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domingo, abril 27, 2014

482 - Espaço público e identidade urbana - Infohabitar 482

Infohabitar, Ano X, n.º 482

A Infohabitar ultrapassou as 500.000 consultas (page-views)


Nota introdutória: este artigo corresponde à contribuição do autor para uma das intervenções do LNEC, realizadas no âmbito da recente "Semana da Reabilitação Urbana Lisboa 2014", na tarde de 24 de março de 2014, no MUDE - Museu do Design e da Moda - em Lisboa.

Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

 António Baptista Coelho


Construir no construído

Requalificamos o espaço público para que este seja mais e melhor habitado e pensamos num re-habitar da cidade no sentido de a podermos ter mais viva e estimulante.
Há que privilegiar “o construir no construído”, na excelente e ampla perspectiva defendida por Francisco de Gracia (1), que se baseia numa reconstrução da coesão urbana marcada pela escala e uso humanos, pelo desenvolvimento de adequados estímulos visuais e funcionais e por uma cuidadosa e vitalizada densificação; estando todos estes aspetos integrados num objetivo de verdadeira reabilitação da paisagem urbana local, que há que preservar e reconstruir, designadamente, nos seus aspetos orgânicos e ligados ao respetivo caráter do lugar.
Isto obriga a um projecto arquitectonicamente bem fundamentado em cada lugar, e bem qualificado, numa metodologia que foi já praticada, entre nós, em ações de referência que é essencial divulgar e visitar/viver local e demoradamente.

Fig. 01

Sobre a cidade do pormenor e do vagar

Nesta matéria o arqº Yves Lyon, faz uma síntese, quando refere que “depois do período dos grandes projectos há que assumir a arquitectura como abertura ao mundo ... numa clara abertura à vida, bem distinta de clausuras disciplinares”; defendendo “uma nova actividade de arquitecto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objectos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades.”
Uma recriação marcada pela escala e uso humanos, seja na requalificação do próprio espaço exterior público, seja na relação que nele se deverá desenvolver com os vãos dos edifícios contíguos, refazendo-se um exterior público religado à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim (2), e um exterior público renovado, libertado da opressão do veículo motorizado, e que, assim sendo, pode e deve ser estratégica e agradavelmente pontuado por verdadeiros recantos domésticos, como por exemplo acontece em centros históricos e em novos bairros bem desenhados como, por exemplo, Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.
Assim se melhora a imagem urbana para promover o uso intenso do exterior, condição que proporciona melhor fruição dessa imagem urbana, num círculo virtuoso de melhor imagem e mais e melhor uso, e numa atenção às suas sequências, pormenores e recantos de estar, que, por sua vez é dinamizadora de melhores relações de identificação com cada local e de melhores condições de segurança pública no seu uso.
Mas evidentemente que nas ações de requalificação o espaço público não podemos desenvolver uma segregação simplista do automóvel privado, pois como escreveu Spiro Kostof (3), “o mais importante aspecto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio.
E este caminho, bem marcado numa importante exposição aqui neste museu ... e que parece estar a ser ... seguido pela CML ... é essencial numa urgente recuperação da cidade para o cidadão, passo essencial de uma requalificação do espaço público, que o reabilite como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens.
Escreveu António Pinto Ribeiro (4), sobre esta matéria, que “seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade”; .... acabei de citar.

Fig. 02

Cidade passeada, cidade habitada

E o peão precisa de verdadeiras cenas habitadas, precisa de emoção e de conteúdos, não apenas funcionais e o peão gosta de sentir que passeia em zonas vivas e nestas matérias provavelmente o habitar do dia-a-dia ganhará com algumas técnicas ligadas ao turismo, enquanto o turismo pode ganhar muito com alguma da qualidade espontânea e com o sentir e participar (d)a vida de comunidades residenciais positivamente caraterizadas e activas, e exemplo disto encontra-se já em vários “centros históricos” vivos como o de Guimarães.
Precisamos de passear fisicamente e mentalmente, viajando, pausada e agradavelmente, por uma cidade desaparecida, mas que esteja viva, é esse o objectivo que devemos ter em mente, e para isso é fundamental associar, sistematicamente, a resolução dos problemas de carências habitacionais aos da falta de qualidade e vitalidade urbanas,
Afinal não basta ordenar o espaço para se criar um ambiente interessante e motivador; o habitante também necessita de emoção na relação afectiva com o espaço urbano e o uso a pé do espaço público é ação de grande proximidade e, portanto, muito diretamente estimulada pela qualidade do desenho urbano.

Vizinhanças amigáveis, vizinhanças amáveis

Importa salientar que, hoje em dia, não parece haver ainda um conhecimento devidamente sedimentado, publicitado e, essencialmente, consensualizado (no que for possível) sobre a qualidade urbana que é possível ter, por exemplo, numa praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável, apropriável, digna a atraente.
Os conhecimentos e as preocupações continuam a estar, aqui, dirigidos para os aspectos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar a medo uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens;
E não é possível deixar de referir que este caminho de projeto deve ser compatibilizado com a disponibilização de novas tipologias residenciais adequadas para pessoas sós e pequenas famílias, numa ação que contribui, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.

Cultura e urbanidade

Neste processo de reflexão e de projeto importa aplicar ferramentas facilitadoras das intervenções e nesta matéria devemos ter presente que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam.

Fig. 03

Aliança entre intervenções no exterior urbano e nos edifícios

Em tudo isto importa salientar que grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes, está num tecido urbano com continuidades afirmadas, que acolham bem e atraentemente uma diferenciação formal e funcional equilibrada, em continuidades urbanísticas não especializadas e que levem a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona recantos “domésticos” em zonas citadinas mais animadas.
E esta grande unidade dos espaços urbanos e residenciais constitui-se num fundamental ligante de apropriação, sendo que nesta unidade formal e funcional fica evidente o protagonismo do espaço público.
Um protagonismo que é essencial veículo de diversas qualidades da urbanidade, entre as quais é hoje em dia bem oportuno evidenciar a criação de espaços com usos mistos; sejam exteriores, sejam edifícios, sejam unidades com partes interiores e exteriores.

Do estímulo e da surpresa na cidade

Mas todo este caminho não é possível sem intervenções marcadas pela qualidade arquitectónica e que tenham em devida conta adequadas condições estímulo, surpresa, considerando mesmo um certo sentido lúdico (...) , pois o espaço urbano para além de nos acolher e proteger, também nos deve estimular e surpreender, pela positiva naturalmente, e nesta perspetiva o adequado manejar da imagem urbana é essencial e nele a intervenção no espaço público é sempre determinante.
E, tal como referiu a colega Marilice Costi, num dos primeiros artigos do Infohabitar em Junho de 2005: “Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.”

Notas:
(1) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.
(2) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(3) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242
(4) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 482
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, março 30, 2014

478 - Requalificação da cidade: imagem urbana e habitação - Infohabitar 478


INFOHABITAR Ano X, nº 478

Requalificação da cidade: imagem urbana e habitação

António Baptista Coelho

Nota introdutória: este artigo corresponde a uma das intervenções do autor no âmbito da recente Semana da Reabilitação Urbana Lisboa 2014, e designadamente nos Workshops Reabilitação e Conservação do Espaço Construído, que tiveram lugar no Cntro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil - LNEC - em 26 de março de 2014. 


Rehabitar e reimaginar a cidade (cidade re-habitada e requalificada)

As intervenções na cidade central e na cidade periférica têm de ser, cada vez mais, de pequena escala, bem pormenorizadas e qualificadas no seu desenho de arquitectura e muito sensíveis aos respectivos habitantes e aos próprios sítios que são habitados, preenchendo-se e reconstruindo-se continuidades urbanas, densificando-se estrategicamente para melhor vitalizar, mas também abrindo-se espaço público quando tal é aconselhável, e resgatando-se e recuperando-se uma atraente e motivadora imagem urbana, que passa por uma bem fundamentada escolha tipológica de conjuntos de edifícios e espaços públicos.
De certo modo é urgente refazer cidade, re-habitando-a e reimaginando as suas imagens urbanas.

