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segunda-feira, fevereiro 16, 2009

234 - Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras - Infohabitar 234

Infohabitar, Ano V, n.º 234


Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras
António Baptista Coelho

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Série habitar e viver (melhor), V: Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras

Segundo Christian Norberg-Schulz, o encontro implica proximidade e densidade em termos espaciais, e este autor defende, também, que o encontro, a convivialidade, podemos dizer, decorre também da variedade – uma ideia que muito longe nos leva quando nos lembramos dos grandes conjuntos repetidos até à náusea; e Norberg-Schulz sublinha que uma tal exigência de variedade obrigará, simultaneamente, a um cuidar específico da unidade e da caracterização, isto para que se salvaguarde a, sempre fundamental, criação de uma totalidade, um lugar.

E é, ainda, Norberg-Schulz que defende que a densidade não chega para a criação dessa totalidade, é necessária a continuidade urbana, uma continuidade marcada pela densidade e por uma diversidade equilibrada, e, afinal, uma experiência urbana é descrita com termos como os seguintes: dentro, entre, sob, sobre, à frente, atrás, perto de, termos que indicam uma organização espacial variada, mas integrada (1).

A densidade está na ordem do dia, começou a estar na mente de muitos, há alguns anos, por razões talvez formais, talvez sociais, e hoje em dia as razões da economia e da duplicação dos preços dos combustíveis trouxeram a densidade ainda mais para a ordem do dia.

É interessante pensar que o redescobrir da densidade aconteceu numa altura em que a www estava a marcar a nossa vida e as nossas redes de relações, possibilitando, exactamente, o reino individual de cada um no seu castelo longe de quase todos os outros, fisicamente, entenda-se! Será que não foi uma certa nostalgia desse contacto físico e uma nostalgia que nunca o foi num pequeno grupo de arquitectos urbanitas que terá feito renascer essa fome de densidade física e de verdadeiro espectáculo urbano, ainda antes dele ser funcional e economicamente necessário?

Estas questões da densidade têm muito a ver com toda a matéria da imagem urbana, que, por sua vez, tem tudo a ver com uma verdadeira qualidade arquitectónica aplicada, cuidadosamente, ao desenho urbano de pormenor, o que significa que é possível densificar mais do que o correntemente previsto, com ganhos habitacionais evidentes, em termos de proximidade a zonas centrais e vitalização e convivialidade na cidade, e também com ganhos para uma imagem da cidade mais rica, mais diversificada e estimulante, mas, para tal, não basta qualquer desenho de arquitecto, pois este patamar de resultados só será possível com a intervenção de uma Arquitectura muito bem qualificada e, simultaneamente, com exigentes e estratégicos controlos dessa mesma qualidade arquitectónica.

E, naturalmente, que todo um processo como este não é compatível com quaisquer tipos de soluções pré-feitas e repetidas de outros sítios, para outros sítios e para outros habitantes; estas intervenções têm de ser fatos bem à medida e fatos de grandes alfaiates, é o mínimo que se pode exigir para acções que vão marcar e, desejavelmente, revitalizar e enriquecer, culturalmente, partes centrais e estratégicas da densidade, e só assim se entenderá que em tais sítios, com tais tipos de objectivos e com tão elevado patamar qualitativo se aceite a ultrapassagem das densidades correntemente aceites, até porque, necessariamente, tais soluções terão de ter a arte para, mesmo com mais densidade, não transigirem nos aspectos fundamentais de segurança, privacidade, acessibilidade, conforto ambiental no exterior relação com a escala humana e convivialidade; e será até possível dizer que tais soluções de densificação são, em boa parte, baseadas, exactamente, na necessidade de melhoria deste mesmo amplo e exigente leque de condições.
Passemos então, sinteticamente, em revista estes tipos de condições, que se considera poderem ser associadas a intervenções com densidades significativas.

Mais de que limites impostos pelo afastamento entre edifícios os aspectos a ter em conta devem privilegiar as condições mais adequadas de relacionamento entre a vida doméstica e a vida urbana, no espaço público, e nesta matéria uma importante limitação está na situação de as crianças perderem a percepção da proximidade do solo, desde que estando acima de seis pisos e Sidónio Pardal sublinha que, a partir desta altura, "diminui, de algum modo, a percepção telúrica da casa" (2); ora, perder-se esta percepção de ligação com a terra e com o espaço público deveria ser um elemento condicionador de uma equilibrada, mas afirmada, densificação da cidade.

De certa forma há aqui um encaminhar para soluções urbanas não muito altas, mas que atinjam uma muito significativa densidade habitacional através de um desenho ele próprio denso e muito trabalhado. E nesta perspectiva há que sublinhar que uma zona com alta densidade e baixa altura proporciona um carácter urbano intenso e contínuo, com edifícios bem próximos uns dos outros (3), desde que não se prejudicando aspectos essenciais de conforto em termos de luz natural, ventilação e relativo sossego acústico. E é até possível referir que uma malha deste tipo será climaticamente muito adequada durante o Verão, não sendo sentida como excessiva em termos formais, até porque se entenderá, directamente, a razão de ser climática dessas ricas e orgânicas densidades.



Fig. 01: Alfama em Lisboa, mas poderia ser a zona antiga de qualquer outra cidade portuguesa.

Os exemplos da arquitectura tradicional citadina portuguesa oferecem, naturalmente, um manancial inesgotável de soluções com este tipo de condições, mas não se está a fazer, aqui, nenhum manifesto revivalista, pois é possível e desejável fazer novo com tais objectivos globais.

Continuando a aprofundar esta ideia de mais densidade sem altura excessiva e visando-se o objectivo central, neste livro, de espaços urbanos vivos e plenamente satisfatórios consideram-se, em seguida, alguns aspectos de imagem urbana e residencial de pormenor, muito influenciados por estudos ingleses nestas matérias (4).

A densificação deve suportar, fisicamente, uma condição de equilibrado e muito reduzido atravessamento de cada núcleo urbano, proporcionando-se um certo sentido de protecção física e psicológica de quem ali vive relativamente ao exterior urbano. Não se defende aqui a criação de ilhas, mas sim de espaços de vizinhança urbana cujas ligações privilegiadas à cidade sejam essencialmente dominadas pelos seus residentes, onde os veículos da envolvente não dominem e onde os estranhos possam ser naturalmente identificados e visualmente acompanhados, condições estas óptimas para um uso da rua intenso por crianças e idosos; e nesta matéria são óptimas as soluções muito densificadas e com grande número de vãos domésticos bem relacionados com o nível da rua.

