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terça-feira, dezembro 17, 2019

Ainda uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 713

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XV, n.º 713

Ainda uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 713

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)


A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias, como sabemos, “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em 2020, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Ainda uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 713

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia
O presente artigo procura assegurar a continuidade da reflexão sobre o que podemos considerar como os “velhos/novos espaços urbanos”, desenvolvida no artigo Infohabitar n.º 711 e continuada no n.º 712, através de alguns comentários informais a propósito de alguns desenhos realizados tendo por base enquadramentos de bairros históricos lisboetas e outros esboços mais livres ( 5 desenhos coloridos).
Os comentários abordam essencialmente as matérias da Arquitetura do habitar, numa perspetiva de arquitetura urbana de vizinhanças e paisagens de proximidade; não se descurando, em alguns casos, alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Salienta-se, ainda, a título de nota prévia e justificativa, que as ideias que são seguidamente apontadas correspondem a uma reflexão estritamente pessoal sobre a matéria.

Introdução explicativa
Como referência prática de apoio à leitura, lembra-se que no referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, se procurou desenvolver, esquematicamente, a ideia de que, nos tempos de hoje, quando se pretende imprimir ao espaço urbano uma renovada marca pedonal e de meios “suaves” de deslocação, facilitados, designadamente, pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelo crescimento do uso dos veículos pouco poluentes, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
No referido artigo Infohabitar n.º 711, intitulado “Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos”, desenvolveu-se uma abordagem de Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos, seguindo-se o apontamento de  alguns desenvolvimentos recentes e de referência, que apoiam estas ideias, desenvolvendo-se, em seguida a matéria do que se considera poder ser uma estratégica variabilidade urbana, que se julga poder ser até facilitada pelas novas ferramentas de projeto.
No artigo Infohabitar n.º 712 deu-se continuidade à referida reflexão, a partir da apresentação de alguns desenhos urbanos, taraefa que se continua no presente artigo.
Alguns desenhos comentados
Em seguida e tendo-se por base a apresentação de alguns desenhos à mão livre ( 5 desenhos coloridos), comentam-se as matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas que acabaram de ser referidas, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.

Fig. 01: a rua que se alarga e se transforma, com naturalidade, numa praceta, que é tanto espaço de convívio como de habitação e de outros usos urbanos associados - como lojas e pequenas oficinas (não poluentes); o sentido cénico de tudo isto, seja pela mistura tipológica, formal e funcional que aí é/pode ser, habitual e naturalmente, proporcionada, seja pela organicidade de planos/ideias de atividade (mais de circulação ou mais de estadia) que também aí são, habitualmente, desenvolvidos (fluxos de passagem e de observação e bolsas "de vagar", que podem motivar a permanência). No que se refere, especificamente, ao desenho trata-se de um esboço livre com formato A3 e com alguma elaboração, sendo a técnica usada também muito livre e espontânea: tinta esboçada de início, lápis de cor e aguadas, reforço do traço negro sequencial, etc.


Fig. 02: este enquadramento de certa forma dá continuidade aos comentários desenhados e escritos da anterior figura, tentando-se expressar, mais claramente, aquela ideia de praceta ou largo que resulta (ou partece resultar com naturalidade) de uma situação de alargamento da rua, espaço em que os percursos acabam por definir diversos e motivadores planos de vista (profundidade estimulnte) e sequências marcadas mais pela paragem (mais ou menos prolongada) nas "margens" um pouco coleantes da movimentação pedonal e pelo prolongamento dos mesmos percursos,que é acentuado e servido pelas "fugas" de perspetiva, que devem antecipar, mas não revelar inteiramente, deixando sempre algo à surpresa e podemos mesmo dizê-lo ao recreio pedonal de quem passeia; mas proporcionando-se sempre, e pelo menos, razoáveis condições de antecipação de vistas e portanto de segurança; e em tudo isto a mistura formal e funcional é motivo de dinamização visual e de uso dos espaços. Quanto ao desenho propriamente dito, aplicam-se os comentários da figura 1, mais uma nota especial pela tentativa de um reforço mais cuidado das sombras, acentuando-se a marcação de volumes, mas não se tapando excessivamente os conteúdos ilustrados.