Fig. 01: os variados, estimulantes e sempre excelentes ambientes urbanos e residenciais de Alvalade – urbanismo por Faria da Costa

Passear numa cidade de proximidades e vizinhanças

Fazer cidade ou refazer cidade tem tudo a ver com a “tentação de andar só mais cem metros, e depois mais outros cem”, devido ao encanto inesperado de edifícios históricos, mas também de simples lojas em esquinas e pracetas acolhedoras; escreveu-o Edmund White sobre Paris (1), mas podia tê-lo feito sobre qualquer cidade viva e à escala do homem, pois uma cidade deve proporcionar um complemento funcional mas também um verdadeiro suplemento de alma ao habitante.
A cidade deve estimular o passeio, a pé, pausado e agradável por sequências urbanas amigáveis, vivas, estimulantes e culturalmente enriquecedoras, e para tal há que saber fazer ou, frequentemente, refazer tais qualidades urbanas; e evidentemente tais aspectos dependem de uma verdadeira qualidade arquitectónica e urbanística, uma qualidade que vá além do desenho e que toque as pessoas, o que não é fácil, mas é hoje em dia essencial, neste século das cidades.
E é importante sublinhar que esta ampla e fundamental perspectiva de qualidade arquitectónica urbana e residencial é frequentemente encontrada em muitos dos nossos bairros históricos e patrimoniais.
Na prática necessitamos de uma cidade, de bairros, de vizinhanças e de ruas mais passeáveis, mais amigáveis, mais habitáveis; e tudo isto tem a ver com a possibilidade que o habitante a pé tenha de viver intensa e prolongadamente esses espaços urbanos, usando e gozando a cidade em paz e com tempo, a pé, num quadro de base que promove, entre outros aspetos, uma fundamental calma no viver, a relação com a natureza e ocasiões e cenários mais conviviais e mais positivos em termos de segurança pública.
E esta libertadora opção pela cidade do vagar, evidentemente, não é inimiga, mas sim aliada de uma adequada estrutura de transportes públicos e pólos de estacionamento, encontra bons modelos na cidade histórica e planeada e liga-se a uma fundamental cidade diferenciada e de usos mistos, pontuada por bairros e pequenas vizinhanças que apetece habitar e que, para além dessse prazer de habitar são verdadeiras fontes de vitalidade urbana.
(fig. 02) Um exterior de uso público para todos e bem vivo, que estimule a permanência e o vagar no seu uso e bem adequado aos habitantes mais sensíveis às condições de conforto – adequada e sóbria reabilitação urbana numa rua do Porto.

Cidade do pormenor e da boa imagem urbana

Por variadas razões, a cidade tem de se reconciliar com a escala humana e com os usos pedonais, seja porque precisamos de reduzir as emissões de CO2, seja porque é urgente reconquistarmos o uso individual e convivial de ruas e pracetas. Não por qualquer razão nostálgica e eventualmente turística de se recuperar e eventualmente reinterpretar um espaço urbano marcado pelo arranjo espacial das portas de entrada e dos outros vãos e dos estimulantes espaços de transição entre interior e exterior, é por ser desejável que a cidade volte “a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade” – escreveu-o António Pinto Ribeiro. (2)
Isto é possível em cidades e em espaços urbanos que associem nos mesmos espaços de proximidade diversas atividades compatíveis, que se ativem mutuamente – habitação, comércio, serviços e lazer – e cujos espaços urbanos se caraterizem por imagens estimulantes e que sirvam uma cidade do vagar e do pormenor, para além de cumprirem, naturalmente, os respetivos aspetos de funcionalidade e ecessibilidade.
Esta é uma das ideias que se quer fazer passar neste texto: há critérios básicos de funcionalidade, acessibilidade e segurança que têm de ser cumpridos nas intervenções de construção e reabilitação de espaços públicos urbanos, mas a qualidade de uso global destes espaços depende não só destes aspetos mas de todo um outro conjunto de matérias de projeto, ligadas à humanização e qualificação dos respetivos usos e imagens urbanas, que são verdadeiramente vitais para o êxito destas intervenções.
E chegamos assim ao que julgo ser o atual interesse estratégico no desenvolvimento de uma boa imagem urbana, matéria que passa pela boa prática do desenho urbano.
(Fig. 03) Uma boa intervenção numa vizinhança residencial bem viva no Centro Histórico de Tavira.

Imagem urbana, paisagem urbana

No entanto, e tal como escreveu Dina De Paoli, “o desenho urbano é pouco valorizado no cotidiano das pessoas, que apenas o valorizam quando percebem a sua ausência, uma vez que já tenham vivenciado espaços de qualidade. [e] Até mesmo os profissionais responsáveis por projetar e construir espaços, por vezes, o ignoram, sem reconhecer que o desenho urbano, além de agregar valor financeiro, agrega sustentabilidade e valores sociais, culturais e ambientais.” (3)
As matérias associadas ao desenho urbanos são múltiplas - espaciais, temporais, sociais, funcionais, estéticas e perceptivas – e, temos de o reconhecer, são de difícil aplicação, porque não é possível reduzi-las a regras e a regulamentos, e isso é difícil pois obriga a que as intervenções sejam fortemente baseadas em termos culturais e sociais, para além de dependerem de uma sensibilidade projetual que não está ao alcance de todos e que se melhora claramente com uma prática continuada de intervenções.
E voltamos a a citar Dina De Paoli, quando esta arquiteta salienta que Gordon Cullen (1961) não tinha a intenção de ditar regras para as cidades, mas sim manipulá-la dentro de certo grau de tolerância e, para isso, buscou novos valores e novos padrões. Propôs três maneiras de trazer vida ao ambiente construído. A primeira é o movimento através dos espaços (visão serial); a segunda, a percepção do lugar; e por fim, a terceira diz respeito à morfologia e ao conteúdo da cidade”, desenvolvendo-se “a constante atenção do ser humano sobre sua posição no espaço, seu sentimento de pertencimento ao lugar e a sua identidade, junto com a percepção de outros lugares.” (4)
E a mesma autora salienta que assim se evidencia “o objetivo de manipular, jogar com os elementos da cidade para que exerçam sobre as pessoas um impacto de ordem emocional, uma vez que o cérebro humano reage ao contraste, à diferença entre coisas, e, ao ser estimulado por duas imagens, ele percebe a existência desse contraste. Assim, a cidade torna-se visível num sentido mais profundo, animada de vida pelo vigor e drama dos seus contrastes, quando isso não acontece, ela passa despercebida, é uma cidade amorfa. Ao se desenhar a cidade segundo a ótica da pessoa que se desloca (pedestre ou de carro), a cidade passará a ser uma experiência eminentemente plástica.” (5)
Afinal, como escreveu Kevin Lynch, “a paisagem urbana é, para além de outras coisas, algo para ser apreciado, lembrando e contemplado” (LYNCH, 1960, p.09); e, podemos juntar: algo para nos emocionar, que dinamize a identidade e a apropriação em relação aos espaços urbanos que mais usamos ou que visitamos.
Naturalmente que todo este leque de potencialidades da imagem urbana, em termos da sua capacidade de moldar a paisagem da cidade tem aplicações diretas e muito efetivas nas intervenções de reabilitação de velhos espaços públicos mal-usados e arruinados e de outros espaços urbanos recentes mas que foram concebidos, praticamente, na ignorância desta disciplina urbanística.
(fig. 04): A excelente intervenção de reabilitação urbana e de espaços públicos, integrada no Programa POLIS, no centro de Castelo Branco.

Melhorar a urbanidade de espaços ditos “urbanos”

Atuar de tal forma correponde ao desenvolvimento de uma reabilitação urbana com influência direta na qualificação da cidade, designadamente, se uma tal intervenção em termos de imagem urbana estiver aliada a ações sustentadas de re-habitação e revitalização das zonas intervencionadas.
Visando-se uma cidade mais estimulante e habitada, uma cidade integrada por vizinhanças cuja imagem urbana seja requalificada ao serviço de uma melhor habitabilidade local e relacional, em espaços públicos que sejam, naturalmente, mais: defensáveis; conviviais e privatizados; eficazmente geridos; apropriáveis e amistosos.
Fig. 05: Um bom exemplo de introdução de um moderno pequeno edifício de habitação de interesse social de promoção municipal num velho bairro de Lisboa, junto ao Largo do Conde Barão, edifício com projeto de Eugénio Castro caldas e Nuno Távora (2005).

