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terça-feira, agosto 14, 2018

653 - Casos habitacionais e urbanos de referência - Infohabitar 653

INFOHABITAR N.º 653
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) 

Conjunto de 27 artigos

 

Nota prévia:

Avisam-se os estimados leitores de que nas próximas duas semanas a Infohabitar estará ausente, para umas pequenas férias e que retomaremos as edições semanais habituais na próxima segunda-feira dia 3 de setembro; deixa-se, no entanto, com o presente artigo o que se julga ser um muito amplo e excelente “pacote” de links para um conjunto tão diversificado como interessante de casos de referência urbanos e habitacionais, que merecem renovada e continuada atenção.

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma nova tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 27 artigos, editados entre 2007 e 2011, realizados por 9 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido a CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação).

E lembra-se que esta matéria dos CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Chamamos a atenção, muito especificamente, nesta série editorial para a grande diversidade de casos abordados e, naturalmente, para um perfil de abordagem onde se procura, sistematicamente, associar aspectos práticos a aspectos de enquadramento qualitativo e exigencial.

Lembra-se, mais uma vez, que melhores espaços habitacionais – e há quem defenda que todo o espaço construído pelo homem é espaço de habitar – são determinantes de uma melhor qualidade de vida diária a curto, médio e longo prazos.

Uma série de temas são apresentados nos 27 artigos cujos links se disponibilizam, em seguida, e apenas para despertar o interesse dos leitores salientam-se, desde já, alguns deles: o excelente e sempre inovador Bairro de Alvalade, em Lisboa, abordado por vários autores e sob variadas perspectivas; diversos casos de referência do Prémio IHRU, com destaque para conjuntos tipologicamente humanizados e diversificados; a nova Bouça de Siza Vieira, realizada com iniciativa cooperativa; duas pequenas casas, uma de Ralph Erskine e outra Eduardo Anahory, na Arrábida; um excelente caso habitacional e urbano ainda ligado ao velho SAAL, o Bairro Luta pela Casa – em Carnaxide, Oeiras; nas palavras do grande amigo Arquitecto Duarte Nuno Simões, o relembrar do saudoso arquitecto Filipe Oliveira Dias com um seu projecto de habitação de interesse social premiado, realizado em coautoria com o arquitecto Rui Almeida, no Monte de São João, Porto; lembranças formativas/informativas sobre as metodologias das Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência e dos Prémios INH e IHRU; a evolução da produção de Habitações de Interesse Social em São Paulo; um artigo sobre a excelente inovação tipológica residencial proporcionada pela Residência Madre Maria Clara (conjunto de diversos tipos de unidades residenciais e de equipamentos de apoio a idosos) – na Outurela, em Oeiras (promoção municipal); e vários artigos sobre a importância da promoção de habitação de interesse social pelas Cooperativas de Habitação Económica, associadas na FENACHE.

Fiquem, então, com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial,
tratando-se, neste caso, do que se julga ser uma muito estimulante selecção de casos de referência urbanos e residenciais.

Boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação) 

Falar de Arquitectura falando de qualidade - Sobre a Casa de Ralph Erskine – artigo de Luís Morgado (n.º 314, 3 Out. 10, 10 págs., 14 figs.) .

Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – II: o Outeiro da Forca, em Portalegre - António Baptista Coelho (n.º 358, 16 Ago. 11, 9 págs., 9 figs.).

Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – I: a nova Bouça, no Porto - António Baptista Coelho (n.º 357, 3 Ago. 11, 8 págs., 11 figs.).

Habitação de interesse social no bairro de Alvalade - artigo de António Carvalho (n.º 313, 26 Set. 10, 7 págs., 6 figs.) .

Um caso de estudo – Bairro Luta pela Casa – Carnaxide - artigo de João Rainha Castro (n.º 311, 12 Set. 10, 6 págs., 6 figs.) .

Cruzamento da Av. EUA/Av. Roma: adaptabilidade e atractividade - artigo de António Carvalho (n.º 310, 3 Set. 10, 5 págs., 4 figs.) .

Percepção rápida da QUALIDADE: Conjunto habitacional premiado no Calhariz de Benfica - artigo de Luís Morgado (n.º 308, 18 Ago. 10, 4 págs., 2 figs.)

Atractividade e agradabilidade – Residência Madre Maria Clara – Outurela - artigo de João Rainha Castro (n.º 307, 10 Ago. 10, 6 págs., 7 figs.) .

A NHC, Nova Habitação Cooperativa e os Prémios INH-IHRU Alguns casos urbanos e habitacionais de referência – artigo de António Baptista Coelho (n.º 227, 22 Dezembro 2008 12 págs., 12 figs.) .

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, III – artigo de António Baptista Coelho (n.º 179, 17 Janeiro 2008 18 págs., 11 figs.).

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, II – artigo de António Baptista Coelho (n.º 178, 10 Janeiro 2008 15 págs., 8 figs.).

Alvalade, de Faria da Costa. uma cidade na cidade - o mistério de Alvalade, I – artigo de António Baptista Coelho (n.º 176, 28 Dezembro 2007 13 págs., 5 figs.).

Evolução da produção de Habitações de Interesse Social em São Paulo - artigo de João Cantero (n.º 172, 29 Novembro 2007, 13 págs., 15 figs.).

Reposição da Casa-abrigo Eduardo Anahory: Arrábida, 1960 – um artigo de Pedro Taborda (n.º 168, 9 Nov. 07, 25 p. 17 fig.)

Um prémio residencial formativo – texto de António Baptista Coelho (n.º 156, 6 Set. 07) .

Humanização e densificação urbana – texto de António Baptista Coelho (n.º 155, 30 Ago. 07).

Notas sobre a integração urbana e paisagística – artigo de António Baptista Coelho (n.º 154, 23 Ago. 07).

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho (n.º 153, 17 Ago. 07).

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade – artigo de António Baptista Coelho (n.º 152, 9 Ago. 07).