Fig. 03: um desenho que relembra alguns dos comentários que integram o artigo anterior, designadamente, os referidos às imagens globais da cidade tradicional, marcadas pela relativa unidade de uma enorme diversidade de telhados (unidade na diversidade), sendo que o efeito global se refere ao de uma imagem bastante "una" de um assinalável espaço urbano, que neste caso é em boa parte o bairro de Alfama em Lisboa; outro aspeto interessante de considerar é o papel de paragem orientadora e de estímulo à visita e à continuidade dos percursos que é proporcionado por este tipo de vistas paisagísticas mais gerais, que podem marcar momentos significativos dos percursos pedonais mais estruturantes.


Fig. 04: novamente se abordam as temáticas urbanas e residenciais apontadas nas legendas das primeiras duas figuras deste artigo e designadamente: as sequências de vistas, sincopadas, marcando percursos; os planos de vistas definindo e repartindo estrategicamente percursos (tornando-os mais passeáveis e referenciáveis); e os alargamentos das ruas em "largos" ou pracetas naturalmente mais "de estar" e de uso mais intenso e portanto mais atraentes para outros usos para além da habitação, mas que constituem também outras formas de habitar a cidade, os seus bairros e as suas vizinhanças. Quanto a aspetos mais ligados ao desenho, propriamente dito, procurou-se uma formalização talvez mais clarificada das variadas superfícies e elementos constituintes, numa opção talvez mais "gráfica", em comparação com os desenhos das figuras 1 e 2.



Fig. 05: aqui a legenda remete-se, basicamente, a ser este desenho livre, para além de um desenho específico, uma fase pré-final do desenho anterior, apresentdo na figura 4; tratando-se de uma fase apenas a preto, branco e azuis/sombras; depois as aguadas de cor caíram sobre ele e definiram uma outra versão formal - fica ao leitor e observador a escolha do que considere mais interessante; afinal o desenho livre é/deve ser, essencialmente, um gozo/recreio controlado, em primeiro lugar para quem o realiza, "brincando" com misturas de "técnicas" e com faseamentos eles próprios originando novos desenhos, como é o caso, e, depois, o possível refcreio e gozo para quem o irá observar/apreciar.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XV, n.º 713

Ainda uma reflexão ilustrada sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 713

