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quinta-feira, março 15, 2007

130 - Humanização do habitar: algumas reflexões – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 130

 - Infohabitar 130


Humanização do habitar: algumas reflexões


António Baptista Coelho


Fig. 1

Disse Carlos de Azevedo que “a casa é um documento autêntico da vida do homem – documento de pedra e cal, mas de extraordinária importância para estudarmos os costumes, a evolução do gosto e da vida social.” (1)
E Vicente Verdú, citado por Anatxu Zabalbeascoa, situa a casa “entre a realidade e o desejo … entre o possível e o desejado” e diz que a casa “pode acolher sonhos e satisfazer necessidades.” (2)



Fig. 2: uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada – Caldas da Rainha, Telheiras Lisboa (Arq. Rodrigo Rau), Parque das Nações Lisboa, o Porto à noite.

Os grandes autores estão a convergir em matérias que muito têm a ver com uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada. Matérias a conjugar em partes de novas e velhas cidades que para serem sustentáveis têm de estar cheias de interesse urbano e de vitalidade habitacional. Cidades que acolham o crescimento da necessidade de mais habitação, que resulta da desagregação da família tradicional, do aumento da esperança de vida, do desenvolvimento do trabalho e do lazer em casa, e também da concentração urbana, que irá agudizar-se nos próximos decénios.

E não nos iludamos, é, de facto, ainda preciso construir nova habitação, Espanha e França têm apontado, recentemente, tal necessidade; e só em França, e por conta dos maus exemplos do passado recente, parece que serão demolidas e feitas “de novo”, 250.000 habitações, em 10 anos, realojando-se, assim, espera-se, melhor, cerca de 5 milhões de suburbanos.


Fig. 3: Madalena, Funchal, de Duarte Cabral de Mello, Maria Manuel Godinho de Almeida e João Francisco Caires (1992)

Mas entre fazer de novo e reabilitar habitação, entre novos conjuntos e o fundamental “construir no construído”, num caso e noutro há que humanizar e vitalizar, urgentemente, centros históricos e subúrbios; e num tal desígnio, é fundamental o habitar, e um habitar bem pormenorizado e qualificado, que não falhe mais nas suas ligações com o habitante e com a cidade, e para tal não chegam os aspectos mais objectivos da qualidade residencial.



Figura 4: sobre os vários níveis urbanos habitados; Baixa de Lisboa, Cooperativa Massarelos Porto de Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá, Alvalade Lisboa de Faria da Costa uma rua residencial

E é nessa matéria de uma ampla pormenorização do habitar que muito está em jogo, em termos de humanização: Diz Fumiko Maki, que “nas cidades do passado, há a família e acima desta a comunidade e acima desta a cidade. Há um mundo público evidenciado e, por outro lado, há um mundo privado afirmado, e cada um deles interage com o espaço para formar cidade.”(3)

Entre estes dois mundos sempre houve um terceiro mundo, o do espaço comum ou colectivo, que assegura uma aliança com a convivialidade urbana e citadina , e que é ainda o verdadeiro elemento agregador da cidade de hoje; e Georges Perec descreve-o: "o lugar neutro, que é de todos e de ninguém‚ onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio ecoa..., longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos apenas captamos quase sempre esses ecos estilhaçados, esses restos, esses destroços, esses esboços, esses estímulos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que se chama as «áreas comuns»....”(4)


Figura 5

Mas em todos estes mundos há, hoje em dia, na cidade contemporânea, sinais bem negativos: de desumanização, de isolamento atrás da porta de cada habitação e de crítica falta de cidade habitada e amigável; dá vontade de dizer, falta de cidades suaves e calmas, conceitos estes que podem ser bem copiados da engenharia de tráfego, pois nem só o tráfego precisa de modos suaves e de modos de acalmia; toda a cidade deles necessita.
E sobre eles diz Riken Yamamoto, que “uma coisa que sentimos quando tentamos viver em soluções habitacionais densificadas é que a disposição dos compartimentos separa totalmente do exterior. O encerramento e a abertura das habitações, a relação entre interior e exterior, foram assuntos frequentemente investigados, mas Os sentimentos reais, quando aí tentamos viver são horríveis. Até quando subimos as escadas, vendo apenas portas de segurança fechadas, sentimos uma crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações. E ao entrar e ao fechar-se a porta, tudo se torna um outro mundo, totalmente isolado do mundo real.” (5)
Vale bem a pena confrontar esse “lugar neutro, que é de todos e de ninguém, onde a vida do prédio ecoa”, referido por Perec, com esta “crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações” e com este “outro mundo, totalmente isolado do mundo real”.


Figura 6: sobre os limiares urbanos habitados e coesos, uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade – Alvalade de Faria da Costa, Habijovem Albufeira de Faria da Costa, Chasa Alverca coord. Duarte Cabral de Mello, Monte Espinho Matosinhos de Paula Petiz.

Riken Yamamoto aponta no sentido de uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade, numa linha gémea daquela seguida por Alexander e Chermayeff em 1963 e por Hertzberger em 1991, e diz que tudo é uma questão de “organizações” espaciais; … matéria bem na linha de vários desenvolvimentos feitos neste trabalho, por exemplo, ao nível do desenho, das tipologias residenciais, das “escalas” urbanas e de uma ampla integração.




Figura 7: exemplos de habitações que atingem um significado social (HSS) - Cooperativa Lar Para Todos, Beja, de Raúl Hestnes Ferreira (1986); reabilitação para pequenos fogos para idosos, Funchal, de Susana Fernandes (2001); Fronteira, de Alexandre Costa e Cláudia José (2003); Mosteiró, Vila do Conde, de Miguel Leal (2003); cooperativa UGTIMO, Zambujal, de José Bicho (1997); Mataduços de Carlos Fonseca e Alfredo Machado (2001); Milheirós, de João Carlos Santos (2001); Chouso, de Luís Miranda (1999); e B. Padre Cruz, de Rosa Leitão (1992) ...

Sublinha-se, também, que a humanização do habitar não tem a ver com os custos da construção, mas sim com a qualidade do projecto e da construção. E, a propósito, cita-se uma afirmação bem recente de Kazuo Shinohara: “na nossa enorme sociedade actual há pouca diferença entre fazer cem casas ou duzentas casas; a quantidade que é difícil apurar é o número de casas que são feitas e que atingem um significado social.” (6)
E termina-se lembrando o conceito “from the bedside to the bench”, apontado, recentemente, por António Coutinho; um conceito que, nas áreas do habitar e da arquitectura, tem de ligar urgentemente os casos habitacionais humanizados às mesas de concepção de intervenções habitacionais e urbanas.



