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segunda-feira, setembro 04, 2017

608 - Habitar a Vizinhança Urbana – Infohabitar 608

Infohabitar, Ano XIII, n.º 608
Habitar a Vizinhança Urbana
por António Baptista Coelho

Tal como foi anteriormente divulgado, a Infohabitar está a retomar as suas edições regulares, procurando disponibilizar um novo artigo em cada semana e preferencialmente à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante já um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”.
Tendo em conta o elevado número de artigos editados e porque estamos numa altura de reinício das atividades regulares da nossa revista, lembrámo-nos de proporcionar uma “revisão da matéria dada”, antes de prosseguirmos na edição desta série.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos primeiros artigos da série, que abordam temáticas da natureza do habitar e da relação do sítio que habitamos e das suas caraterísticas com a qualidade habitacional atingida, sob o título geral: “Habitar a Vizinhança Urbana” e aproveitando-se para acrescentar ao texto que se segue uma muito pequena e informal nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias.

Em próximos artigos iremos disponibilizar uma base de estruturação de um edifício habitacional e dos seus espaços comuns e, sequencialmente, entraremos nos diversos espaços habitacionais privados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.
Salienta-se que a ordem de apresentação dos artigos que é em seguida adotada não cumpre, integralmente, a ordem em que foram editados, porque se entendeu ser preferível introduzir algumas, poucas, alterações na respetiva sequência.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.




São os seguintes os cerca de 20 artigos disponibilizados sobre o tema: “Habitar a Vizinhança Urbana”


Habitar pode e deve caraterizar-se por muito mais do que o “simples” habitar de uma dada habitação, qualificada como espaço essencialmente privado, pois um verdadeiro “habitar” pode e deve poder exercer-se no próprio eventual edifício comum/coletivo/multifamiliar onde se integra essa habitação e, também, na respetiva vizinhança urbana e paisagística; para além de que o próprio habitar mais privado, que se exerce dentro dos limites de uma dada unidade/célula habitacional, também pode e deve ter contornos socializadores (menos privados) e harmonizar vários espaços habitacionais privados e diversas atividades, que podem ser mais ou menos domésticas.

Esta ideia, que se pretende possa ser expressivamente prática, para lá do seu natural sentido teórico, relaciona-se diretamente com uma urgente diversificação e invenção tipológica, expressivamente direcionada para novas tipologias de habitações, de edifícios com conteúdos habitacionais e funcionais diversificados e de vizinhanças urbanas igualmente com conteúdos habitacionais e funcionais diversificados; uma reinvenção tipológica cuja urgência decorre da necessidade de resposta a novas formas de habitar casa, cidade e paisagem, a renovadas e novas necessidades humanas e funcionais, ligadas a um expressivamente novo perfil de habitantes e também a renovadas e novas necessidades urbanas e até paisagísticas.

Os artigos “arrumados” e direcionados neste texto não pretendem, evidentemente, dar resposta sistemática a estas questões, mas apenas contribuir para a sua discussão de uma maneira agradavelmente informal, recolocando o habitar urbano numa perspetiva talvez mais humana e natural, que procura investigar e discutir novas e velhas relações, imaginando um habitar mais integrado, estimulantemente sequenciado e até positivamente lúdico.

Há a certeza que se foi pouco longe nos textos dos diversos artigos que se apontam neste texto e nos textos editados nas próximas semanas, no entanto há que começar por algum lado e aproveitaram-se as “estruturas” razoavelmente “clássicas” da vizinhança, do edifício multifamiliar e da habitação para se refletir sobre “habitar e viver melhor” com melhor Arquitectura habitacional e urbana.

Considerando, agora, específica e muito brevemente as questões levantadas e o riquíssimo potencial arquitetónico e habitacional da vizinhança urbana, o que apenas e desde já queremos apontar é que a conceção de um “melhor habitar” deve considerar proximidades e relações urbanas vizinhas, deve incorporar espaços públicos e de uso público na sua génese, tanto em termos de “simples” relações visuais como em tudo o que tem a ver com matérias tão distintas e importantes como o conforto ambiental e social, e deve ousar inovar no sentido de se aproveitarem e maximizarem as caraterísticas locais, tanto ao serviço dessas matérias como da construção da sóbria identidade de cada intervenção; uma corajosa e vital inovação que deve ter em conta como se fez essa integração entre habitação e cidade densa, ao longo dos séculos, assim como as necessidades e potencialidades actuais de uma adequada vivência urbana tão local e doméstica como “central” e muito dinamizada.

De certa forma parece ser, hoje em dia, bem oportuno retomar – agora, naturalmente, de forma bem premeditada – a consideração do habitar a uma verdadeira escala de vizinhança de proximidade, estabelecendo-se sequências, alianças, compensações e misturas funcionais e imagéticas ricas e estimulantes, pois sendo mais complexa uma tal opção ela é expressivamente muito mais completa e gratificante quando habitada e assume-se, muito mais, como elemento dinamizador de todo o espaço urbano;

e a estas matérias voltaremos …

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 608
“Habitar a Vizinhança Urbana” – mais de 20 artigos sobre o tema

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, junho 26, 2011

352 - QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I - Infohabitar 352

Infohabitar, Ano VII, n.º 352

QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I:
Sobre diferentes formas de ocupação do
interior de quarteirões urbanos

António Baptista Coelho


Introdução

Um dos aspectos funcionais e de imagem/conteúdo urbano que mais intensa e criticamente marca o desenvolvimento de soluções de intervenção nova e de reabilitação em partes de cidades refere-se ao tipo de soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões, com vantagens “triplas”: para os seus respectivos habitantes e utentes mais directos; para o público em geral, considerando-se o respectivo uso público; e para a cidade ou parte de cidade/povoação que integra esses quarteirões – neste caso uma vantagem no sentido de se poder contar com um novo espaço urbano com as suas valias e imagens específicas, que assim possam cooperar e participar na diversificação e no enriquecimento dos conteúdos funcionais e imagéticos desses espaços urbanos.