Cidade e Habitação Apoiadas

Um aspeto que importa sublinhar é que recuperar a cidade para o cidadão a pé é assegurar boa parte do re-habitar da cidade; a outra parte refere-se à re-introdução estratégica, ao longo dessas desejáveis continuidades de espaços urbanos, de unidades residenciais diversificadas e de pequenos equipamentos conviviais.
De certa forma é uma opção por viver em habitação apoiada pela cidade e em habitação que apoia a cidade, e esta é, também e complementarmente, uma forma de desmistificar a “habitação social que é (a mais) apoiada”, abrindo lugar para a sua total integração com a restante habitação e com a cidade.
Nesta perspectiva e para além dos grupos sociais economicamente desfavorecidos há que pensar nos idosos, favorecendo-lhes a continuidade da boa vivência da sua cidade, mas também em novos habitantes especialmente disponíveis para participar na vitalização urbana local, como é o caso de jovens adultos e pequenos agregados familiares; e há que pensar seja nos apoios funcionais destas pessoas em termos de acessibilidades e equipamentos, seja no estímulo da sua vivência direta do exterior contíguo às suas habitações.
E as escolhas tipológicas dos novos e renovados edifícios pode privilegiar a mistura cuidadosa de vários tipos de soluções de acessibilidade, de fogos, de conjuntos de fogos e mesmo de pequenos quarteirões, e sempre numa adequada e dupla perspectiva de espaços edificados e exteriores.
Pois, afinal, será, em boa parte, nos espaços de transição entre habitação e cidade que se irão encontrar soluções estimulantes marcadas pela escala humana e que atuam, duplamente, seja no edificado que fica mais próximo e caraterizado pela vida da cidade, seja nos espaços públicos de proximidade, que se tornam mais sensíveis a um conteúdo que para além de urbano é residencial.
E aqui encontramos outro nível de intervenção da reabilitação urbana, que integra a intervenção nos espaços exteriores públicos com a melhoria, mais ou menos radical, dos respetivos edifícios envolventes, em ações integradas que maximizem as vantagens do mundo doméstico e urbano, do interior e exterior, estendendo o sentido de habitar para além da porta de entrada de cada habitação, mas garantindo, no exterior, segurança, conforto, legibilidade e identidade; afinal caraterísticas muito associadas ao interior e que assim se prolongam pelo exterior.
(Fig. 06) A recente e excelente intervenção de pedonalização e reabilitação dos espaços públicos urbanos promovida pela Câmara Municipal de Lisboa no eixo da Av.ª Duque de Ávila, em Lisboa.

Breves conclusões

Conclui-se então esta reflexão com duas ideias básicas:
As ações de reabilitação dos espaços citadinos devem privilegiar boas soluções de imagem urbana, marcadas por continuidades afirmadas, atraentemente diferenciadas, funcionalmente mistas, que levem a cidade até à porta de muitas casas; e nestas continuidades urbanas há que integrar uma estimulante diversidade de oferta habitacional e de equipamentos conviviais.

Notas:
(1) Edmund White – “O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris. São Paulo, Companhia das Letras, Colecção “O Escritor e a Cidade”, 2001. O excerto foi retirado do artigo de Andréia Azevedo Soares, intitulado “O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris – Passear por uma Paris menos óbvia”, saído no suplemento “Fugas” do jornal “ Público” de 2002/09/28. Este mesmo livro foi, entretanto, editado entre nós pela editora ASA na Colecção “O Escritor e a Cidade.”
(2) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.
(3) Dina De Paoli, “O Valor do desenho urbano na construção de bairros habitacionais e comunidades”, Tese de Doutoramento em Arquitetura, apresentada e discutida/aprovada na Universidade Estadual de Campinas- Unicamp, Campinas, SP, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, 2014, pp. 22 e 23.
(4) Ibid. p. 27.
 (5) Ibid. p. 28.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores..


(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 478

Requalificação da cidade: imagem urbana e habitação

Um artigo de António Baptista Coelho


Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

467 - Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação - Infohabitar 467

Infohabitar, Ano X, n.º 467


Reforçando os votos de um Feliz Novo Ano de 2014, é com muito gosto que iniciamos o 10.º ano de edições semanais da Infohabitar com um artigo de um novo colaborador da nossa revista, o economista e sociólogo catalão Jordi Estivill Pascual; o artigo intitula-se "Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação", e merece toda a nossa atenção, pelo grande interesse de que se reveste considerando, entre outras importantes matérias associadas a intervenções urbanas em Lisboa, a apresentação que é feita, no artigo, de algumas das mais importantes facetas sociais da rebilitação urbana desenvolvida em Barcelona, numa altura em que está bem evidente a urgência e a sensibilidade das iniciativas de reabilitação social e física nos nossos centros históricos e mesmo das nossas periferias urbanas.

Agradecemos ao colega Jordi Pascual este excelente artigo, que esperamos seja o primeiro de uma presença periódica na Infohabitar, e referimos que que anexam no final do texto algumas breves notas biográficas relativas ao extenso e rico currículo do autor.

E deseja-se uma boa leitura,  

António Baptista Coelho
editor da Infohabitar

Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação


Jordi Estivill Pascual

“Observando agora mais cuidadosamente a
Península Iberica, não já em fotografia mas numa
análise estatística diacrónica, e tendo o cuidado
de ignorar a fronteira política entre os dois países
peninsulares, verifica-se um movimento secular
da fixação das populações na periferia”

J.P. Martins Barata “Pensar Lisboa”. 1989.

Estímulos iniciais

El exordio de Martins Barata sacado de su estimulante libro Pensar Lisboa invita a reflexionar en términos de una periferia peninsular en la que los movimientos migratorios hacia los litorales marítimos han constituido concentraciones humanas alrededor de grandes ciudades. Según este cosmopolita arquitecto Lisboeta, este proceso plantea el desafío de unas ciudades que deben enfrentarse a unas concentraciones metropolitanas que como él afirma son “umas maquinas de fazer a vida cara” (1).

Si se me permite la confesión, estimulado por mi estimación por las dos ciudades, Barcelona y Lisboa, animado por las anteriores reflexiones, redacto estas notas que analizan sobre algunos puentes que se pueden tender entre dos ciudades de la periferia ibérica, alrededor del concepto de gentrificación y de sus aplicaciones. No se trata de un examen profundo, ni tan siquiera de una comparación sistemática, sino de algunos apuntes interrogativos que pueden sugerir elementos comunes y diferenciales entre estas dos ciudades metropolitanas, portuarias y capitalinas.

Si Martins tiene razón, habría que situar los modelos de gentrificación en una doble perspectiva. La primera en una tendencia histórica por la que los movimientos poblacionales van del centro a la periferia, del asentamiento poblacional ligado a la agricultura hacia los núcleos industriales y de servicios, del mundo rural al mundo urbano. Esta tendencia engrandece las ciudades creando una estratificación social por la que los últimos llegados acostumbran a ser los más pobres, que se asientan donde pueden o les dejan. Lo que no quiere decir que no exista una ancestral pobreza urbana que se reproduce. La segunda, es que esta expansión metropolitana que supera el ámbito de la ciudad estricta (2), genera, a la corta o a la larga, un crecimiento del precio del suelo urbano. Este, no solamente depende de las necesarias infraestructuras que se van creando (transporte, saneamiento, comunicaciones,…), sino también de las transformaciones que impone la reproducción del capital en el espacio, como el sociólogo francés Lefebvre (3) enseñó hace mucho tiempo.