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa




Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, dezembro 03, 2019

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia:
A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias, como sabemos, “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em 2020, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Introdução e nota prévia
Alerta-se o leitor para um artigo que se inicia com uma reflexão textual, que se procurou não fosse excessivamente longa, seguida de uma reflexão informalmente ilustrada, em que alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos) são apresentados e minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às matérias tratadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Salienta-se, ainda, a título de nota prévia e justificativa, eventualmente desnecessária mas cuidadosa, que as ideias que são seguidamente apontadas correspondem a uma reflexão estritamente pessoal sobre a matéria.
Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos
A temática referida no título do presente artigo, através da frase “velhos/novos espaços urbanos”, refere-se, essencialmente, à ideia de que, nos tempos de hoje, numa época (desejavelmente) marcada pelo uso pedonal e “suave” (modos suaves de movimentação: em bicicletas; em transportes públicos eléctricos; em veículos partilhados, etc.) do espaço público urbano, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
Cabe aqui atentar em que uma tal integração profunda e morfológica de edifícios e de espaços públicos, levará a projetos globais e bem conjugados, em que, verdadeiramente, os alçados do edificado sejam, também, alçados de ruas e pracetas, e em que os pisos térreos, por exemplo, eventualmente utilizados para equipamentos coletivos, possuam um projeto, e uma previsão de arranjo, uso e manutenção que, verdadeiramente, associe cuidados privados, comuns e públicos, prevendo-se e procurando-se influenciar o que ali irá acontecer nos espaços de “rua” contíguos.
Uma perspetiva de reflexão projetual que será, portanto, associável, globalmente, a soluções urbanas,  habitacionais e funcionalmente mistas, formalmente variadas, multipontualmente marcadas pela escala e pelo uso humanos e que apresentarão, com naturalidade, alguma similitude com as soluções que marcaram boa parte das nossas povoações e bairros “históricos”.
Uma nota importante a considerar
Importa, no entanto, dizer, desde já, que esta possibilidade não encerra em si qualquer tipo de criticável saudosismo arquitetónico, mas sim, basicamente, a ideia de podermos usar um léxico amplo e extremamente variado de soluções de arquitetura urbana, reinterpretadas, naturalmente, à luz de novas e atuais exigências funcionais e de novos modos de habitar, e não continuarmos a usar o catálogo, comparativamente, muito limitado e pobre de soluções que poderemos designar de “funcionalistas”, ainda por cima, tantas vezes empobrecidas, nos seus aspetos estruturantes e numa frequente ausência de adequada pormenorização, por projetos de Arquitetura que não souberam e/ou “puderam” usar esse “funcionalismo” de forma expressivamente adequada e marcante, e que, tantas vezes se limitaram a repetir, sem verdadeira racionalidade, receitas funcionais, habitacionais e de equipamentos que foram espartilhando a cidade em zonas e microzonas funcionalmente quase estanques, frequentemente bloqueadoras da natural acessibilidade mútua, e, ainda por cima, tantas vezes vazias de qualquer marca de arte urbana ou de coerente e motivadora paisagem urbana.
Alguns desenvolvimentos recentes e de referência
Chegados aqui, regista-se que num recente estágio orientado pelo autor destas linhas (de um mestrando do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), dedicado, globalmente, às matérias associadas ao uso do espaço público e à respetiva satisfação com o espaço público em conjuntos de habitação de interesse social brasileiros, e no âmbito das visitas práticas realizadas a diversos conjuntos urbanos e residenciais, aconteceu uma natural vontade de visitar também um dos principais bairros históricos de Lisboa, Alfama (considerado um dos mais antigos bairros da Europa), exatamente porque há, hoje em dia, a ideia, naqueles que ocuparam boa parte das suas vidas a estudarem o espaço urbano, que as “doutrinas” racionalistas não têm, frequentemente, o necessário “suplemento de alma” que faz de um bairro o “nosso bairro”, de uma rua a “nossa rua” e de um edifício e de uma habitação a “nossa casa”.
Considerando tudo isto, precisamos de exigir mais dos nossos espaços urbanos e de vida e há que procurar, designadamente, onde tais espaços de vida parecem “invadir”, positivamente, um relativo conjunto de estimulantes e curiosas sequências urbanas – sequências estas integradas por espaços bem pormenorizados e mais de “andar” ou mais de “estar”.
Atente-se que a crítica aqui colocada à doutrina urbana modernista ou racionalista é no sentido de ela não incluir “frequentemente” esse suplemento de alma urbano e habitacional, porque quando tais conjuntos urbanos são bem projetados eles têm essa qualidade; mas tais casos muito positivos são, infelizmente, raros e entre os quais, em Portugal, sobressai o excelente bairro de Olivais Norte em Lisboa.
E a propósito de toda esta temática sugere-se a leitura de um recente artigo do arquiteto e gestor David Galbraith, intitulado “A New Approach to Designing Smart Cities”, que está disponível na WWW e que se inicia com a seguinte frase, que é bem clara e sintética: “One day, I’d like to design a truly modern, functional city with the character of a medieval hill town”. 
Sobre uma estratégica variabilidade urbana
Por fim, para rematar a parte de texto deste artigo, salienta-se nesta temática que designámos dos “velhos/novos espaços urbanos”, um aspeto ligado à organicidade urbana, e a uma designável “taxa de variabilidade da paisagem urbana e  da paisagem edificada” – uma ideia que aqui se avança – e sublinham-se os resultados que poderão ser obtidos com uma tal estratégia:
(i) Seja em termos de diversidade e associada adequabilidade de espaços privados disponibilizados – por exemplo dos  pequenos aos grandes fogos; das habitações com acesso directo à rua, àquelas com acesso através de galerias comuns ou semi-públicas; das grandes lojas e oficinas não poluentes aos muito pequenos estabelecimentos “boutique” com temáticas e/ou finalidades muito específicas e estimulantes da curiosidade pública (ex., pequena olaria artística com venda direta).
(2) Seja em termos de estimulante organicidade, global e pormenorizada, do tecido urbano que assim se desenvolve, marcado por inúmeros potenciais percursos tão funcionais como verdadeiramente lúdicos, através de “camadas” de preocupações de projeto de Arquitetura Urbana em que os aspetos se segurança e de funcionalidade dos serviços urbanos serão devidamente salvaguardados, mas sobrepostos com os, já referidos, aspetos de uso pedonal – funcional e lúdico/passeios (o flanar) – e com o adequado planeamento de meios de deslocação, ditos, “suaves” no espaço público (incluído transportes públicos “suaves”); ainda sobrepostos com aspetos estruturantes do uso da zona em relação com transportes públicos estruturadores ao nível do bairro e da cidade e com “bolsas” e “pontos” estratégicos de estacionamento de veículos privados.
(3) Seja, também, em termos de uma estimulante organicidade global da relativa “continuidade”, ou no mínimo, sequencialidade edificada, garante de cenários que acompanham e vão motivando o peão ao longo dos seus diversificados percursos: mais funcionais ou mais lúdicos; mais conviviais ou mais pessoais.
(4) Seja, ainda, em termos da estratégica e ampla diversidade de organizações e dimensões habitacionais que, assim, poderão ser disponibilizadas, destacando-se nesta matéria a diversidade de opções de acesso e relação com o espaço público, a diversidade de localizações e a adequação a variadíssimos modos, gostos e necessidades habitacionais; numa opção bem distinta daquela que se liga a um parque habitacional com quase globais características de uniformidade associada a um regulamento com muitas dezenas de anos e a opções de planeamento rígidas e pouco ligadas à evolução da realidade urbana.
Ferramentas de projeto
Confessando que o meu perfil actual não é de projetista, mas que o foi há algumas décadas, julga-se que as atuais ferramentas de apoio informatizado ao projeto permitem uma gestão e um “manuseamento” dessa referida desejada globalidade e diversidade de Arquitetura Urbana – visando-se esses objetivos de visão simultânea de verdadeiros “complexos” de espaços edificados, públicos e semi-públicos, e a sua estratégica, respetiva e relativa continuidade de variação – muito mais adequada e potente do que aquela que havia há algumas dezenas de anos, quando tudo se fazia “a lápis e tinta” sobre folhas de papel vegetal, em que qualquer pequena alteração levava a muito complexas e dimensionalmente sensíveis operações (ex., raspar, cortar, colar) ou ao redesenhar de muitas peças de projeto; e o que poderemos dizer das atuais ferramentas de apoio ao rigoroso levantamento dos espaços a intervencionar?
Tudo, julga-se, ferramentas que, desde que bem usadas e nunca substituindo a vital fase de esquisso das ideias e de verdadeira reflexão gráfica (sempre muito pessoal) sobre as mesmas, serão excelentes para se ir obtendo uma nova ou renovada paisagem urbana , vibrantemente construída por espaços cheios e vazios, sem monotonia e sem anonimato, capazes de nos proporcionarem os sítios próprios de vida que qualificam a nossa identidade e que nos orientam e sugerem comportamentos positivos nas nossas movimentações.
Alguns desenhos minimamente comentados

