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terça-feira, junho 23, 2020

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 735

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Notas prévias:

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Esperando que estejam todos de saúde,

continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.

Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.

Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 22 de junho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

 

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

António Baptista Coelho

 

 

 

Ainda sobre a grande e insuspeitada importância da opção de se viver em afirma relação com o exterior

A opção de se “viver ao nível térreo” ou próximo dele, ou ainda em relação privilegiada com o exterior (privado, comum, público ou de uso público) é um passo importante, como já foi aqui referido, para se habitar privilegiando o exterior e, consequentemente, marcando-se bem a existência, sempre bem próxima, de um “interior” que poderá e deverá ser expressivamente acolhedor e identificador.

É, assim, interessante considerar que uma tal possibilidade de habitar de modos afirmadamente ligados ao “exterior”, ao “ar-livre”, “à rua” e, portanto, à natureza, e/ou à cidade e/ou mesmo à paisagem de proximidade, é uma possibilidade que, um pouco ao contrário do que poderia parecer, acaba por proporcionar, para além de toda essa potencial diversidade de usos e sentimentos ligados ao “exterior” (bastante apontados no artigo anterior) e, consequentemente, aos tais ricos espaços de relação exterior/interior/exterior, um verdadeiro sentido de interioridade e de verdadeira opção por essa interioridade.

E mais podemos, ainda, avançar quando consideramos que um tal verdadeiro sentido de interioridade, mais ou menos matizada em termos ambientais e de privacidade/convívio, será muito mais efetiva, porque verdadeiramente opcional e “desejada”, do que aquela interioridade quase “obrigatória” que sentimos e “sofremos”, quando estamos “alojados” em condições nas quais a única opção é entrarmos nos “nossos” edifícios e, em seguida, passarmos de imediato (pois não existem outras opções e mesmo estes espaços ditos comuns acabam por ser meros espaços mínimos de circulação) aos “nossos” espaços domésticos, que, muitas vezes, eles próprios são, também, tristemente unívocos (suscetíveis de interpretações únicas, quando não mesmo única) e “obrigatórios” nas suas formas de uso e de (muito reduzida ou mesmo ausente) capacidade e apropriação.

E realmente toda esta reflexão pode e deve corresponder a um verdadeiro “filão” em termos de reflexão projetual (sobre o “viver ao nível térreo” ou em grande relação com o exterior), numa perspetiva que deverá ser conjugada e que, por sua vez, ganhará importantes influências, designadamente dos seguintes aspetos:

·        diversificação e adequação tipológica habitacional, numa opção cada vez mais afastada das velhas e “únicas” soluções ditas funcionalistas e que corresponda a uma verdadeira aproximação a diversos modos e desejos de habitar a casa, a vizinhança e a cidade e a diversos gostos de contacto diário com o exterior;

·        consideração estratégica e igualmente diversificada, dos importantes aspetos de harmonização a necessidades específicas de acessibilidade e à sua natural mistura e conjugação em soluções urbanas;

·        compatibilização com as “novas” ou renovadas preocupações de densificação urbana, pois não tenhamos quaisquer dúvidas que será, em boa parte, da natural organicidade de misturas de soluções de habitar diversificadas no seu relacionamento com o exterior que decorrerá boa parte da respetiva capacidade de combinação mútua e, consequentemente, de agregação e densificação;

·        incorporação na arquitetura urbana assim relativamente reinventada de múltiplos aspetos de sustentabilidade ambiental e social urbanas, designadamente, através da multiplicidade de relacionamento com e de usos dos espaços exteriores, seja em aspetos ligados com a sua componente natural, seja na sua potencialidade social;

·        opção evidenciada por um urbanismo renovado e mais humano, tendo-se em conta aspetos de relação mais direta, diversificada e múltipla com a escala e os usos humanos; e uma opção que, consequentemente, irá pedir sempre mais “humanidade” e mais relacionamentos nos outros níveis físicos da cidade e sua envolvente;

·        compatibilização com soluções de arquitectura urbana potencialmente muito sensíveis a situações de baixa e muito baixa densidades, numa opção em que, finalmente, se dará a tais situações a sua importância real e urgente;

·        e conjugação com uma oferta habitacional potencial e expressivamente caraterizada como claramente apropriável pelos seus habitantes (fisicamente e em termos de identidade); isto porque não se trata só de intervir diretamente na potencialmente enorme presença física de múltiplos pequenos jardins, pequenos pátios, caminhos ajardinados, balcões e varandas todos marcados por elementos naturais e de mobiliário exterior, mas trata-se, também, de suscitar uma arquitetura urbana global e intensamente marcada pelas contiguidades com espaços domésticos e também com os tais pequenos espaços de equipamento coletivo (ex., pequenos cafés e esplanadas), que acabem por também se caracterizarem por um forte sentido doméstico e apropriado/apropriável .

