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segunda-feira, janeiro 12, 2009

229 - PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES, PORQUE MORRE UM PAÍS - I - Infohabitar 229

Infohabitar, Ano V, n.º 229
Com breves palavras, porque se edita, em seguida, um grande artigo, renovam-se as boas-vindas a uma das pessoas que há mais tempo e mais intensamente têm cooperado com excelentes textos no nosso Infohabitar.

A Arq.ª Maria Celeste Ramos tem, realmente, os seus leitores nesta nossa revista e é com grande satisfação que a temos de volta numa série de três artigos sob o título geral “PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”, que iremos editar ao longo de várias semanas; eventualmente alternando estes três com outros artigos.

E faço aqui uma pequena quebra de sigilo relativa a uma parte do texto que me enviou a Maria Celeste Ramos, como apresentação e “justificação” do seu grande artigo, e julgo que as palavras dela falam por si.
“ ... Só o fiz por prazer e AMOR ao meu país e à minha e CIDADE
Por vezes RAIVA é uma forma de gostar
E quem GRITA não é por não gostar dos OUTROS – é por SOFRIMENTO do que só se vê a forma mas não a essência do grito e eu que vivi uma vida inteira a calar o meu GRITO interior, felizmente que grito para não rebentar ... ”

E boa leitura,

A coordenação do Infohabitar

PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS - I

Artigo de Maria Celeste Ramos

Há 50 anos atrás

Há 50 anos atrás – na 2ª metade do séc. XX – independentemente das cidades destruídas pelas guerras mundiais e que foram “levantadas” e recriadas para funções de maior modernidade, principalmente a partir da II.ª guerra, contando também com o automóvel, havia uma certa estabilidade no crescimento urbano – as cidades pareciam estar estáveis.

Nem sequer se tinham iniciado os grandes movimentos turísticos nem de Verão e muito menos de Inverno, nem os de fim de semana, que obrigariam a construção de alojamento específico, não havia ainda subsídio de Natal nem de Férias, só a cabeça de casal trabalhava, as férias correspondiam apenas às férias escolares das crianças, não havia berçários nem creches (mas havia as amas para tratar os bebés em casa), não havia escolas pré-primárias, pelo que tudo da vida das famílias se passava para a grande maioria das populações, em casa e no lugar em que se vivia, os transportes eram quase exclusivamente colectivos e ainda incipientes, focados no comboio (1).

É certo que as famílias mais ricas já tinham a segunda habitação, em geral uma “quinta”, tendo ou não habitação na cidade, sendo grande exemplo as Quintas e Palácios dos arredores de Lisboa e de Setúbal, e as da região do Minho sobretudo no vale do Lima, algumas que ficaram e resistiram ao camartelo ser terem sido retalhadas para serem construídas as piores “urbanizações de má memória que parecem estar para sempre” ficando no entanto algumas na sucessão das “famílias”, tendo ou não sido adoptadas ao “turismo rural” que foi a saída para os descendentes que entretanto tinham falido ou eram muitos os herdeiros, e votaram-nas ao turismo para poder recuperá-las e ter rendimento adicional, tendo Inglaterra, mais uma vez, sido pioneira já em pleno séc. XX, o que viria a acontecer em Portugal no fim dos anos 80.

Um turismo hoje muito procurado no silêncio do Campo e em contacto não apenas com a natureza mas toda a tradição e cultura, sobretudo para população mais adulta que foge do caos dos lugares litorais de praia e de Verão e poluição e se interessa também pelos aspectos da história e cultura de outros locais ainda conservados na sua originalidade já que o turismo é de “modas” e são as classes mais cultas que vão abrindo outras viagens a outras paragens, mesmo em situações de pobreza, que conservam a genuinidade dos lugares e formas de viver.


Fig. 01: a caminho de Sintra, uma paisagem destruída


As maiores atrocidades a estes locais de arte, beleza, silêncio e natureza

Portugal começaria aqui, no fim dos anos 50 do século passado, a fazer as maiores atrocidades a estes locais de eleição, arte e beleza, silêncio e natureza, pois que a Quinta era ao mesmo tempo local de habitação e de produção, e de lazer, e fazem parte da memória de grandeza da arte portuguesa de ocupar o território, adicionando beleza em vez de o desmantelar, locais de eleição de contacto com a natureza e as flores e a arte do ordenamento e de riqueza arquitectónica de valor intemporal. Essas relíquias e Santuários mereceram o elogio de obras de literatura e poéticas dos estrangeiros que as visitavam, restando entretanto algumas em Sintra, votadas a espaços de recreio e cultura e arte e, outras, ocupadas para turismo de luxo e para reuniões de altas individualidades da economia e da política.

Cada Quinta de Sintra é lugar de beleza e arte e ainda de misticismo e até simbolismo como a tão falada Quinta da Regaleira ou espaços esotéricos como o Monte da Lua ou históricos como a Feteira da Condessa e o Palácio mandado erguer por D. Fernando, homem não apenas de letras e artes e de grande cultura e que fez plantar, na Serra, todas espécies do mundo conhecido, sobretudo de árvores, constituindo o que foi considerado um grande Arboretum e é um local de grandeza e paz e de elogio ao mundo vegetal, num centro do país privilegiado pelos ventos do Cabo da Roca (onde se encontra a Floresta das Fadas), que trazem a constante humidade e nevoeiros que dão à região características peculiares, para além de locais que teriam sido património dos Templários; e todas as Quintas estão cheias de história desde o Palácio de Seteais à Quinta dos Lobos, nessa Sintra cantada por Lord Byron.

E se por acaso a maioria das Quintas ainda está conservada, o mesmo não se pode afirmar de todas as aldeolas do concelho que eram nichos de beleza e paz mas são agora arrasadas de mau gosto de betão saloio a que os sucessivos presidentes do concelho de Sintra não souberam pôr cobro, fazendo desses lugares a maior alienação e constituindo a arte e cultura de quem governa regionalmente e transformou os espaços belos e de grande valor agrícola em produção de primícias que até se vendiam à beira da estrada do Guincho, mas que agora são dormitórios de Lisboa e o inferno de quem tem de demandar Lisboa para trabalhar e perder horas sem fim na estrada que foi “a estrada de Sintra do Poema de Álvaro de Campos” e agora é a IC19 de inimaginável fealdade e mesmo crime paisagístico, estético e cultural, ambiental e histórico, em que quem a usa leva de transporte de ida e volta quase tantas horas quantas a que utiliza para trabalhar.


Fig. 02: como morreram aldeias e paisagens (o Lumiar em Lisboa)


Como morrem as aldeias e o seu valor estético, agrícola, ecológico, e económico, e a saúde dos homens
Como morrem as aldeias e o seu valor estético, agrícola e ecológico, e económico, e a saúde dos homens em nome do não saber preservar a herança e aproveitá-la para os homens em vez de as arrasar de fealdade e morte.

Só uma vez ouvi uma juíza afirmar que o Código Penal deveria contemplar o Crime Urbanístico (Dr.ª juíza M.ª José Morgado - 2008). mas até hoje tudo é impune, quem sabe se por falta de se saber definir “ambiente” e outras coisas simples que os agricultores analfabetos sabem por condição genética.

Quanto ao ensino, embora sem acesso para todos, nessas duas metades do século passado de que se fala, havia apenas o ensino primário público e privado, bem como o ensino “liceal” com 5 anos para o curso geral dos liceus (igualmente privado e público), que daria imediato acesso a emprego, como havia a Escola Industrial e Escola Comercial mas apenas em algumas cidades, igualmente com imediato acesso ao emprego nestas duas vertentes, sendo que, para o ensino liceal completado com o 6º+7º anos, daria acesso ao ensino universitário, assim como com as Escolas Industrial e Comercial havia mais um ano para acesso ao nível universitário.

