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terça-feira, novembro 13, 2018

664 - O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR - Infohabitar 664

INFOHABITAR N.º 664
O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR

Conjunto de 16 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 16 artigos, editados entre 2005 e 2008, desenvolvidos por 4 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema: O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR.

Lembra-se que esta matéria relativa ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria relativa ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


A “forma convidativa” no habitar, aqui num exemplo projectado pelo Arq. Paulo Alzamora, numa acção de regeneração urbana e habitacional, de um conjunto de realojamento da C.M. de Vila Nova de Gaia, na Qt.ª do Guarda Livros (139 fogos, 2001); em primeiro plano uma intervenção artística de jovens moradores.
“Tudo o que projetamos deve ser adequado a cada situação que surja; em outras palavras não deve ser apenas confortável mas também estimulante – e é esta adequação fundamental e ativa que eu gostaria de de designar como «forma convidativa»: a forma que possui mais afinidade com as pessoas.”
Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, 1996 (1991), p.174.

Nestas matérias da qualidade do desenho e da caracterização das paisagens urbanas e do habitar, reentramos, naturalmente, em áreas com um perfil arquitectónico muito chegado à esfera da criatividade de cada projectista quando reflecte sobre uma dada solução e constrói, sequencialmente, uma dada solução residencial e urbana. No entanto o que aqui se defende e será, nas páginas seguintes, desenvolvido, é, essencialmente, que o projecto de troços de cidade, feito de exteriores e de edifícios, tem de ser um projecto extensa e intensamente ponderado, designadamente, nas matérias da relação estreita entre a humanização, o desenho e a funcionalidade. Não é por o espaço ser maior, do que no fogo e no edifício, que ele exige uma atenção menor. A escala é outra, as funções são outras, a imagem é outra, mas a atenção e o cuidado têm de ser os suficientes.
Naturalmente o construir uma dada imagem urbana não é o construir de uma habitação, há outras preocupações, há referências públicas e cívicas, há um tempo de uso que tem de aguentar uma escala temporal e uma intensidade de uso muito mais longa e exigente, mas tudo isto provavelmente exige é mais tempo/cuidado de concepção, do que aquele que dirigimos a uma habitação, pois estamos a projectar para um grande número e para necessidades, que frequentemente até não serão, em parte, conhecidas.
Uma matéria essencial que será tratada nesta parte do trabalho é a caracterização das soluções, considerando-se que tal condição é fundamental para o desenvolvimento de sítios urbanos e habitacionais com identidade e geradores de sentimentos de apropriação. No entanto e desde já se refere que se julga que esta preocupação com a identidade poderá ser uma resultante natural de um projecto e de uma obra atentos e bem qualificados.
Desta forma também se clarifica que não se visa aqui, nem tal seria possível, qualquer tipo de indicação formal, mas sim uma indicação ao nível da preocupação com a qualidade do projecto arquitectónico global.
Os estudos de Amos Rapoport são fundamentais nesta matéria da humanização do habitar e, portanto, faz-se aqui apenas uma referência breve a algumas das sua ideias consideradas “chave” tendo em vista esse objectivo, mas, neste caso concreto de uma forma centrada no desenho.
Tal como sublinha Rapoport “a habitação e as suas envolventes são regiões privadas por excelência contrastando com a natureza pública da cidadania como uma totalidade, o Bairro se existe proporciona-nos um elemento mediatizador: semi-público, semi-privado, etc. Se estes elementos falham, o sistema pode falhar. Qualquer cidade pode ser considerada como uma selecção de subsistemas com vários graus de publicidade e privacidade, frontalidade/posterioridade e separados por diversas barreiras e mecanismos… Domínio privado, variável; transições, semipúblico  e semiprivado, muito variáveis; domínio público medianamente variável” - Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales com el diseño de la forma urbana”,1978 (1977), p. 265.
Mas além desta preocupação com um reflexo projectual nos diversos “níveis” do desenho do habitar, de forma a que haja uma leitura consistente do que se deseja seja uma cidade vitalizada e humanizada, tem de haver, naturalmente, um gradual  aprofundamento da qualidade do desenho e de uma sua positiva caracterização.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial  relativo ao DESENHO E À HUMANIZAÇÃO DO HABITAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

