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segunda-feira, outubro 15, 2018

660 - AS HUMANIDADES E O HABITAR - Infohabitar 660

INFOHABITAR N.º 660
AS HUMANIDADES E O HABITAR 

Conjunto de 16 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 16 artigos, editados entre 2005 e 2013, desenvolvidos por 11 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR.

Lembra-se que esta matéria das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR; corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

Esta temática global do “habitar humanizado” refere-se, pois ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


Caminhar e filosofar -  “Há alguma coisa nessa actividade, que é o filosofar, que tem alguma afinidade com o caminhar …” - Eduardo Prado Coelho, “O inabsorvível”, Público - opinião,  17 Janeiro 2004

Considerando, agora, especificamente, a temática das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR,  relembra-se que a matéria da habitação humanizada é aqui tratada a partir do ponto de vista e com as ferramentas da arquitectura; no entanto, o que se pode considerar como uma limitação tem de ser compensado pela consideração da verdadeira importância de todo um leque disciplinar de outras ciências humanas; e a arquitectura também o é.


Mas como tratar estas matérias sem nos especializarmos em Antropologia, Engenharia(s), Filologia, Filosofia, História, Geografia, Medicina/saúde, Sociologia e Psicologia? Naturalmente teremos de encontrar os “postos avançados” dessas áreas de conhecimento que estabeleçam contactos privilegiados com as áreas da arquitectura do habitar, nesta perspectiva da humanização do mesmo habitar, que aqui nos motiva. Teremos assim de encontrar e estudar alguns desses autores/obras, e indicar esses caminhos, mas também devemos identificar nas matérias que são da arquitectura e do urbanismo, mais ligadas ao habitar, aqueles arquitectos e urbanistas, que mais têm seguido ou que mais se têm aproximado (d)esses caminhos. Esta é uma dupla estratégia capaz de assegurar a fundamental criação de pontos de encontro entre a humanização da arquitectura do habitar, pelos arquitectos, e o aprofundamento de um habitar humanizado e culturalmente bem qualificado, pelas outras disciplinas ligadas à matéria.

Afinal e tal como disse Fernando Gil (Fernando Gil ao Expresso de 10/12/93.1993): “Aquilo a que hoje se chama pluridisciplinaridade não é uma metodologia, é a única metodologia possível para se perceber seja o que for. E essa é a razão pela qual é necessário estar-se aberto para fora de um certo limite.”

Se houvesse que fazer uma referência sintética sobre quais as principais temáticas qualitativas a investir, prioritariamente, nesta grande e “renovada” área de uma qualidade arquitectónica residencial humanizada, e sobre a forma preferencial de as investir, sistemática e integradamente (numa espécie de “novelo qualitativo”), uma nota especial deveria ser endereçada para a necessidade de se irem definindo e articulando, mutuamente, os conceitos empregues, criando-se, por um lado, uma crescente e gradualmente consolidada plataforma multidisciplinar de discussão e cooperação técnica, enquanto, por outro lado, se iriam traduzindo tais conceitos numa linguagem, o mais possível, a todos acessível e apoiada, sempre que possível, em exemplos práticos perfeitamente ilustrativos desses mesmos conceitos. Afinal, e tal como se tem repetido e se irá repetir neste trabalho, esta matéria das humanidades nos mundos do habitar tem a ver muito directamente com o eterno e matizado confronto entre quem habita e quem é responsável pelas soluções habitacionais e urbanas.

E a realidade é que em torno e acerca dos espaços de habitar que fazem viver quer as cidades quer os pequenos aglomerados, muitas disciplinas têm vindo a desenvolver, designadamente, nas últimas dezenas de anos, os seus conhecimentos e modos de actuação, assistindo-se, hoje em dia, e cada vez mais, a um esforço de concentração multidisciplinar em temáticas urbanas e residenciais que ainda não há muito tempo eram praticamente exclusivas da formação em arquitectura, e isto é já “meio caminho andado”, naturalmente; falta provavelmente uma verdadeira interiorização e um adequado aperfeiçoamento dos mecanismos práticos da tal pluridisciplinaridade, referida por Fernando Gil.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