Fig. 01: vista da zona central de Barcelona - acervo Infohabitar

Em torno do conceito de gentrificação e da sua utilidade

Como se puede definir el concepto de gentrificación?. Y sirve o no para analizar las anteriores tendencias?. Un inicio de respuesta a esta segunda pregunta es a la vez afirmativo y negativo.
Es bien conocido que el concepto de gentrificación emerge de la mano de una socióloga inglesa (4) que trata de explicar y denuncia el proceso de expulsión y substitución de las clases populares por parte de los “gentry”(pequeña nobleza) en determinados barrios del Londres de los años sesenta del siglo pasado. A partir de esta primera definición, este concepto ha hecho un largo itinerario. Primero utilizado en el mundo anglosajón, ha desembarcado después en el mundo latino e ibérico de la mano de geógrafos, sociólogos, antropólogos, urbanistas, arquitectos y otros profesionales que reflexionan sobre el devenir de las ciudades. En este largo itinerario, la gentrificación ha ido adquiriendo varios contenidos y las múltiples investigaciones empíricas le han dado algunos valores añadidos. Sería demasiado largo recorrer, aquí, un itinerario (5) que tiene más de cincuenta años en el seno de las ciencias sociales.

Aunque se puede apuntar una aproximación sintética que tenga en cuenta tanto los factores económicos como el papel de los actores privados y públicos en los procesos de apropiación y organización (producción y consumo) del espacio urbano. Esta aproximación debe empezar por poner de manifiesto a la recomposición productiva y social que se genera en los años ochenta. En estos años, por un lado hay una deslocalización de los grandes centros fabriles que se difuminan en el espacio (fabrica difusa) o se instalan en las periferias urbanas al mismo tiempo que surgen nuevas actividades económicas en las ciudades. En segundo lugar, hay un empobrecimiento de estratos tradicionales de la clase trabajadora y de profesiones arrinconadas por la utilización de nuevas tecnologías. Así ya entonces, se habla de una nueva pobreza (6) articulada con las modificaciones del mercado de trabajo. En tercer lugar, la reestructuración familiar tiene, entre otros, el resultado del crecimiento del número de personas que viven solas, el aumento de parejas sin hijos, el resquebrajamiento de los lazos sociales. Y en cuarto lugar, surgió una nueva clase media integrada por profesionales emergentes ligados a la industria cultural y de servicios: diseñadores, informáticos, periodistas televisivos, arquitectos, decoradores, personas ligadas a la moda, al arte, al marketing, etc… En su seno, en pleno clima neoliberal, se potencian la cultura hedonista, del mérito y de nuevas formas de consumo que se corresponden con las aspiraciones y demandas de estos emergentes más o menos Yuppies (7), Bobos (8), intermediarios culturales, o como quiera llamárseles.

Si, anteriormente a esta época, especialmente en los Estados Unidos pero también en bastantes países europeos, se había asistido a un fenómeno de instalación de las capas altas en las nuevas urbanizaciones colindantes con las ciudades, en el Maresme en el caso de Barcelona, de Lumiar (9) en el de Lisboa, en esta década se redescubre el valor de la urbe y de su centro. Es en este redescubrimiento donde la gentrificación toma cartas de naturaleza y se convierte a la vez en un proyecto político (10) y urbanístico bajo palabras tan bonitas como la regeneración, la revitalización, la renovación y el renacimiento urbano. Los emergentes necesitan nuevos lugares para residir (loft, edificios distintivos,…) y comprar (tiendas fashion,..) que marquen su “distinción” elitista. Baudrillard (11) podrá ser utilizado como inspirador de esta cultura del consumo y de sus signos y símbolos convertidos en nuevos estilos de vida. Solo falta, la complicidad de la administración pública local y la inversión privada que será facilitada por un capital ávido de hacer beneficios rápidos con la especulación inmobiliaria.

Ahora bien, seria impropio adjudicar toda la responsabilidad a los ciudadanos “Gentrifiers”. Pero, “de aquellas lluvias, estos lodos” que inundan y encharcan la situación actual en el estado español, donde el crédito bancario y las hipotecas inmobiliarias eran interesadamente “regaladas” generando un endeudamiento masivo de las economías familiares. Hay que recordar que esto no era lo que había caracterizado a la anterior cultura económica ibérica centrada en el trabajo, el pequeño ahorro y la propiedad de la casa (12).

Cabe preguntarse, una vez más, si estos conceptos y sus prácticas subyacentes, que no son neutros, son útiles para explicar nuestras realidades de países semiperiféricos, semicentrales. Sures fluidos de un Norte dominante, hasta que punto, la gentrificación formaría parte de una operación de dominio ideológico, por la que se aceptan acríticamente unas terminologías y unas políticas llegadas de fuera?.

En este sentido, algún autor como Atkinson (13) ha tratado la gentrificación urbana como un proceso de colonización en el contexto de la progresiva globalización actual. Aunque en el mismo libro, Petsimeris (14) pone de relieve que en las ciudades del Mediterráneo la gentrificación no es tan evidente y que en cualquier caso viene de lejos. Tampoco la globalización no es un fenómeno de hoy en día. En sus diferentes trabajos (15), Luis Mendes, a partir de la discusión de los paradigmas marxistas, explica como los procesos de transformación del espacio urbano (fragmentación, suburbanización y centralización) están en relación con la acumulación del capital. Lo cual invita a repensar la gentrificación en la perspectiva de una internacionalización del capital y de sus consecuencias a escala local (aparición del capital multinacional a escala local, grandes operaciones inmobiliarias, homogeneización del consumo urbano, modas de consumo y diseño mundiales, movimientos migratorios internacionales, movilidad creciente y residencialización, etc.…). Si algunas ciudades ya son globales (16), también lo serian sus procesos de gentrificación?.


Fig. 02: vista da zona central de Barcelona - acervo Infohabitar

Origens e causas da gentrificação

Ahora bien, si se aceptan algunas de las anteriores aproximaciones, la atracción hacia las ciudades genera movilizaciones de población que se asientan en los barrios históricos degradados y en sus periferias. En general, es en estos barrios degradados del centro en los que autóctonos empobrecidos y recién llegados conviven y se mezclan, no sin algunos conflictos, donde se produce la expulsión de este tipo de población, paralela o posterior a la substitución gentrificadora que puede ser más o menos rápida, más o menos pacifica.

Pero, no necesariamente y no siempre se produce una substitución espacial de población pobre por una más rica y potente. Hasta cierto punto, los movimientos inmigratorios en la Barcelona de los años cuarenta después de la guerra civil, engrosaron los barrios populares. Si bien es cierto que los límites e intersticios de la trama urbana se llenaron de chabolas (17), el llamado, entonces, Barrio Chino (18), en el histórico centro de la ciudad, concentró una gran parte de esta inmigración. En coherencia con su denominación, su nivel de concentración poblacional subió hasta límites “asiáticos”. Alrededor de las famosas Ramblas Barcelonesas, aumentó el número de pensiones baratas, se edificó encima de los terrados, se utilizaron los subterráneos, las buhardillas, se saturaron las viviendas albergando a varias familias en cada piso, se multiplicaron todas las tipologías de la economía subterránea e informal y dentro de ellas, todas las formas imaginables de ocupación ilegal del espacio urbano. Se empobreció la sociedad (19) y dentro de ella, la mayoría de los centros urbanos. En el caso de Barcelona, incluso esta invasión popular expulsó a gentes ricas que residían en algunas calles de la parte baja de la ciudad que fueron desplazándose hacia las partes altas, en una especie de gentrificación a la inversa.

Otro ejemplo de gentrificación por abajo sería el de la Alfama de Lisboa donde el terremoto de 1755 provocaría una huida de las clases altas hacia otros lugares y una ocupación de las clases populares reconstruyendo las casas según los trazados antiguos y aprovechando los materiales de los edificios destruidos. Así empezaría la nueva historia de un barrio popular que se va constituyendo en sociedad particularizada (20).

Desde esta perspectiva, la presión migratoria no es el único factor de una inversa gentrificación por abajo, pero plantea un ancho campo de investigación sobre los diferentes modelos de convivencia, inserción, integración, asimilación de los inmigrantes y de los colectivos nómadas como los gitanos, en las ciudades de acogida. Modelos que han dado origen a una amplia producción científica y literaria y a innumerables políticas y medidas, que no pueden ser tratadas aquí. Pero quizás sea útil sugerir que las más radicales gentrificaciónes generan procesos de segregación y de exclusión urbana cuando las poblaciones expulsadas son asentadas en otros lugares. La Mina en Barcelona, el Casal Ventoso en Lisboa podrían ser dos ejemplos que van en este sentido. En casos extremos, pueden llegar a generarse procesos de estigmatización y de potencial “guetoización”(21) de la población más marginal.