Vizinhanças amigáveis

Políticas de Arquitectura na União Europeia

Nuno Portas e o espaço público

Nova arquitectura na Universidade de Aveiro

Humanização do espaço público

Notas ribeirinhas

Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian

Fazer cidade, a exposição de Raúl Hestnes Ferreira

Hestnes Ferreira, Teotónio Pereira e Teixeira Trigo

Acerca da Casa – António Reis Cabrita

Espaços públicos amigos das crianças e dos idosos

Protagonismo do verde urbano

Escala humana

Espaços públicos conviviais


Sequências urbanas


Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR

Sobre as fundamentais vizinhanças amigáveis I - António Baptista Coelho (n.º 220, 3 Nov. 08, 4 págs., 3 figs.).
IDENTIDADE ESCOCESA - Políticas de Arquitectura na União Europeia, artigo de João Ferreira Bento (n.º 190, 30 Março, 2008, 6 págs., 3 figs.).
Opiniões de Nuno Portas sobre o espaço público – relato de António Baptista Coelho (n.º 103, 15 Set. 06, 15p., 5 fig.).
Uma viagem pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro: reportagem fotográfica informal – Pedro Romana Baptista Coelho e António Baptista Coelho (n.º 101, 1 Set., 7p. 16 fig.).
Sobre a humanização do espaço público – António Baptista Coelho (n.º 98, 10 Ago 06, 8p. 7 fig.).
Humanização e vitalização do espaço público: Cadernos Edifícios (N.º 4 ) – artigo de António Baptista Coelho (n.º 90, 27 Jun. 06, 3p. 2 fig.).
Notas ribeirinhas de Lisboa – António Baptista Coelho (n.º 75, 22 Mar. 06, 7p. 9fig.).
Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian – António e Pedro Baptista Coelho (n.º 71, 26 Fev. 06, 4p.).
Acerca de la Casa – Curso em Sevilha, Relato – António Reis Cabrita (n.º 46, 13 Out. 05, 9 p., 3 fig.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 664
O DESENHO E A HUMANIZAÇÃO DO HABITAR
Conjunto de 16 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, fevereiro 18, 2018

Raúl Hestnes Ferreira, memória bem viva e algumas ideias - Infohabitar 631


Raul José Hestnes Ferreira: Lisboa, 24 de novembro de 1931; Lisboa, 11 de fevereiro de 2018.

É sempre com profunda tristeza que escrevemos sobre a partida de um amigo, mas porque a maneira de combatermos tal tristeza é contribuir, mais um pouco, para o registo e a mais do que merecida divulgação da pessoa, do seu pensamento e da sua obra, aqui se faz uma sóbria referência à partida do Raúl Hestnes Ferreira, na noite de domingo dia 11 de Fevereiro, e uma pequena homenagem à sua pessoa. 
O texto que se junta, mais abaixo, retirado de uma conversa entre amigos, quer, assim, saudar e homenagear, de forma convivial e participada, um dos grandes arquitectos portugueses do Século XX e início do XXI e fazê-lo com o necessário sentido de grupo e de naturalidade; e não tenhamos dúvida de que a Arquitectura só ganha em termos de desenho enriquecido e de verdadeira humanidade com uma tal naturalidade e um tal sentido de grupo e de diálogo, qualidades marcantes na pessoa e na prática do Raúl Hestnes Ferreira.



Afinal, e tal como disse o próprio Hestnes Ferreira (em1973): “De acordo com o que penso que seja a arquitectura, a formação profissional nada é se não for estruturada por uma perspectiva humanista que clarifique os aspectos técnicos dessa formação e lhes dê sentido...”
Lembremos, também, que a Arquitectura só ganha com uma continuada, cuidada e sentida leitura e divulgação de ideias, pois desta forma vamos conseguindo cruzar e reter palavras, desenhos e obras, e na carreira de Raúl Hestnes há, sem dúvida, excelentes palavras, muitas delas como professor de futuros arquitectos, belos desenhos e grandes obras de Arquitectura.

E passemos à conversa entre amigos, que foi acima referida:

“(Hestnes Ferreira) – Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa, é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...
(Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.
(Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...
(Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.
(Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.”
(Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40).


Raúl Hestnes com Nuno Teotónio Pereira, Vasco Folha e Teixeira Trigo no Auditório do Edifício Sede do então INH – hoje IHRU – , no âmbito da iniciativa que é, mais à frente, referida.