Há que referir aqui e desde já que pretendemos voltar a esta temática, seja numa perspectiva mais directamente ligada à prática e eventualmente a exemplos específico comentados, seja numa outra perspectiva mais teórica e especialmente dedicada a aspectos, considerados pertinentes, ligados, designadamente, a aspectos de segurança urbana, dinamização e controlo da apropriação pelos moradores e equilíbrio das matérias associadas ao convívio e privacidade nas respectivas vizinhanças. Esta abordagem é, assim, uma primeira reflexão geral, escrita e ilustrada sobre uma temática que se pretende desenvolver aqui no Infohabitar.


Fig. 01: interior de pequeno quarteirão com projecto coordenado por Charles Moore em Malmö (2001)


Velhos problemas, velhas e novas potencialidades

Não seria aceitável avançar, desde logo, numa proposta de caminhos de solução no que se refere ao preenchimento urbano e habitacional do interior de quarteirões, sem se sublinhar que é conhecida, no meio da promoção habitacional, a sistemática associação que se faz entre ambientes urbanos tendencialmente negativos, em termos de usos favorecidos e imagens produzidas, e o desenvolvimento de interiores de quarteirão muito encerrados e pouco ligados à cidade envolvente.

Mas também é igualmente conhecida a frequente associação entre espaços urbanos escassamente definidos e envolvidos por edifícios e idênticas situações negativas em termos de actividades e de aspecto; trata-se aqui da tristemente famosa “mancha de óleo” de espaços exteriores sem carácter, pouco ligados a usos efectivos e frequentemente malbaratada pelo veículo motorizado.

E naturalmente que não estamos aqui a defender uma causa-efeito simples entre determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais e determinados tipos de comportamentos; apenas acreditamos que determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar positivos, enquanto outros tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar negativos, que, por vezes, afectam a nossa segurança física, que, muitas vezes, afectam a nossa percepção de segurança física e que, quase sempre, reduzem, activamente, o sentimento de bem-estar que deveríamos ter ao usar esses espaços públicos, levando-nos a uma retirada estratégica nas nossas habitações, num crescendo de um círculo vicioso de cada vez menos uso do exterior e cada vez pior uso do mesmo exterior.

E não tenhamos quaisquer dúvidas de que se tudo isto é verdade ao longo de ruas e pracetas, quando estas existem, então tudo isto acontece de forma ainda mais perceptível no interior dos quarteirões ou dos espaços urbanos secundários e de “traseiras” que sempre existirão na cidade, pois são sempre espaços potencialmente mais protegidos da mais intensa vista pública e sempre muito próximos da percepção de quem habita cada vizinhança.

Há, no entanto, também que referir que, evidentemente, nem só de problemas está marcada a pequena história – a fazer – do aproveitamento para a cidade e para as vizinhanças dos quarteirões urbanos; pois os quarteirões, os seus interiores, as suas zonas de relação com a continuidade urbana e os seus pontos de ligação ao interior dos edifícios, constituem das mais ricas matérias de concepção da arquitectura urbana pormenorizada, sendo possível identificar ao logo da história extraordinários exemplos de grande êxito funcional/formal em soluções de quarteirões tão protagonistas para um adequado e muito humano habitar das vizinhanças, como para uma cumulativa montagem de uma continuidade urbana vitalizada e diversificada; e complementarmente encontramos também nestas boas soluções importantes aspectos de harmonização entre natureza e cidade, entre privado e público e entre escalas muito humanizadas e apropriadas/apropriáveis e outras atraentemente “de cidade” e representativas.


Fig. 02: um outro pequeno quarteirão integrado na BO01 em Malmö (2001)


Objectivos gerais a aplicar no interior dos quarteirões urbanos

Globalmente, o que se julga ser importante estimular nas soluções de pormenor a criar e aplicar no interior de quarteirões urbanos e habitacionais é o uso intenso, específico e estrategicamente diversificado pelos habitantes dos diversos quarteirões dos respectivos espaços de miolo de quarteirão, harmonizando esse uso:

(a) essencialmente privativo e/ou comum, ligado às habitações contíguas (por exemplo, através de uma significativa parcela de terreno destinada a quintais e pátios privativos dos fogos menos elevados e de eventuais espaços comuns para estacionamento privativo dos respectivos residentes);

(b) com o papel urbano dos mesmos quarteirões, nas suas diversas relações com os espaços urbanos contíguos e próximos, na sua função potencial como espaço exterior:

(b1) directamente associado a equipamentos colectivos térreos e por eles directamente geridos;

(b2) indirectamente associado a um uso público, mediado por associações específicas (dos moradores/cooperativistas) que garantam a utilização adequada e a manutenção/gestão dos respectivos espaços (ex., campo desportivo, parque infanfil e mesmo um jardim "formal", devidamente equipados e regrados nas sua utilização);

(b3) e, sempre que possível, caracterizado por uma elevada permeabilidade pluvial e por uma significativa componente de verde urbano, em soluções que têm de ser devidamente adequadas a cada solução/situação específica – no limite aceitar-se-á, até, a “quase-ausência” de verde urbano, desde que justificada por aspectos de contraste e de vizinhança particularizados.

