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quarta-feira, julho 30, 2025

Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema “humanização e vitalização dos espaços públicos” (reedição de artigo de 2006) - Infohabitar # 944

Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema “humanização e vitalização dos espaços públicos” (reedição de artigo de 2006) - Infohabitar # 944

Informa-se que para aceder (fazer download) do mais recente Catálogo Interativo da Infohabitar, que está tematicamente organizado em mais de 20 temas e tem links diretos para os 922 artigos da Infohabitar, existentes em janeiro de 2025 (documento pdf ilustrado e com mais de 80 pg), usar o link seguinte:

https://drive.google.com/file/d/1vw4IDFnNdnc08KJ_In5yO58oPQYkCYX1/view?usp=sharing

Infohabitar, ano XXI, n.º 944

Edição: quarta-feira 30 de julho de 2025

 

Fig. 0: Grande Auditório do LNEC, em 24 de Novembro de 2009, no âmbito  da Conferência Bairros Vivos Cidades Vivas, com a qual se marcaram os 40 anos de atividade do Núcleo de Arquitetura, criado por Nuno Portas e onde tivemos a rara oportunidade de conviver com e ouvir testemunhos de importantes colegas que marcaram a história deste Núcleo e a investigação teórica e prática em Arquitetura e Habitação feita em Portugal e no quadro do grande espaço Lusófono. Na primeira fila estou bem acompanhado pelo Chefe do Departamento de Edifícios Vasconcelos Paiva, e pelos outros dois Chefes de Núcleo desse grande NA/NAU, para sempre vivo, Nuno Portas e  Reis Cabrita.

 

Editorial

Em mais uma pequena homenagem à grande importância de Nuno Portas  - Vila Viçosa 23 de Setembro de 1934, Loures 27 de Julho de 2025 -, como Arquitecto pensador e investigador nas áreas da Arquitectura, do Urbanismo e do Habitar, e aproveitando-se para sublinhar a especial riqueza que sempre caracteriza as contribuições teórico-práticas dos Arquitectos que são, como ele, simultaneamente projectistas e investigadores com obra escrita, reedita-se, em seguida, praticamente sem quaisquer alterações, o artigo Infohabitar # 106, aqui editado em Setembro de 2006, onde se registam, INFORMALMENTE, algumas notas sobre a excelente palestra de Nuno Portas, realizada em 5 de Julho de 2006 no LNEC, sobre a temática da “humanização e vitalização dos espaços públicos”, intervenção esta que marcou o lançamento do N.º 4 da Série do LNEC Cadernos de Edifícios, que reúne 15 artigos de 15 autores sobre esse mesmo tema, sempre crucial e designadamente quando, em Portugal, estamos a organizar a construção de dezenas de milhares de novas habitações de interesse social.

 

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

Azambuja, Casais de Baixo, Casa das Vinte, em 30 de julho de 2025

 

Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema “humanização e vitalização dos espaços públicos” (reedição de artigo de 2006) – Infohabitar #
944

(António Baptista Coelho, notas e imagens)


Introdução 

Porque se considera uma temática crucial e porque houve, como sempre, ideias lançadas com grande interesse, e porque se considera que é também com ideias renovadas que se irá apoiando o estudo e a intervenção nas áreas do habitar e da cidade, houve a ideia de juntar neste artigo as notas que foram sendo registadas ao longo da recente palestra de Nuno Portas, sobre a temática da “humanização e vitalização dos espaços públicos”, que teve lugar no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, no dia 5 de Julho de 2006, a propósito do recente lançamento do N.º 4 da Série do LNEC, Cadernos Edifícios, uma publicação monográfica, sobre o tema referido, que integra textos que, foram realizados, sobre o referido assunto, por 15 autores com diferentes formações e especializações.

Salienta-se que estas notas são informais e criticamente “sincopadas”, porque resultaram, de forma directa, e, evidentemente, com um mínimo de complementos, exceptuando os considerados necessários para a construção do texto, das anotações manuscritas, que foram registadas ao longo da palestra/charla de NunoPortas; sublinhando-se que, entre aspas, se referem algumas citações, que se julga serem razoavelmente fiéis a partes da intervenção de Nuno Portas.

Por eventuais e naturais infidelidades e por uma estrutura discursiva que, de nenhuma forma, faz justiça à dinâmica e ao interesse do discurso do palestrante, apresentam-se, desde já as devidas desculpas, seja ao palestrante, seja aos leitores. Mas entre tentar fazer um relato muito mais fiel e exigente, no seu desenvolvimento, que seria bastante difícil, ou nada fazer, e “perder” um encadeado de interessantes ideias, optou-se pela via de se fazer este registo informal.
E assim se apresenta, repete-se, informalmente, uma versão, sempre pessoal, daquilo que por Nuno Portas foi dito, na Sala 1 do LNEC, em 5 de Julho de 2006, sobre o tema da “humanização e da vitalização do espaço público.”

 


Fig. 1: “Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano” (Fortaleza)


“Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano”, uma referência a Françoise Choay. E neste tempo do urbano a questão das designações comporta, hoje em dia novidades, e provavelmente o conceito de “espaço de uso colectivo”, um espaço que está no passeio, ainda público, mas está, também, no shopping, que é um espaço privado, mas de uso colectivo e onde se aplicam tratamentos “choque” para recriação da rua (eu diria mesmo de uma rua cenário e intensificada).