Uma sentida homenagem à partida de Raúl Hestnes podia e pode ficar por aqui, pois tantas são as obras e tantas são as memórias que por ele falam!


No entanto, para quem se lembra bem da sua forma de nos falar/tocar e muito especialmente para quem não teve esse privilégio, juntam-se, em seguida, algumas notas – em jeito de relato informal  (e não revistas, relativamente à sua edição na Infohabitar em 2006 ) – referidas  a uma intervenção de Raúl Hestnes sobre o “habitar” e o seu próprio percurso projectual, realizada em 24 de Janeiro de 2006, no Auditório do Edifício Sede do então INH – hoje IHRU – , no âmbito de uma iniciativa deste Instituto e do GHabitar – intitulada “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação - com Raúl Hestnes Ferreira, Nuno Teotónio Pereira e José Teixeira Trigo.”

Raúl Hestnes Ferreira falou-nos, então, sobre os aspectos que podem ser identificados como fundamentais no habitar a casa, falou-nos sobre as raízes do habitar e sobre os espaços domésticos polarizadores da vida em comum e em família.
Iniciou a sua galeria de imagens (projectadas) com a planta de uma casa simples de Rio de Onor, retirada da “Arquitectura Popular Portuguesa” e falou sobre o projecto e a sua ponderação, sobre os espaços domésticos mais correntes e sobre outros recantos, que são os principais obreiros do habitar interior, como foi o caso da entrada desnivelada que criava um espaço de transição na entrada do escritório da casa que projectou para o seu pai,  o poeta José Gomes Ferreira.
Falou-nos com exemplos ilustrados sobre o estar junto ao fogo e à televisão que reúnem as pessoas à sua volta, mas antes disso falou-nos do viver simples junto ao chão e em torno do fogo, da mesa como espaço familiar e unificador de actividades, lembrando hábitos orientais de usar a mesa para um grande leque de actividades, num encadeamento natural de usos, utentes e horários, e também nos falou do grande quarto/sala com uma ampla mesa de Jorge Luís Borges, onde este escritor trabalhava, recebia, conversava, vivia.
Continuando a reflectir sobre estas matérias dos espaços domésticos essenciais e envolventes e a propósito da pequena casa de férias de Francisco Keil do Amaral, Hestnes Ferreira disse-nos que era uma casa muito amigável, uma casa pequena, mas que reflectia e envolvia o modo muito informal/simples, humano e caloroso que caracterizava o modo diário de viver daquela família, dando-lhe um bom suporte, até naquela mesa estrategicamente situada sob a janela e sobre a vista exterior.
Passou depois para as sempre novas questões do dia/noite doméstico, uma forma interessante de colocar uma eventual distinção de duas zonas, que serão provavelmente tanto dia/noite como, por exemplo, comuns/privadas; e aqui defendeu opções de adaptabilidade, em que através de uma adequada concepção estrutural e de um cuidadoso dimensionamento, se possa alterar a disposição das zonas de dormir e de estar, entre outras.
Sobre o exterior urbano e relativamente ao Bairro das Fonsecas e Calçada, em Lisboa, cujo projecto coordenou, referiu que os fogos tiveram uma relação directa com a génese da forma edificada, proporcionando flexibilidade na sua integração e que a tipologia de acessos foi influenciada, no esquerdo/direito predominante, por uma opção dos próprios habitantes, que foram convidados pelos projectistas a visitarem (nos Olivais, Lisboa) uma outra bem diversa forma de circulação comum através de galerias, e seguidamente a expressarem a sua tipologia preferida, que, como se deduz, foi o esquerdo/direito; que aliás é bem matizado por pequenas galerias/varandas de distribuição nos cantos interiores dos edifícios. Sobre este bairro Hestnes Ferreira chamou ainda a atenção para a sobriedade da sua envolvente, que contrasta com pequenos interiores de quarteirão mais diversificados; e, quanto aos fogos, salientou que se ouviram os moradores, projectando-se organizações habituais/bem conhecidas.
Sobre a diversificada experiência residencial em Beja (outros extensos projectos do seu atelier) – a Unidade João Barbeiro e a Cooperativa Lar Para Todos – começou por salientar a importância da harmonização construtiva em sede de projecto, numa relação aberta com a obra e com as potenciais e específicas qualidades de execução que aí muitas vezes se detectam e que têm a ver, por exemplo, com capacidades técnicas concretas de determinadas empresas e mesmo de determinados operários.
Depois falou da caracterização pública e também comum do grande pátio da Unidade João Barbeiro, do modo como, a partir dele, se pode aceder com naturalidade aos fogos, motivando-se o convívio, e da forma como o conjunto se integra solidamente na sua envolvente directa através de uma base de betão em que se integram galerias públicas comerciais, harmonizando-se, assim, um espaço de vizinhança assumido e eficaz com a tal sobriedade urbana, já acima apontada.
Relativamente à Cooperativa Lar Para Todos referiu, no exterior, os pátios alongados sempre que possível vitalizados pelos acessos directos a fogos térreos, e salientou o investimento ambiental e caracterizador que foi desenvolvido nos amplos espaços comuns de cada edifício (com distribuição esquerdo/direito), trespassados e matizados pela luz natural de cima abaixo e em cada entrada dos fogos (nos grandes patins comuns). Nestes espaços procurou-se realizar uma agradável e muito graduada transição com a rua, estimular o convívio possível e proporcionar uma cuidadosa transparência da vida dos fogos [neste caso através de um pano de tijolo de vidro no hall privado, que assim ainda leva luz natural ao centro/entrada da habitação].
Finalmente, ainda neste último conjunto, mas ao nível dos fogos, há uma clara e muito estimulante inovação na criação de um amplo espaço familiar de cozinha/refeições, mas também a rara possibilidade de toda a continuidade entre esse espaço, a entrada e a sala, poder ser vivido praticamente como um único grande espaço.