Figura 8: da complexidade e da subtileza

E lembremos, a propósito, uma recente e fundamental afirmação de Benevolo e Albretch: “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana...” (7)



Figura 9: habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo

Sustenta Franco Purini que “a etimologia latina de habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo. A base do conceito de habitar é, pois, muito ampla, e exprime um sentido de plenitude, de totalidade e de segurança...” (8)
Temos, assim, a palavra “habitar”, que sintetiza um verdadeiro e amplo serviço de habitação, que parece ser o objectivo central de toda esta ideia; de certo modo até se pode considerar que o conceito de habitar já, em si, inclui o sentido de humanização.



Figura 10: uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos.

Uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos, pois, como escreveu Kafka:
“Quando me deixo levar pela meditação, perco-me em reflexões técnicas, recomeço a sonhar uma toca perfeita sob todos os aspectos, e vejo com os olhos fechados fascinantes possibilidades de arquitecturas ideais...”
E uma humanização do habitar que tem de passar por certezas, Como as de Sophia de Mello Breyner:
“Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes”,

Referências bibliográficas:
[1] Carlos de Azevedo, “Solares Portugueses – introdução ao estudo da casa nobre”, Livros Horizonte, 1988 (1969), (p.13)
2 Anatxu Zabalbeascoa, “La casa del arquitecto”, Ed. Gustavo Gili, p.6, 1995.
3 Fumiko Maki, citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 440.
4 Georges Perec, “A vida modo de usar” 1989, Trad. Pedro Tamen, (1978), p. 19.
5 Kenchiku Zasshi, em “Lifestyles and Layouts of Mass Housing” (1990), citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 441.
6 Kazuo Shinohara, “Now, «modern next»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, Tóquio, TOTO Shuppan 2005, p. 435.
7 Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.
8 Franco Purini, “La Arquitectura Didactica”, pp. 126 a 130 (a marcação a bold é minha).

sexta-feira, setembro 15, 2006

103 - Opiniões de NunoPortas sobre o espaço público - relato de ABCoelho - Infohabitar 103

 - Infohabitar 103


Notas sobre a palestra de Nuno Portas a propósito do tema – e do lançamento de uma colectânea do LNEC sobre –, “humanização e vitalização dos espaços públicos”


(Nuno Portas, urbanismo, espaço público, tempo das cidades, espaço, espaçamento, estruturação, temporalidade, integração, lugar, não-lugar, humanização, vitalização, Fortaleza, Olinda)


Porque se considera uma temática crucial e porque houve, como sempre, ideias lançadas com grande interesse, e porque se considera que é também com ideias renovadas que se irá apoiando o estudo e a intervenção nas áreas do habitar e da cidade, houve a ideia de juntar neste artigo as notas que foram sendo registadas ao longo da recente palestra de Nuno Portas, sobre a temática da “humanização e vitalização dos espaços públicos”, que teve lugar no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, no dia 5 de Julho de 2006, a propósito do recente lançamento do N.º 4 da Série do LNEC, Cadernos Edifícios, uma publicação monográfica, sobre o tema referido, que integra textos que, foram realizados, sobre o referido assunto, por 15 autores com diferentes formações e especializações.

Salienta-se que estas notas são informais e criticamente “sincopadas”, porque resultaram, de forma directa, e, evidentemente, com um mínimo de complementos, exceptuando os considerados necessários para a construção do texto, das anotações manuscritas, que foram registadas ao longo da palestra/charla de NunoPortas; sublinhando-se que, entre aspas, se referem algumas citações, que se julga serem razoavelmente fiéis a partes da intervenção de Nuno Portas.

Por eventuais e naturais infidelidades e por uma estrutura discursiva que, de nenhuma forma, faz justiça à dinâmica e ao interesse do discurso do palestrante, apresentam-se, desde já as devidas desculpas, seja ao palestrante, seja aos leitores. Mas entre tentar fazer um relato muito mais fiel e exigente, no seu desenvolvimento, que seria bastante difícil, ou nada fazer, e “perder” um encadeado de interessantes ideias, optou-se pela via de se fazer este registo informal.
E assim se apresenta, repete-se, informalmente, uma versão, sempre pessoal, daquilo que por NunoPortas foi dito, na Sala 1 do LNEC, em 5 de Julho de 2006, sobre o tema da “humanização e da vitalização do espaço público.”



Fig. 1: “Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano” (Fortaleza)


“Estamos a passar do tempo das cidades para o tempo do urbano”, uma referência a Françoise Choay. E neste tempo do urbano a questão das designações comporta, hoje em dia novidades, e provavelmente o conceito de “espaço de uso colectivo”, um espaço que está no passeio, ainda público, mas está, também, no shopping, que é um espaço privado, mas de uso colectivo e onde se aplicam tratamentos “choque” para recriação da rua (eu diria mesmo de uma rua cenário e intensificada).

ESPAÇAMENTO(S)

“Espaço livre. Espaço livre de quê? De construções, penso eu – mas só disso”.
Hoje, com o factor tempo e os novos meios de velocidade, criaram-se maiores espaçamentos – os “espacements” referidos por Choay –, os espaços “entre” foram perdendo os contornos, e as próprias cidades também foram perdendo os seus velhos contornos, de muralhas e, mais tarde, de circunvalações. E na sequência desta ausência de contornos “os falsos burgos, os faubourgs”, desenvolveram-se em mancha de óleo sobre o território, criando-se talvez um pouco das “cidades genéricas”, referidas por Rem Koolhas, embora não pareça que Portas concorde com esta perspectiva.
Ficou assim evidenciada a importância e a actualidade da ideia de “espacement”, ou espaçamento(s), importância essa que também decorre do próprio desenvolvimento histórico do sentido e do carácter de espaço urbano, tal como acabou de ser, apenas, minimamente apontado.

Desta base de reflexão Portas passou a uma defesa da necessidade de haver uma mudança de paradigmas, e referiu ser mesmo “necessário reinventar o espaço público”, não se tratando de um assunto em que chegue “limar arestas”, e sendo necessária alguma radicalidade, porque o espaço público que era, antes, unimodal, servindo, essencialmente, ao peão, tornou-se multimodal ou intermodal, marcado por aspectos monumentais e simbólicos, designadamente, nos seus pontos fundamentais, como são, por exemplo, as gares que conjugam diversos tipos de tráfegos e que têm elevados números de utentes. Uma mudança realmente radical e estruturante.