A dimensão existencial nas cidades
Casa
Casa e sentidos
Cuidador
Arquitectura, Ciências Humanas e Habitar
Cidades vivas
Cidades cultas
Cidades criativas
Territórios em mudanza
Cidadania e ambiente
Sociedade e envelhecimento
Os idosos na cidade e a cidade envelhecida
O habitar como técnica e poesia
Cultura da cidade e do território
Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR 

A emergência da dimensão existencial nas cidades - Uma proposta a partir do Centro Histórico de Évora - Susana Mourão (n.º 446, 1 JUL 13, 9 págs., 1 fig. e vários filmes).
A Casa dos Sentidos de Sérgio Fazenda Rodrigues - António Baptista Coelho (n.º 324, 12 Dez. 10, 5 págs., 3 figs.).
Quem é cuidador? – Marilice Costi (n.º 317, 24 Out 10, 4 págs., 2 figs.).
Cidades vivas, cultas e criativas I - Artigo de António Baptista Coelho (n.º 183, 17 Fevereiro 2008, p págs., 7 figs.)
Os territórios em mudança e o espaço global: questões de cidadania e de ambiente – João Lutas Craveiro (n.º 110, 26 Out., 11p., 6 fig.).
Seis cantos contra a guerra – Khaled Ghoubar, ilustração de António Baptista Coelho (n.º 94, 21 Jul. 06, 5p., 1 fig.).
As sociedades envelhecem, mas somos humanos – Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho (n.º 72, 2 Mar. 06, 5p. 2 fig.).
Retrospectiva – Maria Luiza Forneck (n.º 68, 5 Fev. 06, 3p.).
Quem sabe começamos por nós? – Marilice Costi (n.º 58, 12 Dez. 05, 3p. 2fig.).
Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Paulo Machado (n.º 56, 5 Dez. 05, 6p., 3fig.).
Interpelações Virtuais ao Cidadão Comum - Maria João Eloy , (n.º 54, Nov. 05, 2 p., 10 fig.).
As cidades também se abatem – “They kill horses - don’t they ?” - Maria Celeste Ramos (n.º 53, 16 Nov. 05, 4 p., 3 fig.).
O habitar é técnica e poesia I – inclui poema de António Ramos Rosa - António Baptista Coelho (n.º 44, 4 Out. 05, 2p., 1 fig.).
O Preconceito na apreensão da Cultura da Cidade e do Território - Maria João Eloy (n.º 34, 2 Ago. 05, 6 p., 10 fig., 3 com.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 660
AS HUMANIDADES E O HABITAR
Conjunto de 16 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 03, 2008

220 - Sobre as fundamentais vizinhanças amigáveis I - Infohabitar 220

Artigo de António Baptista Coelho

Infohabitar 220

Sobre as fundamentais vizinhanças amigáveis I 


Continua a notar-se nos espaços públicos uma crítica dificuldade ao nível da sua essencial qualificação, desde o projecto urbano e paisagístico a uma adequada execução e equipamento, visando a sua durabilidade e o estímulo a uma ampla diversidade de actividades exteriores. O que importa salientar é que, hoje em dia, não há um conhecimento verdadeiramente adequado e muito menos sedimentado sobre como fazer, por exemplo, uma praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável e apropriável.

E aqui se sublinha que os conhecimentos continuam a estar, a este nível, mais dirigidos e mal dirigidos, designadamente, para os aspectos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar a medo uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens; e é neste caminho que se encontrarão muitas das virtualidades em termos de novas ou renovadas soluções tipológicas aqui numa perspectiva urbana.

Em todas estas matérias é fundamental tornar o exterior residencial útil, portanto equipado, apelativo, portanto adequadamente projectado e executado e, também, naturalmente convivial, porque afinal o convívio na vizinhança é motivo e consequência de muitas actividades exteriores, desde o recreio infantil, ao desporto e ao simples, mas fundamental, lazer.