Conclui-se, aqui, a parte mais textual do artigo e avança-se, tal como foi apontado, logo de início, para a apresentação de alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos), que são minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas abordadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.


Fig. 01: A propósito de um “recanto urbano” que esboça uma situação caraterística de um bairro histórico lisboeta, evidencia-se a proximidade entre os vãos habitacionais e a potencial vivência do espaço público contíguo, uma proximidade que marca a continuidade perspetivada desse espaço público (vista em perspetiva e minimamente antecipada) e que “pontua” a diversidade orgânica de volumes edificados visíveis. Em termos de desenho trata-se de um esboço a tinta, que foi depois aguarelado e tratado com sombras azuis.


Fig. 02: Um “quadro” urbano que marca uma potencial sequência de deslocação ou passeio com o “objetivo”
(“inantigível”) de uma linha de horizonte marítima, bem enquadrada pelas edificações que vão assinalando, expressivamente, a descida da rua; um tecido urbano “micro” que sublinha esses aspetos de denteado que apontam a descida e que, com os seus aspetos de pormenor – vãos de porta e de janela – acentuam a escala humana que invade todo o “quadro”; e um potencial de escolha entre duas ruas que se juntam em primeiro plano, proporciona estimulantes alternativas e escolhas. Em termos de desenho, trata-se de um assinalar da própria importância do esboço no desenho final, com traços de lápis, ainda bem visíveis e que, praticamente, “saltam” para as aguadas de cor, que evidenciam ocres alaranjados num adequado equilíbrio com os azuis do rio/mar e do céu. 