También es posible imaginar un modelo mixto en el que a pesar de existir una presión gentrificadora y algunos de sus efectos, la población autóctona integrada por artesanos, pequeños talleres, tradición asociativa y cultural fuertes, algunos equipamientos simbólicos y identidad enraizada en un determinado territorio es capaz de oponerse y/o de encontrar formas de acomodación.

Hasta cierto punto no son estos los casos de los barrios populares de Gracia en Barcelona y de la Alfama (22) en Lisboa?. Sin escapar a los efectos de la globalización, y con claros procesos substitutivos anteriores, los dos barrios comparten un tejido urbano de calles estrechas y pequeñas plazas soleadas, un perímetro geográfico bien definido en una situación central de la ciudad, edificios no muy altos y pequeña propiedad horizontal, alta densidad poblacional, una ocupación vecinal del espacio público, de la calle, de la plaza, una reciente llegada de jóvenes ( erasmistas, jóvenes artistas y alternativos, nuevos artesanos, etc..), a los que se les arriendan pisos que a veces se rehabilitan, una animada vida nocturna en los múltiples bares, tascas, restaurantes y locales más o menos alternativos, un buen numero de asociaciones, unas más antiguas, otras más modernas, que se organizan entre otras funciones para celebrar las fiestas dos Santos Populares en Alfama y las de finales del mes de agosto en Gracia. El abundante turismo ambulante y desestacionalizado, visita pero no vive en hoteles masivos en estos barrios, ánima, pero no substituye, las actividades económicas autóctonas. Ganan los servicios y la economía de proximidad. “Tudo ao pe de casa” como dice una alfamista (23). Igual podría decirlo un “Gracienc”: “tot queda a mà”.

Estas consideraciones y comparaciones llevan a pensar que se tienen que dar unas determinadas condiciones para que la gentrificación se inicie y pueda desplegarse plenamente. No siempre las presiones de las clases altas van a ejercerse sobre los barrios populares. Pueden construir sus propios espacios y urbanizaciones. Estas clases están constantemente queriéndose diferenciar de los “otros” mediante sus formas de consumo, mediante el lugar residencial y el tipo de viviendas. En su proceso de diferenciación urbana, de crear su propio territorio social, acostumbran a tener diferentes alternativas. Pueden hacerse fuertes en los centros de las ciudades o alejarse de los mismos o invadirlos de nuevo, o constituir enclaves como parece ser el caso de los “condominios fechados” que se desparraman por casi toda Lisboa (24). Si este proceso depende del capital privado, se puede sospechar que las agencias inmobiliarias hacen un cálculo racional sobre el coste de la remodelación del espacio urbano y de la rehabilitación de las viviendas. Si esta remodelación no es claramente rentable, o se alían con la iniciativa pública para que ayude cubriendo una parte de los costes o invierten en otros lugares donde estos costes sean menores y mayores los beneficios.

Así por ejemplo, se puede sugerir, que las dificultades de una sistemática rehabilitación del magnífico centro histórico de Porto (25) están en una ausencia y una falta de voluntad del capital privado local- ¿adonde fue la acumulación de la burguesía de Porto? - que en parte, ha escogido para residir, otras zonas alejadas. El sistema de propiedad no ayuda. Tampoco parece que el capital público tenga la capacidad y la voluntad de renovar a fondo a Baixa Portuense. En cambio, se ha producido una cierta renovación comercial en la zona de Miguel Bombarda, sin que haya gentrificación residencial (26). Hasta cierto punto esto también se ha producido en el barrio de la Ribera en Barcelona. No deja de ser interesante que, en otras condiciones, a pocos kilómetros de Porto, en Guimarães, se haya dado una hibridación, por ahora positiva, donde población autóctona residente y comercio tradicional conviven y son actores junto al municipio, con una renovación urbana del centro histórico. Son las ciudades más pequeñas, más propensas y facilitadoras a estas formas de hibridación no excluyente?. Muy probable.

¿Otra de las condiciones posibles para que se inicie un proceso de gentrificación es el de la degradación de las condiciones físicas y sociales de un determinado espacio?. Es la bajada del precio del suelo una de estas condiciones previas?. No solo y no siempre. Históricamente, por lo menos procesos de gentrificación “avant la lettre”, se dieron por motivos de represión militar como por ejemplo con la apertura de la avenida Hausman después de la “Commune” en Paris o con la Vía Layetana cuya construcción se aceleró después de la revuelta popular de 1909 en Barcelona. En ambas experiencias, se produjo una destrucción violenta de zonas populares y su mutación en avenidas para clases adineradas, por las que el ejército podía desplazarse. En otras ocasiones, bastante comunes a finales del siglo diecinueve (27), fueron argumentos de higiene y salud publica los que fueron utilizados para reemplazar las áreas urbanas más insalubres y pobres.

Igualmente se podría investigar porque determinados proyectos gentrificadores no llegaron a aplicarse. Cual fue la conjunción de factores que impidieron su despliegue?. Este parece ser el caso del proyecto de la Ribera en la Barcelona de los finales de los sesenta (28) del siglo veinte y de los proyectos de 1888 con el viaducto, o los de Silva entre 1948 y 1952 en el Barrio Alto (29) de Lisboa.

Pero se puede insinuar que la fortaleza de la identidad de un barrio y la pujanza de su capital social son probablemente factores que impiden, limitan o retrasan su gentrificación. Sin olvidar los factores económicos, se podría formular una primera hipótesis por la que la resistencia de los pobladores a dejarse “invadir y seleccionar” está en relación con su identificación afectiva, cultural, y simbólica con su territorio. Si su casa y su calle, su historia y la de su familia, sus relaciones amistosas y vecinales y sus circuitos económicos son locales y fuertes y tienen una gran significación para ellos, lógicamente van a ofrecer grandes resistencias para ser expulsados. Una segunda hipótesis corolario de la primera tiene que ver con la noción de capital social (30) activo. Valores compartidos, redes sociales fuertes, confianza y proyecto colectivo de futuro crean lazos nada fáciles de romper. Y por lo tanto, en un territorio en el que sus ciudadanos tengan un patrimonio y una memoria de sus iniciativas conjuntas y diferentes de las de otros (fiestas, deportes, artesanía, gastronomía,..), una capacidad asociativa (31) importante ligada a la defensa y a la afirmación cultural y política y posibilidades de desarrollo socioeconómico local, las operaciones de gentrificación por arriba, se van a encontrar con mayores dificultades.

Desde este punto de vista, está por escribir una historia de victorias y derrotas de los factores y movimientos que desbloquean las gentrificaciónes por arriba y por abajo, en la península ibérica. Estas no pueden comprenderse sin el examen de estas causalidades de fondo y sus consecuencias. Cuáles pueden ser, algunas de ellas, para una comparación entre Lisboa y Barcelona?


Fig. 03: vista da zona central de Barcelona - acervo Infohabitar

Aproximações à gentrificação em Lisboa e Barcelona

Hay varias formas de abordar la gentrificación. Una es la de tratarla de una forma difusa, extensiva, utilizando un conjunto de indicadores para toda la ciudad y comparándolos por barrios, distritos, y freguesias. Este método que es muy dependiente de las demarcaciones administrativas y políticas y del nivel de localización de la producción estadística, sirve para detectar cuales son los territorios donde más claramente se concentran los eventuales procesos de gentrificación. Estos pueden ser mayormente explicados cuando las series son históricas y aparecen factores recurrentes.

Walter Rodrigues, en un libro (32) donde reflexiona sobre la ciudad en transición, ha utilizado este procedimiento para Lisboa. En él, establece una tipología (33) por la que habría una gentrificación (nobilitaçâo) puntual en la zona más histórica de la ciudad medieval en torno al Castelo de San Jorge, en las freguesias que lo envuelven hasta el rio Tejo.

Una segunda modalidad seria más clásica y observable en las freguesias de Sé, Magdalena y dos Martires y que se corresponden con la Baixa y el Chiado. También deberían incluirse las del Sacramento y Mercès.

Una tercera se sitúa en la parte central de Lisboa donde el mismo autor debe reconocer que son zonas en las que ya vivían los grupos más adinerados, los profesionales más cualificados, con niveles formativos superiores y por lo tanto no se ha dado una substitución gentrificadora. 

