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quinta-feira, abril 26, 2007

137 - ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA – artigo de João Lutas Craveiro - Infohabitar 137

 - Infohabitar 137

ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA

João Lutas Craveiro

(palavras chave: acessibilidades, mobilidades, sustentabilidade, participação, cidadania, problemas de Lisboa, Telheiras, CRIL, planeamento, urbanismo, João Lutas Craveiro, NESO, LNEC)

João Lutas Craveiro é Investigador Auxiliar do Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Docente Convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Este artigo surge na sequência de uma oportunidade de reflexão, criada no Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a propósito das temáticas inscritas no Plano de Investigação Programada em curso naquele Laboratório Nacional.

Refiro-me ao aprofundamento de uma linha de investigação que tem privilegiado, no NESO do LNEC, a análise sobre as mudanças territoriais, os seus impactos ao nível das comunidades humanas, as pressões sobre os sistemas naturais e os processos de decisão a propósito de novas infra-estruturas. Evidencia-se nesta linha de investigação, justamente intitulada “Mudança social, território, recursos naturais e infra-estruturas de ambiente”, a necessidade do acompanhamento das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade, sob a compreensão das mútuas dependências entre os ambientes natural e construído.

O presente artigo não pretende desenvolver, neste lugar, uma avaliação daquela linha de investigação, inscrita no Plano de Investigação Programada do LNEC (período 2005-2008). Pretende-se, neste fórum de intervenção e de debate, tão só explorar algumas questões de análise e apresentar uma grelha de leitura acerca das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade.

Apresenta-se também um conjunto de reflexões (1) a propósito de dois casos de estudo que, durante o presente semestre, o NESO desenvolverá procurando discriminar um campo de pesquisa sobre as mudanças territoriais, envolvendo a sustentabilidade das comunidades urbanas.

Uma das marcas distintivas dos espaços urbanos é a mobilidade que solicita, constantemente, a construção de novas acessibilidades e infra-estruturas. Por sua vez, esta construção reforça e orienta os fluxos das deslocações massivas, transformando de forma inexorável os territórios e as suas identidades, dando lugar a pressões urbanísticas.

A expansão urbana em redor de Lisboa, desde os anos 50 do século passado, constitui um exemplo desta transformação brutal, alargando as áreas de residência na dependência do centro metropolitano e provocando um efeito uniformizador dos campos à volta de Lisboa amotinando as suas identidades: «Os antigos lugares fronteiriços a Lisboa foram tomados por formas de edificação e por populações que introduziram dinâmicas alheias à vida dos arrabaldes de uma cidade tradicional» (BAPTISTA, 2006: 59).

É este jogo dinâmico entre as acessibilidades e as mobilidades, escrutinando-se a cidade como um campo topológico de relações de poder e esclarecendo os processos de decisão política sobre o ordenamento do território, que se pretende focar com o desenvolvimento de dois casos de estudo. Estes dois casos de estudo suportam uma primeira abordagem exploratória à temática mais geral das mudanças dos territórios e da questão da sustentabilidade das comunidades urbanas.

O primeiro caso de estudo abrange uma zona que se pode considerar como uma área (sub)urbana qualificada, o Bairro de Telheiras (2), dentro da cidade de Lisboa, caracterizado por uma população rejuvenescida, enquadrada por elevados níveis de habilitações escolares e profissionais e que escolheu esta área de residência devido à sua qualidade arquitectónica, à exigência de conjugar a centralidade com a acessibilidade e, entre outros factores, à valorização do conforto e intimidade do lar com a distinção dos espaços exteriores (FERREIRA et al, 1990).

Por corresponder a projectos de intervenção urbanística diferenciados, e até antagónicos sob a eleição do espaço público e da amenidade ambiental, seleccionou-se no Bairro de Telheiras o caso da Quinta de Sant’Ana, objecto da construção de um Parque Urbano ladeado por uma nova estação de Metro (3) e por novas edificações. Este caso ilustra bem duas alternativas em jogo, extremando os argumentos urbanísticos (neste exemplo, a favor de novas urbanizações enquadradas por um Parque Urbano e servidas por novas acessibilidades e transportes públicos) dos argumentos naturalísticos (em defesa da sacralização da natureza e da funcionalidade dos espaços rurais como reserva de identidade e lugar de práticas colectivas de amanho da terra).

Estes argumentos encontram portadores institucionais privilegiados: o Metropolitano de Lisboa, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), empresa com responsabilidades de construção na zona de Telheiras e defensora do Parque Urbano, a Associação de Residentes de Telheiras e a Divisão de Projectos e Estruturas Verdes da Câmara Municipal de Lisboa com soluções sugerindo a criação de Hortas Pedagógicas, e de espaços verdes intervencionados pelos moradores, soluções então defendidas pelo Arquitecto Ribeiro Telles.

Os casos de estudo a desenvolver visam equacionar o modo da expansão urbana, aferindo a relação estreita entre a promoção de novas acessibilidades urbanas e o reforço das mobilidades, esclarecendo-se o sentido das alternativas em jogo e a dinâmica das identidades e das imagens dos lugares intervencionados para uma melhor compreensão dos processos de decisão sobre novas infra-estruturas urbanas e das dimensões da sustentabilidade das comunidades e do edificado.

Em relação ao primeiro caso de estudo, refira-se que está em jogo não apenas a oposição entre o ambiente natural e o ambiente construído mas também a questão das decisões políticas sobre o ordenamento do território e a respectiva componente da participação pública no domínio de uma cidadania que é cada vez mais pró-activa e que, por antecipação, procura escrutinar tecnicamente soluções que podem, na sua essência e objectivo, representar um novo modelo de relações de poder que alguns autores apelidam por governação [governance] (4).

As duas Figuras seguintes tipificam o regime de oposição entre ambiente natural e ambiente construído dando lugar a soluções alternativas que, na ausência de um consenso técnico e político, acabam por se excluírem mutuamente sob o prejuízo da negociação para a procura de soluções integradas. Neste caso, as valências dos argumentos urbanísticos e dos argumentos naturalísticos serviram propósitos de antagonismo tornando as soluções, primariamente defendidas, incompatíveis: «A Quinta de Sant’Ana é hoje o Jardim da Praça Central e do Metro, em que os elementos da quinta são meramente decorativos, o moinho e o poço só aparentemente são a origem da água (a água é da EPAL), a latada de vinha, pensada por Ribeiro Telles, é evocada por uma pérgula metálica, os lagos de fontes cibernéticas, de luzes e sons, incomodam os vizinhos com as variantes mecânicas bruscas, e as árvores de grande porte não se sustentam na camada de terra, que cobre os estacionamentos subterrâneos e a estação do Metro» (CONTUMÉLIAS, 2006: 139).

O que está em causa é, pois, a sustentabilidade do edificado e a equidade social dos processos de decisão política, sendo oportuno discriminar melhor o carácter de uma dissensão entre a cidade planeada e a cidade imaginada, e apropriada, pelos seus utilizadores.

Figura 1: Esquisso de projecto para «Espaço Verde em Telheiras/Escola de Jardinagem e Hortas Pedagógicas» (na Quinta de Sant’Ana) da Câmara Municipal de Lisboa.