 

Espaço urbano vitalizado pelas habitações térreas

A existência de residências térreas, dispondo de espaços exteriores privativos, liga-se a uma oferta, directa, de condições de vida diária potencialmente muito semelhantes ao viver em edifícios unifamiliares e pode, até, ser conveniente para potenciar a continuidade da presença humana e a animação urbana, acima referidas, e por outro lado para as garantir, de modo mais generalizado, "a toda a volta dos edifícios" e, até, de um modo mais alargado, a toda a volta de zonas exteriores privadas dos fogos do rés-do-chão, enquanto também se potencia a qualificação basicamente residencial da zona em causa (caracterizando-a como uma verdadeira "área residencial").

E nunca é excessivo valorizar este sentido de “residencialidade”, que acaba por ser a “urbanidade” mais ligada à proximidade/contiguidade da habitação.

 

Fig. 01: o exterior considerado e tratado como efetivo espaço de habitar.


Adequação da habitação a modos de vida e gostos habitacionais

Por outro lado, sabendo-se , ainda, que os fogos térreos podem ter problemas de segurança (relativamente a intrusões) e de reduzido desafogo de vistas (de modo a proteger-se a intimidade doméstica), para não falar já das suas potencialmente mais fracas/sensíveis condições de conforto ambiental (mais sombra, mais ruído), também parece justo que lhes sejam atribuídas, de certa forma em compensação, algumas (muitas) vantagens quanto à autonomia no contacto com o solo e respetiva diversidade de usos correlacionados.

Com uma tal opção projetual e para além desta compensação com múltiplos usos “térreos” a habitações próximas do nível térreo, conseguem-se, ainda:

·        substanciais poupanças na manutenção pública do exterior residencial, que acaba por ser garantido, em boa parte, pelos seus próprios habitantes;

·        enquanto se proporciona a um significativo grupo social, o das famílias com filhos pequenos e de tantas outras pessoas com hábitos e gostos de relacionamento com o exterior, um meio residencial que é o ideal para o crescimento saudável destas crianças (jogos no exterior em segurança, contacto directo com a terra, etc.) e para a saudável e gratificante continuidade de usos e desejos de habitar e de usar o exterior; usos e desejos estes que poderão e deverão marcar uma renovada oferta de tipologias habitacionais adequadas, seja a uma ampla diversidade de modos de vida (ex., mais ligados a prática rurais), seja a uma ampla variedade de gostos/desejos de habitar (ex., ligação mais forte ao exterior e ao solo, contato com animais domésticos, etc.).

 

Cuidados com as habitações térreas

Convém, no entanto, considerar alguns cuidados básicos no desenvolvimento de fogos e equipamentos térreos, tal como, em seguida, se refere (de modo não exaustivo):

·        Cotas de soleira e de peitoril a alturas adequadas, relativamente aos espaços exteriores públicos, comuns e privados contíguos.

·        Vistas a partir dos espaços pedonais envolventes do edifício, por um lado não devassando os espaços térreos privados e por outro aproveitando, pelo menos em parte, visual e ambientalmente, os "verdes" privados.

·        Relações estimulantes com os espaços exteriores privados e bem aproveitadas em todas as suas potencialidades, com relevo para a forte caracterização da imagem urbana do local (área ou conjunto residencial).

·        Adequadas (máximas) condições de segurança, tanto por recurso a muros, gradeamentos e vedações previamente projectados e uniformizados, "cobrindo"/protegendo todos os vãos exteriores térreos e quintais privados, como pelo desenvolvimento cuidadoso (não ferindo privacidades domésticas) de uma estratégia generalizada de visibilidades de segurança e de contiguidades de observações naturais e contínuas (ex., contiguidade ou grande proximidade entre as traseiras de certos edifícios e as entradas de outros). 