Sobre Alvalade, um comentário - Pedro Taborda (n.º 135, 20 Abr. 07, 2 p., 1 fig.).

Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais – António Baptista Coelho (n.º 133, 06 Abr. 07, 15 p., 16 fig.).

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João – Duarte Nuno Simões, com ilutração de António Baptista Coelho (n.º 129, 08 Mar. 07).



Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 653
CASOS HABITACIONAIS E URBANOS (estudo, análise e divulgação)
 Conjunto de 27 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 30, 2010

300 - Nuno Teotónio, Correia Fernandes e a 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar em Junho de 2010, entre outras matérias, no n.º 300 - I do Infohabitar - Infohabitar 300 I



Infohabitar, Ano VI, n.º 300 - Iartigo de António Baptista Coelho e Defensor de Castro

Pequena introdução


Caros leitores do Infohabitar, caros amigos,

A edição do Infohabitar e o Grupo Habitar saúdam todos os leitores desta revista, esperam que nos continuem a ler e a consultar quando procurando elementos sobre determinados temas habitacionais e urbanos, e que nos continuem a enviar os vossos comentários e, sempre que possível, artigos para eventual edição na nossa revista.

Porque o n.º 300 de uma revista é sempre uma ocasião muito especial - a próxima será o nº 500 mas para esse haveremos de fazer algo ainda mais substancial - solicitámos aos leitores o envio de colaborações para constituir um n.º 300 especial; e estamos muito satisfeitos pois foram-nos enviados três excelentes textos/artigos que iremos editar na sequência do respectivo envio e em "três edições 300" consecutivas, a saber: a 300 - I (esta mesma edição); a 300 - II, em 6 de Junho de 2010; e a 300 - III, em 13 de Junho de 2010.

E desde já se referem os títulos e os autores destes textos e artigos, que muito se agradecem:


  • "Simples e breves palavras para Nuno Teotónio Pereira"
por Maria Tavares, editado no presente n.º 300 - I do Infohabitar.


  • "Habitação em Lisboa: Memória do GTH – 50 ANOS", seguido de "O GTH e o papel do engenheiro Jorge Carvalho de Mesquita"

  • por Jorge Mangorrinha; a editar no n.º 300 - II do Infohabitar, 6 de Junho de 2010.


    • "Infra-estruturas de telecomunicações em loteamentos, urbanizações e conjuntos de edifícios (ITUR), Projecto"

    • por Eduardo Simões Ganilho; a editar no n.º 300 - III do Infohabitar, 13 de Junho 2010.

      Considerando-se a temática do primeiro texto enviado, sobre o Nuno Teotónio Pereira, ficou, desde logo, resolvida a ordem de apresentação das diversas partes que integram esta edição do Infohabitar 300 - I, pois nem seriam precisas palavras para se perceber toda a lógica e toda a oportunidade científica, técnica e humana de se marcar esta "fronteira" editorial do Infohabitar com um texto sobre um Homem único na história da cidade, da habitação e da habitação de interesse social feita em Portugal no Século XX, e, ainda, um amigo e um companheiro do Grupo Habitar (GH) desde a sua fundação.

      Mas este número foi sendo quase auto-composto à medida que foi sendo pensado, parecendo haver nele uma subtil e agradável naturalidade, pois aconteceu ainda, na semana que passou, a última aula "oficial" na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), do nosso companheiro da direcção do Grupo Habitar, Manuel Correia Fernandes, outro Arquitecto que não precisa de apresentações, mas o GH tinha de sublinhar esta data e assim e com a devida referência à origem, junta-se uma imagem e um texto com que a FAUP divulgou esta aula.

      Depois a ideia foi divulgar as acções próximas do Grupo Habitar, bem ao nosso jeito de estarmos sempre, ou o mais possível, em actividade, e assim faz-se a primeira divulgação da 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, que decorrerá na quarta-feira dia 16 de Junho, no Cais de Gaia, com a cooperação da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e da CidadeGaia SRU, e onde haverá a oportunidade de debater matérias de reabilitação da cidade e do habitar, editando-se, desde já, o respectivo programa, que se julga excelente - e sublinhando-se ser a entrada livre, mas sujeita a inscrição.

      E assim e naturalmente ficou para o final da edição, para a sua 4.ª Parte, um pequeno texto sobre o que foi e é esta "aventura" editorial do Infohabitar que chegou à edição n.º 300, e sobre os muitos que lhe deram vida.

      A presente edição 300 - I do Infohabitar será, assim, dividida em quatro partes distintas:

      1.ª Parte: um texto sobre Nuno Teotónio Pereira, escrito por Maria Tavares.

      2.ª Parte: um texto sobre a jubilação e a "última" aula de Manuel Correia Fernandes na FAUP - texto e imagem retirados da divulgação do evento feito pela FAUP.

      3.ª Parte: divulgação do programa da 19ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, em 16 de Junho de 2010, no Cais de Gaia sobre o tema "Reabilitação Urbana e Habitacional".

      4.ª Parte: um pequeno texto sobre as primeiras 300 edições do Infohabitar.

      E assim se deseja aos leitores uma excelente viagem por estas matérias e se lembra que o n.º 300 do Infohabitar terá continuidade nas duas próximas semanas com os dois excelentes artigos que foram acima referidos,

      Com as melhores saudações,

      António Baptista Coelho - Pres. Dir. do GH
      Defensor de Castro - Vice Pres. Dir. do GH



      Fig. 00: Nuno Teotónio numa acção do Grupo Habitar no então Instituto Nacional de Habitação, com Vasco Folha, Raúl Hestnes Ferreira e Teixeira Trigo, em Março de 2006.

      1.ª Parte:
      simples e breves palavras para Nuno Teotónio Pereira

      Este é um testemunho meramente pessoal, embora admita que seja facilmente reconhecido por outros. Faço-o, aqui nesta ocasião, na perspectiva de que o habitar pode ser a causa de uma vida. E faço-o com um discurso aberto e descomprometido, tal como Nuno Teotónio me ensinou e sempre me recebeu.

