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terça-feira, março 31, 2020

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (I) – Infohabitar # 724


Ligação direta (clicar) para:  717 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada (38 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XVI, n.º 724

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (I) – Infohabitar # 724

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)


Notas prévias:
Muito estimados leitores da Infohabitar, caros amigos,
continuamos a “batalha” contra o inimigo invisível, julgo, agora um pouco mais habituados ao teletrabalho e ao confinamento doméstico.
Temos de manter a força e procurar ter um máximo de rigor e reforçar mesmo o cumprimento das indicações para “estar em casa” e manter a distância social; só assim poderemos proteger-nos e proteger os outros.
E não tenhamos dúvida de que quem sai de casa sem ser por razões plenamente justificadas está, realmente, a  colocar em risco o esforço de confinamento que todos estamos a fazer e a contribuir para o prolongamento e mesmo para o agravamento desta situação.
Realmente, nestes tempos tão difíceis para todos e verdadeiramente inacreditáveis (até para velhos amadores de ficção, como é o meu caso e, por favor, não considerem este último comentário menos respeitoso, pois trata-se, apenas, de colocar, por escrito, um pensamento que, provavelmente, tem ocorrido, a muitos de nós, nestas últimas semanas), é fundamental, por um lado, e tal como acima se referiu, atender e cumprir, fielmente, entre outros aspetos, as indicações de confinamento doméstico – e não tenhamos quaisquer dúvidas de que “ficar em casa” é a única forma de nos protegermos, de protegermos os outros e de facilitarmos o heroico esforço dos profissionais de saúde e de tantos outros que não podem estar em teletrabalho (e são muitos e importantes os testemunhos que destacam a importância vital do isolamento doméstico no combate ao vírus) – e, por outro lado, procurar construir, gradual, mas seguramente, uma fundamental rotina de atividades, entre as quais :
(i) os cuidados de higienização própria e do espaço doméstico,
(ii) os cuidados de distância social no espaço de uso público e mesmo, sempre que possível, no próprio espaço doméstico,
(iii)a prática das mais variadas atividades complementares e de lazer adequadas ao espaço doméstico 
(iv) o desenvolvimento de uma razoável e bem saudável disciplina de teletrabalho doméstico.
E é com este sentido que iremos procurar assegurar a continuidade das edições semanais da Infohabitar, tanto com novos artigos sobre aspetos teórico práticos que se poderão, talvez, designar como mais “consistentes” – por exemplo, o retomar da Série “Habitar e Viver Melhor” e o desenvolvimento de uma nova Série editorial dedicada à “Habitação Colaborativa Intergeracional” –, como através da reedição, eventualmente comentada, de artigos editados nos primeiros anos da Infohabitar, e ainda através da continuidade de uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
Finalmente, faz-se um apelo sincero:
. a novos artigos que nos possam ser enviados com o objetivo da respetiva edição, que poderão ser de variada índole, desde que referidos ao grande tema do habitat humano  - ex., desde temas estruturados e/ou inovadores, a reflexões específicas sobre determinada matérias (e o confinamento doméstico proporciona sem dúvida muita matéria de reflexão teórico-prática sobre o que são e o que poderiam ser os nossos “mundos” domésticos);
. a recensões sobre livros ou filmes, conjuntos de imagens, pelo menos, minimamente apresentadas e/ou comentadas, como fotos e esboços (cuidado com a autoria), etc.
. e a “simples” comentários relativos a determinados artigos, comentários estes que deverão ser acompanhados pela referência de autorização para divulgação editorial (caso assim o desejem).
E para já é tudo, mas na próxima semana voltaremos.