Fig. 03: A esquematização de um “complexo” edificado norte-africano que evoca a forma de geração e de consolidação das primeiras povoações, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, quase sem ruas; os tons de ocre também se referem ao sentido primordial da terra como elementos de geração desta “colina habitada”; e é esta conjugação de formas edificadas, interligadas, continuadas ao longo das “frestas/ruas”, que se evidencia numa qualidade bem distinta dos modernistas e isolados edifícios racionalistas, bem separados uns dos outros e, afinal, nada solidários. O lápis de cor aguarelável é sempre um meio “sereno”, simples de manobrar, dependendo o efeito final do tempo que lhe dedicamos e que pode dar-nos, logo, um dado efeito, ou, com uns borrifos de água (bem controlados: atenção, pois há que dar tempo à água para se misturar na tinta), ser uma agradável surpresa (em textura e tonalidades).


Fig. 04: Um pouco a mesma lógica, apontada na figura 3, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, neste caso já com algumas ruas que se percebem existir pelas sombras que as ocupam; e em vez do ocre a tendência para o branco da cal e para o branco azulado das sombras; e o pontuar dos telhados alaranjados; um sentido de conjunto urbano que carateriza os bairros históricos, que ao perto se penetram em curiosas sequências e que, ao longe, são “presépios”. Um desenho a lápis de cor muito aguarelado.


Fig. 05: Ainda a mesma ideia de uma parte de bairro urbano que se mostra com um assinalável efeito de conjunto, como se cada edifício/”casa” pouco importasse por si próprio, mas sim como peça de um puzzle, mas um puzzle que não é um quebra-cabeças, mas sim uma entidade conjunta e afirmativa, em que as unidades de cada edifico se articulam com unidades de outros edifícios contíguos ou próximos e com parcelas unitárias do respetivo espaço público intersticial. Um desenho direto a tinta (sem preparação de lápis) onde os vãos de janela adquirem assinalável protagonismo, habitando tudo; e assim se volta à temática urbana com a grande família de vãos de janela humanizadores e de relação com o espaço público.


Fig. 06: E, por fim, neste artigo, a chegada à margem, ao final do percurso, vista, neste caso, do lado do mar, e sublinhando-se formalmente os variados edifícios esboçados nos mesmos tons, com idêntica escala geral, mas formalmente bem identificáveis; numa opção em que a unidade formal do bairro ou conjunto urbano significativo, pode conviver com a identidade de cada elemento/ edifício. E, novamente, o simples lápis aguarelado.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

segunda-feira, maio 21, 2018

642 - Uma rua bem habitada - A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º I


Uma rua bem habitada 


A propósito do livro de Xavier Monteys (*) “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo inicia-se uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.


Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; havendo, sempre, as bibliotecas...


Como os leitores sabem tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.


Julga-se que numa actualidade marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito que lemos na WWW e do muito que descobrimos na mesma WWW, mas uma actualidade também marcada por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente sobre uma dada temática, velocidade essa que é incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas que, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” no pensar sobre um dado tema, dificultando pensamentos bem desenvolvidos sobre o mesmo, e aliás numa actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas,


será altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; nesta caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui inventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar sobre o actual quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.


A partir de agora a Infohabitar irá procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.


O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys intitulado “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Notas explicativas

No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Xavier Monteys (*) intitulado “La calle y la casa. Urbanismo deinteriores”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2017 (**).
Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos objectivos referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas.
Nas referidas reflexões procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Xavier Monteys.