Figura 2: Parque Urbano e edificado na Quinta de Sant’Ana (situação actual).
Foto do autor (2007)


O segundo caso de estudo elege uma zona residencial de características muito distintas da primeira, e que pode ser classificada como uma zona (sub)urbana desqualificada, originada por um fenómeno de suburbanização intensiva que se estendeu aos concelhos da primeira coroa em redor de Lisboa (é o caso da Amadora).

Esta coroa suburbana caracteriza-se pela elevada densidade do edificado, pelas deslocações massivas casa-emprego (deslocações para fora do concelho de residência), com uma duração relativa e considerável no tempo dos trajectos, pela sobrelotação dos alojamentos e pelos fracos níveis de conforto dos mesmos, para além da sobre-representação, ao nível profissional, de trabalhadores não qualificados do terciário (INE, 2004: 120-122).

Equaciona-se, também neste segundo caso, a envolver a zona de Alfornelos e envolvente, a equação acessibilidades-mobilidades e os seus efeitos no campo das identidades sociais e locais, sob a observação das transformações dos territórios. Neste caso, a construção da IC17, Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL), sub-lanço Buraca-Pontinha (incluindo ligações a Benfica), acarreta impactes sociais negativos, pelo efeito-barreira e os níveis de ruído, por exemplo.

É certo que a conclusão da CRIL significa também uma oportunidade para uma melhor gestão das acessibilidades na área metropolitana de Lisboa, nomeadamente prevendo-se o alívio da 2ª Circular em cerca de 40 mil veículos, a redução de 20% do tráfego na Calçada de Carriche e de 4% de veículos pesados no interior da cidade de Lisboa. Em relação ao movimento de tráfego estimado, e em função da sua redistribuição, os impactes da construção da CRIL podem ser considerados positivos.(Quadro 1).



Quadro 1: Movimento de veículos estimado até ao ano de 2009


Fonte: MOPTC, 2006

Subsiste a questão dos impactes negativos, referindo-se aqui os de ordem social. No entanto, mesmo admitindo a mitigação dos impactes sociais negativos já referidos (efeito-barreira e ruído), pois encontram-se equacionadas soluções em túnel (5) e a promoção de medidas de reabilitação urbana (exemplo ilustrado na Figura 3), prevalece a discussão sobre o traçado (Buraca-Benfica) onde uma denominada Associação Cívica de Moradores de Alfornelos (reunidos com as comissões de moradores de Santa Cruz de Benfica e Damaia) apresenta alternativas que considera tecnicamente viáveis (Figura 4).

Figura 3: Exemplo de intervenções a desenvolver na zona da futura CRIL



Fonte: MOPTC, 2006


Figura 4: Dissensão sobre o traçado da CRIL


(A verde: traçado alternativo)
Fonte: Associação Cívica de Moradores de Alfornelos

Ora, assinalam-se algumas questões comuns que se destacam nestes dois casos aqui esquematizados: a dissensão social a propósito de Obras Públicas com base em diferentes percepções sobre a evolução dos territórios e a sua qualidade de vida, o relativo fracasso dos mecanismos da participação pública, que devem ter como missão sufragar, do ponto de vista social e técnico, as grandes Obras e (na ausência desse sufrágio) a consequente litigação ambiental.

Não se defende que as Obras Públicas devam merecer um absoluto consenso social e técnico, o que seria improvável em democracia, mas parece urgente repensar os mecanismos da participação pública, os períodos e os conteúdos da discussão (no diálogo entre técnicos e grupos de cidadãos) dos impactes sociais e ambientais suscitados pelas grandes Obras.

Parece também evidente que os recursos mobilizados por grupos de cidadãos apelam, cada vez mais, a uma legitimidade e racionalidade técnicas na análise dos projectos, o que pode constituir um elemento facilitador de futuros consensos mais alargados, dependendo dos momentos da discussão e da capacidade dos decisores (locais e nacionais) em antecipar os períodos de reflexão pública.

Convenhamos que há sempre um momento para decidir e para agir, e que as grandes Obras que servem o interesse público (já sujeitas a complexas etapas de avaliação e de licenciamento) não podem ficar reféns de interesses bairristas ou que invoquem o privilégio de um sítio em particular por sobre o interesse geral.

Os dois casos resumidos também indiciam as contradições dos protestos organizados sob a mobilização local: num caso parece estar em causa a preservação de uma quinta e de terrenos livres, para a promoção de um uso não urbano, no outro associações locais defendem exactamente uma alteração de traçado da rodovia, alteração essa que afecta as áreas não-urbanas e os terrenos livres, não se advogando aí a sua preservação para actividades de lazer ou utilidades marginais de matriz rural.

Os estudos a potenciar no âmbito dos estágios abertos pelo NESO visam, pois, discriminar um sistema de actores, decisores e stakeholders, a propósito das grandes Obras Públicas com particular incidência para a correlação entre a promoção de novas acessibilidades e o reforço das mobilidades, na área metropolitana de Lisboa. Deve atender-se, ainda, às relações entre as infra-estruturas ligadas aos transportes e a edificação de novas áreas urbanas, porventura marcadas por fortes mecanismos especulativos (NUNES DA SILVA, 2003: 419). Como se sabe, também, a expansão urbana de Lisboa deve muito às configurações das malhas rodoviárias e às redes de transportes (MATIAS FERREIRA, 1987).

Estes estudos constituem-se, assim, como estudos exploratórios para um guião de análise sobre as mudanças territoriais, as questões da cidadania e as identidades locais. Num nível mais epistemológico, os estudos colaboram para a identificação das relações entre a Engenharia e a Sociologia, sob a aferição da sustentabilidade do edificado (Figura 5). A dimensão tecnológica das intervenções e as condições territoriais implicadas no planeamento das mudanças acabam por interpelar, de forma incontornável, a Engenharia e a Sociologia (6).


Figura 5: Acessibilidades e Mobilidades, interpelações do território e da tecnologia



As mudanças dos territórios, os processos de decisão política e as avaliações técnicas, como também a questão das identidades sociais e a sodalidade (7) ou a formação de grupos de cidadãos, por interesses próprios e partilhados, renovam as questões da cidadania (8) e da sustentabilidade do edificado na medida em que questionam os modos de fazer a cidade impondo a integração entre os factores humanos, políticos, tecnológicos e territoriais.

A promoção das acessibilidades pode criar também, para além de novas mobilidades e ligações urbanas, novas fragmentações territoriais e desvalorizações de áreas de residência exacerbando as divisões sociais dos espaços urbanos (GRAFMEYER, 1994: 41).

Assim, um urbanismo residencial com a marca da sustentabilidade não pode dispensar, sobretudo nas zonas de interface urbano-rural ou centro-periferia, «a estruturação socioespacial dos espaços livres, o equilíbrio agrourbano […]» (BAPTISTA COELHO, 2006: 368) e o balanço necessário entre a tradição e a modernidade, o ambiente natural e o ambiente construído.


