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segunda-feira, outubro 01, 2018

658 - GESTÃO DA CIDADE HABITADA - Infohabitar 658

INFOHABITAR N.º 658
GESTÃO DA CIDADE HABITADA

Conjunto de 5 artigos

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 5 artigos, editados em 2006, desenvolvidos por 3 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática da GESTÃO DA CIDADE HABITADA.

E lembra-se que esta matéria da GESTÃO DA CIDADE HABITADA constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos temas tratados nos artigos cujos links são disponibilizados mais abaixo:

- Cidades em crise e cidades desejáveis.

- Administração do Parque Publico de Arrendamento Habitacional.

- Um novo Modelo de Gestão da Habitação.

Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)


GESTÃO DA CIDADE HABITADA 

As cidades em crise são as cidades desejáveis– artigo de António Baptista Coelho (n.º 173, 6 Dezembro 2007, 16 págs., 11 figs.)

A Administração do Parque Publico de Arrendamento Habitacional – Guilherme Vilaverde (n.º 67, 30 Jan. 06, 4p. ).

Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação IV– João Carvalhosa (n.º 66, 25 Jan. 06, 5p.).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação III – João Carvalhosa (n.º 65, 19 Jan. 06, 9p. 3 fig.).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação II – João Carvalhosa (n.º 64, 15 Jan. 06, 9p., 8fig.).

Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação I – João Carvalhosa (n.º 63, 10 Jan. 06, 10p., 1fig.).


Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 658
GESTÃO DA CIDADE HABITADA
Conjunto de 5 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, junho 26, 2011

352 - QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I - Infohabitar 352

Infohabitar, Ano VII, n.º 352

QUARTEIRÕES DE VIZINHANÇA I:
Sobre diferentes formas de ocupação do
interior de quarteirões urbanos

António Baptista Coelho


Introdução

Um dos aspectos funcionais e de imagem/conteúdo urbano que mais intensa e criticamente marca o desenvolvimento de soluções de intervenção nova e de reabilitação em partes de cidades refere-se ao tipo de soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões, com vantagens “triplas”: para os seus respectivos habitantes e utentes mais directos; para o público em geral, considerando-se o respectivo uso público; e para a cidade ou parte de cidade/povoação que integra esses quarteirões – neste caso uma vantagem no sentido de se poder contar com um novo espaço urbano com as suas valias e imagens específicas, que assim possam cooperar e participar na diversificação e no enriquecimento dos conteúdos funcionais e imagéticos desses espaços urbanos.

Há que referir aqui e desde já que pretendemos voltar a esta temática, seja numa perspectiva mais directamente ligada à prática e eventualmente a exemplos específico comentados, seja numa outra perspectiva mais teórica e especialmente dedicada a aspectos, considerados pertinentes, ligados, designadamente, a aspectos de segurança urbana, dinamização e controlo da apropriação pelos moradores e equilíbrio das matérias associadas ao convívio e privacidade nas respectivas vizinhanças. Esta abordagem é, assim, uma primeira reflexão geral, escrita e ilustrada sobre uma temática que se pretende desenvolver aqui no Infohabitar.


Fig. 01: interior de pequeno quarteirão com projecto coordenado por Charles Moore em Malmö (2001)


Velhos problemas, velhas e novas potencialidades

Não seria aceitável avançar, desde logo, numa proposta de caminhos de solução no que se refere ao preenchimento urbano e habitacional do interior de quarteirões, sem se sublinhar que é conhecida, no meio da promoção habitacional, a sistemática associação que se faz entre ambientes urbanos tendencialmente negativos, em termos de usos favorecidos e imagens produzidas, e o desenvolvimento de interiores de quarteirão muito encerrados e pouco ligados à cidade envolvente.

Mas também é igualmente conhecida a frequente associação entre espaços urbanos escassamente definidos e envolvidos por edifícios e idênticas situações negativas em termos de actividades e de aspecto; trata-se aqui da tristemente famosa “mancha de óleo” de espaços exteriores sem carácter, pouco ligados a usos efectivos e frequentemente malbaratada pelo veículo motorizado.

E naturalmente que não estamos aqui a defender uma causa-efeito simples entre determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais e determinados tipos de comportamentos; apenas acreditamos que determinados tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar positivos, enquanto outros tipos de espaços urbanos e habitacionais facilitam e incentivam determinados tipos de comportamentos cívicos e urbanos que podemos considerar negativos, que, por vezes, afectam a nossa segurança física, que, muitas vezes, afectam a nossa percepção de segurança física e que, quase sempre, reduzem, activamente, o sentimento de bem-estar que deveríamos ter ao usar esses espaços públicos, levando-nos a uma retirada estratégica nas nossas habitações, num crescendo de um círculo vicioso de cada vez menos uso do exterior e cada vez pior uso do mesmo exterior.

E não tenhamos quaisquer dúvidas de que se tudo isto é verdade ao longo de ruas e pracetas, quando estas existem, então tudo isto acontece de forma ainda mais perceptível no interior dos quarteirões ou dos espaços urbanos secundários e de “traseiras” que sempre existirão na cidade, pois são sempre espaços potencialmente mais protegidos da mais intensa vista pública e sempre muito próximos da percepção de quem habita cada vizinhança.

Há, no entanto, também que referir que, evidentemente, nem só de problemas está marcada a pequena história – a fazer – do aproveitamento para a cidade e para as vizinhanças dos quarteirões urbanos; pois os quarteirões, os seus interiores, as suas zonas de relação com a continuidade urbana e os seus pontos de ligação ao interior dos edifícios, constituem das mais ricas matérias de concepção da arquitectura urbana pormenorizada, sendo possível identificar ao logo da história extraordinários exemplos de grande êxito funcional/formal em soluções de quarteirões tão protagonistas para um adequado e muito humano habitar das vizinhanças, como para uma cumulativa montagem de uma continuidade urbana vitalizada e diversificada; e complementarmente encontramos também nestas boas soluções importantes aspectos de harmonização entre natureza e cidade, entre privado e público e entre escalas muito humanizadas e apropriadas/apropriáveis e outras atraentemente “de cidade” e representativas.


