Mostrar mensagens com a etiqueta Marilice Costi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marilice Costi. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 16, 2012

420 - Novidades do 2.º CIHEL e "EU AMO, EU CUIDO!" artigo de Marilice Costi - Infohabitar 420

Infohabitar, Ano VIII, n.º 420

Depois de uma síntese sobre o 2.º CIHEL, feita três meses antes do Congresso, temos todo o gosto de retomar o contato com a colega Marilice Costi, uma das primeiras redatoras do Infohabitar, editora da Revista o Cuidador, que se recomenda e cujo link se anexa no final desta edição, e que nos enviou um artigo sobre a sua cidade, Porto Alegre, intitulado "Eu amo, eu cuido!

À colega Marilice um muito obrigado por mais esta participação e a todos os leitores do Infohabitar o pedido de uma atenção muito especial a este 2.º CIHEL, que promete, em termos de temas a tratar e de reforço de uma fundamental ideia de fórum sociotécnico e,

os desejos de um Natal com muita Paz e Alegria e de um Bom 2013.

A edição do Infohabitar e a Comissão Organizadora do 2.º CIHEL




A NÃO PERDER: O 2.º CONGRESSO INTERNACIONAL DA HABITAÇÃO NO ESPAÇO
LUSÓFONO - 2.º CIHEL - DE 13 A 15 DE MARÇO DE 2013, NO LNEC EM LISBOA

O cuidado com o território, a cidade e a promoção habitacional numa perspetiva de desenvolvimento coerente e sustentado e no âmbito da lusofonia, são os grandes temas a discutir no 2.º CIHEL,um congresso internacional, organizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, de 13 a 15 de março de 2013, associado a outras atividades, entre as quais um Workshop em 12 e 13 de março. Enriquecendo-se o leque temático e a dinâmica organizativa deste evento, a ele se associou o 1.º Congresso CRSEEL - Construção e Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono, promovido pelo Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

O 2.º CIHEL tem o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República, é presidido pelo Secretário Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e conta já com importantes apoios, designadamente, de Portugal, de Angola e do Brasil, bem como de associações profissionais da lusofonia; apoios constantes no artigo: http://infohabitar.blogspot.pt/2012/12/2-cihel-habitacao-cidade-territorio-e.html

O 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - 2.º CIHEL - vai reunir no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), um conjunto alargado de congressistas dos nove países lusófonos e um importante leque de conferencistas, empresários e responsáveis institucionais, com o objectivo de divulgar e discutir conhecimentos, e também de se constituir um fórum sociotécnico transnacional e falado em português, dirigido para a construção de laços fortes e duráveis de cooperação técnica e económica na respetiva grande área temática, seja pela realização em outros países da CPLP dos próximos congressos, seja pelo desenvolvimento continuado de outras atividades com forte caráter prático e utilidade socioeconómica.

São os seguintes os temas a tratar no 2.º CIHEL em 125 comunicações já entregues: a)programas e políticas urbanas e habitacionais; b) cidade habitada, território e ambiente; c) da urbanidade no espaço público à cidade informal; d) o habitar nas comunidades rurais; e) da habitação de interesse social à diversificação tipológica; f) integrar a reabilitação urbana e habitacional; g) sistemas, processos, tecnologias e materiais de construção; h) práticas de investigação e intervenção urbana e habitacional.

Salientam-se as seguintes atividades associadas ao Congresso e realizadas na mesma semana de 11 a 16 de março de 2013:

. 1.ª reunião AICEP/CECP/CIHEL/IT (com um grupo de empresários lusófonos e inscrições por convite);
. 1.º Workshop CIHEL, apoiado pela AICEP, pela SECP e pelo Instituto do Território/IT (inscrições em conjunto com Congresso);
. Exposição de entidades e empresas em pequenos stands disponíveis no átrio do Centro de Congressos do LNEC;
. inauguração de um portal informático lusófono, desenvolvido pelo Instituto do Território e pelo LNEC sobre os temas do congresso;
. reunião técnica promovida pelo Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP) no pós-congresso (em estudo).
. visitas técnicas na zona de Lisboa (em estudo).




Por tudo isto julga-se que para muitos técnicos, industriais, investigadores, empresários, e outros decisores será importante a participação no 2.º CIHEL, com inscrições abertas no site do Congresso, em: http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html

A frequência conjunta do workshop e do Congresso tem condições especiais para estudantes e salienta-se ainda que a Ordem dos Arquitectos (OA), no âmbito do seu Conselho Regional de Admissão Sul, decidiu que a participação no 2.º CIHEL e no seu Workshop prévio contarão para a formação obrigatória em temáticas opcionais dos estágios de ingresso na O.A. com 8 créditos, sendo as respetivas condições de inscrição (175 € incluindo IVA) idênticas às já existentes para as inscrições de estudantes apenas no Congresso.

Conclui-se esta breve síntese salientando que são agora importantes todos os apoios organizativos ao 2.º CIHEL cujas modalidades poderão ser consideradas em pormenor, como, por exemplo, inscrições no congresso, documentação e divulgação associada ao congresso e participação na referida exposição - aspetos estes facilmente tratados através da inscrição no Congresso, facilmente realizda no site - http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html - ou através de um contato com a respetiva organização, em organizacao2cihel@lnec.pt.

Muito em breve aqui no Infohabitar e através das mailing lists do Grupo Habitar iremos desenvolver uma maior divulgação das temáticas previstas e já entregues para apresentação no Congresso; deram já entrada mais de 120 comunicações completas.

LISBOA E LNEC, DEZEMBRO DE 2012, a Comissão Organizadora e a Comissão Científica do 2.º CIHEL

Informações, correspondência e pedidos de esclarecimento dirigidos a: LNEC Apoio à Organização de Reuniões - Av. de Brasil 101 1700-066 LISBOA
Tel.: 21 844 34 83   Fax: 21 844 30 14 organizacao2cihel@lnec.pt





Artigo Infohabitar semanal - Artigo Infohabitar semanal - Artigo Infohabitar semanal

EU AMO, EU CUIDO!