      Cedo lhe conheci a obra da cidade, fruto de circunstâncias de quem a percorria diariamente, e de quem teve a sorte de conviver directamente com a obra através de amigos: nos degraus das galerias do Bloco das Águas fiz pulseiras; subi várias vezes ao último piso do Franjinhas, este, já sem as curiosas palas de sombreamento, mas com uma vista surpreendente... até a Igreja do Sagrado Coração de Jesus servia para cortar caminho. Obras que visitei, habitei e explorei ainda com a curiosidade de adolescente.



      No percurso académico, confrontei-me com outras. Essas, distantes da minha jornada diária... e que se tornou inevitável ir ao seu encontro. Umas conhecendo na totalidade, outras, espreitando apenas entre grades, na esperança de um convite para entrar.

      Um projecto de mestrado, foi a razão para um primeiro contacto.

      Assim, conheci-o pessoalmente há cerca de 12 anos, quando depois de uma tímida chamada telefónica para o atelier da Rua da Alegria, me convidou a aparecer e a partilhar com ele as minhas dúvidas e incertezas sobre o caminho da minha investigação, ainda literalmente no início.

      Guardo na memória a primeira imagem da sua sala, “e digo que para além de livros expostos, consigo montar uma rede de relação entre objectos.
      Mesas, cadeiras, livros, muitos livros, um velho telefone que toca, a luz difusa que entra por duas janelas a Norte, o barulho dos carros que apitam lá fora, 3 pisos abaixo, na inclinada Rua da Alegria,... coisas encostadas às paredes, coisas por baixo das mesas, coisas em cima das mesas. Um cheiro frio a tempo, e uma experiência partilhada por relações com outros que se revela nesta imagem.” (i)

      Falou-me serenamente do que eu pensava que conhecia, na perspectiva de quem usa a obra, de quem a habita, do utente... e sempre no plural, sempre associando outros, importantes para o seu percurso, indispensáveis na sua obra.

      Mostrou-me os seus projectos, apresentou-me escritos seus e de outros, a sua viagem a Itália com Nuno Portas (para ver arquitectura), as suas experiências, os Congressos, o Inquérito à Arquitectura, os preciosos recortes de jornal, a experiência da Casa Protótipo, outras realidades, outros arquitectos. Mas mais do que tudo, confrontou-me não com a história da arquitectura, mas com o real sentido de um país em mudança... com a força de uma geração, que aos poucos fui conhecendo.

      Acreditou no meu projecto, que acabou por se realizar graças ao empenho e dedicação de muitos da sua geração, mas essencialmente às portas que me abriu.

      E assim fomos mantendo contacto. Eu, sempre solicitando, ele, sempre oferecendo a sua perspectiva pessoal, a sua motivação, a experiência de uma vida.

      Agora que me encontro noutra fase do meu percurso académico, vou escrevendo textos, ensaios, papers onde as suas obras têm especial relevo, que volto a visitar, a percorrer e a reconhecer cantos e recantos... sempre à procura desta responsabilidade social e deste serviço público que as invade... e que diariamente partilho com os meus alunos.

      Há bem pouco tempo, numa conversa ainda no seu atelier, num espaço perfeitamente acumulado de diversas experiências ordenadas, fala-me de uma prática, remetendo-a para os anos 50: ... estávamos numa época muito experimental, sobretudo nestes programas económicos através da Previdência como espaço de discussão... as viagens, os congressos, outras experiências,... e o valor da representação social da casa.

      E é através do estudo da Previdência que tenho conhecido, mais do que uma obra, um Homem. Um Homem, cuja generosidade é constante.

      Em Março de 2009, assisti na plateia à cedência do seu acervo documental sobre habitação e urbanismo ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil ... um precioso mundo de informação, disponível para todos e que tenho curiosamente visitado... sempre cruzando com as suas palavras e orientações.

      Agora que percebo que afinal os degraus da galeria do Bloco das Águas tinham a função de proporcionar privacidade às casas, e que a Igreja do Sagrado Coração com o seu percurso entre quarteirões, serviu para construir cidade e para abrir a igreja à sociedade... agradeço-lhe o constante encorajamento e a sua generosidade para com a vida, para com todos nós que procuramos entender o seu experimentalismo, o seu contextualismo, o seu discurso moderno.

      Obrigada Nuno Teotónio Pereira.

      Maria Tavares, arquitecta

      (i) Excerto de um ensaio elaborado para a Unidade Curricular “Domínio das Imagens”, intitulado “Proposta de Viagem ao Atelier da Rua da Alegria ... a partir de uma Imagem”, no âmbito do Programa de Doutoramento em Arquitectura, FAUP, Março, 2009.




      Fig.01: a sala onde está organizada a colecção documental sobre habitação e urbanismo que Nuno Teotónio cedeu ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil - a sala integra a biblioteca do LNEC .




      Fig. 02: cartaz da FAUP que anunciou a Aula de Manuel Correia Fernandes


      2.ª Parte: sobre a jubilação e a "última" aula de Manuel Correia Fernandes na FAUP em 27 de Maio - texto e imagem retirados do documento do Conselho Directivo da FAUP que divulgou o evento.
      Manuel Correia Fernandes Última Aula. "Viagem"
      27 de Maio, 17h30, Auditório Fernando Távora, FAUP

      O Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto convida V.Ex.ª para a Última Aula do Prof. Manuel Correia Fernandes, que terá lugar no dia 27 de Maio de 2010, às 17h30, no Auditório Fernando Távora, FAUP.

      Manuel Correia Fernandes, Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto proferirá a sua Última Aula, intitulada "Viagem", no dia 27 de Maio de 2010, pelas 17h30, no Auditório Fernando Távora.

      Manuel Correia Fernandes, nascido em 1941, diploma-se em Arquitectura pela Escola Superior Belas Artes do Porto (ESBAP) em 1966, e inicia, em 1972, na mesma escola, a carreira docente que exerce ininterruptamente até 2009.

