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domingo, dezembro 16, 2012

420 - Novidades do 2.º CIHEL e "EU AMO, EU CUIDO!" artigo de Marilice Costi - Infohabitar 420

Infohabitar, Ano VIII, n.º 420

Depois de uma síntese sobre o 2.º CIHEL, feita três meses antes do Congresso, temos todo o gosto de retomar o contato com a colega Marilice Costi, uma das primeiras redatoras do Infohabitar, editora da Revista o Cuidador, que se recomenda e cujo link se anexa no final desta edição, e que nos enviou um artigo sobre a sua cidade, Porto Alegre, intitulado "Eu amo, eu cuido!

À colega Marilice um muito obrigado por mais esta participação e a todos os leitores do Infohabitar o pedido de uma atenção muito especial a este 2.º CIHEL, que promete, em termos de temas a tratar e de reforço de uma fundamental ideia de fórum sociotécnico e,

os desejos de um Natal com muita Paz e Alegria e de um Bom 2013.

A edição do Infohabitar e a Comissão Organizadora do 2.º CIHEL




A NÃO PERDER: O 2.º CONGRESSO INTERNACIONAL DA HABITAÇÃO NO ESPAÇO
LUSÓFONO - 2.º CIHEL - DE 13 A 15 DE MARÇO DE 2013, NO LNEC EM LISBOA

O cuidado com o território, a cidade e a promoção habitacional numa perspetiva de desenvolvimento coerente e sustentado e no âmbito da lusofonia, são os grandes temas a discutir no 2.º CIHEL,um congresso internacional, organizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, de 13 a 15 de março de 2013, associado a outras atividades, entre as quais um Workshop em 12 e 13 de março. Enriquecendo-se o leque temático e a dinâmica organizativa deste evento, a ele se associou o 1.º Congresso CRSEEL - Construção e Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono, promovido pelo Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

O 2.º CIHEL tem o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República, é presidido pelo Secretário Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e conta já com importantes apoios, designadamente, de Portugal, de Angola e do Brasil, bem como de associações profissionais da lusofonia; apoios constantes no artigo: http://infohabitar.blogspot.pt/2012/12/2-cihel-habitacao-cidade-territorio-e.html

O 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - 2.º CIHEL - vai reunir no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), um conjunto alargado de congressistas dos nove países lusófonos e um importante leque de conferencistas, empresários e responsáveis institucionais, com o objectivo de divulgar e discutir conhecimentos, e também de se constituir um fórum sociotécnico transnacional e falado em português, dirigido para a construção de laços fortes e duráveis de cooperação técnica e económica na respetiva grande área temática, seja pela realização em outros países da CPLP dos próximos congressos, seja pelo desenvolvimento continuado de outras atividades com forte caráter prático e utilidade socioeconómica.

São os seguintes os temas a tratar no 2.º CIHEL em 125 comunicações já entregues: a)programas e políticas urbanas e habitacionais; b) cidade habitada, território e ambiente; c) da urbanidade no espaço público à cidade informal; d) o habitar nas comunidades rurais; e) da habitação de interesse social à diversificação tipológica; f) integrar a reabilitação urbana e habitacional; g) sistemas, processos, tecnologias e materiais de construção; h) práticas de investigação e intervenção urbana e habitacional.

Salientam-se as seguintes atividades associadas ao Congresso e realizadas na mesma semana de 11 a 16 de março de 2013:

. 1.ª reunião AICEP/CECP/CIHEL/IT (com um grupo de empresários lusófonos e inscrições por convite);
. 1.º Workshop CIHEL, apoiado pela AICEP, pela SECP e pelo Instituto do Território/IT (inscrições em conjunto com Congresso);
. Exposição de entidades e empresas em pequenos stands disponíveis no átrio do Centro de Congressos do LNEC;
. inauguração de um portal informático lusófono, desenvolvido pelo Instituto do Território e pelo LNEC sobre os temas do congresso;
. reunião técnica promovida pelo Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP) no pós-congresso (em estudo).
. visitas técnicas na zona de Lisboa (em estudo).




Por tudo isto julga-se que para muitos técnicos, industriais, investigadores, empresários, e outros decisores será importante a participação no 2.º CIHEL, com inscrições abertas no site do Congresso, em: http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html

A frequência conjunta do workshop e do Congresso tem condições especiais para estudantes e salienta-se ainda que a Ordem dos Arquitectos (OA), no âmbito do seu Conselho Regional de Admissão Sul, decidiu que a participação no 2.º CIHEL e no seu Workshop prévio contarão para a formação obrigatória em temáticas opcionais dos estágios de ingresso na O.A. com 8 créditos, sendo as respetivas condições de inscrição (175 € incluindo IVA) idênticas às já existentes para as inscrições de estudantes apenas no Congresso.