Marilice Costi

(Artigo sobre a cidade de Porto Alegre, publicado no livro PRESENÇA LITERÁRIA 2012 - Porto Alegre: Academia Literária Feminina do RS, 2012. p.55-57, imagens de Marilicie Costi)

Sábado. Primeiro cuidar de si. Ao seguir para a academia, percebo o meu bairro, considerado como o Bom Fim - os bairro de Bem Viver - em uma das reuniões coordenadas pela UNESCO com vistas ao V Congresso da Cidade de Porto Alegre. Sou do bairro Farroupilha há quase quarenta anos. Orgulhosa de ser, decido assumir a minha parte no meu lugar, o espaço ao qual nos vinculamos afetivamente.

Ontem, ventou e choveu, mais ventou. Há galhos de árvores pelas ruas e, à minha frente, estão sacos de lixo cheios e vazios que foram trazidos pelo vento e que seguirão para os bueiros. Lastimo não ter trazido uma sacola de casa. Junto dois deles retirando-os da boca-de-lobo e os cheios que foram colocados na calçada defronte a um condomínio da década de setenta. Meu cérebro linka com a palestra do Prefeito de Bogotá, a questão da cidadania. Sou portoalegrense e preciso fazer minha parte.


Fig. 1

Estou sem luvas, mas decido tirar aquilo da calçada. E percebo que há matéria orgânica misturada com material reciclável. No peso! Aqui e ali, amasso as caixas de leite com os pés e coloco os volumes diminuídos nas pequenas lixeiras colocadas ali perto no ano passado. Olho para o céu e percebo uma peça despencando da fiação. Páro, como faria meu pai, e procuro alguém por perto. Uma moça! Deve ser moradora. Ela me diz que cansou de pedir. Que eles vêm, amarram com arames mas estes logo se rompem. E tudo se repete. Observo que aquilo deve ser de uma das múltiplas redes que poluem a paisagem, as NETs. Um lixo no ar? Mas reclame novamente, pedi. Isto poderá cair na nossa cabeça.

Já vi tudo? Catadores dentro dos novos containers, moradores de rua futricando em busca de latinhas...e comentários: tem gente dormindo dentro e é por isso que as ruas estão ficando vazias! O caminhão os leva! E quem vai se dar conta deles? O imaginário urbano? Respiro fundo e entro na farmácia onde conto minhas peripécias aos atendentes. Ganhei interessados no V Congresso?

Atravesso a rua e comento com um vizinho com quem nunca me comuniquei. Ele está desalentado: o caminhão recolhe o lixo seco dos vizinhos e não leva o seu!... Daí, os moradores de rua estraçalham os sacos na minha calçada e tenho que limpar! Por isso, misturo tudo e coloco dentro do container. Mas senhor Alexandre, ligue para 156. Faça sua queixa! Não adianta, arguiu, cansei deles. A credibilidade pública! Repito e nada de convencê-lo. E ele ainda diz: Veja, o container está na frente do bueiro, não deveria! Olha ali, empurraram para cá, colocaram lá!

Fig. 2

Mais adiante, há latas de tintas enferrujadas (as mesmas há anos!) na esquina. A falta de fiscalização foi apontada naquela reunião! Fazer cumprir a legislação! Adiantaria punir?

O meu andar vai ficando quixotesco. Um homem mexe em muitos sacos de lixo na nossa pracinha. Vou até ele e lhe pergunto se colocou aquele saco no meio do canteiro gramado. Não fui! Sentiu medo. Ali há uns quatro quilos de ossos, provavelmente retirados durante a busca na grande lixeira, um chamariz aos cães. Não levo o assunto adiante e coloco-o dentro do container. Acho bom que, ao levantar a tampa, há um sistema hidráulico que reduz o esforço para abri-lo. E começo a amar essas coisas que limpam meu bairro! E acredito que tudo foi escolha de cabeça muito bem pensada! Quem não produz lixo?

Lembrei de minha infância em Passo Fundo e de meu pai a dizer: Falta educação no povo! As escolas! Como é importante estimular o sentimento de pertença! Amo este lugar, estou aqui!



Fig. 3

Tive vontade de conversar com todos os vizinhos, de bater de porta em porta... Quem me acompanharia? Afinal, ser cidadão não é esperar que os outros façam tudo!

E eu iria longe com o encadeamento de estímulos urbanos à minha memória. Tão importante mexer com os neurônios! Corro para a academia. Quase fechando. Mas estou feliz. Afinal, cuidar da cidade é também cuidar de mim!

Marilice Costi, Urbanista

editora da revista O CUIDADOR - orgulho de ser
FACILMENTE ACESSÍVEL EM www.ocuidador.com.br
SANAARTE Produtos Culturais e Serviços Ltda.
55 - 51 -30287667 Cx. Postal 9.034 - 90.040-971- Porto Alegre/RS - Brasil

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 420


EU AMO, EU CUIDO! artigo de Marilice Costi


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte










domingo, outubro 24, 2010

317 - Quem é cuidador? - Infohabitar 317

Infohabitar, Ano VI, n.º 317Artigo de Marilice Costi

O artigo da semana, em seguida editado, é da autoria de um dos primeiros colaboradores do Infohabitar, a Arq.ª Marilice Costi, que aqui saudamos.
A amiga Marilice Costi é é arteterapeuta e arquiteta, e editora-chefe da revista "O CUIDADOR", que foi recentemente renovada, seja em termos de imagem, seja nos respectivos conteúdos e que, vivamente, aqui, se recomenda: www.ocuidador.com.br

Salienta-se que este artigo foi anteriormente publicado no Correio do Povo, Jornal de Porto Alegre/RS-Brasil, No dia 14 de agosto de 2010, p.4

António Baptista Coelho

Editor do Infohabitar






Quem é cuidador?Marilice Costi

Todos os dias, recebemos informações excessivas. Imagens jogadas aos nossos olhos, vindas, em grande parte, de registro de algum tipo de agressão. Se antes, tínhamos medo de doentes mentais, hoje, os ditos “sadios” agridem no trânsito, nos condomínios, no trabalho, nas escolas, nos lares. A sociedade adoecida.