Apresentação geral

Nas palavras de Xavier Monteys: “este livro aspira a integrar uma trilogia sobre o espaço que habitamos – com os meus livros anteriores Casa collage (2001, com Pere Fuertes) e La habitación (2014)”; livros estes também já disponíveis na mesma coleção da Editorial Gustavo Gili.
Embora não seja este o objectivo deste texto apetece referir a cuidada e atraente edição deste livro, agradavelmente quadrangular e bem manuseável, com uma capa a duas cores, bem ilustrada com um desenho esboçado de Louis Khan, que, tal como aponta o autor do livro procura “ajudar a tornar visível uma dimensão poliédrica da rua, mas com a atenção centrada em tudo aquilo que a relaciona mais intensamente com a casa”; objectivo este que, segundo o autor, é o objectivo deste seu livro.
Um objectivo que, cruzado com a excelente e desenvolvida “Introdução” de reflexão teórico-prática com cerca de 15 pp, e uma estratégia de apresentação agradavelmente comentada, bem fundamentada (ver as úteis e quase constantes, mas bem legíveis, notas de pé de página) e muito bem ilustrada (todo o livro é extensamente ilustrado a preto/branco), nos leva a uma sua leitura estimulante; pois quando se termina a introdução estamos, praticamente, dentro do “miolo” temático da obra e está bem ganha a embalagem para se ir, com gosto, até ao fim.
O livro tem 168 pp. e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir da referida introdução de apresentação teórica e prática, seguindo-se os 24 subtemas de reflexão; (ii) seja uma leitura subtema a subtema, que se recomenda que seja feita após a leitura da introdução; (iii) seja uma leitura inicial mais global e que proporciona um prático guia de (re)leitura posterior.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, naturalmente, bem marcado por arquitectos interessados no urbanismo de pormenor e no habitat humano, mas igualmente apetecível por todos aqueles profissionais e cidadãos que se interessem por essas matérias; a agradabilidade formal da escrita de Xavier Monteys, o seu encadear de ideias bem claras e ricas, a referida extensa ilustração, que acompanha a par e passo o texto, e o tema geral referido a como podemos ter uma cidade feita de ruas e habitações mutuamente vitalizadas, assim o proporciona.

Estrutura

Depois de uma introdução com grande interesse e expressiva autonomia como texto, o autor abre para 24 subtemas ilustrados, que em seguida se exemplificam na sua diversidade e oportunidade e que podem ser lidos, sequencialmente ou, isoladamente, um a um.
Exemplos dos subtemas abordados: entrar!; as ruas de Piranesi; ruas cobertas; ruas como palácios, janelas singulares, o que fazemos na rua, as extensões da rua, ruas de celulóide, a rua de Corbusier, a rua como escola, ruas no espaço, a pintura as ruas e a chuva, a casa praça e a casa rua, etc.