Com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 30 de março de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar (em teletrabalho doméstico)

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (I)  – Infohabitar # 724

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Introdução explicativa
Como referência prática de apoio à leitura, lembra-se que no artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, se procurou desenvolver, esquematicamente, a ideia de que, nos tempos de hoje, quando se pretende imprimir ao espaço urbano uma renovada marca pedonal e de meios “suaves” de deslocação, facilitados, designadamente, pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelo crescimento do uso dos veículos pouco poluentes, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
No referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, realizou-se, então, uma abordagem de enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos, seguindo-se o apontamento de  alguns desenvolvimentos recentes e de referência, que apoiam estas ideias, desenvolvendo-se, sequencialmente a matéria do que se considera poder ser uma estratégica variabilidade urbana, que se julga poder ser até facilitada pelas novas e potentes ferramentas de projeto e de visualização do mesmo.
E salienta-se, finalmente, que se julga que boa parte destas reflexões ilustradas poderão ser úteis em termos de apoio à prática, quer no contexto de novas intervenções, quer no âmbito de regeneração urbana, respeitando-se, naturalmente, a essencial adequação e/ou adaptação a cada situação específica e a estratégica caraterização de cada operação.
Alguns desenhos comentados
Em seguida e tendo-se por base a apresentação de alguns desenhos à mão livre (7 esboços coloridos a sépia), comentam-se, neste caso com brevidade, as matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas que acabaram de ser referidas, mas não se descurando alguns também breves comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos (a brevidade dos comentários acabou por se aplicar mais às últimas figuras).


Fig. 01: pormenor do caminho que serpenteia no agradável jardim urbano que rodeia a igreja de Santo Eugénio na Encarnação, um espaço que se julga ter sido uma das primeiras obras do arq.º paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (Jardim da Praça de Santo Eugénio, Encarnação, Lisboa, 1951).
Este jardim encontra-se rodeado por moradias e equipamentos, mas consegue, mesmo com um dimensionamento muito equilibrado (relativamente pequeno) uma razoável simulação de um ambiente natural, através de relvados, arbustos, árvores com diferentes tamanhos e formas de copa e caminhos que vão “ondulando” e oferecendo assim percursos mais estendidos e com sequências variadas de pontos de vista.
Tal como é refletido no título do artigo o esquisso é colorido a sépia, neste caso usando-se tinta permanente que é depois aguarelada e, finalmente, sublinhando-se alguns aspetos a traço negro.


Fig. 02: vista de uma zona pedonal em Olivais Norte, Lisboa, “centrada” em um dos edifícios que correspondem ao Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1967, o primeiro (e julga-se que o único) Prémio Valmor atribuído a um edifício de habitação de interesse social, com projeto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas.
Estamos numa “nova” zona urbana lisboeta, Olivais Norte, que constitui o mais exemplar bairro modernista português, rodeado pela grande malha de pequenas moradias do bairro da Encarnação e hoje em dia facilmente visitável através da estação de Metro da Encarnação.
A estrutura/ambiente urbano que aqui foi muito bem desenvolvida tem uma imagem dupla que corresponde a uma “dupla vida”: (i) seja mais urbana, através de uma razoável continuidade física de edifícios e árvores de arruamento, acompanhando as rodovias estruturantes do bairro; (ii) seja mais naturalizada, tal como é visível no esquisso, através de uma conjugação entre veredas e outras zonas pedonais, organicamente desenvolvidas, massas naturalizadas de zonas verdes horizontais (relvados e prados), verticais (árvores com diferentes formas e dimensões) e de transição horizontal/vertical (arbustos eles próprios com diferentes formas/funções) e edifícios que, aqui, neste mundo/vida mais naturalizado surgem numa sua presença mais solta e bem distinta dessa relativa continuada urbana.
O esquisso segue a mesma “técnica” das aguadas sépia, seguidamente reforçadas a traço negro; neste caso procurando-se desenvolver alguma distinção de tipo de “traçar”, entre a ilustração dos elementos naturais (talvez menos “gráfica”) e a ilustração dos edifício, mais sintética.


