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terça-feira, abril 07, 2020

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (II) – Infohabitar # 725


Ligação direta (clicar) para:  717 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada (38 temas e mais de 100 autores)



Infohabitar, Ano XVI, n.º 725

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (II) – Infohabitar # 725

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)
Notas prévias:

Muito estimados leitores da Infohabitar, caros amigos,
continuamos a “batalha” contra o inimigo invisível, julgo, agora um pouco mais habituados ao teletrabalho e ao confinamento doméstico e talvez com um sentido de esperança e de confiança no futuro próximo mais afirmado, tendo-se em conta os últimos dados da pandemia em Portugal.
É, agora, a altura de manter a força e procurar reforçar o cumprimento das indicações para “estar em casa” e manter a distância social (por afastamento e por máscara); só assim poderemos proteger-nos e proteger os outros.
E não tenhamos dúvida de que quem sai de casa sem ser por razões plenamente justificadas está, realmente, a  colocar em risco o esforço de confinamento que todos estamos a fazer e, no mínimo, a contribuir para o prolongamento desta situação.
Realmente, nestes tempos tão difíceis para todos e verdadeiramente inacreditáveis (até para velhos amadores de ficção, como é o meu caso e, por favor, não considerem este último comentário menos respeitoso, pois trata-se, apenas, de colocar, por escrito, um pensamento que, provavelmente, tem ocorrido, a muitos de nós, nestas últimas semanas), é fundamental, por um lado, e tal como acima se referiu, atender e cumprir, fielmente, entre outros aspetos, as indicações de confinamento doméstico – e não tenhamos quaisquer dúvidas de que “ficar em casa” é a única forma de nos protegermos, de protegermos os outros e de facilitarmos o heroico esforço dos profissionais de saúde e de tantos outros que não podem estar em teletrabalho (e são muitos e importantes os testemunhos que destacam a importância vital do isolamento doméstico no combate ao vírus) – e, por outro lado, procurar construir, gradual, mas seguramente, uma fundamental rotina de atividades, entre as quais : (i) os cuidados de higienização própria e do espaço doméstico, (ii) os cuidados de distância social no espaço de uso público (distância física e máscara) e mesmo, sempre que possível, no próprio espaço doméstico, (iii)a prática das mais variadas atividades complementares e de lazer adequadas ao espaço doméstico e (iv) o desenvolvimento de uma razoável e bem saudável disciplina de teletrabalho doméstico.
E é com este sentido que iremos procurar assegurar a continuidade das edições semanais da Infohabitar, tanto com novos artigos sobre aspetos teórico práticos que se poderão, talvez, designar como mais “consistentes” – por exemplo, o retomar da Série “Habitar e Viver Melhor” e o desenvolvimento de uma nova Série editorial dedicada à “Habitação Colaborativa Intergeracional” –, como através da reedição, eventualmente comentada, de artigos editados nos primeiros anos da Infohabitar, e ainda através da continuidade de uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
Finalmente, faz-se um apelo sincero:
. a novos artigos que nos possam ser enviados com o objetivo da respetiva edição, que poderão ser de variada índole, desde que referidos ao grande tema do habitat humano  - ex., desde temas estruturados e/ou inovadores, a reflexões específicas sobre determinada matérias (e o confinamento doméstico proporciona sem dúvida muita matéria de reflexão teórico-prática sobre o que são e o que poderiam ser os nossos “mundos” domésticos);
. a recensões sobre livros ou filmes, conjuntos de imagens, pelo menos, minimamente apresentadas e/ou comentadas, como fotos e esboços (cuidado com a autoria), etc.
. e a “simples” comentários relativos a determinados artigos, comentários estes que deverão ser acompanhados pela referência de autorização para divulgação editorial (caso assim o desejem).
E tais submissões de propostas de artigos poerão ser feitas para o mail: abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado.
Para já é tudo, desejos de boas leituras e na próxima semana voltaremos.

Com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 6 de abril de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar (em teletrabalho doméstico)

Introdução explicativa
Como referência prática de apoio à leitura, lembra-se que no artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, se procurou desenvolver, esquematicamente, a ideia de que, nos tempos de hoje, quando se pretende imprimir ao espaço urbano uma renovada marca pedonal e de meios “suaves” de deslocação, facilitados, designadamente, pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelo crescimento do uso dos veículos pouco poluentes, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
No referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, realizou-se, então, uma abordagem de enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos, seguindo-se o apontamento de  alguns desenvolvimentos recentes e de referência, que apoiam estas ideias, desenvolvendo-se, sequencialmente a matéria do que se considera poder ser uma estratégica variabilidade urbana, que se julga poder ser até facilitada pelas novas e potentes ferramentas de projeto e de visualização do mesmo.
E salienta-se, finalmente, que se julga que boa parte destas reflexões ilustradas poderão ser úteis em termos de apoio à prática, quer no contexto de novas intervenções, quer no âmbito de regeneração urbana, respeitando-se, naturalmente, a essencial adequação e/ou adaptação a cada situação específica e a estratégica caraterização de cada operação.
Alguns desenhos comentados
Em seguida e tendo-se por base a apresentação de alguns desenhos à mão livre (7 esboços coloridos a sépia), comentam-se as matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas que acabaram de ser referidas, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.


Fig. 01: tal como se referiu na primeira parte deste artigo (parte “I”), ilustra-se, neste esboço, um pormenor do caminho pedonal que que serpenteia no agradável jardim urbano que rodeia a igreja de Santo Eugénio na Encarnação, um espaço que se julga ter sido uma das primeiras obras do arq.º paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (Jardim da Praça de Santo Eugénio ou Jardim da Encarnação, Bairro da Encarnação, Lisboa, 1951).
Temos aqui, novamente, o “encenar” da natureza no âmbito de um quadro físico limitado – retângulo de cerca de 100x150m, mas incluindo-se aqui uma grande zona de implantação da Igreja e de estacionamento; e daqui se retira ser possível proporcionar esta natureza encenada e intensificada através de espaços que nem são especialmente grandes, que foram pormenorizados no sentido de se menorizarem os cuidados de manutenção e onde, além disso, se integrarm diversos tipos de equipamentos – neste caso: Igreja, zona de jardim com razoável continuidade, espaços de sentar diversificados e, mais recentemente, um excelente parque infantil.
Um desenho a sépia clara que privilegiou um tratamento a linha fina e a aguadas “livres”; como que uma “brincadeira” de apontamento a linhas e aguadas.