A ideia geral e “primeira” é, assim, não favorecer, em cada quarteirão, a definição de um amplo espaço de condomínio privativo dos respectivos moradores, de certa forma indiferenciado, eventualmente ajardinado e equipado, mas com um sentido de uso exclusivo de um dado grupo muito marcado e em forte oposição aos espaços públicos contíguos.

A ideia geral e “primeira” é a proposta de um uso diferenciado e intenso desse interior de quarteirão, ocupando todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica, considerando-se e valorizando-se a situação e a configuração únicas dos respectivos espaços, mas procurando-se desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora sempre submetida a uma certa vigilância natural por parte da respectiva vizinhança, realizada seja a partir das habitações, seja a partir dos equipamentos térreos e exteriores.

Fig.03: interior de quarteirão numa periferia de Madrid


O acesso ao interior dos quarteirões: situações-tipo a favorecer

Antes de se iniciar uma apresentação sintética do que se designa como situações-tipo a favorecer no acesso ao interior dos quarteirões, salienta-se que não se optou assim, numa primeira linha, pelo favorecimento de utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo e especificamente a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública, porque se considera que esta opção, que será sinteticamente abordada num dos últimos itens deste texto, tem uma viabilidade muito condicionada a condições muito específicas de promoção e de gestão desta solução, sendo difícil de aplicar em situações mais correntes, em que dificilmente seja garantida a eficácia da gestão diária posterior, e sendo muito problemática de aplicar sempre que o sítio de implantação esteja associado a problemas sociais e à recente concentração de habitação de interesse social.

Pretende-se, assim, desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora de forma bem acompanhada, enquadrada e circunscrita a determinados espaços bem definidos.



Fig. 04: interior de quarteirão em Telheiras, Lisboa, coord. Arq.ºs Rodrigo Rau e Eugénia Cruz

Visa-se, deste modo, favorecer um uso diferenciado e intenso do interior de cada quarteirão urbano e habitacional, ocupando-se e dinamizando-se todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica; situação global relativa a cada quarteirão específico (configuração, dimensionamento, contiguidades, proximidades, etc.) e “micro-situação” urbana de cada parte do interior de cada quarteirão (tipo de espaço, extensão, contiguidades, usos, etc.), produzindo-se uma situação final em que o acesso ao interior do quarteirão se fará, quase exclusivamente, nas seguintes situações-tipo:

(i) Ter acesso a "veredas" comuns que dão acesso a bandas de pequenos quintais e pátios privativos e contíguos a habitações térreas ou pouco elevadas (e este acesso poderá ser condicionado e negociado em pontos de acesso públicos devidamente equipados, como se se tratasse do acesso a espaços comuns de circulação "em edifícios"), sendo que estes quintais/pátios privativos devem ser devidamente regulamentados no seu uso, serem em parte ou totalmente permeáveis, terem uma forte componente de elementos de vegetação e proporcionarem uma estratégica permeabilidade visual de modo a que o seu verde contribua activamente para o verde urbano do interior do quarteirão.

(ii) Ligar, eventualmente, a solução-tipo que acabou de ser referida a uma solução de arquitectura que aposte, nos pisos superiores, num escalonamento de pequenos terraços, varandas e sacadas integrando elementos verdes e eventualmente permitindo ainda acesso do 1.º andar a alguns pequenos jardins privativos.

(iii) Aceder a bolsas de estacionamento comuns ou mesmo privativas (ex., lugares marcados), devidamente naturalizadas por pavimentos permeáveis e estrategicamente arborizadas, numa situação que também aceita bem a marcação por elementos de contrlo de acesso, visualmente bem integrados.

(iv) Ter acesso a amplos espaços comuns ajardinados e de recreio que pertencem exclusivamente a determinados equipamentos de apoio à infância e/ou aos idosos, mas cujo aspecto e elementos de verde urbano influenciam positiva e directamente a imagem global do miolo do quarteirão.

(v) Ter acesso condicionado a espaços de desporto e de recreio infantil bem equipados (piso, rede, iluminação artificial, bancos para assistir, etc.) e enquadrados por vegetação, geridos por associações específicas (ex., através do respectivo pelouro cultural das cooperativas).

(vi) Aceder à esplanada de café/restaurante, gerida e controlada por esse mesmo equipamento e possuindo vistas estratégicas sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior.

(vii) Ter acesso a pequenas continuidades estratégicas de equipamentos comerciais essencialmente viradas para o exterior público, mas com pontos de vista estratégicos sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior; considerando, no entanto, que este(s) pólo(s) de equipamento devem ser localizados concentrada e estrategicamente, caso contrário não terão viabilidade.