Assim, qualquer aluno teria a 4ª classe e ia à vida, ou o 5º ano do liceu ou Escola Comercial e Industrial, e ia à vida, a partir dos 15 anos de idade.

Mas vieram leis quase universais de Direitos da Criança – o que é bom, claro –, mas que não se aplicam aos mais pequenos para fazer cinema e telenovelas ou mesmo passagem de modelos, entre outras situações, já que tal situação derivou das classes mais pobres em que as crianças ajudavam seus pais no campo e outras situações aprendendo ofícios de continuidade das formas de viver em cada local. A “cidade” consegue descriminar as situações que lhe convêm para mais uma vez as crianças passarem de não-analfabetas a “escravas da modernidade”, deixando de ser crianças, e ficando outras com seus pais apenas progenitores porque a lei é tantas vezes “cega” de acordo com as circunstâncias como se toda a vida e cada gesto tivesse de ser regulada por “lei” que entra em casa, mas que nem sempre resolve o que há a resolver, e tantas vezes criando problemas, como se o ser humano não tivesse, por si mesmo, aspiração para seus filhos.

Que falta faz o planeamento do ensino a todos os níveis – desde o pré-escolar até sobretudo ao profissional pois que havendo cada vez mais “doutores”, também há cada vez mais desempregados e desaparecem artes e profissões que muitos gostariam de ter mas não há – só há cada vez mais doutores sem vocação e sem trabalho: perdendo as pessoas, perdendo as profissões e perdendo o País.

Se um dia um “trolha” da construção civil tiver o 10º ano, certamente que fará melhor o seu trabalho, com mais alegria e eficiência e, depois de cada dia, em vez de se meter na Taberna, talvez procure outra ocupação cultural para os seus tempos livres e menos futebol ou outras manifestações e, como diria Sá Carneiro, “sofro à míngua de excesso”.

Onde está o DIREITO à vocação?


Porque morrem as profissões

Porque se conduz o mundo da “abundância” ao desperdício por não haver mais reparação dos “bens normais e universais de consumo” que por não haver quem faça as reparações ou reciclagem, conduz a que milhões de milhões de toneladas de “não usáveis” sejam carregados em gigantes do mar que os transportam para serem despejados a céu-aberto em países pobres em que as crianças têm, para brincar, esses desperdícios do “mundo rico e civilizado” que despeja os seus dejectos em país alheio e cada vez mais longe de casa.

Será que vivemos de facto num mundo rico e civilizado ou apenas incapaz e hipócrita sendo que nem sequer o homem desse “paraíso evoluído” é informado da forma e destino a dar e das consequências do seu “velho computador” ou de outro bem sofisticado que é fonte de morte (chumbo e outros metais pesados) para os que recebem tal “benesse”?

Com a integração na UE a escolaridade obrigatória passou para os 18 anos, a estrutura e curricula dos cursos foi alterada e os meninos, nem sequer sendo obrigados a frequentar aulas e poderem ter faltas, passaram a não saber nem ler nem escrever, não apenas por existência do computador que devia ser auxiliar, mas até põe não terem caligrafias legíveis, que são verdadeiros gatafunhos mesmo depois de terem cursado as universidades, e não sabem contar nem pelos dedos porque lhes é permitido utilizar máquina de cálculo, e não sabem nem pensar nem perceber se se enganaram a usar a maquineta. Decorar a tabuada a cantar também foi abolido para não martirizar as pobres crianças, que, assim, não puderam automatizar os mais simples dos raciocínios para ir formando, também, a sua memória.

Quanto aos exercícios de leitura e ao decorar as velhas poesias nas três línguas que foram obrigatórias no Curso Geral dos Liceus, na I.ª metade do séc. XX, também não! E, hoje, vê-se como os funcionários da Rádio, mas sobretudo da TV, lêem aos soluços, e quando pela frente lhes passa uma palavras que não pertencem ao normal do quotidiano, não sabem a fonética e lêem, por exemplo, uma palavra francesa aportuguesando-a da pior maneira como se a palavra estivesse “encapuzada”.

Se agora não conseguem distinguir em cada palavra, as vogais átonas das tónicas, o que será quando houver gerações formadas em pleno vigor do tratado luso-brasileiro, tão defendido pelo actual ministro da Cultura e tão deitado abaixo por um famoso escritor-poeta e deputado.


Fig. 03: a partir do CCB “já não há RIO”


“A minha Pátria é a Língua Portuguesa”
“A minha Pátria é a Língua Portuguesa” – Não. Já nem isso é, meu amado Fernando Pessoa – grande sábio das letras e de todos os sentires dos homens.

Em paralelo havia (e há ainda) outras escolas ligadas às artes como a Escola Ricardo Espírito Santo ou a Escola António Arroio, ou ainda o A.R.C.O. – falando-se só de Lisboa – bem como o ensino “fechado” do Colégio Militar” para o acesso directo às Forças Armadas para rapazes e o Colégio de Queluz para as filhas de militares. O ensino estava muito bem organizado e até certo ponto mesmo com cadeiras gerais iguais, o ensino estava dirigido a ramos profissionais, mas era raro nesse tempo o acesso às Universidades pois que a elas acediam quase exclusivamente as classes possidentes e mais os rapazes.

Havia igualmente, e em geral para as classes mais pobres, o Seminário, até à ordenação de Padre, ensino geral mas essencialmente vocacionado para essa função por ser, também, uma forma de ter acesso ao ensino e deixar “a casa e família” e ter um rumo de vida, e sendo que alguns seminaristas eram concomitantemente, professores de várias instituições da aulas de Religião e Moral, e de Latim, e mesmo aulas de Canto, pois que era comum a todos os graus de ensino, incluindo o universitário, o Canto Coral; que lamento não ser hoje tão importante como foi, não apenas para a educação vocal, mas porque tem para além disso muito mais virtudes do que essa, podendo até revelar vocações, como sucedeu no passado, e desde pequenino, como convém, e sendo ocupação de prazer para os jovens, pois que é sobretudo a partir dos 4 anos de idade que as crianças têm o máximo de capacidade para aprender não importa o quê.

Quanto à mulher na I metade do séc. XX deveria ser educada sim, mas sem grandes pretensões, pois o seu destino natural (e libertação do poder paternal e mesmo ascensão social) era o casamento, pelo que deveria saber bordar, “tocar piano e falar francês” e saber mandar nos seus empregados (os criados), restando uma grande mole de população que ficaria “analfabeta”, porque a vida nada mais permitia do que o trabalho no campo e em casa ou, duplamente, no campo e parcialmente na fábrica, o que não significa que das classes menos privilegiadas não saíssem crianças que nunca deixando de estudar foram homens ilustres de que será o melhor exemplo o nosso Prémio Nobel da Literatura.

A cidade e os seus habitantes reflectiam a organização social e determinavam comportamentos de grande civilidade, já que a população do País estava extraordinariamente bem distribuída por todo o território em cidades, vilas e aldeias de que até podiam recolher benefícios culturais, já que os “palácios dos senhores” se localizavam por todo o lado, havendo a população mais pobre que “servia os senhores” e até as crianças de quem servia e era servido, brincavam e aprendiam, independentemente de eu pretender valorizar o que não é valorizável quanto ao fosso cultural e económico que sempre existiu, mas que não existia no “convívio” de onde saíam gestos e motivações de uns para com outros.


