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terça-feira, outubro 09, 2018

659 - ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR - Infohabitar 659

INFOHABITAR N.º 659
ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR 

Conjunto de 14 artigos e um texto de apresentação

 

Nota prévia:
Caros leitores, a partir deste número (n.º 659) a Infohabitar vai ser editada, semanalmente, por regra, às terças-feiras.

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 14 artigos, editados entre 20015 e 2011, desenvolvidos por 4 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática das ESCALAS E DOS TEMPOS DO HABITAR.

Lembra-se que esta matéria das ESCALAS E DOS TEMPOS DO HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.


Regista-se, ainda, que esta matéria das ESCALAS E DOS TEMPOS DO HABITAR corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

O tema global do “habitar humanizado” refere-se ao , pois habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações doméstica e urbanas.

Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo números de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


 (sobre a arquitectura) “É uma concepção ampla, pois abarca todo o ambiente da vida humana...” – William Morris (1881) – “... as casas fazem parte da cidade, que totaliza o seu sentido… em qualquer casa, no entanto, há uma certa vocação de cidade ...” – Joaquín Arnau (2000).
No que se refere à matéria específica das ESCALAS E DOS TEMPOS DO HABITAR é fundamental pensar que o habitar constitui uma necessidade básica do ser humano, porque o direito à habitação é realmente um direito fundamental, mas um direito à habitação que não se esgote na soleira das casas e num dado número de assoalhadas e numa listagem de acabamentos.

As “lições” de Hertzberger também muito falam disto: a habitação está na rua e está na praça e se não estiver é porque não se está a habitar a cidade e não se estando a habitar a cidade estão a criar-se núcleos de problemas que, tal como uma infecção, só irão piorar e mesmo quando remediados deixarão sequelas graves.

É assim mesmo o habitar. É e tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial, como se fossem três habitar(es) interactuantes e complementares: público e colectivo – dos espaços da cidade aos espaços íntimos mas abertos das vizinhanças – e privado, nos espaços da casa. Lembrando o sempre essencial Norberg-Schulz pode-se dizer que para habitar em plenitude é necessário que se proporcione uma adequada capacidade de habitar como “programa existencial”, nestas três “dimensões” ou escalas e/ou tempos




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial das ESCALAS E DOS TEMPOS DO HABITAR, cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

Quarteirões  e vizinhança

Cidade e vizinhança

Cidade e convívio

Cidade e rio

Lisboa e o rio

Sobre a regionalização

Bairro e cidade

Bairro-cidade

Da casa à cidade

Mundos citadinos

Diversidade e cidade

Cidade e sedução

Cidade, surpresa e estímulo

Da minha janela à minha cidade

Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR 

Quarteirões de vizinhança I- António Baptista Coelho (n.º 352, 26 Jun. 11, 10 págs., 7 figs.).
Um cidade de vizinhanças conviviais - António Baptista Coelho (n.º 280, 10 Jan. 10, 4 págs., 2 figs.).
A cidade que sou e tenho em mim; Regra de ouro: habitar – Maria Celeste Ramos e Maria João Eloy (n.º 93, 14 Jul. 06, 5p. 4 fig.).
O meu bairro é uma cidade dentro da cidade – Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho com fotografias de Maria João Eloy (n.º 47, 19 Out. 05, 4 p.14 fig.).
Entre o lugar da casa e os lugares da cidade , António Baptista Coelho (n.º 35, 10 Ago. 05, 4 p., 2 fig., 2 com.).
Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – III - artigo de António Baptista Coelho (n.º 23, 24 Mai. 05, 2 p., 1 fig.).
Casas como bosques – I - António Baptista Coelho (n.º 26, 16 Jun. 05, 2 p., 1 fig.).
Cidade e sedução I - António Baptista Coelho (n.º 25, 9 Jun., 2 p., 1 fig., 1 com.).
A cidade: um lugar de estímulo e surpresa – Marilice Costi (n.º 24, 1 Jun. 05, 3 p., 1 fig., 3 com.).
Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II - artigo de António Baptista Coelho (n.º 20, 12 Abr. 05, 1 p.).
Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II - António Baptista Coelho (12 Abr. 05, 1 p.).
Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar - um texto da Arq.ª Maria Celeste Ramos (n.º 18, 21 Mar. 05, 4 p., 2 com.).


Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 659
ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR  Conjunto de 14 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

60 - O ESPÍRITO DO LUGAR - Dois artigos gémeos de Celeste Ramos e Baptista Coelho - Infohabitar 60

 - Infohabitar 60





1º Artigo – da desintegração dos lugares à urgência da reconstituição do "espírito do lugar" e aos caminhos a seguir


“Hoje fala-se muito de alienação... a ecologia humana faz salientar o resultado alienante de uma experiência comum nos nossos dias: a perda do sentido de lugar. Nos últimos 100 anos e especialmente a partir da última guerra mundial os lugares sofreram um processo de desintegração. Começaram a perder uma delimitação bem definida em relação à paisagem próxima e envolvente” (Christian Norberg-Schulz).

Quando Charles Moore escreve sobre o “desenhar do acto de habitar”, diz-nos que uma “uma habitação deveria ser o centro do universo para as pessoas que a partilham”, lembra-nos que “as aldeias de que todos gostamos ofereciam aos seus habitantes cinco benefícios: segurança, privacidade, sociabilidade, justiça e um local ligado à memória”, mas afirma que, naturalmente, “as novas aldeias não podem simplesmente duplicar as antigas”, pois “devemos aprender a desenvolver limites, para suscitar um sentimento de segurança, centros, para promover sociabilidade, organização, para proporcionar um ordenamento claro e atraente, e apoiar activamente os fundamentais aspectos do civismo e da privacidade, e ícones e ornamento, para suscitar uma forte ligação à nossa cultura” (tradução bastante livre para tentar respeitar a força das ideias do autor).

E Moore salienta, ainda, que ”depois, é preciso ter a energia e o conhecimento para fazer em conjuntos residenciais, portanto numa escala urbana significativa, aquilo que isoladamente, ou em pequenos grupos se consegue já fazer” (refere-se a todos esses aspectos de humanização e caracterização), e termina afirmando que esse objectivo “é naturalmente muito difícil.”

Começou-se este pequeno texto sobre aquilo que é provavelmente um dos mais importantes aspectos do habitar urbano, o respeito e o trabalhar com o espírito do lugar, com a lembrança que o desenhar do acto de habitar tem de ser feito na constante e intransigente conquista de um leque de qualidades essenciais e, se nelas atentarmos, verificamos que todas elas colaboram na construção do espírito do lugar. Realmente, limites, centros, organização e ícones, são matéria do espírito do lugar.

Mas falta um ingrediente básico, que é o próprio lugar, o próprio sítio, o quadro de proximidade e de paisagem com que todos aqueles vectores de projecto se deverão fundir, em harmonia e no serviço a um partido que resulte numa valorização de cada sítio e de todos os sítios pelos homens habitados e marcados.

E aqui é John Ruble que nos ajuda, quando nos diz que o mais importante valor de uma casa é a sua wohnqualitat, a sua qualidade de casa, qualidade esta, que ele sublinha reflectir-se na importância de se usar plenamente o sítio e as suas adjacências para criar um ambiente de vida específico e bem positivo, pois, tal como ele salienta, “cada aspecto do planeamento de pormenor do sítio – vistas, jardins, a localização do jogo e do recreio, a sequência de chegada – acrescenta uma dimensão vital à vivência em densidade e contribui para o sucesso ou insucesso da criação de um sítio de comunidade.”

O que Ruble acrescenta, e muito bem, à construção de um espírito do lugar feito com o lugar e naturalmente com o seu espaço público, é esse aspecto, tão importante, que é o fazer-se um sítio de comunidade.