(viii) Considerar a marcação de pontos de acesso às referidas veredas pedonais no interior do quarteirão (acesso a quintais e equipamentos exteriores), bem como às bolsas privativas de estacionamento devidamente concentrados, bem delimitados, bem visíveis e contíguos a entradas comuns de edifícios e a equipamentos muito usados, de modo a fomentar e facilitar a sua vigilância natural, ponderando-se, ainda, a instalação nesses "pontos" de cancelas visualmente agradáveis e preferencialmente sem fechaduras - a ideia seria condicionar/marcar a entrada com diferenças de nível e marcações estratégicas, mas também, eventualmente, com cancelas que estejam sistematicamente fechadas/encostadas, mas não fechadas com fechaduras, sendo também estes pontos estratégicos para a clara e bem visível indicação de regras/instruções de uso dos respectivos espaços.

(ix) Considerando-se a situação e a espaciosidade específica de cada quarteirão eles poderão incluir ainda outro tipo de instalações que facilitam a gestão do seu interior, tais como espaços específicos para instalação de condomínios/associação de moradores em espaços com diversas valências e onde se procure vitalizar o uso desses espaços e dos espaços contíguos, mas sempre numa lógica de adequada definição de responsabilidades de uso/manutenção e de gestão.



Fig. 05: interior da cooperativa Irmanadora, Costa da Caparica,coord. Arq.º Justino Morais


Considerar, especificamente, determinados aspectos de segurança urbana e de gestão

Importa ainda considerar que na identificação das melhores soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões é fundamental ter em conta certos aspectos específicos de segurança urbana e de gestão local, designadamente:

 As acessibilidades em termos de intervenção por parte de forças de segurança, que são favorecidas, seja pela existência de vários acessos bem definidos, que proporcionem acessos em diferentes "pontos", não obrigando a um acesso único e facilmente vigiado, mas também não proporcionando uma infinidade de percursos de acesso e eventual fuga; portanto favorecendo uma estratégica definição de acessos , assim como a continuidade de vistas sobre o interior do quarteirão a partir das habitações e equipamentos contíguos.

 A acessibilidade em termos de segurança contra risco de incêndio e de acessibilidade de emergência no interior do quarteirão - podendo ser necessário prever mecanismos que permitam acessos ocasionais dessse tipo em zonas/veredas pedonais.

 A adequada iluminação artificial na envolvente e no miolo do quarteirão, tendo em conta características anti-vandalismo.

 Uma cuidadosa concepção que favoreça condições de visibilidade maximizadas no interior do quarteirão, entre os seus diversos espaços e a partir das habitações, dos quintais privativos e dos equipamentos envolventes; sendo que tais condições deverão ser, ainda, maximizadas nos "pontos" de acesso ao interior do quarteirão.

 Um processo de gestão do quarteirão que englobe a manutenção e o acompanhamento corrente e em continuidade não só dos edifícios como do respectivo interior do quarteirão, sugerindo-se que a respectiva gestão e custos associados sejam da responsabilidade dos respectivos condóminos dos diversos edifícios que constituem o quarteirão.

 A questão de se poder incluir vídeo-vigilância em pontos estratégicos e designadamente nos pontos de acesso ao interior do quarteirão, com a devida divulgação pública, é matéria que apenas se aponta no sentido de poder vir a ser equacionada em termos de viabilidade e adequação.


Notas complementares sobre as potencialidades da solução de Arquitectura

Acrescenta-se, ainda, que no desenvolvimento das mais adequadas soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões a solução de Arquitectura, poderá, eventualmente e de forma harmonizada com cada situação, investir nos seguintes aspectos (muito sintetizados):

 Optar por uma solução caracterizada pela sobreposição de habitações com um sentido de unifamiliares em banda, evidenciando-se, no interior do quarteirão uma imagem de uma pequena praceta de "moradias" que poderiam ter até o acesso principal e até eventualmente espaços de estacionamento privativo no interior do quarteirão; sendo que sobre esta "camada" habitacional surgiria uma outra camada eventualmente com acesso por galerias a partir de espaços verticais de acesso que também facultariam acesso comum ao interior de quarteirão.

 Optar, no interior do quarteirão, por uma pequena cascata habitacional sequencial (subindo): (i) de pequenos quintais privativos e permeáveis, (ii) pequenos terraços/varandas fundas (eventualmente em alguns casos com acessos privativos a pequenos pátios térreos); (iii) e sacadas com floreiras.

 Optar por alguns "jogos" de níveis no interior do quarteirão, proporcionando uma harmonizada integração de estacionamentos cobertos, comuns e/ou privativos e de estacionamentos pivativos, exteriores, arborizados e multifuncionais.

 Na aplicação de pátios/jardins privativos, proporcionar desde logo pequenos espaços de arrumação tipificados e bem integrados, para apoio à jardinagem, permanência no exterior e arrumação de bicicletas, e privilegiar vedações "verdes" e já pré-desenvolvidas, designadamente numa boa relação com muros e muretes e boa visibilidade relativamente às veredas pedonais de acesso.

Naturalmente, há que sublinhar que o "partido" arquitectónico e o tipo de solução escolhida no interior do quarteirão deve ter o seu reflexo no respectivo exterior envolvente do próprio quarteirão, ou, alternativamente, pode haver um equilibrado jogo de contrastes e de surpresa, mas que nunca esqueça a finalidade básica habitacional do quarteirão, num sentido que provavelmente favorecerá, sempre, uma opção por alguma sobriedade e por uma ssumida integração na envolvente urbana e paisagística.