Fig. 02: continuamos no Jardim da Praça de Santo Eugénio, neste caso através de uma vista que realça, especificamente, o referido sentido de “cena” natural intensificada pelo próprio projeto urbano e de arquitectura paisagista, designadamente, através de uma quase-passagem sob os ramos de duas pequenas árvores e de um reforço do sentido de profundidade, que é também intensificado pelo colear do caminho pedonal, que vai permitindo uma sequência estimulantemente variada de pontos de vista, e pela judiciosa plantação de variadas árvores e arbustos, cujos troncos vão reafirmando esse sentido de profundidade e de perspetiva.
Um desenho que procurou afirmar a força do esboço, seja em linha seja a “negro” (pontualmente), servindo-se esses sentido de profundidade e de perspetiva, também com a estratégica aplicação de zonas bem escuras mais em primeiro plano; e a propósito lembrar o sábio conselho do saudoso amigo, grande mestre e grande amador do desenho, o arquitecto Raúl Hestnes Ferreira, que uma vez me disse que em cada desenho devem sempre existir zonas bem brancas e pelo menos uma zona de negro/negro (a expressão dele não foi bem esta, mas era isto o que ele queria dizer); e aliás outro amigo e mestre, o escultor Matos Simões, que foi quem me ensinou parte das bases práticas do desenho livre, também referia quase o mesmo, quando defendia que o papel não desenhado tem de estar perfeitamente limpo e que tem de haver sempre contrastes maximizados entre esse “branco” e zonas traçadas intensamente a “negro” e mesmo marcadas pela textura do lápis ou de qualquer outro elemento de desenho que usarmos.



Fig. 03: tal como se referiu na primeira parte deste artigo (parte “I”) , ilustra-se, neste esboço, uma vista de uma zona pedonal em Olivais Norte, Lisboa, “centrada” em um dos edifícios que correspondem ao Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1967, o primeiro (e julga-se que o único) Prémio Valmor atribuído a um edifício de habitação de interesse social, com projeto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas – existem, julgo, cinco edifícios com este mesmo projeto, marcando as extremidades Sul e Norte de Olivais Norte.
Para quem não conheça esta solução edificada sublinha-se que ela é, de facto, excelente a variados níveis, conseguindo, designadamente: uma mistura tipológica assinalável de três tipologias em cada andar (1 T4, 2 T3 e 1 T1); um ambiente comum único marcado por um patamar extremamente amplo, em cada andar, desenvolvido praticamente como se fosse uma extensão da “rua” e tratado com um banco para sentar e um elemento artístico; e assumindo um atraente carácter em termos de imagem urbana, que se procura ilustrar no esboço, privilegiando um sentido de “peça única”, bem variada a toda a volta e em altura e que “joga” de modo extremamente cativante com a envolvente natural.
O esquisso procura receber tais “notas”, seja em termos dos rabiscos com continuidade que marcam a árvore em primeiro plano e o edifício em segundo, seja em termo do acentuar dos tons das aguadas; procurando-se que a “grafia”, as linhas ou traços, se vão prolongando entre o verde horizontal exterior, a árvore e o edifício.


Fig. 04: continua-se numa ilustração esquissada do mesmo edifício – aliás um dos temas que mais desenhei em Olivais Norte desde há anos, pois é excecionalmente apelativo, atraente; e neste caso, sendo outra estação do ano, podemos sentir que a harmonia que existia, acima, entre as verticalidades da construção (uma torre bem humanizada, e a este tema voltaremos em artigo específico) e da árvore despida de folhas, permanece, embora naturalmente com outros equilíbrios formais, quando o maciço arbóreo está em plena vegetação, “casando-se” natureza e edificado de modo extremamente sensível e efetivo; e neste resultado há também e evidentemente mérito para a arquitetura paisagista e para a integração local urbana e paisagística, conseguindo-se uma rara unidade entre natureza e construção – também assim mais humanizada.
O desenho em si procurou reforçar as manchas ocres esverdeadas e suas mudanças “livres” de tonalidades, apenas minimamente acentuadas com alguns traços sem continuidade e posteriormente realizados. A sombra mais escura das árvores, em primeiro plano, acentua estrategicamente o sentido de profundidade do desenho.


Fig. 05: um desenho quase livre de um recanto “verde” de Olivais Norte, cujo interesse se localiza mais em tentativas de “geometrizar” de modo razoável os elementos naturais e de conjugar a aplicação de aguadas com marcadores aguareláveis e de ponta larga.


Fig. 06: começando-se, neste caso, mais pelo desenho e fazendo-se uma autocrítica, considera-se que este apontamento poderá ser melhorado com uma “simples” reaplicação de algumas linhas negras verticalizadas e acentuando os troncos das árvores que parecem dançar e que proporcionam um excelente e orgânico contraponto com o edifício muito regular e “pacífico” em segundo plano.
Abordando-se, agora, sinteticamente aspetos de urbanismo e habitar, regista-se que o apontamento se refere a um dos  “impasses-tipo” que marcam uma larga zona de cintura de Olivais Norte, caracterizados pelo desenvolvimento de simples edifícios extremamente baratos em termos de construção, mas com um excelente traçado arquitetónico, contíguos a vias de tráfego misto (peões e veículos) e a troços de verde urbano bem intensos e judiciosos em termos da sua plantação e objetivos formais; e sublinha-se o caráter pioneiro deste tipo de espaços em Portugal pois trata-se da década de 1960 – e também a estas matérias pretendemos voltar com mais vagar e pormenor.