Conteúdos

Apontam-se, agora, algumas ideias que vão sendo revisitadas ao longo do livro de Xavier Monteys, seja mais directamente, na introdução, seja, bem a propósito, à medida que se dedica aos diversos subtemas, alguns dos quais acima apontados; e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo citadas, entre aspas, algumas das suas frases; lembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.
Este livro aborda a rua e o habitar a rua numa perspectiva ampla, considerando-a e comentando-a como “um espaço mental, mas também um espaço mental, um estado de ânimo.”
Refere-se que terá havido um certo privilegiar da praça urbana, designadamente, em termos do seu papel na promoção do convívio, enquanto que “a rua não teve a mesma sorte”.
E salienta-se algo que ficou muito presente depois da leitura do livro: a ideia de se dever assumir a rua como verdadeiro lugar e para além da rua com infraestrutura; uma ideia que se considera ser de grande oportunidade, pois “a rua não é o resto [...], é o que mantém juntos os edifícios.” E decorrendo destes aspectos a bem útil ideia de “rua como espaço servido e não apenas espaço servidor.”
Há, depois, um privilegiar, bem oportuno, em diversas das subtemáticas (itens que estruturam o livro) de uma reflexão sobre a actual e futura diversidade, inovação e “matização” dos usos associados à rua e à habitação (à “casa”), em “contaminações mútuas”, que podem e poderão gerar desenvolvimentos da convivialidade e mesmo de um uso público dos espaços domésticos e, inversamente, de usos mais privados e/ou domésticos do espaço público, enquanto e simultaneamente podem também ser gerados interessantes e diversificados “espaços ambíguos que assumem inegável interesse na actualidade”.
E aqui, com certeza, poderão ser feitas interessantes pontes temáticas com as matérias que o autor desenvolveu nas suas obras anteriores –Casa collage, com Pere Fuertes e La habitación.
Conjugadamente com estas ideias o autor lança a noção, que se partilha, de que a função de circulação não é elemento determinante de uma habitação e, sequencialmente, pensa-se, de um espaço de habitar que integre edifícios e espaços públicos (vizinhança urbana); e simultaneamente lança-se a noção da importância que numa rua bem habitada/habitável tem o “espacio compartido” e “negociável” [entre peões e condutores], que o próprio autor refere ter sido proposta pelo Eng.º de tráfego Hans Mondermann; e aqui há que comentar que se trata de mais uma interessante noção proposta pela engenharia de tráfego e lembro que nas minhas reflexões sobre o tema foi também na engenharia de tráfego que encontrei, há bastantes anos, as primeiras referências destacadas à importante noção de vizinhança próxima.
Importa, agora, salientar a fluidez e a riqueza da leitura deste livro, que nunca fica “aprisionado” (aspas minhas) nas matérias arquitectónicas, mas que aborda e exemplifica ideias e conceitos com noções, imagens e textos, bem a propósito e bem claros, não só de arquitectos, mas, frequentemente, de outros artistas e escritores, como é o caso Orhan Pamuk e George Perec; e o resultado ganha muito na clareza discursiva e exemplificativa, fica, afinal, tal como acima referi, um livro para todos sobre um assunto que a todos nos interessa, o de uma rua mais viva e, muitas vezes, até agradavelmente doméstica.
Um aspecto cumulativo do interesse deste livro é basear-se, em parte, na vivência urbana de duas cidades: Barcelona e Lisboa. Lisboa relativamente à qual o autor aponta: a luz, a variedade, o dramatismo, etc. Muitos aspectos a ter em conta no (re)fazer da rua, num “olhar por cima da racionalidade ou funcionalidade”, que o autor considera determinante.
Ao longo do livro e sempre tendo em contas estas perspectivas, abordam-se e desenvolvem-se 24 subtemas de reflexão; iniciados com o tema “entrar” – entrar no edifício e sair da rua e vice-versa –, abordando-se aspectos físicos de “acompanhamento” e marcação das diversas acções desempenhadas na rua e dando-se o devido relevo à própria experiência humana do viver a rua e as suas margens edificadas de uma forma rica e o mais possível completa; o que, portanto, nos leva muito para além dos aspectos funcionais aplicáveis.
Desenvolvem-se e ilustram-se, assim, reflexões: (i) tanto sobre aspectos mais ligados à paisagem urbana, como as perpectivas; (ii) como sobre elementos concretos urbanos como são, por exemplo,  as pequenas ruas/ruelas e as ruas verdes/arborizadas, (iii) e como sobre as ligações destas temáticas às interpretações amplas e sintéticas que delas são feitas por quadros artísticos diversificados, designadamente, ligados ao cinema e à pintura; mas sempre interpretações centradas na rua, e no seu sentido de paisagem urbana humanizada e estrategicamente confinada.
Trabalham-se, depois, neste livro, as margens das ruas, na sua ligação/fusão com os edifícios e as habitações e, ainda, os espaços ambíguos, que não se sabe se serão ruas, tal como aponta e comenta o autor.
Sobre as margens da rua aborda-se uma “primeira coroa” dos edifícios e suas habitações que deve ser influenciada por esse seu papel dialogante com a rua e com as respectivas habitações – pois, tal como aponta o autor, a cidade molda a envolvente mais pública dos quarteirões e, designadamente, os compartimentos e outros elementos edificados que integram essa primeira coroa mais pública, na qual surgem vãos com diversas funções, de protecção, de ligação, de estadia e de relação.
E, em seguida, o autor oferece-nos outras reflexões bem a propósito, entre as quais e a título de exemplo se apontam as seguintes:
E as catedrais e as grandes galerias comerciais o que são?
E as muito discutidas galerias habitacionais, suas origens e desenvolvimentos; como se ligam à natureza das ruas?
E a evolução actual da rua, gradualmente a esvaziar-se dos serviços que a basearam?
Abordam-se, ainda, aspectos particulares mas muito estimulantes do uso da rua e da sua caracterização, desde as montras, aos espaços em que a rua, praticamente, entra no seu edificado marginal, àqueles espaços que se estendem sobre a rua a partir dos edifícios marginais e a outras tipologias fisicamente marginais.
Desenvolve-se, ainda, no livro uma pausada reflexão sobre a rua pensada como um cenário e não só como sítio de trânsito e de actividades, tendo-se em conta a rua de hoje, que propicia e acolhe actividades e comportamentos de hoje e não se esquecendo que a rua e a casa  “intercambiam coisas” e têm fronteiras entre ambas que “parecem por vezes diluir-se e outras afirmar-se com clareza.”
Matérias estas que constroem a riqueza e a humanização da rua.
Lembra-se a rua citadina sem horários, que serve bem a cidade das muitas pessoas sozinhas e dos casais, pois “cada vez mais a rua parece ser um serviço doméstico [...]”.
Avança-se, depois, no livro, na rua das “anomalias” (elementos de arquitectura urbana) positivas, que transformam algumas ruas em lugares mais habitáveis do que outras, pois “há algo nos acidentes/circunstâncias físicas de uma rua, nas suas irregularidades, que concede a esses espaços uma qualidade quase doméstica.”
E, sequencialmente, lembram-se as ruas que convidam a sentar, que estimulam relações de proximidade e que favorecem o lazer e o passeio; e as ruas que se prolongam por outras ruas, mais pequenas, por becos (sem saída) e que de certo modo pertencem já em boa parte, também, aos edifícios envolventes, criando-se uma unidade urbana muito estimulante e localmente caracterizada, onde as esquinas têm uma importância bem real.
Paralelamente a estas reflexões sobre espaços urbanos reais o autor regista e ilustra outras matérias, entre as quais as ligadas à presença da rua na arte e especificamente no cinema, sublinhando que esta arte procura sempre “transmitir a ideia de uma cidade habitada e real” e marcada pelo peso/presença da habitação/da casa e da rua como cidade habitada.; e que a pintura procura representar a rua “na sua totalidade e, portanto, e ainda que com os seus erros, recriar o seu espaço e a sua atmosfera. ”
E considera-se ser muito interessante e oportuna esta procura da representação e caracterização da rua na sua máxima totalidade; uma procura que nos pode ajudar a resgatar tantos fracassos urbanos.
Mais no final do livro e de certa forma abrindo a reflexão para outros níveis físicos, abordam-se interessantes e inovadoras novas formas de habitar a rua e a casa .
E termina-se lembrando, e desenvolvendo, extensamente, a noção, que “há ruas em que o mais importante são as árvores.” E considera-se muito significativo que, praticamente no remate deste livro, Xavier Monteys dedique a sua atenção à relação entre natureza e cidade, ou verde urbano e rua citadina. 