Fig. 01


Um último aspecto, a este nível, refere-se à exigência de uma perfeita e contínua manutenção do espaço público, condição extremamente favorecida pelas referidas condições de uso intenso e de sentido efectivo de vizinhança, num afirmado espaço público de lazer, recreio e convívio que tem de ligar os edifícios e que deve corresponder a grupos favoráveis no incentivo de um agradável e seguro conhecimento mútuo, servidos por uma cuidadosa pormenorização das vizinhanças de proximidade (espaços comuns e espaços públicos), porque os espaços exteriores de vizinhança são espaços muito próximos do nosso olhar directo e do olhar a partir das habitações e estamos a abordar escalas comuns e públicas com exigências fortíssimas, entre as quais se destaca o privilegiar da global funcionalidade e da convivialidade natural, a introdução do “verde urbano” e a clara definição de zonas de influência/gestão.

Apenas a título de exemplo do muito que é possível fazer nesta perspectiva de criação de vizinhanças residenciais amigáveis referem-se edifícios geradores de ruas equipadas enquanto no interior dos quarteirões permitem humanizados espaços públicos de convívio e recreio, numa eficaz aliança com os sempre estimulantes pátios privados (servindo os pisos mais baixos, e não apenas o R/C), proporcionando ainda extensões térreas privativas bem enquadradas (ex. para espaços conviviais dos condomínios como salas de jogos), e proporcionando, ainda, eventualmente, o aproveitamento inferior como garagem comum. Este tipo de espaços é também ideal para se desenvolver um arranjo "natural" dos espaços exteriores: com menos asfalto e zonas impermeáveis, com grande variedade de plantas povoando fachadas varandas e terraços e criando um microclima muito favorável em zonas urbanas.

É interessante ponderar aqui que mais do que prever uns tantos metros quadrados por habitante, ou uns tanto equipamentos padronizados e frequentemente muito exigentes em área e especificações técnicas, o que talvez interessa, pelo menos logo numa “primeira linha”, num entorno residencial é a criação de um espaço exterior verdadeiramente incentivador do seu uso diversificado e visual, ambiental e caracterizadamente agradável e atraente para um amplo leque de gostos e de modos de uso e/ou a previsão de um pequeno espaço destinado a um equipamento expressivamente convivial, como por exemplo um pequeno “café”, estrategicamente colocado num local onde apeteça estar e/ou onde até por vezes “dê jeito” estar.

Embora haja aspectos fundamentais a considerar na previsão dos equipamentos – ex., distâncias desejáveis para crianças até 9 anos: 100/200m, vigilância natural a partir das habitações só é eficiente em grupos de 20/30 alojamentos e na contiguidade de zonas pedonais muito usadas e relativamente centrais; nesta matéria é interessante considerar que mesmo numa perspectiva de previsão de acessibilidades e de raios de influência há diferenças “abissais” entre soluções que respeitam os mesmos aspectos regulamentares e recomendativos, a não ser que as recomendações avancem numa muito cuidadosa proposta de soluções globais, provavelmente um caminho da “regulamentação” fortemente qualitativo.

Afinal áreas de jogos atraentes evitam que as crianças usem espaços viários para brincar; as crianças estão sentadas com frequência e são atraídas pelas escadas; há que servir os gostos das crianças e não um objectivo de decoração espacial e as zonas de circulação pedonal devem considerar o recreio livre das crianças usando variados tipos de elementos. Todas estas constatações fortemente qualitativa.

E tudo isto até levanta a questão objectiva de para quem se fazem conjuntos residenciais e com que objectivos fundamentais? E nestas matérias não devia haver quaisquer dúvidas, pois há que proteger ao máximo e incentivar ao máximo o uso do exterior público por crianças e por idosos, seja porque isso é fundamental para esses usos e designadamente para a formação da criança e para o lazer diário do idoso, mas também porque são eles os habitantes que mais vitalizam o exterior público; são, afinal, as fundamentais vizinhanças urbanas amigas. Mas há muitas dúvidas quando funcional e objectivamente se multiplicam metros quadrados e se “despacha” a desejável vitalização do espaço público apenas através de soluções de catálogo, que por vezes são implantadas verdadeiramente “à martelada”.