A população do País estava extraordinariamente bem distribuída por todo o território, … hoje as sociedades … não deixam de criar guetos
Creio que hoje as sociedades, livres e libertadas, e mesmo democráticas, não deixam de criar guetos, diferentes sim, porque agora há outros medos e grande insegurança não importa em que lugar, mas sobretudo nas cidades-dormitório, mesmo que de boa arquitectura, mas onde não há emprego, onde as infraestruturas não são nem suficientes nem atraentes para todos e, sobretudo, ainal, quer-se sempre atingir o “coração” da zona mais nobre das cidades, onde é tão difícil chegar, não apenas pelo tempo de deslocação, mas porque os transportes são limitados e têm horário curto. E em paralelo as desigualdades económicas levam a desigualdades culturais e a informação generalizada deste princípio do séc. XXI, conduz a que a tentação esteja mais presente.

Também em geral quando há catástrofes naturais como enxurradas, as piores situações dão-se onde a habitação é menos cuidada, tal que são sempre os mesmos que vão perdendo os seus bens e os seus pequenos negócios que têm de refazer constantemente, e ir à escola quando a esperança de obter emprego é cada vez mais baixa, mesmo com cursos universitários.

E não esqueçamos a revolta de jovens nos arredores de Paris no verão de 2008 por morte de jovem, que se repetiu em Lisboa quase logo a seguir e, mais tarde, quase no fim do ano, em Atenas, em que recém formados invadiram as ruas e fizeram estragos violentos, pela revolta de ter estudado e chegado ao fim sem lugar de trabalho, e o mesmo tendo sucedido em Portugal porque a polícia tinha atirado a matar a um jovem que apenas atravessava uma rua em hora “errada”.

O verão de 2008 foi como nunca em Portugal; em que jovens fizeram os assaltos mais inesperados a lojas sobretudo a ourivesarias, a gasolineiras e a bancos, de onde arrancaram caixas multibanco como nunca se havia visto, e ainda assaltos a velhotes que viviam sós pelo país fora e os maltrataram e roubaram – os jovens andam à solta e sem rumo.

Assim, os bairros sem cuidados de ordenamento e beleza urbana, a par de escolas que são contentores de qualidade igual à má habitação, não levam a que certas camadas de população se auto-estimulem para sair dos seus guetos, o que também não quer dizer que não haja criatividade e centros culturais suburbanos, em vez de apenas bandos de delinquência; mas a sociedade mesmo libertada não leva a igualdade de acesso às mesmas ambições e à concretização dos sonhos da juventude, que é sempre a mais criativa mas também a mais rebelde e a que faz mudar o mundo, no melhor e no pior, quando a saída é apenas a droga e o crime, flagelos da segunda metade do séc. XX, agravados pelos meios de comunicação mais e mais sofisticados e que chegam a todo o lado, no País e no mundo, porque já não há fronteiras nem no bem nem no mal.


Fig. 04: um desenvolvimento que chega a ser absurdo


Algumas notas sobre o desenvolvimento do País
Quanto a transportes, o país tinha desde o fim do séc. XIX uma extraordinária rede que cobria todo o país (e o rei viajava de comboio na sua carruagem especial), ligando vilas e cidades e mesmo aldeias, pois que nem sequer havia automóvel que só começa a aparecer a partir do fim dos anos 60; e ainda agora é motivo de grande polémica a Linha do Tua, que serve população e turismo, mas que, mais uma vez se quer fazer desaparecer com construção de barragem acabando com memória e paisagens, em vez de se desenvolverem as novas energias alternativas sem ser à custa do “passado glorioso” tão útil à modernidade e ao turismo de natureza e dos locais históricos e arqueológicos.

Estranhamente o desenvolvimento do País desde a integração na UE não sabe fazer mais nada do que deixar ruir o passado ou destruí-lo e fazer obras faraónicas de novo-rico depauperando o “oiro” que é sempre oiro e só é preciso limpar da oxidação do tempo e actualizar.

E falando de transportes será curioso dizer que em plenos anos 60, do século passado, a população rural se deslocava em carroças puxadas por burros ou mulas, e que ainda recordo as carroças tão especiais do Algarve, pintadas com sentido cromático da arte popular, que se vai apagando, restando no entanto ainda nos barcos da Ria de Aveiro, outro meio não apenas de trabalho mas também de transporte e, mais tarde, aproveitados inteligentemente para passeio turístico para aqueles que não desistiram das suas “artes e orgulho” que o turista aprecia pois que é história e herança, arte e cultura e a percepção do passado. E assim se salienta que é possível encontrar formas de conservar a herança cultural e a história de forma a que o presente seja muito mais do que insípido, descaracterizado e estandardizado, frio e asséptico, porque os “tempos de como fazer” podem, e devem, coexistir constituindo por outro lado aprendizagem ao vivo da história de cada lugar.

Em contrapartida com a construção quase inútil e anómala das IPs, dos anos 80 do séc. passado, que rasgaram paisagens, destruíram grandes e pequenos relevos, grandes e pequenos ecossistemas e paisagens que foram decepadas, mais uma vez não se conservou o que tem valor e se destrói para dar lugar a “coisa nova e moderna”, sem se querer perceber que o uso do automóvel está condenado à escala actual devido ao consumo de energia altamente dispendiosa e poluente, e bem cedo se adoptarão outras formas de transporte, voltando-se a um uso muito mais intenso do comboio, desta vez de alta velocidade, porque o mundo não dorme e a evolução não pára, mas sempre volta atrás para ir para a frente, excepto este País que não sabe planear, quanto mais prever e valorizar o que tem há séculos.

E diz-se para consolo dos mais ignorantes que se faz EIA (Estudos de Impacto Ambiental) que não valem nada de nada a não ser se qualquer projecto de implantação e ocupação do solo (mesmo de cultura agrícola) derive de Plano de Ordenamento do Território – sobretudo ordenamento Biofísico e, então sim, o EIA faz sentido para fazer corrigir e minimizar a intervenção na paisagem.


País rico – País tão pobre
O novo-riquismo dos anos 80 do séc. passado viria a acabar não apenas com a extraordinária rede ferroviária, mas também com outro tipo de património representado pelos belíssimos edifícios das Estações da CP que, ou já desapareceram, ou estão, frequentemente, num abandono imperdoável nem sequer próprio de III mundo, com eles perdendo-se magníficos painéis de azulejaria, excelente património; sendo que uma nova linha de turismo aparece depois dos excessos de turismo de sol e de praia e de Verão, e de massas, pois que se demandam agora locais do interior para visitar “mais esse oiro perdido”, como se o país não soubesse nem classificar tanto património, nem preservar e restaurar tanto para os naturais como turistas, que constantemente mudam de “modas” e de percursos. Já que o turismo parece ser a única indústria que desde que começou não pára de crescer velozmente já em todo o mundo, mesmo nos países do mundo velho e degradado, mas que contém ainda ruínas e vestígios da civilização do homem.

Há muito que os decisores não estão à altura de gerir o “oiro” representado por todas as formas do património existente, seja paisagístico seja edificado, desde a pré-história até aos nossos dias – País rico – País tão pobre.

A década de 60 do séc. passado foi com certeza a da grande transição para outra fase que não se adivinhava, dando-se a grande explosão de todos os fenómenos sociais, depois, na década de 80, com todos os benefícios trazidos pela paz e pela democracia que se ia implantando a partir do fim dos impérios coloniais que caíram a partir dos anos 50.