E há contra-sensos que importa ter em conta pois será, provavelmente, perigoso passar de edifícios “desconstruídos” para uma paisagem que tenda, também, para a desconstrução; e exemplificando o que considera ser alguma falta de sentido, Portas apontou as zonas verdes que, hoje em dia, por vezes têm pouco ou nenhum verde. E, desenvolvendo um pouco mais os aspectos fundamentais desta matéria, que se refere às intenções básicas de como actuar na paisagem urbana, Portas sublinhou que “o espaço público não é um décor, mas sim a estrutura da cidade”, e, no entanto, e tal como é apontado num recente livro, as cidades de hoje estão, realmente, em boa parte desconstruídas e são desestruturantes, porque abdicaram da unidade e NunoPortas defende ser necessário encontrar um novo paradigma, servido por um trabalho muito mais multidisciplinar do que aquele que foi desenvolvido há cerca de 50 anos face a questões que tinham, já então, algumas semelhanças aos actuais problemas.

NunoPortas voltou a salientar que é prioritário o estudo do espaço público, que é “o elemento aparentemente «negativo», mas que é o mais duradouro da cidade, porque, afinal, o que mais caracteriza a cidade são os seus «vazios», que são aquilo que mais perdura na história da humanidade.” Esses espaços que, tal como sublinha Portas, são apenas “aparentemente vazios.”



Fig. 2: o espaço público é o elemento mais duradouro da cidade (Fortaleza)

A CIDADE NÃO É UM PALIMPSESTO

“A cidade não é um palimpsesto” (pergaminho manuscrito, de que se fez desaparecer a primeira escrita, para nele escrever de novo” – definição do Dicionário Francisco Torrinha) refere Portas, e continua sublinhando que a “cidade não é um quadro com camadas”, e que até os próprios loteadores clandestinos o sabem, pois também fizeram ruas; e as ruas e as praças, foi o que sempre ficou, característica esta que já não se verifica com os edifícios.

Depois, NunoPortas fez questão de sublinhar a enorme importância dos eixos da cidade e das formas/usos/hábitos que aí decorrem ao longo de muitas dezenas e mesmo centenas de anos; e a propósito desta matéria citou a questão recentemente levantada pela intervenção de Siza Vieira em Madrid, na zona nobre dos museus, onde Siza se atreveu a mudar algo nos eixos e nos hábitos urbanos, numa rearrumação de espaços vazios, que foi provavelmente entrar em colisão com essa unidade, bem reforçada pelo tempo, de formas de uso de espaços urbanos “vazios” mas estruturadores.

TEMPORALIDADE

E foi assim que, nesta sua charla, NunoPortas juntou a noção de temporalidade à, antes referida, noção de espaçamento, e é muito importante interiorizar bem a temporalidade da cidade, e isto tem de se reflectir nas forças/expressões com que são representados, na cidade, os seus aspectos mais certos e, provavelmente, mais permanentes e estruturantes, ou mais incertos e, provavelmente, mais fugazes; mas, disse Portas, que a situação mais comum é “o certo e o incerto serem representados da mesma maneira e com a mesma força – nos planos de pormenor, por exemplo.”

Mas: “Fazer a maqueta da cidade como será daqui a 200 anos é impossível”, a cidade não é algo instantâneo, “senão muito excepcionalmente.”
E tem de se trabalhar com esta condição, tratando os diversos elementos urbanos em combinações ou sequências diversificadas e mutantes de interligações, contactos e referências, cuja metáfora, diz NunoPortas, é o “hiper texto”, pois não é possível trabalhar com todos os elementos ao mesmo tempo, nem todos os elementos têm, evidentemente, a ver com tudo.

INTEGRAÇÃO

E aqui se identifica outra das ideias fortes, que, para além do espaçamento e da temporalidade, foram salientadas na charla de NunoPortas, que é a questão da importância de um dado elemento urbano respeitar aspectos essenciais de integração, e Portas diz que “ele deveria ser, pelo menos, relativamente integrado”; e Portas ironiza: “como se tudo – contra–natura – pudesse ser decidido no mesmo instante.”
Mas como tal não é possível, e não corresponde à realidade, é necessária uma “mudança de paradigma, não só relativamente ao espaço público, mas também quanto ao planeamento.”

Nestas matérias importa interiorizar que o espaço colectivo pode, por exemplo, penetrar nos edifícios, e este aspecto, entre outros mais ou menos inovadores aspectos, têm de estar presentes nessa mudança de paradigma. Mas o que NunoPortas parece considerar fundamental em tal mudança é a passagem de uma preocupação com “tudo”, quando se intervém e pensa (n)o espaço público/comum, preocupação esta que, sendo impossível, resvala frequentemente para um certo vazio de intenções e preocupações, para uma actuação seguindo um processo idêntico ao do “hiper-texto”.



Fig. 3: navegando como através de um hiper-texto (Fortaleza)


“HIPER-TEXTO”

Um “hiper-texto” em que estão definidas várias grelhas gerais de aspectos/itens a considerar, por exemplo, a ecologia, as infraestruturas, e as actividades – incluindo aqui as que estão contidas nos edifícios –, sublinhando-se que, evidentemente, cada um desses aspectos, se estrutura, ele próprio, numa outra grelha temática, mais fina, e assim sucessivamente.

Portas refere que quando se reflecte e se actua em matéria de espaço urbano as nossas linhas de procedimentos andam dentro dessas sub-grelhas, ligando, “navegando”, como que através de um verdadeiro “hiper-texto”; e assim cada matéria a tratar poderá e deverá ter uma combinação/sequência ou percurso específico de preocupações e actuações mais desejáveis, porque globalmente mais adequadas, mais eficazes e mais apropriadas à tal sociedade/cidade em que realmente não é possível que tudo se passe em simultâneo, e em que a temporalidade também acaba por desenhar.
Como sublinha Portas isto “é complexo, mas é muito menos complexo do que tudo ter a ver com tudo.”

SABER DESINTEGRAR

Provavelmente para ajudar a reduzir esta complexidade NunoPortas referiu o exemplo que costuma dar nas suas aulas de urbanismo e que é a importância que tem a actuação de “subdividir bem”, ou, como também designou, “a arte de saber desintegrar”, a arte de saber partir o problema (urbano) em aspectos mais simples e de conseguir identificar e entender o melhor processo para começar a resolver o grupo dos problemas e de conexões.

Neste processo, tal como apontou NunoPortas, é essencial perceber, o melhor possível, os desígnios, os desejos, os vários aspectos de uma dada questão, e depois de perceber bem um dado passo, uma dada situação, deve-se passar a outro “ponto”, e depois a outro, e a outro, nessa já defendida lógica de conexões de “hiper-texto”, uma lógica que, naturalmente, será sempre bem marcada pelas referidas questões de espaçamento e de temporalidade.

PLURIDISCIPLINARIDADE

E, neste processo, e considerando-se, tal como refere NunoPortas, a grande valia da pluridisciplinaridade, é fundamental ter bem presente que não é possível, nem desejável, “chamar todos para resolver tudo”; de certa forma também aqui se aplicará a tal lógica do “hiper-texto.”