      Foi membro e presidente eleito dos Conselhos Directivo, Científico e Pedagógico e da Assembleia de Representantes da ESBAP e da FAUP, assim como da Assembleia e do Senado da Universidade do Porto. Foi Director do Curso de Mestrado em Metodologias de Intervenção no Património Arquitectónico da FAUP, Professor de Cursos de Mestrado nas Faculdades de Engenharia e de Economia da UP e Coordenador dos Cursos de Verão da Associação das Universidades da Região Norte (AURN).Participa em exposições, conferências, colóquios e debates em Portugal e no estrangeiro.

      Consultor e perito em organismos e instituições públicas e privadas, participa activamente na vida cívica, social e política da cidade e do país.

      Foi Presidente do Conselho Nacional de Disciplina da Ordem do Arquitectos, tendo sido dirigente da Associação e da Ordem dos Arquitectos Portugueses em diferentes ocasiões. Membro da Comissão Executiva do Conselho de Administração da Sociedade Porto 2001 até Novembro/99, foi responsável pelo Programa de Revitalização e Requalificação Urbana da Baixa do Porto.

      Nomeado para o Prémio de Arquitectura na III Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian de 1986 e para o prémio Secil da Arquitectura em 1992, foram-lhe atribuídos o Prémio Nacional de Arquitectura da Associação dos Arquitectos Portugueses (1987),Prémio Nacional do Instituto Nacional de Habitação (1993 e 2003), Prémio Extraordinário Fernando Belaunde Terry - IV Bienal Ibero-Americana de Arquitectura - Lima - Peru, (2004) entre outros.

      Autor de trabalhos publicados em livros, revistas e jornais da especialidade e colaborador regular da imprensa diária. Exerce, no Porto e ininterruptamente desde 1966, a profissão de arquitecto, em regime livre.

      Manuel Correia Fernandes foi agraciado, em 2005, com o Grau de Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública.



      Fig. 03: Manuel Correia Fernandes numa Conferência do Grupo Habitar no Porto em Maio de 2004.

      (nota: o texto que se segue foi elaborado pelos autores deste artigo)

      E no jornal Público de 28 de Maio, juntava-se a uma grande fotografia de Manuel Correia Fernandes em plena aula, no dia anterior, a referência a ter acontecido uma sala cheia de "amigos, colegas e alunos" e que na sua aula o arquitecto recordou a preocupação de "trabalhar com as pessoas", como aconteceu no conjunto habitacional cooperativo do Aldoar e não para o "exercício da sua própria auto-estima".

      "E porque, segundo o professor jubilado, «a viagem tem um papel decisivo na formação do arquitecto», Correia Fernandes apresentou muitos dos lugares que visitou. Através de pequenos esboços e do seu «caderninho de viagens», deu a conhecer memórias «muito pessoais» que nunca tinha partilhado. No «fim formal de um ciclo de vida», o professor disse guardar «recordações muito boas» da FAUP, a que chamou «casa»..." - citação do artigo do Público de Idalina Silva, em 28 de Maio de 2010.



      Fig. 04: uma vista de Vila Nova de Gaia - fonte CM de Vila Nova de Gaia

      3.ª Parte: divulgação da 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar (GH), sobre o Tema: REABILITAÇÃO URBANA E HABITACIONAL, 16 de Junho de 2010 no Cais de gaia, Vila Nova de Gaia


      Fig. 05: Grupo Habitar, C. M de Vila Nova de Gaia e CidadeGaia SRU


      Grupo Habitar – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade
      Habitacional, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e CidadeGaia - SRU

      19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar (GH)
      Tema:
      REABILITAÇÃO URBANA E HABITACIONAL
      16 de Junho de 2010, entre as 10h 00 e as 18h 00,
      no auditório das CAVES CÁLEM no Cais de Gaia


      A 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar irá decorrer em Vila Nova de Gaia, numa parceria com a respectiva Câmara Municipal e a CidadeGaia-SRU, sobre a temática da reabilitação urbana e habitacional, no dia 16 de Junho de 2010.

      Programa da 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar
      • 10h 00: Recepção dos Participantes.
      • 10h 30: Abertura da 19.ª Sessão Técnica do GH, com as seguintes intervenções: Dr. Luís Filipe Menezes, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; Arq.º António Baptista Coelho, Presidente da Direcção do GH.
      • 11h 00: Sessão da manhã
        Dr.ª Arq.ª Ana Pinho, Bolseira de Pós-doutoramento do LNEC (GH): "Reabilitação de Edifícios vs Reabilitação Urbana: As contradições persistentes em Portugal".
        Eng.º António Vilhena, Assistente de Investigação do LNEC: “Avaliação do estado da conservação de edifícios considerando prioridades de actuação”.
      • 12h 00: Debate
      • 12h 30: intervalo para almoço (livre)
      • 14h 30: Sessão da tarde
        Arq.º João Nascimento: “Projecto de Recuperação e Valorização do Castelo de Paderne”.
        Prof. Dr. Gonçalves Guimarães, Arqueólogo, Director do Solar Condes de Resende : “Aspectos de enquadramento da arqueologia em meio urbano”.
      • 16h 00: Intervalo para café
      • 16h 30: Sessão da tarde (continuação)
        Prof. Dr.ª Fernanda Paula Oliveira, Assistente da FDUC: “O regime transitório do novo RJRU”.
        Prof. Arq.º Manuel Correia Fernandes (Direcção do GH): “Comentários sobre os actuais processos de reabilitação urbana”.
      • 18h 00: Debate final e encerramento dos trabalhos
      Inscrição livre, mas com inscrição prévia e limitada à lotação da sala – até 14 de junho, realizada por contacto via e-mail para: geral@cidadegaia-sru.pt


      Fig. 06: um dia de pontos de leitura do Infohabitar no mundo (lusófono), no final de Maio de 2010 - fonte: http://www.sitemeter.com