Una cuarta se ubica en la periferia en Alto de Pina, Sâo Domingos de Benfica y sobretodo en Lumiar y por fin habría una forma emergente en el frente del rio entre Cais de Sodré y Belém, marcada por las operaciones públicas de recuperación y urbanización de estos espacios. En otro estudio (34), se señala que Charneca seria un caso mixto con un fuerte crecimiento poblacional debido a la inmigración reciente, pero también con construcciones demolidas e integradas en los proyectos del PER.

En una investigación realizada en Barcelona para el periodo 1970-1991, se sigue el mismo procedimiento a partir de los censos, aunque no se utilicen los mismos indicadores. Así se afirma banalmente la polarización social de la ciudad y se llega a la sorprendente y errónea observación que son los históricamente barrios ricos de Sarriá y San Gervasio donde se dan fenómenos gentrificadores (35). En este último tipo de presentaciones, parecidas a fotografías sin profundidad, no se sabe porque se generan estos procesos, ni tan siquiera que consecuencias tienen para la población, ni para el conjunto de la ciudad.

En cambio un segundo tipo de aproximación a la gentrificación parece ser más explicativo cuando la atención se focaliza y se concentra en el análisis cuantitativo y cualitativo de un espacio concreto. Se estudia su historia, se pregunta y se escucha a las personas y a los actores. En este sentido cabe presentar el paradigmático Rabal de Barcelona que ha sido sujeto de una importante cantidad de estudios (36) que ponen en evidencia como la conjunción de capital público y privado ha intentado una reciente gentrificación que se acelera después de los Juegos Olímpicos de 1992.

Como su nombre indica, históricamente, se trataba de una zona fuera de las murallas donde malvivían las gentes que no podían entrar en la ciudad o eran expulsadas. En su ámbito, fueron localizados algunos de los principales equipamientos asistenciales (Casa de la “Caritat”, Misericordia, Hospital de Santa Creu,…) y represivos (prisión de La Galera). Con la destrucción de las murallas en 1859, se empezó a fraguar el llamado modelo (37) de una Barcelona cuadricular (ensanche), al mismo tiempo que se instalaban las principales fabricas en los barrios limítrofes que fueron englobados en la ciudad. Tal fue el caso de la “Ciutat vella”, del casco antiguo, del Rabal que se convirtió en uno de los lugares de entrada y “acogida” de los inmigrantes que venían a trabajar en la naciente industria y de residencia precaria de las clases populares. Fue degradándose en el siglo diecinueve y gran parte del siglo veinte (38), en el que fue adquiriendo durante la gran guerra, la fama de canallesco, bohemio, lleno de cafés concierto, cabarets y prostíbulos. Mientras que las gentes “pudientes” que se ubicaban en el ensanche podían acudir a él para dar libre curso a sus placeres.

Las tentativas de gentrificación del Rabal han sido múltiples. Algunas se sitúan en el siglo diecinueve, las más se producen en el siguiente siglo en el que el bombardeo de la aviación italiana destruye más de 1.500 edificios en plena guerra civil. Después de ella se abre la Avenida Garcia Morato, pero que no consigue atravesar el barrio destruyendo su entramado de callejuelas estrechas donde se hacina una abigarrada y heterogénea población popular. El franquismo no modifica esta situación. Se debe esperar a finales de los años ochenta, para que se emprendan acciones que bajo los nombres edulcorantes de esponjear, clusterizar, se encubren operaciones de gentrificación mas o menos pacificas. El PERI (Plan Especial de Reforma Integral) de 1988 constituye la señal de partida de un conjunto de iniciativas gestionadas por una entidad (PROCIVESA) en la que se implica el capital público (60%) y el privado (40%).

Los resultados no dejan de ser significativos. Se han demolido 4.000 viviendas, 3.000 vecinos han sido realojados, se han construido la mitad de los pisos previstos, la mitad de los edificios han sido rehabilitados, el precio de alquiler y de compra ha subido por encima del de Barcelona, se ha llevado a cabo la llamada clusterización cultural, concentración de equipamientos culturales, con la apertura del CCCB (Centre de Cultura Contemporánea de Barcelona), del MACBA (Museu d’Art Conteporani de Barcelona), de las facultades de Geografia e Historia y de Comunicación, del CIDOB (Centre d’Informació i Documentació Internacional a Barcelona), de la Cinemateca y del nuevo edificio de l’Institut d’Estudis Catalans y se ha abierto la Rambla del Rabal.

Pero cuando menos se esperaba saltó la liebre y en el contexto del rápido crecimiento económico de la última década, el Rabal, recordando su papel histórico, se ha ido llenando, hasta un 55% del total de la población, como lugar de residencia y de encuentro, de inmigrantes (pakistaníes, magrebíes, filipinos y latinoamericanos) de todo el mundo (39). Los cuales crean abundantes circuitos de economía étnica que se yuxtaponen con los antiguos comercios y con las nuevas tiendas “trendy” (diseño, moda, ropa de segunda mano, galerías de arte, restaurantes de todo tipo ) (40).Esto sumado a la presencia de artistas, de “guiris” (41) , de erasmistas (estudiantes del programa europeo Erasmus) y de profesionales, da lugar a una multiplicidad de colectivos residentes que en parte, substituyen a la población autóctona pobre. Por ahora, en uno de los efectos inesperados que causan la desesperación de los planificadores urbanos, el azar bajo la forma de mezcolanza cosmopolita del paisaje humano y económico ha vuelto a ganar.

Como en cualquier intervención social y urbanística compleja y sobre todo con la gran sensibilidad y debate que existe en estos dominios en Barcelona, hay múltiples miradas que se dirigen a estos procesos que van más allá de la convencional gentrificación del Rabal. Las de arriba ensalzadoras y justificadoras (42), las de abajo más criticas (43) . Solo estudios posteriores sobre las transformaciones reales locales que se van produciendo, situados en el marco del devenir de la ciudad, permitirán ir zanjando un debate que en cualquier caso es positivo si se abre a todos los actores y no es secuestrado por expertos, funcionarios y políticos.

Este tipo de estudios, donde la lupa de la micro sociología y antrolopología y la observación participante son cruciales, requieren que, después, sus resultados sean sistematizados y generalizados para no quedarse en enseñanzas, únicamente y demasiado, específicas y locales.

Si se cultivase esta perspectiva se recuperaría una fecunda tradición ibérica de estudios locales. Tradición que toma empuje, ya en los años sesenta del siglo veinte, cuando empezaban en los dos países, los primeros trabajos sobre el desarrollo comunitario (44). Estudios conectados con el análisis de las condiciones de vida y la estratificación social de los habitantes, con la pobreza y la exclusión social y con el desarrollo económico local. Los cuales dieron fructíferos resultados que permitieron ir verificando las transformaciones sociales, económicas y urbanas de la piel de toro peninsular. Estos estudios, ahora retomados, abrirían nuevas lecturas sobre centro y periferia espacial, sobre urbanización, desurbanización y reurbanización y sobre las anteriores “gentrificaciónes escondidas”.


Fig. 04: vista da zona central de Barcelona - acervo Infohabitar

Agenda para finalizar

En estas notas quedan muchos temas en el tintero. Así por ejemplo como se analiza la gentrificación?, sirven las estadísticas convencionales?, cuales son los indicadores más adecuados?, es necesario conjugar métodos cuantitativos con los cualitativos?, como se ponen en relación los aspectos más estructurales con el papel de los actores?, hasta que punto no es fundamental hacer diagnósticos previos y análisis posteriores de las consecuencias ?.

Otros temas centrales de una futura agenda de trabajo, son los de situar la gentrificación en el paso del valor de cambio centrado en el trabajo fabril hacia la especulación del suelo, en las transformaciones de unas ciudades cada vez mas fragmentadas, segregadas y polarizadas, en las funciones de complicidad, paliación o limitación de los poderes públicos y de su capacidad de intervención, en el papel de la economía sumergida, en las estrategias de supervivencia del mundo opaco de la pobreza y la marginalidad, en la reconstitución de sus lazos sociales y de sus circuitos económicos, de sus nuevos refugios (45).