Fig. 03: outro pormenor do caminho que percorre o jardim urbano que rodeia a igreja de Santo Eugénio na Encarnação, referido no texto da Fig. 01, salientando-se que neste jardim se desenvolveu uma grande extensão e continuidade dos espaços relvados o que proporciona excelente funcionalidade dos respetivos cuidados de manutenção e jardinagem.
E embora constituindo um espaço de jardim bastante formal são evidentes os pormenores “dramáticos” que reforçam a expressão e o sentimento de estarmos num espaço de natureza (“construída”, é claro), como neste enquadramento em que o caminho é praticamente coberto por duas pequenas árvores, uma de cada lado e onde é possível ter a noção de perspetiva/profundidade bem pontuada pelos troncos das árvores que vão “desaparecendo”, gradualmente, ao longe.


Fig. 04: outra vista de uma zona pedonal em Olivais Norte, Lisboa novamente “centrada” em um dos edifícios que correspondem ao Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1967, ilustrando-se, neste caso, a importância que esta exemplar malha urbana modernista soube dar ao evidenciar da topografia original e a grandes oliveiras pré-existentes, e que foram conjugadas com novas plantações de árvores altas, e assim articulando-se com a altura dos edifícios.
O esquisso aplica, também, as aguadas sépia, primeiro desenhadas com os traços sépia de caneta de tinta permanente, depois “aguados”/aguarelados e, finalmente, sublinhando-se o desenho a traço negro, neste caso, com texturas bastante acentuadas.


Fig. 05: novamente, uma zona pedonal de Olivais Norte, neste caso marcada por edifícios relativamente baixos e com expressiva continuidade horizontal, trata-se de uma tipologia de habitações duplex sobrepostas, que, de certa forma, fazem aproximar a ideia de conjunto à de habitações unifamiliares em banda em segundo plano de uma paisagem quase rural.
E fica evidente o cuidado que foi colocado na escolha das espécies, com destaque para as arbóreas, nesta caso com um amplo espaço muito focado numa grande árvore de copa larga; sublinhando-se, assim, o que foi, entre nós, a primeira grande e muito qualificada intervenção da arquitectura paisagista no âmbito da promoção de habitação de interesse social e à escala de um pequeno bairro.


Fig. 06: na imagem o grande e único edifício Categoria IV do bairro de Olivais Norte projetado pelo Arq.º Abel Manta; na altura (década de 1960) a habitação de interesse social portuguesa encontrava-se estruturada em cinco categorias, caracterizadas essencialmente por distintos aspetos de espaciosidade doméstica e também, em parte, a tipos de acabamentos - Categorias I, II, III, IV e HR, sendo as habitações menos espaçosas as de Categoria HR e I, e assinalando-se, a propósito, que a atual habitação de interesse social corresponderá, em termos de espaciosidade doméstica, sensivelmente à “antiga” Categoria II (talvez um pouco melhorada).
Em termos de desenho/esquisso nunca é fácil fazer o “apontamento” de um grande edifício caraterizado por um muito elevado número de elementos iguais (neste caso vãos exteriores e varandas), correndo-se, frequentemente, o risco de um excesso de síntese, com resultado na reduzida compreensão do “objeto” desenhado, ou, até mais frequentemente, de um excesso de minúcia e de um excessivo “carregar” na presença gráfica do grande número de elementos repetidos; isto para além da intensa atenção/paciência necessária(s) para a tentativa da respetiva expressão gráfica.


Fig. 07: finalmente e, aqui, essencialmente para fazer destacar diferenças estruturantes ou básicas entre dois tipos de espaço urbano – modernista e “tradicional” – temos uma vista esquissada sobre a Colina do Castelo em Lisboa, deixando e haver espaço entre edifícios, que passam a surgir como uma verdadeira colina edificada, sem edifícios protagonistas a não ser, talvez o Castelo e um ou outro elemento urbano um pouco distinto do conjunto.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 724

Desenhos a sépia de velhos/novos espaços urbanos e naturais (I) – Infohabitar # 724

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, janeiro 28, 2020

Do geral para o particular, continuando a reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 717

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XVI, n.º 717

Do ambiente geral para o ambiente particular e próximo, continuando uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar n.º 717

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia:
A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias, como sabemos, “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em breve, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho

Do ambiente geral para o ambiente particular e próximo, continuando uma reflexão ilustrada sobre os velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 717

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Introdução explicativa
Como referência prática de apoio à leitura, lembra-se que no referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, se procurou desenvolver, esquematicamente, a ideia de que, nos tempos de hoje, quando se pretende imprimir ao espaço urbano uma renovada marca pedonal e de meios “suaves” de deslocação, facilitados, designadamente, pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelo crescimento do uso dos veículos pouco poluentes, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
No referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, realizou-se uma abordagem de Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos, seguindo-se o apontamento de  alguns desenvolvimentos recentes e de referência, que apoiam estas ideias, desenvolvendo-se, em seguida a matéria do que se considera poder ser uma estratégica variabilidade urbana, que se julga poder ser até facilitada pelas novas ferramentas de projeto.
Alguns desenhos comentados
Em seguida e tendo-se por base a apresentação de alguns desenhos à mão livre (6 desenhos coloridos), comentam-se as matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas que acabaram de ser referidas, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.



Fig. 01: Uma vista do velho Porto ribeirinho procurando-se realizar um apontamento mais “ambiental” do que particularizado; um sentido ambiental muito ligado ao “agregado” de edifícios, de certa forma unificados pelas sombras azuladas e pelo avermelhado dos telhados, mas também pela sua relativa unidade como “colina edificada” e bem virada a Sul, que contrasta ou contrapontua com o verde da natureza e o azul do céu; e podemos ter em conta que este sentido de agregação edificada e que acaba por integrar os espaços de rua, é a base da natureza das cidades, designadamente, em termos de defesa mútua e de vida “em comum”, com os sues aspetos de trocas comerciais e de convívio.
Quanto ao próprio desenho, procurou-se esse sentido unitário entre azuis, verdes e vermelhos aguarelados.



Fig. 02: uma vista de Coimbra, igualmente uma colina edificada e um agregado de edifícios e de estreitas ruas entre eles entremeadas, virado a Sul e igualmente sobre um rio – sítios estratégicos e quase sempre bem aproveitados pelo engenho urbano; no entanto neste apontamento, mais detalhado nos seus traços, o partido é a procura de uma unidade visual que não se baseia tanto num sentido mais “ambiental”, mas numa relativa caraterização de cada elemento unificado – naturalmente sintética -, que é “depois” multiplicada por muitas vezes, proporcionando-se um efeito geral que valerá, talvez, duplamente, como se fosse um gigantesco “edifício colina” com inúmeros elementos constituintes, ou um grande agregado de inúmeros pequenos edifícios graficamente sintetizados no seu essencial.
E rematam-se estes comentários considerando-os tão adequados a uma reflexão sobre arquitectura urbana, como a notas sobre a técnica de desenho de observação que aqui foi seguida.



Fig. 03: sendo o tema geral desta artigo, para além da reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos, a matéria referida como “ do ambiente geral para o ambiente particular e próximo”, esta vista esboçada a partir de um miradouro sobre Lisboa ribeirinha – outra colina edificada e virada a sul e sobre um rio –  proporciona uma estratégica aproximação a uma escala térrea “de passeio” (mais à esquerda no esboço, mas mantendo uma vista paisagística sobre uma globalidade edificada e urbana, tal como nas figuras precedentes: uma estratégia de arquitetura urbana e de desenho que amplia expressivamente as vistas de perspetiva, oferecendo estadia, pormenor e sentido de proximidade no espaço do miradouro, enquanto a cena urbana continua ali mesmo a ser oferecida e com um maximizado sentido de unidade cénica, ela própria em diversos planos.
Propriamente em termos de desenho trata-se de um trabalho já com algum desenvolvimento (tal como o da figura anterior), que se desenvolve a esboço fino, depois aguarelado e, finalmente, salientado – “sublinhado” – a traços negros de tinta da china, aplicados com a possível coragem.