      4.ª Parte: Sobre 300 edições do Infohabitar
      Chegar às 300 edições de uma revista, que equivalem a 300 artigos de cerca de 50 autores e a cerca de 3.000 páginas ilustradas e sempre disponíveis na internet, sobre 28 temas parece ser obra!
      Tal só foi possível com a boa vontade e o apoio de muitas pessoas e designadamente dos autores referidos e de quem, semanalmente, foi proporcionando a resolução dos inúmeros pequenos e maiores problemas que vão sempre surgindo e que, na prática, colocam em risco a regularidade deste projecto, sendo de elementar justiça referir aqui a paciência e a constante presença do José Baptista Coelho que resolveu todos os problemas informáticos.
      E, assim, o Infohabitar manteve-se vivo e de saúde ao longo destas 300 semanas, não falhando, julga-se, uma única edição semanal, desde que a edição foi iniciada há pouco mais de cinco anos .
      A revista/blog do Grupo Habitar, o Infohabitar ( http://infohabitar.blogspot.com/ ) foi criada no início de Fevereiro de 2005, tem portanto pouco mais de 5 anos de edição, mas passou já de:
      • de um total de 4000 acessos (page views) no final de 2005;
      • para um total actual já acima dos 206.000 acessos (page views) , com uma média diária actual acima de 200 acessos e um "pico" de leituras em Maio de 2010 que se aproxima dos 6.000 acessos (em 30 de Maio de 2010 estava acima de 5.500 acessos).
      E refere-se que o contador usado é bastante fiável e quando muito "pecará por defeito" na respectiva contagem.


      Fig. 07: o "pico" de leituras do Infohabitar em Maio de 2010 que se aproxima dos 6.000 acessos - fonte: http://www.sitemeter.com/

      O catálogo temático interactivo dos 300 artigos e das respectivas 3.000 páginas ilustradas foi actualizado à data de elaboração deste artigo e está sempre disponível ma margem direita da página de rosto da revista.
      Seguem-se os 28 temas em que subdivide o referido catálogo temático interactivo:
      . Regeneração Urbana e Realojamento
      . Melhor habitação com melhor arquitectura (NOVO)
      . Arte e Arquitectura (NOVO)
      . Projectar o habitar (NOVO)
      . O (re)fazer a cidade e as novas cidades (NOVO)
      . Série habitar e viver (NOVO)
      . Políticas, acções e medidas habitacionais (NOVO)
      . Avaliação pós-ocupação (APO) ou análises retrospectivas (NOVO)
      . Memória
      . Qualidade no habitar (NOVO)
      . Construir o habitar (NOVO)
      . Casos habitacionais e urbanos (estudo, análise e divulgação)
      . Investigação habitacional e urbana
      . Grupo Habitar e Infohabitar
      . Sustentabilidade no habitar
      . Habitar de interesse social e habitar cooperativo
      . Intervir e construir no construído - reabilitar e regenerar
      . Gestão da cidade habitada
      . Escalas e tempos do habitar
      . Humanidades e habitar
      . Cidades amigas – conviviais, acessíveis, para todos, e seguras
      . História(s) e tipologias do habitar
      . Desenho e a humanização do habitar
      . Integrar o habitar
      . Natureza, tempo, cidade e lugar
      . (Novas) formas/soluções de habitação (NOVO)
      . Viagens
      . Actualidades, comentários, notícias, informações

      Junta-se, agora, a listagem dos autores de artigos do Infohabitar numa ordem que respeita a sequência temporal das respectivas edições:
      Duarte Nuno Simões; Celeste d’Oliveira Ramos; Marilice Costi; Sheila Walbe Ornstein; José Walter Galvão; Maria João Eloy; António Reis Cabrita; Nuno Teotónio Pereira; Sara Eloy; António Baptista Coelho; Paulo Machado; João Carvalhosa; Guilherme Vilaverde; Maria Luiza Forneck; Khaled Ghoubar; José Coimbra; Pedro Baptista Coelho; Sidónio Simões; José L. M. Dias; Manuel Tereso; António Novais; Rita Abreu; Teresa Heitor; Ana Tomé; Fausto Simões; Carlos Pina dos Santos; Pedro Taborda; João Cantero; Maria Tavares; Milton Botler; António Pedro Dores; Joana Mourão; Bruno Marques; Hélio Costa Lima; Teresa Marat-Mendes; Sara Ribeiro; João da Veiga Gomes; João Manuel Mimoso; Lúcia Leitão; Samuel Gonçalves; Maria Tavares; Defenor de Castro; Décio Gonçalves; Isabel Plácido; Ana Pinho; António Leça Coelho; Joana Mourão; João Branco Pedro; ... (e em breve outros companheiros se juntarão a esta lista).
      E termina-se com uma pequena síntese caracterizadora da natureza e dos objectivos do Grupo habitar e da sua actividade até esta data.
      O Grupo Habitar – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional nasceu em 2001, a partir do interesse de pessoas com diversas formações e práticas profissionais, ligadas às temáticas da habitação, do urbanismo e da qualidade de vida.
      Trata-se de uma associação técnica e científica sem fins lucrativos e multidisciplinar que visa a melhoria da qualidade da habitação e do espaço urbano que todos habitamos, através de variadas actividades, entre as quais a visita e a análise de conjuntos habitacionais e o estudo, a discussão e a divulgação dos principais problemas e dos aspectos qualitativos que caracterizam as nossas habitações, os nossos bairros e as nossas cidades.
      O Grupo Habitar (GH) aborda assim muitos aspectos da qualidade de vida, desde a integração paisagística e ambiental, à qualidade de desenho de arquitectura, desde a qualidade construtiva, a durabilidade e o equilíbrio de custos, à satisfação dos moradores e à preparação dos aspectos de gestão.
      A sede do GH é no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa.