Chegado aqui NunoPortas dedicou-se, um pouco, aos cadernos Edifícios 4, que abordaram a temática da “humanização e da vitalização dos espaços públicos”, e salientou que, sendo uma colectânea com grande interesse sobre o assunto, é, na sua opinião, uma visão marcada por alguma nostalgia dos espaços públicos citadinos históricos; “o que, sendo natural, não é suficiente.”
E embora na sua charla a seguinte ideia tivesse sido, apenas, um pouco mais tarde lançada, não se resiste a referir, já aqui, a importante questão da “defesa da cidade antiga e da rejeição da cidade que nasceu nas costas dela”, uma questão que provavelmente explicará esse ”excesso” de nostalgia – e sublinhe-se que esta hipótese foi aqui anexada pelo responsável por este texto e coordenador do referido número dos Cadernos.

Continuando, então, já num registo mais direccionado para a actuação no espaço público, NunoPortas apontou que, por exemplo, nas intervenções realizadas no âmbito do programa Polis, o que tem marcado mais tem sido “o redesenho, o redesígnio e até, por vezes, a própria cosmética urbana”, tendo o cuidado de sublinhar que esta “cosmética” já não significa qualquer tipo de crítica negativa; “faz parte do «decor» de hoje mas pode não ser «suficiente».”



Fig. 4: lugares e não-lugares (Olinda)


LUGARES E NÃO-LUGARES

E aqui foi abordada, a propósito da tal “cidade que nasceu nas costas da cidade antiga”, a questão das cidades fragmentadas, muitas vezes, por Planos de Pormenor, e, sequencialmente, foi referida a questão dos “lugares e não-lugares” e proposta a reflexão sobre “porquê alguns lugares deixaram de o ser e outros não-lugares se transformaram em lugares.”
Uma matéria que bem mereceria um número dos Cadernos Edifícios, pela sua importância e oportunidade – novamente um complemento feito pelo responsável por este texto –, e toda uma matéria, que tal como apontou NunoPortas teve uma recente e muito meritória abordagem no recém-publicado livro, intitulado “Cidade e Democracia: 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal”, coordenado por Álvaro Domingues.
Salientou, ainda, Portas, que há elementos urbanos com distintas temporalidades, por exemplo, os shoppings são feitos para cerca de 25 anos e depois serão reciclados ou substituídos, e há espaço público que não aspira a ser estruturador, e nem todo o espaço público tem a mesma durabilidade e adaptabilidade.

Portas aponta que o espaço público certamente irá mudar, e os transportes, e o comércio, tudo muito mudou e tudo muito mudará, e tudo isto se deveria ligar a um sensível e exigente estudo dos usos, mas numa perspectiva que esclareça bem que se está a tratar de estilos de vida e de modos de vida cujas características específicas e de durabilidade não deixarão de ter influências estruturantes na cidade. Disse ainda NunoPortas que o que mais fazemos hoje em dia é redesenhar espaços públicos preexistentes, mas para o fazer é necessário procurar as aspirações mais profundas dos seus habitantes, numa referência aos tais estudos dos usos e das tendências no uso.



Fig. 5: “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos” (Fortaleza)


MAIS DO QUE QUANTIDADE O QUE IMPORTA É A QUALIDADE DOS ESPAÇOS PÚBLICOS

E Portas concluiu a sua charla, sublinhando que há estudos sobre trechos urbanos, mas que são necessários estudos amplos sobre o espaço público e que “mais do que quantidade o que importa é a qualidade dos espaços públicos”, e o que mais interessa é um projecto urbano que seja um híbrido de arquitectura e de urbanismo, que seja marcado “pelas coisas que determinem outras” outras, pois os planos são cristalização do futuro. E referiu, ainda, que a chave dos novos projectos urbanos que sejam capazes de fazer novos espaços públicos está numa gestão proactiva e no conhecimento científico que lhe seja fornecido.

Os prometidos vinte minutos de charla passaram a cinquenta, e passaram depressa. Sublinha-se aqui, mais uma vez, que se tratou de um relato cuidado, mas informal, baseado em notas manuscritas.

Texto geral e imagens de António Baptista Coelho – imagens baseadas numa única sequência de arquivo referida a Fortaleza e Recife, reduzindo-se a ilustração a uma função de acompanhamento pontual e informal das ideias desenvolvidas.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 12 de Setembro de 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

98 - Sobre a humanização do espaço público, artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 98

 - Infohabitar 98

Sobre a humanização do espaço público

António Baptista Coelho

Nota introdutória


Do abandono a que têm estado votados, frequentemente, os espaços públicos urbanos, resulta a oportunidade de uma reflexão prática cuidadosa, ainda que relativamente informal, sobre a própria matéria-base dos aspectos de imagem e desenho urbanos que podem estruturar o positivo desenvolvimento de espaços públicos motivadores, amigáveis e enriquecedores.
Um outro objectivo deste texto ilustrado é contribuir para uma aproximação gradual entre a técnica que deve ser urgentemente consolidada e divulgada nesta matérias e as ideias básicas a que todos os cidadãos informados, e não necessariamente arquitectos, poderão e deverão chamar suas relativamente às múltiplas características qualitativas do que se deve fazer e exigir, sempre que se intervém no espaço público, isto é, no espaço que tem de ser todos e a todos satisfazer; e isto aplica-se sem grandes diferenças seja a novos espaços urbanos, seja na requalificação da cidade existente.

Sublinha-se, assim, que aqui se visa o espaço urbano em geral e, essencialmente, o que se poderá designar como o grande leque de situações existentes numa cidade corrente que tem de ser viva e humanizada para ser um espaço de vida realmente satisfatório e enriquecedor.
Apuraram-se e privilegiaram-se duas ideias-chave:
. a importância da vitalidade global do mundo público;
. e a necessidade de se visar, de múltiplas formas, a sua humanização.
Essa vitalidade é uma vitalidade funcional e social, com um sentido amplo ligado ao habitar – desde as vizinhanças à cidade – e à cultura urbana, enquanto a referida humanização terá obrigatoriamente contornos estéticos (estritos e amplos), éticos, sociais e também, naturalmente, culturais.
Parece ser este um tema amplo e complexo, mas também um tema vital para a sociedade e uma temática rica e apaixonante nas questões que levanta.
São, em seguida, sinteticamente abordados dez “tópicos” sobre a vital e actual temática da humanização e vitalização do espaço público. Privilegia-se a ilustração de boas práticas, associadas a espaços urbanos correntes bem qualificados e, essencialmente, a conjuntos urbanos de habitação de interesse social portuguesa; desta forma sublinha-se que as qualidades residenciais e urbanas consideradas não têm a ver com custos específicos, mas sim com a qualidade dos respectivos processos de projecto/construção/manutenção e, designadamente, com a qualidade das suas soluções de arquitectura urbana.