Fig. 02: um outro pequeno quarteirão integrado na BO01 em Malmö (2001)


Objectivos gerais a aplicar no interior dos quarteirões urbanos

Globalmente, o que se julga ser importante estimular nas soluções de pormenor a criar e aplicar no interior de quarteirões urbanos e habitacionais é o uso intenso, específico e estrategicamente diversificado pelos habitantes dos diversos quarteirões dos respectivos espaços de miolo de quarteirão, harmonizando esse uso:

(a) essencialmente privativo e/ou comum, ligado às habitações contíguas (por exemplo, através de uma significativa parcela de terreno destinada a quintais e pátios privativos dos fogos menos elevados e de eventuais espaços comuns para estacionamento privativo dos respectivos residentes);

(b) com o papel urbano dos mesmos quarteirões, nas suas diversas relações com os espaços urbanos contíguos e próximos, na sua função potencial como espaço exterior:

(b1) directamente associado a equipamentos colectivos térreos e por eles directamente geridos;

(b2) indirectamente associado a um uso público, mediado por associações específicas (dos moradores/cooperativistas) que garantam a utilização adequada e a manutenção/gestão dos respectivos espaços (ex., campo desportivo, parque infanfil e mesmo um jardim "formal", devidamente equipados e regrados nas sua utilização);

(b3) e, sempre que possível, caracterizado por uma elevada permeabilidade pluvial e por uma significativa componente de verde urbano, em soluções que têm de ser devidamente adequadas a cada solução/situação específica – no limite aceitar-se-á, até, a “quase-ausência” de verde urbano, desde que justificada por aspectos de contraste e de vizinhança particularizados.

A ideia geral e “primeira” é, assim, não favorecer, em cada quarteirão, a definição de um amplo espaço de condomínio privativo dos respectivos moradores, de certa forma indiferenciado, eventualmente ajardinado e equipado, mas com um sentido de uso exclusivo de um dado grupo muito marcado e em forte oposição aos espaços públicos contíguos.

A ideia geral e “primeira” é a proposta de um uso diferenciado e intenso desse interior de quarteirão, ocupando todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica, considerando-se e valorizando-se a situação e a configuração únicas dos respectivos espaços, mas procurando-se desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora sempre submetida a uma certa vigilância natural por parte da respectiva vizinhança, realizada seja a partir das habitações, seja a partir dos equipamentos térreos e exteriores.

Fig.03: interior de quarteirão numa periferia de Madrid


O acesso ao interior dos quarteirões: situações-tipo a favorecer

Antes de se iniciar uma apresentação sintética do que se designa como situações-tipo a favorecer no acesso ao interior dos quarteirões, salienta-se que não se optou assim, numa primeira linha, pelo favorecimento de utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo e especificamente a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública, porque se considera que esta opção, que será sinteticamente abordada num dos últimos itens deste texto, tem uma viabilidade muito condicionada a condições muito específicas de promoção e de gestão desta solução, sendo difícil de aplicar em situações mais correntes, em que dificilmente seja garantida a eficácia da gestão diária posterior, e sendo muito problemática de aplicar sempre que o sítio de implantação esteja associado a problemas sociais e à recente concentração de habitação de interesse social.

Pretende-se, assim, desenvolver soluções que tenham, à partida, um máximo de perspectivas de viabilidade num sentido de uso privado e comum, mas aceitando, claramente, a frequência pública, embora de forma bem acompanhada, enquadrada e circunscrita a determinados espaços bem definidos.



Fig. 04: interior de quarteirão em Telheiras, Lisboa, coord. Arq.ºs Rodrigo Rau e Eugénia Cruz

Visa-se, deste modo, favorecer um uso diferenciado e intenso do interior de cada quarteirão urbano e habitacional, ocupando-se e dinamizando-se todos os espaços aí disponíveis para actividades concretas e adequadas a cada situação específica; situação global relativa a cada quarteirão específico (configuração, dimensionamento, contiguidades, proximidades, etc.) e “micro-situação” urbana de cada parte do interior de cada quarteirão (tipo de espaço, extensão, contiguidades, usos, etc.), produzindo-se uma situação final em que o acesso ao interior do quarteirão se fará, quase exclusivamente, nas seguintes situações-tipo:

(i) Ter acesso a "veredas" comuns que dão acesso a bandas de pequenos quintais e pátios privativos e contíguos a habitações térreas ou pouco elevadas (e este acesso poderá ser condicionado e negociado em pontos de acesso públicos devidamente equipados, como se se tratasse do acesso a espaços comuns de circulação "em edifícios"), sendo que estes quintais/pátios privativos devem ser devidamente regulamentados no seu uso, serem em parte ou totalmente permeáveis, terem uma forte componente de elementos de vegetação e proporcionarem uma estratégica permeabilidade visual de modo a que o seu verde contribua activamente para o verde urbano do interior do quarteirão.

(ii) Ligar, eventualmente, a solução-tipo que acabou de ser referida a uma solução de arquitectura que aposte, nos pisos superiores, num escalonamento de pequenos terraços, varandas e sacadas integrando elementos verdes e eventualmente permitindo ainda acesso do 1.º andar a alguns pequenos jardins privativos.

(iii) Aceder a bolsas de estacionamento comuns ou mesmo privativas (ex., lugares marcados), devidamente naturalizadas por pavimentos permeáveis e estrategicamente arborizadas, numa situação que também aceita bem a marcação por elementos de contrlo de acesso, visualmente bem integrados.

(iv) Ter acesso a amplos espaços comuns ajardinados e de recreio que pertencem exclusivamente a determinados equipamentos de apoio à infância e/ou aos idosos, mas cujo aspecto e elementos de verde urbano influenciam positiva e directamente a imagem global do miolo do quarteirão.

(v) Ter acesso condicionado a espaços de desporto e de recreio infantil bem equipados (piso, rede, iluminação artificial, bancos para assistir, etc.) e enquadrados por vegetação, geridos por associações específicas (ex., através do respectivo pelouro cultural das cooperativas).

(vi) Aceder à esplanada de café/restaurante, gerida e controlada por esse mesmo equipamento e possuindo vistas estratégicas sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior.

(vii) Ter acesso a pequenas continuidades estratégicas de equipamentos comerciais essencialmente viradas para o exterior público, mas com pontos de vista estratégicos sobre o interior do quarteirão e sobre zonas de acesso ao mesmo interior; considerando, no entanto, que este(s) pólo(s) de equipamento devem ser localizados concentrada e estrategicamente, caso contrário não terão viabilidade.

(viii) Considerar a marcação de pontos de acesso às referidas veredas pedonais no interior do quarteirão (acesso a quintais e equipamentos exteriores), bem como às bolsas privativas de estacionamento devidamente concentrados, bem delimitados, bem visíveis e contíguos a entradas comuns de edifícios e a equipamentos muito usados, de modo a fomentar e facilitar a sua vigilância natural, ponderando-se, ainda, a instalação nesses "pontos" de cancelas visualmente agradáveis e preferencialmente sem fechaduras - a ideia seria condicionar/marcar a entrada com diferenças de nível e marcações estratégicas, mas também, eventualmente, com cancelas que estejam sistematicamente fechadas/encostadas, mas não fechadas com fechaduras, sendo também estes pontos estratégicos para a clara e bem visível indicação de regras/instruções de uso dos respectivos espaços.