Curiosamente, o grande descobridor da Índia, Vasco da Gama, se por um lado mereceu algumas honrarias pelo feito de desbravar os mares, e tendo nascido em Sines, teve de se contentar com o título de Conde da Vidigueira que teve de comprar bem como a sua habitação. No programa da TV2 de 4 de Janeiro de 2009, foi afirmado pelo historiador Hermano Saraiva que em 2007 a edilidade de Sines acabou o que há 500 anos não foi feito, ao ter dedicado a Gama o Castelo de Sines com seu nome – Casa de Vasco da Gama –, restaurando-o e recheando-o de toda a informação e espólio histórico e cultural, já que no local em que nasceu – Sines – havia e há, apenas, uma pequenina capela – de Vasco da Gama debruçada sobre o mar. País ingrato.

Já vem de muito longe a indiferença nacional pelos homens que fizeram a sua história, pelo que parecerá “natural” que menos ainda se cuide a população “anónima” que, igualmente, fornece os obreiros do País, cada um à sua escala de intervenção.


Fig. 05: tempo de mudanças e de verdadeira e sistemática destruição de paisagens


Um tempo de mudança das classes sociais
Voltando um pouco atrás, mesmo para quem, como eu, trabalhava a partir dos anos 50, do séc. passado, não havia muitos dias de férias/descanso, que apenas a pouco e pouco passaram de 6 dias/mês, para 11 dias (trabalhava-se ao sábado num total semanal de 42 horas e mais tarde 36) e só muito mais tarde as férias passaram a ser de 30 dias e se começou a ter direito a subsídio de Natal e, muito mais tarde, ao subsídio de férias, quando por toda a Europa este procedimento era mais do que banal.

Ainda, por razões socioculturais e políticas, se por um lado havia as Termas, de que as das Caldas da Rainha são as mais antigas da Europa, fundadas pela Rainha D. Leonor, eram essencialmente votadas a problemas de saúde devido à qualidade das águas da nascente, mas, a pouco e pouco, foi levando à construção de belíssimos Hotéis. Hoje as termas independentemente de continuarem a ser locais votados a problemas de saúde são importantes lugares de férias todo o ano.

Lembremo-nos, relativamente ao facto de não haver tempo de férias senão há cerca de 50 anos, do belo filme “Morrer em Veneza” realizado pelo aristocrata e marxista Luchino Visconti, conde de Mordone (Lombardia), um dos mais ilustres cineastas da 2ª metade do séc. XX, com cenas de senhoras de alta aristocracia que frequentavam a praia de longos vestidos e de chapéu e coberto de véu, como se na cidade estivessem, pois que a pele queimada era apenas própria dos trabalhadores do campo e pescadores, filme que juntamente com o Gattopardo a que foi dada majestade pelo extraordinário actor Burt Lencaster, focavam a decadência da aristocracia e a ascensão da nova classe possidente da burguesia.

Nascido em 1916 e desaparecido em 1976, os seus filmes falam de um tempo de mudança das classes sociais sobretudo da Itália e sobretudo da Sicília do séc. XIX até à 1ª metade do séc. XX, caracterizando-as, algumas estando a desaparecer e outras a emergir, falando de um tempo em que a maioria dos governos foram apelidados de nazistas e fascistas, de consequências de que “bem me lembro muito bem”, mesmo vivendo em país sem guerra, mas de que conheci consequência e sinais, como se tivesse atravessado 100 anos de história e acontecimentos que “formataram” o que sou hoje, porque sou, também, património do País em que nasci, e “memória”, com maior ou menor lucidez, mas creio bem que só se sabe falar do que se “vive” porque teóricos e filósofos somos todos, tanto os que fizeram avançar o mundo como os que o travam.


As cidades são elas também, organismos que falam da história dos homens
E as cidades são elas também, organismos que falam da história dos homens, de todos os homens que as destroem ou abandonam, ou acarinham como “coisa sua”.

Ao longo da 1.ª metade do séc. XX, tempo decorrido após o extraordinário fenómeno da Era da Industrialização, o conceito de cidade mudaria radicalmente levando à construção, por toda a Europa, de cidades diferentes das até aí desenvolvidas, denominadas “cidades novas”, e criadas, sobretudo, nas proximidades das mais antigas, devido ao afluxo das populações agrárias que demandavam trabalho nas fábricas e que provocaram grande revolução e um novo rearranjo de construir e habitar, bem como no nascimento de novo e moderno conceito de ordenamento urbano e da nova classe de trabalhadores, o proletariado; pois que, até aí, a cidade se organizava agarrada ao lugar e crescia ao crescerem as famílias, inspirada sempre nos factores de natureza que os lugares ditavam.

Desta situação é paradigma a maioria dos aglomerados urbanos históricos e a relíquia dos denominados “centros históricos”, muitos deles hoje ou já classificados como Património UNESCO, ou rejuvenescendo-se para adquirir tal honraria de poder confirmar a sua dimensão de património do mundo e da história dos homens e das suas artes, sendo que no entanto o património UNESCO de Portugal, como foi noticiado na SIC à uma da manhã de 3 de Janeiro, já de 2009, está 1/3 dele em ruína, tendo no entanto, nas palavras de Teresa Caeiro do CDS/PP, sido afirmado pelo ministro da Cultura, que seria elaborada a Lei de Bases do Património até Abril 2008, o que não foi cumprido.

Deste património Unesco em grande degradação faz parte o Convento de Cristo em Tomar, o espantosamente belo Mosteiro da Batalha que se degrada com a poluição automóvel, por ter sido construída estrada quase em cima da sua porta, o que é deprimente, e o mesmo sucede aos Jerónimos onde se permite estacionamento de autocarros de turismo à porta (porque o turista “não pode andar a pé 30 m”), mas anda-se muito mais em qualquer catedral da Europa, muitas das quais conheço; da mesma forma que na Sé de Lisboa (monumento nacional desde 1907) vai caindo o telhado a ponto de no interior entrar água da chuva e cocó de pombos e ter as paredes do interior e exterior degradadas e sujas – como foi afirmado dia 5 de Janeiro 2009 e depois de entrevista a visitantes estrangeiros que lamentaram que não se cuidasse e ao menos lavassem as paredes de tanto “património do mundo”.

País tão rico – país tão pobre – sem orgulho e apátrida.


Fig. 06: País sem história e País com tanta História


País privado da sua história só pode entrar em degradação
Não me preocupa minimamente a degradação económica senão na medida em que é já uma medida da sua fase mais do que envelhecimento, mas de degradação até moral, à qual só se pode seguir a degradação social e a humana.

E por mais ricos que haja e mais ricos que sejam, não são o País, não o fizeram nem farão – são precisos todos para se ser País – de outra maneira, forçosamente e nada afinal se aprendeu com o 25 de Abril que “ainda não chegou” – abortou.

Nada explica nem pode explicar, deixar cair as CIDADES na sua habitação nem nos seus monumentos porque é património irreversível e a sua perda não é apenas de escala nacional mas mesmo mundial.

Ao perderem-se as cidades, os cidadãos empobrecem e entristecem, porque somos orgulhosos do nosso património comum e dele falamos; e, pelo contrário, nenhum orgulho temos ao afirmarmos que moramos em “certo bairro” que nos desclassifica social e humanamente.

No entanto, de que vale hoje tanto a palavra oral como escrita, sem ou com forma de lei?

Houve tempos em que havia maus ou bons, planos de desenvolvimento quinquenais e cumpriam-se.