E fica aqui um desafio para quem não conheça estas excelentes obras habitacionais se deslocar a Beja e as percorrer com vagar; uma óptima visita, não tenham dúvidas e uma homenagem viva à Arquitectura de Hestnes Ferreira.

Mais tarde, na fase de debate, Raúl Hestnes sublinhou ter havido uma época em que se acreditou que a arquitectura poderia mudar o mundo.


Uma imagem da introdução, feita por Manuel Correia Fernandes, à memorável intervenção de Raúl Hestnes Ferreira na Conferência que realizou a encerrar as 1as Conferências CIHEL – Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – no final da tarde do dia 6 de Março de 2017, no Porto, no que foi mais uma grande lição de humanidade, vitalidade e excelente Arquitectura!


Escreveu Francisco Keil do Amaral:
“As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características... as cidades morrem mesmo sem terem sido destruídas. Basta quebrarem-se os elos que ligam num todo harmonioso os edifícios e as pessoas; basta que o modo de vida deixe de corresponder à feição e ao carácter das edificações" (em "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 31); e não tenhamos dúvidas, e quem conheceu o Raúl Hestnes não as tem, que o Raúl foi daqueles que trabalhou, diariamente e ao longo de toda a sua longa vida, para defender e reforçar esses elos que ligam, num todo harmonioso, os edifícios e as pessoas.

Bem hajas Raúl Hestnes Ferreira,
Estarás sempre connosco

António Baptista Coelho, GHabitar e CIHEL

segunda-feira, novembro 02, 2009

270 - Três acções sobre o habitar e a cidade em Novembro de 2009 - Infohabitar 270

Infohabitar, Ano V, n.º 270
Apresenta-se a edição n.º 270 do Infohabitar, onde se faz a divulgação de três acções a realizar em Novembro, com o apoio do Grupo Habitar, e todas associadas às amplas temáticas do habitar melhor uma melhor cidade.

As acções são, em seguida, sintetizadas, por ordem sequencial de realização, salientando-se que a acção de 24 de Novembro, no LNEC, conta já com um número significativo de inscritos.

Apresentação do livro
"Habitação de interesse social em Portugal,

1988-2005"

Terça-feira dia 3 de Novembro de 2009 às 18h 30, na FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, terá lugar a apresentação do livro "Habitação de interesse social em Portugal, 1988-2005" com a presença e intervenção dos autores e dos prefaciadores, arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Raúl Hestnes Ferreira.

Juntam-se imagens da capa e do interior do livro, bem como um brevíssimo comentário e refere-se que haverá, em princípio, uma apresentação do mesmo livro no Porto, no início de Dezembro, provavelmente associada a uma palestra sobre a temática da excelente promoção de habitação de interesse social realizada pelas Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência e que constituirá a 18.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar; naturalmente, esta acção merecerá uma próxima divulgação específica aqui no Infohabitar.