      Em cerca de 7 anos de actividade desenvolveram-se 6 Reuniões de trabalho, 9 Assembleias-gerais, 18 Sessões Técnicas, 13 Visitas Técnicas, 2 Conferências Alargadas, 1 Visita Alargada e 1 Congresso, num total de 50 eventos, distribuídos entre Santo Tirso, Vila Nova de Gaia, Lisboa, Porto, Matosinhos, Évora, Faro, Coimbra, Paços de Ferreira, Sacavém e Aveiro, com apoios fundamentais do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), do Instituto Nacional de Habitação (INH), hoje Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) e da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), e outros apoios de um número significativo de outras entidades.

      Infohabitar, Ano VI, n.º 300 - I
      Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
      Editor: António Baptista Coelho
      Edição de José Baptista Coelho
      Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 30 de Maio de 2010



      domingo, setembro 27, 2009

      265 - INTERVENÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS numa obra de Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas - Infohabitar 265

      Infohabitar, Ano V, n.º 265
      INTERVENÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS
      NUMA OBRA DE NUNO TEOTÓNIO PEREIRA E ANTÓNIO PINTO DE FREITAS

      artigo de Maria Tavares

      Publica-se esta semana um excelente artigo de Maria Tavares sobre uma temática global que tem a ver com a relação estreita que existiu e que sempre deveria existir entre a Arquitectura e as outras artes; uma relação ainda mais crucial quando, tal como aqui acontece, se estabelece entre a Arquitectura da habitação de interesse social e as outras artes. Considera-se ser este um daqueles artigos realmente a não perder.

      Maria Tavares é arquitecta, mestre em Arquitectura da Habitação pela FAUTL, frequenta actualmente um Programa de Doutoramento em Arquitectura na FAUP. é Assistente da Unidade Curricular de Projecto III (5º ano), na Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de V. N. Famalicão.

      O presente ensaio, foi desenvolvido no âmbito do Programa de Doutoramento em Arquitectura da FAUP (2008/2009), para a Unidade Curricular “Cultura Artística Contemporânea: temas e questões”.

      A edição do Infohabitar


      Fig.1: Arte Pública
      INTERVENÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS
      NUMA OBRA DE NUNO TEOTÓNIO PEREIRA E ANTÓNIO PINTO DE FREITAS
      artigo de Maria Tavares


      O presente ensaio propõe reflectir sobre a função social da arte, tendo como objecto de estudo, uma intervenção de Maria Keil numa obra de Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas.
      Num contexto de produção dos anos 50, época de encruzilhada e de reflexão sobre os valores do contexto e do próprio programa do habitar, temos como cenário de intervenção o bairro dos Olivais-Norte em Lisboa e todo um laboratório de experiências ao serviço do utente.



      CONTEXTO


      Fig.2: O BAIRRO, Olivais Norte, Lisboa

      Olivais-Norte, Lisboa, 1957. O plano do bairro, estruturado pelo Gabinete Técnico da Habitação, previa a instalação de 8000 habitantes em 40ha de experiências formais e tipológicas, valorizando a adopção de novos princípios urbanos. Princípios verdadeiramente modernos, com referências formais assentes na Carta de Atenas e nas Unidades de Vizinhança, contrariando assim as propostas urbanas que recuperam a estrutura da cidade, fazendo desaparecer a tradicional rua de construções alinhadas. Este laboratório tipológico, é enriquecido pela variedade das abordagens dos autores, mas centradas em apenas duas tipologias base, a banda e a torre.


      Fig.3: OS EDIFÍCIOS, 6 bandas de 4 edifícios, Nuno Teotónio pereira e António Pinto de Freitas

      Interessa-nos aqui avaliar um conjunto de 4 edifícios que compõem uma banda, projectados por Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas. O conjunto, repete-se 6 vezes ao longo do bairro e representa um novo propósito na procura de soluções tipológicas em programas de habitação de âmbito social… uma procura detalhada das necessidades humanas, discussão muito apropriada à década em causa e, também da pesquisa em torno do programas e das novas estruturas formais. Reforça-se a ideia do laboratório experimental, em torno da função social da arquitectura.


      Fig.4: O DISPOSITIVO, 4 dispositivos exteriores, de sociabilização e convívio

      O programa das habitações, inevitavelmente pouco extenso, pelas condições económicas que o determinam, previa espaços para arrumos individuais. O que poderia ser uma abordagem projectual comum, tornou-se uma espécie de desafio para os autores, pela interpretação dada ao programa e sua proposta e materialização: propõem um dispositivo exterior ao edifício (4 por cada banda), onde para além dos pequenos oito arrumos individuais, surge um espaço coberto para sociabilização e convívio... aspecto tão debatido no contexto dos anos 50 e das propostas modernas. De facto, o movimento moderno, acreditava que era possível mudar o comportamento das pessoas através da arquitectura, influenciando a sociabilização. Seria uma visão ideológica?


      Talvez... mas o mais interessante, é a encomenda que surge associada a estes pequenos dispositivos de convívio.
      UMA ENCOMENDA


      Fig. 5: Dispositivos exterioresSeis artistas plásticos foram convidados pelos arquitectos, para intervirem nos referidos dispositivos, ao abrigo de uma disposição municipal que previa que os edifícios construídos na cidade contemplassem uma obra de arte.

      Segundo Nuno Teotónio Pereira, “cada unidade construtiva foi confiada a um artista plástico que, a partir de um determinado tema, o desenvolveu em sucessivas variações”(1), ou seja, uma série de 4, que contemplava uma banda de edifícios.

      Ao se criar um espaço de estar e de convívio, oferecia-se arte aos moradores, que dadas as suas condicionantes económicas, a probabilidade de a adquirir seria baixa. Importa reflectir como estas intervenções de arte, verdadeiramente públicas e de verdadeira vizinhança, terão ajudado a compor o próprio acto de habitar, naturalmente mais culto, enriquecendo igualmente a própria arquitectura.


      AS OBRAS
      “Nos anos 50 vivia-se intensamente o apelo, então em voga, da integração das três artes: arquitectura, pintura e escultura”(2). Os artistas convidados, proporcionariam uma experiência de valorização e enriquecimento das equipas de trabalho e isso seria fundamental para o debate em torno da função, tanto da arquitectura, como da arte.