(ix) Considerando-se a situação e a espaciosidade específica de cada quarteirão eles poderão incluir ainda outro tipo de instalações que facilitam a gestão do seu interior, tais como espaços específicos para instalação de condomínios/associação de moradores em espaços com diversas valências e onde se procure vitalizar o uso desses espaços e dos espaços contíguos, mas sempre numa lógica de adequada definição de responsabilidades de uso/manutenção e de gestão.



Fig. 05: interior da cooperativa Irmanadora, Costa da Caparica,coord. Arq.º Justino Morais


Considerar, especificamente, determinados aspectos de segurança urbana e de gestão

Importa ainda considerar que na identificação das melhores soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões é fundamental ter em conta certos aspectos específicos de segurança urbana e de gestão local, designadamente:

 As acessibilidades em termos de intervenção por parte de forças de segurança, que são favorecidas, seja pela existência de vários acessos bem definidos, que proporcionem acessos em diferentes "pontos", não obrigando a um acesso único e facilmente vigiado, mas também não proporcionando uma infinidade de percursos de acesso e eventual fuga; portanto favorecendo uma estratégica definição de acessos , assim como a continuidade de vistas sobre o interior do quarteirão a partir das habitações e equipamentos contíguos.

 A acessibilidade em termos de segurança contra risco de incêndio e de acessibilidade de emergência no interior do quarteirão - podendo ser necessário prever mecanismos que permitam acessos ocasionais dessse tipo em zonas/veredas pedonais.

 A adequada iluminação artificial na envolvente e no miolo do quarteirão, tendo em conta características anti-vandalismo.

 Uma cuidadosa concepção que favoreça condições de visibilidade maximizadas no interior do quarteirão, entre os seus diversos espaços e a partir das habitações, dos quintais privativos e dos equipamentos envolventes; sendo que tais condições deverão ser, ainda, maximizadas nos "pontos" de acesso ao interior do quarteirão.

 Um processo de gestão do quarteirão que englobe a manutenção e o acompanhamento corrente e em continuidade não só dos edifícios como do respectivo interior do quarteirão, sugerindo-se que a respectiva gestão e custos associados sejam da responsabilidade dos respectivos condóminos dos diversos edifícios que constituem o quarteirão.

 A questão de se poder incluir vídeo-vigilância em pontos estratégicos e designadamente nos pontos de acesso ao interior do quarteirão, com a devida divulgação pública, é matéria que apenas se aponta no sentido de poder vir a ser equacionada em termos de viabilidade e adequação.


Notas complementares sobre as potencialidades da solução de Arquitectura

Acrescenta-se, ainda, que no desenvolvimento das mais adequadas soluções urbanas de pormenor que se julga podem ser aplicadas no interior de quarteirões a solução de Arquitectura, poderá, eventualmente e de forma harmonizada com cada situação, investir nos seguintes aspectos (muito sintetizados):

 Optar por uma solução caracterizada pela sobreposição de habitações com um sentido de unifamiliares em banda, evidenciando-se, no interior do quarteirão uma imagem de uma pequena praceta de "moradias" que poderiam ter até o acesso principal e até eventualmente espaços de estacionamento privativo no interior do quarteirão; sendo que sobre esta "camada" habitacional surgiria uma outra camada eventualmente com acesso por galerias a partir de espaços verticais de acesso que também facultariam acesso comum ao interior de quarteirão.

 Optar, no interior do quarteirão, por uma pequena cascata habitacional sequencial (subindo): (i) de pequenos quintais privativos e permeáveis, (ii) pequenos terraços/varandas fundas (eventualmente em alguns casos com acessos privativos a pequenos pátios térreos); (iii) e sacadas com floreiras.

 Optar por alguns "jogos" de níveis no interior do quarteirão, proporcionando uma harmonizada integração de estacionamentos cobertos, comuns e/ou privativos e de estacionamentos pivativos, exteriores, arborizados e multifuncionais.

 Na aplicação de pátios/jardins privativos, proporcionar desde logo pequenos espaços de arrumação tipificados e bem integrados, para apoio à jardinagem, permanência no exterior e arrumação de bicicletas, e privilegiar vedações "verdes" e já pré-desenvolvidas, designadamente numa boa relação com muros e muretes e boa visibilidade relativamente às veredas pedonais de acesso.

Naturalmente, há que sublinhar que o "partido" arquitectónico e o tipo de solução escolhida no interior do quarteirão deve ter o seu reflexo no respectivo exterior envolvente do próprio quarteirão, ou, alternativamente, pode haver um equilibrado jogo de contrastes e de surpresa, mas que nunca esqueça a finalidade básica habitacional do quarteirão, num sentido que provavelmente favorecerá, sempre, uma opção por alguma sobriedade e por uma ssumida integração na envolvente urbana e paisagística.

E há que registar que, naturalmente, a opção por se fazer um espaço urbano em "quarteirão" não é, naturalmente, única nem "obrigatória", mesmo em meios urbanos com afirmada e agradável continuidade, podendo haver outro tipo de opções que, designadamente, favoreçam a maior abertura do conjunto habitacional à sua envolvente, ou que tendam a transformar o respectivo interior de quarteirão num espaço urbano com características de praceta urbana convivial, e portanto estrategicamente mais permeável aos percursos urbanos envolventes. Mas estamos aqui a abordar especificamente a opção pelo quarteirão e as formas de desenvolver o respectivo conteúdo urbanístico e residencial.


Fig. 06: interior de quarteirão em Telheiras, coord. Arq.º Duarte Nuno Simões


Situações específicas a considerar

Pela sua especificidade e importância na programação e na concepção de pormenor dos interiores de quarteirão urbanos e habitacionais referem-se, em seguida, alguns aspectos associados ao dimensionamento de habitações de interesse social e à responsabilidade na gestão dos equipamentos previstos:

 Salienta-se que, em todas estas matérias e designadamente no desenvolvimento de soluções térreas e/ou com acesso térreo individualizado e directo ao espaço de uso público, assim como na criação de varandas/terraços, há que ter em conta as limitações de Área Bruta (Ab) referidas nas Recomendações Técnicas para Habitação Social, nas quais qualquer área pavimentada e mesmo a área de implantação de muros contam para a Ab e acabam, assim, por ter de ser, de certa forma “descontadas” à área interior do fogo, uma situação que poderá ter de contar com a compreensão técnica das entidades responsáveis pela apreciação destas soluções para uma situação especial como esta – na qual este tipo de solução poderá ser um elemento fundamental de boa apropriação e integração social do conjunto; e naturalmente a própria solução arquitectónica deve basear-se, ao máximo, na ausência de pavimentos e grandes muros nos quintais/pátios térreos, ou então apenas muros pouco espessos entre áreas privativas e exteriores térreas, complementados por vedações verdes/naturais e/ou de outro tipo, por exemplo no contacto com áreas comuns – mas devendo garantir-se condições de segurança contra intrusão maximizadas nos espaços exteriores privativos (ou de uso privativo) e nos próprios fogos térreos, sendo tais condições bem previstas logo no projecto.