A desmanicomialização, os projetos de inserção – atendimento, medicamento, moradia e o direito a um salário mínimo – deram cidadania a muitos portadores de sofrimento psíquico. Sua integração resulta de muitos cuidadores em ação. Tudo bem? Apenas o início.

Resultado dos avanços da medicina, também os idosos esticam a vida e tornam-se um gargalo na previdência. Aposentadorias cobrem despesas com cuidadores?

Além disso, catástrofes climáticas resultando em degradação ambiental, migração, desemprego, vetores, epidemias, pânico social. Na hora dos vendavais, dos tsunamis, não existe rico nem pobre. Só humanos. Nosso grupo.

Quem cuidará de tantos? Nós. Nascemos sendo cuidados e nos tornamos cuidadores. E precisamos nos preparar para cuidar durante mais tempo e aceitarmos o cuidado em nós. Idoso não consegue cuidar de idoso!

Para cuidar é preciso ter empatia, doar-se, aprender a cada dia, ser solidário, articular-se em complexidades e estabelecer limites. O próprio. Um cuidador não deve estar só. Precisa de redes de apoio, descanso e lazer.

Iniciei a revista O CUIDADOR pensando em apoiar mães de pessoas com transtorno psíquico. Logo, percebi um exército desarmado: homens, avós, tios, irmãos, muitas mulheres, além de profissionais de múltiplas áreas. Milhares de cuidadores silenciosos. E os que não querem cuidar, que não aceitam em si para o que fomos feitos. Pagar um cuidador para se ver livre do cuidado é diferente de contratar um para cuidar melhor de quem amamos.

Está em regulamentação a profissão de cuidador, importante! Contudo, é preciso mídia comprometida, escola humanizada a focar não só no cuidador de idosos – um nicho no mercado – mas de muitos seres frágeis. A maioria pode pagar um cuidador?

Postos de saúde, escolas, abrigos, casas geriátricas, pensões protegidas? O papel dos órgãos públicos? Dos políticos? De empresários? Fazer valer planos diretores, impedir a ocupação de áreas de risco, apoiar e estimular redes de cuidadores, valorizar o Terceiro Setor.

Há décadas, a meta do patrimônio histórico era impedir que casas de pedras virassem fundações de novas casas. Hoje, não podemos projetar nem 10 anos à frente. É preciso agir agora, mobilizar a sociedade e compartilhar a sabedoria do cuidado. E acolher o cuidador, pois sem cuidar de si não poderá cuidar bem de outro.

E orgulhar-se ao exercer a humanidade. Todos somos cuidadores ou seremos cuidados por algum! Não é melhor cuidar?








Advertência ao leitor
Embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, n.º 317, 24 de Outubro de 2010

segunda-feira, agosto 03, 2009

257 - Revista Ambiente Construído e artigo AS CORRENTES E O CUIDADO por Marilice Costi - Infohabitar 257

Infohabitar, Ano V, n.º 257

NOTÍCIAS INFOHABITAR seguidas do artigo
AS CORRENTES E O CUIDADO, por Marilice Costi

Antes de passar à edição do artigo da semana, faz-se a divulgação de uma recente e importante edição na WWW de um novo número de uma excelente revista técnica em língua portuguesa.
Trata-se da revista online Ambiente Construído sob responsabilidade da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído cujo último número (especial) sob o tema "Qualidade do Projeto" foi editado pela Prof.ª Arq.ª Sheila Walbe Ornstein – como é sabido um dos primeiros autores a editar no nosso Infohabitar – e pelo Prof Dr. Carlos Torres Formoso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Como fica bem evidente no tema "Qualidade do Projeto", trata-se de uma matéria de grande actualidade e que é abordada, nesta revista, num amplo e estimulante leque de interessantes artigos, cujos títulos e autores se apresentam em seguida e cujas quase 200 páginas de pdf (s) estão disponíveis, facilmente, já aqui, no link. da revista Ambiente Construído:http://www.seer.ufrgs.br/index.php/ambienteconstruido/index

Apresentação da revista Ambiente Construído, Vol. 9, No 2 (2009)
"Qualidade do Projeto"


. Sumário

. (Parágrafo extraído do Editorial da revista)

“Este número especial da Revista Ambiente Construído tem como tema a Qualidade do Projeto. Pretende celebrar o início das atividades do Grupo de Trabalho em Qualidade do Projeto (GTQP) da ANTAC, constituído em outubro de 2008. Na chamada de trabalhos para este número foram destacados os seguintes temas: briefing e gestão de requisitos; natureza do processo de projeto; criatividade no processo de projeto; definição do escopo de projeto; avaliação de projetos; desenvolvimento do produto na construção civil; práticas profissionais de projeto; coordenação e compatibilização de projetos; modelagem do processo do projeto; processos colaborativos e engenharia simultânea; gestão da qualidade e certificação na atividade de projeto; tecnologia da informação para apoiar o processo de projeto; avaliação pós-ocupação e indicadores de qualidade do projeto.
...”

Sheila Walbe Ornstein, Co-editora convidada, FAUUSP
Carlos Torres Formoso, Editor-chefe, NORIE - UFGRS

Títulos dos artigos editados e respectivos autores:

. Flexibility as a design aspiration: the facilities management perspective
Edward Finch

. Quality of design and usability: a vetruvian twinTheo J. M. van Voordt

. Discussão sobre a importância do programa de necessidades no processo de projeto em arquiteturaDaniel de Carvalho Moreira, Doris Catherine Cornelie Knatz Kowaltowski

. The gaps between healthcare service and building design: a state of the art reviewPatrícia Tzortzopoulos, Ricardo Codinhoto, Mike Kagioglou, John Rooke, Lauri Koskela

. Desenvolvimento integrado de projeto, gerenciamento de obra e manutenção de edifícios hospitalaresMichele Caroline Bueno Ferrari Caixeta, Alexandra Figueiredo, Márcio Minto Fabrício

. Indicadores de qualidade ambiental para hospitais-dia

Patrícia Biasi Cavalcanti, Giselle Arteiro Nielsen Azevedo, Vera Helena Moro Bins Ely