Fig. 07: finalmente e tal como aconteceu na Parte “I” deste artigo, com o presente esquisso sublinha-se, essencialmente, a diversidade estruturante entre dois tipos de espaço urbano – modernista e “tradicional” – através uma vista esquissada sobre a Colina do Castelo em Lisboa, deixando de haver espaço entre edifícios, a não ser, concentradamente, em praças/largos urbanos; edifícios que passam a surgir, basicamente, como uma verdadeira colina edificada, e, note-se que, por regra, sem edifícios protagonistas a não ser, talvez o Castelo e um ou outro elemento urbano um pouco distinto do conjunto.
Em termos específicos do esboço procurou-se cumprir a regra de deixar espaços bem “brancos” – céu e algumas paredes de edifícios e zonas pavimentadas mais soalheiras – e de marcar alguns espaços e elementos bem “negros”, neste caso algumas rodovias, paredes e vãos em sombra e um elétrico e sua sombra bem em primeiro plano, reforçando-se contrastes e sublinhando-se a profundidade urbana, aliás acentuada por uma via que atravessa e penetra parte da colina edificada.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 725

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (II) – Infohabitar # 725


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

domingo, abril 27, 2014

482 - Espaço público e identidade urbana - Infohabitar 482

Infohabitar, Ano X, n.º 482

A Infohabitar ultrapassou as 500.000 consultas (page-views)


Nota introdutória: este artigo corresponde à contribuição do autor para uma das intervenções do LNEC, realizadas no âmbito da recente "Semana da Reabilitação Urbana Lisboa 2014", na tarde de 24 de março de 2014, no MUDE - Museu do Design e da Moda - em Lisboa.

Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

 António Baptista Coelho


Construir no construído

Requalificamos o espaço público para que este seja mais e melhor habitado e pensamos num re-habitar da cidade no sentido de a podermos ter mais viva e estimulante.
Há que privilegiar “o construir no construído”, na excelente e ampla perspectiva defendida por Francisco de Gracia (1), que se baseia numa reconstrução da coesão urbana marcada pela escala e uso humanos, pelo desenvolvimento de adequados estímulos visuais e funcionais e por uma cuidadosa e vitalizada densificação; estando todos estes aspetos integrados num objetivo de verdadeira reabilitação da paisagem urbana local, que há que preservar e reconstruir, designadamente, nos seus aspetos orgânicos e ligados ao respetivo caráter do lugar.
Isto obriga a um projecto arquitectonicamente bem fundamentado em cada lugar, e bem qualificado, numa metodologia que foi já praticada, entre nós, em ações de referência que é essencial divulgar e visitar/viver local e demoradamente.

Fig. 01

Sobre a cidade do pormenor e do vagar

Nesta matéria o arqº Yves Lyon, faz uma síntese, quando refere que “depois do período dos grandes projectos há que assumir a arquitectura como abertura ao mundo ... numa clara abertura à vida, bem distinta de clausuras disciplinares”; defendendo “uma nova actividade de arquitecto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objectos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades.”
Uma recriação marcada pela escala e uso humanos, seja na requalificação do próprio espaço exterior público, seja na relação que nele se deverá desenvolver com os vãos dos edifícios contíguos, refazendo-se um exterior público religado à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim (2), e um exterior público renovado, libertado da opressão do veículo motorizado, e que, assim sendo, pode e deve ser estratégica e agradavelmente pontuado por verdadeiros recantos domésticos, como por exemplo acontece em centros históricos e em novos bairros bem desenhados como, por exemplo, Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.
Assim se melhora a imagem urbana para promover o uso intenso do exterior, condição que proporciona melhor fruição dessa imagem urbana, num círculo virtuoso de melhor imagem e mais e melhor uso, e numa atenção às suas sequências, pormenores e recantos de estar, que, por sua vez é dinamizadora de melhores relações de identificação com cada local e de melhores condições de segurança pública no seu uso.
Mas evidentemente que nas ações de requalificação o espaço público não podemos desenvolver uma segregação simplista do automóvel privado, pois como escreveu Spiro Kostof (3), “o mais importante aspecto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio.
E este caminho, bem marcado numa importante exposição aqui neste museu ... e que parece estar a ser ... seguido pela CML ... é essencial numa urgente recuperação da cidade para o cidadão, passo essencial de uma requalificação do espaço público, que o reabilite como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens.
Escreveu António Pinto Ribeiro (4), sobre esta matéria, que “seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade”; .... acabei de citar.

Fig. 02

Cidade passeada, cidade habitada

E o peão precisa de verdadeiras cenas habitadas, precisa de emoção e de conteúdos, não apenas funcionais e o peão gosta de sentir que passeia em zonas vivas e nestas matérias provavelmente o habitar do dia-a-dia ganhará com algumas técnicas ligadas ao turismo, enquanto o turismo pode ganhar muito com alguma da qualidade espontânea e com o sentir e participar (d)a vida de comunidades residenciais positivamente caraterizadas e activas, e exemplo disto encontra-se já em vários “centros históricos” vivos como o de Guimarães.
Precisamos de passear fisicamente e mentalmente, viajando, pausada e agradavelmente, por uma cidade desaparecida, mas que esteja viva, é esse o objectivo que devemos ter em mente, e para isso é fundamental associar, sistematicamente, a resolução dos problemas de carências habitacionais aos da falta de qualidade e vitalidade urbanas,
Afinal não basta ordenar o espaço para se criar um ambiente interessante e motivador; o habitante também necessita de emoção na relação afectiva com o espaço urbano e o uso a pé do espaço público é ação de grande proximidade e, portanto, muito diretamente estimulada pela qualidade do desenho urbano.