Há um conjunto de aspectos que sempre marcam soluções urbanas e residenciais que harmonizam densidade, identidade positiva, funcionalidade, vitalidade urbana, sentido de vizinhança e um conjunto de qualidades diversificado que podemos sintetizar na ideia de agradabilidade residencial (ex., sossego, equilíbrio de temperaturas, privacidade, segurança, boa gestão local, etc.); entre tais aspectos lembram-se, desenvolvem-se e comentam-se, em seguida, aqueles que referi num estudo editado no LNEC em 1998 (5):

. Evitar o atravessamento integral da “nossa” zona residencial, tanto por veículos a ela estranhos (ruído, insegurança, poluição, incómodo nocturno devido aos faróis), como por caminhos pedonais com grande continuidade urbana (evitar contactos entre crianças e estranhos à área de residências); evitando-se, até, evidenciar as ligações ao “exterior” da “nossa” zona.

. Onde haja intenso movimento pedonal, a aproximação final a cada grupo de fogos (até cerca de 20), deve ser feita para servi-los exclusivamente; construindo-se, assim, um sentimento de pertença e de identidade que poderá ajudar a equilibrar alguns aspectos menos positivos da densificação.

. As distâncias entre veículos e entrada do edifício habitacional devem ser cuidadosamente consideradas, harmonizando-se as desvantagens ambientais com as vantagens funcionais; e atenção que a densificação implica um potencial de uso rodoviário muito intenso e que só será possível privilegiar o peão, com êxito, se o estacionamento e os tráfegos de veículos estiverem adequadamente resolvidos.

. Os grupos de estacionamentos publicamente visíveis não devem exceder um determinado número de unidades em cada localização; caso contrário a paisagem urbana perde boa parte da sua qualidade.

. O recreio de crianças em espaços públicos deve merecer toda a atenção, constituindo-se, mesmo, em um dos elementos urbanos estruturadores das soluções; e atenção que em zonas densificadas esta questão tem de ser objecto de cuidados reforçados – e quem visite as “células sociais” de Alvalade, em Lisboa, com os recreios das suas Escolas Primárias e os seus jardins de vizinhança bem rodeados de habitação e sem tráfego de atravessamento entende como é bem possível respeitar esta condição.

. Desenvolvimento de espaços mistos (peões e veículos) agradáveis e atraentes ("amenity open spaces"), conjugando caminhos e acessos de veículos, áreas pavimentadas e ajardinadas, caracterizadamente multifuncionais e em favor do recreio livre e seguro das crianças. De certa forma e sinteticamente trata-se de fazer o espaço público residencial de vizinhança do habitar, no respeito dos seus condicionalismos próprios de durabilidade e de equilíbrio ambiental e paisagístico, mas caracterizados por uma amenidade e uma atractividade que estejam, claramente, ao serviço de um habitar o exterior, em segurança e com agrado, por todos os habitantes, sendo que as crianças são os habitantes mais exigentes. E atenção que a densificação obriga a cuidados específicos em termos de tipos de arranjos, durabilidade e gestão.



Fig. 02: o sempre presente exemplo citadino e residencial de Alvalade, em Lisboa, um excelente projecto urbano densificado e de baixa altura, do arquitecto urbanista Faria da Costa, cerca de 1940.

Referi no citado estudo do LNEC que o agrupamento de fogos sem ser em blocos contínuos e uniformes tem vantagens para a privacidade, para a redução do número de utentes por zona exterior equipada e para o consequente aumento da identificação com o sítio de residência. Mantenho a ideia claramente, mas clarifico-a sublinhando que a referência a “blocos contínuos e uniformes” corresponde às soluções em que se projectam edifícios repetidos e desligados dos seus sítios de implantação, enquanto, pelo contrário, é fundamental que a continuidade do edificado e a respectiva continuidade de espaços exteriores sejam projectadas em total integração; nada de mais, é assim que se deve fazer sempre, podem comentar, mas bem sabemos que entre o que se deve e o que se faz há grandes diferenças, mas tenhamos a certeza que em qualquer caso e, muito mais, quando se pretende densificar um determinado conjunto, é essencial um projecto a três dimensões que tanto configure, pormenorizadamente, o edificado como os espaços livres que lhes são contíguos, uma opção que, por sinal, é também fundamental para se criarem espaços interiores e exteriores com melhores condições ambientais (insolação, ventilação, luz natural, resguardo acústico).

Finalmente, quando se densifica é essencial salvaguardar as questões de privacidade e nestas as relações com zonas pedonais são, habitualmente, críticas, devendo ser objecto de um cuidadoso projecto que assegure distâncias mínimas a vãos domésticos e a respectiva protecção, em termos de interposição de barreiras e de elementos de bloqueio da intrusão visual exterior.

Nestas questões de densidade é de grande importância considerar, por um lado, os aspectos de conforto ambiental e de microclima e, por outro lado, as questões ligadas à distância inter-pessoal, estudadas por Claude Lamure (6), pois muito de uma boa solução de densificação, ou muitos dos possíveis problemas com a densidade, têm a ver com uma dupla adequação climática/ambiental e social.


Fig. 03: e os bons exemplos de uma densificação urbana bem humanizada continuaram, tal como aqui na agradável e bem integrada Unidade Residencial João Barbeiro, em Beja, projecto dos arquitectos Raul Hestnes Ferreira e Manuel Miranda, cerca de 1984.

Para concluir, para já, esta breve reflexão sobre os aspectos de densificação urbana lembramos um interessante estudo de Bartolomeu Costa Cabral (7) onde este projectista verificou que a percentagem de ocupação da construção (8) é determinante para a definição do número de pisos, e comparando as percentagens utilizadas em diversos empreendimentos realizados pela Federação das Caixas de Previdência durante os anos 60 com as que podem ser calculadas em zonas antigas, obteve valores muito diversos: 12 a 13% para as primeiras e 50 a 60% para as segundas. E o referido autor continua o seu raciocínio considerando que todo o terreno livre tem de ter um destino definido e, assim, implica um custo que incide também sobre os fogos desenvolvidos e conclui que um conjunto residencial será tanto mais económico quanto maior for o número de fogos e a sua percentagem de ocupação, valor este que, como refere Bartolomeu Costa Cabral, “tem de ser compatível com todas as necessidades de espaço livre”.

E, pouco mais à frente (9), o mesmo autor aponta, referindo estudos ingleses, que “entrando apenas com certos «standards» de afastamento, as formas de maior «rendimento» são as de tipo páteo, seguindo-se as de tipo banda e por último a forma pontual, dado que permitem regressivamente maior percentagem de ocupação de solo.”E, logo a seguir, ainda o mesmo autor refere como aspectos limitativos da densificação as questões de estacionamento superficial, jogos e logradouro, “independentes das formas de agrupamento”.