. A natureza do valor desejado na habitação social
Ariovaldo Denis Granja, Doris Catharine Cornelie Knatz Kowaltowski, Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina, Patricia Stella Pucharelli Fontanini, Lia Barros, Dina de Paoli, Ana Mitsuko Jacomit, Rafaela Massei Rodrigues Maçans

. O processo projetual e a percepção dos usuários: o uso de modelos tridimensionais físicos na elaboração de projetos de habitação socialCésar Imai

. Avaliando a habitação: relações entre qualidade, projeto e avaliação pós-ocupação em apartamentosSimone Barbosa Villa

. Apartamentos paulistanos: um olhar sobre a produção privada recente
Fábio Queiroz, Marcelo Tramontano

. Arquitetura e desempenho luminoso: CENPES II, o novo centro de pesquisas da Petrobras, no Rio de Janeiro, Brasil.
Norberto Corrêa da Silva Moura, Anna Christina Miana, Joana Soares Goncalves, Denise Silva Duarte

Sublinha-se, finalmente, a grande relação entre esta edição e o próximo I Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído [SBQP 2009], que será realizado em São Carlos, São Paulo, de 18 a 20 de Novembro de 2009, em conjunto com o IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios.




O Site deste evento está disponível em:
http://www.arquitetura.eesc.usp.br/ocs/index.php/SBQP2009/SBQP2009

O editor do InfohabitarAntónio Baptista Coelho


Segue-se o artigo da semana no Infohabitar
AS CORRENTES E O CUIDADO
por Marilice Costi, Arquitecta e Investigadora

A primeira pesquisa urbana desenvolvida pelos meus alunos da disciplina Avaliação Pós-Ocupação (Faculdade de Arquitetura da PUCRS) foi com o intuito de descobrir o grau de satisfação dos pedestres em sete das vias de alto tráfego de Porto Alegre, entre elas, a avenida José de Alencar.

Moradora da região no entorno do Parque Farroupilha, eu vivia inconformada com aquelas correntes nos canteiros – sem sinalização – barreiras sem relação alguma com o desenho urbano. Pintadas de verde, à noite especialmente, tornavam-se invisíveis devido à grama nos canteiros. Sua altura também permitia que os transeuntes saltassem por elas, o que era arriscado, devido ao trânsito intenso. Muitas pessoas corriam risco de se machucarem e isso era visto frequentemente pelos comerciantes das regiões. Soubemos que uma pessoa havia sido atropelada por um ônibus ao saltar em uma daquelas correntes e que teria morrido.

O trabalho discente consistiu em formular questões em linguagem coloquial, que foram pré-testadas, e definiram um questionário a ser aplicado em no mínimo trinta usuários em cada ponto de pesquisa. Mais três técnicas escolhidas pelos grupos para ratificar ou não os resultados. Os alunos foram a campo acompanhados por mim para aprenderem a abordar os transeuntes, e observar o entorno e compreenderem a relação entre os pedestres e os canteiros centrais, lugar que se deve ter segurança, com tais correntes.

O resultado da pesquisa não me surpreendeu. O grau de rejeição era alto (muito mais de 45%) o que justificaria a sua remoção. Minha opinião sempre foi esta: basta uma pessoa a correr riscos e eu as removeria. Naquela data, tal pesquisa, por ser de alunos, não poderia ser aproveitada! Só poderia ser aprendizado dos futuros profissionais.

Alguns semestres depois, as correntes ainda me perturbavam. Eu também me perguntava quem era o responsável pelo desenho urbano do canteiro central entre o Centro Comercial Azenha e a Escola Ildefonso Gomes. Sem critério algum de segurança, desconsiderando totalmente o fluxo natural dos moradores do bairro, as correntes ali também impedem o fluxo comum dos moradores. Ao limitarem áreas com arbustos, que bloqueiam também a visibilidade reduzindo a segurança, criam lugares onde podem se esconder assaltantes. Os alunos descobriram que a sua colocação fora definida por algum funcionário do centro comercial, um “jardineiro” contratado para “embelezar” o canteiro central, de onde se tem uma das mais belas perspectivas das palmeiras imperiais em Porto Alegre.





Figura 01 e 02: finalmente, as correntes foram removidas - na imagem restavam apenas as barras de apoio, entre as quais havia correntes verdes.
É na Arquitetura que, compartilhada com a Sociologia, a Geografia, a Antropologia, a Engenharia e outras áreas do conhecimento, que se aprende a construir ambientes adequados ao uso humano. Portanto, projetos desse tipo devem ser projetados pelo arquiteto devido à sua formação e consequente competência para projetar conforme as necessidades espaciais e de circulação dos cidadãos. E ainda, devido à complexidade urbana, coordenar equipe multidisciplinar composta de profissionais de várias áreas. Neste caso, urbana, portanto de responsabilidade de secretarias municipais. Os alunos se deram conta que tais órgãos públicos decidiam cada um por si: SMAM, SMOV, EPTC e outras eram como feudos.

Retomamos a pesquisa urbana das correntes em canteiros centrais no início do novo século pois a dúvida permanecia. Que arquiteto criara aquelas barreiras metálicas “verdes”? A resposta veio da própria projetista: foi para proteger a grama! Infelizmente, não lembro o nome do aluno, foram tantos, que penetrara no âmago do espírito do pesquisador. Acabara o mistério: a projetista fora uma bióloga!

Abrindo o CP de dois de julho próximo, fiz a conta. Mais de dez anos passaram.

Finalmente, a percepção pública que faltava. Ou a decisão. Vinda de um professor, cujo olhar sensível, espero que também siga até o grande canteiro citado acima.
Fundamental é o trabalho do arquiteto ao projetar ambientes com segurança e conforto para as pessoas. O arquiteto, assim como a Prefeitura devem exercer também o cuidado.

Marilice Costi é mestre em Arquitetura, editora da revista O CUIDADOR, membro da ANTARQ e da ALF-RS - Rua Santana, 666/504 - Porto Alegrehttp://www.sanaarquitetura.arq.br/
CREA 41328
Brevíssimas notas do editor:Por sistema preferimos editar os textos o mais possível como me foram enviados o que também aconteceu em mais esta excelente reflexão de Marilice Costi sobre as razões que estruturam partes significativas dos nossos ambientes urbanos e de vida.
Na próxima semana tentaremos voltar a esta matéria, que é afinal a da urgência de termos cidades verdadeiramente amigáveis e estimulantes.