Conclui-se esta breve síntese salientando que são agora importantes todos os apoios organizativos ao 2.º CIHEL cujas modalidades poderão ser consideradas em pormenor, como, por exemplo, inscrições no congresso, documentação e divulgação associada ao congresso e participação na referida exposição - aspetos estes facilmente tratados através da inscrição no Congresso, facilmente realizda no site - http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html - ou através de um contato com a respetiva organização, em organizacao2cihel@lnec.pt.

Muito em breve aqui no Infohabitar e através das mailing lists do Grupo Habitar iremos desenvolver uma maior divulgação das temáticas previstas e já entregues para apresentação no Congresso; deram já entrada mais de 120 comunicações completas.

LISBOA E LNEC, DEZEMBRO DE 2012, a Comissão Organizadora e a Comissão Científica do 2.º CIHEL

Informações, correspondência e pedidos de esclarecimento dirigidos a: LNEC Apoio à Organização de Reuniões - Av. de Brasil 101 1700-066 LISBOA
Tel.: 21 844 34 83   Fax: 21 844 30 14 organizacao2cihel@lnec.pt





Artigo Infohabitar semanal - Artigo Infohabitar semanal - Artigo Infohabitar semanal

EU AMO, EU CUIDO!

Marilice Costi

(Artigo sobre a cidade de Porto Alegre, publicado no livro PRESENÇA LITERÁRIA 2012 - Porto Alegre: Academia Literária Feminina do RS, 2012. p.55-57, imagens de Marilicie Costi)

Sábado. Primeiro cuidar de si. Ao seguir para a academia, percebo o meu bairro, considerado como o Bom Fim - os bairro de Bem Viver - em uma das reuniões coordenadas pela UNESCO com vistas ao V Congresso da Cidade de Porto Alegre. Sou do bairro Farroupilha há quase quarenta anos. Orgulhosa de ser, decido assumir a minha parte no meu lugar, o espaço ao qual nos vinculamos afetivamente.

Ontem, ventou e choveu, mais ventou. Há galhos de árvores pelas ruas e, à minha frente, estão sacos de lixo cheios e vazios que foram trazidos pelo vento e que seguirão para os bueiros. Lastimo não ter trazido uma sacola de casa. Junto dois deles retirando-os da boca-de-lobo e os cheios que foram colocados na calçada defronte a um condomínio da década de setenta. Meu cérebro linka com a palestra do Prefeito de Bogotá, a questão da cidadania. Sou portoalegrense e preciso fazer minha parte.


Fig. 1

Estou sem luvas, mas decido tirar aquilo da calçada. E percebo que há matéria orgânica misturada com material reciclável. No peso! Aqui e ali, amasso as caixas de leite com os pés e coloco os volumes diminuídos nas pequenas lixeiras colocadas ali perto no ano passado. Olho para o céu e percebo uma peça despencando da fiação. Páro, como faria meu pai, e procuro alguém por perto. Uma moça! Deve ser moradora. Ela me diz que cansou de pedir. Que eles vêm, amarram com arames mas estes logo se rompem. E tudo se repete. Observo que aquilo deve ser de uma das múltiplas redes que poluem a paisagem, as NETs. Um lixo no ar? Mas reclame novamente, pedi. Isto poderá cair na nossa cabeça.

Já vi tudo? Catadores dentro dos novos containers, moradores de rua futricando em busca de latinhas...e comentários: tem gente dormindo dentro e é por isso que as ruas estão ficando vazias! O caminhão os leva! E quem vai se dar conta deles? O imaginário urbano? Respiro fundo e entro na farmácia onde conto minhas peripécias aos atendentes. Ganhei interessados no V Congresso?

Atravesso a rua e comento com um vizinho com quem nunca me comuniquei. Ele está desalentado: o caminhão recolhe o lixo seco dos vizinhos e não leva o seu!... Daí, os moradores de rua estraçalham os sacos na minha calçada e tenho que limpar! Por isso, misturo tudo e coloco dentro do container. Mas senhor Alexandre, ligue para 156. Faça sua queixa! Não adianta, arguiu, cansei deles. A credibilidade pública! Repito e nada de convencê-lo. E ele ainda diz: Veja, o container está na frente do bueiro, não deveria! Olha ali, empurraram para cá, colocaram lá!