      Haverá com certeza elos entre estes autores… não tanto das obras, técnicas e resultados, mas talvez dos seus objectivos culturais. Na realidade, vivia-se um momento de ditadura e, um grupo de intelectuais de que faziam parte, evidenciava um certo posicionamento em relação à cultura.

      Resultado disso, são as EGAP’s (Exposições Gerais de Artes Plásticas) organizadas pelo MUD (Movimento de Unidade Democrática) na Sociedade Nacional de Belas-Artes, que entre 1946 e 1956 (3), demonstraram nas 10 exposições a expressão de valores como unidade e metas comuns, em artistas tão diferenciados. Pretendiam aproximar a arte do cidadão comum, introduzindo inovações quanto às diferentes disciplinas representadas. Constituindo uma oposição à política cultural de António Ferro com as exposições de arte moderna do SNI (Secretariado Nacional de Informação), mostraram essencialmente uma abertura cultural, através de manifestações artísticas pela conquista da expressão livre, tal como na experiência dos Olivais.

      Seis artistas plásticos, seis temas, 24 intervenções:


      Fig. 6: João Segurado, quatro painéis em azulejo


      Fig. 7: Fernando Conduto, quatro relevos em betão policromado


      Fig. 8: Rogério Ribeiro, quatro painéis incisos


      Fig. 9: António Lino, quatro painéis em mosaíco


      Fig. 10: Lima de Freitas, quatro painéis em azulejo


      Fig. 11: Maria Keil, quatro painéis de cerâmica

      E é nesta intervenção de Maria Keil que nos vamos centrar, mas não sem antes traçar um breve percurso da autora que, como veremos, ao contribuir nos anos 50 para a modernidade do azulejo, potencia seriamente a função social da arte, sobre a qual importa aqui reflectir.


      Maria Keil do Amaral nasce em Silves em 1914 e inicia frequência do curso preparatório da Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1929, que não conclui. Comenta que, “em três anos que lá estive, parece, nunca vi um livro de pintura, de reproduções. Não se aprendia nada, nadinha”(4). Terá sido fora da escola, que aprendeu e experimentou tudo.


      Fig. 12 e 13: Maria Keil e Auto-retrato, 1941: Prémio de Revelação Souza Cardozo, que apresenta na VI Exposição de Arte Moderna do SPN, Lisboa.

      Em 1933, casa com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, facto determinante para o seu percurso pessoal e artístico e, em 1939, ao iniciar actividade no Estúdio Técnico de Publicidade, cruza-se com Fred Kradolfer, um suíço radicado em Portugal que se dedica à publicidade, impulsionando o desenvolvimento das artes gráficas.


      Fig. 14 e 15: Anuncio à Cinta Pompadour, 1941 e Ilustração.

      Contacta e convive com um grupo de intelectuais que a enquadram no mundo da arte… “Era um mundo aberto. Íamos ali para a Brasileira com os grandes: o Manta, o Diogo Macedo, essas pessoas importantes. Ali é que se aprendia”(5).

      Dedica-se ao longo da sua carreira a uma série de áreas de actividades e expressões artísticas, como: pintura, desenho, ilustração, publicidade, design gráfico e de interiores, mobiliário, cerâmica, cenografia e figurinos, tapeçaria, mas será através da azulejaria, e sua integração na arquitectura e em grandes murais, que irá contribuir para a dimensão pública da arte.

      Participa na Exposição do Mundo Português em 1940, com uma pintura mural alusiva aos monstros marinhos e, em 1941 obtém o Prémio Revelação Sousa Cardoso, com o seu Auto-retrato. Participa ainda nas 10 EGAP’s já referidas, com neo-realistas, modernistas e académicos.

      Com estas experiências e contactos e, principalmente pela influência do marido Keil do Amaral, Maria Keil participa “numa mudança de mentalidades em Portugal”. (6)

      …”cheguei à conclusão de que não valia a pena continuar a pintar, o mundo está cheio de boa pintura, eu não ia alterar nada, e então resolvi fazer azulejos. Vivia num ambiente de arquitectos, o meu marido tinha o atelier em casa. A arquitectura é uma coisa muito séria, achei mais útil fazer coisas para a arquitectura (…), que era mais lógico que se colaborasse nas coisas que estão ao alcance de toda a gente do que fazer quadrinhos isolados (…)” (7).

      Esta é a questão. De um entusiasmo inicial pelos ensaios e tentativas de aplicação do azulejo em obras de arquitectura, e pela colaboração da fábrica Viúva Lamego que a autora afirma “que sem o apoio que tenho e sempre tive da Fábrica (…), não teria feito nada do que fiz”(8), surge o painel de azulejos O mar, nas escadarias de um bloco habitacional da Avenida Infante Santo em obra moderna de Alberto Pessoa, Hernâni Gandra e João Abel Manta (9), em que a intervenções dos 5 pintores (10) convidados deveria “revelar e iludir os muros de suporte dos blocos”(11) e em 1958 o “trabalho imenso, exaustivo do Metropolitano”(12) com arquitectura de Keil do Amaral. Terá sido a “encomenda decisiva da sua carreira em que consumiu mais de vinte anos de intermitente trabalho”. (13)


      Fig. 16 e 17: Painel O Mar, avenida Infanto Santo e Estudo para o painel O Mar.Guache sobre papel 1956/58.



      Fig. 18: Estudo para padrão utilizado na estação do Intendente.

      Na realidade, a autora, através da azulejaria, para além de ajudar a dignificar o próprio azulejo, que seria considerado apenas um material de revestimento, conferindo-lhe um “rótulo de utilitário, portanto de Arte Menor”(14), potencia este movimento de relação entre as artes, tão importante nos anos 50.

      VALOR DE USO

      Mas voltando à experiência dos Olivais.

      Deixa-se a questão: qual o valor de uso? Um valor de uso menor, por se tratar de um cerâmico aplicado em habitação de âmbito social?