Temos, assim, um espírito do lugar, bem humanizado, em harmonia com o sítio e ao serviço da comunidade. E temos praticamente tudo o devemos ter pois desta forma, através da (re)descoberta do espírito de cada lugar os seus habitantes muito ganharão em sentido de pertença e de responsabilidade.




Afinal vale sempre a pena ter presente que:

“... A arquitectura é um fenómeno concreto. Ela abarca paisagens e ocupações humanas, edifícios e conjugações caracterizadas. Portanto, uma realidade viva.
Desde tempos remotos a arquitectura tem ajudado o homem a dar sentido e significado à sua existência. Com a ajuda da arquitectura ele conseguiu marcar uma posição no espaço e no tempo.
A arquitectura preocupa-se portanto com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais. Os conteúdos e significados existenciais resultam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter.
A arquitectura traduz estes significados através de formas espaciais. As formas espaciais em arquitectura não são nem Euclidianas nem Einsteinianas. Em arquitectura as formas espaciais significam lugar, caminho e domínio, isto é, a estrutura concreta do ambiente humano.
Por isso a arquitectura não pode ser satisfatoriamente descrita através de conceitos geométricos e semiológicos. A arquitectura deveria ser entendida em termos de formas significantes. E como tal fazendo parte da história dos significados existenciais.
Hoje em dia o homem sente uma necessidade urgente de reconquistar a arquitectura como um fenómeno concreto. O presente livro pretende ser uma contribuição para se atingir este objectivo.”

(Texto de Christian Norberg-Schulz, no Prefácio do seu “Meaning in Western Architecture”, Studio Vista, Londres, 1986)

Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, Dezembro de 2005,
António Baptista Coelho



2º Artigo – a subjectividade materializada pela criatividade e sensibilidade do projectista que é desafiado pelo próprio "espírito do lugar"


Não é linear encontrar definição para o que se entende por "espírito do lugar" porque se por um lado há características essencialmente concretas e objectivas, há, por outro, espaço para a subjectividade materializada pela criatividade e sensibilidade do projectista que é desafiado pelo próprio "espírito do lugar", o que não quer dizer que duas pessoas de idade e formação diferentes não possam, igualmente, ter propostas muito diferentes de "ocupação do espaço" com igual qualidade.

Para o projectista que tem em mãos a proposta de um projecto seja de um objecto simples de grande volumetria, incluindo o de uma estrada, ou de habitação a inserir no tecido urbano existente ou fora dele, ou de um grande conjunto habitacional, a análise do local será o primeiro passo a dar.

Mas que local é este, que informação me dá para que o que vier a ser construído seja dialogante com as características e condicionantes da paisagem e a humanize sem dissonância?

A geologia e geomorfologia, a história e a geografia, a ocupação vegetal natural e cultivada, a natureza do solo e o seu passado de ocupação, a tradição e a envolvente e ainda o clima e a luz, bem como a "cor da paisagem" são, de imediato, factores de ponderação, sob pena de se inserir um "objecto" ou corpo estranho àquele conjunto de situações.




Se um agricultor olhar uma "paisagem" e se o tempo tiver sido mais seco do que o habitual, vai com certeza afirmar que a seara não será tão grada, enquanto que um pintor, mesmo sem reconhecer que plantas lá estão, poderá extasiar-se com a cor e volumetrias, com a luz e formas e movimento, como se "o mesmo lugar permitisse várias leituras" e, ambas válidas, assim como o escultor pode ver na montanha esquálida e descarnada, a beleza quase interior das pedras que lhe convém para a sua obra de arte, podendo mesmo apreciar essa "ferida" da montanha.