 Quanto a eventuais estacionamentos comuns privativos no exterior terá de ser bem considerada a situação em termos do seu suporte legal e tendo em conta que esta situação não deve encarecer a intervenção, designadamente, no seu desenvolvimento pelas cooperativas. Quanto a espaços de jogos/desporto e recreio infantil vedados e com acesso condicionado e gerido pelas cooperativas julga-se ser esta uma situação muito adequada e que também não deverá encarecer o desenvolvimento da operação pelas cooperativas (para além do seu desenvolvimento específico), considerando-se que será perfeitamente possível que o uso das instalações seja aberto ao público em geral embora de acordo com o cumprimento de regras de uso/manutenção bem definidas e centradas nos pelouros culturais das respectivas cooperativas.



Outras soluções de preenchimento de quarteirões

Tal como se apontou atrás, em condições urbanas, vicinais e sociais específicas e positivas é possível optar por interiores de quarteirão com utilizações/ocupações uniformizadas e dedicadas, por exemplo, e especificamente, a um amplo espaço ajardinado e/ou de estadia ou recreio livre, muito dedicado à respectiva vizinhança, mas de natureza pública. Sobre esta matéria há que referir, desde início, que a ocupação provavelmente mais adequada nestes casos será por um jardim urbano agradável e intensamente utilizável numa perspectiva quase de expansão natural do habitar sobre o exterior contíguo, mas que reforce a presença da natureza e dos seus elementos distintivos, mediante um sensível e qualificado projecto de paisagismo que introduza, designadamente, uma ampla variedade de espécies vegetais, a dinamização do povoamento por pássaros e um tema “central” de composição bem integrado ao tema arquitectónico fundamental desse quarteirão.

Será, assim, possível ganhar mais um jardim para a cidade, sem custos suplementares para esta cidade e enquanto se desenvolve um jardim de proximidade e que serve essa mesma vizinhança/proximidade; mas reforça-se a ideia de que este objectivo óptimo só será possível em condições especiais físicas, sociais e de gestão, caso contrário nem o jardim se conseguirá estabilizar, nem o ambiente será favorável para a própria vizinhança e para a cidade.


Fig. 07: pequeno quarteirão, no Monte Espinho, coord. Arq.ª Paula Petiz.


Aspectos de gestão

Chegados aqui há que salientar a importância da gestão no desenvolvimento de interiores de quarteirão urbanos e habitacionais, que sejam funcionais e agradáveis, sublinhando-se ser a garantia de uma gestão local e de continuidade eficaz condição necessária e fundamental para a viabilidade desses espaços e das suas respectivas vizinhanças e para a sua essencial boa influência na cidade envolvente.

Não valerá a pena prever equipamentos comuns e espaços térreos privatizados sem se prever e embeber na promoção um sistema de gestão e de controlo dos usos que tenha um máximo de viabilidade. Situação que se tentou facilitar e apontar, nas páginas anteriores, através do favorecimento de soluções que definam, delimitem e responsabilizem os usos de cada espaço em presença no interior do quarteirão, anulando-se espaços sem usos, bem como espaços residuais e associando-se, estrategicamente, acessos a edifícios e a equipamentos em "pontos" estratégicos e menos visíveis, evitando-se, assim, que estes locais se tornem sítios de usos negativos, e pelo contrário transformando-os em pequenos pólos vitalizadores e securizadores de zonas exteriores contíguos, ainda, eventualmente, mais recônditas e menos visíveis a partir das habitações e dos equipamentos e principais acessos exteriores.

Mas para além de todas estas medidas há que pôr de pé uma entidade local responsável pela gestão do conjunto destes espaços, ou, pelo menos, pelas suas principais zonas de equipamento, e há que garantir a articulação desta entidade com os condomínios que integram o quarteirão e com os processos usados para apelar a intervenções de emergência, designadamente, da polícia e dos bombeiros, sendo também de grande importância a eventual integração do interior do quarteirão num processo de “policiamento de proximidade” - modalidade que está a ser favorecida pela PSP - e, naturalmente, que a própria polícia e os bombeiros sejam convidados a pronunciar-se sobre a solução urbana de pormenor a tempo de se poderem integrar as suas eventuais sugestões.


Breves reflexões finais

Como breves reflexões finais salienta-se o interesse humano e urbano de se aprofundar a criação de uma cidade de quarteirões, que possa ser uma cidade cujas vizinhanças caracterizadas e agradáveis contribuam para um adequado efeito de conjunto e para estimulantes sequências citadinas em que se possa, assim, experimentar uma série de pequenos mundos residenciais.

Volta a referir-se que há outras soluções para se fazer cidade, mas considera-se que aquela que recorre a quarteirões tenta proporcionar boas e diversificadas condições habitacionais e urbanas aos novos habitantes de zonas eventualmente sensíveis em termos sociais, através de soluções que definem uma terceira via entre uma “não-solução” de privatização condominial do exterior que vai fazendo morrer o espaço urbano e uma outra “não-solução” de espaço condominial "aberto", que provavelmente também não terá grandes perspectivas de sustentabilidade.


Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.






Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


Infohabitar, Ano VII, n.º 352, 26 de Junho de 2011

quarta-feira, janeiro 25, 2006

66 - Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação - IV : por João Carvalhosa - Infohabitar 66

 - Infohabitar 66

Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação - IV

por João Carvalhosa

O presente artigo é a quarta e última parte de uma reflexão sobre os modelos de gestão da habitação, com especial enfoque na Habitação Social.

Esta reflexão tentou fazer uma análise transversal da concepção, construção e gestão social e financeira da Habitação como factor determinante do bem estar pessoal e social.

A finalizar esta reflexão abordamos os modelos de gestão de bairro e de gestão social e económico-financeira, apresentando-se, ainda e resumidamente, as conclusões.

Modelos de gestão

Dividiremos a atenção neste capítulo em dois tópicos: o modelo de bairro e o modelo de gestão.

Modelo de bairro

O modelo de bairro, como já foi atrás abordado deverá remeter-se para uma Mistura Social e, logo, de ocupação. A existência de grandes bairros de Habitação Social é contraproducente. O modelo a seguir deverá ser o aplicado em Helsínquia, Estocolmo ou Amsterdão. Com algumas diferenças, estes modelos seguem esse princípio e proporcionam uma mistura tal que a distinção entre social e mercado é esbatida.