Vizinhanças amigáveis, vizinhanças amáveis

Importa salientar que, hoje em dia, não parece haver ainda um conhecimento devidamente sedimentado, publicitado e, essencialmente, consensualizado (no que for possível) sobre a qualidade urbana que é possível ter, por exemplo, numa praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável, apropriável, digna a atraente.
Os conhecimentos e as preocupações continuam a estar, aqui, dirigidos para os aspectos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar a medo uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens;
E não é possível deixar de referir que este caminho de projeto deve ser compatibilizado com a disponibilização de novas tipologias residenciais adequadas para pessoas sós e pequenas famílias, numa ação que contribui, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.

Cultura e urbanidade

Neste processo de reflexão e de projeto importa aplicar ferramentas facilitadoras das intervenções e nesta matéria devemos ter presente que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam.

Fig. 03

Aliança entre intervenções no exterior urbano e nos edifícios

Em tudo isto importa salientar que grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes, está num tecido urbano com continuidades afirmadas, que acolham bem e atraentemente uma diferenciação formal e funcional equilibrada, em continuidades urbanísticas não especializadas e que levem a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona recantos “domésticos” em zonas citadinas mais animadas.
E esta grande unidade dos espaços urbanos e residenciais constitui-se num fundamental ligante de apropriação, sendo que nesta unidade formal e funcional fica evidente o protagonismo do espaço público.
Um protagonismo que é essencial veículo de diversas qualidades da urbanidade, entre as quais é hoje em dia bem oportuno evidenciar a criação de espaços com usos mistos; sejam exteriores, sejam edifícios, sejam unidades com partes interiores e exteriores.

Do estímulo e da surpresa na cidade

Mas todo este caminho não é possível sem intervenções marcadas pela qualidade arquitectónica e que tenham em devida conta adequadas condições estímulo, surpresa, considerando mesmo um certo sentido lúdico (...) , pois o espaço urbano para além de nos acolher e proteger, também nos deve estimular e surpreender, pela positiva naturalmente, e nesta perspetiva o adequado manejar da imagem urbana é essencial e nele a intervenção no espaço público é sempre determinante.
E, tal como referiu a colega Marilice Costi, num dos primeiros artigos do Infohabitar em Junho de 2005: “Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.”

Notas:
(1) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.
(2) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(3) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242
(4) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 482
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


segunda-feira, maio 27, 2013

441 - PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II: O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil - Infohabitar 441

Infohabitar, Ano IX, n.º 441

Tal como foi referido há uma semana, aqui na Infohabitar, editamos, em seguida, a 2.ª e última parte do artigo intitulado “PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil".
Relembra-se que este artigo foi apresentados no LNEC em Lisboa, em março de 2013, no 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (2.º CIHEL) e 1.º Congresso da Construção e da Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono (1.º CCRSEEL); e deseja-se que outros colegas e designadamente outros congressitas do 2.º CIHEL e 1.º CCRSEEL, possam disponibilizar os seus trabalhos para edição, aqui, na Infohabitar.
Salienta-se, ainda, que os artigos do Congresso foram devidamente submetidos à análise da respetiva Comissão Científica, havendo todo o interesse na sua máxima divulgação.

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

(pode arrastar simplesmente o texto da Infohabitar e ler a 1.ª parte do artigo)

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II:
O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil
Niara Clara Palma e Graziela Dal'Lago Hendges

Niara Clara Palma Dr. - Universidade de Santa Cruz do Sul ; Profª. no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional
Mail: niara.palma.br@gmail.com

Graziela Dal'Lago Hendges - Universidade de Santa Cruz do Sul; mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional
Mail: grazielahendges@yahoo.com.br

Sumário

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL I
1 INTRODUÇÃO
2 ABORDAGEM
3 CARACTERIZAÇÃO DOS MARCOS HISTÓRICOS UTILIZADOS COMO BASE DE PESQUISA
3.1 Caracterização do Projeto Original
3.2 Identificação Geral da Cidade de Itá Atualmente
3.3 Análise socioeconômica
3.4 Análise Configuracional: Análise de Redes Complexas
3.4.1 Teoria dos Grafos
3.4.2 Centralidade por Proximidade
3.4.3 Grau de Intermediação
3.4.4 Detecção de Centros
3.4.5 Vértices com Vizinhança Máxima

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL II
3.4.6 Cidade Original
3.4.7 Projeto Original
3.4.8 Cidade Atual
3.5 Análise Morfológica: Geometria Fractal
3.6 Densidade Populacional
4 COMENTÁRIOS FINAIS
5 REFERÊNCIAS

Esse trabalho é a segunda parte da pesquisa desenvolvida sobre a cidade de Itá Santa Catarina/ Brasil e traz, em sua primeira parte, indicadores socioeconômicos como a mudança de padrão salarial e de idade dos moradores, bem como a transformação radical da sua base socioeconômica ocorrida pela implantação da Hidroelétrica de Itá e deslocamento da cidade inteira para um sítio mais alto fora da área alagada onde ficava a cidade original.
Na primeira parte foi explanada a teoria envolvendo um dos indicadores espaciais a serem utilizados para a análise da estrutura urbana nos três marcos históricos avaliados, sendo esse a teoria de redes complexas que servirá de base para as avaliações nesta segunda parte do artigo.
A teoria sobre redes complexas será aplicada nos casos reais que, nesta segunda parte, trata mais objetivamente das questões espaciais relacionadas ao caso. Por isso os três marcos históricos terão seu comportamento da forma urbana serão também explicitados através da Geometria Fractal e Estatística Espacial. Por isso inicia já no item 3.4.6, com a aplicação de teoria de redes complexas diretamente na cidade original alagada em função da construção da Hidroelétrica de Itá.

RESUMO
O desenvolvimento da cidade de Itá constitui um processo inusitado pois 16 mil pessoas foram deslocadas de onde viviam e relocadas em outra área definida por um projeto urbano desenvolvido pela equipe da Hidroelétrica de Itá que teve sua construção iniciada em 1967 e gerou um lago artificial inundando a cidade original em 2000.
Essa pesquisa foca a antiga cidade Itá, o projeto implementado em 1989 e sua configuração urbana atual. Indicadores já existentes e testados em diversos casos reais serão utilizados para obter um quadro seguro dos dados levantados e permitirão comparar as três fases do sistema urbano elencadas para o estudo.
Além da questão da evolução da configuração espacial e forma urbana, também serão estudados quais os impactos socioeconômicos causados pela implementação da hidrelétrica sobre a população da cidade de Itá e Região, e o desenvolvimento urbano posterior.