Também um automobilista, que domina bem o carro que conduz, pode afirmar que a estrada que segue é fantástica, mas poderá não ter aptidão e informação para concluir se o local de implantação é inapropriado por ter decepado um território cujo valor botânico, científico e ecológico e mesmo paisagístico, entrou em degradação irreversível, e que a estrada, à luz do espírito do lugar, poderia e deveria ter sido traçada noutro lugar.

Quem é responsável por qualquer projecto que implique ocupação do solo de forma a alterar-lhe o uso irreversivelmente, como é o caso do arquitecto, neste momento em que o planeta já reage de forma tão brutal à acumulação do erro humano, terá cada vez mais de se rodear de uma equipa interdisciplinar para que a sua "ideia" se integre no LUGAR sem mais danos e possa mesmo ser "reparadora" do local porque, como a habitação, também a paisagem demolida pode ser restaurada e reconvertida, já que sempre o homem pode corrigir os seus próprios erros.


O homem criativo e sensível e bem informado olha e lê num local o que dele poderá ou não fazer, como se pudesse falar com as árvores, com o rio e com a montanha, com a cor do céu e a luz, até porque nasceu e cresceu com esses "haveres" num local qualquer e se por momentos pensou que tudo estaria sempre ao seu "serviço", cedo se apercebe de que é exactamente o oposto e que a natureza e o "espírito do lugar" lá estão a mostrar-se para serem vistos.

Lisboa, Bairro.de.Santo.Amaro, Dezembro 2005

Maria Celeste d'Oliveira Ramos


Fotografias de A. B.Coelho (por ordem de apresentação): a zona Leste da Madeira; pormenor de preexistência, jardim e edifício de habitação com projecto dos Arq.os Artur.Pires.Martins e Palma.de.Melo em Olivais N, Lisboa; porta de casa em Azambuja.

O Infohabitar deseja o melhor 2006 aos seus colaboradores e aos seus leitores, com muita saúde e felicidade. Em 2006 poderão contar com a continuidade das edições semanais da nossa revista/blog e nós desejamos poder contar com a continuidade e, muito especialmente, com a dinamização da vossa leitura e participação.
Um óptimo 2006 para todos.

A edição do Infohabitar

quarta-feira, junho 01, 2005

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA - Infohabitar 24

 - Infohabitar 24

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA


A Professora Marilice Costi é mestre em Arquitectura, na Área de Economia e Habitabilidade e urbanista, tem experiência docente universitária (FAU-UPF e FAU-PUCRS) nas áreas de Avaliação Pós-Ocupação e Conforto Térmico, desenvolveu uma formação especializada em Arteterapia, é orientadora de diversas Oficinas de Poesia e Criatividade, tem múltiplas intervenções literárias ao nível do conto e da poesia, e é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.
Com Marilice Costi, colaboradora a partir de hoje do Grupo Habitar e do “Infohabitar”, iniciamos uma participação que queremos cada vez mais alargada de um a outro lado do Atlântico. Como verão, o excelente texto que se segue vem na sequência natural das últimas edições do “Infohabitar”.
A. Baptista Coelho



A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA

"(...)muitas vezes o olhar desenraizado do estrangeiro
tem a possibilidade de perceber as diferenças
que o olhar domesticado não percebe."
Massimo Canevacci