Se nos lembramos que, na altura, havia uma forte limitação em todo este processo, por quase ausência de desenvolvimento de garagens subterrâneas de estacionamento (situação que ela própria dá que pensar, transpondo-a para situações actuais de garagens que foram feitas e que estão fechadas), somos levados a concluir que há, hoje em dia, uma clara potencialidade de desenvolvimento de soluções densificadas, desde que aproveitando, e bem, os espaços e os equipamentos da cidade consolidada e cerzindo o espaço urbano e desde que tais soluções sejam feitas com uma qualidade arquitectónica verdadeiramente garantida, caso contrário nem vale a pena pensar em densificar pois os resultados podem ser verdadeiramente catastróficos; e o leitor acredite que não tenho quaisquer dúvidas nos benefícios potenciais da densificação seja para uma cidade mais feliz seja para habitantes mais felizes, mas não podemos neste caso ter quaisquer dúvidas em termos da qualidade das intervenções pois há “em jogo” muitas vidas e partes estratégicas da cidade.

E para rematar, para já, esta matéria e lembrando a indicação de Bartolomeu Costa Cabral relativamente a uma extensa zona de implantação, devemos afirmar que uma solução deste tipo, para além de permitir alturas baixas, torna praticamente obrigatório o tratamento dos exteriores (10), pois, afinal, acaba por sobrar “pouco” para o espaço público, e sendo pouco ele será quase obrigatoriamente tratado.

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 55.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 69.
(3) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning".
(4) Greater London Council, "Low Rise High Density Housing Study".
(5) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2.
(6) Claude Lamure ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 56 e 57) considera a seguinte tabela de distâncias interpessoais: íntima, de 0 a 0.50m; pessoal, de 0.50 a 1.25m, considerando-se que abaixo de 0.75m é possível agarrar alguém, simplesmente, estendendo-se os braços e que até 1.25m é sempre possível o apertar de mãos (cumprimento formal); social, de 1.25 a 3.50m, considerando-se que até 2.10m se situa a distância da conversa informal e da clara visibilidade da fisionomia dos parceiros de conversa, enquanto entre 2.10 e 3.50m de distância entre pessoas, as conversas tornam-se formais e a atenção abarca toda a silhueta humana e não especificamente a cara; e pública, acima de 3.50m; mas devendo, sempre, respeitar-se os limiares básicos de 1.25m (possibilidade de apertar mãos) e de 1.50m (2x0.75m), que é o limite de segurança mútua relativamente ao acto de agarrar o outro, estendendo os braços.
(7) Bartolomeu Costa Cabral, "Formas de Agrupamento de Habitação", pp. 18 a 20.
(8) Id. Ibid, p. 18 - “Percentagem de ocupação da construção: ou seja uma relação entre a soma das áreas de implantação dos diferentes edifícios e a área do terreno considerado.”
(9) Id. Ibid., pp.19 e 20.
(10) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", p. 134.

Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 16 de Fevereiro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

domingo, janeiro 04, 2009

228 - Cidade de bairros e limiares - Infohabitar 228

Infohabitar, Ano V, n.º 228

Série habitar e viver (melhor), IV: uma cidade diversa, feita de bairros e limiares

Artigo de António Baptista Coelho


Redescobrir uma cidade diversa


Nuno Portas escreveu, já há alguns anos, que a cidade tem sido dilacerada entre "a continuidade e a diversidade, entre a metrópole e a comunidade, o grande e o pequeno", e a propósito destas escolhas o mesmo autor defende que: "Nem uma cidade de comunidades, hoje, substitui a metrópole, nem a metrópole, ... pode passar sem os outros níveis de relação que não são os bairros transformados em equivalentes a aldeias tradicionais... a cidade não é mais igual, não pode ser igual”; e na mesma intervenção Nuno Portas conclui que “a procura é diversa. A procura cultural é diversificada, não há consenso no modelo para fazer isso”. (1)

E, por fim, o mesmo Nuno Portas remata explicando que, por assim acontecer, lhe “parece estratégico falar no espaço comum. Tentar encontrar mais depressa o consenso sobre o espaço comum, em vez de ter uma grande preocupação sobre o consenso quanto ao edificado".

Julga-se ser este um pedaço de texto muito rico pois nele se sublinham aspectos de diversidade urbana, de diversidade cultural urbana e de se poder privilegiar o espaço comum, ou público, no sentido de se servirem, hoje em dia, estas diversidades, reganhando-se com isso uma cidade mais verdadeira.

A ideia que fica é que esta possibilidade de se poder voltar a ter uma cidade mais diversa e mas culturalmente fundamentada, é uma saída muito importante na aproximação a um espaço urbano mais amplamente satisfatório e mais eficaz, até em termos económicos; e, nesta perspectiva, o consenso sobre os espaços públicos, será o caminho para que todos os respeitem e se considerarmos que o espaço público marca o chão e as paredes da cidade –os “cenários” vivos da cidade – então teremos aqui uma parte significativa da matéria do fazer uma cidade verdadeira e contemporânea.




Fig. 01

É ainda interessante ter presente que uma perspectiva que, como esta, defenda uma cidade renovada com base numa diversidade cultural bem fundamentada é uma perspectiva bem associável ao aproveitamento da cultura como elemento chave de uma desejável revitalização económica das cidades europeias, e sobre estas matérias muito se tem escrito ultimamente.

A ideia que se quer sublinhar é que a conquista de uma adequada diversidade urbana, se ganha essencialmente numa intervenção no espaço público e pode ser um trunfo, quer para um habitar a cidade com satisfação e entusiasmo, quer para a economia da própria cidade.


Uma cidade de bairros e de limiares


A cidade sempre foi feita de bairros, que eram e são, frequentemente, pequenas cidades com as suas características próprias que identificam cada bairro, nos seus aspectos sociais, formais e funcionais. Hoje em dia poderia pensar-se ser questionável a manutenção de uma tal estruturação, mas afinal, a cidade que temos é a mesma cidade, não outra, e as partes da cidade que temos de que mais nos orgulhamos são aquelas feitas de bairros.

Podemos, portanto, defender que uma cidade de bairros é um objectivo hoje muito válido, mas devemos, naturalmente, encarar o termo “bairro” com um sentido muito flexível, que terá pouco a ver com aspectos dimensionais e quantitativos de grandes zonas urbanas, e terá muito mais a ver com a ideia da caracterização de verdadeiros conjuntos de edifícios e espaços públicos com identidade positiva e bem integrados nas respectivas vizinhanças urbanas.




Fig. 02

Poderemos depois, naturalmente, especificar, que um dado conjunto é um “pequeno bairro”, ou que um dado conjunto se integra, em harmonia, num dado espaço urbano de um dado bairro, mas a ideia é sempre esta da contribuição para a constituição de unidades urbanas e residenciais caracterizadamente positivas em termos de identidade e de integração na paisagem urbana.