Fig. 1: duas das muitas e muito humanas perspectivas do conjunto no Monte Espinho, Matosinhos, um sensível e civicamente empenhado desenho de Paula Petiz para uma nova pequena parte de cidade, viva e estruturante.

Vizinhanças de proximidade protectoras e sequências estimulantes

Bolsas de vizinhança de proximidade protectoras, conviviais, com dimensão pequena e claramente configurada e uma imagem urbana humanizada e muito apropriável, configuram espaços públicos extremamente agradáveis e positivamente caracterizados, nos quais a arquitectura dos pequenos edifícios se “apaga” também de uma forma positiva, o que interessa aqui é que estamos em presença de um pequeno pedaço de cidade.
As sequências estimulantes de pequenos, demarcados e bem articulados e harmonizados cenários residenciais constituem os elementos fundamentais do urbanismo de pormenor, que é aquele sobre o qual quase tudo se deve fazer na arquitectura urbana.

Sítios “únicos” e variados e gradações de privacidade

É essencial desenvolver sítios “únicos” e variados, que promovam a fundamental diferenciação entre lugares e assegurem emoção na percepção do espaço urbano habitado.
As soluções urbanas e residenciais que se queiram caracterizar por espaços públicos humanizados e vitalizados devem oferecer condições de grande integração entre espaços mais privados (dos fogos e contíguos a estes), espaços mais urbanos e espaços de transição.




Fig. 2: sítios únicos criando vizinhanças de proximidade – um espaço habitacional densamente humanizado (em Lübeck).

Trechos de vida colectiva com desenho urbano de pormenor

Muita da vitalidade urbana se joga na adequada previsão de trechos de vida colectiva, funcionais, com uma imagem urbana atraente mas sóbria e capazes de dinamizar funções tão correntes e fundamentais como o variado recreio/lazer na rua, numa forte relação entre função, forma e contexto urbano.
O desenvolver de uma escala pública em que uma imagem humanizada se liga a exigências fortíssimas em termos funcionais, de durabilidade e de capacidade de comunicação de imagens/formas. Trata-se aqui de recolocar o desenho e a morfologia urbana de pormenor no centro da mais premente actualidade da produção da cidade.

Eixos e pólos urbanos regeneradores dos sistemas de convivência

Desenvolver sequências de espaços públicos – e de pequenos trechos urbanos – que se constituam em verdadeiras “colunas vertebrais” de partes de uma cidade que assim se irá habitando. Naturalmente que a escala humana e a pormenorização servem e amplificam a força funcional e de imagem destes trechos.
Fazer espaços públicos humanizados e vitalizados é, essencialmente, (re)fazer uma cidade que se deseja (re)constituída nos seus sistemas de convivência. Dizer que esta convivência já não faz parte dos actuais modos de vida é apenas desculpar o não querer ou mesmo o não saber fazer esses espaços que se querem naturais incentivadores do convívio, convívio que nasce logo à porta de casa.




Fig. 3: uma adequada pormenorização de eixos urbanos conviviais – a EPUL no Restelo, Lisboa; projecto urbano de Nuno Portas, Teotónio Pereira e Gonçalo Ribeiro Telles; projecto de edifícios de Teotónio Pereira, Pedro Botelho e João Paciência (1985).

Vizinhanças de proximidade reforçadas, sóbrias e naturais

Relação com a envolvente e com a colectividade servida por uma atractividade geral e espacial ao nível de um micro-urbanismo que reforça a presença da vizinhança de proximidade e suscita adesão, marcando uma relação de proximidade que é também ponte de relação com a envolvente.
Tal como disse Francisco Keil do Amaral, muito mais importante do que muitos outros aspectos, é assegurar “edifícios correntes com boa qualidade arquitectónica e bem agrupados.” Assim se pode estruturar o exterior urbano e residencial com naturalidade e coerência – podemos sempre lembrar que o que parece mais simples provavelmente foi aquilo que foi melhor e mais longamente pensado e preparado.

Claro ordenamento urbano com referências directas à escala humana

A humanização e vitalização dos espaços públicos decorre sempre de um claro ordenamento de edifícios e espaços exteriores urbanos; um ordenamento urbano que se quer adequado e bem legível, numa aliança entre uma estrutura urbana funcional e uma imagem urbana humanizada, a dominância pedonal e a (re)estruturação funcional e de imagem da respectiva envolvente.
Quando dirigimos atenção para a humanização e vitalização dos espaços públicos temos de atender de forma específica a uma questão de escala do edificado, uma escala que tem de se harmonizar com o tecido urbano envolvente, mas que, acima de tudo, cada vez mais, tem de ser uma escala com referências directas à escala humana. Em tudo isto é fulcral o papel das fachadas dos edifícios, fachadas que evidenciam, por vezes, o corte entre a rua e o fogo, mas outras vezes amplificam a articulação entre esses dois mundos.




Fig. 4: vizinhanças reforçadas, ordenadas e à escala humana – espaços de vizinhança próxima bem configurados, abrigados/protectores e equipados; Cooperativa Habijovem Algarve, Albufeira (112 fogos), 1993; Arq. José Lopes da Costa.

Um conjunto integrado de espaços interiores e exteriores bem pormenorizados

Tal como tão bem disse, Ken Kern, o espaço urbano é um conjunto integrado de espaços interiores e exteriores, um espaço construído e tornado legível por hierarquias e estruturado por transições e continuidades, que vão lembrando o que fica para trás e antecipando agradavelmente o que está para a frente, numa sequência ramificada que se quer sempre bem presente e clara.
Nas vizinhanças próximas urbanas e residenciais, que são os principais e “primeiros” elementos de uma cidade coesa, humanizada e vitalizada, é fundamental a importância da boa forma geral e da boa pormenorização pois aqui estamos no mundo da proximidade, sítio de olhares muito frequentes e muito chegados, sítio com muitas e exigentes funcionalidades, sítio vital de transição entre o mundo privado de cada um e o mundo público e citadino que é de todos, sítio que quando falta ou quando defeituoso acarreta inúmeros problemas.

A grande importância do verde urbano e o vital papel da caracterização

A variedade, a riqueza, a atractividade e a agradabilidade do jardim residencial de vizinhança, um modelo de espaço público cujo interesse funcional e de imagem ao nível vicinal e urbano e cuja importância estão ainda longe de serem justamente reconhecidos, seja para o recreio e lazer, seja para a formação dos mais novos e para o dia-a-dia dos mais velhos, seja para o convívio entre todos, seja para o equilíbrio microclimático local, seja para a própria saúde psicológica dos residentes.
Tal como diz Christian Norberg-Schulz o carácter e a caracterização é mesmo o verdadeiro assunto da arquitectura, um assunto que marca o edificado e transborda sobre os exteriores contíguos de uma forma que tem de ser natural para ser efectiva e culturalmente válida. Não podemos fazer espaços urbanos e residenciais sem forma própria e sem identidade, afinal estamos a construir, melhor ou pior, uma cidade que vai durar.