ESPAÇAMENTO(S) (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

“Espaço livre. Espaço livre de quê? De construções, penso eu – mas só disso”.
Hoje, com o factor tempo e os novos meios de velocidade, criaram-se maiores espaçamentos – os “espacements” referidos por Choay –, os espaços “entre” foram perdendo os contornos, e as próprias cidades também foram perdendo os seus velhos contornos, de muralhas e, mais tarde, de circunvalações. E na sequência desta ausência de contornos “os falsos burgos, os faubourgs”, desenvolveram-se em mancha de óleo sobre o território, criando-se talvez um pouco das “cidades genéricas”, referidas por Rem Koolhas, embora não pareça que Portas concorde com esta perspectiva.

Ficou assim evidenciada a importância e a actualidade da ideia de “espacement”, ou espaçamento(s), importância essa que também decorre do próprio desenvolvimento histórico do sentido e do carácter de espaço urbano, tal como acabou de ser, apenas, minimamente apontado.

Desta base de reflexão Portas passou a uma defesa da necessidade de haver uma mudança de paradigmas, e referiu ser mesmo “necessário reinventar o espaço público”, não se tratando de um assunto em que chegue “limar arestas”, e sendo necessária alguma radicalidade, porque o espaço público que era, antes, unimodal, servindo, essencialmente, ao peão, tornou-se multimodal ou intermodal, marcado por aspectos monumentais e simbólicos, designadamente, nos seus pontos fundamentais, como são, por exemplo, as gares que conjugam diversos tipos de tráfegos e que têm elevados números de utentes. Uma mudança realmente radical e estruturante.

E há contra-sensos que importa ter em conta pois será, provavelmente, perigoso passar de edifícios “desconstruídos” para uma paisagem que tenda, também, para a desconstrução; e exemplificando o que considera ser alguma falta de sentido, Portas apontou as zonas verdes que, hoje em dia, por vezes têm pouco ou nenhum verde.

E, desenvolvendo um pouco mais os aspectos fundamentais desta matéria, que se refere às intenções básicas de como actuar na paisagem urbana, Portas sublinhou que “o espaço público não é um décor, mas sim a estrutura da cidade”, e, no entanto, e tal como é apontado num recente livro, as cidades de hoje estão, realmente, em boa parte desconstruídas e são desestruturantes, porque abdicaram da unidade e Nuno Portas defende ser necessário encontrar um novo paradigma, servido por um trabalho muito mais multidisciplinar do que aquele que foi desenvolvido há cerca de 50 anos face a questões que tinham, já então, algumas semelhanças aos actuais problemas.

Nuno Portas voltou a salientar que é prioritário o estudo do espaço público, que é “o elemento aparentemente «negativo», mas que é o mais duradouro da cidade, porque, afinal, o que mais caracteriza a cidade são os seus «vazios», que são aquilo que mais perdura na história da humanidade.” Esses espaços que, tal como sublinha Portas, são apenas “aparentemente vazios.”

Fig. 2: o espaço público é o elemento mais duradouro da cidade (Fortaleza)

 

A CIDADE NÃO É UM PALIMPSESTO (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

“A cidade não é um palimpsesto” (pergaminho manuscrito, de que se fez desaparecer a primeira escrita, para nele escrever de novo” – definição do Dicionário Francisco Torrinha) refere Portas, e continua sublinhando que a “cidade não é um quadro com camadas”, e que até os próprios loteadores clandestinos o sabem, pois também fizeram ruas; e as ruas e as praças, foi o que sempre ficou, característica esta que já não se verifica com os edifícios.

Depois, Nuno Portas fez questão de sublinhar a enorme importância dos eixos da cidade e das formas/usos/hábitos que aí decorrem ao longo de muitas dezenas e mesmo centenas de anos; e a propósito desta matéria citou a questão recentemente levantada pela intervenção de Siza Vieira em Madrid, na zona nobre dos museus, onde Siza se atreveu a mudar algo nos eixos e nos hábitos urbanos, numa rearrumação de espaços vazios, que foi provavelmente entrar em colisão com essa unidade, bem reforçada pelo tempo, de formas de uso de espaços urbanos “vazios” mas estruturadores.

TEMPORALIDADE (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

E foi assim que, nesta sua palestra, Nuno Portas juntou a noção de temporalidade à, antes referida, noção de espaçamento, e é muito importante interiorizar bem a temporalidade da cidade, e isto tem de se reflectir nas forças/expressões com que são representados, na cidade, os seus aspectos mais certos e, provavelmente, mais permanentes e estruturantes, ou mais incertos e, provavelmente, mais fugazes; mas, disse Portas, que a situação mais comum é “o certo e o incerto serem representados da mesma maneira e com a mesma força – nos planos de pormenor, por exemplo.”

Mas: “Fazer a maqueta da cidade como será daqui a 200 anos é " impossível”, a cidade não é algo instantâneo, “senão muito excepcionalmente.”
E tem de se trabalhar com esta condição, tratando os diversos elementos urbanos em combinações ou sequências diversificadas e mutantes de interligações, contactos e referências, cuja metáfora, diz Nuno Portas, é o “hiper texto”, pois não é possível trabalhar com todos os elementos ao mesmo tempo, nem todos os elementos têm, evidentemente, a ver com tudo.