Notas:
(1) Agradece-se o contributo, para a reflexão que se tem vindo a consolidar no âmbito da linha de investigação referida, dos sociólogos Paulo Machado, Chefe de Núcleo, e Álvaro Pereira, bem como das frequentadoras dos estágios no NESO Dianne Ackermann, com formação em Sociologia e com ligação ao Instituto de Urbanismo de Grenoble (França), e Cátia Caseiro, finalista do curso de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. Os estágios de Dianne Ackermann e Cátia Caseiro inserem-se no desenvolvimento dos casos de estudo que a seguir se enunciam.

(2) Os limites do Bairro de Telheiras podem ser «fechados» entre vias rápidas: 2ª Circular, Eixo Norte-Sul e Av. Padre Cruz (embora as referências a Telheiras possam ser mais «instáveis», estendendo-se quer para a Freguesia de Carnide quer, mais a sul, em direcção ao Campo Grande onde surgem construções identificadas como Telheiras). O caso de estudo situa-se no conflito que envolveu a expansão do Metro para Telheiras e a urbanização em redor da antiga Quinta de Sant’Ana (que contempla, hoje, a nova estação-terminal do Metro para essa zona, e um Parque Urbano).

(3) O Metropolitano expandiu-se até Telheiras, e as obras para a nova estação começaram no ano de 2000 subvertendo, então, o espaço rural denominado por Quinta de Sant’Ana. Não se advoga aqui a manutenção dos espaços rurais, independentemente das transformações urbanas, ou a sujeição dos espaços rurais a uma apropriação simbólica das suas referências, na satisfação de uma nostalgia das origens, mas tão só se apresenta um caso de estudo a potenciar discriminando-se as alternativas mais contrárias em jogo nos modos de fazer (e olhar) a cidade.

(4) No limite, é preciso distinguir entre governo e governação, citando-se James Rosenau (PUREZA, 2001: 241), pode defender-se que «governo sugere actividades que são apoiadas por autoridades formais, pelo poder político, enquanto governação se refere a actividades apoiadas em valores partilhados que podem derivar ou não de responsabilidades ditadas por via legal e formal e que não requerem inevitavelmente o apoio do poder político para superar as reservas e garantir o cumprimento». José Manuel Pureza (op. cit.) tem sido crítico desta concepção. Pessoalmente prefiro o termo empowerment (apoderamento) para traduzir a possibilidade de comunidades territorialmente emancipadas (CRAVEIRO et al, 2005) envolvendo novas dinâmicas de participação pública que não dispensam os requisitos da formalização institucional, antes os solicitam como um instrumento de reforço dos seus argumentos social e tecnicamente determinados.

(5) O estudo realizado pela COBA (datado de Setembro do ano de 2006), referente à avaliação ambiental das alterações do projecto inicial da CRIL (sublanço Buraca-Pontinha), aponta expressamente para soluções em túnel em trechos críticos, ou para a adopção de barreiras acústicas, nomeadamente do lado do Bairro de Santa Cruz.

(6) Não é por acaso que o NESO inscreveu no seu Plano de Investigação Programada, em curso, uma linha de investigação exclusivamente vocacionada para a relação entre as engenharias e as ciências sociais e humanas.

(7) Em Sociologia entende-se a sodalidade como a capacidade humana de constituir grupos, definidos como unidades de actividades (BAECHLER, 1995: 57). Não se deve confundir este termo com o termo comum das sociabilidades. O termo sociológico sodalidade é mais oportuno para a análise da formação de grupos, nomeadamente de grupos de pressão em contacto com o poder político, grupos considerados no seu estado organizado.

(8) O novo conceito de cidades sustentáveis requer, aliás, uma forma de planeamento que contemple a participação dos cidadãos, numa aproximação entre as abordagens top-down e as abordagens bottom-up (MUNIER, 2007: 53).


Bibliografia citada:
BAECHLER, Jean. Grupos e Sociabilidade, in Tratado de Sociologia, Ed. Asa, Porto, 1995: 57-95.

BAPTISTA COELHO, António. Habitação Humanizada, I&D, Programa de Investigação, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2006.
BAPTISTA, Luís Vicente. Urbanização, Ruralidade e Suburbanidade: Conceitos e Realidades, in Relações Sociais e Espaço. Homenagem a Jean Remy. Ed. Colibri, CEOS, Investigações Sociológicas, Lisboa, 2006: 55-66.

CONTUMÉLIAS, Ana. Um Quadradinho Verde na Aldeia de Telheiras, Plátano Editora, Lisboa, 2006.

CRAVEIRO, João, MARTINS, Marta e ALMEIDA, Ana. Práticas e Processos de Empowerment; a análise das respostas ao Questionário. Nota Técnica 04/05-NESO, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2005.

FERREIRA, António Fonseca, GUERRA, Isabel e PINTO, Teresa. L’usage et l’appropriation du logement a Telheiras, in Sociedade e Território, Ano 5, Setembro, 1990: 43-51.

GRAFMEYER, Yves. Sociologia urbana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1994.

INE, INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. Tipologia Sócio-Económica da Área Metropolitana de Lisboa. INE, Lisboa, 2004.

MATIAS FERREIRA, Vítor. A Cidade de Lisboa: de Capital do Império a Centro da Metrópole, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1987.

MUNIER, Nolberto. Handbook of Urban Sustainability, Springer, Dordrecht, 2007.

NUNES DA SILVA, Fernando. Transportes e Acessibilidades, in Reformar Portugal, 17 Estratégias de Mudança, Oficina do Livro, Lisboa, 2003 [5ª edição]: 399-457.

PUREZA, José Manuel. Por um internacionalismo pós-vestefaliano, in Globalização, Fatalidade ou Utopia?, Edições Afrontamento, Porto, 2005: 233-254.

sexta-feira, março 10, 2006

73 - A Cidade e o Carnaval, festa de antecipação do Equinócio da Primavera - um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 73

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A Cidade e o Carnaval, festa de antecipação do Equinócio da Primavera

um artigo de Celeste Ramos
Imagens de António Baptista Coelho
O homem vive dia a dia os seus gestos quotidianos apercebendo-se de que são ritmados pelos ciclos do sol e do dia, da lua e da noite e é também pelo sol que se apercebe do ritmo das estações, o que o faz mudar os seus comportamentos nos períodos e ritmos de trabalho mas também de férias, aproveitando o sol no pino de verão para enxamear as praias um pouco por todo o mundo, podendo actualmente ir cada vez mais longe com a profissionalização da organização da viagem, o desenvolvimento dos transportes e das comunicações tornando o planeta cada vez mais pequeno e mais perto.
Assim o homem atento aos movimentos humanos aproveita-os para desenvolver economias algumas derivadas das novas circunstância e regenerando outras que adormeceram ou mesmo se extinguiram.



