapassar esta infeliz horizontalidade habitacional é preciso fazer bairros animados e vizinhanças atraentes, baseados num conjunto integrado de qualidades que temos de estudar e reaplicar nas novas intervenções e em ações de requalificação do espaço residencial de uso público, procurando-se criar ambientes urbanos bem articulados e hierarquizados, desde a grande escala urbana aos pequenos mundos das vizinhanças, e ambientes urbanos expressivamente humanizados em termos de uma cuidadosa e bem qualificada arquitetura urbana pormenorizada, bem aplicada aos espaços exteriores de uso público que devem integrar os conjuntos habitacionais, que, eles próprios, devem integrar e vitalizar todos os espaços urbanos.

Notas:
(1) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971).
(2) Malén AZNÁREZ, «Reportaje: Entrevista - Manuel de Solá-Morales “Me interesa la piel de las ciudades”», in EL PAÍS.com, editado em 12.10.2008, consultado em 30.10.2008.
(3) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, 1996 (1991).
(4) G. Bachelard, "La Poétique de l'Espace", p. 30.

(*) António Baptista Coelho
Investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), arquiteto (ESBAL), editor da Infohabitar (http://infohabitar.blogspot.pt/), coordenador do Secretariado Permanente do Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (CIHEL)

Infohabitar, Ano XI, n.º 554
A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – II
Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, outubro 11, 2015

553 - Espaços públicos e cidades amigas – I , Infohabitar 553

Infohabitar, Ano XI, n.º 553

O presente artigo – que será editado em duas semanas consecutivas, aqui, na Infohabitar – regista a Palestra realizada por António Baptista Coelho, na Cidade da Praia, Cabo Verde, no âmbito do Workshop que assinalou o Dia Mundial do Habitat em, em 5 de outubro de 2015. O Workshop visou a temática “Reabilitar com Inovação e Sustentabilidade”, e foi promovida pelo Ministério do Ambiente Habitação e Ordenamento do Território (MAHOT) e pelo Instituto Nacional de Gestão do Território (INGT) da República de Cabo Verde, destacando-se, aqui, a iniciativa e o trabalho dos altos responsáveis do INGT Arq.º João Vieira (Presidente do INGT), da Dr.ª Jeiza Tavares e do Arq.º Francisco Livramento na respetiva preparação.

Ainda como nota preliminar regista-se que é, sempre, na primeira segunda-feira de outubro, que se comemora o Dia Mundial do Habitat, data escolhida pela ONU para refletir sobre a situação das cidades; sendo que o tema deste ano tem a ver com a importância das ruas e dos espaços públicos das cidades para o bem-estar e a qualidade de vida de seus moradores; e salienta-se que o evento se desenvolve durante todo o mês de outubro e culmina em 31 de outubro (Dia Mundial das Cidades)  com o tema “Cidades: Desenhadas para Conviver”.
E, julga-se que bem a propósito, lembra-se o amplo conjunto de estudos teórico-práticos sobre “Espaços exteriores em novas áreas residenciais”, desenvolvidos e editados pelo Núcleo de Arquitectura (NA) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), há cerca de 30 anos, e cujas matérias se encontram totalmente atuais, estando alguns deles ainda disponíveis ne Livraria do LNEC;  e em breve aqui na Infohabitar nos dedicaremos a estes estudos.
 A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – I
António Baptista Coelho (*)

Resumo

Regista-se a importância e a necessidade de uma adequada caraterização dos espaços urbanos de uso público, integrados e integradores de áreas residenciais, como elementos protagonistas do desenvolvimento de partes de cidade mais amigáveis e humanizadas.

Neste sentido, defende-se a necessidade do desenvolvimento de projetos urbanos com qualidade arquitetónica e bem pormenorizados, que visem a criação e a recriação (requalificação urbana) de vizinhanças habitacionais e urbanas viáveis e estimulantes, servidas por uma adequada conceção do exterior residencial.

Sequencialmente, aprofunda-se esta temática, e aborda-se a importância do exterior residencial como meio privilegiado de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas, num processo de revisitação, reinterpretação e invenção tipológica, que é urgente assegurar e que se deseja possa proporcionar a devolução do sentido de urbanidade ao exterior residencial.

Índice (a negrito/bold e sublinhado marcam-se os temas que integram o presente artigo, os restantes temas integram o artigo a editar na Infohabitar na próxima semana):
  •        Importância e caraterização geral do espaço de uso público
  •        Projeto urbano
  •       Sobre as vizinhanças habitacionais
  •        Desenvolver uma adequada conceção do exterior residencial
  •     Exterior residencial, como meio de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas
  •     Exterior residencial e urbanidade
  •     Síntese conclusiva

Fig. 01: (1991) Faro, coop. Coobital, arq José Lopes da Costa e arq. José Brito.