INTEGRAÇÃO (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

E aqui se identifica outra das ideias fortes, que, para além do espaçamento e da temporalidade, foram salientadas nesta palestra de Nuno Portas, que é a questão da importância de um dado elemento urbano respeitar aspectos essenciais de integração, e Portas diz que “ele deveria ser, pelo menos, relativamente integrado”; e Portas ironiza: “como se tudo – contra–natura – pudesse ser decidido no mesmo instante.”
Mas como tal não é possível, e não corresponde à realidade, é necessária uma “mudança de paradigma, não só relativamente ao espaço público, mas também quanto ao planeamento.”

Nestas matérias importa interiorizar que o espaço colectivo pode, por exemplo, penetrar nos edifícios, e este aspecto, entre outros mais ou menos inovadores aspectos, têm de estar presentes nessa mudança de paradigma. Mas o que Nuno Portas parece considerar fundamental em tal mudança é a passagem de uma preocupação com “tudo”, quando se intervém e pensa (n)o espaço público/comum, preocupação esta que, sendo impossível, resvala frequentemente para um certo vazio de intenções e preocupações, para uma actuação seguindo um processo idêntico ao do “hiper-texto”.


Fig. 3: navegando como através de um hiper-texto (Fortaleza)



“HIPER-TEXTO” (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

Um “hiper-texto” em que estão definidas várias grelhas gerais de aspectos/itens a considerar, por exemplo, a ecologia, as infraestruturas, e as actividades – incluindo aqui as que estão contidas nos edifícios –, sublinhando-se que, evidentemente, cada um desses aspectos, se estrutura, ele próprio, numa outra grelha temática, mais fina, e assim sucessivamente.

Portas refere que quando se reflecte e se actua em matéria de espaço urbano as nossas linhas de procedimentos andam dentro dessas sub-grelhas, ligando, “navegando”, como que através de um verdadeiro “hiper-texto”; e assim cada matéria a tratar poderá e deverá ter uma combinação/sequência ou percurso específico de preocupações e actuações mais desejáveis, porque globalmente mais adequadas, mais eficazes e mais apropriadas à tal sociedade/cidade em que realmente não é possível que tudo se passe em simultâneo, e em que a temporalidade também acaba por desenhar.
Como sublinha Portas isto “é complexo, mas é muito menos complexo do que tudo ter a ver com tudo.”

SABER DESINTEGRAR (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

Provavelmente para ajudar a reduzir esta complexidade Nuno Portas referiu o exemplo que costuma dar nas suas aulas de urbanismo e que é a importância que tem a actuação de “subdividir bem”, ou, como também designou, “a arte de saber desintegrar”, a arte de saber partir o problema (urbano) em aspectos mais simples e de conseguir identificar e entender o melhor processo para começar a resolver o grupo dos problemas e de conexões.

Neste processo, tal como apontou Nuno Portas, é essencial perceber, o melhor possível, os desígnios, os desejos, os vários aspectos de uma dada questão, e depois de perceber bem um dado passo, uma dada situação, deve-se passar a outro “ponto”, e depois a outro, e a outro, nessa já defendida lógica de conexões de “hiper-texto”, uma lógica que, naturalmente, será sempre bem marcada pelas referidas questões de espaçamento e de temporalidade.

PLURIDISCIPLINARIDADE (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

E, neste processo, e considerando-se, tal como refere Nuno Portas, a grande valia da pluridisciplinaridade, é fundamental ter bem presente que não é possível, nem desejável, “chamar todos para resolver tudo”; de certa forma também aqui se aplicará a tal lógica do “hiper-texto.”

Chegado aqui Nuno Portas dedicou-se, um pouco, aos cadernos Edifícios 4, que abordaram a temática da “humanização e da vitalização dos espaços públicos”, e salientou que, sendo uma colectânea com grande interesse sobre o assunto, é, na sua opinião, uma visão marcada por alguma nostalgia dos espaços públicos citadinos históricos; “o que, sendo natural, não é suficiente.”
E embora na sua palestra a seguinte ideia tivesse sido, apenas, um pouco mais tarde lançada, não se resiste a referir, já aqui, a importante questão da “defesa da cidade antiga e da rejeição da cidade que nasceu nas costas dela”, uma questão que provavelmente explicará esse ”excesso” de nostalgia – e sublinhe-se que esta hipótese foi aqui anexada pelo responsável por este texto e coordenador do referido número dos Cadernos.

Continuando, então, já num registo mais direccionado para a actuação no espaço público, Nuno Portas apontou que, por exemplo, nas intervenções realizadas no âmbito do programa Polis, o que tem marcado mais tem sido “o redesenho, o redesígnio e até, por vezes, a própria cosmética urbana”, tendo o cuidado de sublinhar que esta “cosmética” já não significa qualquer tipo de crítica negativa; “faz parte do «decor» de hoje mas pode não ser «suficiente».”

 

 

Fig. 4: não-lugares e lugares (Olinda)



LUGARES E NÃO-LUGARES (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

E aqui foi abordada, a propósito da tal “cidade que nasceu nas costas da cidade antiga”, a questão das cidades fragmentadas, muitas vezes, por Planos de Pormenor, e, sequencialmente, foi referida a questão dos “lugares e não-lugares” e proposta a reflexão sobre “porquê alguns lugares deixaram de o ser e outros não-lugares se transformaram em lugares.”
Uma matéria que bem mereceria um número dos Cadernos Edifícios, pela sua importância e oportunidade – novamente um complemento feito pelo responsável por este texto –, e toda uma matéria, que tal como apontou NunovPortas teve uma recente e muito meritória abordagem no recém-publicado livro, intitulado “Cidade e Democracia: 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal”, coordenado por Álvaro Domingues.