·        Total controlo do desenvolvimento de anexos nos quintais privados, segundo projectos-tipo e apenas para usos, previamente, bem definidos.

·        Articulação de todos estes aspetos numa adequada solução de gestão local dos espaços públicos, de uso público, comuns visíveis e privados visíveis; solução esta também direcionada para a manutenção de adequadas condições ordenamento e qualidade visual e de segurança pública nestes espaços.

 

Semelhança entre habitações térreas e moradias

John Noble e Barbara Adams consideram que algumas características das moradias podem ser conseguidas nos pisos térreos de edifícios multifamiliares, tais como acessibilidade a diversos tipos de espaços exteriores, terraços e jardins privados económicos, zonas de serviço exteriores e vistas agradáveis de espaços verdes ou de zonas animadas; no entanto, há que cuidar, atentamente, das relações visuais e acústicas que determinam a privacidade doméstica (essencialmente interior, mas também em parte do exterior privado). (1)

É ainda de considerar a extensão parcial deste tipo de solução às habitações em 1º andar, através de terraços e escadas exteriores funcionais e, por vezes, aproveitando a topografia do terreno.

E é, ainda, interessante considerar que tais qualidades evidenciadas de bom relacionamento com o exterior podem também ser reforçadas pelo desenvolvimento, mais em altura, de soluções habitacionais marcadas por adequados terraços, balcões, varandas e mesmo vãos de janela expressivamente ligados ao exterior.



  Fig. 02: a importância que tem a relação interior/exterior num uso estimulante dos espaços domésticos.

 

 Pátios e quintais privados

Uma previsão de pátios ou pequenos quintais privados é um aspecto fundamental neste nível físico da Vizinhança Próxima, que parece não ter sido, ainda, convenientemente considerado na arquitectura urbana residencial mais recente.

Afinal os espaços exteriores privativos e térreos constituem zonas de transição interior doméstico/exterior público ou semi-público com enorme capacidade de apropriação, são elementos de forte compensação face a uma situação habitacional térrea ou pouco elevada (menos privatizada, segura e visualmente desafogada), asseguram boa capacidade de adequação a determinados modos de vida, desejos habitacionais e composições familiares (famílias com crianças) e podem também assegurar um verde privado com forte fruição pública mas sem gastos públicos de manutenção (ao longo de caminhos e passeios pedonais) contíguas, mas assegurando forte demarcação e relativa ou total privacidade. 

E não tenhamos dúvidas de que mesmo pequenos pátios e/ou quintais privados, ou mesmo varandas fundas/profunda, desde que bem projetados e equipados, proporcionam às suas habitações uma extraordinária dimensão natural e de relacionamento com o exterior, verdadeiramente enriquecedora em si própria (pelos usos e ambientes proporcionados) e de enriquecimento diversificado dos respetivos espaços interiores contíguos.

Variedade de espaços exteriores privativos

De certo modo a integração de quintais/pátios e de balcões/varandas com expressiva profundidade tem grande versatilidade de aplicação, podendo variar, por exemplo, entre um grande pátio/terraço comum envolvendo uma torre habitacional e um interior de quarteirão associando zonas de recreio semi-públicas centralizadas e uma margem quase contínua de quintais/pátios contíguos a fogos térreos, ligados a fogos em 1º andar (com acesso por escadas), dispondo de balcões ajardinados e profundos e, eventualmente, contíguos a salas de condomínio.

Relativamente a todas estas matérias lembra-se um interessante livro de Dieter Prinz, com uma já “antiga” edição portuguesa (1994) designado Urbanismo II ( e julgo que “Configuração Urbana”, pelos menos assim é na edição no Brasil) e em que se abordam estes assuntos de forma muito estimulante.

           

Outras vantagens dos exteriores privativos e bem relacionados com o nível térreo

Ainda outras importantes vantagens do desenvolvimento de quintais/pátios e de varandas profundas ao nível térreo e na sua proximidade, referem-se à sua muito provável influência decisiva na obtenção de condições de intensa utilização e apropriação de grande parte do exterior de proximidade e os consequentes ganhos em boas condições de vigilância natural, bastante contínua e bem disseminada, de todo o território da Vizinhança Próxima.