No se puede terminar, sin hacer una alusión a que la crisis actual, particularmente dura en los países periféricos de Europa, replantea el contexto de la gentrificación y de algunas de sus características. Por un lado, acentúa la globalización financiera y monetaria y la dependencia de las economías estatales, con respecto a los centros de decisión de las organizaciones supranacionales y de los flujos de los capitales internacionales. Así, en este contexto queda limitada la capacidad de intervención de la administración y es difícil concebir grandes operaciones de gentrificación urbana sino están conectadas y financiadas por capitales multinacionales. Por otro lado, muda la división internacional del trabajo deslocalizando la producción industrial y los modos de comercialización. Aparece una economía más virtual, especulativa y fluida en la que las ciudades se transforman en lugares de flujos de dinero, conocimientos y personas, en nudos emisores y receptores de redes mundiales. Es fácil vaticinar, que la competencia y la especialización van a instalarse entre las ciudades de todo el mundo, para encontrar su lugar en el sol internacional de estos movimientos y redes circulares.

En tercer lugar, la crisis aumenta y profundiza la pobreza y la polarización social urbana al mismo tiempo que crece la vulnerabilidad (46) del conjunto de la sociedad. Aumenta el sentimiento de desprotección y los ricos se hacen más ricos y hay más pobres, que a su vez, son más pobres. Lo que puede traducirse en que los primeros, tengan una mayor demanda de seguridad, defensa y separación geográfica y simbólica de los segundos.

Normativas de control y represión de los municipios, vigilancia visual en las calles, aumento de los cuerpos privados de seguridad, construcción y adecuación de los edificios a lógicas “brasileñas” de protección, coches y tiendas blindadas, son los mecanismos y objetos más probables. Igualmente, condominios fechados (especificidad Lisboeta), manzanas (especificidad Barcelonesa) de uso estricto, limitado y controlado, tentativas de disminución y privatización mercantil del espacio público, expulsión de los marginales y de sus comportamientos de las zonas turísticas, van a ser probablemente, las ”nuevas” formas de gentrificación por las que los de arriba se separan y se sacan de encima a los de abajo y los substituyen, si les conviene y pueden.

Con gentrificaciónes o sin ellas, la ciudad, Lisboa y Barcelona o algunos de sus barrios, pueden convertirse, acercándose al modelo del “gran hermano”, en un escaparate vigilado o en un museo de pago con guardias en cada esquina, a menos que los ciudadanos, luchando juntos, no lo remediemos.

Jordi Pascual, NOVEMBRO, 2013


Notas:

(1) Martins Barata,J.P.(1989) Pensar Lisboa. Lisboa. Livros Horizonte. (pag. 13).
(2) Balsa Marques,C (2008 ) Os espaços da pobreza, pobreza no espaço e orientaçoes da intervençâo social. Lisboa, Departamento de Sociologia. Universidade Nova de Lisboa. (pag.5).
(3) Lefevre,H. (974) La production de l’espace. Paris. Anthropos.
(4) Glass,R. (1964) London : aspects of change. Centre For Urban Studies. London. Macgibbon & Kee
(5) Se recomienda leer a Atkinson, Harvey, Smith, Hamnet,...
(6) Este concepto ha vuelto a aparecer ahora. Ver para finales de los años ochenta en Inglaterra Room,G. (1990) New poverty in the European Union. London. St.Martin Press, en Italia Saraceno,C.(1990). Nuova povertà o nuovi rischi di povertà en Negri,N,(ed) Povertà in Europa e trasformazione dello stato sociale. Milano. F. Angeli, en Francia Paugham,S.(1991) La desqualification sociale. Essai sur la nouvelle pauvretè.Paris. P.U.F. y en España Candel. F. (1988) La nueva pobreza. Barcelona. Edicions 62.
(7) “Young Urban Professional”. Literalmente Joven urbano profesional.
(8) Brooks.D. (2000) Bobos in paradise: the new upper class amd how they got there. Simon & Schuster (En Inglès Bourgeois bohemian, lo que es directamente traducible al francès por bourgeois bohème). Benis propone que se les identifique con la geraçao rasca. Tengo mis dudas sobre esto ultimo.
(9) Franco,S.N.(2012) Modelo Barcelona de espaço publico e desenho urbano. Estrategias de regeneraçâo para o Lumiar. Barcelona. Facultat de Belles Arts.
(10) Van Criekingen,M. (2008) Comment la gentrification est devenue, de phénomène marginal, un projet politique global . Revue Agone, n 38-39.
(11) Baudrillard,J. (1970) La société de consommation. Paris. Editions Planète.
(12) Aun en los años ochenta, en el interior del programa europeo de lucha contra la pobreza, los representantes de Portugal y de España se preguntaban porque una de las causas de la pobreza en el resto de Europa era el endeudamiento. Al mismo tiempo, todas las estadísticas señalaban que una especificidad ibérica era la poca importancia del número de personas que vivían en régimen de alquiler.
(13) Atkinson,R .Bridge,G.(ed.) (2005) A global context: The new colonialism. London. Routledge.
(14) Petsimeris,P. (2005) Out of squalor and towards another urban renaissance?. Gentrification and neighbourhood transformations in southern Europe, en Atkinson,R. Op.Cit. ( Pag 240 a 255).
(15) Mendes,L.(2012) Crise do marxismo e as geografias pós-modernas no estudio da gentrificaçâo.Lisboa. Cadernos do Centro Estudos Geograficos n 2. y Mendes.L. (2011) Dos margens para o centro. Rev. Iberoamericana de urbanismo n 5. Barcelona-Buenos Aires.
(16) Sassen,S.(1999) La ciudad global. Nueva York. Londres. Tokio. Buenos Aires. Ed. Eudeba.
(17) Camino,X.y otros (2011) Barraquisme, La ciutat (im) possible. Barcelona. Generalitat de Catalunya.
(18) Villar,P. (1996) Historia y leyenda del Barrio Chino (1900-1992). Cronica y documentos de los bajos fondos de Barcelona. Barcelona. La Campana.
(19) Contrariamente a la mayoria de estudios sobre la pobreza que hacen calculos individuales, se utiliza aqui la idea del empobrecimiento colectivo. Ver el libro aun no publicado Estivill,J. Pobresa i empobriment de Catalunya sota el franquisme. Els anys quaranta.
(20) Costa,A, F, (1996) Sociedade de Barrio. Oeiras. Celta Editora.
(21) Robert Castel no acepta utilizar el concepto de gueto para designar a los suburbios de París que se revoltaron en 2005. Castel,R. (2010) La discriminación negativa. Barcelona, Ed. Hacer (pag.48).
(22) Benis,K.(2011) Vielas de Alfama. Entre revitalizaçao e gentrificaçào. Lisboa. Faculdade de Arquitectura.
(23) Benis, K. (2011) Op.cit. (pag. 24).
(24) Ver la figura 6 en Gaspar Batalha,L. Auto-segregaçào socio-espacial em Lisboa. INE/DRAGA. Rita Raposo detecta cerca de 200 Condominios fechados en Lisboa. Raposo,R.(2008) Condominios fechados em Lisboa: paradigma e paisagem. Rev. Analise Social nXLIII.
(25) Ver Queirós,,J. (2007) Estratègias e discursos políticos em torno da reabilitaçâo de centros urbanos. Consideraçòes exploratorias a partir do caso do Porto. Rev. Sociologia. Problemas e prácticas n 55.
(26) Dias,S.J. (2009) Uma viagem ao « Soho do Porto”. Procesos de criaçâo identitária e gentrificaçâo do comercio urbano em Miguel Bombarda. Porto. Departamento de Sociología.
(27) Fernandes,G. (2000) Morte e ressureiçâo de Lázaro. A questâo habitacional como forma de exclusâo/integraçao social no Porto contemporaneo en Vaz,M. J. Relvas,E. Pinheiro,N. Exclusâo na historia. Oeiras. Celta Editora. (pag.108 a 112).
(28) Tatjer.M.(1973) La Barceloneta del siglo XVIII al Plan de la Ribera. Barcelona. Los Libros de la Frontera y Solà Morales,M. (1974) Barcelona. Remodelación urbana o desarrollo capitalista en el Plan de la Ribera. Barcelona Gustau Gili.
(29) Pavel,F. Barrio Alto: Renovaçao e rehabilitaçao. Identidade e risco de gentrificaçâo. FAULT. CIAUD. (pag.6).
(30) Bevort,A. Lallement,M. (2006) Le capital social. Paris. La Découverte-Maus,. Véase un buen resumen en Almeida,J. (2011) O capital social, Lisboa. Imprensa Nacional.
(31) Para un analisis del flujo y reflujo de los movimientos de moradores en Setubal ver Vieira da Silva,C.(2009) As cidades na cidade. Movimentos sociais urbanos em Setubal. 1966-1995.Lisboa. Esfera do Caos.
(32) Rodrigues,W, (2010) Cidade en transiçâo. Nobilitaçâo urbana. Estilos de vida e reurbanizaçâo em Lisboa. Lisboa. Ed Celta.
(33) Rodrigues,W. Op. Cit. (pag.230 a 241). Esta tipología podría ser contrastada con los últimos datos, detallados por freguesias, facilitados por el Observatorio de luta contra a Pobreza de Lisboa en su publicación Retratos de lisboa. Indicadores para o estudo da pobreza na cidade de Lisboa. Lisboa, EAPN. 2011 o en su última memoria consultable en su página web.
(34) Xerez. R. (2008) Dinamicas do terriptorio : Centralidade e gentrificaçao na Area Metroplitana de Lisboa. V Congresso Português de Sociologia. (pag.11).
(35) Alabart,A. Lopez,C. (1996) L’evolució dels Barcelonins: gentrificació i polarització. Rev Barcelona i Societat n 6 (pag. 17).
(36) Fernandez, M. (2011), El asedio al Raval: Una aproximación al pasado y presente de las transformaciones urbanísticas del barrio barcelonés . Oñati Socio-Legal Series, Vol. 1, n 2.
(37) Normalmente el modelo Barcelona se refiere al conjunto de modificaciones ocurridas alrededor de los Juegos Olimpicos. Vease Capel,H.(2005) El modelo Barcelona: un examen critico. Barcelona. Ediciones del Serval y Delgado. M. (2oo7) La ciudad mentirosa. Fraude y miseria del “modelo Barcelona”. Madrid. Ed. Catarata.
(38) Heeren, S. Von. (2002), La Remodelación de Ciutat Vella: un análisis crítico del modelo Barcelona. Veïns en Defensa de la Barcelona Vella. Barcelona.
(39) Sargatal, M.A, (2001 ) Gentrificaciön e inmigración en los centros historicos : el caso del Barrio del Raval en Barcelona. Rev Scripta n 94.Facultad de Geografia. Universidad de Barcelona.
(40) Subirats,J. Rius,J. ( 2008) Del Chino al Raval Barcelona. Ed. Hacer ( pag.52).
(41) Es la denominación genèrica dirigida a los turistas. Muchos de los jovenes turistas vienen a residir a los barrios populares del centro de Barcelona.
(42) Borja,J. (2009) Luces y sombras del urbanismo de Barcelona. Barcelona. Editoral UOC.(pag.73 y 74).
(43) Unió Temporal d’Escribes(2004) Barcelona marca registrada. Un modelo para desarmar. Barcelona, Editorial Virus.
(44) A titulo de ejemplo vease Silva,M.(1964) Oportunidade do desenvolvimiento comunitario em Portugal. Lisboa. Rev. Analise Social n 6 vol II y numero monografico dedicado a las experiencias de desarrollo comunitario de la Revista Treball Social n 89. Barcelona 1983.
(45) En un proyecto DAFNE, ejecutado por On the Road (Italia), APIP (España) y EAPN (Portugal) se ha investigado comparativamente las nuevas funciones de las estaciones de Barcelona, Porto y Pescara y de entre ellas, como lugar de refugio de la marginalidad juvenil.
(46) Véase mi aportación al concepto de vulnerabilidad en Estivill,J. (coord.) ( 2010) El nom fa la cosa, Pobresa, exclusió i vulnerabilitat. En L’observatori català de la pobresa, la vulnerabilitat i la inclusió social. Barcelona. Generalitat de Catalunya.