      Não… trata-se de uma contribuição para um projecto de Nuno Teotónio e António Pinto de Freitas, num contexto riquíssimo de produção moderna dos anos 50, um verdadeiro laboratório experimental na cidade de Lisboa, que se transforma num palco de autênticas manifestações artísticas. Será uma forma de potenciar o carácter público da arte… da arte ao alcance de todos, feita com os meios formais possíveis, não pegando em receitas e formulários. O verdadeiro debate em torno da liberdade de actuação em relação à encomenda, aliás próprio de uma certa reacção da autora a eventuais modelos (15).


      Fig. 19: Maria Keil, painéis de cerâmica nos dispositivos exteriores

      Apesar das 4 variações, o cenário é coerente… remete-nos para um conceito artesanal na construção de uma linguagem pictórica. Uma linguagem que talvez parta de uma geometrização, de um módulo que se repete, se transforma e desenrola, construindo uma narrativa própria, mas muito próxima e coerente com a metodologia do projecto de arquitectura… a construção de um espaço, a construção de uma manifestação cenográfica e de uma recusa pela monotonia… como se o percorrer aqueles espaços, nos transportasse para uma história, uma história do nosso quotidiano.

      Reflectindo sobre esta questão do valor de uso, importa fazer aqui um breve paralelo com uma outra obra de Nuno Teotónio Pereira com Bartolomeu da Costa Cabral.

      O bloco das Águas Livres, contemporâneo dos Olivais, propõe igualmente a introdução de vários artistas plásticos: dois grandes murais em mosaico de Almada Negreiros, relevos em pedra de Jorge Vieira, um vitral de Cargaleiro, um esgrafito de José Escada e o estudo cromático da fachada realizado pelo então jovem Frederico George.

      Encomendado como um edifício de prestígio, pela companhia de seguros Fidelidade, o bloco das Águas manifestava-se como inovador na construção imobiliária de Lisboa.

      A questão será o debate em torno de um eventual valor de uso maior, por todas as circunstâncias da própria encomenda.


      Fig. 20 e 21: Bloco das Águas Livres (Lisboa), relevo em pedra, Jorge Vieira e painel mural em mosaico, Almada Negreiros

      O que determina esse valor de uso?

      Não será com certeza essa dimensão de alguma forma/estatuto que o suporte (edifício, mural…) ou o próprio material poderá ter.

      No caso dos Olivais, Maria Keil, propõe para um dispositivo de sociabilização e de convívio (pretendido pelos arquitectos), uma manifestação cenográfica, aliás já referida, pela recusa de uma monotonia que por si só o dispositivo apresenta na sua disposição espacial. Este cenário, abstracto, parte da proposta desses elementos cerâmicos, mas fazem parte de uma peça que os suporta, sendo o conjunto que lhes dá corpo, no sentido da construção de uma certa espacialidade, com uma escala doméstica e, que transporta um grau de afectividade que se aproxima da função social que a arte pode ter… um estatuto de arte pública e de arte integrada.


      Fig. 22: Maria Keil, arte pública

      Notas:

      (1) PEREIRA, Nuno Teotónio, “Da integração até à fusão das artes”, in Intervenção de Artistas Plásticos na obra do Atelier de Nuno Teotónio Pereira, Beja, Museu Municipal Jorge Vieira, Casa das Artes, 2004.

      (2) Idem.

      (3) Com um interregno em 1952 por imposição do Governo, por considerar que seria um movimento cultural envolvido em acções oposicionistas.

      (4) “Maria Keil, Artista ou Operária?”, in Pública, 15 de Julho de 2007, p. 62.

      (5) Idem.

      (6) ARRUDA, Luísa, “Decoração e desenho: Tradição e modernidade”, in PEREIRA, Paulo, História da arte portuguesa, vol. 3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997, p. 430.

      (7) Diário de Notícias, 2 de Outubro de 1985.

      (8) “Conversa com Maria Keil”, Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989, p.49.

      (9) Importava-lhe inventar “azulejos de espírito moderno para obras de arquitectura moderna”.
      (10) Maria Keil, Alice Jorge e Júlio Pomar, Rolando Sá Nogueira e Carlos Botelho.

      (11) SILVA, Raquel Henriques da, “Azulejos de Maria Keil, os jogos com a eternidade”, Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989, p.39.

      (12) “Conversa com Maria Keil”, Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989, p.47.

      (13) SILVA, Raquel Henriques da, “Azulejos de Maria Keil, os jogos com a eternidade”, Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989, p.40.

      (14) “Conversa com Maria Keil”, Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989, p.47.

      (15) Destaca-se um comentário de Maria Keil numa entrevista: “É que eu ganhava a vida a fazer publicidade também, e isso era muito mal visto. Mas muito mal visto. E azulejo também. O azulejo ia dando cabo de mim. O Abel Manta dizia: “a menina não faça isso. Uma pintora não faz isso, fazer azulejo…”, in Arquitectura e Vida, n.º 97, Outubro de 2008, p. 18.


      BIBLIOGRAFIA

      . ARRUDA, Luísa, “Decoração e desenho: tradição e modernidade” in PEREIRA, Paulo, História da arte portuguesa, vol. 3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997, p.407-505.

      . Intervenção de Artistas Plásticos na obra do Atelier de Nuno Teotónio Pereira, Beja, Museu Municipal Jorge Vieira, Casa das Artes, 2004.

      . Maria Keil, Arquitectura e Vida, n.º 97, Outubro de 2008.

      . “Maria Keil, Artista ou Operária?”, in Pública, 15 de Julho de 2007, p. 58 a 67.

      . Maria Keil, azulejos, Lisboa, Catálogo Exposição Museu Nacional do Azulejo, IPPC, 1989.

      Infohabitar, Ano V, n.º 265

      Olivais Norte, 27 de Setembro de 2009
      Edição de José Baptista Coelho
      Label: arquitectura e artes plásticas, Olivais-Norte