Não é excessivo reafirmar que estas condições só terão viabilidade se o sistema de quintais/pátios e de janelas e varandas baixas estiver perfeitamente conjugado com o sistema de acessibilidade local e de respetivas visibilidades mútuas (ex., percursos de uso frequente ao logo de bandas de quintais), caso contrário, tratando-se de uma má solução de projeto de Arquitetura, o resultado final até poderá, eventualmente, agravar situações de insegurança e de incomodidade na vivência local.

 

Notas:

(1) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 525.

 

 

 

Uma primeira versão, muito menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 476 da Infohabitar, em 17 de março de 2014.

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 735

 

Viver ao nível térreo - II

Espaço urbano vitalizado pelas relações entre exterior e interior – Infohabitar # 735

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


terça-feira, novembro 20, 2018

665 - HABITAR INTEGRADO - Infohabitar 665

INFOHABITAR N.º 665
HABITAR INTEGRADO
Conjunto de 11 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 11 artigos, editados entre 2005 e 2008, desenvolvidos por 3 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema: HABITAR INTEGRADO.

Lembra-se que esta matéria relativa ao HABITAR INTEGRADO constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria relativa ao HABITAR INTEGRADO corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

A matéria global do “habitar humanizado” refere-se ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


A cidade viva e integrada é bem diferente do subúrbio caótico, isolado e destruído.
“O processo de urbanização das cidades empurrou a maioria das pessoas para os seus subúrbios, onde vivem segregadas e divididas segundo o nível económico de cada família. Muitas vezes formam-se guetos onde faltam os estímulos culturais e sociais que favoreçam o convívio entre pessoas de diferentes classes e profissões mais jovems e mais velhas, ou simplesmente diferentes.”
Vasco Croft , “Arquitectura e Humanismo – O papel do arquitecto, hoje, em Portugal”  (2001)


A integração, numa sua fundamental perspectiva geral, que vai, por exemplo, do mais puro desenho às mais funcionais preocupações com a vida diária, passando pelos complexos – e por vezes quase irresolúveis – objectivos de “acalmia” e de positiva mesclagem de grupos sociais, é uma matéria de grande importância e com uma bem aparente grande diversidade de facetas, designadamente, em termos físicos, socioculturais e de dinamização de actividades com relevo para uma positiva e vitalizadora animação urbana.
Importa salientar, desde já, que essas três perspectivas de integração física, social e de actividades, na prática, deverão ser consideradas, frequentemente, de forma intensa e muito proximamente articulada.
E é possível fazê-lo desde que com algumas condições de autonomia, de flexibilidade, de densidades e de standards. E salienta-se que para a formalização coerente e fundamentada da arquitectura é extremamente importante este “jogo” da integração entre fogos, edifícios, espaços públicos e equipamentos, tal como fica bem patente em algumas recentes publicações como é o caso de um número da revista L’ Architecture aujourd'hui (N° 358, Maio de 2005), sob o título “Habitat collectif, questions de densité”, e como se constata nos diversificados e motivadores exemplos habitacionais e urbanos, apresentados no também livro de Javier Mozas e Aurora Per, “Densidad : Nueva vivienda colectiva” (2004), exemplos estes com diversas densidades mas com uma constante e efectiva preocupação de integração mútua dos próprios elementos habitacionais e urbanos constituintes de cada uma das diversas soluções apresentadas, bem como da integração de cada uma dessas soluções nas suas respectivas partes de cidade.
A integração física, social e de actividades é assim uma temática extremamente ligada aos aspectos da forma da arquitectura urbana e da densidade, bem como aos associados aspectos dos respectivos conteúdos em actividades, e uma temática que está na ordem do dia, no sentido em que precisamos de aprender a fazer, bem, ruas e quarteirões citadinos, cujas formas, densidades e misturas sociais e funcionais garantam uma verdadeira sustentabilidade em termos de equilíbrio social e funcional e no que se refere a uma adequada e harmonizada animação urbana, bem ligada à essencial  agradabilidade e sossego residencial, e, naturalmente, a uma adequada humanização da própria imagem urbana do conjunto, bem como da sua respectiva pormenorização; pormenorização esta que deve estar claramente ao serviço dos referidos objectivos de integração.
Esta múltipla integração física, social e de actividades  deve privilegiar, sempre, a vitalização e o construir no construído, seja na perspectiva de um habitar humanizado, seja na fundamental e também humanizadora opção de requalificação do espaço urbano e paisagístico.
Nunca é demais sublinhar que se refere “habitar” numa perspectiva que vai até aos centros das cidades e aos pólos intermodais que servem vizinhanças alargadas. De certa forma no respeito de uma perspectiva de humanização que connosco caminha desde a porta de casa à porta do museu, no centro da cidade, e à porta do trabalho. Uma perspectiva de habitar, marcar, dominar positivamente, usar com gosto e facilidade e curiosidade a cidade e a região, entre os nossos mundos familiares e de bairro até às pontes de contacto com os outros mundos que devem fazer a riqueza funcional e cultural citadina; e uma perspectiva que é, afinal, exemplo directo de uma opção integradora. Uma opção integradora que tem de ter, sempre, profundo enraizamento na cultura e na comunidade local.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial HABITAR INTEGRADO cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