Fig. 5: interior/exterior, verde urbano e caracterização – um jardim residencial de vizinhança do conjunto da Cooperativa Coociclo, em Telheiras, Lisboa (1989), projecto coordenado pelo Arq. Duarte Nuno Simões.

A boa prática da pequena escala e da modelação da paisagem urbana

A grande prática que deve ser seguida no bem fazer pequenos e bem configurados espaços exteriores e a grande prática da pormenorização que deve preencher e dar uma verdadeira alma aos grandes espaços públicos exteriores.
É essencial um grande cuidado na modelação da paisagem urbana, pois é esta que acompanha, complementa e caracteriza o espaço público dando-lhe boa parte dos seus conteúdos funcionais e de imagem; trata-se de níveis consecutivos de cenários, distintos mas ligados, trata-se de uma essencial relação de integração por continuidades e por contrastes cuidadosos.

Espaços públicos urbanos amigos das crianças e dos mais velhos

Fazer cidade habitada e amigável, cidade ligada ao clima e à paisagem, cidade em si própria paisagem urbana e humana, cidade que acompanha e enriquece quem a habita, cidade que apoia quem a habita, proporcionando, ao longo das suas ruas e outros espaços coesos, contínuas e graduais aulas de vida e de sociedade, aos mais novos, amparando-os e estimulando-os, num quadro global seguro e formativo, enquanto acarinha, envolve e protege os mais velhos, os mais lentos, dando-lhes condições de tranquilidade urbana, de estadia e de convívio mitigado no exterior. Assim se dá mais tempo e qualidade de vida, directa e indirectamente, nos variados e estimulantes cenários que são oferecidos e numa vitalidade diária que pode cativar em cada esquina, em cada praceta, em cada esplanada e em cada pequeno jardim.
Fazer cidade habitada e amiga das crianças e dos mais velhos é fazer uma cidade que serve melhor aqueles que mais a usam e aqueles que mais vida lhe dão, e que naturalmente são aqueles que precisam de condições urbanas de segurança, acessibilidade e conforto mais cuidadas, e fazer esta cidade não é apenas fazer alguns espaços específicos para as diversas idades, que também são precisos naturalmente, mas é, sim, essencialmente, fazer uma cidade arquitectónica e culturalmente válida, espacialmente integrada e socialmente solidária e viva.




Fig. 6: pequena escala bem modelada em espaços urbanos amigáveis – pormenor do conjunto municipal de realojamento em Santa Maria da Feira, projecto do Arq.º Bruno Marques (1999).

Notas conclusivas

Fazer bem o espaço urbano passa por fazer espaços naturalmente formativos, emocionantes, protectores e confortáveis, portanto, fazer espaços urbanos vivos e humanizados.
É preciso conhecer, urgentemente, o que se fez bem em termos de urbanismo residencial, para se perceberem um pouco melhor os aspectos ligados à humanização e vitalização do espaço público habitado. É preciso dar a devida importância à luta pela humanização e vitalização do espaço urbano. é preciso que a vida e a qualidade de vida sejam realmente bem servidas pela técnica.



Fig. 7: o Bairro Económico da Chamusca; projecto de Bartolomeu Costa Cabral e Vasco Croft de Moura (1960).

Temos a obrigação urgente, hoje em dia, de tudo fazer para quando falarmos de espaço público, e tal como diz Yves Lyon, falarmos de “virtudes, energias e motivos fundadores, ideias de civilização, ideias de colectivo.”
E devemos ter bem presentes as palavras de Gonçalo Ribeiro Telles, quando refere que depois dos espaços privados e públicos, surge o “espaço livre comum”, espaço este que Ribeiro Telles refere ser bem observável, designadamente, em partes dos Bairros de Alvalade e de Olivais em Lisboa.
Parece, assim, que só falta observar bem e caracterizar estes e outros espaços, (re)descobrindo as tais “ideias de civilização”, os tais “motivos fundadores.”
E, nestas matérias, e também fazendo justiça ao título deste artigo, é sempre interessante recordar uma frase-chave de Frank Lloyd Wright: “All fine architectural values are human values, else not valuable”; uma frase que parece poder ajudar a desfazer muitas confusões que por aí existem nestas áreas da qualidade arquitectónica residencial.

(Frase citada por Ana G. Cañizares, em “Great New Buildings of the World”, Nova Iorque, Harper Design, 2005, p. 6)
Lisboa, Encarnação, Olivais Norte
10 de Agosto de 2006

quarta-feira, novembro 16, 2005

53 - As cidades também se abatem, “They kill horses - don't they ?” - um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 53

 - Infohabitar 53

As cidades também se abatem, “They kill horses - don't they ?”

um artigo de Celeste Ramos
fotografias de António Baptista Coelho

Inspirada no título do magnífico filme de Polansky dos anos 70 com Jane Fonda - "they kill horses - don't they” ?, também pergunto "ao vento" porque se abatem cidades, como Lisboa está a ser abatida um pouco por todo o lado, mas especialmente na zona ribeirinha, e sobretudo neste ano de 2005, como nunca, com tal escala e velocidade que quase faz esquecer o que lá estava “ontem".

Todas as cidades envelhecem, mas nem todas "desmoronam" a menos que, como em Hiroshima e Nagasaki, seja lançada uma bomba atómica, de que se comemoram 60 anos, ou que sobre elas se abata, como em Lisboa em 1 de Novembro de 1755 (e está a fazer 250 anos) um terramoto.



Quanto à natureza bruta já se sabe como actua e o que pode fazer, e desde o tsunami de 26 dezembro 2004 em Acheh, na Indonésia, ao que se seguiu este ano o tornado em N. Orleans e Houston, fazendo tudo desaparecer do mapa em poucos instantes, como se a natureza quisesse "fazer-se ouvir" mais profundamente.

Será a natureza tão mais brutal quanto menos atenção o homem tem quanto à sua força, e decide construir onde e como não deve, ou sem os saberes e os cuidados que deve, só contando com a sua inteligência arrogante?

Pergunto, não sei a quem, mas pergunto, o que está a acontecer à Lisboa que adoptei como a minha cidade desde o fim dos anos 50, a que chamava a Cidade do meu encantamento, mesmo depois de conhecer calcorreada a pé Roma, Veneza e Florença, Istambul e Ephesus, ou Paris, e outras do outro lado dos mares. Mas que bem cedo me faziam apressar o regresso, como se aqui eu tivesse outro respirar. Como se aqui fosse o lugar do bater mais ritmado do meu coração, porque pertenço aqui, a este lugar – ponho os pés no meu chão.