Fig. 01: capa do livro


Fig. 02: exemplo do conteúdo do livro

Os melhores exemplos de habitação de interesse social estão ligados a uma arquitectura de vizinhanças e continuidades urbanas, feita de pequenos agrupamentos de edifícios bem caracterizados e marcados pela harmonização entre qualidade arquitectónica e satisfação dos moradores.

É sobre isso que fala este livro, num caminho, que julgamos essencial, de registo e valorização dos muitos casos de referência identificados no período que correspndeu às 18 edições do Prémio INH - portanto entre 1988 e 2005; um caminho que consideramos útil para que o que de melhor foi feito, nos últimos anos em Portugal em habitação e cidade de interesse social possa servir como base informativa para as intervenções ainda necessárias.

É este um dos perfis deste livro servir de registo de muitos bons exemplos habitacionais e urbanos, contribuindo-se para a anulação das terríveis tábuas-rasas que nos fazem voltar, contantemente, aos círculos viciosos da má qualidade residencial na habitação de interesse social: aos projectos-tipo sem qualidade e doentiamente repetidos, às soluções isoladas e segregadas da vital continuidade urbana, à concentração excessiva de realojamento, às misturas sociais disparatadas, e à total inadequação entre projectos e modos de habitar.

É contra tudo isto que este livro quer contribuir e, já agora, não poderia deixar de apontar o interesse e a urgência que tem também o estudo de outros excelentes períodos desta habitação em Portugal, com natural relevo para a longa e excelente fase das HE-FCP e do GTH da CML.

Conferência dupla do Prof. Arq.º Miguel Vitale sobre:
Grafologias, Imagem e Paisagens Urbanas e
Habitar em Santa-Fé, ArgentinaQuinta-feira,

5 de Novembro de 2009, 18h. 00
Lisboa, Centro de Congressos do ISCTE – IUL
Av.ª das Forças Armadas, Auditório B 104


Fig. 03: O ISCTE-IUL projecto de Raul Hestnes Ferreira

Na quinta-feira dia 5 de Novembro de 2009 às 18h 00, no Centro de Congressos do ISCTE-IUL, Avª das Forças Armadas, Auditório B 104, terá lugar a Conferência dupla do Prof. Arq.º Miguel Vitale sobre: Grafologias, Imagem e Paisagens Urbanas; e Habitar em Santa-Fé, Argentina.

Esta palestra é realizada no âmbito das actividades de investigação, divulgação e discussão do Grupo Habitar e do Departamento de Arquitectura e Urbanismo e do Centro de Estudos em Arquitectura e Áreas Metropolitanas do ISCTE-IUL, com o apoio dos Núcleos de Arquitectura e Urbanismo (NAU) e Ecologia Social (NESO) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

No âmbito das actividades do Grupo Habitar (GH), constitui a sua 17ª Sessão Técnica do GH.



Fig. 04: organizadores da Conferência do Prof. Arq.º Miguel Vitale

Miguel Vitale é Arquitecto, Professor na FADU, Faculdade de Arquitetura, Diseño e Urbanismo, Universidad Nacional del Litoral, Santa Fe, Argentina, Responsável/coordenador da Rede Iberoamericana sobre "Problemáticas Urbanas Contemporâneas" que envolve diversos grupos de investigação universitários, designadamente, na Argentina, no Chile, no Brasil e em Espanha, além dos Núcleos de Ecologia Social e de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, em Portugal; desenvolve ainda uma intensa actividade de conferencista e publica com regularidade.




Fig. 05: o interior do ISCTE-IUL, projecto de Raul Hestnes Ferreira

Junta-se, em seguida, o programa da Conferência do Prof. Arq.º Miguel Vitale e salienta-se que a entrada é livre, sem necessidade de inscrição prévia, ficando apenas condicionada à lotação do respectivo auditório.

Programa da Sessão:

18h 00: abertura dos trabalhos pelos membros da mesa:

Prof. Doutor Arq. Paulo Tormenta Pinto, fundador do Grupo Habitar e Presidente do DAU do ISCTE
Doutor Arq. António Baptista Coelho, Presidente da Direcção do Grupo Habitar, Investigador e Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC
Doutora Marluci Menezes, Investigadora e Chefe do Núcleo de Ecologia Social (NESO) do LNEC, que fará uma breve apresentação do conferencista.