O editor do InfohabitarAntónio Baptista Coelho


Infohabitar, Ano V, n.º 257
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 3 de Agosto de 2009
Edição de José Baptista Coelho


domingo, maio 24, 2009

248 - SALA DE AULA, ARQUITETURA, CORPO E APRENDIZAGEM - Infohabitar 248

Infohabitar, Ano V, n.º 248

SALA DE AULA, ARQUITETURA, CORPO E APRENDIZAGEM
Marilice Costi

Tal como tinha sido referido numa edição anterior edita-se, em seguida, mais um óptimo artigo de Marilice Costi, neste caso, intitulado SALA DE AULA, ARQUITETURA, CORPO E APRENDIZAGEM; de certa forma um artigo que faz alargar para os vitais espaços da formação e da “aula” a necessidade da humanização e de novas perspectivas que cooperem na dinamização das acções de formação/informação e aprendizagem.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

SALA DE AULA, ARQUITETURA, CORPO E APRENDIZAGEM
Marilice Costi (1)

Uma verdadeira viagem de descoberta
não é a de pesquisar novas terras,
mas de ter um novo olhar.

Marcel Proust


Postura e atuação da professora, e a sua importância na sala de aula foram delicadamente tratadas por Sara Pain, em 2005, durante a palestra Corpo, pensamento e aprendizagem (2).
Ela pincelou um pouco sobre o ambiente da sala de aula e como isto se reflete no aprendizado dos alunos.

A complexidade no aprendizado, a que se reflete na relação aluno-professor, também vem sendo estudada por outros profissionais. Antonio Ivan Izquierdo, em 2004, palestrou o tema Memórias e cognição: da biologia molecular à sala de aula, relatando pesquisas dos mecanismos da memória. Afirmou que quanto mais emoção na sala de aula, mais chance de que a memória seja acionada.

No sistema neurológico, o processo químico para que se estabeleçam conexões no cérebro e para que as associações necessárias ocorram, depende de muitas variáveis. O professor desencadeia várias delas, mas existe a individualidade do aluno, a sua maturação, a sua experiência de vida, a sua base de conhecimentos, entre outras. E os “brancos” nas provas, ou os “brancos do professor” ao ensinar? É que os corticóides, quando liberados em excesso devido ao estresse, não permitem as conexões neurológicas necessárias, ocasionando os “brancos” que apavoram qualquer indivíduo. Daí a importância do preparo: um estudo bem feito dá a segurança do saber.

Os temas tratados nas palestras trouxeram muitas das preocupações dos mestres: como ocorre o processo de aprendizagem em aula e de que forma se pode auxiliar os alunos. Crianças demonstram a hierarquia de seus amores nos desenhos e nas redações. Na universidade, os alunos também demonstram seu afeto com o professor: partilhando seu chocolate, dando-lhe uma fruta, trazendo um texto de interesse para a aula, trocando idéias, emprestando-lhe um livro ou até querendo chamar sua atenção com um comportamento indesejado. A professora, que para as crianças tem freqüentemente a força da figura materna (3), é receptora de muitos afetos. Se a relação mãe-filho é complexa, imagine-se a da professora-aluno que, além da imagem de mestra, recebe projeção de sentimentos de muitos outros tipos e projeções desencadeadas por indivíduos muito diferentes entre si, pois cada aluno é único.

Para Antonio Viñao Frago (1998, p.138), “aquilo que se quer transmitir, ensinar ou aprender tem que estar mais ou menos delimitado, demarcado, mas também ordenado e seqüenciado”. Num primeiro momento, o professor é importante porque detém o conhecimento que deve transmitir. Mas para Sara Pain (1999) e Pedro Demo (2000), o importante é sempre problematizar. A tensão, que um problema dado em aula pode provocar, a entonação e o movimento corporal do professor influenciam no interesse e na atenção do aluno. Pode estar aí o estímulo ao seu raciocínio: o professor joga a isca! Acredita que ele tem capacidade para resolver problemas. Abrir as aulas com a problematização, estimulando o pensamento crítico, é essencial para provocar a participação.

O aluno que tem sede de aprender encontra-se inserido no prazer da descoberta. Mas quando não, é preciso retornar a momentos da infância e tratar a pesquisa como o anterior prazer da descoberta, quando tudo era novidade e experimentação. Onde e por que paramos de descobrir de forma prazerosa? Se as descobertas são os motores da civilização, por que o aluno resiste? Acreditamos que a sala de aula é um dos lugares mais importantes para seduzir para o conhecimento e a descoberta. Local de individualidade, de liberdade do pensar e liberdade de errar (4). Local de partilha. Partilha, porque todo professor aprende com seu aluno numa relação sempre biunívoca, onde até o professor pode errar eventualmente.

A escrita, diz Pedro Demo (2000, p. 31) é “como processo, tendo em vista que o pensamento crítico vive de retomadas, de superação de erros e de produção de novos, da aprendizagem permanente.” Ser crítico para crescer é também um longo processo que o professor pode ensinar. Quem diz não ser bom de escrita é porque não desenvolveu sua forma própria de pensar. O ato de escrever exige uso pleno do pensamento. E o que mais se verifica é que o aluno não deseja pensar, a filosofia é chata, “sentimentalizar” é fora de moda. Está tudo pronto! Mastigado nos outdoors e na mídia. Onde a expressão escrita deixou de ser valorizada como uma das mais importantes formas de comunicação? Ser professor é ser um comunicador e, em alguma sala de aula - é bem provável - o aluno ou nunca desenvolveu sua relação com a expressão escrita ou rompeu a ligação com ela.
Para Sara Pain (1999, p. 11), “o corpo funciona fora da consciência. Ele constitui a principal estrutura da aprendizagem propriamente dita, porque, vivendo o aqui e o agora, se desdobra em suas modalidades comportamentais, que são os hábitos da ação e da reação.”