Fig. 2

Mais adiante, há latas de tintas enferrujadas (as mesmas há anos!) na esquina. A falta de fiscalização foi apontada naquela reunião! Fazer cumprir a legislação! Adiantaria punir?

O meu andar vai ficando quixotesco. Um homem mexe em muitos sacos de lixo na nossa pracinha. Vou até ele e lhe pergunto se colocou aquele saco no meio do canteiro gramado. Não fui! Sentiu medo. Ali há uns quatro quilos de ossos, provavelmente retirados durante a busca na grande lixeira, um chamariz aos cães. Não levo o assunto adiante e coloco-o dentro do container. Acho bom que, ao levantar a tampa, há um sistema hidráulico que reduz o esforço para abri-lo. E começo a amar essas coisas que limpam meu bairro! E acredito que tudo foi escolha de cabeça muito bem pensada! Quem não produz lixo?

Lembrei de minha infância em Passo Fundo e de meu pai a dizer: Falta educação no povo! As escolas! Como é importante estimular o sentimento de pertença! Amo este lugar, estou aqui!



Fig. 3

Tive vontade de conversar com todos os vizinhos, de bater de porta em porta... Quem me acompanharia? Afinal, ser cidadão não é esperar que os outros façam tudo!

E eu iria longe com o encadeamento de estímulos urbanos à minha memória. Tão importante mexer com os neurônios! Corro para a academia. Quase fechando. Mas estou feliz. Afinal, cuidar da cidade é também cuidar de mim!

Marilice Costi, Urbanista

editora da revista O CUIDADOR - orgulho de ser
FACILMENTE ACESSÍVEL EM www.ocuidador.com.br
SANAARTE Produtos Culturais e Serviços Ltda.
55 - 51 -30287667 Cx. Postal 9.034 - 90.040-971- Porto Alegre/RS - Brasil

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 420


EU AMO, EU CUIDO! artigo de Marilice Costi


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte










domingo, fevereiro 05, 2006

68 - Retrospectiva, por Maria Luiza Forneck - Infohabitar 68

 - Infohabitar 68

É sempre com um renovado prazer que se anuncia um texto de um novo colaborador do Infohabitar, neste caso uma nova colaboradora de Porto Alegre, a quem, desde já, agradecemos a sua contribuição para a nossa revista/blog, trata-se da Doutora Maria Luísa Forneck, Socióloga, Pós-Graduada em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutorada em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o seu interessantíssimo texto/crónica será sem dúvida mais um ponto alto da história editorial do Infohabitar.