Lisboa, hoje a cidade do meu des-encantamento que começa a cair pedra a pedra com o camartelo – mesmo que, ao vir de sul e atravessar a velha Ponte, ela apareça ainda como um poderoso dorso de dinossauro emergindo do seu mergulho em águas profundas, carregando os bairros e monumentos desde o Castelo até desaparecer para os lados do Mar, que lhe deram a mais longínqua identidade e glória. Seja de noite, seja iluminada pelo pôr-do-sol que a torna doirada e eterna “ninfo-maníaca” do Tejo.

Com a cidade cresci e com ela envelheci, que foi tempo de me construir em identidade cultural, emocional e cívica, a ela reportada como ponto de partida como se fora a "minha casa", onde habita "a minha família colectiva" !

Vi na cidade buliçosa, mas verde e limpa, saltarem os golfinhos no Cais das colunas. Vi a Praça do Comércio mudar de "escala" quando as suas fachadas pintadas do verde de Raúl Lino mudaram para rosa fresca ajudando a ler a sua horizontalidade, ou para cores que lhe adulteram demasiado a escala. Vi desaparecer os eléctricos e o contínuo de passeios de peões por onde se corria sem cuidado. Vi a arte das fachadas e o pormenor dos ornamentos. Vi a história dos tempos nas paredes e no chão escrita, até submergir com o automóvel e, pior, com o betuminoso que se sobrepôs ao belo e eterno pavimento de granito que deixava a chuva entrar devagarinho e refrescar o chão e o ar. E agora não vejo nada disso, não por saudosismo, mas por quebra vertical na qualidade do habitar esta minha cidade, sem grandeza nem verdadeiro progresso.


Esse meu tempo de vida na cidade, correspondeu, exactamente, ao avanço da cidade por Benfica e Loures, no início, que se tornou imparável em ambas as margens do Tejo, coalescendo-se a Sintra e Vila Franca de Xira, e país fora, como mancha de óleo irreparável.

Pergunta-se, assim, porque não se decide desmoronar controladamente essa espécie de cidade "arrabaldes" roubados ao campo-horta e ao campo-palácios-quintas da envolvente, que se perdeu na construção maciça e sem lei, e porque não se reorganizam e restauram esses espaços na sua dimensão edificada com verdadeiros espaços públicos e culturais, incluindo o fundamental verde urbano.

Porquê também este desmoronado visual da beira-rio onde as auto-estradas urbanas, no seu pior, acabam em nós viários sobre o ex-libris do Aqueduto das Águas Livres, e a irreconhecível Algés e desembocam "sobre" a Torre de Belém, que já não se sabe onde fica, e que é outro berço da cidade e da nossa história, como se a cidade destas últimas 5 décadas, que trocou ser campo, Palácios e Conventos, por habitação desqualificada e amontoados de automóveis, se tivesse igualmente saturado e empurrasse agora a velha cidade ribeirinha para dentro do rio.


Da grande cidade que foi toda de beleza frágil e simples, mas segura e luminosa nos seus conjuntos, só restam cada vez menos "ilhas” da velha urbe saudável e equilibrada.

Assim, desta forma, a cidade não envelhece, positivamente; desmorona-se. E podia e devia envelhecer bem, através de tantos edifícios em que as funções originais, desactivadas, por naturais razões evolutivas, se prolongassem por outras funções hoje necessárias e positivas. Os edifícios continuam a ser história/memória da arquitectura, e da cidade e das artes envolvidas e deviam mudar de funções, positivamente, como no caso da Cordoaria e não como no caso do Éden. E nessa mudança positiva e dinâmica de funções deve ter-se bem presente que nesta cidade e em tantas outras continua a haver uma crítica carência de espaços culturais, tanto museológicos e bem abertos à sociedade, como de encontro de grandes grupos para música ou teatro, e situados em plena cidade velha, pois desta mistura de memória de cidade e de cultura de hoje resulta uma riquíssima mais-valia.


A Cultura é um quadro ético, que "mora" num lugar especial que é a Cidade. Diminuir a qualidade do ambiente de uma cidade é diminuir a qualidade de vida de cada cidadão, e se chegarmos ao acto último do abater de uma cidade, serão abatidos os seus cidadãos.

Mas porquê esta tendência, tão sentida, de fazer desmoronar a "cidade original", semente da memória colectiva, ancestral?

Não sei nem responder nem compreender.



PS:

Mas sei que os problemas de Lisboa se resolvem no "interior provincial", hoje vazio de habitantes e de cultura, que nos anos 90 foram obrigados a deixar por ausência de estratégia de desenvolvimento de cada local habitado há milénios. E sei que bastava ter percebido que Lisboa começou a morrer quando, em vez de capital, passou a ter que ser uma "nação" que não poderá nunca responder ao que o país inteiro respondia, em cada local "abandonado" desse interior que também se “abateu”, como se abate qualquer cidade abandonada que a natureza selvagem invade.

E em toda esta problemática tenhamos bem presente que as cidades médias, com dimensões de cerca de 40 mil habitantes, são o sustentáculo do conceito de cidade evolutiva e dinâmica, auto-sustentável, fazedora de Civilização.


Lisboa - Santo Amaro – domingo - 23 Outubro 2005

Maria Celeste d'Oliveira Ramos, Arquitecta Paisagista



Fotografias de António Baptista Coelho

quarta-feira, outubro 19, 2005

47 - "Bairro, uma cidade na cidade", texto de Celeste Ramos e Baptista Coelho com imagens de Maria João Eloy - Infohabitar 47

 - Infohabitar 47

O meu bairro é uma cidade dentro da cidade
- sobre o crescimento da cidade –

Artigo de Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho, com imagens de Maria João Eloy

Todas as cidades têm um "coração", núcleo criador e reparador da vida que irá nascer e desenvolver-se e que é a cidade em si mesma, que cresce como um ser vivo, desenvolvendo-se um processo urbano gerador de bairros, que têm de ser pequenas cidades dentro da cidade-mãe. Naturalmente, deseja-se, que esse crescimento seja saudável e que, assim, marque dignamente o novo tempo, marque também com a fundamental dignidade, os velhos tempos e harmonize as novas necessidades funcionais da cidade dentro de um corpo que mantenha e valorize valores de cidadania e de identidade.

Com o crescimento a cidade, tal como uma árvore, vai envelhecendo, mas também se vai renovando, transportando a seiva e desmultiplicando-se em bairros e ramos cada vez mais distantes do centro genético, que são por vezes, quase depreciativamente, denominados periféricos e que não possuem, frequentemente, o equipamento colectivo necessário e adequado ao viver de uma verdadeira cidade, plena de vidas e de actividades.