É necessário que os nossos governantes (e gestores) terminem com o complexo de fazer uma viagem para aprender (ou não permitir que os seus técnicos a façam). Não custa nada. Em tempo e em valor. Aconselha-se um périplo por estas três cidades para observar a intervenção, perceber a integração (não só na habitação mas também pelo acompanhamento social que as entidades gestoras fazem) e aprender como podemos adaptar os bons exemplos à realidade nacional. Uma semana e poucos Euros bastam para fazer isto – não vai arruinar uma câmara ou instituição, pois não?...

O modelo de bairro deverá, assim ser aquele em que convivam, indistintamente, pessoas de todos os estratos sociais. Os que mais podem pagam uma renda justa. Aqueles que menos capacidade têm pagam uma renda adequada ao seu rendimento, sendo o diferencial para a renda técnica suportado pelo Estado, que deverá entregar essa diferença à entidade gestora directamente ou à família que, por sua vez a entrega à entidade gestora.

Este modelo pode ter variantes, como sejam a convivência dos vários estratos num mesmo edifício ou haver edifícios destinados a um determinado tipo de ocupação (arrendamento social, arrendamento livre, etc.). Os dois modelos são aceitáveis e adequados.

Modelo de gestão

Quanto ao modelo de gestão, ele deverá resumir-se a uma palavra: empresarial.

Sendo empresarial não quer dizer que não tenha a devida e necessária atenção aos problemas sociais. Apenas é um modelo que assegura, através da responsabilização directa dos gestores, um maior cuidado nos procedimentos mas também uma maior eficácia na gestão. Assegura também uma maior eficiência de todos os funcionários, pois sabem que o lugar deles disso depende, não permitindo acomodações e desleixos, mas antes empenho. Promove-se, assim, a meritocracia. Essencial ao sucesso.

Deverá ser uma instituição (empresa ou associação) sem fins lucrativos e que tenha dois objectivos: proporcionar habitações condignas integrando diversos estratos sociais e, através de uma política de preços, servir de regulador do mercado (que no caso português bem precisa de uma injecção de influência).

Quanto ao integrar diversos estratos (Mistura Social), estamos a atingir igualmente dois objectivos estratégicos: integrar e salvaguardar a saúde económico-financeira da instituição. A longo prazo não é possível uma instituição gerir um património enorme com poucos recursos provenientes apenas de rendas sociais. Isso percebeu a Câmara Municipal do Porto quando no início de 2004 alterou todo o seu sistema de rendas. Também uma acção deste tipo é necessária noutras instituições, o que implica um levantamento exaustivo e sério de todo o património (existências, estado de conservação, envolvente, acessibilidades, etc.), bem como um novo “recenseamento” dos moradores, de modo a que seja aferida a real situação económica de cada agregado, adaptando as rendas à sua condição actual.

Esta verificação passa, então a ser obrigatória e periódica (anualmente), de modo a aferir se se mantêm as premissas para a manutenção de uma determinada renda ou se, pelo contrário, é necessário adaptá-la (para cima ou para baixo) para atender à nova realidade do agregado. Esta verificação periódica não só é justa individualmente (para cada agregado apenas pagar aquilo que pode) mas também justa socialmente, de modo a que todos não estejamos a contribuir para um complemento de renda para pessoas que dele não necessitam.

A autorização de permanência no fogo (contrato, cedência precária, etc.) deverá ter um prazo, de modo a que a rotatividade dos fogos possa ser uma realidade, adaptando as necessidades à população, em vez de manter habitações sociais ocupadas por quem delas já não necessita. Assim, um prazo de 5 anos parece ser suficiente para a avaliação da evolução económico-social de um agregado. Findo este prazo a entidade gestora avalia a situação e poderá propor várias soluções:

A manutenção do agregado no fogo por se manterem as premissas sociais que originaram a sua atribuição. É então concedido um novo prazo (eventualmente mais curto que o primeiro, 3 anos, por exemplo);

O agregado já atingiu uma maturidade financeira que lhe permite procurar uma habitação no mercado (lembremo-nos que as habitações sociais existem para suprir uma falha no mercado que não tem oferta para baixos rendimentos). Caso seja esta a situação do agregado, poderá então optar por:

Manter-se no mesmo fogo, pagando um suplemento ao valor de mercado, por não desocupar uma habitação de cariz social. Com este suplemento estará a contribuir para o conjunto;

Abandonar o fogo e mudar-se para uma casa disponível no mercado.

A constatação de alterações nos agregados é também uma variável a tomar em conta na definição do valor da renda e na determinação da necessidade de ocupação de um determinado fogo. Com o controlo regular é possível observar com mais precisão se as premissas que levaram à atribuição de uma habitação com determinada tipologia se mantêm (assim como a fórmula de cálculo que poderá ter de ser adaptada).

Caso exista uma alteração na composição do agregado familiar, então deverá ser proposta a este uma mudança de fogo para um de tipologia mais adequado, e onde, consequentemente, a renda será igualmente mais adequada às necessidades de espaço dessa família. Caso o agregado não concorde em mudar, deverá então ser igualmente aplicado um complemento de compensação pela inadequação do fogo às suas necessidades.

A facilidade de adequação dos fogos a diferentes tipologias, como já foi referido atrás, joga aqui um papel importante, pois permite à entidade gestora adequar os espaços vagos às necessidades das famílias que requerem uma habitação.

A gestão centrada nos moradores é essencial. E um bom meio de se conseguir atingir este objectivo é através da incorporação de alguns moradores nos quadros de gestão. Isto permite que exista uma aproximação entre os moradores e os gestores e que a noção de responsabilização pessoal aumente.

Um exemplo de sucesso desta política é-nos dado pela AB Framtiden [29], uma empresa municipal de Gotemburgo, Suécia. Face à falência dos modelos de gestão até então praticados e tendo em conta a distância entre gestores e moradores, decidiu-se voltar à estaca zero e construir um modelo de gestão assente nos moradores. Assim, foram chamados para a administração da empresa alguns elementos, sendo que o Presidente foi o único que foi nomeado pelas autoridades. Todo o pessoal da anterior empresa foi dispensado, visto serem, naturalmente, uma das causas do problema (quando as coisas correm mal, ao contrário do costume português, a responsabilidade é de todos os membros da organização e não apenas dos seus gestores...). Este modelo permitiu a esta empresa municipal desenvolver vários programas que foram de encontro às necessidades dos moradores, criando novas soluções, nomeadamente através da criação de empresas subsidiárias para responder às necessidades dos bairros.

No que à regulação de preços diz respeito, a introdução deste factor é necessária num país como Portugal, onde o mercado se encontra numa fase de especulação, fazendo com que os valores de arrendamento sejam absurdos, verificando, numa breve consulta ao mercado, que os valores de prestação para aquisição são inferiores aos valores da renda.