Salientou, ainda, Portas, que há elementos urbanos com distintas temporalidades, por exemplo, os shoppings são feitos para cerca de 25 anos e depois serão reciclados ou substituídos, e há espaço público que não aspira a ser estruturador, e nem todo o espaço público tem a mesma durabilidade e adaptabilidade.

Portas aponta que o espaço público certamente irá mudar, e os transportes, e o comércio, tudo muito mudou e tudo muito mudará, e tudo isto se deveria ligar a um sensível e exigente estudo dos usos, mas numa perspectiva que esclareça bem que se está a tratar de estilos de vida e de modos de vida cujas características específicas e de durabilidade não deixarão de ter influências estruturantes na cidade.

Disse ainda Nuno Portas que o que mais fazemos hoje em dia é redesenhar espaços públicos preexistentes, mas para o fazer é necessário procurar as aspirações mais profundas dos seus habitantes, numa referência aos tais estudos dos usos e das tendências no uso.

 

Fig. 5: “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos” (Fortaleza)



MAIS DO QUE QUANTIDADE O QUE IMPORTA É A QUALIDADE DOS ESPAÇOS PÚBLICOS (notas sobre opiniões de Nuno Portas)

E Portas concluiu a sua palestra, sublinhando que há estudos sobre trechos urbanos, mas que são necessários estudos amplos sobre o espaço público e que “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos”, e o que mais interessa é um projecto urbano que seja um híbrido de arquitectura e de urbanismo, que seja marcado “pelas coisas que determinem outras” outras, pois os planos são cristalização do futuro. E referiu, ainda, que a chave dos novos projectos urbanos que sejam capazes de fazer novos espaços públicos está numa gestão proactiva e no conhecimento científico que lhe seja fornecido.


Os prometidos vinte minutos de palestra passaram a cinquenta, e passaram depressa. Sublinha-se aqui, mais uma vez, que se tratou de um relato cuidado, mas informal, baseado em notas manuscritas.

Nota final sobre a ilustração do artigo: imagens do autor referidas a uma única sequência de arquivo de uma visita a Fortaleza, Olinda e Recife, reduzindo-se a ilustração a uma função de acompanhamento pontual e informal das ideias desenvolvidas e naturalmente salientando-se que a respetiva escolha foi estritamente pessoal.


Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

(iv) Oportunamente haverá novidades no sentido do gradual, mas expressivo, incremento das exigências editoriais da Infohabitar, da diversificação do seu corpo editorial e do aprofundamento da sua utilidade no apoio à qualidade arquitectónica residencial, com especial enfoque na habitação de baixo custo.


Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema “humanização e vitalização dos espaços públicos” (reedição de artigo de 2006) – Infohabitar # 944

Informa-se que para aceder (fazer download) do mais recente Catálogo Interativo da Infohabitar, que está tematicamente organizado em mais de 20 temas e tem links diretos para os 922 artigos da Infohabitar, existentes em janeiro de 2025 (documento pdf ilustrado e com mais de 80 pg), usar o link seguinte:

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Infohabitar, ano XXI, n.º 944

Edição: quarta-feira 30 de julho de 2025

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo pelo LNEC.

abc.infohabitar@gmail.com

 Os aspetos técnicos do lançamento da Infohabitar e o apoio continuado à sua edição foram proporcionados por diversas pessoas, salientando-se, naturalmente, a constante disponibilidade e os conhecimentos técnicos do doutor José Romana Baptista Coelho.

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

 

segunda-feira, julho 28, 2025

Nuno Portas e o Núcleo de Arquitectura do LNEC: Memória viva e incontornável

 


Entre muitas outras excelentes atividades Nuno Portas esteve na origem da criação, em 1969, do grande e saudoso Núcleo de Arquitectura (NA) do LNEC - depois designado Núcleo de Arquitetura e  Urbanismo , NAU - , que foi, muito provavelmente, o primeiro e será sempre um dos fundamentais grupos de investigação em Arquitectura, Habitação e Urbanismo em Portugal.

À família enlutada e em singela homenagem a um daqueles homens que são realmente insubstituíveis e que ficam para sempre bem vivos connosco, na nossa memória e nas nossas acções, enviamos as sentidas condolências, em meu nome e em nome do GHabitar, da Infohabitar, do  CIHEL  e do GHabitar+.

E juntamos uma daquelas imagens que ficam; neste caso quando enchemos o Grande Auditório do LNEC, em 24 de Novembro de 2009, no âmbito  da Conferência Bairros Vivos Cidades Vivas, com a qual comemorámos os 40 anos de atividade do Núcleo de Arquitetura, e onde tivemos a rara oportunidade de conviver com e ouvir testemunhos de importantes colegas que marcaram a história deste Núcleo e a investigação teórica e prática em Arquitetura e Habitação feita em Portugal e no quadro do grande espaço Lusófono.