O País livre e democrático há 34 anos tem muitos planos mas não tem nenhum Plano de Desenvolvimento que abranja todas as áreas produtivas, educativas e culturais, sendo em cada governo, e em cada ocasião, o plano ao sabor do vento e do momento, quantas vezes contraditórios e, sobretudo, em manta de retalhos que não fazem evoluir nada em sector nenhum; como se constata tendo de aluno exemplar da UE passado a ser o mais pobre da mesma união, que desune, separa e guetiza e que, se tivesse moral, também não estaria como está desde 2008 pois que “pelo andar da carruagem logo se vê quem vai nela”.

É um espírito português, que já vem de muito longe, em que quem sai fecha a porta, e quem entra deita fora o que ficou para trás e volta a fazer de novo (pior do que o anterior), e assim sucessivamente num caminho sem regresso; mas se assim não acontecesse territórios e populações evoluiriam e, por muito pouco que fosse, enriqueceriam, ou, pelo menos, não empobreceriam mais e mais.


Que Plano de Desenvolvimento para o País?
Com a independência das colónias Portugal ficou um pouco desajeitado, e com os habituais complexos de culpa ignorou parceiros privilegiados para outra forma de estar no mesmo mundo, mas deixou que outros, bem mais desumanos, lhe tomassem o lugar e no entanto com a sua integração na UE poderia ter sido a oportunidade histórica de mudar de Plano de Desenvolvimento e acertar passo consigo mesmo e com a Europa e a modernidade.

É uma espécie de “Benfica”, que perde, mas ganha “moralmente”.

Para tanto nem se sabe quantos biliões de biliões de subsídios recebeu para apoiar todos os sectores da economia mas que desbaratou e, entre as rubricas subsidiadas, constava a “valorização da não de obra” (que deu o 1º grande escândalo de dinheiros que não foram utilizados para o fim em vista), a par da modernização não apenas da frota de pescas mas também da maquinaria da indústria e processos de fabrico e transformação.

Aconteceu apenas que as formas artesanais até aí existentes foram malbaratadas, como sendo de “país atrasado”, mas a modernidade não chegou por mais que muita evolução tenha sucedido, mas mais pela liberdade de cada um trabalhar e contribuir com o seu saber e a sua empresa, mas ficou-se excessivamente aquém do que poderia e deveria ter sido, e simplesmente se empobreceu, e já nada pode ser escondido nem sujeito a “malabarismos”, pois que existe, hoje, realmente, uma recessão de que nada se sabe quanto durará e o que e a quem afectará, e como.

O Estado que era “o que não falhava ou pelo menos se sabia com o que se podia contar”, hoje reduziu a sua acção não apenas a projectos megalómanos ou projectos fantasmas, mas enquanto, antes, havia acção e poucas palavras, hoje tudo se resume à palavra de não importa quem e sobretudo à ” imagem” que, entretanto, vale mais do que mil palavras como se se estivesse num beco sem saída.

É certo que entretanto o mundo converteu-se à alta velocidade e chamam-lhe global e sem fronteiras e, então, não se percorre o País mas “segue-se” Europa fora, mas quando Espanha faz greve de camionistas ou outras, Portugal já nem pode “sair pelo mar”, sendo que a solidariedade ibérica só existiu na crise do petróleo em que os TIR pararam na Europa, porque os afectava também, mas não por solidariedade entre “pares”, porque a solidariedade não existe, é pura competição entre os países da união.

Os homens não são ainda solidários e certamente que nem com o crash bolsista nem com as recessões económicas anunciadas.

A UE não é, ainda, UNIÃO e se calhar nunca será.

Mas então que Plano de Desenvolvimento para Portugal e para a Europa?

Acabou a Europa do Ferro e do Aço.

Acabou a Europa económica.

Onde está a Europa política? E o que significará o Tratado de Lisboa mal atamancado e sem compreensão para todos os cidadãos, como requer a democracia?

E com uma Europa em que cada país adere à moeda única e outros não e outros ainda não assinaram o Tratado como se nada estivesse definido em favor da União mas apenas dos que têm mais força económica que lhes confere mais força política: onde está a Europa da Moral e da Equidade?

É apenas uma situação de conveniência de uns que precisam de almofada de outros relativamente ao mundo entretanto globalizado? E que se tornou tão cruel como era antes, agora acrescentado pela “quantidade” e facilidade de circulação, que tornou tudo mais incerto e inseguro porque as “vacas” loucas” são realidade, como outras em que nem sequer há “fronteiras” para as controlar.


(1) Com o início da exploração das minhas de carvão e a descoberta da máquina a vapor estava aberta a descoberta do comboio mais uma vez iniciada em Inglaterra onde foi construída a primeira linha férrea em 1852 que bem cedo passou para Portugal tendo sido inaugurada em 28 Outubro 1856 o primeiro troço entre Stª Apolónia até Carregado numa extensão de 40 km e demorando 40 minutos e sendo que as elites intelectuais da 2ª metade do séc. XIX perante a velha economia discutiam como modernizar o país.


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a início de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho

Nota importante: esta série de artigos será dividida em três edições semanais, que poderão não ser sequenciais.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 10 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 12 de Janeiro de 2009.

domingo, março 09, 2008

186 - Paisagens II: algumas notas sobre a árvore na cidade - Infohabitar 186

 - Infohabitar 186


Algumas notas sobre a árvore na cidade

Texto de António Baptista Coelho sobre palestra de Maria Celeste Ramos.

A propósito de um relato informal do que nos disse a Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos na sua excelente palestra no Auditório 2 do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa em 14 de Fevereiro de 2008, apontam-se muitas ideias referidas pela palestrante e desenvolvem-se, um pouco, algumas linhas de pensamento sobre a árvore e a cidade.
De forma alguma se faz aqui um apontamento sistemático da muito rica intervenção de Celeste Ramos, apontam-se apenas algumas das ideias expostas, que mútua e minimamente se estruturam e sobre as quais se desenvolvem alguns comentários pessoais. E desde já se afirma que não se está aqui a esgotar o tema da relação entre a árvore e a cidade, previsto para esta sequência de artigos sobre a paisagem.

Falemos um pouco da cidade para começar.

A dimensão da cidade já não é aquela pela qual se optou ao longo de milénios e neste jogo relativo à dimensão da cidade há aspectos fundamentais a considerar, entre os quais um dos mais importantes é que a cidade é tanto um espaço físico como um espaço emocional – e, por vezes, e, hoje em dia, muitas vezes, há um grande esquecimento da dimensão emocional da cidade e das suas partes e elementos constituintes. De certa forma já nos aproximámos desta matéria no primeiro artigo desta série, quando se referiu a importância da paisagem urbana e quando se tentou oferecer uma definição de paisagem, muito ampla e afectiva.

É importante lembrar aqui que, em séculos passados, para além de se tratar de outros tempos e outras realidades, nas quais havia realmente graves problemas em termos de pobreza e de qualidade de vida, e tal como apontou Celeste Ramos, as cidades tinham uma dimensão mais palpável, mais sentimental, mais física. E não será possível recuperar, hoje, um pouco dessa dimensão? Reaprendendo como fazer ruas e praças para as pessoas e pondo de lado, para sempre, o urbanismo feito para ser bonito nos desenhos e para ser útil ao veículo e a uma sociedade que, afinal, nem será aquela que mais nos interessa e que é a mais adequada a um ambiente regenerado?