Defende Sidónio Pardal que "cada bairro precisa de desenvolver a sua identidade física, que é componente fundamental da sua identidade cultural” (2) e Kevin Lynch faz-nos avançar na caracterização de uma tal identidade apontando que "a homogeneidade das fachadas, o material, a decoração, a cor, o recorte no céu e, especialmente, os vãos, são todos indicadores fundamentais que servem a identificação dos principais bairros." (3)

Num trabalho que editei no LNEC em 1998 (4) saliento que ao chegarmos ao nosso bairro ou à nossa Área Residencial ou quando saímos de casa com a intenção de ir até ao centro urbano mais próximo, frequentemente atravessamos um determinado espaço urbano bem conhecido, que envolve o sítio específico onde moramos, até chegar à porta de casa, à paragem do transporte público ou às principais rodovias de acesso à zona; todo esse espaço que cruzamos diariamente é a nossa Vizinhança Alargada, um espaço de equilíbrio entre um animado anonimato urbano e um sentido de ambiente bem conhecido e seguro, marcado por equipamentos de uso diário e pelo encontro frequente de caras conhecidas e de algumas pessoas que saudamos como vizinhos.




Fig. 03

Propõe-se, assim, um novo conceito de “vizinhança alargada”, perfeitamente assimilável ao de uma parte de bairro ou de um pequeno bairro, e que pode e deve ser um domínio privilegiado do peão, permitindo uma vivência urbana física e diária que nos enriqueça pessoalmente pelo convívio e pelo contacto com o exterior e que contribua para a nossa saúde física e mental, enquanto simultaneamente constitua um factor de vitalização desse exterior residencial.
Mas sublinha-se que, para que assim aconteça, são essenciais continuidades físicas com as zonas urbanas envolventes, transportes colectivos funcionais e agradáveis e uma estrutura urbana local muito cuidada e equipada; estrutura esta bem marcada por uma estimulante caracterização de percursos pautados por equipamentos conviviais de uso diário, e desenvolvidos no respeito de uma tradição urbanística marcada por exemplos encontrados em bairros consolidados e vivos.

Não se trata de inibir a inovação urbana, mas apenas de a caldear com os exemplos de sucesso que é possível percorrer e viver; e, naturalmente, aqui é sempre possível e desejável uma opção pela modernidade nos edifícios.

O que não é admissível é corrermos o risco de alienar a possibilidade de habitar também o bairro ou a vizinhança alargada, ficando, assim, “refugiados”, praticamente, quase só no nosso mundo doméstico; esta será sempre uma opção de habitar extremamente insatisfatória, redutora e naturalmente geradora de depressões e de sentimentos socialmente negativos.
no limiar entre o habitar e a cidade e vice versa

"As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características... e as cidades morrem mesmo sem terem sido destruídas. Basta quebrarem-se os elos que ligam, num todo harmonioso, os edifícios e as pessoas; basta que o modo de vida deixe de corresponder à feição e ao carácter das edificações" (5).

E para as cidades viverem as casas da cidade têm de dialogar com as ruas da cidades e inversamente, também, as ruas têm de ir até às habitações e vitalizá-las, caracterizá-las, vitalizando-se e caracterizando-se. Será assim, que, portanto, no princípio e no fim do habitar a cidade terá de estar, sempre e sempre viva.

No princípio, na articulação das referências urbanas, no princípio da esquematização de bairros e de vizinhanças, a cidade funcional, viva e caracterizada deverá marcar a razão de ser dos espaços do habitar, foi até por essa razão de ser que a cidade nasceu, talvez há mais de 10.000 anos, numa sua forma mais reduzida – a cidade-povoação, conjunto de casas concentradas e grupo social naturalmente marcado pela solidariedade.

E no fim, no reverso da chegada a casa, quando de casa olhamos a rua, quando em casa nos sentimos bem, protegidos e entre os nossos e as nossas coisas, que nos marcam, e olhamos a rua e imaginamos e vemos nessa rua os sítios onde ela nos leva, nesse fim, que é, afinal, um outro princípio, sempre num ciclo de vida e de interesse renovados, está e devera estar, sempre, a cidade, também.

E acreditem que nada disto, nem esse princípio, nem esse fim, existem naqueles tristemente famosos subúrbios onde, pouco mais do que, se dorme.

Talvez que esse princípio e esse fim, nessa cidade, existam, também, de uma forma diferente, em certas casas que, sendo, sós, são, elas próprias, pequenas cidades de memórias e de pormenores que são também outras pequenas cidades, mas isso é, provavelmente, uma outra história.




Fig. 04

Ao aproximarmo-nos da nossa casa podemos e devemos ter a noção de estarmos a entrar num pequeno mundo que conhecemos bem e que, mesmo ainda a uma boa distância da nossa porta, nos envolve, protege e de certa forma nos saúda.

Para isso é necessário que existam referências "familiares", marcações físicas e humanas amigáveis que marquem os postos avançados e o recheio citadino e habitável do sítio que habitamos, abrindo-se, assim, percursos que já fazemos descontraída, agradável e "automaticamente", sentindo-nos, por um lado, já em casa, seja por conhecermos tais percursos “como os nossos dedos”, seja por serem, aí, possíveis e, eventualmente, bem-vindas, situações de reconhecimento mútuo e mesmo de algum convívio espontâneo, mas sendo sítios onde, por outro lado, ainda predomina um salutar e “casual” anonimato urbano.

Este princípio e este fim da cidade, e este prenúncio ou mesmo esta expansão do nosso sítio de habitar, deve ser formado por um estimulante agregado de espaços de vizinhança, estes sim mais directamente ligados aos espaços habitacionais privados, mas para tal é necessário Arquitectura: é necessário que esta escala urbana mais “fina” e mais íntima seja verdadeiramente desenhada seja em termos de linhas de projecto estruturantes, seja em termos de uma sensível pormenorização, seja, naturalmente, em termos de uma expressiva identidade, ligada a uma forte adequação a cada sítio e a uma leitura destes objectivos de vivência urbana marcada pela diversidade e pela surpresa, qualidades estas bem radicadas nas cidades que são mais atraentes e estimulantes – diversidade esta que deve resultar numa disciplina urbana de hierarquias de funções que seja atraentemente quebrada por uma expressiva teia de situações excepcionais, negando-se toda e qualquer regra geral, monotonamente hierarquizada.

Um tal estimulante agregado de espaços de vizinhança, marcado, aqui e ali, por estimulantes situações de excepção – como lojas em esquinas, largos conviviais, passagens pedonais, árvores estrategicamente situadas, etc., etc. – constitui, por uma lado, a verdadeira fundação da cidade e, por outro, o limiar da passagem para os pequenos reinos do habitar.