Focadas nas novas "peregrinações" o turismo é sempre o maior provocador mas também o responsável pela desmultiplicação de actividades económicas ligadas à cultura e religião, ao desporto mais descomprometido ou de valor internacionalizado, sendo que em paralelo nascem as indústrias do design e do vestuário específico para as diferentes ofertas de férias, para além da promoção da agricultura e da gastronomia locais e também renascimento de tradições.
Aproveitando o sol e as praias ou as bancas montanhas da neve nos locais já consagrados ou nos que se preparam, há uma imensa troca de usos e costumes pagãos e religiosos.
A distribuição do tempo de férias passou a ser feita ao longo de todo o ano e ao longo do planeta aproveitando-se também as festividades calendarizadas de cada país visitado provocando no caminho reverso, o conhecimento de outras partes do mundo através desses viajantes e ainda das mais modernas formas de comunicação e de publicidade da "oferta aliciando o prazer de viajar para locais antes exóticos" acordando lugares recônditos e esquecidos e que o "viajante identifica" e passa a cartografar num espécie de outro mapa mundi do que de mais belo e interessante, e diferente, o mundo oferece, tornando esses locais cada vez mais apetecíveis e de que os mass media também se apropriam para divulgar, para além de provocar também a publicação de livros de viagens, tornando tudo mais fácil e acessível.
Quem diria assim que só a partir dos meados do séc. XX estar queimado pelo sol deixou de ser sinal de inferioridade social atribuída aos trabalhadores do campo e do mar passando para o oposto como sinal de exibição das classes superiores "com o seu ar de mais saúde no corpo e na bolsa" e que a partir daí também são agentes de criação de novas economias de construção de transporte privado por terra ou mar, passando o turismo de massas e de transporte colectivo a ser feito em meios individuais de que os iates serão um exemplo notório, mas a que bem cedo a indústria naval e turística respondeu com a oferta de verdadeiras cidades flutuantes do mais luxuoso e inesperado, como se todos os ciclos da natureza que provocam o movimento diário de cada homem se transmitisse aos seus actos mais inesperados de criação contínua de riqueza e de bem-estar material a par do bem-estar em tempo de descanso e de férias desbravando o planeta por terra e pelo mar, movimento que não se confina nunca mais a um só país porque o homem quer ir sempre mais longe ou ao mais fundo do mar.
No solstício de verão o medo ocidental transformou-se em movimento económico, cultural e lúdico a que mais tarde se seguiu em paralelo o desenvolvimento das mais variadas indústrias ligadas ao solstício de Inverno com as Festas de Natal e de férias na neve.
As festas cósmicas das 4 estações foram interpretadas pelos homens primeiro pelos ligados à exploração da terra e do mar e posteriormente pelo homem urbano que acrescentou algo mais para o seu desenvolvimento e mesmo aproximação humana de classes e de raças e de linguajares, por sua vez redistribuindo mercados e saberes de que serão "mensageiros" os homens de negócio.
No solstício de Verão a terra culminou na sua oferta mais generosa de sol que tanto doira a nossa pele como doira os frutos e lhe acrescenta perfumes, enquanto no solstício de Inverno que culmina no Natal com nascimento de novo sol no coração do homem e quando a terra está mais despojada porque também ela parece precisar de fazer o seu descanso maior, mas continuando a formar o seu húmus para o período que se lhe seguirá no equinócio da primavera, se também o homem "acumulou no verão como a formiga bens para o Inverno", terá ainda a possibilidade de usufruir da beleza da neve e da cultura dos lugares frios de oferta diferente mas igualmente generosa, ciclos eternos do homem e da natureza cada vez aproveitados de forma mais consciente, fechando ciclos, mas alargando-os a cada vez mais homens e mais lugares, ao planeta inteiro que parece assim "conquistado"
Mas entre estes grandes ciclos equinociais e solsticiais, e os ciclos diários, há ciclos intermédios de que o Carnaval é um deles e que constitui festa de antecipação do equinócio da Primavera.
Calendarizado no mundo ocidental, poder-se-ia dizer que são três dias de folia em que "nada parece mal", espécie de limite de manifestação colectiva que fecha um "ciclo de compromissos e de trabalho porque as férias também já ficaram para trás" mas que imediatamente abre outro ciclo – o da Quaresma – , em que outro tipo de recolhimento é pedido ao homem, diferente do que foi pedido em tempo de Natal.


Do "excesso carnavalesco" em que Carnaval significa despedir da carne (carne-aval), passa-se ao oposto em que o homem religioso faz jejum e mesmo abstinência a partir da quarta-feira-de-cinzas (redução a pó e nada), para se preparar espiritualmente para a Páscoa da Ressurreição que se lhe seguirá, e se o corpo físico foi preparado no verão e de energias renovadas, é agora a vez da preparação espiritual durante 40 dias (os 40 dias que Cristo passou no Deserto que segue à Epifania depois do natal e do Dia de Reis) até ao Domingo de Ramos ou Domingo das Palmas em que cristãos e ortodoxos festejam a entrada de Jesus em Jerusalém a anunciar a Paz no mundo se houver Paz em Jerusalém.
Os calendários mundiais das festividades são os mais variados e focados na cultura e crenças locais havendo porém alguns que são praticamente comuns a todos os homens essencialmente ligados à religião como o Natal e Páscoa e o Carnaval, sobretudo no mundo ocidental.
O Carnaval em Portugal tem largas tradições por mais aculturado que tenha sido por outras culturas, e as suas origens perdem-se nos tempos para além da nacionalidade pois que pode remontar a milhares de anos, sobretudo em Trás-os-Montes, à cultura Celta, parecendo actualmente revestir o "desígnio da alma e do prazer" tendo no entanto por essência remota não apenas festejar o fim do Inverno mas também a morte (o pai velho que se queima na fogueira para que possa nascer o Pai novo), como antecipação do equinócio da Primavera de Abril.
O Carnaval é também motivação de grandes fluxos turísticos internos e internacionais e também um pico de dinâmica em vários sectores de actividade económica.
Ciclos e sub-ciclos do céu e da terra, do homem e da cidade.
Lisboa e Bairro de Santo Amaro
28 de Fevereiro de 2006
Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Imagens de António Baptista Coelho

quinta-feira, março 02, 2006

72 - As sociedades envelhecem, mas somos humanos – um artigo de Celeste Ramos e Baptista Coelho - Infohabitar 72

 - Infohabitar 72

As sociedades envelhecem, mas somos humanos

Artigo de Celeste Ramos e Baptista Coelho
Umagens de A. B. Coelho

Até aqui a Sociedade tem institucionalizado a maioria dos problemas ligados à terceira idade sobretudo no que respeita ao alojamento, à saúde e ao encontro, ou tem deixado cair essa realidade no esquecimento, considerando-o um problema resguardado dentro das fronteiras de cada país e de cada cidade.