Fig. 01: Alfama

E desenhar agora, desta maneira, formalizando-se aquilo que muitas vezes se fez de forma relativamente espontânea, mas também, muitas vezes, de forma exemplarmente objectivada e concretizada, será, como indicou a palestrante: desenhar com a natureza, organicamente; e/ou desenhar com uma racionalidade esclarecida. Empenhando-nos, sempre, na nobre e exigente tarefa de criar os ambientes da casa e da cidade.

Um outro aspecto a considerar é que a cidade é também o espaço dos serviços, dos serviços “ao pé da porta” e da rica conjugação de uma grande diversidade de serviços, mas Celeste Ramos defende que até isso está a desaparecer, substituído pela especialização e concentração excessivas. E esta noção de cidade de serviços ao pé da porta, de cidade que se habita entre a casa de cada um e a rua que é de todos, é uma noção de plenitude urbana que se integra bem com os aspectos de ligação à natureza que nos são proporcionados pelo verde urbano, pelo jardim urbano e especificamente pela árvore urbana, que é afinal um pequeno jardim em altura. E teremos, assim, idealmente, as vantagens da civilização, sem perder parte das vantagens da natureza.

Para além destas questões ligadas à concepção e à cidade desenhada, a cidade é também, como referiu Celeste Ramos, o espaço do sonho, o que obriga a ser um espaço condigno e com relações com a imaginação, a criatividade e a diversidade e isto terá sempre a ver com o verde urbano.

Afinal, e tal como referiu a palestrante, um dos elementos da cidade é o conforto visual, e se ele existir sentimos paz, quando percorremos a cidade, e há também os equilíbrios nas alturas e nas cores dos elementos dos cenários urbanos; e se assim acontecer sentimo-nos bem e ficamos mais disponíveis para a cidade e as outras pessoas que também a habitam, e em tudo isto, e tal como afirma Celeste Ramos, o que mais nos atrai e o que mais nos faz sair e flanar na cidade é o belo, e o belo tem a ver com o direito ao belo.

E assim se vai conformando e vitalizando uma cidade mais próxima de nós, humanos, próxima, por proximidade física e por identidade e atractividade, uma cidade que nos distrai verdadeiramente e que nos emociona e, consequentemente, nos convence a sair e a usar os seus espaços e que nos diz, em todos eles, que o que ali nos oferece é um verdadeiro suplemento de alma e de funções ao que temos bem guardado e ali bem à mão nos nossos mundos domésticos.


Fig. 02: Lisboa, da Graça ao Castelo

Naturalmente que tudo isto não se faz apenas com o verde urbano, mas faz-se sempre considerando e incluindo a natureza e a paisagem natural, de forma integrada com e na paisagem urbana, mesmo quando numa relação paralela ou de contraponto.

Este é o caminho certo, mas há muitos caminhos errados, caminhos que Celeste Ramos foi referindo e sublinhando numa sequência de situações negativas que apontou, referidas a um bairro de Lisboa, onde mora, mas que podem ser infelizmente generalizadas a outros bairros de Lisboa e de outras cidades. E nestas situações destacam-se os crime da gradual impermeabilização dos espaços urbanos, do abate dos pequenos bosques que ainda resistem seja em velhos jardins seja no miolo dos velhos quarteirões, da falta de respeito pelas grande árvores que deviam ser preservadas, e da gradual elevação da altura do edificado que reduz a amenidade ambiental das ruas e que afasta cada vez mais as pessoas dessas ruas; e depois, depois, é a redução do conforto ambiental exterior, é a redução da biodiversidade, é a descaracterização de bairros e vizinhanças, é a redução do interesse funcional e visual dos espaços urbanos e é a contribuição para a desvitalização destes espaços. E Celeste Ramos resume tudo isto ao dizer “que já não há vida na minha rua”.

E não tenhamos ilusões sobre o protagonismo da árvore urbana em todas estas matérias, pois com apontou a palestrante a árvore dá: beleza, natureza viva na cidade, escala, variabilidade e diversidade de cenários e equilíbrio ambiental ao longo do ano. Pois a árvore é um verdadeiro e concentrado micro-jardim vertical.

Disse Celeste Ramos que na cidade antiga não eram precisas árvores, porque a natureza, o rio – no caso de Lisboa e de tantas outras cidades – e as próprias árvores de bosques e de hortas estavam logo ali, pois o campo estava logo ali, e, além disso, não havia poluição urbana significativa que, por exemplo, libertasse CO2, e exigisse uma intervenção específica. Mas hoje em dia, o campo está bem longe, e há muita poluição; logo, o verde urbano e especificamente as árvores são também necessárias como elemento de regeneração ambiental.

E note-se que o verde urbano e especificamente a árvore urbana é elemento positivo não apenas para o clima físico, seja no Verão seja no Inverno, mas também para o clima emocional e mesmo para o clima estético de um dado bairro de uma dada cidade, assim o sublinhou Celeste Ramos; e note-se aqui a importância de tais facetas qualitativas na nossa sociedade da pressa e da descaracterização.

A árvore na cidade foi ainda referida como um elemento urbano que ou se associa à estrutura/organização da cidade, sendo a sua presença imperativa, ou, é de algum modo descartado por determinadas soluções e ambientes específicos. Mas defende-se que, em qualquer dos casos, o verde urbano tem de estabelecer um diálogo continuado com o edificado urbano; numa relação contínuo edificado/contínuo verde, que irá variar, caso a caso, zona a zona, que poderá caracterizar-se em determinados locais por uma quase ausência de verde urbano, mas que, mesmo em tais locais, assim se criarão ambientes em positivo contraponto com a referida relação de continuidade edificado/verde, muito variável e rica em termos de aspecto e de caracterização.


Fig. 03: Campo de Ourique

Este será, provavelmente, um dos principais meios de assegurar a fundamental relação afectiva e efectiva com cada lugar. Uma relação que se ligará à essência primordial que em tudo existe, tal como defendeu a palestrante, que marca todas as bases de conhecimento, e assim também devemos considerar que há uma essência primordial no habitar e no habitar a cidade e parte desta essência liga-se à presença ou ausência premeditadas de árvores nas ruas e praças citadinas.

Na discussão que se seguiu falou-se, ainda, do “subúrbio do subúrbio”, das estradas que foram plataformas de paisagens e hoje são amostras de pequenos horrores, falou-se, assim, de uma macrocidade descaracterizada e inimiga, que destruiu a paisagem ampla em que cresceu e que não tem “espaço” para o verde urbano no seu âmago, uma cidade da pressa e do feio, afinal uma cidade bem diferente daquela onde um qualquer pequeno jardim, bem cuidado mas sem vaidades, pode ser um sítio sobre o qual se diga: “aqui não há tempo, só há calma e beleza”, assim o disse Celeste Ramos.

E imaginemos, apenas, o bem que fará podermo-nos refugiar, por momentos muito longos, em tais ambientes, e consideremos imaginemos a simples possibilidade de poder ter também alguns simples jardins de árvores ao longo das ruas, árvores que, tal como apontou Celeste Ramos, nos dizem: “sou natureza, sou abrigo, dou sombra, sou diferença, não tapo as fachadas, sou beleza.”

A propósito de uma palestra falámos um pouco da cidade, da árvore e da árvore na cidade. Tal como sublinhámos no princípio do texto desenvolvemos apenas algumas notas breves sobre um tema apaixonante e hoje crucial nas tantas tristes cidades que temos e nas megacidades que teremos, e, portanto um tema a que se voltará várias vezes, e talvez sob perspectivas específicas, nesta série de artigos sobre as paisagens, pois as árvores são quase sempre as protagonistas da paisagem natural e muitas vezes partilham protagonismo com os edifícios na paisagem urbana, não lhes retirando o papel principal e muitas vezes valorizando-o, uma capacidade que dota a árvore urbana com uma capacidade de extrema utilidade quando pensamos em acções de regeneração e melhoria amplas do tecido urbano.