Quando um aluno está irritado e joga o seu trabalho no chão, cheio de raiva, ele está agredindo a si próprio, pois está amassando a sua produção. Foi um insulto, um gesto impensado e corporal que destruiu a própria obra. Deixar o aluno sentir sua emoção e aguardar um outro momento para conversar sobre o fato, resultará na compreensão e no crescimento do aluno em relação aos seus sentimentos: o entendimento de que teria que se esforçar mais, dar mais empenho, aceitar que não estava bom.

A célebre frase - a professora não gosta de mim - é mais uma projeção de si próprio, pois ele amassou seu trabalho, desvalorizou-se perante si e os outros. Onde as raízes daquele sentimento? É preciso mostrar um caminho ao aluno, negar ser recebedor daquela emoção projetada. O professor é recebedor de sentimentos e reações que foram interiorizadas pelo aluno, antes, em algum momento da sua vida, podendo nada ter a ver com o professor (5).

O professor usa a voz o tempo todo, mas mais do que nunca, ele não é só voz, ele é corpo em movimento, um corpo no espaço que uma linguagem própria. Ela é percebida o tempo todo pelos alunos. Por que o professor grita? Pode ser que a escola esteja inserida em área com ruído urbano intenso, pode ser que tenha voz de tenor e precise educá-la, pode ser que a acústica da sala seja ruim e que as paredes sejam de baixo nível de isolamento. O mais comum é porque os alunos conversam e o professor se sente na obrigação de elevar o volume de sua voz para que os alunos que prestam atenção possam escutá-lo (Brum, 2004).

Mas é preciso fazer assim? Quando isto ocorre, é melhor parar. Não só porque o instrumento de trabalho do professor é sua voz, mas porque é preciso achar soluções menos problemáticas do que mandar o aluno para fora da sala como fazem muitos professores de adolescentes sem limites. Estudantes de faculdades particulares perdem a noção do valor das mensalidades. Conversam muito, especialmente, nas sextas-feiras. Parar e passar a sussurrar são possibilidades. Em nossa vivência de docente, perguntava-lhes: Por que é preciso elevar a minha voz? Por que estavam tão dispersos? O assunto era chato? Cansativo? Difícil? Estava ensinando mal? E parávamos para conversar. Estavam cansados, era o final de semana, haviam passado a noite fazendo projetos, tinham tido provas, estavam fazendo estágio, alguém estava doente ou morrendo na família, estavam confusos quanto à profissão, estavam assustados com as despesas, estavam tristes porque teriam que abandonar a faculdade no próximo semestre, tinham brigado com o namorado, estavam apaixonados, estavam com cólicas, com dor de cabeça, com febre, com saudades dos familiares, muitas coisas. Depois de uns minutos de reflexão conjunta sobre a causa da dispersão, retomávamos os conteúdos e podíamos assumir totalmente cada um o seu papel.

Aproximar-se dos alunos facilita na redução do volume da voz.



Fig. 01: aula expositiva


Na universidade, dar uma aula expositiva ou sentar com os alunos para ensinar são movimentos muito diferentes e podem ser interpretados, a nosso ver, de várias formas. O professor para poder cumprir o programa, passa a reproduzir o mesmo modelo autoritário antigo: o de despejar conteúdos e mais conteúdos. E isto impede que ele conheça o aluno e o ajude no seu crescimento de forma mais harmônica. As aulas expositivas não podem ser “fechadas”. Elas precisam suscitar novas descobertas: pesquisa em biblioteca, na internet, em laboratório. Trazer o aluno para o questionamento é possível. Problematizar, criticar, analisar, interpretar até. Mas para que isto ocorra tempo e espaço devem ser suficientes. Se o professor está expondo o conteúdo para turma de muitos alunos (as economicamente corretas, mas didaticamente erradas) - ele detém a autoridade de quem tem o conhecimento – é muito difícil que possa sentar com os alunos, pois não conseguirá dar a mesma chance a todos. Tal tipo de aula impede permuta de conhecimento fundamental numa universidade, e pode se prestar para algumas disciplinas específicas. Mas o aluno precisa reaprender a descobrir por si próprio e com os outros, habilidade que lhe será muito exigida no futuro, e não receber todo o conteúdo já mastigado pelo professor.

Uma das posturas do professor que faz com que o aluno se posicione mais e exerça sua capacidade é a aula tipo de atelier. Como o professor se manifesta ao estar sentado com o aluno? Está trocando, participando junto? Sentar à mesma mesa, mostrar como o conhecimento é construído, ser companheiro e orientador do processo, atuando dentro do espaço pessoal, facilita o vínculo afetivo e a troca mais aprofundada. Demonstrar que cada um tem o compromisso de construir o seu conhecimento, é direcionar o aluno para caminhos de liberdade por onde ele poderá seguir depois, sem o mestre. Além disso, o aluno deve poder fazer escolhas e exercitar sua “liberdade-opção-iniciativa-ação e compromisso-responsabilidade” (Semler, 2004, p.92). Ele deverá assumir a responsabilidade pelo que decidir (6).

E quando o professor se desloca para o quadro? Conforme Sara Pain, para que o ritual provoque a atenção do aluno, deve ser repetido muitas vezes. Estar no quadro pode ser um sinal de conteúdo novo, de que o aluno precisa se posicionar com atenção. Ao deslocar-se para o quadro, o professor pode e deve demonstrar, cenicamente, uma hierarquia e conteúdos novos ou observações importantes podem ser melhor registradas se cumprirem rituais pré-estabelecidos.



Fig. 02

Um professor sai da aula com muitas outras reflexões: será que aprenderam? Consegui ensinar? Também reflete sobre o comportamento, o estresse, a economia, as relações sociais, o sistema educacional, o sistema de trabalho, o desgaste dos alunos de profissões que exigem “plantão” - porque estudantes de arquitetura fazem plantão como residentes da área médica. A diferença é que estes tratam de pessoas estressadas e doentes, e aqueles tratam dos espaços que estas pessoas vão viver, local de todas as atividades e sentimentos, trabalhando de forma criativa, inventiva, projetiva. Não se baseiam apenas em livros e experiência, mas precisam desenvolver seu processo criativo, que nem sempre ocorre devido a bloqueios que possuem. Cobrar do aluno bloqueado resolve? É preciso ajudá-lo a compreender o que está ocorrendo com ele.