Palavras Chave: dinâmica espacial urbana, relações socioeconômicas, desenvolvimento urbano.

ABSTRACT
The city's development of Itá is an unusual case because 16,000 people were displaced from where they lived and relocated in another area defined by an urban project developed by the team of Hydroelectric Itá which started construction in 1967 and generated an artificial lake flooding original city in 2000.
This research focuses on the ancient city Itá, the project implemented in 1989 and its current urban setting. Existing indicators and tested in many real cases will be used to obtain a secure and the data collected will compare the three phases of the urban system listed for the study.
Besides the issue of the evolution of urban form and spatial configuration, which will also be studied socioeconomic impacts caused by the implementation of hydropower on the population of the town of Itá and Region, and later urban development.

Keywords: urban spatial dynamics, socioeconomic relations, urban development.


3.4.6 Cidade Original


A cidade original cuja localização aparece na figura 1 desse trabalho, apresentava um tipo de tecido urbano tradicional, típico das cidades do interior de da Região Sul, com os principais usos distribuídos ao longo da Rua Principal que passava por toda a cidade apresentando um centro mais desenvolvido perto da Praça principal e da Igreja Católica, a principal da cidade que aparece abaixo identificada com o nome de torres em função da sua preservação como memória da cidade mesmo após a inundação.


Figura 4. (a) Cidade de Itá Original, antes de ser demolida e o local ter se tornado um lago. (b) Grafo definido a partir das ruas da cidade original. (c) Grafo gerado pelo software Paijek. Os pontos salientados nos dois grafos correspondem à mesma área central

O deslocamento do central se deu nesse caso, em função da topografia e das concessões de posse da área agrícola, base econômica da região até a construção e ocupação do novo Projeto.

A base original serviu de modelo para a criação do mapa axial da cidade que foi construído representando as esquinas da cidade com pontos e as linhas de ligação representam segmentos convexos de ruas. Como podemos ver, se trata de um traçado bastante simplificado constituído de 42 pontos.

Esse mapa axial permitiu um processo de descrição da rede que passou a ser representada de forma mais abstrata que permitiu a análise do sistema viário da cidade a partir do ponto de vista estritamente topológico e a análise dentro do contexto das redes complexas, como apresentado a seguir:

A área que concentra o maior número de atividades culmina na direção da Rua Principal porém se encontra deslocada em relação dos demais pontos. Mesmo assim a distribuição da “Centralidade por Proximidade” demonstra alto grau de conectividade da malha com pouca variação de seus valores como se pode observar pelo Gráfico e pelo Desvio Padrão dos valores de cada Vértice medidos nessa Propriedade Topológica. O Desvio Padrão indica nesse, e em todos os casos a seguir, o diferenciação espacial gerado em cada vértice por cada medida aplicada.



Figura 5. (a) Centralidade por Proximidade; (b) Grau de Intermediação; (c) Detecção de centros. Desvio Padrão: (d) Maiores Graus de Vizinhança. Desvio Padrão:.

Tabela .1. - Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,03989
Grau de Intermediação - 0,0908
Detecção de Centros - 9,2149
Maiores Graus de Vizinhança - 12,4363

Apesar da simplicidade da malha da Cidade original, algumas diferenciações aparecem quando levamos em conta o “Grau de Intermediação” de seus vértices. A conformação da malha com uma descontinuidade considerável em seu interior faz com que alguns vértices sejam de fundamental importância na ligação entre os vértices. Esses pontos aparecem a seguir, demonstrando descontinuidades e indicando a formação de clusters na malha Urbana da Cidade de Itá em sua conformação original.

Os pontos com valores mais altos correspondem exatamente à via principal, onde as principais atividades estavam localizadas, indicando uma distribuição mais próxima ao formato clássico de “espinha de peixe”, apesar de manter uma boa parte de sua malha com alto grau de conectividade como o Grafo com os vértices com maior grau de vizinhança mostrará.

Como já dito, a malha da cidade original apresentava alguns pontos de descontinuidade de seu tecido urbano que são salientados agora com a detecção de centros. Esses pontos aparecem claramente como internos à área mais conectada da cidade, ocupada pela maior parte da População Urbana na época.

O alto Desvio Padrão na distribuição dos valores de vetores centrais demonstra grande diferenciação espacial e tendência à formação de clusters, pois a rota alternativa iniciada pelo vetor 28 (apontado nos dois grafos anteriores) poderia vir a ser um início de formação de cluster conectando a área mais ocupada àquela compreendida pela população como o centro identificado principalmente, pela igreja e maior número de atividade comercial ali alocada.

O comportamento da malha viária da cidade original de Itá se mostra pouco trivial já que os vetores com maiores graus de vizinhança se encontram deslocados dos pontos principais e com maior alocação de atividades comerciais, menos na entrada da cidade apontada acima.

Outra peculiaridade da malha é a existências de “Patamares” com vários vetores de mesmo valor, distribuídos na rede Viária.

3.4.7 Projeto Original

No projeto Original foi definido um eixo viário que atravessa a cidade e organiza os fluxos mais intensos de veículos e pedestres. Ao redor da praça tem-se a prefeitura, a galeria comercial e de serviços e a igreja. A praça e o calçadão da avenida central são os espaços estruturadores do centro, onde se localizam os principais prédios públicos.



Figura 6. (a) Plano Original da Cidade: desenho de 1998; (b) Mapa Axial do Plano Original.