É ainda muito interessante aprofundar a importância do papel da árvore na cidade, afinal o sítio dos edifícios, mas árvores e edifícios talvez tenham pontos comuns, e muitas vezes as cidades sucederam aos bosques nas orlas das florestas e nas margens de rios e de mares, e, além de tudo isto, que longe nos levaria, é ainda importante referir, desde já, que tal como disse Levi-Srauss: “É lícito comparar, e não de maneira metafórica (...), uma cidade com uma sinfonia ou com um poema; são objectos com a mesma natureza. Possivelmente mais pormenorizada(preciosa), ainda, a cidade situa-se na confluência da natureza e do artifício (...). É tanto objecto natural, como sujeito cultural; indivíduo e grupo; vivida e sonhada; a coisa humana por excelência.”
O sublinhado, relativo a estar a cidade na “confluência da natureza e do artifício” foi nosso e a citação foi retirada do belíssimo artigo de Rafel Toriz, intitulado “Cartografias: Las ciudades – el lenguaje – y la voz que las habita”, um artigo editado no excelente site “Antroposmoderno”, recomendando-se vivamente o artigo e o site.


Fig. 04: Graça

E sobre uma tal confluência citadina entre natureza e artifício parece ser, desde já, fundamental apontar que se ela existe então ela tem de ter presença efectiva e afectiva, e se não existir então essa cidade não é a cidade dos homens, não é a cidade onde nos podemos rever e que nos apoia e motiva todos os dias, desde os aspectos de pormenor aos de orientação, pois, como já se disse atrás, mesmo quando na cidade não há pontualmente verde urbano pode e deve haver uma forte presença da natureza na relação com a paisagem e com o ambiente do local (como acontece, por exemplo, nas ruas da Baixa de Lisboa abertas ao Tejo) e pode e deve haver um excelente contraponto ou com partes da cidade caracterizadamente naturalizadas ou com margens da cidade muito marcadas pela natureza e numa tal caracterização a árvore é realmente protagonista, pois além de constituir um verdadeiro jardim vertical e concentrado ela de certa forma é um edifício vivo que boa companhia faz aos de pedra e cal pois suaviza-os e dá-lhes escala, isto para além de habitar verdadeiramente o espaço público e aí ela é de certo modo parceira e amiga do homem.

E já agora acabemos esta primeira e pequena reflexão sobre uma cidade naturalizada e habitada pelas árvores, com as primeiras palavras de Rafel Toriz no referido artigo:
“É uma certeza: estamos condenados a viver nas cidades, a desprezá-las e a adorá-las com horror e simpatia.(...)”

Sem dúvida que as árvores poderão ajudar-nos a desprezar muito menos e a adorar muito mais as nossas cidades, mas para isso há que pensar, objectivamente, em tudo aquilo que podemos e devemos fazer para melhorar as suas respectivas condições de instalação e tratamento, pois as árvores não são adereços citadinos, são sim elementos vivos e protagonistas urbanos de pleno direito, que muito nos darão, bastando para isso serem apenas minimamente cuidadas e respeitadas; e se passarmos destes mínimo e entrarmos na arte da paisagem, então ficaremos e ficamos deslumbrados com o verdadeiro e caloroso espectáculo de certas árvores na cidade.

Nota:
http://www.antroposmoderno.com/

Texto desenvolvido a partir da palestra de Maria Celeste Ramos, na Universidade Nova de Lisboa em 14 de Fevereiro de 2008, concluído em 1 de Março de 2008 na Encarnação – Olivais Norte, e ilustrado posteriormente.

Editado em de Março, por José Baptista Coelho

domingo, fevereiro 24, 2008

184 - Paisagem I: sobre a natureza da paisagem - Infohabitar 184

 - Infohabitar 184

Paisagem I: sobre a natureza da paisagem

Artigo de António Baptista Coelho


Vamos começar este primeiro número da série sobre paisagens com uma pergunta, e iremos terminá-lo com uma certeza.

“O que é uma paisagem? Uma noção mal dominada da qual o conteúdo varia com os modos de apreensão; um espaço sem escala nem geografia precisas que o homem compõe e recompõe segundo s seus meios e as suas aspirações; um local, um sítio remarcável único pela sua beleza e majestade.

A paisagem pode também compreender-se como uma arquitectura susceptível de ser racionalizada pois, como todas as arquitecturas, aquela dos paisagistas é, simultaneamente, ciência, técnica e arte …”

Foram palavras de Marc Emery (1) no editorial do n.º218 da revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , designada com o título Paysages, e o editorial intitula-se “Uma certa ideia de paisagem”, voltaremos a esta pergunta, assim como ficaremos, no final deste artigo com a excelente resposta de Alexandre Chemetoff, a uma ideia de paisagem, mas desde já se faz um esclarecimento, é que quando aqui falarmos de paisagistas nos referimos a todos aqueles que ajudam a fazer paisagens.



Fig. 01 – paisagem da Beira Alta

Sobre a questão do que é uma paisagem diz-nos Burle Marx (2) que há “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída”, e avança, ainda, sobre a natureza e a importância da paisagem afirmando que “além das implicações decorrentes das exigências económicas, não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia a sua razão de ser.” Uma afirmação crucial de Burle Marx, um dos grandes paisagistas do Século XX e um verdadeiro homem de renascimentos e de cultura, que aliou a concepção e a acção directa à reflexão sobre estas matérias.

Burle Marx deixa-nos assim o caminho estruturador neste nosso avanço sobre a natureza da paisagem ao apontar duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída, mas iremos aqui trocar, um pouco, as cartas pensando também, quer sobre como amparar a inelutável humanização de grandes partes de paisagem natural, quer sobre como naturalizar e suavizar a paisagem construída.

Nesta série de artigos, que poderão incluir, espera-se, participações de outros autores, iremos abordar alguns aspectos essenciais numa perspectiva de uma paisagem que se quer recuperada e regenerada e verdadeiramente qualificada pelo e para o homem. Muito há a fazer, grande é o desafio, mas grande também é o prémio que poderemos vir a ganhar com cidades formal e funcionalmente regeneradas em si próprias e na sua integração na natureza e no ambiente natural.



Fig. 02: Alfama, Lisboa

Nestas matérias da paisagem, o desenho da paisagem urbana ou natural é um elemento fundamental.

Sobre o desenho da paisagem urbana nunca é demais lembrar os trabalhos de Cullen e de Lynch (1960) e e sua defesa de uma cidade que tenha uma forte “imagibilidade”, (3) pois “quem sabe se tenha falado muito de forma e pouco de forma na cidade, daquela forma que vai da imagem urbana à imagem doméstica”, tal como defende Gonçalo Byrne (2000) (4):

Já há alguns anos Cullen e Lynch trataram aprofundadamente o tema do desenho da paisagem urbana, Kevin Lynch, repetida e diversificamente, numa perspectiva mais estruturada, que fez a ponte com o desenho urbano que vai até ao desenho do bairro integrado na cidade, assim como vai até aos tempos que se podem e devem expressar nas paisagens urbanas, enquanto Gordon Cullen, essencialmente num magistral pequeno tratado de como ler a paisagem urbana do pormenor (5), reinventou o desenho da imagem urbana verdadeiramente considerado na sua verdadeira importância urbana e de cidade habitada e portanto marcada pelo homem e pelas obras e actividades humanas, uma cidade percorrida a pé, fruída nas suas múltiplas dimensões e assim conhecida nos seus meandros e nas suas múltiplas e ricas variantes.