Fig. 04: um esquisso colorido inspirado na alentejana e extremamente cenográfica vila de Serpa; um apontamento que nos aproxima já, mais significativamente, do nível térreo, que é o nível de observação natural de quem passeia pelos espaço urbano; e, desta forma, o agregado de edifícios, construções marcantes e algum verde urbano “contrastante”, é, já, mais percebível, mais impactante, designadamente, em termos de volumetrias e de sombras, seguindo-se um sentido de observação que privilegia a forte agregação do edificado/construção, quase aparentando a anulação dos espaços de rua intersticiais, num partido que se afasta fortemente das regulamentações higienistas e, depois, modernistas, que afastam expressivamente os edifícios uns dos outros, por razões muitas vezes positivas, mas que sendo servidas, como o são, frequentemente, por má arquitectura, acabam por resultar em espaço urbanos muito pobres em termos de visualidade e vivência.
Em termos de desenho, propriamente dito, foi aplicada uma mistura de cores a aguarela e a lápis de cor aguareláveis – muito manejáveis na sequência final de realces cromáticos.



Fig. 05: esta pequena vista de um largo parisiense, continua a servir o tema geral desta artigo, tanto na reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos, aqui se realçando a tão frequente expressiva atratividade e mesmo funcionalidade urbana de certos espaços urbanos “ que se podem considerar “tradicionais” – e tão poucas vezes “recriados” –, como o sentido que o artigo segue e procura ilustrar de uma amostra de desenhos urbanos que vão indo “do ambiente geral para o ambiente particular e próximo”, e que, neste caso, chega mesmo a esse expressivo nível de uma proximidade em que muitos dos pormenores urbanos assumem relevância talvez tão importante, como a da própria e respetiva estrutura urbana; aqui o observador está já “bem térreo” e o perfil urbano superior começa a ser sentido como elemento definidor da paisagem de proximidade.
Em termos de desenho apenas se aponta uma realização, primeiro, a traço fino e contínuo, seguindo-se a aplicação das aguadas, de uma forma o mais livre possível.



Fig. 06: termina-se esta pequena viagem sobre espaços e desenhos urbanos, ligados ao tema e à sequência “do ambiente geral para o ambiente particular e próximo”, com uma vista da Lisboa ribeirinha, marcada já por um “céu urbano” que, de certa forma, fecha a parte superior da cena aqui ilustrada, transformando um pouco o exterior urbano numa espécie de “interior” urbano, que tem de ser expressiva e positivamente pormenorizado e vitalizado; o desenho, em si, baseia-se no acentuar do sentido da perspetiva (efeito global, pessoas e eléctrico; em formas e em cores) e na aplicação de vários tipos de marcadores razoavelmente aguareláveis.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 717

Do ambiente geral para o ambiente particular e próximo, continuando uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 717