A integração da habitação social

Realojamento

Espírito do lugar

Carácter local

Arquitectura dos sítios e das paisagens

Casas envolventes e vivas

Sentido do lugar

Sentidos lugares

Lugares sentidos

Identidade e turismo


Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

HABITAR INTEGRADO
A integração da habitação social II – importância e complexidade da integração social, artigo de António Baptista Coelho (n.º 207, 26 Jul. 2008, 6 págs. 2 figs.).
Espírito do lugar – o direito de estar, artigo de António Pedro Dores (n.º 201, 15 Jun. 2008, 14 págs, 12 figs.).
Ainda sobre o espírito do lugar – Maria João Eloy (n.º 62, 6 Jan. 06, 1p.).
Casas envolventes e vivas (I) António Baptista Coelho (n.º 39, 11 Set. 05, 3 p., 1 fig.).
Sentido do lugar – I, em memória de Fernando Távora , texto de António Baptista Coelho (n.º 38, 4 Set. 05, 3 p., 4 fig., 3 com.).
Sentidos lugares II – algumas notas gerais sobre a integração , António Baptista Coelho (n.º 37, 24 Ago. 05, 4 p., 3 fig.).
Sentidos lugares I – algumas notas sobre o verde urbano , António Baptista Coelho (n.º 36, 21 Ago. 05, 4 p., 5 fig.).
Onde acaba a identidade e começa o turismo? - António Baptista Coelho (n.º 11, 4 Mar. 05, 1 p.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 665
HABITAR INTEGRADO
Conjunto de 11 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, abril 12, 2015

528 - Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana - Infohabitar 528

Infohabitar, Ano XI, n.º 528
Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana: ou mais uma reflexão sobre o "espírito do lugar"
António Baptista Coelho


A valorização do património arquitetónico local

A valorização do património arquitetónico local tem grande importância para o aprofundamento do conhecimento do património material e imaterial das respetivas zonas, e para o desenvolvimento da caraterização ou caráter local desses sítios – partes de cidades e de vilas, aldeias e lugares; uma diferenciação que importa aliar a outras iniciativas culturais dinâmicas e diversificadas e que urge apoiar numa dupla perspetiva de defesa e recuperação patrimonial e de apoio à dinamização social local nas suas diversas facetas, mais diárias e correntes ou mais ligadas a um turismo cultural, que está cada vez mais ativo.

Esta perspetiva fica em boa parte evidenciada numa citação, quase completa, do poema de Eugénio de Andrade, cujo título é, significativamente, “O Lugar da Casa”:

Diz o poeta:

“Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de Abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.”
Eugénio de Andrade
E repete-se o início do poema:

“Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar"


Fig 1: vista da costa da Ilha da Madeira

O fazer e o refazer verdadeiros lugares

É desta matéria que aqui tratamos: o fazer e o refazer verdadeiros lugares; identificar, construir e reconstruir lugares bem caraterizados e viáveis, com base no que existe, nos sítios, resgatando-se o que sobreviveu do nosso património edificado, urbano e paisagístico, aos longos períodos tantas vezes despreocupada e mesmo por vezes criminosamente ignorantes dos valores do passado e da cultura nacional, regional e local.