A declaração de 1999 como o Ano Internacional do Idoso fez desencadear o interesse por este tão "moderno" problema sobretudo nas sociedades em que aumentou extraordinariamente a esperança de vida do cidadão, sobretudo nos países mais ricos e evoluídos.
De entre os cerca de 10 milhões de portugueses, 2 milhões têm mais de 65 anos correspondendo a 17% da população e considerados "os grandes esquecidos", sendo que de entre eles 1 milhão aufere menos do que 300 euros mensais; mas já foram apresentados valores muito diferentes, pelo que esta discrepância informativa esconde que há vários milhares de velhos cujos rendimentos estão muito abaixo do ordenado mínimo, que em Portugal representa cerca de um quinto do ordenado mínimo médio da UE.
Em 2000 o índice de envelhecimento ultrapassou pela primeira vez os 100 idosos por cada 100 jovens entre os 0 e 14 anos, e em 2004 existiam quase 108,7 idosos por cada 100 jovens.
Só em Lisboa existem cerca de 35 mil velhos a viver sozinhos, e de acordo com as projecções para 2050, Portugal será o 4.º país mais velho da Europa dos 25, tendo sido também já considerado um dos três países mais pobres da União Europeia.
Valores mundiais revelavam, há cerca de uma dezena de anos, que apenas 5% da população mundial aufere 75 % da riqueza mundial global e Portugal encontrar-se-á nessa média, apesar de estar na 23.ª posição de uma escala dos 27 países considerados desenvolvidos, de acordo com inquéritos realizados por empresas internacionais especializadas e credíveis, já que com a comunicação global os países parecem aproximar-se mais e, igualmente, comparar-se também nas suas riquezas e misérias.
O presidente da república cessante deu relevo à temática do envelhecimento e da pobreza, por exemplo, em Novembro 2005, no decurso das Jornadas sobre Envelhecimento e Autonomia, promovidas pela Santa.Casa.da.Misericórdia.de.Lisboa, e no Congresso de Gerontologia, também em Novembro de 2005, entre os múltiplos temas apresentados, destacaram-se os respeitantes à arquitectura na cidade, ao impacto do envelhecimento na sociedade e na qualidade de vida e a questão da integração dos mais velhos no actual quadro da União Europeia.



Sabemos que a nossa sociedade, bem ou mal, vai respondendo a muitos dos problemas inerentes à terceira idade, mas estão cada vez mais longe de ser satisfatórias tais respostas, porque o envelhecimento e o empobrecimento avançam mais depressa, e ainda porque há que, no "fim da linha da vida", procurar ser feliz sem se "esperar sentado" até que chegue esse fim, e não há sociedade que possa divorciar-se desse problema sob pena de se ter chegado à situação de uma espécie de “nova escravatura do século XXI."
Sempre os governantes portugueses se mostraram incapazes de solucionar, em tempo, os problemas mais prementes da nossa sociedade. E é agora em pleno século XXI que aos problemas anteriores nunca resolvidos, ou mal resolvidos, se acrescenta o da 3.ª idade e todo o tipo de situações que acarreta e a que a cidade não consegue responder porque nem nunca se reorganizou com as migrações das década de 70 e de 80/90, nem as populações encontraram forma de se instalarem homogeneamente pelas cidades do interior, que foram esquecidas pelo desenvolvimento, mesmo depois da integração na UE, em que se recebia por dia um milhão de contos, que foram utilizados para construção de vias-rápidas que não levaram as populações para o interior, mas apenas facilitaram a sua deslocação mais rápida para o litoral onde se amontoa 70% dos portugueses que, antes, tão bem distribuídos estavam por todo o território, mesmo no local mais montanhoso e inacessível; tão inacessível que o desenvolvimento nunca lá chegou e agora “envelhece e apodrece”, porque os que teimaram lá ficar, até aos anos 80, já envelheceram sem serem renovados.
As cidades e as povoações envelhecem com os cidadão e com a sua juventude se revitalizam. Mas, por exemplo, os quase últimos locais de emprego nas Beiras fecharam desde 2003 a 2005; e assim, que novos e acrescidos problemas de envelhecimento da população irão ser criados e reforçados?
É impressionante dizer que uma das mais importantes cidades de interior como é Bragança tem, actualmente, cerca de 70% de velhos, porque nada se renovou em termos de instalação de sistemas de dinâmica das economias para que as famílias aí se pudessem desmultiplicar, em vez de abandonarem o local de nascimento, restando só os que aí foram envelhecendo.
O povo português anónimo é em geral amável e solidário, e se não fosse assim, o quadro social vigente relativo aos crescentes problemas da terceira idade, atingiria dimensões de catástrofe.
O país envelhece em todos os sentidos, nos monumentos patrimoniais e na habitação antiga que não são restaurados, nas economias que não são renovadas e revitalizadas nos locais onde se nasce e se habita, no planeamento urbano que não acompanha os fenómenos socioeconómicos, caminhando-se para o drástico envelhecimento em todos os aspectos de destruição de paisagens urbanas e rurais, bem como mesmo para a erosão social e, principalmente, para a erosão das próprias ideias, que não se renovam para resolver os grandes problemas de uma sociedade em que as populações quase nunca são chamadas a participar na solução dos problemas que lhes dizem respeito.
Ideias de desenvolvimento de novas formas de actuação sociocultural, habilitando os idosos a serem auto-suficientes em muitas situações, e, mais do que auto-suficientes, a participarem numa grande diversidade de acções socialmente válidas e úteis para eles próprios e para outros grupos socioculturais, que podem sem dúvida obter nas experiências de vida e profissionais dos idosos um apoio inestimável; desde que contando, gratuitamente, com locais físicos municipais ou mesmo particulares e desactivados, para se organizarem e desenvolverem tais acções, pois "terceira idade" deverá, urgentemente, significar também a definição que se lhe quiser dar, em termos de direitos, deveres e, essencialmente, oportunidades de ser útil, de participar. E isto é o que é mais necessário ao país em geral, à população em geral e aos velhos, em particular: oportunidade para viver e ser útil.
E talvez que as universidades de Braga, Viseu, Aveiro, Vila Real, Covilhã e Évora, por exemplo, possam constituir-se não apenas em pólos de saberes, mas também de criação de novas oportunidades de fixação e de repovoamento humano e económico dessas regiões de que são capital, e assim se promova uma nova imigração, que retire, a longo prazo, população de locais saturados e desqualificados, ajudando a povoar, novamente, o interior hoje tão envelhecido, pois o equilíbrio da população e de cada célula familiar conduz ao desenvolvimento e equilíbrio global de cada local.
O problema dos velhos, sobretudo de mãos dadas com o da pobreza e em parte também com o do analfabetismo e o da crítica carência formativa e cultural, é da maior acuidade e requer soluções rápidas, além de outras estruturais, porque se prepara a velhice nas idades de maturidade, porque se prepara a qualidade de vida em geral com os cuidados tidos desde o nascimento, porque se prepara a evolução social com a atitude de alguns, poucos, que são semente de mudança social.
Mas o facto é que não têm os responsáveis, a qualquer nível central e regional, dado uma resposta exaustiva a uma situação tão grave e urgente, limitando-se, com frequência a uma atitude marcada pelo "faz-se o que se pode", como se o poder tivesse, igualmente, envelhecido e desmoronado e ficado sem qualquer ideia de como fixar e dinamizar populações, que sejam agentes e motores de desenvolvimento, nem que seja, por exemplo, confinado apenas ao turismo de todo o ano e à produção dos bens da terra e de artefactos locais e regionais; o que já seria meio caminho andado para a auto-sustentabilidade da actividade económica, desmultiplicadora de muitas outras que lhe tendem a suceder.