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, dezembro 03, 2019

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia:
A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias, como sabemos, “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em 2020, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Introdução e nota prévia
Alerta-se o leitor para um artigo que se inicia com uma reflexão textual, que se procurou não fosse excessivamente longa, seguida de uma reflexão informalmente ilustrada, em que alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos) são apresentados e minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às matérias tratadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Salienta-se, ainda, a título de nota prévia e justificativa, eventualmente desnecessária mas cuidadosa, que as ideias que são seguidamente apontadas correspondem a uma reflexão estritamente pessoal sobre a matéria.
Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos
A temática referida no título do presente artigo, através da frase “velhos/novos espaços urbanos”, refere-se, essencialmente, à ideia de que, nos tempos de hoje, numa época (desejavelmente) marcada pelo uso pedonal e “suave” (modos suaves de movimentação: em bicicletas; em transportes públicos eléctricos; em veículos partilhados, etc.) do espaço público urbano, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
Cabe aqui atentar em que uma tal integração profunda e morfológica de edifícios e de espaços públicos, levará a projetos globais e bem conjugados, em que, verdadeiramente, os alçados do edificado sejam, também, alçados de ruas e pracetas, e em que os pisos térreos, por exemplo, eventualmente utilizados para equipamentos coletivos, possuam um projeto, e uma previsão de arranjo, uso e manutenção que, verdadeiramente, associe cuidados privados, comuns e públicos, prevendo-se e procurando-se influenciar o que ali irá acontecer nos espaços de “rua” contíguos.
Uma perspetiva de reflexão projetual que será, portanto, associável, globalmente, a soluções urbanas,  habitacionais e funcionalmente mistas, formalmente variadas, multipontualmente marcadas pela escala e pelo uso humanos e que apresentarão, com naturalidade, alguma similitude com as soluções que marcaram boa parte das nossas povoações e bairros “históricos”.
Uma nota importante a considerar
Importa, no entanto, dizer, desde já, que esta possibilidade não encerra em si qualquer tipo de criticável saudosismo arquitetónico, mas sim, basicamente, a ideia de podermos usar um léxico amplo e extremamente variado de soluções de arquitetura urbana, reinterpretadas, naturalmente, à luz de novas e atuais exigências funcionais e de novos modos de habitar, e não continuarmos a usar o catálogo, comparativamente, muito limitado e pobre de soluções que poderemos designar de “funcionalistas”, ainda por cima, tantas vezes empobrecidas, nos seus aspetos estruturantes e numa frequente ausência de adequada pormenorização, por projetos de Arquitetura que não souberam e/ou “puderam” usar esse “funcionalismo” de forma expressivamente adequada e marcante, e que, tantas vezes se limitaram a repetir, sem verdadeira racionalidade, receitas funcionais, habitacionais e de equipamentos que foram espartilhando a cidade em zonas e microzonas funcionalmente quase estanques, frequentemente bloqueadoras da natural acessibilidade mútua, e, ainda por cima, tantas vezes vazias de qualquer marca de arte urbana ou de coerente e motivadora paisagem urbana.
Alguns desenvolvimentos recentes e de referência
Chegados aqui, regista-se que num recente estágio orientado pelo autor destas linhas (de um mestrando do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), dedicado, globalmente, às matérias associadas ao uso do espaço público e à respetiva satisfação com o espaço público em conjuntos de habitação de interesse social brasileiros, e no âmbito das visitas práticas realizadas a diversos conjuntos urbanos e residenciais, aconteceu uma natural vontade de visitar também um dos principais bairros históricos de Lisboa, Alfama (considerado um dos mais antigos bairros da Europa), exatamente porque há, hoje em dia, a ideia, naqueles que ocuparam boa parte das suas vidas a estudarem o espaço urbano, que as “doutrinas” racionalistas não têm, frequentemente, o necessário “suplemento de alma” que faz de um bairro o “nosso bairro”, de uma rua a “nossa rua” e de um edifício e de uma habitação a “nossa casa”.
Considerando tudo isto, precisamos de exigir mais dos nossos espaços urbanos e de vida e há que procurar, designadamente, onde tais espaços de vida parecem “invadir”, positivamente, um relativo conjunto de estimulantes e curiosas sequências urbanas – sequências estas integradas por espaços bem pormenorizados e mais de “andar” ou mais de “estar”.