Mas centremo-nos, agora, “apenas” na importância social e cultural de uma adequada caracterização arquitetónica, num sentido amplo de arquitetura que vai à cidade e à paisagem.

Defende-se, como diz o Arq.º Yves Lyon, “uma nova atividade de arquiteto feita da atenção para com os lugares”, uma atenção que depende em muito das suas condições preexistentes, da sua pormenorização, e que tem de nascer de uma tão cuidada como estimulante leitura da sua imagem urbana e paisagística, pois, como defende Manuel Salgado, hoje em dia “desenhar a cidade é antes de mais saber lê-la.”

Ler bem os lugares e (re)fazer lugares bem legíveis

E havendo lugares que conseguimos ler fluentemente e com interesse, porque nos cativam e nos “contam histórias”, ainda que incompletas ou a necessitar de alguma reabilitação, então temos parte da tarefa já realizada, pois todos sabemos que há cidades e bairros ricos de lugares e há também lugares onde, até, por vezes pequenas intervenções reconstroem e sublinham atraentes ambientes, plenos de conteúdos e de estímulos no sentido de um seu uso intenso e prolongado.

Avançamos assim no que se julga ser a importância das relações humanizadoras que podemos estabelecer com os espaços que nos rodeiam, protegem e caracterizam, assumindo-se a importância que tem uma afirmada diferenciação pela valorização do carácter local, no encontro íntimo que sempre marcou a relação entre os homens e os espaços por eles habitados, edificados e urbanizados.

A relação íntima entre os homens e os espaços por eles habitados

Mas este encontro especial de natureza íntima que a Arq.ª e Prof.ª Ludmila Brandão refere acontecer “ (1) “entre casas e homens”, não esgota, naturalmente, o manancial do carácter local, e registam-se, aqui, as palavras/ideias de outros estudiosos da Arquitetura, como Gordon Cullen  e Kevin Lynch e a sua defesa de uma cidade que tenha uma forte “imagibilidade” (2), pois “quem sabe se tenha falado muito de forma e pouco de forma na cidade, daquela forma que vai da imagem urbana à imagem doméstica”, tal como defende Gonçalo Byrne (2000). (3)

Fig. 2: preexistência no modernista Olivais Norte, Lisboa

Esse encontro íntimo entre as histórias dos homens e as histórias das suas casas e das suas ruas acontece, quando acontece, em diversos níveis interligados, porque habitamos as diferentes escalas da cidade numa teia de espacialidades e de apropriações diversificadas, cuja complexidade é problema, mas também grande riqueza; de certa forma podendo nós habitar e experimentar uma história rica de variados pontos de vista, relações e pequenos mundos frequentemente sobrepostos, num argumento que desta forma nos pode cativar e “prender” por lá, repetida e intensamente.

Um argumento e um conjunto de cenários vivos que caraterizam um espaço urbano em que, como refere William Mitchell, há, hoje em dia, que (re)inventar os espaços públicos e as formas de habitar, mas sempre no respeito pelas características específicas do lugar – que podemos referir de “espírito do lugar”; e Mitchell, em muitos dos seus escritos, sublinha as grandes e inevitáveis mudanças no habitar a casa, o bairro e a cidade de hoje, mas defende a convivência de tais mudanças com o reforço de uma caracterização local coerente, que seja base de identidade e de diferenciação.

Uma base de identidade que, julgamos nós, deverá reger-se, desejavelmente, por uma perspectiva culturalmente consistente e marcada por uma cívica sobriedade, pois estamos a tratar de espaço público, espaço que tem de servir e agradar ao maior número dos seus habitantes e que deve, também, assumir um sentido de representatividade global e de identidade local.

São necessários espaços urbanos calorosos e ricos de identidade

Para tal é fundamental não se aceitarem mais espaços públicos, frios, austeros e inimigos das pessoas, e nestas matérias é inestimável a importância das fontes literárias e das fontes artísticas em geral para a aproximação a um habitar humanizado e cívico, pois são os escritores e os poetas aqueles que melhor e/ou frequentemente conseguem descrever como são, ou como podem ser, pedaços de cidade habitada humanizados/calorosos, envolventes e estimulantes de percursos e estadias.