Nesse mesmo agregado de vizinhanças encontram-se, também, os limites naturais da acessibilidade predominantemente pedonal – atenção, que não exclusivamente pedonal – onde encontramos os principais pequenos pólos de acesso rodoviário público aos principais centros urbanos, pólos esses que se devem caracterizar como atraentes zonas de charneira entre diferentes vizinhanças, variadamente caracterizadas e só parcialmente conhecidas; esta caracterização tem a ver com as respectivas soluções de Arquitectura urbana, que poderão revelar, apenas, uma pequena parte dos seus espaços “interiores”, reservando, assim, boa parte da sua realidade para uma gradual descoberta, o que, sem, dúvida, aguçará uma estimulante curiosidade a quem por ali passe (e, inversamente, todos conhecemos arquitecturas que praticamente tudo revelam a quem por elas passa ao lado, até de automóvel).

Falta, talvez, reflectir um pouco mais sobre a ideia de um espaço de habitar que se integra na cidade e que, de certa forma, dela se “esconde”, reservando –se de olhares e de usos mais alheios, proporcionando aos seus habitantes sossego e mesmo algum agradável mistério, mas mantendo, logo ali, bem perto, a possibilidade de acesso aos centros urbanos mais animados, através de percursos e pequenos pólos equipados, bem conhecidos, mais de quem aí habita do que de quem por lá passa.




Fig. 05: a nova Arquitectura também faz, naturalmente, bairros e vizinhanças – conjunto em Alcântara, projecto de Frederico Valsassina

Sobre estas matérias do poder ter o sossego e o intimismo, logo ali ao lado do urbano e, nos limiares entre tais mundos, espaços de relação diversificados e estratégicos, importa dizer, desde já, que se considera ser esta uma matéria essencial para uma expressiva agradabilidade residencial. E importa também, sobre este assunto, sublinhar, desde já, que na própria génese desta ideia está a necessidade de ela não ser aplicável como regra, pois muitas pessoas querem viver nos próprios espaços da cidade bem viva e animada, porque as verdadeiras cidades são compostas de múltiplas misturas formais e funcionais, porque não há verdadeiros pólos de animação urbana sem uma forte componente habitacional e, afinal, porque, a própria vontade de viver um pouco mais afastado da animação pressupõe a possibilidade de se viver junto a essa mesma animação; e uma coisa é certa, é que nada do que aqui se acabou de referir é possível com enquadramentos urbanísticos marcados pela normalização, que não reflictam expressivamente a identidade de cada local e que não sejam servidos por verdadeiros projectos de Arquitectura urbana, qualitativamente muito exigentes.

Pois, afinal, a envolvente da nossa área residencial, seja ela um bairro ou um conjunto coeso de edifícios e espaços exteriores, é sempre uma zona de limiar e de ligação, um espaço de partida e de chegada, um lugar estratégico de trechos de animação e de equipamento convivial, assegurando à cidade continuidades de relações e de imagens, mas marcando essa área residencial com um carácter formal e funcional próprio e expressivo.

E é neste limiar entre o habitar e a cidade que importa assegurar pequenos pólos/enlaces de transportes públicos (6) : rodeados de locais de trabalho e de habitações para pessoas que dependam especialmente desse tipo de transportes; com continuidades viárias e pedonais claramente afirmadas e penetrando nas vizinhanças contíguas; e com unidades comerciais estimulando os fluxos de circulação. Poderemos, deste modo, consolidar ou reconsolidar as mais finas rótulas de coesão urbana, proporcionando-lhes um verdadeiro estatuto de entidade urbana viva de vizinhança própria e ao serviço das vizinhanças que ali estão bem próximas, uma opção que se considera ser, hoje em dia, estratégica, pois dele dependerá boa parte da urgente re-coesão citadina; e uma opção que terá de ter em conta aspectos de densificação estratégica, que são fundamentais em termos da estruturação de qualquer vizinhança socialmente sustentável.

Notas:

(1) Nuno Portas, in "Colóquio Viver (n)a Cidade", LNEC, ISCTE, Comunicações, p. 9.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol II", p. 76.
(3) Kevin Lynch, "L'Image de la Cité", p. 79.
(4) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2.
(5) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 31.
(6) Christopher Alexander, S. Ishikawa, M. Silverstein, et al, "A pattern Language/Un Lenguage de Patrones", p. 183.


Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 4 de Janeiro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, dezembro 15, 2008

226 - Habitar as relações entre o bairro e a habitação - Infohabitar 226

Infohabitar 226

artigo de António Baptista Coelho

Nota: trata-se de um artigo, essencialmente, de texto, sendo as imagens apenas de acompanhamento e relativas ao Bairro da Barceloneta, em Barcelona.

Série habitar e viver (melhor), III: muito se passa nos espaços de relação, entre o bairro e a HABITAÇÃO


Disse Siza Vieira, numa entrevista a Bernardo Pinto de Almeida, quando questionado sobre uma definição sintética e possível de Arquitectura, que “a Arquitectura é um tema de espaço e de relacionamento, de infindável relacionamento.” (1)

Provavelmente é nesta matéria da relação e da transição que se encontrará boa parte dos aspectos associados a soluções de habitar estimulantes, porque agradavelmente curiosas e aproximadas às dimensões humanas.

Se imaginarmos ou visitarmos soluções residenciais em que a preocupação nestas matérias não existe, temos a ideia de que o fazer o habitar se resume a uma adição simplista de níveis físicos encerrados ou abertos. Um compartimento doméstico incluído num andar residencial que pouco mais será do que um paralelepípedo onde vivem várias pessoas, que, por sua vez, estará incluído num paralelepípedo maior e verticalizado onde viverão vários grupos de habitantes; e depois, depois, tudo acaba num espaço exterior em que, geometricamente, se dispuseram as projecções horizontais desses últimos maiores paralelepípedos, precavendo-se afastamentos regulamentares entre os mesmos e uma determinada capacidade funcional em termos de estacionamento automóvel e de outros tipos de funcionalidades sociais e recreativas. Precauções estas que, se frequentemente, são defesas nossas relativamente a situações negativas, são, noutros casos, obstáculos a excelentes soluções de Arquitectura – mas este tema merece desenvolvimentos específicos.