Atente-se que a crítica aqui colocada à doutrina urbana modernista ou racionalista é no sentido de ela não incluir “frequentemente” esse suplemento de alma urbano e habitacional, porque quando tais conjuntos urbanos são bem projetados eles têm essa qualidade; mas tais casos muito positivos são, infelizmente, raros e entre os quais, em Portugal, sobressai o excelente bairro de Olivais Norte em Lisboa.
E a propósito de toda esta temática sugere-se a leitura de um recente artigo do arquiteto e gestor David Galbraith, intitulado “A New Approach to Designing Smart Cities”, que está disponível na WWW e que se inicia com a seguinte frase, que é bem clara e sintética: “One day, I’d like to design a truly modern, functional city with the character of a medieval hill town”. 
Sobre uma estratégica variabilidade urbana
Por fim, para rematar a parte de texto deste artigo, salienta-se nesta temática que designámos dos “velhos/novos espaços urbanos”, um aspeto ligado à organicidade urbana, e a uma designável “taxa de variabilidade da paisagem urbana e  da paisagem edificada” – uma ideia que aqui se avança – e sublinham-se os resultados que poderão ser obtidos com uma tal estratégia:
(i) Seja em termos de diversidade e associada adequabilidade de espaços privados disponibilizados – por exemplo dos  pequenos aos grandes fogos; das habitações com acesso directo à rua, àquelas com acesso através de galerias comuns ou semi-públicas; das grandes lojas e oficinas não poluentes aos muito pequenos estabelecimentos “boutique” com temáticas e/ou finalidades muito específicas e estimulantes da curiosidade pública (ex., pequena olaria artística com venda direta).
(2) Seja em termos de estimulante organicidade, global e pormenorizada, do tecido urbano que assim se desenvolve, marcado por inúmeros potenciais percursos tão funcionais como verdadeiramente lúdicos, através de “camadas” de preocupações de projeto de Arquitetura Urbana em que os aspetos se segurança e de funcionalidade dos serviços urbanos serão devidamente salvaguardados, mas sobrepostos com os, já referidos, aspetos de uso pedonal – funcional e lúdico/passeios (o flanar) – e com o adequado planeamento de meios de deslocação, ditos, “suaves” no espaço público (incluído transportes públicos “suaves”); ainda sobrepostos com aspetos estruturantes do uso da zona em relação com transportes públicos estruturadores ao nível do bairro e da cidade e com “bolsas” e “pontos” estratégicos de estacionamento de veículos privados.
(3) Seja, também, em termos de uma estimulante organicidade global da relativa “continuidade”, ou no mínimo, sequencialidade edificada, garante de cenários que acompanham e vão motivando o peão ao longo dos seus diversificados percursos: mais funcionais ou mais lúdicos; mais conviviais ou mais pessoais.
(4) Seja, ainda, em termos da estratégica e ampla diversidade de organizações e dimensões habitacionais que, assim, poderão ser disponibilizadas, destacando-se nesta matéria a diversidade de opções de acesso e relação com o espaço público, a diversidade de localizações e a adequação a variadíssimos modos, gostos e necessidades habitacionais; numa opção bem distinta daquela que se liga a um parque habitacional com quase globais características de uniformidade associada a um regulamento com muitas dezenas de anos e a opções de planeamento rígidas e pouco ligadas à evolução da realidade urbana.
Ferramentas de projeto
Confessando que o meu perfil actual não é de projetista, mas que o foi há algumas décadas, julga-se que as atuais ferramentas de apoio informatizado ao projeto permitem uma gestão e um “manuseamento” dessa referida desejada globalidade e diversidade de Arquitetura Urbana – visando-se esses objetivos de visão simultânea de verdadeiros “complexos” de espaços edificados, públicos e semi-públicos, e a sua estratégica, respetiva e relativa continuidade de variação – muito mais adequada e potente do que aquela que havia há algumas dezenas de anos, quando tudo se fazia “a lápis e tinta” sobre folhas de papel vegetal, em que qualquer pequena alteração levava a muito complexas e dimensionalmente sensíveis operações (ex., raspar, cortar, colar) ou ao redesenhar de muitas peças de projeto; e o que poderemos dizer das atuais ferramentas de apoio ao rigoroso levantamento dos espaços a intervencionar?
Tudo, julga-se, ferramentas que, desde que bem usadas e nunca substituindo a vital fase de esquisso das ideias e de verdadeira reflexão gráfica (sempre muito pessoal) sobre as mesmas, serão excelentes para se ir obtendo uma nova ou renovada paisagem urbana , vibrantemente construída por espaços cheios e vazios, sem monotonia e sem anonimato, capazes de nos proporcionarem os sítios próprios de vida que qualificam a nossa identidade e que nos orientam e sugerem comportamentos positivos nas nossas movimentações.
Alguns desenhos minimamente comentados