Aqui as grandes Câmaras Municipais como Lisboa e Porto, ou mesmo Oeiras, Amadora, Sintra, Vila Nova de Gaia e outras, têm um papel muito importante a desempenhar.

Ao colocar no mercado de arrendamento uma série de fogos a preços controlados (aproveitando a Mistura Social), arrastam o mercado num decréscimo dos valores a praticar. Se as Câmaras investirem em novos empreendimentos entregando a gestão às mesmas entidades (empresas municipais) que gerem actualmente a Habitação Social, além de conseguirem este objectivo, conseguem também trazer viabilidade económica a longo prazo a estas entidades.

Com a gestão mista de fogos de diversa ocupação, poder-se-á fazer uma gestão mais equilibrada, proporcionando a todos uma maior qualidade de vida.

Este modelo, que se apresenta rentável (basta ver o caso das associações de habitação neerlandesas), permite igualmente regular o mercado e sensibilizar o Estado para a adequação dos modelos de financiamento à habitação, suportando a Administração Central os custos dos diferenciais das rendas sociais para as rendas “justas” ou técnicas. A existência de um modelo de financiamento à família em vez de ser à instituição permite que os moradores possam usufruir de uma habitação condigna, pagando por isso o preço justo e não descapitalizando as entidades gestoras.

Com os lucros obtidos por essas entidades (apenas possíveis neste modelo e nunca no actual), estas poderão investir de novo em mais habitação, apostando, inclusive, na reabilitação urbana em grande escala e assegurando o retorno à cidade das pessoas que tiveram de sair quando precisaram de uma casa (como os preços das rendas são mais baixos, permite o regresso e, assim, o repovoamento, das grandes cidades como Lisboa e Porto).

O equilíbrio é assim reposto por intermédio de uma regulação não directa mas indirecta. Ou seja, o Estado (através, por exemplo, da Administração Local) em vez de fixar um padrão, entra ele próprio no mercado, de modo a diminuir a especulação e aumentar a capacidade de acesso dos cidadãos aos bens a que, constitucionalmente, tem direito.

Este modelo permite, igualmente, a criação de uma “bolsa de habitação” por parte das entidades gestoras, aberta, transparente e de fácil gestão, onde as habitações disponíveis estão à vista de todos, podendo as pessoas candidatar-se a uma delas, escolhendo assim aquelas que mais se adequam, seja financeiramente seja em termos de localização, tipologia, etc. O processo de atribuição torna-se, igualmente, muito mais fácil e adequado ás reais necessidades da população.

Conclusão
A Habitação Social, sendo transitória e nunca uma casa para a vida, deverá ser planeada de modo a que dela pouco se veja. Isto faz-se através de uma Mistura Social assente num planeamento urbano adequado, onde vários tipos de ocupação se misturam.

Faz-se também através da utilização honesta de materiais, concepção e adequação de espaços, tendo sempre a noção que a habitação não se resume ao fogo.

A existência de apoios de várias ordens, nomeadamente, social, de serviços, de educação, etc. revela-se extremamente importante e um factor decisivo para a integração social.

A empresarialização dos modelos de gestão, assegurando patamares de eficácia e racionalidade, bem como de responsabilização é essencial.

A existência de um sistema estatal de apoio à Habitação centrado na família e não na instituição permite uma flexibilidade e uma mobilidade aos agregados, bem como um justo recebimento por parte das entidades gestoras.

Assim, a proposta que se julga pertinente neste momento é de transformação dos modelos de gestão da habitação, deixando de existir serviços, instituições e empresas de habitação social, passando a haver serviços, instituições e empresas de habitação. Onde as pessoas com necessidades sociais possam usufruir de uma habitação com apoio do Estado, apoio esse que reverte para a instituição.

Notas:
http://www.framtiden.goteborg.se/prod/framtiden/dalisengelska.nsf
(*) Assessor do Conselho de Administração da Gebalis – Gestão dos Bairros Municipais de Lisboa E.M.jcarvalhosa@gebalis.pt
Nota final: o artigo apresenta apenas a posição pessoal do autor sobre as matérias abordadas

quinta-feira, janeiro 19, 2006

65 - Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação - III , um artigo de João Carvalhosa (*) - Infohabitar 65

 - Infohabitar 65

Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação - III

um artigo de João Carvalhosa

O presente artigo é a terceira parte de uma reflexão sobre os modelos de gestão da habitação, com especial enfoque na Habitação Social.
Esta reflexão tenta fazer uma análise transversal da concepção, construção e gestão social e financeira da Habitação como factor determinante do bem estar pessoal e social.
Nesta terceira parte reflectimos essencialmente sobre o planeamento urbano – aquilo que permite avaliar a grande escala o sucesso da intervenção - e, a um nível micro, o planeamento do fogo e envolvente – aquilo que dá a sensação, no dia a adia, de bem-estar e permite um sentido de pertença.

A Habitação

Já foram aqui largamente abordados os aspectos relacionados com questões macro dos bairros. Importa agora aproximar o nível de observação até ao lote/fogo.
E, nesta matéria, voltamos a necessitar de uma atenta observação ao que é feito cá dentro e ao que se faz lá fora.
Mais uma vez, salvo honrosas excepções – e algumas de mérito internacional – a pressa com que se pretende executar determinados planos que necessitam de um cuidado extremo e ponderado leva a que se cometam erros clamorosos na construção.
A começar pelo planeamento do lote, passando pelos projectos de arquitectura e acabando na construção.

Planeamento de lote

O planeamento do lote é um dos factores de sucesso para a boa vizinhança, evitando a criação de zonas que dificilmente terão utilidade. Este tipo de decisão, cabendo a técnicos e decisores políticos, necessita de ser muito bem ponderado. Isto porque não se justifica que em alguns bairros se observe uma infinidade de espaços comerciais (chega a haver bairros em que todos os rés do chão são espaços deste tipo) que não só não vão encontrar procura ao nível do comércio como dificilmente as associações ou outro tipo de instituições terão capacidade para conferir a necessária dignidade aos espaços (salvo, mais uma vez, fantásticas excepções). Resultado: inúmeros espaços vazios, vandalizados, afundando ainda mais a imagem do bairro.
Assim, o planeamento deverá ser orientado para o morador, para aquilo que é mais importante (seria preferível obter mais uma série de habitações em vez de um exagero de espaços comerciais), ou seja, planear eficazmente para as necessidades da cidade (que são sempre, já o sabemos, muitas).
Também no lote deverá ser pensado se se justificam opções como arrecadações ou garagens. Sabemos que os instrumentos que regem o planeamento e a construção obrigam à construção de um determinado número de espaços para estacionamento. Mas, será que não deveria haver uma excepção para a Habitação Social (a nossa...)? Então se estamos, supostamente, a alojar pessoas com dificuldades económicas de tal forma que necessitam do apoio do estado para ter o seu tecto, será possível admitir que elas possuam automóveis? E alguns, vemos e sabemos, custam mais que as próprias casas... Esta questão apenas se deve colocar quando consideramos o modelo “português”, pois, como já vimos, se houver uma mistura social haverá a necessidade de prover os espaços de estacionamento para os moradores (todos).
O planeamento de determinados espaços para instituições-âncora deverá igualmente ser tomada em conta pelos decisores, de modo a providenciar no bairro a existência de bases sociais sólidas e formadoras, que promovam o desenvolvimento social e económico.