Fig. 01

Teremos, assim, um pequeno mundo quase sem relações mútuas entre os seus elementos, um mundo que só existe, de facto, nas plantas, nos desenhos de implantação e nas mentes de quem não consegue, realmente, imaginar um espaço urbano vivido e diversificado. Não se trata aqui de dizer que uns são fantásticos e bafejados pela vocação, enquanto outros não; mas, de facto, muitas pessoas e mesmo muitos técnicos têm críticas dificuldades na concepção de espaços tridimensionais e não tenhamos dúvidas que se no interior doméstico é um espaço desse tipo, o interior/exterior urbano também o é e de uma forma muito mais diversificada, rica e insinuante.

Mas não podemos ficar por aqui, pois o interior/exterior urbano, além de não ser um sistema de formas e de volumes simples e autonomizados, constitui um verdadeiro sistema de relações múltiplas, físicas, visuais, potenciais, contíguas e ambientais, reais e imaginadas. E é esta realidade, tal como refere Siza Vieira, a matéria-base da Arquitectura, é aqui e a partir desta teia de relações que se conforma a verdadeira Arquitectura, o que impõe, naturalmente, um elevado grau de exigência na concepção, pois, como se tentou apontar, apenas parte da matéria com que se trabalha se pode objectivar em termos claramente dimensionais, boa parte do assunto fica delimitado numa dimensão relacional e não tenhamos dúvida que todos os melhores projectos de habitar e de urbanidade são aqueles que sabem e conseguem trabalhar positivamente esta matéria da relação, da transição, do acompanhamento, da integração, da demarcação, do limiar e da passagem e da conjugação ao serviço da delimitação de sequências de percursos e da marcação de identidades espaciais e ambientais.

E tudo isto é matéria-base da satisfação e da identidade que se sente relativamente a um dado sítio de habitar.

Monique Éleb, um dos poucos estudiosos com obra publicada nestas matérias associadas às bases de uma estruturação cuidadosa das vizinhanças citadinas pormenorizadas, fez mesmo um livro (2) em que aborda as formas dos espaços de relação entre cidade e agrupamentos de edifícios, associando estas matérias a uma reflexão sobre tipologias de habitação e de forma urbana, atribuindo aos espaços de relação um claro protagonismo no fazer de uma cidade habitada e viva, marcada localmente pela identidade e, sempre, pela escala humana, uma cidade como quadro de integração de uma continuidade de espaços de relação e de vizinhança, nunca a cidade como quadro de implantação de objectos mais ou menos isolados e desligados da vida humana.

As tipologias encontram no referido relacionamento urbano a base de geração de velhas e novas soluções de agregação entre habitações, equipamentos, espaços de circulação e outros espaços do habitar, com destaque para aqueles com potencial de relacionamento e convívio; e às tipologias voltaremos noutros artigos.

Mas é aqui, no mundo das transições, entre espaços exteriores, entre estes e espaços interiores e entre limiares semi-interiores e semi-exteriores, que se joga a máxima importância do exterior residencial. Um exterior residencial e urbano que acaba por poder e dever ser assumido como um “verdadeiro” interior urbano, e que, por isso, deve ser positivamente configurado, acompanhando e apoiando o habitante desde a entrada no bairro até à proximidade da porta do seu edifício, dando-se fundamental coesão a todo um vocabulário arquitectónico e urbanístico que vai desde a rua habitacional e comercial à travessa e ao pátio de vizinhança, passando pelas praças e pracetas residenciais, pelas alamedas onde é "suave" habitar, pelos estacionamentos adequadamente integrados, pelas zonas verdes de enquadramento e de lazer, pelos jardins de convívio e de descontracção ou meditação, e pelos espaços mistos de circulação e de animação urbana com características que podem até recuperar elementos tradicionais.

Na relação urbana, vicinal e pormenorizada encontram-se muitas das potencialidades responsáveis pela adequação a cada sítio concreto e pela estimulante diversidade que deve marcar o meio urbano.
De certa forma aqui se joga uma fundamental coesão citadina numa pequena escala de vizinhanças residenciais e conviviais que podem e devem, desta forma, levar o habitar residencial até aos centros urbanos e, por outro lado, levar a animação citadina, ainda que muito mitigada, até às mais distantes vizinhanças residenciais. A relação é a coesão, tal como numa parede a argamassa dá coesão à obra completa.

Nestas matérias da coesão citadina ao peão deve ser atribuído um papel fundamental, considerando-se que deve ser privilegiada a formação gradual de um percurso pedonal bem vitalizado em cada comunidade, ligando nós de actividade e um pólo “central”, o mais possível concentrado, que pode ser uma pequena rua, uma praceta, um largo, ou um pequeno troco de rua comercial (3). Naturalmente, uma tal caracterização pedonal não implica a exclusão dos veículos, mas, essencialmente, uma previsão de fortes aptidões funcionais, ambientais e psicológicas, tanto para os percursos a pé com destinos práticos, como para o puro flanar (ex., passeios largos e abrigados, acompanhados e ritmados por lojas animadas).

Fig. 02

Avançando-se na continuidade urbana, numa sequencial aproximação aos espaços habitacionais privados, e em cada comunidade de vizinhança deve ser desenvolvida, pelo menos, uma zona constituída por uma série de recintos encadeados/ligados por umbrais/limiares, num crescendo de privacidades e conteúdos relativamente misteriosos (4). De certa forma é fácil de imaginar passarmos por espaços ainda estratégica e amenizadamente conviviais e fortemente públicos, para, depois, penetrarmos em ambientes onde há já reflexos directos e expressivos da proximidade das nossas casas e da sua identidade específica.

Provavelmente, o que é fundamental quando se procura contribuir para um espaço citadino em que a habitação se integre com grande harmonia visual e funcional é a defesa de aspectos fundamentais de coesão urbana e residencial: por palavras mais simples estender, expressivamente, o sentido do habitar para além da porta de entrada de cada habitação, levando-nos a estar ali na rua, a dois passos de casa, como se estivéssemos numa espécie de outra nossa sala de estar, mais ampla, partilhada, mas expressivamente amigável e para que tal se consiga é essencial garantir condições várias, mas com destaque para um sentido de segurança ou de protecção natural, ligado a excelentes condições de orientação (sentirmo-nos sempre , o mais possível, orientados em termos dos principais locais de acesso …), e para um afirmado, mas sóbrio, sentido de identidade, sentido este que terá de se fundir com aspectos de verdadeira qualidade arquitectónica – pois de outra forma teremos aqui os conhecidos riscos de “decorativismo” ou de tradicionalismo simplificado.

Desde já se afirma que esta temática do relacionamento entre bairro e vizinhança e, depois, entre vizinhança e espaço doméstico privado constitui uma das principais matérias que a concepção arquitectónica pode usar como motivo de fundamentação de determinadas soluções formais e lá estamos, novamente, nas matérias da relação e na importância fulcral do relacionamento espacial na (boa) Arquitectura.

Importa ainda sublinhar que estas matérias da relação têm tudo a ver com as da segurança, da orientação e da identidade.