A intenção dos projetistas em formar uma cidade cuja estrutura tivesse relações identificáveis com a cidade original aparece já no desenho original e também no mapa axial produzido através dele. Além disso, o forte condicionante da Topografia da área potencializa as descontinuidades do tecido. A definição de um centro com a alocação das principais atividade coletivas e a necessidade de “acomodação” dessa nova cidade às áreas de preservação e à grande declividade do sítio forma, desde já, três áreas bem definida que aparecerão como clusters nas diversas análises apresentadas a seguir.



Figura 7. (a) Mapa Axial do Plano Original, (b) Passagem do Mapa Axial Base (Software Paijek) (d) Centr., por proximidade; (c) Grau de Intermediação; (a) Detecção de centros; (d) Maiores Graus de Vizinhança.

Tabela .2. - Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,022860
Grau de Intermediação - 0,094874
Detecção de Centros - 15,9861
Maiores Graus de Vizinhança - 28,3800

Nos grafos acima podem ser vistas descontinuidades importantes no tecido urbano que já induz, desde o projeto uma característica típica de redes complexas auto-organizadas: a formação de comunidades. Nesse caso os projetistas por determinantes naturais e culturais replicam peculiaridades do sistema urbano original.

A imagem abaixo e o baixo Desvio Padrão na Distribuição dos valores de Centralidade por Proximidade, demonstram um sistema altamente conectado. O Projeto tem a propriedade de limitar a diferenciação espacial trazendo acessibilidade semelhante para todo o sistema, mesmo com as dificuldades trazidas pelo

O Projeto, de forma semelhante à cidade original, possui a marcação de alguns vértices que têm sua importância ligada ao local de passagem entre os três núcleos de maior integração. Esses vértices compõem a principal via estrutural principal da cidade.

A existência de Clusters existentes no Projeto da Nova Itá se mostra mais claramente no processo de detecção de centros como na tabela 2. O Desvio Padrão na distribuição de valores dos vértices nessa propriedade demonstra a formação de clusters e é complementado com a observação dos Vértices de Maior Vizinhança que aparecem mais no interior ou limites externos das três principais aglomerações do Projeto. Apesar disso, a maior concentração de valores permanece na área “de entrada” da cidade, onde o projeto define, desde o início, o Centro Urbano.

3.4.8 Cidade Atual

Essa parte da análise procura apontar a continuidade e diferenciações das propriedades do tecido urbano do Projeto da Nova Itá e sua ocupação atual que podem ser apreendidas pela análise da configuração espacial que surge de forma espontânea, apesar de se tratar de uma cidade planejada.



Figura 8. (a) Imagem Satélite e Arruamento. Fonte: https://maps.google.com.br/ acesso 29/12/12; (b) Mapa Axial da Cidade de Itá atual gerado a partir da foto de satélite; (c) Passagem do Mapa Axial Base (Software Paijek)

Além do crescimento urbano, podemos notar a ocupação mais intensa na área próxima à entrada da cidade a partir da Rodovia SC 485. Essa é uma tendência natural em função da atratividade gerada pela estrada para saída e entrada de pessoas e mercadorias, marcando o acesso da cidade às outras cidades da região e dos turistas que visitam a cidade. Como já visto, essa é uma importante mudança na base socioeconômica de Itá que antes tinha foco apenas na agricultura de pequenas propriedades unifamiliares.

A população então ocupou essa área da mesma forma que na cidade original, pois a identificação com a ideia de todos serem vizinhos próximos aparece primeiramente nessa parte da cidade.

Apesar disso, além das três principais áreas existentes no Projeto Original, encontramos agora uma série de novas áreas de crescimento, quase todos lineares na configuração da malha viária. Assim como nas épocas analisadas anteriormente, a Centralidade por Proximidade se distribui de forma equilibrada em toda área da cidade que apresenta baixo Desvio Padrão nessa propriedade.


Figura 9. (a) Centralidade por proximidade; (b) Grau de Intermediação; (c) Detecção de centros; (d) Maiores Graus de Vizinhança.

Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,0127
Grau de Intermediação - 0,080
Detecção de Centros - 8,955
Maiores Graus de Vizinhança - 12,602

Já o Grau de Intermediação, marca claramente as vias estruturais da cidade. Pode-se verificar então que o mesmo crescimento linear, insinuado no projeto da nova cidade, teve um fortalecimento e continua presente até os dias de hoje ainda demarcando o centro original.

A cidade atualmente apresenta uma forte tendência de formação de clusters e “linhas” que se encaminham em diferentes direções como mostra o Grafo de Detecção de Centros. Também podemos ver que, quando levamos em conta somente a configuração espacial, sem a localização dos principais equipamentos como referência de valor dos vértices, a área inicialmente destinada a abrigar o centro urbano perde força em função do surgimento de novas centralidades.

A topografia tem forte influência nessa propriedade, pois define uma “acomodação ao sítio” causando descontinuidades na malha viária direcionando ainda mais a formação de comunidades que se ligam a um eixo estruturador geral.

Um importante comportamento emergente do sistema urbano atual é o surgimento de áreas de Maior Grau de Vizinhança em áreas diferenciadas do Projeto Original. As áreas que aparecem com essa propriedade no plano original ficavam próximas à entrada da cidade, no início da Via Estruturadora.

Essa área permanece com forte concentração de vértices com maiores valores de Grau de Vizinhança, mas, em conjunto com essa manutenção da estrutura, atualmente vemos vértices com maiores graus de vizinhança nas áreas internas dos clusters formados a partir de prévias e novas ocupações.

3.5 Análise Morfológica: Geometria Fractal

Benoit Mandelbrot introduziu o termo Fractal em 1975 para denominar uma classe especial de curvas definidas recursivamente que produziam imagens reais e surreais. Uma estrutura geométrica ou física tendo uma forma irregular ou fragmentada em todas as escalas de medição.

A geometria fractal estuda subconjuntos complexos. Na geometria de fractais determinísticos, os objetos estudados são subconjuntos gerados por transformações geométricas simples do próprio objeto nele mesmo, ou seja, o objeto é composto por partes reduzidas dele próprio (Mandelbrot 1977).