E há que registar que, naturalmente, a opção por se fazer um espaço urbano em "quarteirão" não é, naturalmente, única nem "obrigatória", mesmo em meios urbanos com afirmada e agradável continuidade, podendo haver outro tipo de opções que, designadamente, favoreçam a maior abertura do conjunto habitacional à sua envolvente, ou que tendam a transformar o respectivo interior de quarteirão num espaço urbano com características de praceta urbana convivial, e portanto estrategicamente mais permeável aos percursos urbanos envolventes. Mas estamos aqui a abordar especificamente a opção pelo quarteirão e as formas de desenvolver o respectivo conteúdo urbanístico e residencial.


Fig. 06: interior de quarteirão em Telheiras, coord. Arq.º Duarte Nuno Simões


Situações específicas a considerar

Pela sua especificidade e importância na programação e na concepção de pormenor dos interiores de quarteirão urbanos e habitacionais referem-se, em seguida, alguns aspectos associados ao dimensionamento de habitações de interesse social e à responsabilidade na gestão dos equipamentos previstos:

 Salienta-se que, em todas estas matérias e designadamente no desenvolvimento de soluções térreas e/ou com acesso térreo individualizado e directo ao espaço de uso público, assim como na criação de varandas/terraços, há que ter em conta as limitações de Área Bruta (Ab) referidas nas Recomendações Técnicas para Habitação Social, nas quais qualquer área pavimentada e mesmo a área de implantação de muros contam para a Ab e acabam, assim, por ter de ser, de certa forma “descontadas” à área interior do fogo, uma situação que poderá ter de contar com a compreensão técnica das entidades responsáveis pela apreciação destas soluções para uma situação especial como esta – na qual este tipo de solução poderá ser um elemento fundamental de boa apropriação e integração social do conjunto; e naturalmente a própria solução arquitectónica deve basear-se, ao máximo, na ausência de pavimentos e grandes muros nos quintais/pátios térreos, ou então apenas muros pouco espessos entre áreas privativas e exteriores térreas, complementados por vedações verdes/naturais e/ou de outro tipo, por exemplo no contacto com áreas comuns – mas devendo garantir-se condições de segurança contra intrusão maximizadas nos espaços exteriores privativos (ou de uso privativo) e nos próprios fogos térreos, sendo tais condições bem previstas logo no projecto.

 Quanto a eventuais estacionamentos comuns privativos no exterior terá de ser bem considerada a situação em termos do seu suporte legal e tendo em conta que esta situação não deve encarecer a intervenção, designadamente, no seu desenvolvimento pelas cooperativas. Quanto a espaços de jogos/desporto e recreio infantil vedados e com acesso condicionado e gerido pelas cooperativas julga-se ser esta uma situação muito adequada e que também não deverá encarecer o desenvolvimento da operação pelas cooperativas (para além do seu desenvolvimento específico), considerando-se que será perfeitamente possível que o uso das instalações seja aberto ao público em geral embora de acordo com o cumprimento de regras de uso/manutenção bem definidas e centradas nos pelouros culturais das respectivas cooperativas.



Outras soluções de preenchimento de quarteirões

Tal como se apontou atrás, em condições urbanas, vicinais e sociais específicas e positivas é possível optar por interiores de quarteirão com utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo, e especificamente, a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública. Sobre esta matéria há que referir, desde início, que a ocupação provavelmente mais adequada nestes casos será por um jardim urbano agradável e intensamente utilizável numa perspectiva quase de expansão natural do habitar sobre o exterior contíguo, mas que reforce a presença da natureza e dos seus elementos distintivos, mediante um sensível e qualificado projecto de paisagismo que introduza, designadamente, uma ampla variedade de espécies vegetais, a dinamização do povoamento por pássaros e um tema “central” de composição bem integrado ao tema arquitectónico fundamental desse quarteirão.

Será, assim, possível ganhar mais um jardim para a cidade, sem custos suplementares para esta cidade e enquanto se desenvolve um jardim de proximidade e que serve essa mesma vizinhança/proximidade; mas reforça-se a ideia de que este objectivo óptimo só será possível em condições especiais físicas, sociais e de gestão, caso contrário nem o jardim se conseguirá estabilizar, nem o ambiente será favorável para a própria vizinhança e para a cidade.


Fig. 07: pequeno quarteirão, no Monte Espinho, coord. Arq.ª Paula Petiz.


Aspectos de gestão

Chegados aqui há que salientar a importância da gestão no desenvolvimento de interiores de quarteirão urbanos e habitacionais, que sejam funcionais e agradáveis, sublinhando-se ser a garantia de uma gestão local e de continuidade eficaz condição necessária e fundamental para a viabilidade desses espaços e das suas respectivas vizinhanças e para a sua essencial boa influência na cidade envolvente.

Não valerá a pena prever equipamentos comuns e espaços térreos privatizados sem se prever e embeber na promoção um sistema de gestão e de controlo dos usos que tenha um máximo de viabilidade. Situação que se tentou facilitar e apontar, nas páginas anteriores, através do favorecimento de soluções que definam, delimitem e responsabilizem os usos de cada espaço em presença no interior do quarteirão, anulando-se espaços sem usos, bem como espaços residuais e associando-se, estrategicamente, acessos a edifícios e a equipamentos em "pontos" estratégicos e menos visíveis, evitando-se, assim, que estes locais se tornem sítios de usos negativos, e pelo contrário transformando-os em pequenos pólos vitalizadores e securizadores de zonas exteriores contíguos, ainda, eventualmente, mais recônditas e menos visíveis a partir das habitações e dos equipamentos e principais acessos exteriores.