Antes de concluir esta sequência de ideias não é possível deixar de registar que tudo isto é vital para a revitalização urbana de muitos sítios do nosso mundo de cidades, mas que tais condições não podem substituir a adequada funcionalização de tais espaços em termos de acessibilidades e eficácias funcionais amplas e completas, incluindo-se as matérias de sentido de segurança urbana; e mais do que isto, importa desenvolver soluções em que a referida e essencial humanização espacial integre verdadeiramente a “razão” funcional da respetiva zona/intervenção nos seus diversos aspetos.

Sublinhemos, então, que, tal como se salientou acima, os espaços que habitamos têm de dialogar connosco, têm de nos “prender”, têm de nos contar a sua história “única” – que corresponde a boa parte da sua identidade – e algumas das suas histórias do dia-a-dia, histórias que fazem realmente viver esses espaços, que não podem ser mudos e descaracterizados.

Fig. 3: porta de habitação em Alfama, Lisboa

Espaços urbanos interessantes e com significado

E sobre estas matérias lembremos, para concluir esta pequena reflexão, as sábias palavras de dois grandes arquitetos:

Charles Moore diz-nos (4) “estar contra as atitudes que fazem de edifícios com potencial para comunicar com os seus habitantes, edifícios mudos”, que está “contra a homogeneização do lugar”, que acredita que “o silêncio é imposto pelo fazer edifícios sem cuidado, e multiplicando uma tal falta de cuidado sem qualquer preocupação”, e que o “resultado foi que os edifícios, quando tornados mudos, ficaram tão desinteressantes, que os habitantes deixaram de tomar atenção neles, deixaram de se preocupar com eles.”

E sobre o carácter do lugar escreveu Christian Norberg-Schulz no prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture” (1986): (5) “Desde tempos remotos a arquitectura tem ajudado o homem a dar sentido e significado à sua existência. Com a ajuda da arquitectura ele conseguiu marcar uma posição no espaço e no tempo. A arquitectura preocupa-se portanto com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais. Os conteúdos e significados existenciais resultam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter...” E por vezes o projecto “não é mais” que um (excelente) elemento de valorização da união de condições naturais e urbanas preexistentes.

E, tal como referiu a colega Marilice Costi, “uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.” (6)

Nota final:

Este artigo foi elaborado a propósito e na sequência de uma intervenção do autor num encontro realizado no Museu dos Lanifícios, Universidade da Beira Interior – Covilhã, no âmbito da exposição “um destino; coisa simples” - Património arquitectónico do séc. XX no concelho do Fundão .

A exposição esteve patente n’A Moagem Cidade do Engenho e das Artes, no Fundão, e depois no referido Museu dos Lanifícios e foi desenvolvida pelo Atelier Pedro Novo Arquitetos, com o apoio do Município do Fundão e da Ordem dos Arquitetos (inaugurou a 15 de Novembro de 2014).

A exposição pretende divulgar o património arquitectónico do século XX existente no concelho e aproximá-lo da população, dando a conhecer algumas das figuras mais importantes da arquitectura portuguesa do século XX com obra construída no concelho do Fundão. Para além da divulgação deste património, pretende-se alertar e sensibilizar a população para um quadro de responsabilidade partilhada, numa perspetiva futura de classificação e manutenção do património edificado no concelho do Fundão.
https://www.facebook.com/umdestino.coisasimples?pnref=lhc

Notas:
(1) Ludmila de Lima Brandão, “A Casa Subjetiva”, 2002, p.133.
(2) Kevin Lynch, “L'Image de la Cite”, 1976 (1960), p.12.
(3) Ricardo Carvalho, “Estou cansado de falar de forma – entrevista com Gonçalo Byrne”, Público, 16 Agosto 2000.
(4) Idem, Ibid.
(5) Texto de Christian Norberg-Schulz, no Prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture”, 1986.
(6)Texto de Marilice Costi, integrado em um dos primeiros artigos da revista na www Infohabitar, em Junho de 2005.


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Infohabitar, Ano XI, n.º 528
Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana: ou mais uma reflexão sobre o "espírito do lugar"
Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.