Parece que a filosofia não foi apenas sequestrada pela economia e gestão que rege o actual mundo ocidental e o desinteligente e irracional economicismo nacional que, essencialmente, "esconde" os grandes dramas humanos. Parece que a filosofia foi sequestrada também pela impotência e desistência, dada a grandeza da acumulação dos problemas aos quais se foi virando costas nestas curtas décadas de democracia. E curiosamente os meios de comunicação social também se cansaram de expor que problemas haverá por aí e a que portas batem, como se não se passasse nada.
Não se passa nada! Mas passa-se, tal como nos foi dito em Évora, por uma técnica de Serviço Social, numa sessão do Grupo Habitar, que nos disse que há muitos casos de idosos praticamente abandonados pelas respectivas famílias e a viverem, muitas vezes, em condições sub-humanas; abandonados pela família e esquecidos pela sociedade.
E enquanto isto se passa os países europeus “desenvolvidos” estão a aumentar o tempo de trabalho da população activa, num recuo das regalias anteriormente conquistadas (menos tempo de trabalho e mais tempo livre - grande slogan dos anos 80); um recuo que nos países do sul, mais pobres, tem o sabor a um sonho nunca concretizado.
Mas, entre nós, muito mais urgente e crítico do que pensar em sonhos de reformas douradas, hoje provavelmente impossíveis, é dar resposta imediata e adequada a essas situações de abandono, que não podem ser admitidas. É portanto urgente um programa especial dirigido para a eliminação dessas situações e, em segunda linha, um programa especial que vise a maximização do aproveitamento da experiência e da vitalidade dos cidadãos seniores em tantos campos em que podem ser úteis à sociedade, à cidade e a si próprios.
Não é apenas uma questão de bom senso e de boa gestão de recursos humanos, é também uma questão de ética e de justiça social e, acima de tudo, é, na prática, uma questão de sobrevivência, pois uma sociedade que não toma conta dos seus mais frágeis e uma sociedade que não aproveita a experiência onde ela está, em quantidade e com tempo de ser útil, é uma sociedade suicidária.
O homem moderno, o sapiens-sapiens, dominou o mundo, sabe-se hoje, quando passou a contar com a experiência acumulada e complementar dos seus mais velhos, quando estes começaram a tomar conta das crianças e a ensiná-las, provavelmente, enquanto os jovens adultos caçavam e procriavam; a arte nascida nas grutas e depois na cerâmica e na decoração dos utensílios, também não é uma actividade de grupos apressados e sem histórias, e a arte é o fulgor da invenção e da criatividade; e acima de tudo o tomar conta dos mais velhos e o dialogar com eles é um sinal de afectividade, de emoção e de verdadeira humanidade. E sendo assim, o caminho que devemos seguir está claramente traçado.

Este artigo foi elaborado pelos autores entre as seguintes datas
Lisboa, Bairro.de.Santo.Amaro, 21 de Novembro de 2005
Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, 26 de Fevereiro de 2006
Maria Celeste d’Oliveira.Ramos
António Baptista Coelho
As imagens são de António Baptista Coelho

domingo, fevereiro 05, 2006

68 - Retrospectiva, por Maria Luiza Forneck - Infohabitar 68

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É sempre com um renovado prazer que se anuncia um texto de um novo colaborador do Infohabitar, neste caso uma nova colaboradora de Porto Alegre, a quem, desde já, agradecemos a sua contribuição para a nossa revista/blog, trata-se da Doutora Maria Luísa Forneck, Socióloga, Pós-Graduada em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutorada em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o seu interessantíssimo texto/crónica será sem dúvida mais um ponto alto da história editorial do Infohabitar.

António Baptista Coelho


Retrospectiva

por Maria Luiza Forneck

Junto com tantos videntes, astrólogos e afins, faço, a minha moda, um balanço dos últimos dias de 2005, em uma cidade brasileira, Porto.Alegre. Falar das festividades de fim de ano em um determinado país parece um tanto bobo, pois o 31 de dezembro é comemorado em todo o planeta. No Brasil há, entretanto, uma particularidade que não sendo religiosa, mas econômica, consegue mexer com cabeças, organizações e até relações pessoais. Refiro-me ao décimo terceiro salário, um abono recebido pelos trabalhadores, do humilde ao abonado, uma injeção de dinheiro nos orçamentos, que faz passeio vertiginoso nos bolsos de quem o recebe.
Os que são autônomos, grande parte de nossa mão-de-obra, trataram de tirar proveito do poder de compra dos demais, incluindo o aumento dos preços, pois há um curto espaço de tempo, de vinte de novembro, quando é depositada a primeira parcela até o Natal, para adquirir presentes, quitar dívidas, preparar uma ceia, por mais modesta que seja. Buscaram os primeiros criar novidades para oferecer, garantindo assim um pé-de-meia para janeiro e fevereiro, período das férias escolares. O centro das cidades, sobretudo as áreas de comércio popular, tornou-se a Meca das compras, um burburinho, empurra-empurra em busca de mil bugigangas para enfeite das casas, incluindo o tradicional pinheiro e duvido que saibam porque são usados os enfeites de algodão. Pululavam minúsculas lâmpadas que acendem e apagam, estrelinhas, bolas coloridas, mas o presépio que não podia faltar e era o centro dos enfeites em minha infância, perdeu espaço na maioria dos lares, até desaparecer em outros.
O dinheiro extra também serviu para fazer uma gentileza para o porteiro do edifício, que nos prestou pequenos serviços, a secretária que encontrou um horário favorável na agenda lotada do médico, etc. e que não esperam nada, mas no próximo ano continuarão a ser gentis porque foram reconhecidos. Foi um momento de agradar os que são próximos, e dever os olhos dos pequenos brilharem diante dos brinquedos que abarrotam lojas e vitrines.
Há os que praticamente nada receberam, que duvido serem tantos, porque as entidades que se encarregam da solidariedade distribuem brinquedos em vários pontos da cidade. Talvez sejam decepcionantes, porque a TV vai a praticamente todos os lugares, mostrando novidades, presentes de alto custo, celulares, até um aparelho de microondas só para “aquecer” a comida das bonecas, pedido por uma menina, fato comentado num programa da TV local. A alta tecnologia cada vez mais é aplicada aos brinquedos, além de jóias desenhadas para o gosto e escolha dos petizes, enfim tanto para uns e quase nada para outros...
Falar sobre nossas mazelas, que se acentuam na época do Natal, nada traz de novo, mas lembra-me que no Centro da cidade neste ano, deixei-me roubar o cartão do banco, após ter retirado dinheiro num Caixa 24 horas, quando devem ter copiado a senha ... O prejuízo ficou em um terço do meu abono. Logo, falar do décimo terceiro, é também falar sobre “eles”, os amigos do alheio, talvez uma gangue de mulheres que age no centro da cidade e que suspeito tenha sido autora do meu desfalque... tratando de obter na marra sua gratificação de fim de ano! História corriqueira para quem vive em grandes cidades, especialmente uma tonta ou desavisados, bolsas soltas que vão para as costas e saque rápido em lotéricas e boca do caixa do meu banco.
Quando iniciei esta crônica, pensei em não comentar o fato, tendo me preparado para escrever sobre a mobilidade das mulheres na época do Natal, uma vez que somos as responsáveis pela maior parte das compras da família. Terminei por deixar que meu susto fale que há pessoas que podem, e só freqüentam shopping center e para as outras, sobram ruas com sua insegurança, o que é uma realidade não apenas em nosso País. Quanto às mulheres, parece-me que junto com reivindicações válidas por reconhecimento, emprego e renda, atingiram a tão sonhada igualdade a seus parceiros, ao menos em imaginação e engenhosidade para obter dinheiro fácil, sem trabalho ou esforço.
A mobilidade feminina, objeto de meu interesse quando trabalhava com planejamento de transportes, rendeu-se ao fato de que quase chegamos lá, pelo menos em ousadia... Há nichos masculinos, é certo, salários e empregos que ainda são inferiores para as mulheres, persiste o abuso dos mais fortes através da violência, mas a mobilidade com desenvoltura parece ter sido alcançada, ao ver o desembaraço com que gangs femininas enfrentam as ruas, ao menos em minha cidade ... Já me conformei com a perda, pois festejar é preciso. Curti a decoração de alguns pontos da cidade, fui a mais festas numa semana do que em quase todo o semestre, dei e recebi presentes de amigo secreto, mandei alguns poucos cartões e muitos e-mails. Também pude rever amigos e sentir o bem que eles nos fazem. E me recolhi para encontrar Aquele que festejamos o nascimento, quase esquecido no burburinho consumista. Ah! Ia esquecendo, desejo que o mundo melhore um pouquinho, ao menos em 2006!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