Fig. 02: o constante retorno ao exemplar Alvalade, em Lisboa


Ainda outro aspecto eminentemente qualitativo e crucial nesta escala da vizinhança é a questão da fundamental presença do verde urbano, e aqui não devemos ter quaisquer tipos de dúvidas nem resvalar para qualquer tipo de desculpa, até, porventura, formal: a cidade e a vida na cidade e o habitar na cidade precisa de um verde urbano efectivo e afectivo, portanto intenso e apropriável, pois tratamos aqui de uma matéria cuja importância dita funcional, em termos de amenização e de conforto ambiental e cuja importância para a saúde física e psíquica do habitante não merecem discussão (até as empresas privadas o reconhecem e os hospitais psiquiátricos o reconhecem); e atente-se que nem se referiu a importância em termos visuais e estéticos, aliás uma importância que está na própria razão de ser do jardim urbano. E que não haja desculpas por eventual incompatibilidade formal com determinada solução de desenho, pois a diversidade do verde urbano é riquíssima nos mais diversificados aspectos formais, espaciais e de exigências vitais.

Há ainda que considerar que tipos de equipamentos são os mais desejados e os mais eficazes nas vizinhanças? equipamentos conviviais, como pequenos cafés, equipamentos funcionais como lojas de comércio diário, pequenos e íntimos jardiins de vizinhança, eventualmente, na contiguidade de escolas básicas (como acontece na Fig. 03). Esta é, novamente, um matéria expressivamente qualitativa, pois uma opção é programar metros quadrados de equipamentos de apoio diário ou ocasional, e outra será privilegiar equipamentos que, pelas suas condições de localização, configuração, imagem e funcionamento, possam constituir verdadeiros pólos de convívio natural e, simultaneamente, de dinamização do uso do exterior público; não se indica aqui que não são necessários esses tais equipamentos de apoio “diário e ocasional”, de que nos lembramos dos velhos “planeamentos” dos anos setenta do Século. XX, só que não deve ser possível fazer mais frentes de equipamentos vazias e tendencialmente deterioradas e é, de facto, especialmente importante prever os “terceiros espaços” entre a casa e a rua pública, são eles que fazem muita da vivência da cidade.


Fig. 03: e novamente um “recanto” de Alvalade, neste caso um jardim de vizinhança.


Um último aspecto, a este nível, refere-se à exigência de uma perfeita e contínua manutenção do espaço público, condição extremamente favorecida pelas referidas condições de uso intenso e de sentido efectivo de vizinhança, num afirmado espaço público de lazer, recreio e convívio que tem de ligar os edifícios e que deve corresponder a grupos favoráveis no incentivo de um agradável e seguro conhecimento mútuo, servidos por uma cuidadosa pormenorização das vizinhanças de proximidade (espaços comuns e espaços públicos), porque os espaços exteriores de vizinhança são espaços muito próximos do nosso olhar directo e do olhar a partir das habitações e estamos a abordar escalas comuns e públicas com exigências fortíssimas, entre as quais se destaca o privilegiar da global funcionalidade e da convivialidade natural, a introdução do “verde urbano” e a clara definição de zonas de influência/gestão.

Apenas a título de exemplo do muito que é possível fazer nesta perspectiva de criação de vizinhanças residenciais amigáveis referem-se edifícios geradores de ruas equipadas enquanto no interior dos quarteirões permitem humanizados espaços públicos de convívio e recreio, numa eficaz aliança com os sempre estimulantes pátios privados (servindo os pisos mais baixos, e não apenas o R/C), proporcionando ainda extensões térreas privativas bem enquadradas (ex. para espaços conviviais dos condomínios como salas de jogos), e proporcionando, ainda, eventualmente, o aproveitamento inferior como garagem comum. Este tipo de espaços é também ideal para se desenvolver um arranjo "natural" dos espaços exteriores: com menos asfalto e zonas impermeáveis, com grande variedade de plantas povoando fachadas varandas e terraços e criando um microclima muito favorável em zonas urbanas.


Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 2 de Novembro de 2008