Na primeira fila estou bem acompanhado pelo grande amigo Vasconcelos Paiva, e pelos outros dois Chefes de Núcleo desse grande NA/NAU, para sempre vivo, Nuno Portas e  Reis Cabrita, 

ABCoelho

terça-feira, novembro 13, 2018

664 - O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR - Infohabitar 664

INFOHABITAR N.º 664
O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR

Conjunto de 16 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 16 artigos, editados entre 2005 e 2008, desenvolvidos por 4 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema: O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR.

Lembra-se que esta matéria relativa ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria relativa ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


A “forma convidativa” no habitar, aqui num exemplo projectado pelo Arq. Paulo Alzamora, numa acção de regeneração urbana e habitacional, de um conjunto de realojamento da C.M. de Vila Nova de Gaia, na Qt.ª do Guarda Livros (139 fogos, 2001); em primeiro plano uma intervenção artística de jovens moradores.
“Tudo o que projetamos deve ser adequado a cada situação que surja; em outras palavras não deve ser apenas confortável mas também estimulante – e é esta adequação fundamental e ativa que eu gostaria de de designar como «forma convidativa»: a forma que possui mais afinidade com as pessoas.”
Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, 1996 (1991), p.174.

Nestas matérias da qualidade do desenho e da caracterização das paisagens urbanas e do habitar, reentramos, naturalmente, em áreas com um perfil arquitectónico muito chegado à esfera da criatividade de cada projectista quando reflecte sobre uma dada solução e constrói, sequencialmente, uma dada solução residencial e urbana. No entanto o que aqui se defende e será, nas páginas seguintes, desenvolvido, é, essencialmente, que o projecto de troços de cidade, feito de exteriores e de edifícios, tem de ser um projecto extensa e intensamente ponderado, designadamente, nas matérias da relação estreita entre a humanização, o desenho e a funcionalidade. Não é por o espaço ser maior, do que no fogo e no edifício, que ele exige uma atenção menor. A escala é outra, as funções são outras, a imagem é outra, mas a atenção e o cuidado têm de ser os suficientes.
Naturalmente o construir uma dada imagem urbana não é o construir de uma habitação, há outras preocupações, há referências públicas e cívicas, há um tempo de uso que tem de aguentar uma escala temporal e uma intensidade de uso muito mais longa e exigente, mas tudo isto provavelmente exige é mais tempo/cuidado de concepção, do que aquele que dirigimos a uma habitação, pois estamos a projectar para um grande número e para necessidades, que frequentemente até não serão, em parte, conhecidas.
Uma matéria essencial que será tratada nesta parte do trabalho é a caracterização das soluções, considerando-se que tal condição é fundamental para o desenvolvimento de sítios urbanos e habitacionais com identidade e geradores de sentimentos de apropriação. No entanto e desde já se refere que se julga que esta preocupação com a identidade poderá ser uma resultante natural de um projecto e de uma obra atentos e bem qualificados.
Desta forma também se clarifica que não se visa aqui, nem tal seria possível, qualquer tipo de indicação formal, mas sim uma indicação ao nível da preocupação com a qualidade do projecto arquitectónico global.
Os estudos de Amos Rapoport são fundamentais nesta matéria da humanização do habitar e, portanto, faz-se aqui apenas uma referência breve a algumas das sua ideias consideradas “chave” tendo em vista esse objectivo, mas, neste caso concreto de uma forma centrada no desenho.
Tal como sublinha Rapoport “a habitação e as suas envolventes são regiões privadas por excelência contrastando com a natureza pública da cidadania como uma totalidade, o Bairro se existe proporciona-nos um elemento mediatizador: semi-público, semi-privado, etc. Se estes elementos falham, o sistema pode falhar. Qualquer cidade pode ser considerada como uma selecção de subsistemas com vários graus de publicidade e privacidade, frontalidade/posterioridade e separados por diversas barreiras e mecanismos… Domínio privado, variável; transições, semipúblico  e semiprivado, muito variáveis; domínio público medianamente variável” - Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales com el diseño de la forma urbana”,1978 (1977), p. 265.
Mas além desta preocupação com um reflexo projectual nos diversos “níveis” do desenho do habitar, de forma a que haja uma leitura consistente do que se deseja seja uma cidade vitalizada e humanizada, tem de haver, naturalmente, um gradual  aprofundamento da qualidade do desenho e de uma sua positiva caracterização.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial  relativo ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