Mas para além de todas estas medidas há que pôr de pé uma entidade local responsável pela gestão do conjunto destes espaços, ou, pelo menos, pelas suas principais zonas de equipamento, e há que garantir a articulação desta entidade com os condomínios que integram o quarteirão e com os processos usados para apelar a intervenções de emergência, designadamente, da polícia e dos bombeiros, sendo também de grande importância a eventual integração do interior do quarteirão num processo de “policiamento de proximidade” - modalidade que está a ser favorecida pela PSP - e, naturalmente, que a própria polícia e os bombeiros sejam convidados a pronunciar-se sobre a solução urbana de pormenor a tempo de se poderem integrar as suas eventuais sugestões.


Breves reflexões finais

Como breves reflexões finais salienta-se o interesse humano e urbano de se aprofundar a criação de uma cidade de quarteirões, que possa ser uma cidade cujas vizinhanças caracterizadas e agradáveis contribuam para um adequado efeito de conjunto e para estimulantes sequências citadinas em que se possa, assim, experimentar uma série de pequenos mundos residenciais.

Volta a referir-se que há outras soluções para se fazer cidade, mas considera-se que aquela que recorre a quarteirões tenta proporcionar boas e diversificadas condições habitacionais e urbanas aos novos habitantes de zonas eventualmente sensíveis em termos sociais, através de soluções que definem uma terceira via entre uma “não-solução” de privatização condominial do exterior que vai fazendo morrer o espaço urbano e uma outra “não-solução” de espaço condominial "aberto", que provavelmente também não terá grandes perspectivas de sustentabilidade.


Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.






Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


Infohabitar, Ano VII, n.º 352, 26 de Junho de 2011

quinta-feira, agosto 30, 2007

155 - Humanização e densificação urbana – texto de António Baptista Coelho - Infohabitar 155

  - Infohabitar 155


Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana: a propósito de alguns casos destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007



Fig. 01: Vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela SGAL em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa, com projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 02: Vista geral do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovido pela Imopro, em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira – com projecto e coordenação da arquitecta Carla Baptista e do arquitecto Freddy Ferreira César.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais que foram editados no Infohabitar ao longo de Agosto de 2007 e que são rematados com o presente artigo:

. Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.



Fig. 03: Vista do conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes, em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores, com projecto coordenado pelos arquitectos Miguel Rocha e Miguel Saraiva.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados nas passadas semanas e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

(iii) A importância da integração urbana e paisagística.

(iv) Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.


Fig. 04: Vista do conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro, com projecto e coordenação do arquitecto Delfim Sobreiro.


Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007

Nota: as soluções aqui apresentadas mereceram diversos destaques no PRÉMIO INH/IHRU 2007.




Fig. 05: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa

Alta de Lisboa, Lisboa, 47 fogos


Conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL S.A. em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa, construído pela empresa Teodoro Gomes Alho, S.A., com projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Neste conjunto acima de tudo e em primeira linha destacam-se dois aspectos, que, aliás, interagem na criação de um efeito global muito positivo, são estes aspectos:

. uma exemplar integração topográfica, que marca toda a intervenção e que em cada zona responde ao desnível com soluções específicas ao nível do espaço exterior e das soluções edificadas;

. e uma excelente relação de integração funcional e de imagens entre tipologias unifamiliares em bandas densas e blocos multifamiliares recintando espaços exteriores pedonais.



Fig. 06: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa


Fig. 07: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa

Mas para além destes aspectos há ainda que referir alguns outros, entre os quais se destacam:

. a estimulante diversificação tipológica dos edifícios unifamiliares, todos eles bem marcados por uma forte integração topográfica e pelo pleno aproveitamento de pequenos espaços exteriores privativos, estrategicamente recatados das vistas públicas;

. o interessante e vitalizador entremear das bandas unifamiliares por passagens pedonais e por pequenas pracetas de lazer exemplarmente ajardinadas;

. a rara ligação entre tipologias uni e multifamiliares construindo um verdadeiro quarteirão interiormente pedonalizado;

. a excelente integração, no miolo deste quarteirão, de um importante equipamento residencial para pessoas com deficiência;

. a imagem assumidamente urbana e atraente deste quarteirão, que, de certo modo, antecipa e marca o que será a futura imagem urbana da zona;

. e, finalmente, o cuidado que foi aplicado em todos os pequenos espaços de remate e de finalização de ruas e de passagens, dando-se-lhes a importância urbana que lhes é realmente devida, pois são espaços muito perto do nosso olhar.




Fig. 08: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

Amparo, Funchal, 271 fogos


Conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro, S.A. em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira –, construídos pela empresa Sótrabalho, S.A., e com projecto e coordenação da arquitecta Carla Baptista e do arquitecto Freddy Ferreira César.

É necessário e urgente aprendermos a fazer bem e numa maior escala urbana aquilo que já conseguimos fazer, frequentemente, ao nível do edifício de habitação fisicamente bem integrado e humanizado.

Tal necessidade não nega a fundamental importância do desenvolvimento de pequenas intervenções citadinas com reduzidos números de fogos, mas liga-se à necessidade de se poder intervir, de forma claramente requalificadora, em acções cuja importância lhes atribua funções de referência local e processual.