Nestas matérias da segurança, da orientação e da identidade devemos ter presente a fundamental importância do desenvolvimento de uma estratégia de visibilidade de segurança intimamente ligada à rede de acessibilidade predominantemente pedonal e aplicada ao longo de todos os territórios de um dado bairro; considerando-se, tanto o normal cenário geral diurno, como o nocturno.

Esta estratégia de visibilidade, segundo Noble (5), deve ser baseada numa estrutura de orientação maximizada, sendo fundamental, por razões de segurança e de funcionalidade, que as pessoas "estranhas" a uma determinada zona consigam encontrar o seu caminho com facilidade (ex., uma ambulância efectuando uma acção de emergência, ou um visitante que não conhece a zona).

E é interessante associar estas ideias de clareza de orientação às ideias de variação e riqueza das imagens urbanas, anteriormente apontadas, considerando-se ser possível assegurar a respectiva harmonização, seja através de uma clara estruturação urbana, seja por meios gráficos auxiliares; mas atenção, quer para a frequente ausência de uma tal estruturação, quer para a inadequação que, quase sempre, caracteriza o design de comunicação urbano, tantas vezes feito por verdadeiros curiosos na matéria, que do assunto quase nada sabem.

Fig. 03

Conclui-se esta reflexão sobre as matérias do relacionamento entre espaços e ambientes residenciais e habitados com a ideia forte que é fundamental que se goste de usar, intensamente, os percursos que ligam a cidade ao bairro onde moramos e, depois, neste, as sequências que devem articular o seu centro à vizinhança que habitamos; tudo isto matéria de relacionamentos urbanos, e, afinal, todos sentimos, tal como tão bem o descreveu Daniel Filipe, que “de vez em quando apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios…”. (6)

E, no mesmo livro, Daniel Filipe fala de “uma cidade onde acontecem coisas”(p.51), e dá vontade de afirmar que as coisas acontecem muito mais frequente e intensamente nesses espaços de relação, por exemplo, nas passagens, nas arcadas, junto às entradas e vistas das janelas, nos espaços onde se concentram e até se sobrepõem, parcialmente, actividades, nos espaços em que tantas vezes interior e exterior se amalgamam numa mistura estimulante que nos faz, ao mesmo tempo, espectadores e actores da cena urbana e residencial; por exemplo nos pequenos cafés de bairro, estrategicamente situados, entre o “final da vizinhança” e o “início da verdadeira cidade” e onde, tal como tão bem descreve ainda o mesmo Daniel Filipe, são pequenos “«cafés» sonolentos, onde todos se conhecem e os empregados tratam os clientes pelo nome de baptismo. «Um carioca para o sr. José». Rápido. O sr. José pode ser qualquer de nós – gente que vem e vai, lê o jornal. Diiscute futebol e guarda, no íntimo, um sonho ou uma angústia.” (p.71)

Não tenhamos qualquer dúvida: fazer pedaços de cidade desejavelmente habitada é tudo fazer para inventar estimulantes agregados de espaços como estes, é tudo fazer para simular a vida da cidade velha em espaços feitos de súbito e com formas e meios actuais, é, basicamente, actuar no edificado, mas, acima dele, actuar nas relações, mais objectivas ou menos objectivas, que esse edificado tem de estabelecer com o seu sítio urbano.

E não tenhamos dúvidas que assim actuar é fazer Arquitectura com “A grande”, afinal, a única maneira de a fazer, mas assumidamente num grau de exigência que obrigará a muito e bom trabalho por parte dos projectistas, mas há caminhos que facilitam este percurso, e entre os quais se salientam a depuração formal, a verdade construtiva, a naturalidade funcional e a sobriedade global da solução, bem assumida como um novo complemento para aquele sítio da cidade.

Fig. 04

Façamos agora, para terminar esta matéria e para ligar ao seu futuro desenvolvimento tipológico, um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1997): “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)” (7). E as autoras, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”
Notas:

(1) Carlos Nuno Lacerda Lopes, “Projecto e modos de habitar”, Dissertação de doutoramento, FAUP, 2007, p. 51.
(2)Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui. Paris : Éditions de l’Épure, 1997. 350 p. (Col. Recherche d’Architecture).
(3)Christopher Alexander, Sara Ishikawa, Murray Silverstein, et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 170 a 172.
(4)Christopher Alexander, Sara Ishikawa, Murray Silverstein, et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 309.
(5)John Noble; Barbara Adams, "Home in its Setting", pp. 539 e 540.
(6)Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1956), p.70.
(7) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18



Na próxima semana, véspera de Natal, será editado um artigo específico sobre a recente atribuição à NHC, Nova Habitação Cooperativa, do Prémio IHRU – Construção 2008, um artigo onde se fará a apresentação da obra que mereceu este destaque, um conjunto em São João da Talha, Loures, projectado, desenvolvido e gerido tendo em vista, especificamente, a etnia cigana. No mesmo artigo também se fará uma pequeníssima “viagem” comentada entre este recente Prémio da NHC e um anterior Prémio INH, que foi também ganho, por esta cooperativa, há poucos anos, no Zambujal, Amadora.


Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 15 de Dezembro de 2008
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, novembro 24, 2008

223 - VIVER BEM EM CASA OU VIVER BEM NUM DADO ESPAÇO URBANO - Infohabitar 223

Infohabitar 223
artigo de António Baptista Coelho

Série habitar e viver (melhor), II: VIVER BEM EM CASA OU VIVER BEM NUM DADO ESPAÇO URBANO

VIVER A CASA E VIVER A CIDADE


Podemos estar satisfeitos com uma casa e não estar satisfeitos com a respectiva vizinhança? É difícil que isso aconteça, pois vivemos a casa da porta para dentro e da porta para fora e a boa ou má influência que a envolvente residencial nos transmita irá, sem dúvida, reflectir-se na maior ou menor satisfação que sentimos com o sítio onde vivemos, que quer dizer o sítio que habitamos e que, claramente, abarca bastante mais do que as “quatro paredes” da nossa casa.

A ideia que fica é que podemos, eventualmente, considerar a nossa casa, a tal entre “quatro paredes”, grande parte do sítio que habitamos, e, fundamentalmente, como um verdadeiro refúgio. Tal condição acontecerá, provavelmente, em situações, aparentemente, tão distintas como num bairro caracterizado por um ambiente social complexo e, eventualmente, por más condições de segurança, mas também, por exemplo, num sítio em que vivamos, por exemplo, numa moradia isolada, que pode estar até muito bem equipada, mas onde a respectiva envolvente pouco ou nada nos ofereça em termos de outras dimensões residenciais e urbanas.