Atualmente a Geometria Fractal, e em especial a Dimensão Fractal, vem sendo utilizada em diversas áreas de estudo de sistemas caóticos como: padrão de formações de nuvens; caracterização de objetos; análise e reconhecimento de padrões em imagens; análise de texturas e medição de comprimento de curvas.

Para os fractais, ao contrário do que ocorre com os objetos euclidianos “perfeitos”, cada objeto tem sua dimensão própria. As curvas irregulares têm dimensão que varia entre um e dois, de modo que uma superfície irregular tem dimensão entre dois e três.

Das características que definem um fractal, a mais importante é a “Dimensão Fractal”. Ao contrario do que é observado na Geometria Euclidiana, onde o valor da dimensão representa a dimensionalidade do espaço em que dado objeto está inserido, a dimensão fractal representa seu nível de irregularidade.

Para a aplicação da dimensão fractal nesse trabalho foi utilizado o software Fractalyse desenvolvido pelo grupo de pesquisa "City, mobility, territory" no centro de pesquisas ThéMA (Théoriser et Modéliser pour Aménager - Université de Bourgogne) cujo coordenador de pesquisa de Pierre Frankhauser e Cécile Tannier. Nos gráficos abaixo o eixo X dos gráficos representam o tamanho do lado da janela Ɛ = (2i + 1). O eixo Y representa a média de pontos contados por janela e o parâmetro principal é o tamanho do lado da janela Ɛ.

A análise da morfologia urbana e de suas relações com o processo de distribuição das estruturas espaciais realizadas pela análise fractal pode ser empregada como subsídio para estudo de ocupações intra-urbanas, como se vê no trabalho de Frankhauser (2004). Aqui será feita a comparação das formas da Cidade de Itá nas três fases elencadas:

A dimensão de um fractal indica o espaço ocupado por ele que está relacionado com o seu grau de aspereza, irregularidade (igual em diferentes escalas) ou fragmentação. Daí o fato de os fractais possuírem dimensão fracionária e não inteira, por não serem figuras Euclidianas perfeitas.



Figura 10. Borda Externa do da Cidade Original (a), do Projeto Inicial e (c) atualmente - 2013 (d) Dimensão Fractal Cidade de Itá

Os valores de Dimensão Fractal observados em Itá/SC podem ser ligados ao contexto histórico de organização da cidade a partir do Projeto Original. As análises são formuladas na escala da cidade como um todo comparando as estruturas planejadas e os padrões emergentes de urbanização menos controlados ocorridos após a Implantação do plano e alocação de moradores.

A ampliação do valor de Dimensão Fractal da Cidade entre a implantação do plano até hoje demonstra um comportamento emergente onde as ampliações ocorrem, em sua maioria, sob a forma de novas “ilhas” com grandes vazios internos.

Podemos observar que a forma urbana de Itá Atual, avaliada pelo processo de correlação, teve maiores irregularidades de sua Dimensão Fractal, demonstrando a dispersão do tecido urbano que, como visto nas análises acima, forma “ilhas de ocupação” ou clusters sobre a topografia.

Nessa avaliação da evolução Urbana de Itá podemos ver que o projeto original já apresentava a tendência à dispersão por procurar uma melhor adaptação à topografia do novo sítio Urbano. A partir disso a evolução de sua forma urbana acaba ocorrendo de forma a reforçar essas características trazendo uma forma mais complexa e com maior “rugosidade” que tem seu reflexo na ampliação significativa do valor de Dimensão Fractal encontrado atualmente.

3.6 Densidade Populacional

O estudo população de uma cidade pode trazer importantes informações sobre um sistema urbano. No caso de Itá, suas propriedades estruturais como dependência espacial, densidades e formação de grupos serão estudados permitindo abordar questões sobre a distribuição da densidade populacional.

Sob esse prisma, a localização da População vem agora complementar os estudos socioeconômicos, configuracionais e de forma, produtos da evolução contínua da cidade após a implantação do plano original.

A primeira consideração a ser feita é que os setores censitários da cidade correspondem em grande parte aos clusters definidos nos grafos de Detecção de Centros e Grau de Vizinhança. Além disso, a via estrutural principal que aparece com grande Grau de Intermediação define a divisão dos setores que representam as propriedades da rede viária da cidade estudadas anteriormente.



Figura 11. (a) Quantidade de domicílios por setor censitário da cidade de Itá (censo IBGE 2010); (b) Teste LISA e Formação de Clusters Populacionais. (c) Resultado do programa de Estatística Espacial OpenGeoDa 0.9.8.14 (2009) para o ano de 2013 na cidade de Itá.

O principal objetivo da estatística espacial é caracterizar padrões espaciais entre os dados analisados. As variáveis espaciais dificultam a utilização de métodos estatísticos simples pela existência de fenômenos como dependência e heterogeneidade espacial.

De uma forma geral o I de Moran presta-se a um teste cuja hipótese nula é de independência espacial; neste caso, seu valor seria zero. Valores positivos (entre 0 e +1) indicam correlação direta e negativos (entre 0 e -1), correlação inversa.

Dentro dessa premissa, foi analisada a propriedade de dependência espacial e análise de agrupamento utilizando-se o programa de Estatística Espacial OpenGeoDa 0.9.8.14 (2009) tendo como variável o número de domicílios em cada setor censitário que foram transpostos para a linguagem raster para permitir o processamento pelo software.

Foi realizado o teste de permutação aleatória do nível de significância de I, sob a hipótese nula de ausência de auto correlação espacial entre as localizações de indústrias e o resultado foi 0,1056, chegando quase ao valor nulo, igual à zero.

O surgimento de áreas loteadas com maiores densidades indica crescimento em locais novos como podemos ver nos grupos mais significativos revelados pelo indicador LISA (local indicator of spatial analysis) que indica a existência de clusters espaciais de valores similares ao redor de cada observação ou, no caso aqui apresentado, célula representando uma parcela do solo urbanizado da cidade de Itá. Os grupos mais significativos contemplam tanto as áreas mais densas (grupo maior, vermelho), quanto quase desabitadas (de caráter linear, azuis).