Fig. 03: azinhaga em Tavira

Lynch estabeleceu bases de estruturação, Cullen preencheu o campo de leitura do tecido urbano com múltiplas, lógicas e sensoriais referências de leitura e de vivência directa. E, já agora, há nesta leitura de proximidade tão cara a Gordon Cullen, uma leitura feita à escala do peão, uma grande e renovada actualidade nas cidades de hoje, que visam tantos critérios de sustentabilidade cívica e ambiental.

E, assim, no caminhar encontramos o “jogo” dos objectos urbanos, tão caro a Cullen e tão afectivo e efectivo, em que, tal como refere Vera Pallamin “cada um dos objetos é tudo o que deles os outros «vêem», pois coexistem num sistema... Ver um objeto, para Merleau-Ponty é vir a habitá-lo e, a partir dele, captar as coisas sob as faces que se lhe apresentam” (6).

Sobre a paisagem natural não falaremos aqui apenas de jardins, mas também falaremos de jardins na cidade, apontando a sua enorme importância em termos de um maior equilíbrio ambiental com reflexos numa cidade que tem de ser marcada por oásis de agradabilidade moderadores do ambiente urbano, mas também em termos de um papel próprio do jardim urbano como local de fuga positiva, de sonho e de aproximação íntima e pessoal à natureza que sempre está em nós, ainda que por vezes longe na memória, mas também local e ambiente de contraponto que nos faça, até, apreciar melhor o meio urbano intenso.

Nesta sequência de artigos falaremos de paisagem urbana e natural, de casos de jardins urbanos que são oásis de natureza numa cidade agreste, oásis inexplicavelmente irreplicados, e falaremos do natural na cidade e talvez da cidade no natural, abordando neste caso um pouco de tipologia do edificado, pois há, realmente, soluções de habitar e urbanas que se caracterizam por assinaláveis capacidades de integração de elementos naturais, enquanto que há casos, quase opostos, de grande dificuldade de integração mútua entre as referidas “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída”.

E não faz sentido qualquer tipo de antagonismo ou fundamentalismo, nem isso é natural, nem nunca dará bom resultado, ma reconhece-se que exige adequada e exigente capacidade de desenho/concepção, pois correm-se riscos seja de faltas, seja de excessos.




Fig. 04: Amoreiras, Lisboa

Outra coisa que aqui se fará, nesta pequena série sobre paisagens, é citar alguns autores quando falam de paisagens, mais publicas ou mais íntimas e pessoais, mais urbanas ou mais amplas e rurais ou marinhas, e tentar ilustrar essas palavras.

E outra coisa que se fará é mostrar algumas imagens de paisagens e comentá-las com rigor e com sentimento, pois rigor e sentimento fazem parte das paisagens do homem e têm de ser aliados numa paisagem harmonizada.

Será com um duplo exemplo destes que se concluirá este primeiro artigo da série.

Mas antes de um tal remate apetece dizer que esta preocupação com a paisagem e designadamente com a paisagem urbana, num sentido lato e que, portanto, tem de incluir a natureza na cidade, é hoje em dia uma preocupação fundamental para que se possa reatribuir verdadeira atractividade às nossas cidades, uma atractividade culturalmente consistente e sóbria, mas que também possa ser sentida por qualquer cidadão como uma atractividade sua, pois a cidade é provavelmente a mais rica construção do homem e nela ele tem de se rever todos os dias e em vários importantes momentos de cada dia.



Fig. 05: Zona Leste do Parque das Nações, Lisboa

Vamos então dar uma primeira resposta à pergunta feita, no início do artigo, sobre o que é uma paisagem:

“A paisagem não é uma arte. A paisagem não é uma teoria. A paisagem não é uma técnica. Não há paisagem, há paisagens, há jardins, há parques, há pracetas, há pátios, há avenidas com árvores, há praças, há colinas, há vinhas e campos de lavanda.

Há a casa onde nascemos e a língua que falamos. Há uma cultura ao mesmo tempo frágil e tenaz … aquela das paisagens.”


Palavras sábias de um outro grande projectista de paisagens, Alexandre Chemetoff (7).
E vai-se concluir este primeiro artigo sobre as paisagens, um artigo um pouco e premeditadamente caótico sobre um tema tão importante nas cidades de hoje, desde as pequenas cidades ou semi-cidades meio adormecidas, que precisam de vida e de carácter, às megacidades tantas vezes confusas que precisam de alguma paz e sossego e de urgentes elementos de reconciliação com a escala humana e com a natureza.

Falámos um pouco da natureza da paisagem, em geral, e especificamente de alguns aspectos de paisagem urbana e de paisagem natural humanizada, e fecha-se este exercício com a ideia de que mais do que paisagem há paisagens e que estas são muito decididamente paisagens afectivas, sentimentais, radicadas nas memórias e na(s) cultura(s).

Sendo assim temos realmente um verdadeiro “bico de obra” à nossa frente, para tentarmos uma certa refundação do papel e da importância das paisagens numa sociedade que favorece, quase exclusivamente, as avaliações racionais, materialistas e objectivas, todas elas muito pouco adequadas a um tal desígnio, pois: “A paisagem não é uma arte. A paisagem não é uma teoria. A paisagem não é uma técnica.”
E no entanto é tudo isso, e mais, porque:

“... Na cidade tranquila, há um jardim que só os namorados sabem” – Daniel Filipe, em “Discurso sobre a cidade”



Fig. 06: um pormenor do Jardim Botânico na Ajuda, em Lisboa.

E na relação directa com esta imagem e usando a memória da vivência do respectivo sítio e da respectiva ocasião em que este sítio foi vivido, pode-se afirmar que há realmente espaços de jardins urbanos onde, em certas horas do dia, quando conseguimos estar apenas nós e a natureza que ali está, encontramos algo cuja definição é difícil, mas que tem facetas de alegria profunda e calma, de relação com tudo o que vive e é visível e nos rodeia, e tem também aspectos de verdadeira paragem aparente do próprio tempo no sentido de conseguirmos viver plenamente todos aqueles ricos e longos segundos, que acabam por ser muito mais do que instantes; e não é só a natureza viva que nos toca, é também o sentido da beleza da natureza humanizada e ordenada que nos satisfaz intimamente.

Talvez nestes caminhos de verdadeira satisfação natural e estética possamos encontrar boas pistas para a crucial melhoria das nossas cidades e outras paisagens, e sem dúvida que são caminhos fundamentais na batalha urgente que há que começar a ganhar pela re-humanização do nosso grande espaço de habitar.

Notas:

(1) Revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , n.º 218, Paysages, Dezembro 1981.
(2) Jacques Leenhardt, org., “Nos Jardins de Burle Marx”, 1994.
(3) Kevin Lynch, “L'Image de la Cite”, 1976 (1960), p.12.
(4) Ricardo Carvalho, “Estou cansado de falar de forma – entrevista com Gonçalo Byrne”, Público, 16 Agosto 2000.
(5) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971). (6) Vera Maria Pallamin, “Forma e percepção – Considerações a partir de Maurice Merleau-Ponty”, 1996, (p.34).
(7) Revista L’ Architecture D’ Aujourd’hui , n.º 218, Paysages, Dezembro 1981.