56 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida - um artigo de Paulo Machado - Infohabitar 56

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Os idosos na cidade e a cidade envelhecida

um artigo de Paulo Machado, Sociólogo, Investigador Auxiliar no LNEC, onde integra o Núcleo de Ecologia Social.

Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem... e aquelas a quem respeitam.

Na nossa sociedade é sensível uma alteração vocabular que importa reter: aos velhos de antigamente sucederam os homens e as mulheres da 3ª Idade e da 4ª Idade, os idosos de hoje. A expressão velho ou velha, enquanto designativo, caiu em desuso, salvo quando se pretende caracterizar alguém do ponto de vista do seu estado presente, por comparação ao passado ou por comparação com outrém: “envelheceu de repente”; “está a ficar velho”; “ele está mais velho do que ela”. Caso contrário, a designação socialmente correcta é amaciada (idoso, a mais usada, de preferência a ancião, sénior, geronte, velhote), e o termo velho ganha um sentido quase pejorativo.

A alteração vocabular deixa perceber uma mudança social com um significado próprio. Esta nova opção vocabular não se aplicou aos tecidos inertes (à habitação), embora eles possuam “vida”, façam viver a cidade e preservem a vida de quem neles se abriga. Daqui resulta que um idoso possa ser referenciado numa velha casa, sendo improvável ouvir dizer que um idoso apartamento é morada de uma mulher velha. Sem pruridos, dizemos que um edifício está velho quando revela sinais de deterioração. Mas é afirmação socialmente menos consentida se essa senescência for de alguém que estimamos e respeitamos.

Esta deferência vocabular introduzida nas sociedades Ocidentais contemporâneas quando nos referimos aos mais velhos espelha a nossa própria posição sobre essa condição humana e social (a velhice). É questão que não cabe aqui esmiuçar. Mas pode ter implicações sobre o modo como compreendemos a relação do homem e da mulher idosos com o seu espaço vivido. Por exemplo, pode levar-nos a pensar em soluções residenciais assistidas, dos próprios (apoio domiciliário) ou especialmente construídas para o efeito. Nestes casos, a gama existente vai das pequenas unidades residenciais (condominiais, agrupamento de famílias) aos grandes equipamentos (lares, casas de repouso), numa lógica de descontinuidade geracional mais ou menos radical.

A questão do alojamento das pessoas de maior idade, quando entendida como tal (isto é, questão de uma geração e não da nossa organização social) acaba por ser tributária do mesmo processamento social, que categoriza etariamente e favorece uma estereotipia social baseada na idade. Esse processamento é um fenómeno social normalizador (e normativo) que reduz a complexidade do real e homogeneíza as pessoas e os seus grupos de pertença. As ‘crianças’, os ‘adolescentes’, ‘os jovens adultos’, os ‘adultos’, os ‘idosos’ são produto desse processo, e a organização da vida social é determinada por estas categorizações, retroagindo incessantemente.




Imagem 1: A cidade e os seus equipamentos exigem atenção redobrada para um usufruto em condições adequadas. O “típico” pode ser adverso ao idoso.

As cidades, expoentes máximos da concentração humana e da civilização urbanocêntrica, reproduzem na sua ordem social e espacial este modo segmentado de ver a sociedade. Enquanto as urbes se confundiram com crescimento populacional, pujança económica, sorvedouros de mão-de-obra jovem e espaços de elevada atractibilidade, poucos foram os que imaginaram (e se preocuparam) com os velhos que nelas habitavam, e a questão do envelhecimento demográfico não lhes dizia directamente respeito.

Desenganem-se, porém, aqueles que pensam que as cidades não envelhecem demograficamente, em estreita relação com o envelhecimento do seu edificado e das demais infra-estruturas. Provámo-lo à saciedade em estudos recentes. Entre nós, por exemplo, a maioria da população com mais de 65 anos de idade já não residia, em 2001, maioritariamente, em lugares com menos de 2.000 habitantes (apenas 47,6%, contra 53% dez anos antes), e o maior aumento nas últimas décadas tem-se verificado nos centros urbanos, quer de média, quer de grande dimensão. No início deste século XXI, mais de ⅓ (35%) dos idosos vive em aglomerados considerados urbanos (> 10.000 habitantes). Mais precisamente: 592 mil pessoas idosas.

As cidades, nomeadamente as de maior dimensão, reflectem nas suas estruturas populacionais esta tendência demográfica para o envelhecimento, embora a expressão do peso relativo da população idosa se faça sentir ainda mais, dado que a própria transformação urbana se encarrega de proceder a uma segregação demográfica que expulsa para as periferias as gerações mais novas, criando as condições para o aparecimento de áreas dentro da cidade (freguesias, quarteirões, bairros) em que a proporção de idosos é elevadíssima, em muitos casos ultrapassando 30% da população aí residente. A Cidade de Lisboa reflecte bem este fenómeno.



Imagem 2: A secularização crescente e a desparoquialização das práticas religiosas têm contribuído para o isolamento progressivo do idoso, mesmo na “sua “ Igreja.

A segregação demográfica (ou dissociação etária), entendida neste duplo sentido do envelhecimento populacional das cidades e rejuvenescimento das suas periferias, pode ser definida como a desigual repartição dos diferentes grupos sexo-etários no seio das aglomerações urbanas, e é um fenómeno gerador de importantes disfunções sociais e urbanas. A elas nos poderemos vir a referir em outras ocasiões.

Por agora, fiquemo-nos por uma breve caracterização da cidade de Lisboa e do seu envelhecimento, acompanhada de comentários que sugerem aberta discussão.




Os factos da cidade envelhecida que já foi de muitas e desvairadas gentes.


1. Cidade de pouco mais de meio milhão de habitantes (564 mil em 2001), em Lisboa residem cerca de 134 mil idosos (pessoas com mais de 65 anos de idade). Para que se compreenda a reconfiguração demográfica da cidade-capital, são mais 10.000 do que há dez anos, quase mais 20.000 do que há vinte anos.