Vizinhanças amigáveis

Políticas de Arquitectura na União Europeia

Nuno Portas e o espaço público

Nova arquitectura na Universidade de Aveiro

Humanização do espaço público

Notas ribeirinhas

Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian

Fazer cidade, a exposição de Raúl Hestnes Ferreira

Hestnes Ferreira, Teotónio Pereira e Teixeira Trigo

Acerca da Casa – António Reis Cabrita

Espaços públicos amigos das crianças e dos idosos

Protagonismo do verde urbano

Escala humana

Espaços públicos conviviais


Sequências urbanas


Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR

Sobre as fundamentais vizinhanças amigáveis I - António Baptista Coelho (n.º 220, 3 Nov. 08, 4 págs., 3 figs.).
IDENTIDADE ESCOCESA - Políticas de Arquitectura na União Europeia, artigo de João Ferreira Bento (n.º 190, 30 Março, 2008, 6 págs., 3 figs.).
Opiniões de Nuno Portas sobre o espaço público – relato de António Baptista Coelho (n.º 103, 15 Set. 06, 15p., 5 fig.).
Uma viagem pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro: reportagem fotográfica informal – Pedro Romana Baptista Coelho e António Baptista Coelho (n.º 101, 1 Set., 7p. 16 fig.).
Sobre a humanização do espaço público – António Baptista Coelho (n.º 98, 10 Ago 06, 8p. 7 fig.).
Humanização e vitalização do espaço público: Cadernos Edifícios (N.º 4 ) – artigo de António Baptista Coelho (n.º 90, 27 Jun. 06, 3p. 2 fig.).
Notas ribeirinhas de Lisboa – António Baptista Coelho (n.º 75, 22 Mar. 06, 7p. 9fig.).
Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian – António e Pedro Baptista Coelho (n.º 71, 26 Fev. 06, 4p.).
Acerca de la Casa – Curso em Sevilha, Relato – António Reis Cabrita (n.º 46, 13 Out. 05, 9 p., 3 fig.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 664
O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR
Conjunto de 16 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, janeiro 04, 2009

228 - Cidade de bairros e limiares - Infohabitar 228

Infohabitar, Ano V, n.º 228

Série habitar e viver (melhor), IV: uma cidade diversa, feita de bairros e limiares

Artigo de António Baptista Coelho


Redescobrir uma cidade diversa


Nuno Portas escreveu, já há alguns anos, que a cidade tem sido dilacerada entre "a continuidade e a diversidade, entre a metrópole e a comunidade, o grande e o pequeno", e a propósito destas escolhas o mesmo autor defende que: "Nem uma cidade de comunidades, hoje, substitui a metrópole, nem a metrópole, ... pode passar sem os outros níveis de relação que não são os bairros transformados em equivalentes a aldeias tradicionais... a cidade não é mais igual, não pode ser igual”; e na mesma intervenção Nuno Portas conclui que “a procura é diversa. A procura cultural é diversificada, não há consenso no modelo para fazer isso”. (1)

E, por fim, o mesmo Nuno Portas remata explicando que, por assim acontecer, lhe “parece estratégico falar no espaço comum. Tentar encontrar mais depressa o consenso sobre o espaço comum, em vez de ter uma grande preocupação sobre o consenso quanto ao edificado".

Julga-se ser este um pedaço de texto muito rico pois nele se sublinham aspectos de diversidade urbana, de diversidade cultural urbana e de se poder privilegiar o espaço comum, ou público, no sentido de se servirem, hoje em dia, estas diversidades, reganhando-se com isso uma cidade mais verdadeira.

A ideia que fica é que esta possibilidade de se poder voltar a ter uma cidade mais diversa e mas culturalmente fundamentada, é uma saída muito importante na aproximação a um espaço urbano mais amplamente satisfatório e mais eficaz, até em termos económicos; e, nesta perspectiva, o consenso sobre os espaços públicos, será o caminho para que todos os respeitem e se considerarmos que o espaço público marca o chão e as paredes da cidade –os “cenários” vivos da cidade – então teremos aqui uma parte significativa da matéria do fazer uma cidade verdadeira e contemporânea.




Fig. 01

É ainda interessante ter presente que uma perspectiva que, como esta, defenda uma cidade renovada com base numa diversidade cultural bem fundamentada é uma perspectiva bem associável ao aproveitamento da cultura como elemento chave de uma desejável revitalização económica das cidades europeias, e sobre estas matérias muito se tem escrito ultimamente.

A ideia que se quer sublinhar é que a conquista de uma adequada diversidade urbana, se ganha essencialmente numa intervenção no espaço público e pode ser um trunfo, quer para um habitar a cidade com satisfação e entusiasmo, quer para a economia da própria cidade.


Uma cidade de bairros e de limiares


A cidade sempre foi feita de bairros, que eram e são, frequentemente, pequenas cidades com as suas características próprias que identificam cada bairro, nos seus aspectos sociais, formais e funcionais. Hoje em dia poderia pensar-se ser questionável a manutenção de uma tal estruturação, mas afinal, a cidade que temos é a mesma cidade, não outra, e as partes da cidade que temos de que mais nos orgulhamos são aquelas feitas de bairros.

Podemos, portanto, defender que uma cidade de bairros é um objectivo hoje muito válido, mas devemos, naturalmente, encarar o termo “bairro” com um sentido muito flexível, que terá pouco a ver com aspectos dimensionais e quantitativos de grandes zonas urbanas, e terá muito mais a ver com a ideia da caracterização de verdadeiros conjuntos de edifícios e espaços públicos com identidade positiva e bem integrados nas respectivas vizinhanças urbanas.




Fig. 02

Poderemos depois, naturalmente, especificar, que um dado conjunto é um “pequeno bairro”, ou que um dado conjunto se integra, em harmonia, num dado espaço urbano de um dado bairro, mas a ideia é sempre esta da contribuição para a constituição de unidades urbanas e residenciais caracterizadamente positivas em termos de identidade e de integração na paisagem urbana.