Projectos de arquitectura

Túneis. Recantos. Galerias imensas. Entradas esconsas. Espaços comuns pouco susceptíveis de serem uma zona de convívio geral. Exposição de locais que necessitam resguardo (como contadores). Eis alguns exemplos do que qualquer técnico sabe não ser uma boa ideia. E a pergunta põe-se: então porque insistem fazê-lo? E não estamos a falar de há 20 anos atrás (mesmo aí, quando nós insistíamos em repetir estes erros, por essa Europa fora já não se fazia há outros 20...). Estamos a falar de lotes e empreendimento que foram recentemente construídos e alguns que ainda estão em obra. São erros crassos de planeamento técnico que são validados pelos decisores. A responsabilidade cabe a ambos. Uns porque fazem uma má proposta ( e deveriam saber fazê-la bem). Outros porque a aprovam (e deveriam ter conhecimentos para dizer que não são boas e exigir soluções adequadas aos técnicos).
Além da construção destes espaços observamos igualmente concepções erradas de fogos, com áreas mal distribuídas, com peças estruturais que se tornam empecilhos (basta pensar em determinadas garagens que num espaço de 200 m2 apenas se conseguem estacionar 8 automóveis de tantos pilares que foram construídos...).
A solução para a resolução deste tipo de problemas pode estar na realização de concursos avaliados por júris que tenham uma vasta experiência nesta área A competição aguça o engenho e permite trazer novos modelos com design inovador e uma qualidade acrescida. Sem aumentar os custos.
Permite ainda que a certeza (ou pelo menos diminuição da incerteza) de que o projecto será cumprido tal como foi planeado, evitando-se assim surpresas na construção, pois os seus autores estarão atentos ao cumprimento do mesmo.
A internacionalização dos projectos pode igualmente trazer vantagens como sejam a noção de outras exigências ao nível europeu (especialmente este, pois o nosso enquadramento jurídico está intimamente ligado a esta realidade), passando a serem tido em linha de conta factores como a necessidade de elevar os padrões de qualidade de modo a prever uma estandardização futura, em que os edifícios terão de obedecer a um determinado número de regras e preencher uma série de requisitos e especificações técnicas, sem as quais não são aprovados ou em relação aos quais as empresas deixam de dar crédito (como sejam os casos das seguradoras que poderão deixar de fazer seguros se não forem cumpridas as estandardizações do momento).
A rigidez da tipologia dos fogos é uma outra matéria que merece ser alvo de uma reflexão. Existem alguns exemplos em que nem todas as paredes do fogo são de alvenaria, permitindo assim de uma forma económica e rápida transformar, por exemplo, um T2 num T3 ou vice versa, ou diminuindo a área de uma sala para aumentar a do quarto, adaptando com a maior das facilidades os fogos às necessidades das diferentes famílias que por ali podem passar. Por exemplo, as paredes que limitam a cozinha e instalações sanitárias deverão ser em alvenaria e todas as outras serem em materiais do tipo pladur que rapidamente se colocam e retiram a baixo custo, provendo iguais níveis de conforto e qualidade.
Estas opções permitem aos gestores de Habitação Social uma resposta rápida e eficaz, pois não é necessário aguardar que vague uma habitação com uma determinada tipologia para aquela família, se até temos ali à mão uma de igual área mas com menos um quarto e que está desocupada.
O projecto de arquitectura deverá ainda contemplar áreas comuns que sirvam os moradores e que estimulem o relacionamento destes. Não sendo muito comum em Portugal, mas a criação de locais para lavagem da roupa provou ser um factor de integração em alguns projectos europeus (como já foi atrás referido). As pessoas, além de terem ali um serviço que é prestado pelo gestor (a disponibilização de uma zona com máquinas de lavar com custo reduzido para os utilizadores, dispensando ocupar esse espaço em sua casa), passado muito pouco tempo começam a interagir umas com as outras e a criar relacionamentos pessoais. Ainda, caso o projecto permita, permite aos pais observar as suas crianças a brincar num outro espaço para isso destinado enquanto aguardam que a roupa esteja lavada.
Outros espaços podem ainda ser configurados de modo a permitir o relacionamento interpessoal, como sejam espaços para festas (os moradores podem organizar encontros de comemoração de vários acontecimentos), espaços verdes com utilização e a cargo dos moradores, etc.
A concepção de um projecto de arquitectura para Habitação Social não deverá ser diferente de qualquer outro. A contenção de custos que em Portugal este tipo de projectos obriga (e que não seria necessária caso houve uma mistura social, logo de rendimento, logo de proveitos) não implica uma concepção menos cuidada. Não é aceitável que os moradores de alguns fogos sociais obtenham menos atenção a factores como o design, o bom gosto e a qualidade em geral.
Existem ainda outros factores a considerar na elaboração do projecto de arquitectura (e demais especialidades) que importa considerar, tomando em especial consideração as obrigações que as instituições, enquanto organismos públicos ou semi-públicos, têm, nomeadamente na vertente ambiental e na necessidade de promover soluções avançadas.
A necessidade de atender a elevados requisitos ambientais afigura-se, nos dias que correm, como um dos imperativos dos novos empreendimentos, atendendo à redução do consumo energético e à utilização de materiais amigos do ambiente.
Quanto ao consumo energético, é sabido que a correcta concepção do edifício pode reduzir substancialmente a factura energética, através de soluções de ventilação, exposição solar, etc. adequadas e que permitam aproveitar ao máximo os materiais e as potencialidades que os fluxos de ar e de energia potenciam (fig. 9).