António Baptista Coelho


Retrospectiva

por Maria Luiza Forneck

Junto com tantos videntes, astrólogos e afins, faço, a minha moda, um balanço dos últimos dias de 2005, em uma cidade brasileira, Porto.Alegre. Falar das festividades de fim de ano em um determinado país parece um tanto bobo, pois o 31 de dezembro é comemorado em todo o planeta. No Brasil há, entretanto, uma particularidade que não sendo religiosa, mas econômica, consegue mexer com cabeças, organizações e até relações pessoais. Refiro-me ao décimo terceiro salário, um abono recebido pelos trabalhadores, do humilde ao abonado, uma injeção de dinheiro nos orçamentos, que faz passeio vertiginoso nos bolsos de quem o recebe.
Os que são autônomos, grande parte de nossa mão-de-obra, trataram de tirar proveito do poder de compra dos demais, incluindo o aumento dos preços, pois há um curto espaço de tempo, de vinte de novembro, quando é depositada a primeira parcela até o Natal, para adquirir presentes, quitar dívidas, preparar uma ceia, por mais modesta que seja. Buscaram os primeiros criar novidades para oferecer, garantindo assim um pé-de-meia para janeiro e fevereiro, período das férias escolares. O centro das cidades, sobretudo as áreas de comércio popular, tornou-se a Meca das compras, um burburinho, empurra-empurra em busca de mil bugigangas para enfeite das casas, incluindo o tradicional pinheiro e duvido que saibam porque são usados os enfeites de algodão. Pululavam minúsculas lâmpadas que acendem e apagam, estrelinhas, bolas coloridas, mas o presépio que não podia faltar e era o centro dos enfeites em minha infância, perdeu espaço na maioria dos lares, até desaparecer em outros.
O dinheiro extra também serviu para fazer uma gentileza para o porteiro do edifício, que nos prestou pequenos serviços, a secretária que encontrou um horário favorável na agenda lotada do médico, etc. e que não esperam nada, mas no próximo ano continuarão a ser gentis porque foram reconhecidos. Foi um momento de agradar os que são próximos, e dever os olhos dos pequenos brilharem diante dos brinquedos que abarrotam lojas e vitrines.
Há os que praticamente nada receberam, que duvido serem tantos, porque as entidades que se encarregam da solidariedade distribuem brinquedos em vários pontos da cidade. Talvez sejam decepcionantes, porque a TV vai a praticamente todos os lugares, mostrando novidades, presentes de alto custo, celulares, até um aparelho de microondas só para “aquecer” a comida das bonecas, pedido por uma menina, fato comentado num programa da TV local. A alta tecnologia cada vez mais é aplicada aos brinquedos, além de jóias desenhadas para o gosto e escolha dos petizes, enfim tanto para uns e quase nada para outros...
Falar sobre nossas mazelas, que se acentuam na época do Natal, nada traz de novo, mas lembra-me que no Centro da cidade neste ano, deixei-me roubar o cartão do banco, após ter retirado dinheiro num Caixa 24 horas, quando devem ter copiado a senha ... O prejuízo ficou em um terço do meu abono. Logo, falar do décimo terceiro, é também falar sobre “eles”, os amigos do alheio, talvez uma gangue de mulheres que age no centro da cidade e que suspeito tenha sido autora do meu desfalque... tratando de obter na marra sua gratificação de fim de ano! História corriqueira para quem vive em grandes cidades, especialmente uma tonta ou desavisados, bolsas soltas que vão para as costas e saque rápido em lotéricas e boca do caixa do meu banco.
Quando iniciei esta crônica, pensei em não comentar o fato, tendo me preparado para escrever sobre a mobilidade das mulheres na época do Natal, uma vez que somos as responsáveis pela maior parte das compras da família. Terminei por deixar que meu susto fale que há pessoas que podem, e só freqüentam shopping center e para as outras, sobram ruas com sua insegurança, o que é uma realidade não apenas em nosso País. Quanto às mulheres, parece-me que junto com reivindicações válidas por reconhecimento, emprego e renda, atingiram a tão sonhada igualdade a seus parceiros, ao menos em imaginação e engenhosidade para obter dinheiro fácil, sem trabalho ou esforço.
A mobilidade feminina, objeto de meu interesse quando trabalhava com planejamento de transportes, rendeu-se ao fato de que quase chegamos lá, pelo menos em ousadia... Há nichos masculinos, é certo, salários e empregos que ainda são inferiores para as mulheres, persiste o abuso dos mais fortes através da violência, mas a mobilidade com desenvoltura parece ter sido alcançada, ao ver o desembaraço com que gangs femininas enfrentam as ruas, ao menos em minha cidade ... Já me conformei com a perda, pois festejar é preciso. Curti a decoração de alguns pontos da cidade, fui a mais festas numa semana do que em quase todo o semestre, dei e recebi presentes de amigo secreto, mandei alguns poucos cartões e muitos e-mails. Também pude rever amigos e sentir o bem que eles nos fazem. E me recolhi para encontrar Aquele que festejamos o nascimento, quase esquecido no burburinho consumista. Ah! Ia esquecendo, desejo que o mundo melhore um pouquinho, ao menos em 2006!

quarta-feira, junho 01, 2005

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA - Infohabitar 24

 - Infohabitar 24

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA


A Professora Marilice Costi é mestre em Arquitectura, na Área de Economia e Habitabilidade e urbanista, tem experiência docente universitária (FAU-UPF e FAU-PUCRS) nas áreas de Avaliação Pós-Ocupação e Conforto Térmico, desenvolveu uma formação especializada em Arteterapia, é orientadora de diversas Oficinas de Poesia e Criatividade, tem múltiplas intervenções literárias ao nível do conto e da poesia, e é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.
Com Marilice Costi, colaboradora a partir de hoje do Grupo Habitar e do “Infohabitar”, iniciamos uma participação que queremos cada vez mais alargada de um a outro lado do Atlântico. Como verão, o excelente texto que se segue vem na sequência natural das últimas edições do “Infohabitar”.
A. Baptista Coelho



A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA

"(...)muitas vezes o olhar desenraizado do estrangeiro
tem a possibilidade de perceber as diferenças
que o olhar domesticado não percebe."
Massimo Canevacci