Reflexões a propósito

Seriam muitas, mas ficarão, essencialmente, para os leitores aos quais se recomenda a leitura deste livro; e que, caso o queiram poderão, até, depois dessa leitura, dialogar sobre ele nesta nossa revista, bastando para tal que nos enviem esses comentários, que poderão ficar ligados a este artigo, e aí disponíveis para quem os queira ler.
Julgou-se, no entanto, interessante lembrar, aqui, como minha reflexão pessoal e de síntese sobre este livro (portanto, salienta-se ser uma escolha muito pessoal), a ideia, lançada, pelo autor, e com contribuições de Alejo Carpentier e Alexander Humboldt, de que por vezes um “mau traçado” urbano nos oferece “uma impressão de paz e frescura, que dificilmente encontraríamos onde os urbanistas conscientes exerceram a sua ciência.”

Breves notas de remate e sobre uma importante característica suplementar deste livro

Já vai longa esta apresentação comentada, mas este livro merece-a bem; e apenas para concluir sublinha-se que, para aqueles que, como eu, procuram, por regra e naturalmente, em cada livro caminhos para outras reflexões, livros e fontes, associadas ao que trata cada livro, então não tenham dúvida porque este “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”, de Xavier Monteys, nos oferece esse importante suplemento de alma e interesse suplementar de abertura e aprofundamento temáticos, através de um rico e diversificado manancial de indicações relativamente a muitas outras leituras e referências sobre este excelente tema da relação entre rua e habitar.


Boa leitura é o que se deseja,

António Baptista Coelho



(*)Xavier Monteys é catedrático da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), na qual dirige o grupo de investigação Habitar e é professor na Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona (ETSAB).


(**) Xavier Monteys, "La calle y la casa. Urbanismo de interiores", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2018
Espanhol, ISBN/EAN: 9788425229756

Página do site da editora dedicado ao livro:


https://ggili.com/la-calle-y-la-casa-libro.html



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Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar
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