Importância e caraterização geral do espaço de uso público

Como nota prévia sublinha-se que o espaço urbano tem de ser um espaço envolvido por habitação, portanto naturalmente vitalizado, e, simultaneamente, que o espaço urbano tem de acompanhar e envolver a habitação com espaços de uso público que sejam agradáveis, seguros, variados e com alguma animação.
Na envolvente da habitação procuramos condições bem diferentes das que são possíveis no interior das nossas casas, tais como ruas animadas, jardins tranquilos e espaços de recreio, organizados em sequências que apoiem a orientação dos habitantes.
Poder habitar e usar com prazer e em segurança a vizinhança, à porta de casa, é uma condição fundamental para a satisfação e para o exercício de uma vida urbana em plenitude e para se evitar que as pessoas se isolem, negativamente, nos seus mundos privados.
Em primeiro lugar importa salientar que o espaço exterior urbano deve proporcionar adequadas condições de habitabilidade e de conforto:
- protegendo relativamente às diversas fontes de poluição, incluindo as fontes de ruído, e aos perigos e incómodos associados à circulação de veículos motorizados;
- e convidando a uma intensa estadia no exterior em actividades circulação, lazer  e convívio, num contacto estimulante com a natureza e num meio que seja especialmente amigável para crianças e idosos.
Fig. 02: 1995, Coop. Massarelos, Porto, 95 f., Arq.ºs Francisco Barata e  Manuel Fernandes Sá.

Importa, assim, ter em conta se há obstáculos à velocidade excessiva dos veículos motorizados, se há percursos pedonais com continuidade e protegidos, por exemplo nos acessos mais usados por crianças, se há boas condições de acessibilidade para veículos em acções de emergência e se os estacionamentos são funcionais, mas não saturam com revestimentos betuminosos os espaços em torno dos edifícios, que têm de ter dignidade e calma residencial.


Projeto urbano

Importa também sublinhar que o projeto urbano deve ter exigências específicas, designadamente, de escala geral de tratamento, de funcionalidades, de durabilidade e de capacitação efetiva para o uso humano que são bem distintas da do projeto de edifícios e que é essencial considerar.
Nesta perspetiva é importante, embora seja naturalmente sensível, comentar que um bom projetista de edifícios pode não o ser ao nível dos espaços urbanos, sendo aqui vital integrar a contribuição de uma arquitetura paisagista bem qualificada e totalmente integrada no projeto global, e em tudo isto e como é habitual, é essencial ter em conta casos de referência concretos, que podem constituir-se em marcos de identificação de objetivos de projeto e de obra.


Sobre as vizinhanças habitacionais

Em termos gerais, uma vizinhança habitacional bem integrada na cidade, agradável e sossegada terá sempre uma positiva influência no bem-estar social dos respectivos habitantes, enquanto um espaço residencial massificado, cheio de automóveis, sem identidade, confuso e separado da vida da cidade terá, sempre, uma negativa influência na vida social das famílias que aí habitam.
E bons espaços para peões, agradáveis e seguros, envolvendo a habitação, são fundamentais para a saúde das pessoas mais sensíveis, para o crescimento das crianças e para o lazer dos idosos, motivando o uso intendo do exterior, com vantagens: directas para a saúde física e psíquica dos habitantes; e indirectas por aumento da animação, do convívio e, consequentemente, da segurança.

Fig. 03: Funchal, Imopro, 2006, Arq.ª Carla Baptista e Arq. Freddy Ferreira César.

E importa ainda salientar ser possível estimular uma convivialidade natural na envolvente da habitação, seja por conjuntos habitacionais pequenos, seja pela oferta de espaços públicos agradáveis.
Em todo este processo de dinamização do uso do exterior na envolvente da habitação é essencial sublinhar que os jardins e os espaços ajardinados são elementos protagonistas dessa dinamização pois proporcionam satisfação, bem-estar e muitas vantagens para a saúde física e psíquica, sendo, até, a introdução do verde a única solução, ou talvez a solução mais efetiva, no sentido de se recuperarem e humanizarem muitos dos nossos espaços urbanos e residenciais; afinal, os jardins urbanos proporcionam emoções únicas e a relação com a natureza é essencial para o bem-estar humano.
Mas tal apontamento não quer dizer que a aplicação e o adequado desenvolvimento e manutenção de bons espaços e elementos de verde urbano constituam medidas fáceis e baratas; a boa naturalização do ambiente urbano exige adequadas medidas de paisagismo, bem integradas na continuidade urbana, e que têm, naturalmente, os seus custos de projeto, “construção” e manutenção.
E sobre esta temática ainda se sublinha que por vezes se aplica boa parte desta sequência de medidas com os seus respetivos custos, mas depois se esquece incrivelmente a respetiva manutenção, ou então no ano subsequente ao desenvolvimento de um dado jardim tem-se cuidado com o jardim e nos anos seguintes ele é quase abandonado; e o resultado não é apenas um negativo ambiente urbano, mas também o verdadeiro desperdício de todo o respetivo investimento, para além de se dar um péssimo sinal aos habitantes no que se refere à necessidade de se manter e estimar a natureza urbana.