Como dito anteriormente, novas atividades deram aos jovens a oportunidade de alcançar uma vaga de emprego nas atividades que hoje consolidam o cotidiano de Itá, como a Indústria e o Turismo. Essa informação complementa análise da formação de Detecção de Novos Centros a diferenciação das características configuracionais da cidade atual em relação ao projeto inicial, reforçando os clusters e novas direções de crescimento como vemos nos grupos mais significativos da população da cidade.

4. COMENTÁRIOS FINAIS

Um processo urbano dinâmico pode ser descrito como o crescimento do número de firmas e residências localizadas em uma cidade. Em qualquer período as firmas localizadas em uma cidade são “seguidas” por novas residências em resposta ao aumento de demanda por trabalhadores.

O território, nesse caso, tem efeito sobre as diferentes redes onde as atividades urbanas participam e também é afetado por esse processo. Esse conceito é apropriado nesta pesquisa para que seja possível a construção de uma nova representação do processo de transformação espacial e de uso do solo urbano levando-se em conta as relações espaciais, estruturais, demográficas e socioeconômicas.

O perfil de uma cidade, ainda mais no caso de Itá, onde essa transformação se deu de forma tão contundente, dificilmente pode ser avaliado com apenas um método de estudo. A avaliação nesse caso é construída por um conjunto de instrumentos de análises onde cada uma pratica diferentes abordagens sobre o objeto a ser medido e testado. Esse processo leva a uma compreensão mais completa sobre as variáveis que estão sendo avaliadas já que procura explicitar as propriedades urbanas através de diferentes conteúdos.

A organização de um sistema urbano evolui de acordo com as necessidades da sociedade. Essas modificações são identificadas em suas características físicas como intensidade de ocupação urbana e desenvolvimento de seu tecido. Cada decisão de alocação de atividades é tomada considerando a estrutura urbana existente que limita a capacidade de decisão de outras atividades pelo uso do espaço ou das relações estabelecidas assumindo um comportamento sistêmico.

Em um Sistema Urbano ocorre uma relação funcional entre os agentes gerando propriedades coletivas complexas. Dessa forma foram aplicadas técnicas de avaliação diferenciadas que pudessem trazer à tona elementos considerados fundamentais para identificação das propriedades urbanas como sua organização e formação de estruturas.

Através das técnicas de análise aqui utilizadas, foram captadas características como, por exemplo, formação de comunidades, geração de centralidades relacionadas à proximidade, grau de intermediação e detecção de centros. Identificou-se a fragmentação das formas nas três fases analisadas, em função disso os valores de Geometria Fractal acabaram crescendo à medida que os sistemas foram de desenvolvendo e as interações internas e externas (crescimento econômico) se tornaram mais contundentes. Por outro lado, em função da necessidade de adaptação ao sítio o crescimento trouxe consigo a reduzida dependência espacial que aparece também no baixo índice de Moran, quando aplicada estatística espacial nos dados primários do Censo IBGE 2010.

As análises aqui utilizadas se mostraram complementares trazendo à tona características variadas como a organização interna, dependência espacial, comportamento dos sistemas, estrutura espacial, agrupamento e forma, abrindo especulações sobre futuras aplicações em diferentes estudos, principalmente aqueles que considerarem a estrutura urbana como parte de um processo evolutivo com características emergentes ao longo do tempo.

5. REFERÊNCIAS
Livros
ALONSO, W. (1961). “Location and Land Use”. Cambridge, MA: Harvard University Press.
BATTY, M. (2003). “AGENT-Based Pedestrian Modelling in Advanced Spatial Analysis, The CASA Book of GIS.” Longley, P. And Batty, M. Eds. ESRI Press, Redlands, USA.
NOOY W., MRVAR A., BATAGELJ V(2005). “Exploratory Social Network Analysis with Pajek”, Cambridge University Press; http://vlado.fmf.uni-lj.si/pub/networks/book/UK.
KRUGMAN, P. (1997). “Development, geography, and economic theory”. Cambridge, Massachussets. MIT Press, USA.

Artigos
FRANKHAUSER P. (1997). “Fractal Analysis of urban structures”, in: E. Holm, ed. Modelling Space and Networks, Progress in Theoretical and Quantitative Geometry, Gerum Kulturgeografi, 145-181
FRANKHAUSER P. (1998). “The Fractal Approach : A new tool for the spatial analysis of urban agglomerations”. In Population : An english selection, special issue New Methodological Approaches in the Social Sciences, p. 205-240.
KRAFTA, R. (1994). “Modelling intraurban configurational development”. Environment and Planning B: Planning and Design, 21, pp. 67-82.
PORTUGALI, J., HAKEN, H. (1995). “A Synergetic Approach to the Self-Organization of Cities and Settlements” (Environment and Planning B, volume 22, pages 35-46).

Relatórios
CNEC (consórcio nacional de engenheiros consultores); ELETROSUL. (1980) “Usina hidrelétrica Itá: estudo de locação do eixo. Análise das repercussões sócio-econômicas.” Florianópolis: Eletrosul,.

Sites
IBGE. “Censo demográfico 2010”. Disponível em:
http://www.sidra.ibge.gov.br/cd/defaultcd2010.asp?o=4&i=P Acesso em: 12/12/2012
Prefeitura Municipal de Itá: http://www.Itá.sc.gov.br. Acesso em 05/12/2012
Google Maps: https://maps.google.com.br. Acesso 29/12/12

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores, salientando-se, ainda, que os conteúdos das intervenções e dos artigos editados na Infohabitar são da responsabilidade dos respetivos autores.


INFOHABITAR Ano IX, nº441
PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II: O caso de Itá - Santa Catarina – Brasil
Lisboa, LNEC, Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição www de José Baptista Coelho: Encarnação - Olivais Norte