A sala de aula é o local de aprendizagem e de afeto que pertence aos alunos e ao professor. Se o professor está próximo dos alunos, estará trocando com eles num mesmo nível, na mesma energia, poderá sentir a energia do aluno e interagir melhor com ele. Em alguns momentos, penetramos ou interpenetramos as “bolhas pessoais”, definidas por Edward Hall em 1977. E esta aproximação, se contiver afeto, vai facilitar a aprendizagem, pois ambos estarão em uma mesma sintonia. Nossa vivência como professora permite que afirmemos que a aproximação entre professores e alunos é muito diferente de tempos atrás. O distanciamento era a marca da autoridade e o domínio do conhecimento – que se poderia dizer pequeno frente à enxurrada de informações que todos recebemos todo o dia. Basta uma noite a mais de vida e em algum lugar do mundo ou muito próximos de nós, alguém ampliará os conhecimentos sobre assuntos que pensamos dominar. Segundo Edgar Morin, precisamos aprender a pensar a complexidade e não nos assustarmos porque ela é inevitável. O mundo “valoriza os ousados, os empreendedores, aqueles que são capazes de aprender sempre e em qualquer lugar, integrados a comunidades de aprendizagem” (Semler, 2004, p.8). Além disso, o conhecimento se constrói em bases solidárias: na partilha de conhecimento que se estabelecerá a passagem para o saber. Por isso que o trabalho em equipe tende a ser cada vez mais estimulado, especialmente, na universidade, porque quem não sabe trabalhar em grupo, não saberá compartilhar em ambientes de trabalho, onde a fragmentação e a complexidade dos conhecimentos terá que ser tratada de forma intra-relacional, enriquecedora e construtiva.

É normal que professores possuam preferências por certos alunos (Pain, 2005) (7) e eles sentem isto. Mas o aluno “não preferido” pode e deve ser um novo amigo. Ele pode ser conquistado. Acreditamos que existem professores que desafiam a si mesmos e vão em busca daquela “ovelha desgarrada”. Se há dificuldades de vinculação professor-aluno, as aulas práticas e/ou vivenciais, ou de atelier são facilitadoras da aproximação. Mas para que isto aconteça, o professor deve gostar do que faz, gostar de pessoas, posicionar-se de forma solidária e “crescer junto” com aquele aluno, descer de seu pedestal do conhecimento para reconhecer que existe um problema e que deverão ambos resolvê-lo. Acreditamos que quanto maior o desafio, maior o empenho do professor e o aluno logo perceberá isto como afeto. Esta abertura de atitude do professor jogará o aluno para a frente.

Freqüentemente, o aluno não gosta da disciplina porque não teve empatia com o professor. Atrás disso, podem estar ocorrendo muitas coisas, inclusive uma forma de dizer que está difícil acompanhar o conteúdo. Ivan Izquierdo afirma que a evocação é altamento modulável por vias nervosas, vinculadas com o alerta, a atenção e a ansiedade, e que é a serotonina, um neurotransmissor que modula a evocação (8). portanto, o professor não pode ser sempre responsável pela aprendizagem do aluno, pois muito é preciso para que o aluno aprenda, pois existe uma fronteira, que se pode atravessar, entre o consciente e o inconsciente. Para que ocorra cognição, muitos aspectos químicos e biológicos precisam se encontrar em boas condições. Daí que o aluno que não aprende não é de responsabilidade do professor, mas cabe ao professor achar caminhos para que ele possa aprender.



Fig. 03

O espaço escolar pode influenciar o comportamento de todos. Na sala de aula, se existe luz refletindo no quadro negro, o aluno evitará sentar-se nas classes que causam este desconforto; se ele sentir muito calor, vai se sentir desconfortável, da mesma forma que o frio excessivo enrijecerá sua mão para escrever. A temperatura altera profundamente nosso comportamento, por isso é tão importante que o projeto de escolas tenha a orientação solar adequada (9).

Quando os alunos conversam muito, a disposição das classes em círculo joga sua atenção para o centro onde o professor é o ponto de fuga do seu olhar. Também é o caso da disposição em “U” que faz com que o aluno possa olhar para todos os colegas e, assim, trocar idéias frente a frente. O aluno que quer prestar atenção percebe logo qual o colega que está dispersivo em aula; é mais difícil um aluno dormir na aula, pois ele sente muitos olhares sobre si, o que nunca ocorre com as classes distribuídas em linhas paralelas. O professor pode auxiliar aquele aluno sonolento ao lhe dizer: vá tomar uma água, um cafezinho, refrescar o rosto. Não é melhor um aluno que saia um pouco e volte mais disposto, do que um aluno sem atenção durante todo o período? Ele vai sentir: que está recebendo cuidados e atenção do professor, e que o professor quer ajudá-lo.



Fig. 04

O formato da disposição das classes em círculo ou em U (quando a aula é expositiva e é necessário o uso do quadro) facilita o intercâmbio com o professor que fica praticamente eqüidistante dos alunos o tempo todo, podendo interagir de forma muito mais eficiente. Por isso, o projeto arquitetônico de interiores de sala de aula é tão importante: a sala deverá ter dimensões suficientes para o número de alunos; as cadeiras e as classes deverão possibilitar movimentos; o quadro não deverá ter reflexos; as janelas deverão possuir sombreamento no exterior pois as cortinas impedem a ventilação; a iluminação deverá ser feita com lâmpadas fluorescentes luz do dia por fornecer uma luz mais uniforme; os ventiladores nunca deverão estar abaixo das luminárias pois a pá – mesmo em movimento – ocasiona o efeito estroboscópico que provoca desconforto por estresse do nervo ótico; equipamentos e luminárias deverão ser silenciosos; as paredes deverão ser de material com bom isolamento acústico para que o ruído de uma sala contígua não interfira na outra. Corredores internos deverão possibilitar a ventilação, mas poderão favorecer a passagem de ruídos para salas próximas. Isto sem falar nas cores (10), no mobiliário e em equipamentos, nas redes elétrica e lógica que possibilitam o uso de computadores, projetores e retroprojetores que, ao proporcionar melhores recursos didáticos ao professor, qualificam a aula. Para Antonio Viñao Frago (1998, p.138), a colocação do mobiliário não deve ser por acaso. A sua distribuição gera segurança, pois o ser humano necessita de precisão e de regularidade, normalização e racionalização, e tais itens “realizam-se mediante dispositivos e engrenagens mecânicas ou organizações maquinais de seres vivos”, seres humanos. Ao alterar o interior ou o exterior, o autor afirma que mudamos a natureza do lugar. Isto significa que se deve “abrir o espaço escolar e construí-lo como lugar de modo tal que não restrinja a diversidade de usos ou sua adaptação a circunstâncias diferentes”(Frago, 1998, p.139). É importante dar liberdade ao professor no processo de configuração de espaços. A sala de aula é um espaço dinâmico. Deve ser um ambiente que possibilita.