Fig. 09: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

A intervenção no sítio do Amparo, no Funchal, tem estas características, mas, além delas, é ainda o resultado de um processo conceptual correcto e “natural” com o qual se conseguiu harmonizar um número significativo de fogos e uma assinalável massa de construção:

. seja a uma topografia complexa;

. seja a uma envolvente ainda marcada pela pequena escala;

. seja a importantes preexistências;

. seja à sempre presente e exuberante vegetação madeirense, que aqui tem honras de verdadeira aliada do edificado.


Fig. 10: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

E para além de tudo isto:

. fez-se arquitectura urbana com desenhos de vãos e de portadas, graficamente expressivos;

. aplicou-se, com fundamentada inovação, uma tipologia de galerias exteriores que se constitui numa verdadeira oferta à cidade e à paisagem;

. reduziram-se, com aparente simplicidade, problemas ambientais de proximidade a vias rodoviárias;

. introduziu-se um verde urbano em múltiplas e ricas formas, tirando-se partido da sua riqueza básica;

. "embebeu-se" o equipamento no habitar;

. criaram-se atraentes e motivadoras sequências pedonais;

. e, acima de tudo, vitalizou-se a habitação com equipamentos conviviais, nos sítios certos de esquinas, passagens e transparências.



Fig. 11: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.

Relva, Ponta Delgada, 21 fogos


O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes, S.A. em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores, construídos pela empresa Sanibetão, S.A., e com projecto coordenado pelo arquitecto Miguel Rocha e pelo arquitecto Miguel Saraiva.

O pequeno conjunto habitacional na Relva, Ponta Delgada, tem uma qualidade sóbria mas emotiva, que resulta de um interessante equilíbrio entre:

. o excelente controlo da escala edificada bem marcada pela dimensão e usos humanos;

. a bem doseada diversificação de uma imagem urbana assumidamente contínua;

. e uma evidenciada conjugação de distintas tipologias, quase que numa positiva recriação de um pequeno pedaço de cidade.



Fig. 12: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.



Fig. 13: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.

Para além disto, que não é pouco, pois imagina-se facilmente o que muitos fariam face ao objectivo de realizar um pequeno número de edifícios unifamiliares em bandas, evidencia-se nesta solução:

. uma excelente integração topográfica, que é “casada” com a rentabilização da luz natural no interior doméstico;

. e uma interessante relação entre espaços privativos fechados e abertos, uma relação que proporciona uma positiva integração do estacionamento automóvel e o desenvolvimento de vários tipos de usos exteriores no interior dos lotes.

Finalmente evidencia-se uma solução que alia o unifamiliar a uma forte continuidade urbana e a uma rara marcação da escala humana, aliás uma escala que marca todo o miolo interior doméstico.




Fig. 14: O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro.

Vila Praia de Âncora, Caminha, 36 fogos


O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro, Lda. e construídos pela empresa Aurélio Martins Sobreiro & Filhos, S.A., com projecto e coordenação do arquitecto Delfim Sobreiro.

Simplicidade e racionalidade construtiva e arquitectónica, continuidade urbana e definição de uma vizinhança de proximidade (ainda que não inteiramente aproveitada por ausência da intervenção municipal), desenvolvimento de uma solução tipológica edificada pouco frequente e muito estimulante e criação de espaços domésticos envolventes e acolhedores, são estes alguns dos principais aspectos deste conjunto habitacional em Vila Praia de Âncora.


Fig. 15: O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro.

Há, no entanto, quatro aspectos que são merecedores de um destaque especial:

. um deles é a forte aliança que está bem evidenciada entre qualidade e racionalidade construtiva e qualidade arquitectónica, o que é um importante caminho a seguir;

. o outro é a atraente e estruturante imagem urbana, que se constitui num elemento positivo de referência no local de implantação e que é bem pontuada pela escala humana;

. outro aspecto é a solução de pequena galeria interior de distribuição, bem larga e bem iluminada zenitalmente, que configura um verdadeiro e estimulante espaço de transição entre a rua e a habitação e que conforme subimos vai sendo estimulantemente diferente, devido à variação nas condições de luz natural;

. e finalmente, no interior doméstico há aspectos de pormenorização bem conseguidos, seja em termos de durabilidade, seja em termos de imagem doméstica, como é o caso da parede em tijolo aparente.



Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Sete aspectos projectuais merecem uma referência especial no remate da apresentação destes que se destacaram no PRÉMIO INH/IHRU 2007 e aqui abordados genericamente, embora numa perspectiva razoavelmente marcada pelo tema da relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana:

(i) O primeiro aspecto põe em relevo a ligação que existe entre estas matérias da escala humana e da densificação e o assunto da integração urbana e paisagística, referido no último artigo; bastará uma pequena observação das soluções, aqui apresentadas, das moradias na Alta de Lisboa e do conjunto na Relva para se ter a noção da relação estreita entre integração paisagística e escala humana; e bastará voltar a observar o grande quarteirão no Amparo e mesmo o pequeno quarteirão em Vila Praia de Âncora para se ter bem presente o enorme potencial de relação entre integração urbana e paisagística e densificação.

(ii) O segundo aspecto vai recuperar as matérias associadas ao desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, também especificamente abordadas num outro artigo desta série, e aponta as relações estreitas que se podem desenvolver entre esta criação de vizinhanças e o favorecimento da densificação, e aqui também se evidenciam os conjuntos na Alta de Lisboa – designadamente na sua parte de quarteirão misto (constituído por edifícios uni e multifamiliares) –, e naturalmente o grande quarteirão no Amparo, num caso e noutro marcados por expressivas intenções de incentivo a relações de vizinhança marcadas pela espontaneidade.