Desenvolver uma adequada conceção do exterior residencial

Desenvolvendo, um pouco mais, a caraterização dos espaços exteriores de conjuntos habitacionais, salienta-se que estes devem ajudar a fazer a transição entre os espaços privados das habitações e o vasto espaço público, registando-se que nas causas de insatisfação residencial, a má vizinhança vem logo a seguir à falta de espaço na habitação, havendo menor incidência de problemas sociais em agrupamentos e vizinhanças de  edifícios habitacionais pouco altos, com reduzidos números de habitações, e que rodeiam espaços exteriores bem definidos, bem vitalizados por actividades próprias e pela ligação á cidade, bem arranjados e com uma manutenção simples e bem definida em termos de responsabilidades.


Tais vizinhanças residenciais devem ser constituídas por soluções de microurbanismo integradas por tipologias habitacionais diversificadas, bem ligadas ao espaço público e marcadas por uma agradável diversidade de imagens urbanas, que evidenciem as relações de escala humana, as sequências de atividade ao longo de variados percursos locais, e as sequências de ambientes urbanos e naturais que devem caraterizar a identidade específica de cada intervenção.


Fig. 04: (1990) Madalena, Funchal, Coop. Coohafal, arq. Guilherme Barreiros Salvador.

Tudo isto também se refere, afinal, a um renovado urbanismo habitacional que garanta um agradável ambiente lúdico aos seus habitantes, um ambiente que não pode ser monótono, sem escala humana, marcado pela repetição doentia de projetos tipo caraterizado por espaço públicos sobrantes e residuais.
Devemos, então, trabalhar e aproveitar todo o potencial de de atração e de uso intenso do exterior habitacional, havendo, no entanto, que cuidar, com toda a atenção alguns quadros físicos específicos, entre os quais se destacam:

- as situações “físicas” associáveis a matérias de segurança pública no uso dos espaços de uso público; assunto este que tem sido tratado no âmbito das matérias associadas à CPTED – Crime Prevention Through Environmental Design (em português: “prevenção criminal através do espaço construído”); e apenas para as lembrar referem-se os aspetos de redução de zonas pouco visíveis e o controlo visual de percursos e acessos;

- as situações “físicas” que comprovadamente podem estimular a intensidade e a frequência no uso dos espaços públicos, condição esta essencial, quer para o desenvolvimento do convívio natural no exterior, quer para aí proporcionar melhores condições de segurança natural, por intensidade e diversidade de usos e por reforço da visibilidade mútua e próxima;

- e as situações mais favoráveis para os grupos socioculturais e etários mais sensíveis, como é o caso das crianças e jovens, dos idosos e dos condicionados na mobilidade e na perceção, pois sendo os utentes do exterior mais vulneráveis, são, frequentemente, aqueles que tendem a usar, ou deveriam usar, mais intensamente o espaço público e ainda, e no caso específico das crianças, são aqueles para os quais o espaço público assume um vital papel formativo; e não tenhamos dúvidas que apoiar o uso do exterior residencial por crianças e idosos é dinamizar o seu uso por toda a população.

E atenção que tal como avisou Jane Jacobs há muitos anos: é o uso mais intendo que torna o espaço público mais seguro, somos nós próprios com a nossa presença frequente e prolongada no exterior residencial, que o habitamos e tornamos mais seguro.
E para além de tudo isto há técnicas de avaliação pós-ocupação que permitem identificar e melhorar as condições de vivência local do espaço de uso público; e há procedimentos de segurança pública que podem e devem ser associados a estes processos, como é o caso do policiamento de proximidade.

(o artigo será concluído com a edição, aqui na Infohabitar, da respetiva 2.ª parte, na próxima semana)


Notas:
(1) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971).
(2) Malén AZNÁREZ, «Reportaje: Entrevista - Manuel de Solá-Morales “Me interesa la piel de las ciudades”», in EL PAÍS.com, editado em 12.10.2008, consultado em 30.10.2008.
(3) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, 1996 (1991).
(4) G. Bachelard, "La Poétique de l'Espace", p. 30.

(*) António Baptista Coelho
Professor catedrático convidado e coordenador da Área de Arquitetura (UBI), investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), arquiteto (ESBAL), editor da Infohabitar (http://infohabitar.blogspot.pt/), coordenador do Secretariado Permanente do Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (CIHEL)

Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XI, n.º 553
A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – I
Editor: António Baptista Coelho 
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GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e


Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.