O hábito gera acomodação. E a rotina está aí para provar que quando nos habituamos acabamos esquecendo dos detalhes, das pequenas e belas coisas que passam por nós.
É assim também com a cidade. Acostumamo-nos com o seu horizonte, com os seus caminhos, que ao fazerem parte do nosso cotidiano, parecem não ter mais importância. Assim como na vida das pessoas, só lembraremos quando as tivermos perdido. Acomodamo-nos e assim, muita coisa passa desapercebida por nós.
Com um visitante é diferente. Ele percebe o quanto a cidade vem se descaracterizando com o passar dos anos ou não.
Qual o caráter que a cidade expressa? As avenidas onde passavam bandas escolares, onde as passeatas estudantis satirizavam e expunham cicatrizes sociais ainda permanecem. Mas até quando?
Muitas cidades do interior do Rio Grande do Sul (Porto Alegre também) perderam a beleza de sua volumetria. Podíamos perceber os pontos altos e baixos da cidade. O sol podia atender a todos. Os prédios históricos, geralmente, no entorno da praça principal, cederam lugar a edifícios cuja qualidade deixa a desejar. Os poucos e raros que sobraram parecem sufocados entre os demais, tal a discrepância entre o antigo e o novo. Sufocada pelo entorno, perdendo importância até o momento em que pegam fogo, por um acaso (sic!). Hoje, até as catedrais se encontram comprimidas entre os prédios altos no limite do lote.
Nas cidades havia espaços públicos muito utilizados e um comércio próspero. Aos poucos, nos últimos quarenta anos, fomos vendo uma casa de comércio fechar aqui e ali, o que foi comum na maioria das cidades brasileiras e o desenho urbano se reconfigurar sem estética.
Os descuidos ou desconhecimento dos profissionais com os corredores de vento que se formaram com a falta de rugosidade, com a falta de vegetação... Quantas esquinas contariam histórias de vestidos levantados, sombrinhas viradas e cabelos despenteados? O clássico pé-de-vento, um efeito esquina, o wise.
O que ainda encontramos de forma estética na cidade e que lhe caracteriza a história?
As cidades precisavam crescer tanto em altura? Qual o critério de crescimento que a comunidade queria? Progresso é área construída? Qual o custo do crescimento de hoje e do futuro? Os cidadãos querem que a cidade cresça dessa forma? Com qual qualidade urbana?
Para pararmos em uma cidade é preciso motivo, interesse. Leia-se o livro “Cidades invisíveis” do Ítalo Calvino, e perceberemos como uma cidade pode encantar um visitante e o convide a penetrar em suas entranhas, descobrindo suas peculiaridades, suas sutis paisagens.
Em urbanismo, não podemos esquecer as perspectivas, as imagens que foram criadas e que nos encantam. A imagem é a referência das pessoas, a sua segurança, a sua vida reanimada nas lembranças.
Hoje, a cidade repete o movimento dos adolescentes com o seu ficar. Ficar por hoje, o amanhã não importa, o ontem não importa, descobrir lentamente e percebendo com todos os nossos sentidos... O ambiente, as sensações térmicas, a estética, a história, o local de encontro, o cheiro de cafezinho, o sorvete que mantém o mesmo sabor e aviva lembranças, a pequena livraria, o restaurante com a comida típica, o lugar dos encontros e desencontros, a sombra da árvore, as flores que aparecem a cada mudança de estação, a cor das coisas a cada outono, as folhas, a brisa, o calor ou o frio...
Hoje, parece que nada mais importa, a não ser o valor do terreno, o que nele se pode construir, quanto ganhar-se-á por metro quadrado, quanto poderei subir com a lei do solo criado. Importa estimular o consumo do espaço, o dia, a vida apenas sem sentir com os sentidos e com o coração, como se fôssemos objetos com mesmas dimensões, mesmos desejos, mesma sensibilidade. Máquinas (lembram da maquina de morar?). As poucas exceções são os condomínios horizontais onde se encontram estruturas maiores para viver. Mas a que custo? E como poderíamos todos nos deslocar para morar nestes espaços? Sobram os que moram na cidade, que vem perdendo qualidade dia-a-dia. São mantas aluminizadas colocadas sem critério algum a jogar calor para todos os lados, a impedir que as pessoas cheguem à janela. Responsabilidade de quem? São os edifícios mais altos em áreas de menor altura e densidade, a tirarem o sol no entorno. E não há como reclamar depois do estabelecido. Direitos são direitos... de quem? Os planos diretores precisam ser avaliados e a legislação quanto ao uso de materiais deve ser mais cuidadosa.
Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
1 de Junho de 2005

Marilice Costi