NENHUM PROJECTO PARA LISBOA PODE FICAR INDIFERENTE AO FACTO DE A CIDADE REGISTAR, ANUALMENTE, UM ACRÉSCIMO DE SENSIVELMENTE MAIS 1.000 PESSOAS IDOSAS, QUANDO O VOLUME TOTAL DE POPULAÇÃO NÃO PÁRA DE DIMINUIR.


2. O total de residentes idosos em 2001 correspondia, numericamente, e grosso modo, ao volume de residentes de todas as idades que a cidade deixou escapar desde 1940. Parte considerável das suas freguesias perdeu diversidade geracional, envelheceu e não apresenta sinais de “retoma” demográfica sustentada.



O PROBLEMA SOCIAL EM MUITAS FREGUESIAS DA CIDADE NÃO É APENAS O FACTO DE ESTAREM ENVELHECIDAS.
É TAMBÉM, E SOBRETUDO, O FACTO DE CADA VEZ SEREM MENOS OS HABITANTES QUE NÃO SÃO IDOSOS.


3. Dos 134 mil idosos residentes, aproximadamente 43% têm mais de 75 anos de idade. E destes muito idosos, quase 40 mil são mulheres.



NÃO BASTA DIZER QUE A CIDADE ESTÁ ENVELHECIDA. É PRECISO TOMAR CONSCIÊNCIA DE QUE OS IDOSOS ESTÃO MAIS VELHOS, O QUE SIGNIFICA QUE OS CUIDADOS DE QUE CARECEM AUMENTAM E PROLONGAM-SE NO TEMPO.


4. Das 53 freguesias, só em 5 existem mais jovens (até aos 15 anos) do que idosos. Essas freguesias são a Ameixoeira, Carnide, Charneca, Lumiar e Marvila.


5. Estes factos explicam porque Lisboa é a cidade portuguesa mais envelhecida, a capital europeia com maior proporção de idosos e uma das cidades europeias com maior envelhecimento demográfico.


No conjunto da cidade, o número de idosos é o dobro dos jovens (134 mil vs. 66 mil).






6. As projecções demográficas indicam que a tendência para o envelhecimento se manterá e acentuará nas próximas décadas. Lisboa não escapará a esse desígnio demográfico.



A DINÂMICA SOCIAL E DEMOGRÁFICA IMPÕE RESPOSTAS POLÍTICAS QUE NÃO PODEM SER ADIADAS.


7. Mas também a própria Área Metropolitana conhecerá um fenómeno de envelhecimento. Estimam-se que sejam hoje cerca de 326 mil os idosos residentes na AML, mas dentro de 10 anos serão quase 400 mil.



AS QUESTÕES DO ENVELHECIMENTO NÃO DIZEM APENAS RESPEITO A LISBOA MAS A TODA A SUA ÁREA METROPOLITANA E É TAMBÉM NESSE CONTEXTO QUE DEVERÃO SER PENSADAS.


A estes factos demográficos, outros indicadores sociais se podem associar:

8. Pelo menos 34.000 idosos da Cidade (dos 134 mil residentes, i.e., 25%) vivem sós em casa.


9. Pelo menos mais 50.000 viverão apenas com o seu cônjuge, o que significa que cerca de 62% viverão sós ou acompanhados com outro idoso.



O TOTAL ISOLAMENTO OU A DEPENDÊNCIA DE OUTRO IDOSO SÃO FACTOS A QUE NÃO PODEMOS FICAR INSENSÍVEIS E QUE SUGEREM POLÍTICAS SOCIAIS ACTIVAS PARA OS MAIS VELHOS.


10. A relação entre a idade das pessoas e a idade dos alojamentos e as suas más condições habitacionais é fortíssima (e estatisticamente irrefutável), denunciando que a precaridade das condições em que habitam será, em muitos caso, muito elevada.



O PROBLEMA DAS MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS NÃO ADAPTADAS ÀS NECESSIDADES DOS MAIS VELHOS PODE SER ATACADO.


11. Nem todos vivem no centro da Cidade. Grande parte vive nas avenidas novas, em Alvalade, em Benfica, muitos (cerca de 6.500) em bairros sociais de realojamento.



É ERRADO PENSAR-SE QUE SÓ EXISTEM IDOSOS NAS ZONAS HISTÓRICAS DA CIDADE.


12. Mais de 3.000 vivem em lares e residências para idosos (2 em cada 100).


13. O índice de risco rodoviário (nomeadamente no atravessamento das ruas) é várias vezes superior à média (de todas as idades).


14. O medo (sentimento de insegurança) gerado pelos furtos e roubos de que são alvo é o maior de entre todos os cidadãos.


15. A mobilidade (uso do transporte próprio ou público) é a mais baixa de entre todos os moradores.



OS RISCOS RELACIONADOS COM A UTILIZAÇÃO DA VIA PÚBLICA, O MEDO DE SER ASSALTADO, A AUSÊNCIA DE UMA REDE DE TRANSPORTES ADEQUADA, A FALTA DE RECURSOS MATERIAIS EXIGEM RESPOSTAS.


16. O rendimento mensal médio é dos mais baixos.


17. Pela óptica mais restrita dos índices de pobreza (i.e., em que o critério assegura que as pessoas identificadas nesta categoria possuem rendimentos correspondentes a 60% da mediana do valor da receita líquida total por adulto equivalente), obtém-se um nicho de idosos pobres residentes na Cidade em torno dos 50 mil, ou seja, cerca de 37% do total de idosos residentes.


alguém poderá ficar indiferente a uma estimativa que admite que o número de idosos pobres na cidade ronde os 50 mil?

18. Deverá ter-se em consideração que 92% dos homens e mulheres com mais de 65 anos e residentes na cidade são “inactivos” (o que significa serem reformados, aposentados ou domésticos, não exercendo uma actividade remunerada), e que os 8% que ainda trabalham, a maioria fá-lo apenas até aos 69 anos de idade, predominando (nestes casos), por ordem decrescente de importância, os seguintes grupos sócio-económicos:


Trabalhadores não qualificados (de diferentes sectores) (21%)

Quadros intelectuais e científicos (15,4%)

Empregados administrativos do comércio e serviços (15%)

Pequenos patrões do comércio e serviços (7%)

Directores e quadros dirigentes do Estado e empresas (5,5%)


A INACTIVIDADE PROFISSIONAL DA VELHICE URBANA, SOBRETUDO DAQUELES QUE SE ENCONTRAM PSICOLOGICAMENTE E FUNCIONALMENTE APTOS, PODERIA SER A MAIOR FORÇA DE TRABALHO SOCIAL DISPONÍVEL AO SERVIÇO DE UMA CIDADE SOLIDÁRIA


19. Deverá ter-se também em consideração que 43% das pessoas residentes em Lisboa que foram identificadas como portadores de uma qualquer deficiência e independentemente do grau de incapacidade (motora, auditiva, visual, mental ou outra, cfr. dados de 2001) tinham mais de 65 anos de idade. Aliás 43% dos idosos estavam nessa situação.


Comente você mesmo!





Imagem 3: Há alguma inconvencionalidade no modo de vida do idoso urbano, que o cosmopolitismo não esbate, e pelo contrário acentua.