(iii) O terceiro aspecto refere-se, especificamente, ao grande interesse que há no desenvolvimento de relações directas entre escala humana e elementos arquitectónicos, relações estas ainda mais interessantes quando se trata de intervenções residenciais. É, naturalmente, um velho e bom tema de arquitectura, mas é sempre com um gosto muito especial que se visitam soluções tão directamente relacionadas com as dimensões humanas como é o caso das dinâmicas frentes de moradias na Alta de Lisboa e como fica tão expressivamente evidenciado, embora com uma grande gentileza – o que é também factor de humanização – nas frentes das moradias na Relva.

E ainda sobre esta matéria da humanização há que salientar a excelente preocupação que na Alta de Lisboa houve com um verde público protagonista e também cheio de escala, não foi por se tratar de moradias que se esqueceu esse verde, e há que sublinhar o enorme cuidado na pormenorização de diferentes soluções de moradia, no pequeno conjunto da Relva, e todas tão bem “casadas” com o terreno e tão intérpretes da dimensão e dos próprios gestos do homem.

(iv) O quarto aspecto é difícil de explicar em poucas palavras porque se refere a uma aposta, plenamente ganha, de fazer um elevado número de fogos, concentrando esse grande número de fogos num espaço urbano muito contido e com grande escala física, e associando a este perigoso desafio a ideia de marcar, fortemente, esta intervenção com a escala humana, naturalmente, não só porque se tratava de arquitectura para os homens habitarem, mas porque assim se iria provavelmente obter uma apreciável suavização da percepção que se teria dessa concentração e dessa grande escala física. Naturalmente que se fala aqui do excelente conjunto do Amparo e julga-se, que tal como foi dito que se trata de uma aposta plenamente ganha, e aliás houve todos os cuidados preparatórios para um tal resultado, cuidados estes que também jogaram com a integração e com o verdadeiro desenho urbano, aquele que tem já apontamentos de arte urbana.

(v) O quinto aspecto, que é também difícil de sintetizar, sublinha a atenção que há que dirigir para a verdadeira conjugação e interacção entre habitação e outras actividades citadinas, e isto tem tudo a ver com as matérias da densificação e da escala humana. A cidade densificada de que se gosta e que se vive com prazer é a cidade das actividades que não são só o habitar, especificamente, a cidade na qual se vai a uma loja e a um café, naturalmente, quando se sai ou antes de entrar em casa, onde vivem famílias e pessoas sós, novos e velhos. Se retiramos a uma cidade densificada boa parte dos conteúdos funcionais que fazem parte do habitar a cidade, mas que não são, especificamente, habitação, ficamos com os famosos dormitórios citadinos e então, então, vamos sentir muito negativamente o peso da densidade.



Fig. 16: Uma vista do conjunto do quarteirão uni e multifamiliar, integrando equipamento residencial, na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa

E sobre estas matérias, que importa estudar, os exemplos aqui disponíveis do quarteirão na Alta de Lisboa, que integra, de forma perfeita, um equipamento residencial para deficientes, e do grande quarteirão no Amparo, Funchal, que para além de outros diversos equipamentos, está tão agradavelmente vitalizado por inúmeros pequenos “cafés” com esplanadas, que estão, aliás já cheios de vida, são verdadeiros casos de referência, que reafirmam que habitar não pode, não deve ser apenas “da porta para dentro”, pois se o for não se está a habitar a cidade e quando não se habita a cidade, criam-se problemas de desintegração social e não se contribui para a verdadeira riqueza social e cultural da vida citadina, e assim se terá um habitar incompleto e que não poderá satisfazer os seus habitantes.



Fig. 17: Uma das inúmeras pequenas esplanadas do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira. O habitar tal como deve ser, estendendo-se, bem vivo, para fora da soleira da porta de casa.

(vi) O sexto aspecto é rápido na sua referência e tem a ver com a relação estreita e muito eficaz que pode e deve ser estabelecida entre aspectos de humanização, densificação e escala humana e as fundamentais preocupações de dignidade e atractividade da imagem urbana e aqui estes conjuntos na Alta de Lisboa, no Amparo, na Relva e em Vila Praia de Âncora são todos bons exemplos desta opção, que, como é sabido, é fundamental em termos de integração social e urbana.

(vii) E, finalmente, o sétimo e último aspecto é tão importante como rápido de apontar aqui, trata-se da necessidade urgente que há de se aprender ou reaprender a fazer habitação urbana densificada e qualificada, designadamente por uma forte humanização, e esta é uma matéria que tem tanto a ver com a hoje crucial reabilitação e regeneração urbana – em acções de reconversão e preenchimento – como com o estudo e o ensaio cuidados de novas e velhas soluções tipológicas de edifícios, fogos e equipamentos urbanos. Mas atenção ao risco de se procurar a densificação como um fim em si mesma, tal seria um erro bem grave, assim como outro erro seria considerar a densificação pouco compatível com aspectos humanizadores, como são a escala humana e a integração de verde urbano, tal não é verdade tal como se prova com as imagens do Amparo.

ABC, Casais de Baixo, Azambuja, 29 de Agosto de 2007
As fotografias são de António Baptista Coelho, excepto as imagens de Vila Praia de Âncora, que são do Arq. José Clemente Ricon.

Edição:
Encarnação-Olivais Norte, por José Baptista Coelho, 30 de Agosto de 2007.