Defende Sidónio Pardal que "cada bairro precisa de desenvolver a sua identidade física, que é componente fundamental da sua identidade cultural” (2) e Kevin Lynch faz-nos avançar na caracterização de uma tal identidade apontando que "a homogeneidade das fachadas, o material, a decoração, a cor, o recorte no céu e, especialmente, os vãos, são todos indicadores fundamentais que servem a identificação dos principais bairros." (3)

Num trabalho que editei no LNEC em 1998 (4) saliento que ao chegarmos ao nosso bairro ou à nossa Área Residencial ou quando saímos de casa com a intenção de ir até ao centro urbano mais próximo, frequentemente atravessamos um determinado espaço urbano bem conhecido, que envolve o sítio específico onde moramos, até chegar à porta de casa, à paragem do transporte público ou às principais rodovias de acesso à zona; todo esse espaço que cruzamos diariamente é a nossa Vizinhança Alargada, um espaço de equilíbrio entre um animado anonimato urbano e um sentido de ambiente bem conhecido e seguro, marcado por equipamentos de uso diário e pelo encontro frequente de caras conhecidas e de algumas pessoas que saudamos como vizinhos.




Fig. 03

Propõe-se, assim, um novo conceito de “vizinhança alargada”, perfeitamente assimilável ao de uma parte de bairro ou de um pequeno bairro, e que pode e deve ser um domínio privilegiado do peão, permitindo uma vivência urbana física e diária que nos enriqueça pessoalmente pelo convívio e pelo contacto com o exterior e que contribua para a nossa saúde física e mental, enquanto simultaneamente constitua um factor de vitalização desse exterior residencial.
Mas sublinha-se que, para que assim aconteça, são essenciais continuidades físicas com as zonas urbanas envolventes, transportes colectivos funcionais e agradáveis e uma estrutura urbana local muito cuidada e equipada; estrutura esta bem marcada por uma estimulante caracterização de percursos pautados por equipamentos conviviais de uso diário, e desenvolvidos no respeito de uma tradição urbanística marcada por exemplos encontrados em bairros consolidados e vivos.

Não se trata de inibir a inovação urbana, mas apenas de a caldear com os exemplos de sucesso que é possível percorrer e viver; e, naturalmente, aqui é sempre possível e desejável uma opção pela modernidade nos edifícios.

O que não é admissível é corrermos o risco de alienar a possibilidade de habitar também o bairro ou a vizinhança alargada, ficando, assim, “refugiados”, praticamente, quase só no nosso mundo doméstico; esta será sempre uma opção de habitar extremamente insatisfatória, redutora e naturalmente geradora de depressões e de sentimentos socialmente negativos.
no limiar entre o habitar e a cidade e vice versa

"As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características... e as cidades morrem mesmo sem terem sido destruídas. Basta quebrarem-se os elos que ligam, num todo harmonioso, os edifícios e as pessoas; basta que o modo de vida deixe de corresponder à feição e ao carácter das edificações" (5).

E para as cidades viverem as casas da cidade têm de dialogar com as ruas da cidades e inversamente, também, as ruas têm de ir até às habitações e vitalizá-las, caracterizá-las, vitalizando-se e caracterizando-se. Será assim, que, portanto, no princípio e no fim do habitar a cidade terá de estar, sempre e sempre viva.

No princípio, na articulação das referências urbanas, no princípio da esquematização de bairros e de vizinhanças, a cidade funcional, viva e caracterizada deverá marcar a razão de ser dos espaços do habitar, foi até por essa razão de ser que a cidade nasceu, talvez há mais de 10.000 anos, numa sua forma mais reduzida – a cidade-povoação, conjunto de casas concentradas e grupo social naturalmente marcado pela solidariedade.

E no fim, no reverso da chegada a casa, quando de casa olhamos a rua, quando em casa nos sentimos bem, protegidos e entre os nossos e as nossas coisas, que nos marcam, e olhamos a rua e imaginamos e vemos nessa rua os sítios onde ela nos leva, nesse fim, que é, afinal, um outro princípio, sempre num ciclo de vida e de interesse renovados, está e devera estar, sempre, a cidade, também.

E acreditem que nada disto, nem esse princípio, nem esse fim, existem naqueles tristemente famosos subúrbios onde, pouco mais do que, se dorme.

Talvez que esse princípio e esse fim, nessa cidade, existam, também, de uma forma diferente, em certas casas que, sendo, sós, são, elas próprias, pequenas cidades de memórias e de pormenores que são também outras pequenas cidades, mas isso é, provavelmente, uma outra história.




Fig. 04

Ao aproximarmo-nos da nossa casa podemos e devemos ter a noção de estarmos a entrar num pequeno mundo que conhecemos bem e que, mesmo ainda a uma boa distância da nossa porta, nos envolve, protege e de certa forma nos saúda.

Para isso é necessário que existam referências "familiares", marcações físicas e humanas amigáveis que marquem os postos avançados e o recheio citadino e habitável do sítio que habitamos, abrindo-se, assim, percursos que já fazemos descontraída, agradável e "automaticamente", sentindo-nos, por um lado, já em casa, seja por conhecermos tais percursos “como os nossos dedos”, seja por serem, aí, possíveis e, eventualmente, bem-vindas, situações de reconhecimento mútuo e mesmo de algum convívio espontâneo, mas sendo sítios onde, por outro lado, ainda predomina um salutar e “casual” anonimato urbano.