Fig. 9 - Exemplo de opções para tornar uma casa mais “verde”, por Mick Hamer (da EuroACE), em artigo publicado na New Scientist Magazine – 5/11/2005
http://www.euroace.org/articles/051108%20New%20Scientist%20-%20How%20green%20is%20your%20house.pdf

Caso muito interessante nesta matéria é o projecto SHE – Sustainable Housing in Europe [26], cujo representante português – o Consórcio de Cooperativas – NORBICETA, Porto com o Projecto Matosinhos (fig. 10) – tem dado um excelente exemplo de como se pode construir tendo em conta elevados padrões de qualidade com redução de custos (a longo prazo). A habitação sustentável que considera fundamental a existência de “critérios de sustentabilidade e a participação activa dos residentes nas principais etapas do processo de tomada de decisão na construção, a custos razoáveis e com um grande potencial de replicação” é uma exigência que a todos se coloca.



Fig. 10 - Consórcio de Cooperativas – NORBICETA, Porto
Matosinhos Project, 101 eco-residências
(2º Loteamento, fotografia referente à fase anterior à integração ecológica)
Fonte: Sustainable Housing in Europe (SHE)

Os números demonstram bem a importância do sector da habitação na factura energética mundial, sendo que os edifícios consomem:
40% da energia;
16% de água;
25 % de madeira das florestas
Os sistemas de ar-condicionado existentes nos edifícios consomem 15% da electricidade a nível mundial, ascendendo a 350 milhões os aparelhos em usos (refrigeração e aquecimento), de acordo com o International Institute of Refrigeration [27]. As vendas deste aparelhos ascendem a USD60 milhares de milhão
A implementação de medidas de redução de consumo de energia nos edifícios seria o suficiente para atingir a meta de reduzir em 8% as emissões de CO2 em 2010 (como é objectivo da União Europeia).
O desenvolvimento de acções de sensibilização ambiental com o objectivo de reduzir os consumos energéticos (e de outros recursos) nos edifícios é igualmente uma obrigação dos gestores de Habitação Social (e não só). Exemplo de um projecto simples, bem conseguido e atractivo é o Projecto Display [28], onde através de gráficos, exposição pública de valores de consumos energéticos e uma competição saudável entre os utilizadores de edifícios públicos (com incidência nos mais novos) se pretende sensibilizar as pessoas para a necessidade de reduzir os consumos, utilizando os recursos com contenção e racionalidade (fig. 11).


Fig. 11 - Cartaz para afixar nos edifícios atestando o seu consumo energético
Fonte: Display – European Municipal Buildins Climate Campaign
A apresentação de um projecto para a construção de um novo empreendimento e a sua aprovação responsabiliza todos os envolvidos: os técnicos (arquitectos, engenheiros, etc) mas também os decisores (técnicos superiores, chefias intermédias e decisores finais), com especial incidência nos detentores de cargos públicos. Cabe a estes aprovar, em último grau, o projecto a desenvolver. Caso este projecto não satisfaça os mais exigentes padrões de qualidade (e conhecemos alguns exemplos...), a responsabilidade final é de quem os aprova.
E esta responsabilidade estende-se, de seguida, à fase de construção. A fiscalização das empreitadas é fundamental para a diminuição de problemas futuros e a garantia da boa utilização dos fundos públicos. Neste aspecto todos deveriam ter cuidados redobrados, pois (assim deveria ser), em caso de incumprimento ou de falta de qualidade, seria a eles que caberiam as responsabilidades, o que pode implicar a responsabilização pessoal e patrimonial pelo não cumprimento do projecto, em todas as suas dimensões. Ora, sabemos que esta responsabilização não é posta em prática em muitas instituições. Se fosse, muitos autarcas, chefias intermédias e membros de organismos do estado (ou tutelados por este), privados, decisores, fiscais, técnicos, etc. teriam mais atenção e não permitiriam que determinados erros, “trocas”, ou falta de cumprimento do contrato se passassem. E exigiriam aos responsáveis as compensações devidas pelas falhas (involuntárias ou não) e estes, por sua vez, teriam muito menos tendência para não permitir desvios na sua prestação de serviços.
Mas, insisto, a responsabilidade última é dos decisores políticos que, muitas vezes sabendo do estado das coisas, nada fizeram ou foram coniventes.
A edificação assume, assim, papel relevante nos custos futuros.

Manutenção

A construção e posterior ocupação dos edifícios implica uma responsabilização dos moradores mas também uma obrigação da entidade gestora em cumprir escrupulosamente com as intervenções de manutenção obrigatórias e outras que, por motivos vários, surjam.
A demissão da manutenção de um edifício por um determinado período de tempo (por falta de verba ou por desleixo) leva a que os problemas sejam potenciados em vez de estancados.
Assim, exige-se uma atenção redobrada por parte dos gestores para, de uma forma racional e economicamente sustentável, manter os edifícios em boas condições técnicas e de conservação (onde também se insere a sua aparência, elemento fundamental para a não discriminação e aumento da integração social).

Ocupação

A transferência de agregados familiares para uma nova habitação não pode ser um acto administrativo e não supervisionado.
É necessário uma preparação do agregado, de modo a que este saiba o que vai encontrar, quais as regras que deve seguir para uma correcta utilização do fogo e qual o enquadramento social que vai encontrar e com o qual deve colaborar.
Mais uma vez a celeridade com que se fazem algumas transferências (por motivos eleitorais ou outros) leva a potenciar os problemas futuros por não preparação das pessoas. Não podemos exigir a uma pessoa que sempre viveu numa barraca, sem esgotos, sem água canalizada, sem regras que, de um momento para o outro, assuma comportamentos socialmente correctos em todas as áreas. É preferível adiar uma semana a transferência e “formar” as pessoas do que transferi-las à pressa.
Excepção, claro, são aqueles casos de realojamento imediato por necessidade imperiosa (habitação em risco de ruína, etc.). Mas, mesmo nestes casos, não nos podemos limitar a transferir agregados e a não os acompanhar nos primeiros tempos da sua nova habitação. É necessário, com eles, já na habitação, fazer um acompanhamento muito próximo e instruí-los sobre quais os procedimentos correctos a vários níveis.
Outro aspecto a ter em conta é a necessidade de não se criar uma elevada concentração de indivíduos de uma mesma etnia, religião, raça ou outra. Esta concentração apenas tem como consequência um efeito de grupo que leva ao isolamento social e, consequentemente, a uma segregação. Não só para os membros do grupo mas também para os outros que deixam de ter à vontade para frequentar os mesmos locais de encontro, que passam a desconfiar da atitude de grupo, etc.

Notas:
  1. http://www.she.coop/Portugal/index_p.asp
  2. http://www.iifiir.org/
  3. http://www.display-campaign.org/ ; ver também http://www.energie-cites.org/ para maior aprofundamento de projectos e recolha de documentação sobre eficiência energética.

(*) Assessor do Conselho de Administração da Gebalis – Gestão dos Bairros Municipais de Lisboa E.M.
Nota final: o artigo apresenta apenas a posição pessoal do autor sobre as matérias abordadas