Jordi Estivill Pascual: CURRICULUM VITAE ABREVIADO

Licenciado en Ciencias Económicas por la Universidad de Barcelona  y en Ciencias Políticas por la Universidad de Madrid.
Doctorado en Sociología por la Universidad de Paris VIII
Actualmente, colaborador externo de la Organización Internacional del Trabajo sobre la lucha contra la pobreza y la exclusión.
Ex Director del Gabinet D’Estudis Socials de Barcelona (1984-2002).
Profesor emerito de Política Social de la Universidad de Barcelona (1981-2001).
Experto en política social Europea (Programas Pobreza 2 y 3, ERGO, Horizon, Integra, Año Europeo del Racismo,…).
Director de numerosas investigaciones y publicaciones (mas de treinta libros publicados) y de la colección Políticas Europeas de la Editorial HACER.
En el marco del programa internacional STEP se ha elaborado un instrumento informático de recursos y aprendizaje para proyectos de lucha contra la pobreza y la exclusión en el que se encuentra una metodología de diagnostico, planificación seguimiento y evaluación. ( https://ciaris.ilo.org ). También en el marco de este programa se ha hecho el seguimiento de varios proyectos en los PALOP y en América Latina. Evaluación del proyecto europeo “Multiplicar” que dirigió EAPN y se aplicó en seis países de la Unión Europea.(Hungría, Rumania, Irlanda, Italia, Grecia, España y Portugal). Colaborador de la dirección del programa europeo “Bridges” que se aplicó en Francia, Bélgica, Rumania. Bulgaria, España y Portugal.
Director del equipo técnico del Observatorio de la pobreza, la vulnerabilidad y la inclusión de Catalunya.
Premio a la mejor trayectoria profesional en el campo social otorgado por el gobierno catalán(2010). Múltiples trabajos en el campo de la economía social y solidaria, colaborando con varias universidades y proyectos en Brasil, Perú, Italia, Francia, España y Portugal.
Intervenções em Portugal:
Colaboración con la Rede Europea Anti Pobreza de Portugal desde sus inicios en 1989 hasta la actualidad. En su colección, la Rede ha publicado el libro Estivill, J. “ O Partenariado social na Europa”.Porto. 1997 (120 pags.). También se ha llevado a cabo, junto a Fernanda Rodrigues la evaluación de los diez años de existencia de la Rede, que ha sido publicada con el titulo “10 anos da REAPN em Portugal”.Porto. 2004. (319 pags.)
Asistencia técnica al Proyecto BRIDGES que ha dirigido REAPN del que  ha publicado el libro(2010) con Jorge Caleiras sobre la articulación de las políticas sociales y laborales. Asistencia al inicio del Programa Redes Sociais. Colaboración con el programa Nacional de lucha contra la pobreza, Comisariados Norte y Sur, con las Presidencias Portuguesas y con la Dirección General de Acción Social creada en 1992. Asesor y colaborador del Observatorio de Luta Contra a Pobreza de Lisboa .
Publicación en Portugués, Ingles, Francés y Castellano del libro “Panorama de la lucha contra la   exclusión social. Conceptos y estrategias”.Ginebra.ILO.2004.
Investigación con los profesores Casimiro Marques Balsa y Rogério Roque Amaro sobre un estudio de evaluación y factibilidad sobre la economía informal y la exclusión social en los PALOP. Lisboa 2004.
Evaluación y colaboración en el proyecto “Activar a participaçao” llevado a cabo por la Red Europea de lucha contra la pobreza en Portugal, en el marco del Plan Portugués Por la Inclusión Social. (PNAI). 2006. Sus resultados han sido publicados en el libro “Pequeñas experiencias y grandes esperanzas”. Porto REAPN. 2006. Miembro del Consejo científico de CEESA (Azores) y del consejo de redacción de la Revista Economía Solidaria.
Profesor invitado en varias Universidades Portuguesas, en las que se han asegurado cursos y seminarios para diferentes Maestrías y Doctoramientos: Universidad Nova de Lisboa; ICSTE - IUL; Coimbra; Universidad Autónoma de Lisboa.

 Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº467
Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.