O hábito gera acomodação. E a rotina está aí para provar que quando nos habituamos acabamos esquecendo dos detalhes, das pequenas e belas coisas que passam por nós.
É assim também com a cidade. Acostumamo-nos com o seu horizonte, com os seus caminhos, que ao fazerem parte do nosso cotidiano, parecem não ter mais importância. Assim como na vida das pessoas, só lembraremos quando as tivermos perdido. Acomodamo-nos e assim, muita coisa passa desapercebida por nós.
Com um visitante é diferente. Ele percebe o quanto a cidade vem se descaracterizando com o passar dos anos ou não.
Qual o caráter que a cidade expressa? As avenidas onde passavam bandas escolares, onde as passeatas estudantis satirizavam e expunham cicatrizes sociais ainda permanecem. Mas até quando?
Muitas cidades do interior do Rio Grande do Sul (Porto Alegre também) perderam a beleza de sua volumetria. Podíamos perceber os pontos altos e baixos da cidade. O sol podia atender a todos. Os prédios históricos, geralmente, no entorno da praça principal, cederam lugar a edifícios cuja qualidade deixa a desejar. Os poucos e raros que sobraram parecem sufocados entre os demais, tal a discrepância entre o antigo e o novo. Sufocada pelo entorno, perdendo importância até o momento em que pegam fogo, por um acaso (sic!). Hoje, até as catedrais se encontram comprimidas entre os prédios altos no limite do lote.
Nas cidades havia espaços públicos muito utilizados e um comércio próspero. Aos poucos, nos últimos quarenta anos, fomos vendo uma casa de comércio fechar aqui e ali, o que foi comum na maioria das cidades brasileiras e o desenho urbano se reconfigurar sem estética.
Os descuidos ou desconhecimento dos profissionais com os corredores de vento que se formaram com a falta de rugosidade, com a falta de vegetação... Quantas esquinas contariam histórias de vestidos levantados, sombrinhas viradas e cabelos despenteados? O clássico pé-de-vento, um efeito esquina, o wise.
O que ainda encontramos de forma estética na cidade e que lhe caracteriza a história?
As cidades precisavam crescer tanto em altura? Qual o critério de crescimento que a comunidade queria? Progresso é área construída? Qual o custo do crescimento de hoje e do futuro? Os cidadãos querem que a cidade cresça dessa forma? Com qual qualidade urbana?
Para pararmos em uma cidade é preciso motivo, interesse. Leia-se o livro “Cidades invisíveis” do Ítalo Calvino, e perceberemos como uma cidade pode encantar um visitante e o convide a penetrar em suas entranhas, descobrindo suas peculiaridades, suas sutis paisagens.
Em urbanismo, não podemos esquecer as perspectivas, as imagens que foram criadas e que nos encantam. A imagem é a referência das pessoas, a sua segurança, a sua vida reanimada nas lembranças.
Hoje, a cidade repete o movimento dos adolescentes com o seu ficar. Ficar por hoje, o amanhã não importa, o ontem não importa, descobrir lentamente e percebendo com todos os nossos sentidos... O ambiente, as sensações térmicas, a estética, a história, o local de encontro, o cheiro de cafezinho, o sorvete que mantém o mesmo sabor e aviva lembranças, a pequena livraria, o restaurante com a comida típica, o lugar dos encontros e desencontros, a sombra da árvore, as flores que aparecem a cada mudança de estação, a cor das coisas a cada outono, as folhas, a brisa, o calor ou o frio...
Hoje, parece que nada mais importa, a não ser o valor do terreno, o que nele se pode construir, quanto ganhar-se-á por metro quadrado, quanto poderei subir com a lei do solo criado. Importa estimular o consumo do espaço, o dia, a vida apenas sem sentir com os sentidos e com o coração, como se fôssemos objetos com mesmas dimensões, mesmos desejos, mesma sensibilidade. Máquinas (lembram da maquina de morar?). As poucas exceções são os condomínios horizontais onde se encontram estruturas maiores para viver. Mas a que custo? E como poderíamos todos nos deslocar para morar nestes espaços? Sobram os que moram na cidade, que vem perdendo qualidade dia-a-dia. São mantas aluminizadas colocadas sem critério algum a jogar calor para todos os lados, a impedir que as pessoas cheguem à janela. Responsabilidade de quem? São os edifícios mais altos em áreas de menor altura e densidade, a tirarem o sol no entorno. E não há como reclamar depois do estabelecido. Direitos são direitos... de quem? Os planos diretores precisam ser avaliados e a legislação quanto ao uso de materiais deve ser mais cuidadosa.
Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
1 de Junho de 2005

Marilice Costi