Fig. 01: num espaço urbano vitalizado e com excelente escala humana do centro de Coimbra (no decurso de uma visita do Grupo Habitar apoiada pela CM de Coimbra e pelo seu Gabinete para o Centro Histórico)

A comparação foi feita entre pólos tão distintos para que se sinta a importância do que está para lá da porta de entrada da nossa casa, um pequeno mundo de vizinhança que pode ser exactamente, isso mesmo, um “pequeno mundo de vizinhança”, pleno de cenários habitáveis e de relações potenciais, ou então uma espécie de terra de ninguém que só nos dá problemas.

Tal como nos diz M. Imbert (1), em França, nos quase sempre tristes "Grands Ensembles", os habitantes dirigiram a sua satisfação residencial para a habitação, salientando os problemas urbanos das respectivas áreas residenciais. Mas aqui os habitantes encararam, frequentemente, situações urbanísticas caracterizadas por uma crítica carência de vida urbana.

Nesta perspectiva os habitantes dos "Grands Ensembles" valorizaram os aspectos naturais do sítio e o conforto do fogo, apontando já alguns aspectos fulcrais dos erros urbanísticos (afastamento ao centro, problemas de vizinhança, sub-equipamento, etc.), mas esta era a geração cuja felicidade residencial estava em boa parte cumprida com a existência de uma habitação higiénica e funcional, era uma geração saída dos terríveis sacrifícios da guerra.

No entanto as gerações seguintes já tiveram outros termos de referência no que se refere à felicidade residencial, que não a destruição da guerra, e então, com certeza não só devido a essas condições de vizinhança, mas também por causa delas, a revolta começou a grassar nas periferias desumanizadas e soltas da cidade.


Fig. 02: a agradável continuidade urbana e residencial de Campo de Ourique, Lisboa.

Ainda antes de voltar a evidenciar esta fundamental alternativa de se poder viver uma vizinhança urbana viva, atraente, apropriável e ligada à cidade, qualidades estas que dificilmente se encontram em grandes conjuntos habitacionais periféricos, massivamente desenhados e sem vida, importa sublinhar que a referida situação relacional do “para lá das quatro paredes e da porta de entrada da nossa casa”, coloca uma perspectiva raramente interiorizada, mas que parece ser real e muito importante em termos de oferta de um amplo leque de soluções de habitar, referimo-nos à ideia de que o que realmente interessa a cada um de nós, habitante, é “a nossa casa” e, depois, provavelmente, o sítio que habitamos; e, desta forma, entre estes dois pequenos mundos – casa e sítio – uma outra dimensão arquitectónica e urbana fica, de certa forma, “no limbo”, referimo-nos ao edifício.

E podemos considerar mesmo que o edifício poderá ser uma realidade que tratemos de forma muito flexibilizada e operacionalizada considerando-o apenas na medida em que nos seja útil em termos de projecto de arquitectura e em termos de diálogo com os habitantes, porque o que realmente nos interessa é a nossa casa e o nosso sítio, um sítio que terá sempre a ver com uma vizinhança, com um bairro e com uma cidade, se estivermos a falar de um verdadeiro “sítio”.

Mas voltando à questão de uma potencial/teórica escolha entre felicidade doméstica ou felicidade residencial, considerando que esta última integra uma activa relação com o sítio que se habita, podemos “virar o bico ao prego” e lembrarmo-nos de sítios onde são as condições urbanas e de vizinhança que, de certa forma, equilibram negativas condições domésticas – situação que provavelmente caracterizou e caracteriza alguns bairros de barracas e casas abarracadas – e de sítios onde são as agradáveis condições urbanas que se assumem como verdadeiros complementos funcionais, espaciais e ambientais de condições domésticas espacialmente escassas.


Fig. 03: da velha cidade coesa e significante, no Bairro da Sé, no Porto, quando de uma outra visita do Grupo Habitar.

DA CIDADE COESA E SIGNIFICANTE

Etienne de Gröer escreveu que:"Avenidas que não conduzem a nada e cuja grande largura não corresponde a nenhuma função são sempre desertos cheios de poeira" (2).

Falar de cidades felizes, feitas de sítios felizes, é falar de Avenidas e ruas que levam a sítios específicos e cujas características físicas têm uma fundamentação adequada.

Sobre estas matérias de um tecido urbano coeso e sobre uma cidade habitada e bem marcada pelo homem Kevin Lynch (3) sublinha a falta de modelos intermédios de humanização, entre a zona urbana muito animada e o espaço residencial muito sossegado, e este autor reconhece o interesse de uma afirmada humanização da cena urbana que caracterize as ruas residenciais secundárias, apontando, mesmo, algumas soluções formais: a rua encurvada, a ruela sem saída com um remate ajardinado e a praceta residencial. Lynch vai, assim, ao âmago da questão da frequente falta de “sítios felizes” ou potencialmente felizes nas nossas cidades, pois a preocupação dirige-se ou para o “funcionamento” da cidade ou para o edifício, que, provavelmente, ainda não se libertou do anátema de ser considerado uma “máquina de habitar”.

Mas falar de cidades felizes é, acima de tudo, falar de bairros animados e atraentes e de vizinhanças que nos agradam, quando por elas passamos, por vezes sem entendermos a razão desta relação de atracção. E no entanto que ela existe e se exerce, felizmente, em muitos sítios, é um facto real e um facto que está bem aparente no seguinte comentário que um grupo de investigadores do CSTB escreveu e editou sobre os miolos urbanos vivos e felizes do interior do Bairro de Alvalade, em Lisboa:


Fig. 04: espaços urbanos que sejam espaços amigáveis e habitados.


Fig. 05: um pormenor de Benfica, carregado de vida.

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aux espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forma idéalt/ypique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs...

Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?” (4)

Não é possível deixar de comentar, a propósito deste excelente texto, tão sintético como expressivo, que estão aqui identificadas boa parte das razões de as casas poderem ajudar a uma verdadeira e expressiva satisfação dos seus moradores, e boa parte dessas razões estão nas vizinhanças e no cuidado que houve no seu desenho público, isto é na coordenação entre todas as formas urbanas exteriores – edifícios e espaços exteriores.

Há, assim, já aqui uma tendência para o privilegiar dos espaços de vizinhança, numa sua força pública, que se retomará, noutros artigos desta série, de outras formas.

Notas:
(1) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 17.

(2) Etienne de Groer, "Introdução ao Urbanismo", p. 61.

(3) Kevin Lynch, "La Buena Forma de la Ciudad", p. 299.

(4) GUIGOU, Brigitte, LAFORGUE, Jean Didier, SÉCHET Patrice, Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro 1999, p.10.

Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, de Novembro de 2008
Edição de José Baptista Coelho