18h 15: conferência de Miguel Vitale sobre: Grafologias, Imagem e Paisagens Urbanas
18h 45: intervalo e/ou pequeno debate intercalar
19h.00: conferência de Miguel Vitale sobre: Habitar em Santa-Fé, Argentina
19h 30: debate final
Contactos: Alice Espada, secretariado.dau@iscte.pt, Departamento de Arquitectura e Urbanismo ISCTE – IUL, Ala Autónoma, Sala 335, Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, tel. 21 7903060, secretariado.dau@iscte.pt




Fig. 06: Bairros Vivos, Cidades Vivas, Conferência a 24 de Novembro no LNEC.

COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DO NÚCLEO DE ARQUITECTURA E URBANISMO DO LABORATÓRIO NACIONAL DE ENGENHARIA CIVIL
TERÇA-FEIRA DIA 24 DE NOVEMBRO DE 2009
CONFERÊNCIA: BAIRROS VIVOS, CIDADES VIVAS

Importante: devido ao número de inscrições já confirmadas a Conferência será realizada no "velho" e excelente grande Anfiteatro do LNEC, situado logo junto da entrada principal do Laboratório, a dois passos da Avenida do Brasil.

O Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Departamento de Edifícios (DED) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) irá fazer 40 anos de actividade no próximo dia 24 de Novembro de 2009. Com vista a marcar este dia irá ter lugar uma conferência comemorativa no Anfiteatro do Centro de Congressos do LNEC, sob o tema “Bairros Vivos, Cidades Vivas”, tema este que se considera ser na actualidade um objectivo central do desenvolvimento urbano.






Figs 07 e 08: o LNEC

A conferência “Bairros Vivos, Cidades Vivas” terá como oradores várias individualidades que desenvolveram actividade ou que cooperaram de perto com o NAU ao longo destes 40 anos. Pretende-se que este encontro crie espaço para uma reflexão colectiva sobre a situação presente e futura da investigação em arquitectura e urbanismo, numa perspectiva multidisciplinar.

A conferência está aberta a todos os que nela queiram participar.
A inscrição é gratuita e obrigatória, para o respectivo Secretariado: apinho@lnec.pt e Telf.: + 351 21 844 35 15.

Junta-se o respectivo programa.

10.00 – Recepção dos participantes e entrega de documentação

10.30 – Sessão de abertura

Carlos Pina
(Vice-Presidente do LNEC)
José Vasconcelos Paiva(Director do Departamento de Edifícios do LNEC entre 1990 e 2009)
António Baptista Coelho(Chefe do NAU)

11.00 – Painel Bairros Vivos
Moderadora: Maria João Freitas
(Vogal da Direcção do IHRU)

Oradores:

Gonçalo Byrne(Arquitecto)
João Appleton
(Engenheiro Civil)
José Aguiar(Arquitecto)

12.10 – Debate

12.30 – Almoço (livre)

14.00 – Painel Cidades Vivas
Moderador: Vitor Campos(Director-Geral da DGOTDU)

Oradores:

Alexandre Alves Costa
(Arquitecto)
Khaled Ghoubar(Arquitecto)
Paulo Machado(Sociólogo)
Jorge Saraiva(Engenheiro mecânico)
Helena Roseta
(Arquitecta)

16.00 – Debate

16.30 – Intervalo

17.00 – Painel NAU: Memórias com futuro
Moderador: Francisco Silva Dias
(Provedor da Arquitectura)

Oradores:

António Baptista Coelho(Chefe do NAU desde 2002)
António Reis Cabrita
(Chefe do NAU entre 1981 e 2002)
Nuno Portas
(Chefe do NAU entre 1969 e 1981)

18.15 – Debate, seguido de encerramento da Conferência

A conferência está aberta a todos os que nela queiram participar.
A inscrição é gratuita e obrigatória, para o respectivo Secretariado
: apinho@lnec.pt e Telf.: + 351 21 844 35 15.



Infohabitar, Ano V, n.º 270
Editor: Grupo Habitar
Coordenador editorial: António Baptista CoelhoLisboa, Encarnação – Olivais Norte,2 de Novembro de 2009Edição de José Baptista Coelho