Mas a cidade, sendo, como deve ser, apropriada pelos habitantes que se deparam com esse jardim urbano de "pedras-ajustadas-umas-às-outras", é e tem de ser, dia-a-dia e em cada geração, acrescentada nas suas formas de a vivenciar, completada, animada e enriquecida, se quem a desenhou o fez de forma conveniente, dotando-a dos espaços e equipamentos para que se satisfaçam as necessidades fundamentais de ensino e de saúde, de cultura e de lazer, e religião, para além de comércio e pequenos serviços, "ao-pé-da-porta".

E tal como os habitantes vão aprofundando as suas histórias de vida, assim vai a cidade habitada, gradualmente, sedimentar-se e caracterizar-se nos seus bairros, que são verdadeiras pequenas e diversificadas cidades com memórias e linhas de vida distintas, mas integradas na cidade-mãe.





A pequena cidade-bairro, que se quer equilibrada e feliz, foca-se num ecossistema humano que contém todos os grupos socioculturais e económicos, etários e mesmo raciais, contribuindo para a paz social e saudável interdependência como se fora um pequeno organismo auto-sustentável, dentro do organismo maior que é a grande cidade.

Mas a pequena cidade-bairro, que se quer equilibrada e feliz, não pode ceder à tentação de se "partidarizar" em “guetos” para pobres e “guetos” para ricos, numa atitude “planeada” de aparente protecção, que zonifica e divide, que serve prioritariamente a entidade abstracta da grande cidade, esquecendo, tantas vezes, que há que servir também a vida das pequenas cidades-bairros, tendendo-se, assim, para a gradual desintegração de um tecido duplamente físico e social, que deveria ser coeso e múltiplo e que retira dessa coesão, vitalidade e multiplicidade de pequenas cidades de vizinhança, o verdadeiro carácter e a verdadeira felicidade do viver da grande cidade.

Falou-se, até aqui, da cidade/árvore que cresce, para servir os seus humanos, naturalmente, não para servir uma qualquer função ligada ao seu próprio processo de crescimento. Falou-se da cidade dos bairros, bairros esses que têm de ser cenários coerentes das suas épocas de crescimento e cenários bem qualificados na sua arquitectura física e cívica. Mas esta cidade dos bairros cresce num sítio natural e sempre foi em sítios naturalmente privilegiados pelo clima, pelo relevo, pela riqueza do solo agrícola, pela proximidade das margens de superfícies de água e de florestas e, afinal, por tudo aquilo que leva ao desenvolvimento do homem cidadão.





E se Lisboa e Porto, e as mais importantes cidades do litoral, colhem a sua razão de fundação na sua quase fusão com o rio e com o mar, e colinas defensivas, as do interior derivam da existência da montanha e do vale, que só por si determinam duas atitudes culturais específicas, ou as das grandes planuras, sendo que com "expressão" diferente oferecem igual qualidade de habitar, porque implantadas com inspiração na sua primeira força natural, a dimensão atlântica e montanhosa a norte que colhe a força da Meseta e dos Montes Cantábricos, e a dimensão mediterrânica no "plateau ibérico" determinando por fim três formas de diferença radical de viver, o litoral, a montanha e o vale, e três expressões culturais identitárias das paisagens e das gentes.

Os mais antigos e históricos bairros de Lisboa após as mais variadas tansformações são hoje o melhor exemplo do que se escreve, Alfama, Lapa ou Estrela, ou Campo de Ourique, ou Santo Amaro, aos quais se foi acrescentando o que faltava para responder à modernidade e nos quais se vai igualmente processando uma "migração interna" da população que procura que o bairro seja uma cidade dentro da cidade.

E aqui há que referir que, por um lado, o da cidade física, os casos mais positivos de sobrevivência de carácter e de vida de bairro estão associados aos conjuntos urbanos fisicamente mais coesos e urbanisticamente mais unificados, e que, por outro lado, o da cidade cívica, se assiste a uma defesa tendencial do viver nessas pequenas cidades-bairros; mas uma defesa que é muito, muito difícil quando o ataque quase só visa o lucro e não tem qualquer perspectiva de futuro em termos de cidade cultural, diversificada e viva.

As grandes metrópoles, quando perdem a qualidade de cidades feitas de bairros bem caracterizados vivos, são, elas próprias, o princípio do fim da cidade: a cidade que se desorganiza e perde escala humana, a cidade que se desagrega, física e funcionalmente, tornando-se autofágica, a cidade que, tal como uma árvore não cuidada, faz surgir ramos de subúrbios sem qualquer qualidade formal e urbana, que atingem dimensões incontroláveis, que geram, eles próprios enormes problemas e que foram e são responsáveis pelo devorar dos espaços do "campo" que davam sentido e qualidade à cidade, desfragmentando grandes unidades de paisagem de valor ecológico, cultural e patrimonial. E, além de tudo isto, tal como nessa árvore não cuidada, é este crescimento súbito e selvagem o principal responsável pelo crítico definhar do centro da cidade, que se despovoa, desvitaliza e pode até morrer.





O caminho urgente tem de passar, obrigatória e simultaneamente, quer pelo ordenamento dessa grande cidade desfragmentadora da paisagem e do território – um ordenamento pautado por objectivos de qualidade de vida urbana, natural e cultural -, quer pela salvaguarda e pela revitalização dos bairros citadinos mais coesos e geradores de vida urbana na rua e na vizinhança, marcantes em imagens urbanas e em riqueza de actividades.

As nossas casas e as ruas onde moramos são manifestações culturais das paisagens da nossa cidade, mas também dos nossos mundos pessoais.

E nestes mundos pessoais cala fundo a importância do carácter, das vidas e das presenças dos nossos bairros, tornados há muito as nossas cidades tão diferentes, mas sendo sempre também a nossa cidade una; e lembremos como o grande filósofo Kant desenvolveu o pensamento que deu ao mundo, sem sair da sua rua - os homens fazem as casas e as ruas, mas as casas e as ruas fazem o Homem.


Nota final: com as imagens intercaladas pretende-se apenas ilustrar muito informalmente estas palavras; outras leituras ficarão para outros textos e oportunidades. Numa sequência temporal juntaram-se algumas fotografias de partes de três bairros de uma Lisboa que foi crescendo: Santo Amaro; Encarnação/Olivais-Norte; e Laranjeiras.

(feito a duas mãos com a ajuda de uma terceira, de 8 a 18 de Outubro de 2005)

Lisboa - Santo Amaro, Laranjeiras e Encarnação


Maria Celeste d'Oliveira Ramos, arquitecta paisagista (texto inicial)

Maria João Eloy, arquitecta (imagens e sugestões no texto)

António Baptista Coelho, arquitecto (texto e imagens)