Conclui-se, aqui, a parte mais textual do artigo e avança-se, tal como foi apontado, logo de início, para a apresentação de alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos), que são minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas abordadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.


Fig. 01: A propósito de um “recanto urbano” que esboça uma situação caraterística de um bairro histórico lisboeta, evidencia-se a proximidade entre os vãos habitacionais e a potencial vivência do espaço público contíguo, uma proximidade que marca a continuidade perspetivada desse espaço público (vista em perspetiva e minimamente antecipada) e que “pontua” a diversidade orgânica de volumes edificados visíveis. Em termos de desenho trata-se de um esboço a tinta, que foi depois aguarelado e tratado com sombras azuis.


Fig. 02: Um “quadro” urbano que marca uma potencial sequência de deslocação ou passeio com o “objetivo”
(“inantigível”) de uma linha de horizonte marítima, bem enquadrada pelas edificações que vão assinalando, expressivamente, a descida da rua; um tecido urbano “micro” que sublinha esses aspetos de denteado que apontam a descida e que, com os seus aspetos de pormenor – vãos de porta e de janela – acentuam a escala humana que invade todo o “quadro”; e um potencial de escolha entre duas ruas que se juntam em primeiro plano, proporciona estimulantes alternativas e escolhas. Em termos de desenho, trata-se de um assinalar da própria importância do esboço no desenho final, com traços de lápis, ainda bem visíveis e que, praticamente, “saltam” para as aguadas de cor, que evidenciam ocres alaranjados num adequado equilíbrio com os azuis do rio/mar e do céu. 


Fig. 03: A esquematização de um “complexo” edificado norte-africano que evoca a forma de geração e de consolidação das primeiras povoações, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, quase sem ruas; os tons de ocre também se referem ao sentido primordial da terra como elementos de geração desta “colina habitada”; e é esta conjugação de formas edificadas, interligadas, continuadas ao longo das “frestas/ruas”, que se evidencia numa qualidade bem distinta dos modernistas e isolados edifícios racionalistas, bem separados uns dos outros e, afinal, nada solidários. O lápis de cor aguarelável é sempre um meio “sereno”, simples de manobrar, dependendo o efeito final do tempo que lhe dedicamos e que pode dar-nos, logo, um dado efeito, ou, com uns borrifos de água (bem controlados: atenção, pois há que dar tempo à água para se misturar na tinta), ser uma agradável surpresa (em textura e tonalidades).


Fig. 04: Um pouco a mesma lógica, apontada na figura 3, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, neste caso já com algumas ruas que se percebem existir pelas sombras que as ocupam; e em vez do ocre a tendência para o branco da cal e para o branco azulado das sombras; e o pontuar dos telhados alaranjados; um sentido de conjunto urbano que carateriza os bairros históricos, que ao perto se penetram em curiosas sequências e que, ao longe, são “presépios”. Um desenho a lápis de cor muito aguarelado.


Fig. 05: Ainda a mesma ideia de uma parte de bairro urbano que se mostra com um assinalável efeito de conjunto, como se cada edifício/”casa” pouco importasse por si próprio, mas sim como peça de um puzzle, mas um puzzle que não é um quebra-cabeças, mas sim uma entidade conjunta e afirmativa, em que as unidades de cada edifico se articulam com unidades de outros edifícios contíguos ou próximos e com parcelas unitárias do respetivo espaço público intersticial. Um desenho direto a tinta (sem preparação de lápis) onde os vãos de janela adquirem assinalável protagonismo, habitando tudo; e assim se volta à temática urbana com a grande família de vãos de janela humanizadores e de relação com o espaço público.


Fig. 06: E, por fim, neste artigo, a chegada à margem, ao final do percurso, vista, neste caso, do lado do mar, e sublinhando-se formalmente os variados edifícios esboçados nos mesmos tons, com idêntica escala geral, mas formalmente bem identificáveis; numa opção em que a unidade formal do bairro ou conjunto urbano significativo, pode conviver com a identidade de cada elemento/ edifício. E, novamente, o simples lápis aguarelado.


Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).