Este princípio e este fim da cidade, e este prenúncio ou mesmo esta expansão do nosso sítio de habitar, deve ser formado por um estimulante agregado de espaços de vizinhança, estes sim mais directamente ligados aos espaços habitacionais privados, mas para tal é necessário Arquitectura: é necessário que esta escala urbana mais “fina” e mais íntima seja verdadeiramente desenhada seja em termos de linhas de projecto estruturantes, seja em termos de uma sensível pormenorização, seja, naturalmente, em termos de uma expressiva identidade, ligada a uma forte adequação a cada sítio e a uma leitura destes objectivos de vivência urbana marcada pela diversidade e pela surpresa, qualidades estas bem radicadas nas cidades que são mais atraentes e estimulantes – diversidade esta que deve resultar numa disciplina urbana de hierarquias de funções que seja atraentemente quebrada por uma expressiva teia de situações excepcionais, negando-se toda e qualquer regra geral, monotonamente hierarquizada.

Um tal estimulante agregado de espaços de vizinhança, marcado, aqui e ali, por estimulantes situações de excepção – como lojas em esquinas, largos conviviais, passagens pedonais, árvores estrategicamente situadas, etc., etc. – constitui, por uma lado, a verdadeira fundação da cidade e, por outro, o limiar da passagem para os pequenos reinos do habitar.

Nesse mesmo agregado de vizinhanças encontram-se, também, os limites naturais da acessibilidade predominantemente pedonal – atenção, que não exclusivamente pedonal – onde encontramos os principais pequenos pólos de acesso rodoviário público aos principais centros urbanos, pólos esses que se devem caracterizar como atraentes zonas de charneira entre diferentes vizinhanças, variadamente caracterizadas e só parcialmente conhecidas; esta caracterização tem a ver com as respectivas soluções de Arquitectura urbana, que poderão revelar, apenas, uma pequena parte dos seus espaços “interiores”, reservando, assim, boa parte da sua realidade para uma gradual descoberta, o que, sem, dúvida, aguçará uma estimulante curiosidade a quem por ali passe (e, inversamente, todos conhecemos arquitecturas que praticamente tudo revelam a quem por elas passa ao lado, até de automóvel).

Falta, talvez, reflectir um pouco mais sobre a ideia de um espaço de habitar que se integra na cidade e que, de certa forma, dela se “esconde”, reservando –se de olhares e de usos mais alheios, proporcionando aos seus habitantes sossego e mesmo algum agradável mistério, mas mantendo, logo ali, bem perto, a possibilidade de acesso aos centros urbanos mais animados, através de percursos e pequenos pólos equipados, bem conhecidos, mais de quem aí habita do que de quem por lá passa.




Fig. 05: a nova Arquitectura também faz, naturalmente, bairros e vizinhanças – conjunto em Alcântara, projecto de Frederico Valsassina

Sobre estas matérias do poder ter o sossego e o intimismo, logo ali ao lado do urbano e, nos limiares entre tais mundos, espaços de relação diversificados e estratégicos, importa dizer, desde já, que se considera ser esta uma matéria essencial para uma expressiva agradabilidade residencial. E importa também, sobre este assunto, sublinhar, desde já, que na própria génese desta ideia está a necessidade de ela não ser aplicável como regra, pois muitas pessoas querem viver nos próprios espaços da cidade bem viva e animada, porque as verdadeiras cidades são compostas de múltiplas misturas formais e funcionais, porque não há verdadeiros pólos de animação urbana sem uma forte componente habitacional e, afinal, porque, a própria vontade de viver um pouco mais afastado da animação pressupõe a possibilidade de se viver junto a essa mesma animação; e uma coisa é certa, é que nada do que aqui se acabou de referir é possível com enquadramentos urbanísticos marcados pela normalização, que não reflictam expressivamente a identidade de cada local e que não sejam servidos por verdadeiros projectos de Arquitectura urbana, qualitativamente muito exigentes.

Pois, afinal, a envolvente da nossa área residencial, seja ela um bairro ou um conjunto coeso de edifícios e espaços exteriores, é sempre uma zona de limiar e de ligação, um espaço de partida e de chegada, um lugar estratégico de trechos de animação e de equipamento convivial, assegurando à cidade continuidades de relações e de imagens, mas marcando essa área residencial com um carácter formal e funcional próprio e expressivo.

E é neste limiar entre o habitar e a cidade que importa assegurar pequenos pólos/enlaces de transportes públicos (6) : rodeados de locais de trabalho e de habitações para pessoas que dependam especialmente desse tipo de transportes; com continuidades viárias e pedonais claramente afirmadas e penetrando nas vizinhanças contíguas; e com unidades comerciais estimulando os fluxos de circulação. Poderemos, deste modo, consolidar ou reconsolidar as mais finas rótulas de coesão urbana, proporcionando-lhes um verdadeiro estatuto de entidade urbana viva de vizinhança própria e ao serviço das vizinhanças que ali estão bem próximas, uma opção que se considera ser, hoje em dia, estratégica, pois dele dependerá boa parte da urgente re-coesão citadina; e uma opção que terá de ter em conta aspectos de densificação estratégica, que são fundamentais em termos da estruturação de qualquer vizinhança socialmente sustentável.

Notas:

(1) Nuno Portas, in "Colóquio Viver (n)a Cidade", LNEC, ISCTE, Comunicações, p. 9.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol II", p. 76.
(3) Kevin Lynch, "L'Image de la Cité", p. 79.
(4) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2.
(5) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 31.
(6) Christopher Alexander, S. Ishikawa, M. Silverstein, et al, "A pattern Language/Un Lenguage de Patrones", p. 183.


Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 4 de Janeiro de 2009
Edição de José Baptista Coelho