Conhecer o aluno é escutá-lo, na maioria das vezes, por poucos minutos, mas escutá-lo com o coração. Acreditamos ser esta a ponte para a aprendizagem: corpo, afetividade, solidariedade, problematização, pesquisa e experimentação num ambiente arquitetonicamente adequado configuram o ideal para que a aprendizagem ocorra satisfatoriamente, pois a sala de aula é um “espaço vivido e um elemento determinante na conformação da personalidade e mentalidade dos indivíduos e dos grupos.” É um tipo especial de território, que tem “uma realidade psicológica viva” (Frago, 1998, p. 63) (11), território e lugar grupalmente construídos: portanto a sala de aula nunca será um espaço neutro. Carrega símbolos, signos e vestígios da condição e das relações sociais. As relações interpessoais - distâncias, território pessoal, contatos, comunicação, conflitos de poder, ritos sociais, liturgia, simbologia na distribuição dos objetos e dos corpos (sua localização e postura) - dependem da hierarquia e suas relações, variáveis em cada cultura, portanto os projetos de salas de aula precisam atender às necessidades dos indivíduos que as utilizam.


NOTAS:

(1) Marilice Costi é professora universitária, mestre em Arquitetura na área de Economia e Habitabilidade, pesquisadora autônoma, pós-graduada em Arteterapia, escritora, oficineira, poetisa, criadora da Oficina de Poesia: A linguagem do poeta e a síntese interior. Diversos prêmios em literatura, livros publicados, membro da Academia Literária Feminina do RS, colaboradora (Info-IAB-RS e CONSUMIDOR-RS). http://www.sanaarquitetura.cjb.net/ - e-mail: maricosti@terra.com.br

(2) No Salão de Atos da UFRGS, superlotado, dia 29 de abril de 2005.

(3) Acreditamos que universitários também podem ter o mesmo funcionamento: o professor/pai e a professora/mãe.

(4) Vale a pena repensar as avaliações que, a nosso ver, devem ampliar a capacidade crítica do aluno. Está na escola para aprender, onde pode errar. Avaliar o sistema de avaliação para não utilizar a nota para bloquear, mas para indicar caminhos ao aluno: uma forma de estimular a crítica para o crescimento do aluno.

(5) Experiência que tivemos em sala de aula.

(6) Em 2003, os alunos da disciplina Avaliação Pós-Ocupação, decidiram o que pesquisar em sala de aula e trabalhamos em uma única equipe. A pesquisa sobre o Terminal Parobé foi feita usando instrumentos de medição e aplicando questionário. Os dados coletados foram tabulados e interpretados em sala de aula. A participação de cada um foi de acordo com suas habilidades e interesses. O resultado está no site www.iabrj.org.br/anais/arquivo/mostra.pdf do XVII Congresso Brasileiro de Arquitetos Rio de Janeiro 2003 – vide Catálogo da 1ª Mostra Multimídia de Arquitetura, Urbanismo e Patrimônio – CD Rom e Websites, p. 13.

(7) Palestra dia 29/04/2005.

(8) Chamar de algum lugar. Trazer à lembrança, à imaginação. Do lat.Evocare (DIC. AURÉLIO ELETRÕNICO,1999)

(9) A orientação deve ser estudada de acordo a região geográfica: entorno e sobreamentos naturais existentes, para depois projetar sombreamentos arquitetônicos (pergolados, marquises, etc.), talvez com o uso de vegetação.

(10) O conteúdo dado pelo professor não pode competir visualmente com as cores de superfícies grandes e fixas. (Opinião da autora) apesar de existirem autores que afirmam que as cores vibrantes auxiliam as crianças devido à sua agitação natural. Cores vibrantes vêm sendo consideradas estimulantes e estressantes para classes mais avançadas. Cores pastéis e suaves são as que menos interferem, portanto as mais adequadas para altos níveis de concentração.

(11) Apud MESMIN, Georges. L´enfant, l´arquitecture et l´espace. Tournai: Casterman, 1973, p. 16.


REFERÊNCIAS

BRUM, Débora Meurer. A voz do professor merece cuidados. Revista Textual, maio 2004, v. 1, n.4 p.14-18.

DEMO, Pedro. Conhecer e aprender: sabedoria dos limites e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2000.

FRAGO, Antonio Viñao Frago; ESCOLANO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

HALL, Edward. A dimensão oculta. Rio: Francisco Alves, 1977.

MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. ALMEIDA, Maria da Conceição de; CARVALHO, Edgard de Assis (orgs.). São Paulo: Cortez, 2002.

PAIN, Sara. Corpo, pensamento e aprendizagem. Porto Alegre: GEEMPA, 1999.
SEMLER, Ricardo; DIMENSTEIN, Gilberto; COSTA, Antonio Carlos Gomes da. Escola sem sala de aula. São Paulo: Papirus, 2004.

Figuras: fotos de palestra de Robert Sommer; in del Rio, Vicente; Duarte, Cristiane &Rheingantz, Paulo (2002) "Projeto do Lugar - A Colaboração entre a Psicologia ea Arquitetura e Urbanismo". Rio de Janeiro: PROARQ-FAU-UFRJ / Editora ContraCapa.